sexta-feira, 30 de abril de 2010

MAIO MADURO MAIO

Amanhã começa Maio.

Maio me molhou, Maio me secou.

O 5º mês do ano tem 31 dias.

Durante o mês o dia aumenta 52m.

No dia 1 o sol nasce às 05h e 40 m o Ocaso ocorrerá às 19h e 29 m.

No dia 31 o sol nasce às 05 h e 14 m e o Ocaso às 20h e 00m.

As mulheres nascidas em Maio são Formosas, meigas e sensíveis; têm bom coração, bons sentimentos e são finas sobre todos os pontos de vista. Pouco enérgicas conseguem, no entanto, realizar as suas ocupações.

Os homens nascidos em Maio são alegres, afectuosos e sentimentais. Criam amizades com facilidade e são fieis pesar da sua natural inconstância. Com bom coração gostam de ser prestáveis. Amam as artes e a literatura. Ardentes e presunçosos, com uma certa habilidade conseguem levar a água ao seu moinho.

Nas hortas e jardins, Maio é um mês de permanente actividade.

Semeiam-se abóboras, agriões, aipos, alfaces, beringelas, beterraba, bróculos, cenouras, couves, ervilhas, espinafres, feijões, melancia, melão de Inverno, pepino, pimentos, tomate.

No jardim semeiam-se cravos, manjericos, papoulas.

Cautela com os caracóis, lesmas e lagartas.

Devem castrar-se os bezerros, porcos e cordeiros. Tosquiar as ovelhas. Maio é o melhor mês para a criação de coelhos.

Incensos: eucalipto, pinho e cravo

Pedra: esmeralda

Metal: cobre

Cor: verde
.
Maio é o mês de Maria.

O ano passado, no dia 21 de Maio, morria João Bénard da Costa.

Numa das suas crónicas no “Público”, publicada no dia 2 de Maio de 2003 escrveu:

“Desejo-vos um maravilhoso mês de Maio”,

Das rosas também se diz que Maio é o mês. 

Lembra-o Manuel a abrir a “Praça da Canção”:

"Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.(…)
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?(…)
Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:
- Mãe!
A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.
No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.”

quinta-feira, 29 de abril de 2010

DESTA VEZ É QUE É DE VEZ

Sempre que o 25 de Abril chega esta é a canção que nunca deixo de ouvir, que nunca deixo de cantar. Não sei explicar muito bem mas estas coisas também não se explicam.
"Desta Vez é De Vez" é a minha canção do 25 de Abril, ainda no tempo em que se falava num país novo.
Não foi bem assim!
Os versos são de José Niza e a música é uma marcha militar de Russell.

"O povo é quem mais ordena
O povo é quem mais trabalha
Desta vez, é que é de vez
Agora é que já não falha

Socilaismo português
Revolução num país novo
Liberdade para viver
Pelo pão. pela paz, pelo povo

Vamos todos trabalhar
Vamos todos sem excepção
Cantar! Viver! Lutar!
E fazer a revolução

No mês de Abril
Vencemos nós
E agora todod o mundo
Vai ouvir a nossa voz!

No mês de Maio
O sol virá
A vitória em Portugal
É do povo e do MFA"

FEIRA DO LIVRO

No Parque Eduardo VII, abre hoje e encerrará a 16 de Maio, a 80.ª Feira do Livro.
Este ano haverá uma “Hora H" , que decorre de segunda a quinta-feira, entre as 22,30 e as 23,30 horas, durante a qual os visitantes poderão comprar com 50% de desconto, livros que durante 18 meses tenham mantido o preço fixo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

POSTAIS SEM SELO



O Sol rutila, escorre-se como mel pelos telhados, polvilha gloriosamente o Tejo, lago sereno, com velas brancas e vermelhas, de longe indolentes, distantes como nostalgia.

José Rodrigues Migueis em
A Escola do Paraíso

terça-feira, 27 de abril de 2010

AVISO À NAVEGAÇÃO

Na passada quarta-feira, pela calada da noite, um grupo terrorista auto-denominado W32/Wercorl.a, perpetrou um violento atentado contra este blogue.
As forças locais não foram suficientes para suster os ataques, pelo que houve necessidade de chamar as tropas localizadas em Cipriano Simões, que prontamente dominaram o invasor, mas não impediram que pontos chaves fossem destruídos.
As pessoas costumam dizer estamos em democracia, estamos nisto, estamos naquilo, e aos poucos essas legalidades que as pessoas dizem, estão a ser repostas. e, passo a passo, o blogue retomará a sua vida normal.
Cabe agradecer as mensagens de repúdio e de solidariedade que temos vindo a receber por este traiçoeiro e vil atentado.
Já que esta gente tem que dar azo à maldade que lhe corre nas veias, que ao menos atacassem quem não paga os impostos ou aqueles, muitos, que apenas pensam em direitos, esquecendo que, também, há deveres.
Abaixo os Vírus e quem os apoiar!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O DIA 25 DE ABRIL


GUIDA DA MÚSICA DP 050/2
Edição conjunta Seara Nova e Sassetti
Reportagem: Adelino Gomes, Paulo Coelho, Pedro Laranjeira
Narração: João Paulo Guerra
Montagem: Pedro Laranjeira
Capa: Acácio Santos

Este disco é um documento histórico.

O pano de fundo, desde duplo álbum, é a reportagem que Adelino Gomes, Paulo Coelho e Pedro Laranjeira realizaram, no dia 25 de Abril de 1974, enquanto decorria o cerco, pelas tropas do capitão Salgueiro Maia, ao quartel do Carmo.

Um tempo em que não havia telemóveis nem directos televisivos.

Um reportagem registada directamente para um gravador, ao sabor dos múltiplos e constantes acontecimentos, que marcaram aquele dia.

Adelino Gomes refere, várias vezes, a falta de informação com que se debate, mas regista tudo o que vê e ouve, e fá-lo com a emoção de ver arredados para o lado quarenta e oito anos de ditadura, se bem que no momento em que ele faz a reportagem nada fosse assim tão claro.

As pessoas vão entrando pelo Terreiro do Paço. Vê-se que as pessoas aderem a esta situação como uma festa, assim como uma pedra que sai de cima das pessoas, sentem-se aliviadas. Tudo isto é um pouco surrealista, à maneira portuguesa, as pessoas participam, assim como assistissem a uma peça de teatro, ou a um filme.

Ouve-se um popular dizer: isto é só o início. Um outro: porreiro, pá!, algo que muitos anos depois, um tal de José Sócrates, por ocasião da assinatura do Tratado de Lisboa, dirá a Durão Barroso.


Diariamente enchiam-nos os ouvidos com palavreado e grandes frases.

Diziam que, se alguma vez, o regime corresse perigo, iriam para a rua dar tiros, prontificavam-se a morrer, se necessário.

Soube-se, então, que não era a ditadura que era forte, a oposição é que era fraca.

Naquele dia 25 de Abril, não apareceram.

Fugiram para onde lhes foi possível.

Perderam a gabarolice, cagaram-se todos.

E os que apareceram estavam completamente desorientados.

É isso que ressalta das comunicações entre o Quartel-General e as poucas tropas, afectas à ditadura, que estavam nas ruas.

O repórter aborda dois soldados, fiéis ao regime. 

Um diz: praticamente não sei o que estou aqui a fazer, praticamente não sei de nada.

O alarme tinha soado às 04,30 horas.

As ordens eram para disparar sobre qualquer acção inimiga que nos apareça.

Ninguém deu essas ordens, tão pouco sabiam quem  era o inimigo.

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa aposição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!


Completamente perdidos.

A revolução avançava. Em pleno clímax, Adelino Gomes pergunta a um tenente-coronel: não houve rendição por parte das forças que estão sitiadas. O oficial rápido: “Porra! Vocês são uns chatos, não deixam de fazer perguntas. Uma senhora está a dar à luz e vão perguntar à senhora se ela está com dores?

Assim mesmo, um repórter no meio de uma revolução a fazer o seu trabalho.


A reportagem regista ainda as palavras de Francisco Sousa Tavares, empoleirado numa árvore, no Largo do Carmo, megafone na mão:

Começamos hoje uma vida nova, uma vida de liberdade.

Seria o primeiro comício dos novos  tempos que despontavam.

domingo, 25 de abril de 2010

POSTAIS SEM SELO

"Agora juntos, temos de construir um país
sem fome de nenhuma espécie, sem mitos,
um país de onde não seja preciso partir,
uma pátria onde tu e eu possamos sentir-nos
plenamente homens entre os outros homens"

Felix Cucurull em "Vida Terrena"

Legenda: Salgueiro Maia, fotografai de Eduardo Gageiro

AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU

“De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!”

Excerto de “As Portas Que Abril Abriu” de José Carlos Ary dos Santos, Editorial Comunicação, Lisboa, Novembro de 1975

sábado, 24 de abril de 2010

O POVO É QUEM MAIS ORDENA


24 de Abril de 1974.

Pontualmente, nos Emissores Associados de Lisboa, ouvia-se a voz de João Paulo Diniz: Faltam cinco minutos para as vinte e três horas, convosco Paulo de Carvalho com o Euro festival 74 “Depois do Adeus.

Mais tarde, às zero horas e vinte e nove minutos, na Rádio Renascença, Leite de Vasconcelos lia a primeira quadra de Grândola Vila Morena:

Grândola Vila Morena
Terra da Fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti ó cidade!

Madrugada dentro, no Rádio Clube Português, o jornalista Joaquim Furtado lerá o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas:

Aqui Posto de Comando das Forças Armadas

Desde 1965 Bob Dylan ia dizendo que os tempos estavam a mudar.

A partir daqui, em Portugal as coisas não continuariam a ser como eram.
Assim será até ao dia 25 de Novembro, o Dia de Todos os Desencantos.

António Rego Chaves, amos mais tarde, no Diário de Noticias:

Tenho uma imensa saudade dos antifascistas de 24 de Abril de 1974. Era, aparentemente, gente boa, pura, desinteressada em obter ganhos pessoais, generosa. Depois, apenas um dia depois, o minúsculo vírus não identificado que, afinal de contas, tantos deles já traziam adormecido no cérebro e lhe roía as entranhas pôs-se a crescer, a crescer desmesuradamente, sem eira nem beira, como um polvo, uma maldição, até nos revelar o seu horrendo segredo: o oportunismo, a ganância, a sede de vingança, nem que fosse um pequeno pontapé nas canelas do “chefe” da véspera, do vizinho do lado, do gato comunitário, vulgo vadio.

Diana Andringa:

Quem partiu o espelho dos sorrisos de Abril?

sexta-feira, 23 de abril de 2010

LIVROS PROIBIDOS


Durante a ditadura, quinzenalmente, o “Expresso” publicava uma tabela dos dez livros mais vendidos, a partir de dados fornecidos pelas livrarias.
Em Maio de 1973 o livro mais vendido era “O Caso da Capela do Rato no Supremo Tribunal Administrativo” da autoria de Salgado Zenha, Francisco Sousa Tavres, Jorge Sampaio, Vasconcelos Abreu e Vera Jardim.
Em sexto lugar, encontrava-se “Redescoberta da França” de Urbano Tavares Rodrigues.
Os dois livros foram riscados, pela censura, da lista de livros mais vendidos.
O "Expresso" decidiu não publicar a lista.
Para além de proibir os livros, o regime entendia que os portugueses também não poderiam saber quais os livros mais vendidos.

Fonte: José Pedro Vasconcelos, jornal “Expresso”.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A GUERRA SANTA



Muitos esqueceram, outros não querem ouvir falar, a maioria não sabe.

Antes do 25 de Abril havia livros, discos, filmes proibidos.

Uma feroz censura abatia-se sobre a cultura, o livre pensamento.

Os jornalistas tiveram que aprender e escrever nas entrelinhas, os leitores nas entrelinhas aprenderam a ler.

Em Setembro de 2001 o “Notícias da Amadora”, publicou 30 cadernos onde foram reproduzidos os cortes parciais, os cortes totais que a censura infligiu ao jornal:

“Alguns dos artigos eram enviados à censura, deliberadamente, sem assinatura. Havia autores proibidos e o seu nome era bastante para que a peça fosse cortada”.

César Príncipe, no seu livro “Os Segredos da Censura” escreve:

“A Censura foi a parra, o tapa-sexo de um regime, cujo pudor ocultava as insaciáveis aberrações das suas partes baixas”.

Em Março de 1967 o escritor Luís de Sttau Monteiro foi preso pela PIDE.

Motivo?

A publicação da peça de teatro “Guerra Santa”.

.José Gomes Ferreira em “Os Dias Comuns” Vol. II:

“7 de Abril

O Magalhães Godinho esta tarde:
-O Supremo Tribunal de Justiça negou, por unanimidade, o “Habeas Corpus” ao Sttau Monteiro.
E com voz nítida e articulada, para o futuro ouvir bem, repetiu:-POR UNANIMIDADE.
A palavra “unanimidade” ainda conseguiu assombrar o grupinho…
Nem um, ao menos? Nem um juiz, ao menos?”


10 de Abril


Garantiram-me que o Sttau Monteiro mandou uma carta ao chefe da PIDE, nos seguintes termos: constando-lhe que a Mãe e outros familiares faziam diligências no sentido de o libertarem, em troca duma declaração de repúdio da peça, vinha preveni-lo de que nunca entraria em compromissos desse género, visto orgulhar-se muito de ter escrito “A Guerra Santa”
.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

ADRIANO



ORFEU ATEP 6237
Editado em 1968
Acompanhamento de Rui Pato
Rosa de Sangue - Margem Sul - Rosa Dos Ventos Perdida - Pedro Soldado
Poemas de Manuel Alegre, Urbano Tavares Rodrigues e António Ferreira Guedes..
Acompanhamento de Rui Pato

ORFEU ATEP 6033
Editado 1961

Fado da Promessa (Luiz Goes/Manuel Alegre) - Fado Olhos Claros (Mário Fonseca-Bettencourt) - Contemplação (Leitão Nobre) - Balada do Estudante (Popular - arr. Paulo Alão)

Há alguns anos, o Luís Cilia disse que o Adriano Correi de Oliveira foi dos cantores mais desrespeitados e explorados neste país.

Também tenho essa ideia.

Tenho mesmo a sensação que o próprio Partido, a que se sempre pertenceu, a que deu, como militante, o seu melhor não o tratou como o Adriano merecia que o tratassem.

Lembro-me de, após a sua morte, na “Festa do Avante” existir um auditório com o seu nome. Mas percorro os programas das “Festas do Avante” e verifico que, enquanto por lá actuou, lhe deram os horários menos nobres, os palcos mais escondidos.

Sabiam que o Adriano nada recusava, nunca se negava a ir onde quer que fosse. Lembro, ainda aquele espectáculo, no Coliseu, de solidariedade, para com os trabalhadores da ANOP, em que não o deixaram actuar porque estava com os copos.

De uma coisa o Adriano não tinha razão de queixa: as capas de todos os seus discos.

Ficam aqui capas de dois dos seus EPs, da autoria de Fernando Aroso.

terça-feira, 20 de abril de 2010

UM TEMPO MUITO ANTIGO



Toda a aldeia era feita de um tempo muito antigo.
Nas casas, nas ruas,nos usos e nos costumes.
Mesmo os corpos dos aldeões, no jeito especial de os utilizarem, tinham também um toque rude e primitivo.
O modo de andar, por exemplo, era desengonçado e langão, como se levassem às costas a sua carga de séculos.

Mas era sobretudo nas casas que o peso do tempo mais se sentia. A gente olhava-as e via logo que tinham sido casas construídas no eterno
.
Vergílio Ferreira.Uma Esplanada Sobre o Mar

VENHAM MAIS CINCO



ORFEU STAT 017

Gravado em Paris, no estúdio “Aquarium” de 10 a 20 de Outubro de 1973 com arranjos e direcção musical de José Mário Branco.
Acompanhamentos de viola concebidos por Yório Gonçalves.
Capa e desenho gráfico: José Santa-Bárbara.
Produção José Niza.

Lado 1
Rio Largo de Profundis – Era um Redondo Vocábulo – Nefretite Não Tinha Papeira – Adeus Ó Serra da Lapa
Venham Mais Cinco


Lado 2
A Formiga no Carreiro – Que Amor Não Me Engana – Paz Poetas e Pombas – Se Voaras Mais Ao Perto – Gastão Era Perfeito

Poemas e músicas de José Afonso.

Coloca-se a rodar a primeira faixa do disco e deparamos de imediato com um desconcertante som de concertina, o Zeca a monologar qualquer coisa como uma garrafa vazia do Manuel Maria e uma passagem imediata para “Rio Largo De Profundis, uma autêntica música-dança de cowboys.

Uma abertura que é um verdadeiro achado.

Um grande disco da música portuguesa cheio de novos caminhos rítmicos, cheiros de Brasil e África, considerado, em 1973, o melhor disco de música portuguesa.

Mas não há bela sem senão.

A prensagem do disco revelou-se um autêntico desastre: instrumentos demasiado altos a sobreporem-se à voz de José Afonso, que em algumas canções se ouve muito lá atrás.

O desastre foi de tal ordem que, publicamente, José Afonso, bem como José Mário Branco e o engenheiro de som Gilles Sallé, exigiram a retirada do disco do mercado. Como a editora Arnaldo Trindade não deu qualquer resposta, avabaram por se “desligar” do disco.

A canção que dá nome ao álbum é um dos últimos hinos de José Afonso mas “Era um Redondo Vocábulo”, é uma canção lindíssima.

“Era Um Redondo Vocábulo”

“Era um redondo vocábulo

Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de esperaI
Inda o ar educa.”


DANÇAR ZECA AFONSO


Reposição, em Alcanena , de um espectáculo do "CeDeCe-Companhia de Dança Contemporânea", que foi apresentado, em Abril de 1994, no âmbito de "Lisboa-Capital da Cultura".
Entrada Livre mediante reserva de lugar.
Telefones 249889115 e 249889010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

FAÇAM UM MUNDO MELHOR, OUVIRAM?



Cópia da Carta-Testamento por Mário Sacramento, com a indicação no envelope: "Para ser aberto quando eu morrer”.
A carta foi escrita na Pousada de S. Lourenço, no Caramulo, em 7 de Abril de 1967:

"Aos mais adiados...

Vai sendo tempo de escrever uma carta de despedida! A velha carcaça é já uma ruína nítida. A somar às cicatrizes das lesões pulmonares que tive, há bronquiectasias e zonas de enfisema do impossível fumador que sou, as quais hão-de vir a resultar num coração pulmonar. A tensão mínima já começa a ressentir-se disso. O rim deita vestígios acentuados de albumina e cilindros. E o estômago tem qualquer coisa que um destes dias hei-de averiguar... Como não posso nem devo emagrecer excessivamente — são os próprios colegas que mo dizem —, dado o perigo de reactivação das antigas lesões bacilares, o peso é também um contra. E, como deixar de fumar, nesta idade, além de ser um sacrifício inglório que me roubaria um dos poucos apegos concretos que ainda tenho à vida, seria levar-me a engordar ainda mais, o balanço é portanto muito nítido. Quantos anos? Depois dos cinquenta acaba-se, estou convencido. Mais erro, menos erro, a média deve ser essa.
Começo por isso a ter pressa de fazer umas tantas coisas que reservei para a fase final, quando a terrível batalha que travei na sobrevivência contra o fascismo me deixasse, à margem desta profissão cujas dificuldades e condicionamentos económicas, sociais e políticos liquidaram tantos dos meus sonhos, margem para isso. Espero roubar, sempre que possa, alguns dias à labuta e à engrenagem diária e isolar-me, como agora fiz, para escrever qualquer coisa de mais íntimo. Para o romance cíclico que trago há tantos anos na cabeça, não chegará o tempo, decerto. E é melhor assim, pois evito uma desilusão e sempre morrerei com o arzinho angustiado de vítima dum mau destino, o que é chique, como diria o Eça...
Antes de tudo, impõe-se, porém, que escreva estas singelas palavras. Quem pode afiançar-me que não vou acabar hemiplégico e afásico, como minha Mãe? Deixa aqui, então, o que depois não poderás!
Deixar cheira a testamento. E eu, que deixe, só tenho o corpo. Por mais que fizesse, por mais que me fizessem, disso é que nunca consegui ser espoliado! E, como é com ele que me avenho nas noites de insónia e nas porfias diárias, é justo que lhe dedique, ao menos, um pensamento em vida. E não o legue aos cães... Pois não equivaleria a isso estar a ver-me, daqui, de barba feita a posteriori, sapatos engraxados, fato de ver a Deus, a apresentar as minhas despedidas, muito formalizado, de dentro da cabine - especial? Como não tenciono ir para parte nenhuma, metam-me como eu estiver no caixote mais barato que encontrem e devolvam-me os restos à terra. A terra sabe lavar-se. E não há nada como um cadáver «limpo» para marcar um limite.
Se morresse em localidade com forno crematório, não desgostava disso, se não fosse caro. E, por falar em caro: não sei se a terra será o mais barato para o caso, - ó contradições do capitalismo! E, como isto de morrer também «custa» aos outros, há que prevê-lo. A família tem uma pirâmide egípcia em Ílhavo. Embora eu esteja farto de conhecer prisões em vida, como nessa altura quem terá de aguentar isso é «o outro», não me oponho a ir para lá, se for mais económico ou mais fácil de arrumar. Não faço questões nenhumas com a morte... Ela nega-me, e é tudo. A grande magana!
Não, o motivo fundamental desta carta é outro. Aceitei dialogar, nestes últimos tempos, com os católicos. Se tivesse nascido num país protestante ou árabe ou budista, tê-lo-ia feito com esses. Pois do que se tratava — se trata, ó morto-vivo!, ainda não acabaste! — era, é de dialogar com os progressistas e, sobretudo, com o povo, directa ou indirectamente. Não há-de faltar contudo — sempre assim foi, ó alminhas santas! — quem procure fazer sujeira com isso e aproveitar-se duma ambiguidade que surja para me denegrir a memória. Se a minha Mulher ainda estiver viva — ela tem sido boa companheira! Não haverá problemas com isso, estou convencido. E o mesmo se dará se os filhos estiverem atentos: eles têm carácter. Mas quem pode prever tudo? Não que eu faça grande questão do meu bom nome: estou-me nas tintas para ele, depois de morto. Mas, além dele pertencer aos meus companheiros de jornada. E, que diabo, se passei tantos maus bocados por eles, em vida, é porque considerei que era esse o meu destino. E um homem tem o direito de o defender, mesmo depois de morto!
Fica portanto entendido que sou ateu e como ateu devo ser enterrado. Em vez dum pano preto, ponham um paninho vermelho no caixote, se puderem. E usem luto vermelho, se algum quiserem usar...
Mesmo que eu ficasse pílulas ou sugestionável à hora da morte, isso não modificaria ser esta a minha opinião responsável. É esta, por conseguinte, a única válida.
Claro está que gostaria de ter sido melhor homem, melhor marido e melhor pai. A perspectiva da morte só tem de positivo fazer-nos pensar assim. Mas o homem é um bicho complicado. E eu tenho a consciência de que pelo menos, me bati sempre comigo mesmo para ser melhor do que poderia ter sido. Fui amigo da família à minha maneira: sem efusões líricas ou rodriguinhos. E, se não fiz mais por ela, foi porque não pude, tanto no sentido social como psicológico do verbo. A prova de que o meu desejo era ser bom marido e bom pai está no muito que li, pensei e escrevi sobre isso. Sejam os Filhos melhores do que eu pude — foi sempre esse o meu sentido de missão.
Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais.
Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!
Não veremos o que quisemos, mas quisemos o que vimos. E este querer é um imperativo histórico. Há milhões de mortos a dizer-vos: avante!
Para a Mulher, um abraço, simples e esquivo como eu sempre fui. Para os Filhos, um beijo, frio e recalcado como eu sempre lhes dei. Para todos, um afecto. Quem tinha tão pouco que dar a tantos, teve de ser avaro... Mas morre convencido de que não guardou nada para si. Ou de que teve, pelo menos, essa intenção.
Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!”


“Carta-Testamento” de Mário Sacramento, Editorial Inova, SARL, Porto, Março de 1973

domingo, 18 de abril de 2010

A MORTE SAÍU À RUA



ORFEU STAT 012
Arranjo gráfico e capa: José Santa Bárbara
Produção : José Niza
Gravado nos Estúdiso Celada, S. A, Madrid de 6 a 13 de Novembro de 1972
Lado 1
A Morte Saíu à Rua - José Afonso
Fui à Beira do Mar - José Afonso
Sete Fadas Me Fadaram - António Quadros (pintor)/José Afonso
Ó minha Amora Madura - Arranjo de José Afonso
O Avô Cavernoso - José Afonso
Lado 2
Ó Ti Alves - José Afonso
No Combóio Descendente - Fernando Pessoa//José Afonso
Eu Vou Ser Como a Toupeira - José Afonso
É para Urga - José Afonso
Por Trás Daquela Janela - José Afonso

Na sua edição de 1 de Dezembro de 1972, o "Musicalissimo" referia "Eu Vou ser como a Toupeira" um álbum "simples mas quase genial."

Destacava "Ti Alves" e "Por Trás Daquela Janela" como "verdaeiras obras-primas de simplicidade e bom gosto."

"A Morte Saíu à Rua" evoca o pintor José Dias Coelho assassinado pela PIDE, em Lisboa, na Rua da Creche, no dia 19 de Dezembro de 1961.

"A Morte Saíu à Rua"
"A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pr'a qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o rei morreu!

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação."




POSTAIS SEM SELO

Lisboa.
Livraria Bucholz.
As livrarias, ao contrário dos homens, podem ressuscitar.

sábado, 17 de abril de 2010

CRÓNICAS DA AMÉRICA




Lançamento, na Livraria Bucholz, do livro "Crónicas da América" de Luis Miguel Mira.

MENINA DOS OLHOS TRISTES

ORFEU SAT 803
Acompanhamento: Rui Pato
Capa de Fernando Aroso
Editado em 1969

Menina dos Olhos Tristes - Reinaldo Ferreira/José Afonso
Canta Camarada - Popular/José Afonso

Guerra colonial.
800 mil jovens foram mobilizados para Angola, Guiné e Moçambique.
Barcos partiam para a guerra.
As dolorosas despedidas na Rocha de Conde Óbidos
Cerca de 11 mil mortos.
Cerca de 40 mil estropiados e deficientes.
Calcula-se que existam entre 130 a 140 mil de ex-combatentes da guerra colonial com problemas psicológicos resultantes de traumas, amarguras sem nome , distúrbios vários, loucuras, pesadelos, lares desfeitos, suicídios.
Como diz João Paulo Guerra em “Memórias da Guerra Colonial”:
“Não há estatísticas para a solidão, a ansiedade, o medo, o sofrimento, a dor.”Há guerras que não acabam nunca.

"Menina dos Olhos Tristes"

"Menina dos olhos tristes
o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo

olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados

porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo

uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho

do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar"



sexta-feira, 16 de abril de 2010

NEM TUDO ESTÁ PODRE NO REINO DA DINAMARCA

ORFEU STAT 005
Acompanhamento. Carlos Correia (Bóris)
Arranjo Gráfico de José Santa-Bárbara
Editado em 1970

Lado 1
Traz Outro Amigo Também - José Afonso
Maria Faia - Popular/Beira Baixa
Canto Moço - José Afonso
Epígrafe Para a Arte de Furtar - Jorge de Sena/José Afonso
Moda do Entrudo - Popular/Beira Baixa
Os Eunucos - José Afonso

Lado 2
Avenida de Angola - José Afonso
Canção do Desterro - José Afonso
Verdes São os Campos - Luís de Camões/José Afonso
Carta a Miguel Djeje - José Afonso
Cantiga do Norte - José Afonso

Texto de Bernardo Santareno transcrito na capa do disco:

“A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula. Realmente é a “pureza” a nota maior desta arte: Pureza de voz, pureza no poema, pureza na música. Neste disco, um dos mais ricos quanto a valores poéticos, é ela que domina: Trova antiga purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a justiça via de bandeira. E o ouvinte fica tonificado, “limpo”, cheio de graça, com mais vigor para a luta. No chiqueiro velho e saudosista, insignificativo e feio da música ligeira do nosso país, José Afonso surgiu como um renovador: De riso claro e leal, com punho duro de diamante, terno e gentil, sem amaneiramentos. Limpou crostas, desatou amarras, descobriu ramos verdes e ocultos, abriu janelas na parede bolorenta do fatalismo lusíada. E como esta arte pura e viril habitava já, nebulosamente, nos anseios da juventude que tanto pechisbeque musical mórbido e paupérrimo trazia nauseada, José Afonso conseguiu, rapidamente uma enorme audiência: Ele é hoje o mais autêntico trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça, de verdade. Por isto, todos o amam. E o amor do povo, dos jovens, de todos aqueles que ainda não estão definitivamente contaminados, esclerosados, é, tenho a certeza! A recompensa e a glória de José Afonso. Nem tudo está podre no reino da Dinamarca.”

"Canto Moço"

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de manhã clara

Lá do cimo de uma montanha

Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Mensageira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras

Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca."



PROBLEMAS GRAVES, MEU SENHOR

Vários eurodeputados tiveram que viajar de carro para Lisboa, enquanto outros temem que o encerramento do espaço aéreo belga os obrigue a arranjar programa para o fim de semana, tudo por causa de um vulcão na Islândia.

Os eurodeputados socialistas Edite Estrela, Correia de Campos e Capoulas Santos decidiram viajar de carro para Lisboa, depois de a Bélgica ter decidido manter o espaço aéreo encerrado.

"Estamos a caminho de carro, os aeroportos estão fechados, os comboios estão esgotados...", disse Edite Estrela à Lusa, acrescentando que os três tinham compromissos a cumprir em Lisboa.

Saíram de Bruxelas de manhã cedo, prontos para enfrentar uma viagem de 20 horas ao volante de um automóvel.

"Ainda não decidimos se fazemos a viagem directa ou se paramos para dormir no caminho", acrescentou a eurodeputada, sublinhando que o lugar de condutor irá rodar por todos.

No café da esquina, entre a bica e o bagaço, ouvindo a notícia no telejornal, o Jofre perguntou:

"Arranjarão tempo para ler os dossiers?" - perguntou o Jofre, ouvindo, no café da esquina ,entre a bica e o cheirinho, a notícia na TV

Legenda: Fotografia de Afonso Santos

quinta-feira, 15 de abril de 2010

E ALEGRE SE FEZ TRISTE

ORFEU STAT 010

Arranjos: José Calvário, José Niza, Rui Ressurreição, Thilo Krasman
Orquestra sob direcção de José Calvário
Capa: Silva e Castro
Produção José Niza
Editado em Novembro de 1971

Lado 1
Emigração - Curros Henriquez
E Alegre se Fez Triste - Manuel Alegre
O Senhor Morgado - Conde de Monsaraz
Cana Verde - Fernando Miguel Bernardes
A Vila de Alvito - Raul de Carvalho

Lado 2
Canção Tão Simples - Manuel Alegre
Cantiga de Amigo - Luís de Andrade
Para Rosalia - Curros Henriquez
Roseira Brava - António Ferreira Guedes
História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro - António Aleixo

Manuel Alegre disse de Adriano que era “o mais corajoso dos cantores do seu tempo”, Fernando Assis Pacheco que “era um puto giríssimo”, no dizer de Urbano Tavares Rodrigues “alguma coisa de criança".

Desiludiu-se, desiludiram-no.

Há um livro do Elio Vottorini: “Consideram-se mortos e morrem.”

Adriano escolheu morrer.


Outubro de 1982. 

Chovia em Avintes e alguém o viu partir de viola ao ombro.
“Estava farto, fatigado, desiludido, amargurado, desesperado. Estava doente, sem dinheiro, semiesquecido, ele que sempre esteve em todas: ele que sempre generosamente, esteve presente onde a sua presença era mais do que necessária: indispensável.”, escreveu Baptista-Bastos
A saudade é um luto.

"E Alegre Se Fez Triste"

Aquela clara madrugada
Que viu lágrimas correrem no teu rosto
E alegre se fez triste como
Chuva que viesse em pleno Agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
Meu nome no teu nome.
E demorados
Viu nossos olhos juntos nos segredos

Que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti
Só ela viu teu rosto olhando a estrada

Por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti
E ouviu dizer adeus, essa palavra
Que fez tão triste a clara madrugada."



NOCTURNO DA ÁGUA



Pergunto se não morre esta secreta
Música de tanto olhar a água,
Pergunto se não arde
De alegria ou mágoa
Este florir do ser na noite aberta.


Eugénio d'Andrade em "Ostinato Rigo

CRÓNICAS DA AMÉRICA


A Editora Fonte da Palavra e a Livraria Buchholz têm o prazer de convidar V. Exa. para a apresentação do livro “Crónicas da América (Na Rota dos Grandes Espaços da Musica e do Cinema)” da autoria de Luís Miguel Mira.
A sessão terá lugar no dia 17 de Abril de 2010, pelas 16h30m no espaço da Livraria Buchholz, na Rua Duque de Palmela nº4, em Lisboa.
A apresentação do livro ficará a cargo do Musico e Poeta António Manuel Ribeiro (vocalista dos UHF).
Contamos com a sua presença!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

NÃO ME PEÇAM RAZÕES

MN - 10 005

Lado 1

Há-de Haver - José Saramago
O Menino da Sua Mãe - Fernando Pessoa
Boda Pagã - Francisco Delgado
Canção - Fernando Morgado
O Cavador - Guerra Junqueiro
Pátria - Afonso Duarte
Orfeu Rebelde - Miguel Torga

Lado 2

Carta a Angela - Carlos de Oliveira
A Estrela - Carlos de Oliveira
O Viandante - Carlos de Oliveira
Há Lágrimas Nos Teus Olhos - Carlos de Oliveira
Não me Peçam Razões - José Saramago
Margem Esquerda - Urbano tavares Rodrigues
Dies Irae - Miguel Torga

Todas as músicas são da autoria de Luis Cilia.


Poemas traduzidos para francês por Jorge Reis

O disco tem uma cuidada apresentção gráfica e inclui uma pintura de Helena Vieira da Silva dedicada a Luis Cilia, que também aqui se reproduz.


Editado em 1969.

A propósito deste disco de Luis Cilia, transcrevo o comentário de João Pedro publicado aqui:


"Em relação ao Luis Cília, não posso deixar de partilhar uma história que jamais esquecerei, sendo essa uma das grandes explicações para o "carinho" especial que tenho por Luis Cilia. Abreviando a história, quando uma vez visitar a minha avó, numa casa feita de pedra, no meio das pedras, numa aldeia na Beira Alta, a minha mãe trouxe de lá um disco do Luis Cília " La poesie portugaise Vol. II". Nada de anormal, não fosse a casa da minha avó, não ter electricidade, nem água canalizada, etc... nem a minha avó ter gira-discos (a minha santa avó mal sabia assinar o nome dela). Ainda hoje desconheço como é que o disco lá foi parar, pois a minha avó não viveu o suficiente para mo contar, mas desconfio que talvez um tio meu, quando foi a França o tenha trazido, sabe-se lá porquê. Era muito miúdo na altura e demorei muitos anos até ouvir esse disco, numa fase de maior maturidade. E é ai, que chego ao cerne da questão: a melancolia da voz de luis Cília nesse disco, é a única que consegue retratar de forma fiel a própria melancolia do país em que vivíamos. Os arranjos sublimes, o contrabaixo, violoncelo, aliada à forma sentida como Luis Cilia interpreta cada uma daquelas canções, não têm comparação, na minha opinião, com qualquer outro cantor (Ouvir " O cavador" ; "Carta a Ângela" Boda pagã" " Há lágrimas nos teus olhos", naquela contexto tão especifico, acredito que tocaria necessariamente o coração do ouvinte."

"Não me peçam razões"
"Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.


Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.


Não me peçam razões, ou sombras delas
Deste gosto de amar e destruir:
Nos excessos do ser é que amanhece
A cor da Primavera que há-de vir."




terça-feira, 13 de abril de 2010

ERA DE NOITE E LEVARAM

ORFEU STAT 004

Acompanhamento:
Rui Pato - viola, marimbas e harmónica
Sousa Colaço - 2ª viola
José Fortunato: Cavaquinho
Adacio Pestana: Trompa
Tereza Paula Brito: voz
Capa: Fernando Aroso
Editado em 1969

Lado 1
Bailia - Trovas de Aires Nunes (Séc. XII)/José Afonso
Oh! Que Calma Vai Caindo - Popular/Beira Baixa
S. Macaio - Versão dos Flamengos do Faial
Qualquer Dia - F. Miguel Bernardes/José Afonso
Vai, Maria Vai - José Afonso

Lado 2
Deus Te Salve Rosa - Popular/Trás-os-montes
Lá Vai Jeremias - Popular/Beira Baixa
No Vale de Fuentovejuna - Lope de Vega (versão de Natália Correi)/José Afonso
Era De Noite e Levaram - Luis Andrade/José Afonso
A Cidade - José Carlos Ary dos Santos/José Afonso

Um disco sereno.

É este o disco de José Afonso que mais gosto de ouvir.

Junta temas do concioneiro popular e temas de intervenção política. 

Nesta vertente destacam-se “Era de Noite e Levaram”, poema de Luís Andrade, que denuncia as investidas da Pide, madrugada dentro, pelas casas dos que se opunham à ditadura: era de noite e levaram quem nesta cama dormia e “Já o Tempo se Habitua": nem o voo do milhano ao vento leste nem a rota aa gaivota ao vento norte nem toda a força do pano todo o ano quebra a proa do mais forte nem a morte.Contudo, "A Cidade”, um poema de José Carlos Ary dos Santos, é, possivelmente, a canção mais bonita deste sereno álbum de José Afonso.

Serenidade já patente na própria capa, uma terna fotografia de José Afonso, ajudando a filha Joana a desenhar.


"A Cidade"

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há".



POSTAIS SEM SELO

Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara"


Sophia de Mello Breyner Andresen em “Ilhas

Legenda: Fotografia de Eduardo Gageiro, Lisboa 1964

segunda-feira, 12 de abril de 2010

ARTE POÉTICA


ZIP ZIP
ZIP 30 020/S

Pare, Escute e Olhe - José Jorge Letria
Arte Poética - Hélia Correia/José Jorge Letria

Tal como "Erguer a Voz e Cantar" de António Macedo, “Arte Poética”, a faixa B deste single, foi largamente cantada, antes do 25 de Abril, em convívios estudantis e trabalhadores.

Trata-se de um bonito poema de Hélia Correia com música de José Jorge Letria.

Não sei se, em posteriores edições, alguma vez foi feita a devida correcção, mas no disco não consta a autoria do poema “Arte Poética”. Mesmo em espectáculos públicos de então, pelo menos aos que assisti, José Jorge Letria não mencionava o nome de Hélia Correia.

Bom, mas isto são coisas que já lá vão e é bem provável que alguma rectificação tenha sido feita.

Na contracapa José Jorge Letria deixou escrito um texto em que pretende dar a conhecer as dificuldades sentidas na edição dos seus discos. Não apenas suas dificuldades, de outros também:

“Foi mais de um ano de silêncio (depois do primeiro disco-fracassado). Mais de um ano de silêncio inteiramente assumido. Voluntariamente aceite. É fora dos circuitos normais (televisão, rádio, promoção, venda) que, dolorosamente, sem trincheiras nem disfarces, se descobrem os amigos (?), que se aprende a abominar a hipocrisia e a falsa coerência, a miséria das intenções, a ignorância das coisas elementares."É no silêncio (um certo silêncio, entenda-se), que se descobre a utilidade das palavras. O seu fogo. A sua forma exacta. A sua acutilante facilidade de chegar onde mais ninguém chega. E ao mesmo tempo a sua infinita pobreza. A sua enorme timidez. Sim, porque as palavras são tímidas. Haverá alguém que duvide?"Para mim conservo a certeza de que está tudo ainda por fazer. Não são meia dúzia de discos ou de frases publicitárias, publicamente ditas, que definem uma música e lhe dão a necessária consistência. Desfaçam-se pois os equívocos. Já não é sem tempo. A quem me ouvir deixo, entretanto, a possibilidade de transformar em acto (ou quase) o que no canto se propõe. Se isso não acontecer fico, pelo menos, com a certeza de ter levado até ao fim a minha ingenuidade. Ou seja o silêncio donde partiu. Para os que ficarem pelo caminho vai também a minha saudação."

"Arte Poética"

”Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão”





ENGRAXADOR EM ISTAMBUL


Fotografia de Carlos Garrudo.

domingo, 11 de abril de 2010

DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO


Cresci rodeado de livros.

Uma sorte, um privilégio, diga-se. Foi assim que tudo começou.

Há os que não têm nem essa sorte, nem esse privilégio. Os que têm de procurar são as pessoas que me merecem admiração, as pessoas de quem gosto, enquanto que os que têm livros à disposição, entendem que ler é uma grande maçada, ignoro-os, esqueço-me que existem, se bem que os oiça bolsar que os livros estão empoeirados, as canecas de cerveja ensinam melhor, a cerveja dá prazer, os livros apenas aborrecimento.

Havia o hábito de, nas prateleiras mais altas, colocar os livros que se comvencionava não serem lidos em determinadas idades.

Lá em casa não havia essa regra. Os livros, todos, eram para serem lidos.

Juntamente com os Salgari, os Walter Scots, os Júlio Verne, ter lido o Eça de Queiroz aos 13/14 anos foi uma aventura inesquecível. Naturalmente que, mais tarde, ao Eça tive que voltar, e não é por já tanto o ter lido e relido, que alguma vez deixarei de lhe bater à porta.

Um livro de capa preta tinha o título de “Dez Dias Que Abalaram o Mundo”.

Tratava-se da edição basileira do livro de John Reed., um edição popular, publicada em 1945 pela Editorial Calvino Lda do Rio de Janeiro
.
O Mundo, alguma vez mudara? E em dez dias? Como teria sido?

Nada como ir ler para contar como foi.

No prefácio desta edição a que Egon Erwin Kish dá o nome “John Reed, o jornalistas das barricadas”, pode ler-se logo nas primeiras linhas:

“Combateu nas barricadas. Sua arma era o lápis, como a arma do ferreiro, lutando a seu lado, talvez fosse o martelo.
Mesmo examinada do ponto de vista jornalístico, a actividade de John Reed foi admirável. Os acontecimentos de uma semana, que seus colegas consideraram simples lutas episódicas entre os partidos russos ou incidentes pouco importantes da guerra, para John Reed foram dias que abalaram o mundo”.


Na abertura do prefácio, datado de Nova Iorque 1 de Janeiro de 1919, John Reed escreve:

“Este livro é um naco de história intensiva – tal como eu a vi. Nada mais pretende ser do que uma narrativa pormenorizada da revolução de Novembro, quando os bolcheviques, à frente dos operários e soldados, se apoderaram do poder governativo da Rússia e o colocaram nas mãos dos sovietes.”

E a fechar:

“Na luta, as minhas simpatias não ficaram neutrais. Mas, ao narrar a história daqueles dias grandiosos, tentei ver os acontecimentos com os olhos de um repórter consciencioso, interessado em registar a verdade”. (1)

Quando aos 17 anos, mais coisa menos coisa, em plena ditadura de Salazar, se pega num livro como “Dez Dias Que Abalaram o Mundo” só duas coisas poderiam suceder: colocar de imediato o livro de lado, lê-lo com o encantamento de uma aventura.

Sim, o livro é uma apaixonante reportagem, um livro honesto porque o autor declara de que lado está.

Penso que a vontade, a vontade e as ideias, têm um importante papel nos tempos da adolescência.

Caminhos que nos levam a tomar partido, não ficar naquela margem de não ser coisa nenhuma, nem direita, nem esquerda. Ficar no meio, com uma ténue ideia, a possibilidade de ver os dois lados.

Há uns anos, numa entrevista, António Mega Ferreira que, necessariamente, terá lido John Reed, dizia que o centro é uma cobardia, é uma falta de coragem, é para onde convergem, direita ou esquerda, quando não têm coragem.

Graham Greene, em “O Americano Traquilo” vai mais longe.: 

“ Mais tarde ou mais cedo temos de pomar partido, de forma a parecermos humanos”.

É comum ouvir dizer que se chegou a determinado olhar sem ter passado por manifestos, pelos mais variados ismos.

Porque também se pode chegar a esse olhar, lendo, Albert Camus, Elio Vittorini, Roger Vailland, Jorge Amado Roger Martin du Gard, Hemingway, Soeiro Pereira Gomes, uma lista de nomes de todo interminável.

Em 1981 Warren Beaty realizou “Reds” um filme que retrata a vida do jornalista John Reed, protagonizado, entre outros, pelo próprio Warren Beaty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Gene Hacmann.



(1) – A tradução de “Dez Dias Que Abalaram o Mundo”, aqui citada, é a de A. Dias Gomes para “Publicações Europa-América”, Maio de 1976.

TEMPO DE NÊSPERAS

Abril, tempo de nêsperas.
Esta nespereira encontra-se, no Magoito, no quintal do meu primo Mário.
A fotografia foi tirada na quarta-feira e, pode ver-se, que os frutos já vão em bom ritmo de amadurecimento.
Ali as árvores, o que quer que seja, não levam ponta de químicos.
Um problema existe: se não nos apressarmos os pássaros comerão as nêsperas.
O ano passado apenasconseguimos recuperar perto de uns 3 quilos.
O meu primo não se chateia puto com o facto de os pássaros comerem as nêsperas. Fica mesmo feliz...


Nêsperas em Cascais.
Bonitas, espanholas mas não sabem a nada.
E a 4,6o euros o quilo....

Seria impossível falar de nêsperas e não ir buscar este poema do Mário-Henrique Leiria:

"A Nêspera"

"Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece"


Mário-Henrique Leiria em "Novos Contos do Gin-Tonic"

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...

Cascais, quinta-feira da semana passada.
Passei duas vezes por lá. Nem clientes, nem o engraxador.
Já ninguém engraxa sapatos.

sábado, 10 de abril de 2010

COMO HEI-DE AMAR SERENAMENTE



ORFEU STAT 007
Arranjos: Rui Pato e Carlos Alberto Moniz
Editado em 1970

Lado 1
Cantar de Emigração - José Niza/Rosalia Castro
Saudade Pedra e Espada - Roberto Machado/ Manuel Alegre
Fala do Homem Nascido - José Niza/António Gedeão
O Sol Preguntou à Lua - Popular Açoreano
Canção Para O Meu Amor Não Se Perder no Mercado da Concorrência - Adriano Correia de Oliveira/Manuel Alegre

Lado 2
Lagrima de Preta - José Niza/António Gedeão
Canção Com Lágrimas - Adriano Correia de Oliveira/Manuel Alegre
Cantar Para Um Pastor - Adriano Correia de Oliveira/Matilde Rosa Aráujo
Como Hei-de Amara Serenamente - Adriano Correia de Oliveira/Fernando Assis Pacheco
Sapateia - Popular Açoreano
A Noite dos Poetas - Adriano Correia de Oliveira/A. Barahona da Fonseca

adriano e as canções com lágrimas para os homens que na redoma de vidro se quedavam tristes e serenos que nos dizia onde começava a mágoa que lançava canções ao vento que passava que andava dentro das palavras que dizia que o acto de cantar não é gratuito antes um acto que responsabiliza quem canta e os que o escutam que dizia que homem que vivesse só não podia viver bem de quem vinha do fundo do tempo sem ter mais tempo a perder de quem vinha da terra assombrada do ventre de todas as mães para dizer que não havia que ter medo que o pensamento era como o vento e nada o podia amarrar que os homens nunca findam que tudo só morrerá quando os ventres das mulheres da cidade não derem mais filhos para os Invernos tristes caminheiros com sol nas espáduas acreditando que em multidão somos maiores adriano que nos dizia que não poderíamos ficar sentados e calmos face às notícias que não poderíamos amar serenamente com tanto amigo na prisão que era necessário largar pela noite fora e saber que nenhuma moira encantada nos viraria a proa da barca que seríamos nós que a tínhamos de virar para que um dia pudéssemos dizer:
QUE NUNCA MAIS!

Como Hei-de Amar Serenamente

Como hei-de amar serenamente
Com tanto amigo na prisão.

Deixar intacta a minha voz
Para os acidentes da ternura.

Como hei-de estar sentado e calmo
Sentado e calmo com a minha amada.

Como hei-de estar sentado e calmo
Sentado e calmo com a minha amada.

Vendo os amigos desvanecendo
Na fria névoa da manhã.

Como hei-de estar amada contigo
E repousado sobre estas notícias?

Como hei-de estar amada contigo
E repousado sobre estas notícias?

Setas que lançam inesperadas
Para o meu flanco tão mortal.

Não posso estar serenamente
Não posso amar serenamente.

Os versos esmagam-se na boca
E fica mais amarga a minha boca
.
Não posso estar serenamente
Não posso amar serenamente.




sexta-feira, 9 de abril de 2010

NÃO HÁ MACHADO QUE CORTE

TAGUS TG 112
Acompanhamento viola: Fernando Alvim

Dedicatória - Fernando Miguel Bernardes/Manuel Freire
Livre - Carlos Oliveira - Manuel Freire
Eles - Manuel Freire
Pedro O Soldado - Manuel Alegre/Manuel Freire

TAGUS TG 121
Acompanhamento viola: Fernando Alvim

Lutaremos Meu Amor - Daniel Filipe/Manuel Freire

Trova do Emigrante - Manuel Alegre/Manuel Freire
Trova - Manuel Alegre/Manuel Freire
O Sangue Não Dá Flor - Manuel Freire


ZIP ZIP  30.001/S
Arranjos e Supervisão - Thilo Krasmann

Pedra Filosofal - António Gedeão/Manuel Freire
Menina dos Olhos Tristes - Reynaldo Ferreira/Manuel Freire

Quando, em 1969, Manuel Freire aparece noZip-Zip”, a cantar Pedra Filosofal” de António Gedeão, não era totalmente um desconhecido. Era um companheiro de viagem, dos que, país fora, andavam por sociedades recreativas a dizer, a quem os quisesse ouvir, que haveria de chegar o dia das surpresas.
Em 1969 publicara o EP “Manuel Freire Canta Manuel Freire”, que inclui “Livre”, poema de Carlos de Oliveira, que passámos a saber de cor e que, por aqueles dias, em qualquer circunstância, se cantava ou murmurava.
Depois um outro EP, “Trovas,Trovas,Trovas”, que inclui o belíssimo poema de Daniel Filipe, "Lutaremos Meu Amor" disco que, de imediato, foi apreendido pela PIDE.
Uma simples mensagem: “na aparência sozinhos multidão na verdade, lutaremos meu amor", punha o regime a tremer.
Claro que a passagem pelo “Zip-Zip” projecta Manuel Freire para um outro tipo de público, e muito mais gente ficará, então, a saber que o sonho comanda a vida, que o mundo pula e avança.
Uma mera curiosidade: Manuel Freire nasceu a 25 de Abril de 1942.

“Livre”

“Não há machado que corte
a raíz ao pensamento:
não há morte para o vento,
não há morte.

Se ao morrer o coração

morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida
sem razão.

Nada apaga a luz que vive

num amor num pensamento,
porque é livre como o vento
porque é livre”.



NO SALÂO PRETO E PRATA

A Aida, num texto aí para trás, foi aos "Bailes da Vida" recuperar o Paul Anka.
Por mim, encontrei-o num cartaz do Reveillon do Casino Estoril, no findar do ano de 2006.
Braços cruzados, um ar de senhor amadurecido, e não fora o nome no cartaz, não o reconhecia.
Pode haver maquilhagens mágicas, tudo o que quiserem para modificar um rosto, mas os efeitos da lei inexorável da vida estarão sempre presentes. Como em cada um de nós…
Por que não haveria o Paul Anka de envelhecer comigo?

quinta-feira, 8 de abril de 2010

PRÉ - HISTÓRIAS

GUILDA DA MÚSICA DP 024
Capa de José Soares

Lado 1
Barnabé - A Noite Passada - Aprendi a Amar Eh! meu irmão - Porto, Porto

Lado 2
O'Neill - Pode Alguém Ser Quem Não É - Até Domingo Que Vem - Já a vista me fraqueja - O Homem dos 7 Instrumentos

Todas as letras e músicas de Sérgio Godinho, excepto "O'Neill" em que os poemas são de Alexandre O'Neill.

Sérgio Godinho é um contador de histórias.

Embrulha o quotidiano, pequenos nadas, em música, e tem-nos dado uma mão cheia de bonitas canções. Difícil sempre saber qual a melhor, a mais bonita, o que quer que seja.

Sérgio Godinho, antes do 25 de Abril, apenas gravou dois álbuns. Do primeiro já aqui, se falou e este é o segundo em que nos oferece “Pré-histórias”, como o anterior, gravado no “Strwberry Studio” em Hérouville.

Quantas vezes rodei este disco?

Direi que incalculáveis são essas vezes.

Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros, aprender a amar pela madrugada, eh, meu irmão, que é que tens, então eu já nasci e o galo ainda não morreu, o homem com o porvir na pedaleira, pode alguém ser quem não é, a vista a fraquejar, a chegada do homem dos sete instrumentos e assim nos ficamos até domingo que vem.

Sim até domingo que vem.

Os ouvidos, hoje, são outros, o tempo também, mas continua a ser gratificante ouvir “Pré-Histórias”.

O que nem sempre acontece.

"A Noite Passada"

“A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então tu olhaste depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"



VOO NOCTURNO



Nos livros descobrimos que há outras gentes, escritores, neste caso, que soa nossas almas gémeas, gémeas no pensamento e na forma hábil como sentimentos e emoções que nos despertam são tão bem descritos.

Isso é o que acontece entre mim e Saint-Exupéry. Conheci-o como a grande maioria das pessoas o conheceu: através de “O Princepezinho”.

Era muito nova, era ainda uma criança e isso marcou a forma como passei a ver o meu mundo e as pessoas que por lá andavam. Mais tarde voltei a descobri-lo com o “Voo Nocturno” e fiquei a saber que ambos partilhamos uma paixão: a de voar. Claro que ele foi piloto e eu apenas sou uma cliente dos voos da “TAP”. Mas voar para mim é somente a escolha de um meio de transporte, como poderia ser o automóvel, ou o barco. Voar é a passagem mais rápida para um mundo desconhecido que aguarda por ser descoberto. Enquanto voamos é possível experimentar a sensação de um tempo suspenso, de um suspiro que se prolonga por muito tempo e que se encaixa entre as ruas do nosso bairro e as ruas de um outro bairro, com outras gentes, tão próximo que se torna inacreditável. E é assim que outras paragens se podem tornar na nossa próxima paragem: para começar uma outra vida, para conhecer um outro amor, para ver e sentir aquilo que certos filmes nos fazem imaginar e até para morrer.

Aqui fica o começo de “O Voo Nocturno”:

“As colinas por baixo do avião cavavam já a sua esteira de sombra no ouro do fim da tarde. As planícies tornavam-se luminosas, mas duma luz sem préstimo: neste país nunca acabam de largar ouro, tal como depois do Inverno nunca acabam de largar neve.
E o piloto Fabien, que trazia do extremo sul para Buenos Aires o correio da Patagónia, reconhecia a aproximação da noite pelos mesmos sinais que as águas dum porto: por aquela calma, por aquelas ténues rugas quase imperceptíveis que nuvens tranquilas desenhavam. Entrava numa barra imensa e bem-aventurada. Também poderia julgar estar a dar naquela calma um passeio lento, quase como um pastor. Os pastores da Patagónia anda, sem se apressarem, de rebanho em rebanho: ele ia de cidade em cidade, era o pastor das cidadezinhas. De duas em duas horas encontrava-as, a beber à beira-rio ou a retouçar na planície.
Algumas vezes, ao fim de cem quilómetros de estepes mais desabitadas que o mar, cruzava-se com uma quinta perdida e que parecia levar para trás, numa ondulação de pradarias, a sua carga de vidas humanas; então saudava com as asas esse navio?”


Colaboração de Cristina Narciso

quarta-feira, 7 de abril de 2010

CONGRESSOS DE AVEIRO



Congressos de Aveiro é um título genérico.

Realizaram-se três congressos.

Os dois primeiros designados por “Congresso Republicano de Aveiro”, o
terceiro como “ Congresso da Oposição Democrática” e todos tiveram, como cenário, a cidade de Aveiro.

O I Congresso realizou-se em Outubro de 1957, no âmbito das comemorações do 47º aniversário da Implantação da República e teve como secretário efectivo o escritor Mário Sacramento. Existia o propósito de estes congressos se realizarem de dois em dois, mas apenas em 1969 veio a realizar-se o II Congresso. A morte prematura, se bem que anunciada, de Mário Sacramento impediu-o de assistir ao Congresso por que tanto se batera.

Entendo-se que a oposição portuguesa não era apenas republicana, o último congresso veio a ter a designação de “III Congresso da Oposição Democrática”.

No fundo permitiram que, com limitações próprias, e todas as restrições impostas pelo regime ditatorial, fossem, publicamente, discutidos os muitos e diversos problemas que afectavam o país.

Neste III Congresso estiveram presentes alguns dos democratas que integraram, em 1969, as listas da C.D.E, da C.E.U.D. e da C.E.M.

O jornalista A. Villaverde Cabral, na reportagem sobre o 3º Congresso, escrevia no “Diário de Lisboa” de 6 de Abril de 1973:

“Num país onde as formações políticas de Oposição ao regime não têm expressão legal, cada um pode atribuir a cada um a tendência que muito bem entender, mas ninguém pode, num local público, por razões óbvias, afirmar “eu venho aqui em representação de”, “eu represento tantos democratas”.

A realização do III Congresso teve a rodeá-lo diversas incidentes.


Invocando que não autorizara a participação de todos os congressistas, apenas de uma pequena delegação, numa romagem à campa de Mário Sacramento, assim como a concentração junto ao monumento a José Estêvão, a Polícia de Choque carregou, violentamente, sobre congressistas , e não congressistas, ocasionando dezenas de feridos.

Raul Rego no seu “Momento” no “República” de 9 de Abril de 1973 escrevia:

“O Congresso de Aveiro terminou ontem e pode dizer-se, a despeito de todas as limitações, de incidentes, que ele contribuiu para o esclarecimento da nossa vida nacional.”

Por iniativa da “Seara Nova” foram, na altura, publicadas em livro, as teses e comunicações, tanto do "II Congresso Republicano" ,como as do "III Congresso Democrático".


Nos dias que antecederam o III Congresso, o jornal “República”, publicou um inquérito que envolveu as mais variadas gentes das mais variadas profissões.


Retenho o começo do depoimento do tipógrafo António Fradique Caldeira:

“Penso que não será com um Congresso da natureza dos que se têm feito em Aveiro que se poderão resolver os problemas dos trabalhadores portugueses. O Congresso de 1969 esteve pouco ligado às bases populares, foi mais uma reunião de “colarinhos engomados” do que com a participação da “ganga”.