sábado, 31 de julho de 2010

31 DE JULHO DE 1945


Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


Eugénio de Andrade

O NARRADOR COMO PERSONAGEM


Exemplar do nº 38, da revista “Ler”, referente à Primavera/Verão de 1997, e editada pelo “Círculo de Leitores”.

Contém um ensaio de José Saramago: “O autor como narrador”:


“Abandonando qualquer precaução retórica, o que aqui estou assumindo, afinal, são as minhas próprias dúvidas e perplexidades sobre a identidade real da voz narradora que veicula, nos livros que tenho escrito e em todos quantos li até agora, aquilo que derradeiramente creio ser o pensamento do autor. E também me pergunto se a resignação ou indiferença com que os autores de hoje parecem aceitar a “usurpação”, pelo narrador, da matéria, da circunstância e do espaço narrativos que antes lhe eram pessoal e inapelavelmente imputados, não será, no fim de contas, a expressão mais ou menos consciente de um certo grau de abdicação, e não apenas literária, das suas responsabilidades próprias”


Também neste número, José Augusto Mourão”, num texto intitulado “A Litote do Insuportável”, regressa ao “Ensaio Sobre a Cegueira”:


“Saramago, como a sentinela bíblica, anuncia a noite que cai: tudo vai mal. Viagem ao mundo concentracionário do escritor com passagem pelo tema das alegorias por uma discussão acerca dos géneros literários e paragem algures pelo lugar-comum do “mal sentido” e pelo desejo utópico de felicidade, tudo com um guia que cruza textos para procurar o sentido. Pedagógico, “porque é quando o mundo se faz imagem – o saber publicitado, o sagrado dos congressos e do desporto, as artes plásticas – que a cegueira cobre o mundo do seu véu de cinismo e de desaparição. O triunfo do audiovisual é afinal o triunfo do simulacro.”

O VERÃO A DESPEDIR-SE...

Amanhã começa Agosto, o mês idiota, o mês cruel.

O Verão não vai durar muito, o primeiro de Agosto, como dizem os velhos olhando o horizonte, é mesmo primeiro dia de Inverno.

Agosto de quem faz filhos e os faz por gosto.

Água de Agosto, açafrão, mel e mosto.

Em Agosto dá o sol pelo rosto.

O 8º mês do ano. Tem 31 dias
.
No dia 1 o Sol nasce às 05h 38 m e o Ocaso verifica-se às 19h 46m.

No dia 31 o Sol nasce às 06h 05m e o Ocaso verifica-se às 19h 09m.

Durante o mês de Agosto o dia diminui 1h 06m.

As mulheres nascidas em Agosto são tímidas, modestas e carinhosas. Amam a calma e a tranquilidade, mas não têm sempre a felicidade que merecem.

Os homens, habitualmente alegres, são joviais, espirituosos, trocistas. Ainda que discretos, são trabalhadores, pacientes e obstinados, duma iniciativa suficiente para vencer na vida.

Incensos: Sândalo e Almiscar

Pedra: Âmbar

Metal: ouro

Cor: Dourada.

Na horta semeiam-se rabanetes, alfaces, chicórias. No fim do mês começa a sementeira de cebola, espinafres, couve-flor, bróculos, repolhos, nabos, rábanos.

No jardim regar as plantas com bastante frequência. Mudar as cinerárias e amores-perfeitos; colheita matinal de rosas e flores.

Em Agosto, num dia 8 de 1978, morreu Ruy Belo, para quem o Verão era a melhor estação, ele que tanto amava os meses de Agosto: “Espero pelo Verão como por outra vida”.Também por um Agosto cinquenta e dois antes de Ruy Belo, num dia 5, morria Marilyn Monroe, em circunstâncias, até hoje, não completamente esclarecidas, mas que não são difíceis de adivinhar.

Sobre a morte de Marilyn Monroe, Ruy Belo escreveu um lindíssimo poema:

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser atá ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

TENHO O PARTIDO QUE TENHO



Exemplar do nº 16, da revista “Ler”, referente ao Outono de 1991, e editada pelo “Círculo de Leitores”.Contém uma entrevista, a José Saramago, feita por de Francisco José Viegas.

“Não abdica do ideal comunista, escreveu um livro (a publicar em Novembro próximo) sobre a vida de um Cristo imaginado humano. “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, a lançar pela Editorial Caminho, é, em simultâneo, uma biografia de Jesus e do seu tempo, e uma reconstrução das suas ideias e obras, antes de o cristianismo as deter e reter para si, Uma vida apaixonante de Cristo, de Deus, de Maria e de S. José, por José Saramago.”Aborda-se “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” mas, quando a entrevista foi concedida, viviam-se dias agitados na URSS, um golpe pretendia pôr em causa a “Perestroika.” Francisco José Viegas não perde a oportunidade de saber o posicionamento de Saramago sobre esses acontecimentos, bem como em relação à sua militância como membro do PCP.

“As suas actividades políticas não o impediram de escrever nos últimos dois anos?

“Não nunca me interromperam o trabalho, para já porque as minhas actividades políticas estão, neste momento reduzidas a nada. Além do mais, o meu partido, o PCP, entende que eu não tenho que ser distraído do meu trabalho com actividades políticas mais imediatas.
É possível a sobrevivência do comunismo?

Acho que sim. Repare, a ideia, o ideal comunista não nasceu ontem, não nasceu com Lenine, com Marx. Acompanhou o homem desde o início de tudo. Desde o início dos tempos… o facto de os recentes acontecimentos na URSS apontarem claramente para um caminho que se situa fora da área do comunismo não quer dizer que o comunismo tenha acabado. O modelo falhou não tenho dúvidas. É mais do que óbvio. Podemos dar-lhe os nomes que quisermos, socialismo científico, socialismo real, mas os factos estão aí, a dizê-lo e a prová-lo claramente: o modelo real falhou. Este era um dos modelos possíveis. Mas penso que o ideal não morre.
(…) Eu tenho o partido que tenho, e não tenho outro. Se estou dentro, tenho de enfrentar todas as consequências. Na minha relação com o PCP não entro em conta com a minha “base social de apoio” (a expressão é do Eduardo Prado Coelho) enquanto escritor, ou cidadão. Se tiver de acontecer que o facto de o PCP não ter feito a sua “perestroika” afecte a minha vida pública como escritor, não é por isso que deixo o meu partido. Não, não deixo o partido.”

ANTÓNIO FEIO (1954-2010)

Morreu o actor António Feio.
Conheci-o quando ele dava aulas de teatro no Auditório Carlos Paredes na Junta de Freguesia de Benfica. Era um tipo mesmo bem-disposto.
Foi, também, no Auditório Carlos Paredes que vi “Conversa da Treta” e não me esquecerei dessa estreia.
No dia 23 de Abril do ano passado disse, em directo, na SIC que lhe tinha sido diagnosticado um cancro no pâncreas - "Estou cá para dar cabo do bicho."O humor ajudou-o a combater o bicho, mas era uma luta desigual.
Tenho muita pena e vai-nos fazer muita falta.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

UMA TERNURA PELOS PERSONAGENS FEMININOS

Exemplar do nº 6, da revista “Ler”, referente à Primavera de 1989, e editada pelo “Círculo de Leitores”.

Contém uma entrevista, a José Saramago, feita por de Francisco José Viegas.

José Saramago acabara, então, de publicar “História do Cerco de Lisboa”.

“Ao longo dos seus livros construiu dezenas de personagens, mas nota-se sempre uma ternura maior pelos personagens femininos. Está de acordo?”

Sim, sim. No caso dos meus romances, os personagens femininos são aqueles que eu mais quero, que eu prefiro. Os homens, nesses romances, são sempre, ou quase sempre, não diria pobres diabos, mas gente menor… No “Levantado do Chão” os homens têm ainda força (talvez devido a uma espécie curiosa de machismo alentejano que vai desaparecendo em favor de uma força crescente das mulheres, de geração para geração). No “Memorial do Convento, repare, à frente da Blimunda, não há Baltasar que se aguente… O Ricardo Reis, ao pé de Lidia, é apenas, um pobre heterónimo…

E no caso da “História do Cerco de Lisboa”?

Aí, a força está nas mulheres… Claramente das mulheres. Isto não é uma atitude feminista – deve-se ao facto de eu crer que elas são realmente, fortes, que têm muito para dar. E porque eu gosto muito delas… Acho que, para não cair na frase “la femme est l’avenir de l’ homme” – que é uma coisa mais vazia do que à primeira vista se possa pensar ou dizer – eu penso que elas têm mais autenticidade e mais generosidade que nós. Valem mais que nós, homens. Na verdade, daquilo que é substancial e essencial na vida, aprendi pouco com homens e aprendi muito com as mulheres. Não por idealizações. É o ser humano inteiro, aquilo que elas são… Bom, algumas, eu sei, não são nada disto…”

AINDA OS JACARANDÁS



Quando fiz a pequena viagem pelos jacarandás de Lisboa, andei à procura de um poema que um dia encontrara num blogue.
Com bastante pena minha não encontrei o apontamento onde escrevi o nome do blogue.
Hoje, como muitas vezes acontece, à procura de uma outra coisa, fui encontrar o tal apontamento.
O poema tinha-o lido no blogue “Sorumbático” de Carlos Medina Carreira.
É um poema inédito, oferecido por Manuel Magro, a Carlos Medina Carreira.
Como entendo que todo o tempo é tempo de jacarandás, aqui vai o poema:

"Na cidade de Lisboa
plantei mil jacarandás,
de azul floriram em Junho
e em Outubro de lilás.

Disto dei nova a el-rei,
quando ainda era rapaz,
o rei me mandou de volta
quatro mil jacarandás.

Por toda a parte os plantei:
em beco, rua, avenida,
Lisboa toda se ufana
de se ver assim florida.

Garrida de azul-lilás
já passada a primavera,
ai, só eu era capaz
de fazer o que fizera.

Quando me for deste mundo,
em descanso e boa-paz,
plantem sobre a minha campa
quatro mil jacarandás,
aqueles que o rei me deu
quando ainda era rapaz,
e mandem forrar Lisboa
toda de azul e lilás. "

ON THE ROAD AGAIN



Durante um razoável par de anos uma boa parte dos fans de Willie Nelson andaram a chatear-lhe a cabeça para que cortasse as tranças, uma das suas imagens de marca. O velho Willie nunca lhes fez a vontade.

Para espanto geral Willie Nelson apareceu agora de tranças cortadas, explicando aos jornalistas que, cortou as tranças qundo quis e não quando os fãs prtendiam, por muito que os estime.

Acabou por criar um outro dilema: os que gostavam de Willie Nelson com tranças, detestam o novo visual do cantor.

Mas outra coisa não seria de esperar do personagem que, sempre fez o que muito bem lhe deu na gana. Inclusive uma canção chamada “Crazy” que, há muitos anos, compões para um labrego que a recusou e a que Patsy Cline chamou-lhe um figo, gravando-a em Agosto de 1961, tornando-se um dos seus maiores êxitos.

“Se a América tivesse apenas uma voz, essa seria a de Willie Nelson", disse um dia Emmylou Harris.

O carisma de Willie Nelson percorre as estradas da América, chamam-lhe “the highwayman” e não troca o autocarro onde vive, o seu “Honeysude Rose II” ,pela cama do melhor hotel da América.

“As minhas melhores canções nasceram na estrada, ao volante. É quando a minha mente está mais limpa, aberta, receptiva. Se depois me esquecer da melodia, é porque a canção não era boa.”

Por cima da cama, tem uma placa onde se lê: “Aquele que nasceu na estrada deve morrer na estrada.”


Quando foi preso, em 1994, por posse de marijuana, comentou em relação ao polícia que o prendeu: “decididamente este “chui” não é meu fã.”


Quando lhe perguntam como consegue fazer tantos concertos por ano, estar envolvido em tanta coisa, responde: “Não gosto de estar parado.”


Também lhe perguntam quando pensa retirar-se e ele vai dizendo: “Tudo o que faço é tocar música e jogar golfe. De qual das duas coisas querem que eu desista?”


Gosto de música country.



Os entendidos dizem que a música é quase pimba, as letras, são ridículas, sentimentalonas, reaccionárias, por vezes, mas tudo isto junto dá um resultado que me agrada. 

E se Willie Nelson é um dos expoentes da Country Music encontram aí a razão porque gosto de Willie Nelson, com ou sem tranças. 

Mesmo quando desata a fazer duetos com toda a malta da CBS, não sei se por gosto seu, ou exigência da CBS. 

Nem o Julio Iglesias escapou!


quarta-feira, 28 de julho de 2010

DA CULTURA


Opúsculo com as várias intervenções sobre “Situação Cultural Portuguesa”, que tiveram lugar no Teatro Vasco Santana em Lisboa, em 14 de Março de 1977 e organizadas pelo “Movimento Unitário de Trabalhadores Intelectuais Para a Defesa da Revolução”.

Participações de Luiz-Francisco Rebelo, José Saramago, João de Freitas Branco.

Da intervenção de José Saramago:

“O que importa é que antes do 25 de Abril sabíamos que não podíamos esperar nada dos governos fascistas, a não ser repressão política, repressão económica, repressão cultural. Sabíamos que só podíamos contar uns com os outros. Lutávamos todos juntos contra eles, e eles lutavam contra nós. De repente, vem o 25 de Abril e houve um tempo em que tudo pareceu realmente possível. Houve um tempo em que tudo pareceu tão possível que foi possível fazer-se uma quantidade de coisas que hoje o não são. Foi o tempo do “negregado gonçalvismo”, foi, digamos tudo, um tempo em que o dinheiro não era muito também, mas em que se entendeu que algum desse pouco dinheiro havia de ser para a Cultura em Portugal, para a Cultura cujas portas estávamos tentando abrir.”

A HORA DAS NOVELAS

Banda sonora da novela “O Casarão”

Canções do disco:

Só Louco – Gal Costa
Menina do Mato – Marcio Lott
Carolina – Aquarius
Coisas da Vida – Rita Lee
Capricho – Nara Leão
Flor de Liz – Djavan
Nuvem Passageira – Hermes Aquino
Fascinação – Elis Regina
Tangara – Coral Som Livre
O Casarão – Dorival Caymmi
Latin Lover – João Bosco
A Dor A Mais – Francis Hime

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...



Ontem, quando aqui contei que abri o livro “Os Poemas Possíveis” de José Saramago, com uma faca própria para abrir livros, que também servia para abrir as cartas, quando havia cartas, quando as pessoas, por escrito se correspondiam, lembrei-me de uma velho texto de Jorge Listopad publicada na sua coluna “Secos &Molhados” que, durante anos, manteve na última página do “Diário de Notícias”.

Essas notas, essas fichas, foram, mais tarde, reunidas em livro, que Listopad também titulou como “Secos Molhados”.

É dele que transcrevo “O Caso da Faca de Papel”:

De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem leitor que fui. A faca de papel.
Hoje em dia são raros os livros que precisam de faca para abrirem as páginas; os livros vendem-se já com as páginas cortadas. Sem dúvida, a leitura é mais cómoda. Ganhe-se em tempo o que se perde por outro lado: em “controle” de que o livro “foi” aberto e não é apenas uma prenda platónica ou um ornamento de biblioteca; em higiene e, sobretudo, no sentimento de sermos nós os primeiros a abrir as páginas do mistério do novo mundo que cada livro representa, fechado. Sem esquecer que esse tempo de trabalho manual, habitualmente acompanhado de umas primeiras paragens de leitura supragiagonal, mas quão impressiva, representa um contacto físico e quase amoroso com o papel impresso que é mais do que isso.
A ferramenta fora de uso morre. A faca de papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura.

terça-feira, 27 de julho de 2010

OS POEMAS POSSÍVEIS



Os Poemas Possíveis

José Saramago
Colecção Poetas de Hoje nº 22
Portugália Editora, Julho de 1966 

No momento em que soube da morte de José Saramago fiquei sem capacidade para dizer alguma coisa a quem quer que  seja, eu incluído.

Bem tentamos, mas nunca estamos preparados para a morte. 

Principalmente a morte daqueles de quem muito gostamos.

Entendi, então, que a minha homenagem passaria pela simplicidade de colocar, aqui, a capa do primeiro livro que li de José Saramago, "Os Poemas Possíveis” e trazer as últimas palavras de “As Intermitências da Morte”. 

Nada mais.

Decidi depois, em cada dia, ir apresentando todos os seus livros. Sem entrar em grandes detalhes, os detalhes de quem é, apenas, um leitor e nunca um crítico.

Com “Caim” a apresentação chegou ao fim.

Mas tenho que voltar ao princípio, a Os Poemas Possíveis”.

Foi na “Livraria Portugal”, naqueles escaparates que ainda hoje estão ao meio da sala do rés-do-chão, que topei, pela primeira vez, com o nome de José Saramago.


Estávamos em 1966, tinha então 21 anos, e não fazia a mínima ideia quem era José saramago, tão pouco dele ouvira falar. Mas o livro que olhei fazia parte de uma colecção de prestígio: “Colecção Poetas de Hoje” da "Portugália Editora”.

Folheei o livro e do que fui vendo nascia um sentimento de gosto e prazer.


Houve tempo para passar os olhos pela “Fala do Velho do Restelo ao Astronauta”, mais dois, três poemas, mas a decisão foi apenas uma: estava com a minha gente.

E tudo começava logo no primeiro poema do livro:

“Até ao Sabugo”

“Outros porão em verso outras razões,
Quem sabe se mais úteis e urgentes,
Mas ninguém se refaz a natureza,
E como quem prevê acusações,
Aqui direi que busco a só maneira
De todo me encontrar numa certeza,
Leve nisso ou não leve a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes.”


Ainda hoje o livro tem o preço escrito a lápis pelo livreiro: 40 escudos.

E era daqueles que, gostosamente, se tinham de abrir com uma faca. O quanto lamentei quando os livros passaram a dispensar o exercício desse prazer, demorando os olhos pelas páginas que se iam revelando e até o livro estar aberto por completo. Só depois a leitura começaria.

Foi assim que começou a minha josésaramaguite aguda.

Feliz do leitor que, por si só, descobre um autor que desconhece, que sem qualquer tipo de ajuda passa a gostar de alguém que, ainda não saberá, um dia será Prémio Nobel da Literatura.

Se isto não é a felicidade, eu andei por lá perto!

Fiquei à espera de outros livros, mas outras descobertas foram acontecendo.



O meu pai era assinante da “Seara Nova”, e no nº 1459 referente a Maio de 1967, deparo com uma crítica de José Saramago ao romance “A Execução” de Júlio Moreira.

Num livro, publicado em Abril de 2010, pela “Editorial Caminho”, e que reúne a correspondência trocada, durante os anos de 1959 e 1971, entre José Rodrigues Migueis e José Saramago, Saramago escreve a Migueis:


“Sabe que fui promovido a crítico literário? E da “Seara”, ainda por cima, que é coisa fina (…) Abri a boca, de puro pasmo.(…) e eu honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões contra: falta de preparação de grau universitário, pouco tempo disponível, ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. (…) Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que, à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.”

(Carta datada de 8 de Maio de 1967)


Quem me conhece, sabe que nutro por José Saramago um gosto e uma admiração que vão para além da simples relação autor/ leitor.

Óbvio que nem tudo o que José Saramago escreveu, ou disse, ou atitudes que tomou, ou polémicas que manteve, alguma coisa não me provoque reparo, mas de modo algum, ofusca a imagem que dele faço: de um homem de rara personalidade, de braço dado com um brilhante escritor.

Do que de Saramago há aqui pela casa, irei revelando: os livros que outros escreveram sobre a sua obra, entrevistas, opusculos, o enorme dossier que fui organizando ao longo dos tempos e, acima de tudo, olharei as páginas riscadas de todos os seus livros.


Por aqui continuará José Saramago.

Para que a homenagem possa prosseguir.


Legenda: Fotografia da página da “Seara Nova” com a crítica de José Saramago ao livro “A Execução” de Júlio Moreira

BAILES DA VIDA

Este disco é de um “Baile da Vida”, penso eu, do Carnaval de 1976.
Nesse ano tocou interminavelmente.
Devem lembrar-se de "Bilu Tetéia", da autoria de Mauro Celso, e que tinha esta letra castiça:

“Quando eu era criança
mamãe dizia:
bilú, bilú, bilú... bilú teteia
Pegava eu no colo
mostrava pra vizinha:
bilú, bilú, bilú... bilúzinho tetéia.
dizia que gracinha:
bilú, bilú, bilú... bilú teteia.
O tempo foi passando
e eu fui crescendo
bilú, bilú, bilú... bilú teteia
E de fazer bilú
mamãe foi se esquecendo
bilú, bilú, bilú... bilú teteia
Agora eu estou moço
estou barbadinho
não encontro ninguém
pra me fazer um bilúzinho
Bilú, bilú, bilú... bilú teteia
Brincava de casinha
Ninguém dizia nada
bilú, bilú, bilú... bilú teteia.
E a filha da vizinha
era minha namorada
bilú, bilú, bilú... bilú teteia
Agora eu estou moço
não tenho liberdade
bilú, bilú, bilú... bilú teteia.
Pra fala rcom a vizinha
é uma calamidade
Se eu quiser um bilúzinho
tenho que fazer sozinho
Bilú, bilú, bilú... bilú teteia”


segunda-feira, 26 de julho de 2010

CAIM


Caim

José Saramago
Editorial Caminho, Lisboa, Setembro de 2009

Depois da graça, do humor de “A Viagem do Elefente”, não era crível que Saramago voltasse a um tema polémico como o que desenvolve em “Caim”. 

Mas isso é não conhecer José Saramago, o agitador de ideias, o sadio provocador, o ateu emperdenido como gostava de se chamar:

”Desde há muitos anos que eu venho dizendo que a Bíblia tem umas quantas histórias mal contadas”.

Concretamente “Caim” tornou-se mais polémico, não propriamente pelo tema em si, mas por algumas afirmações que Saramago proferiu em Penafiel, aquando da apresentação do livro e que criaram, um acontecimento mediático, um pequeno vendaval, entre os suspeitos do costume, a maior parte nem o livro lera e sucederam-se as incompreensões, as resistências, ódios velhos.


Numa entrevista Saramago disse:

“Uma polémica que, no fundo, não tem grande sentido. Se não fosse a requintada sensibilidade da Igreja em certos casos - outros há em que não teve nenhuma - isto não teria acontecido. Tive a ingenuidade de supor que a Igreja Católica não se ia meter nisto, porque era o Antigo Testamento. Como digo, e eles não negam e as sondagens ou inquéritos confirmam, os católicos não lêem a Bíblia. Quando muito, lêem o Novo Testamento, e algum mais curioso, ou mais amante da beleza de textos, irá ler o Cântico dos Cânticos, os Salmos e pouco mais. Era o que eu pensava que ia acontecer e não se compreende que pessoas tão habituadas à diplomacia secreta, como é a da Igreja, saltem à arena mal o livro saiu, tomando como pretexto as declarações que fiz em Penafiel. Só que o que disse em Penafiel já o tinha dito antes, que [a Bíblia] não é livro recomendável às crianças. Mas isso não quer dizer nada, os protestantes da facção evangelista são educados na interpretação literal - se é literal não é interpretação, é aquilo que lá já está - e é por aí se regem.
O teólogo Hans Kung disse sobre isto uma frase que considero definitiva, que as religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros. Só isto basta para acabar com isso de Deus. Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?”, perguntou.“Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca."


“Caim” fica como a última grande polémica de José Saramago: 


“ O ser humano inventou Deus e depois escravizou-se a ele. Porque é que Deus recusou o sacrficio de Caim? Esta pergunta não tem resposta."

É também o último livro de José Saramago.

Como foi divulgado, logo após a sua morte, ficaram umas 20 ou 30 páginas de um romance que o autor estaria a escrever, sobre a violência da guerra, e que nem título ainda tinha.

Talvez numa qualquer arca possam existir papeis, cartas, alguma coisa que mereça a divulgação pública e que, até agora, se desconhece. 

Tanto quanto se pode sabe, José Saramago era um escritor disciplinado, organizado e que nada deixava ao acaso.

Vamos esperar pelo assentar da poeira.

“Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a Adão e Eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden, a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outro animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo.”

domingo, 25 de julho de 2010

O CADERNO


Este é o primeiro livro de José Saramago que a Editorial Caminho” publica, fazendo parte, juntamente com outras editoras, dessa coisa que dá pelo nome de “Leya”.

Por um tempo, que não posso precisar, li uma entrevista do escritor chileno Luís Sepulveda em que dizia: 

“Há cada vez menos editores de verdade e cada vez mais managers que vendem livros como se fossem batatas ou bananas. Eles não falam de livros mas de produtos. Não falam de letras mas de números. Não falam de leitores mas de compradores. Com “yuppies à frente das grandes editoras, geram-se situações canalhas. Oferecem menos dinheiro aos escritores e chantageiam-nos, dizendo-lhes que não faltam escritores que queiram publicar.”

Bom, mas isto é uma outra história…


Com “O Caderno” José Saramago entra no reino da blogosfera, “a págima infinita da blogosfera", como afrimou.

“O blog vai iluminando o caminho do seu autor, é essa a sua virtude”, lê-se na contra capa.
“Comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim o que vier a talhe de foice.”

Assim é: este 1º volume, publicado em Março de 2009, reúne textos escritos entre Setembro de 2008 e Março de 2009.


 O 2º volume , publicado em Janeiro de 2010, reúne textos escritos entre Março de 2009 e Novembro do mesmo ano.

O 2º volume contém o prefácio que Umberto Eco, escreveu para a edição italiana destes cadernos.

Umberto Eco lembra que Saramago mantém um blog “onde se mete um pouco com toda a gente, atraindo sobre a sua pessoa polémicas e excomunhões vindas de muitos lados – mas frequentemente não por dizer coisas que não deve dizer, mas porque não perde a medir as palavras – e talvez o faça mesmo de propósito.” (…) e afinal Saramago não faz cerimónias, ou seja, não o manda dizer por outro e, na sua actividade de comentador da realidade que o rodeia, tira a desforra sobre toda a imprecisão sinistra das sua fábulas.”

A seguir fica o primeiro “post” de “ O Caderno”, escrito em 17 de Setembro de 2008:

“Mexendo nuns quantos papéis que já perderam a frescura da novidade, encontrei um artigo sobre Lisboa escrito há uns quantos anos, e, não me envergonho de confessá-lo, emocionei-me. Talvez porque não se trate realmente de um artigo, mas de uma carta de amor, de amor a Lisboa. Decidi então partilhá-la com os meus leitores e amigos tornando-a outra vez pública, agora na página infinita de internet e com ela inaugurar o meu espaço pessoal neste blog.
Palavras para uma cidade
Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses…
Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas.
Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.
O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que frequentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.
Talvez não seja possível falar de uma cidade sem citar umas quantas datas notáveis da sua existência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o pecado de glorificação… Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de auto-complacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria.
Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. Mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: “Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam” – e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto… Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um “dia da raça”, e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje.
Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “…cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada – sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.

MEMÓRIAS

A mexer em papeis, fui dar com esta nota do Talho do Francisco, que regista que, no dia 25 de Janeiro de 1997, foram entregues, na "Tasca da Mariazinha", 13,700 kgs de Osso Buco”, que era uma das especialidades da casa.
Naquele tempo o quilo do osso buco estava a 900$00 (4,50 euros), nos dias de hoje está a 7,50 euros (1.500$00).

AINDA OS CROMOS DO MUNDIAL



O Mundial de Futebol da África do Sul já acabou há duas semanas, mas a loucura dos cromos ainda perdura. O negócio também.

Aos domingos de manhã, no Mercado da Ribeira, há uma Feira de Coleccionadores, que abrange, entre outras, a medalhistica, a filatelia, a numismática, a relojoaria, a cartofilia.
Mas à porta do Mercado havia hoje, e por mais alguns domingos continuará a existir, um nicho de troca, compra e venda de cromos do Mundial.

A Dona Amélia já terá encontrado o Nam Song-chol?

Mais uma vez, se nota que, os pais, os tios, os avós, são os mais interessados no assunto.

Reparem no puto de óculos escuros que, indiferente às trocas e baldrocas, olha, possivelmente, para algo mais interessante.

Só ele sabe o quê!

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS



Encontrado dentro de uma velha revista.
Uma churrasqueira, algures, na cidade, nos arredores, onde calhar.
Se alguém souber onde, dê o informe. Seja como fôr um achado de nome.
Um final de tarde, um vinhito gelado, Sinatra, em fundo, a cantar "Summer Wind"

sábado, 24 de julho de 2010

A VIAGEM DO ELEFANTE



A Viagem do Elefante

José Saramago
Editorial Caminho, Lisboa, Outubro de 2008.

António Mega Ferreira, num texto que intitulou “A Viagem Continua”, faz uma interessante abordagem a este livro de José Saramago, Mega Ferreira que diz que nem todos os livros de Saramago são para o seu gosto, excepção a “Memorial do Convento” ,“O Ano da Morte de Ricardo Reis” e, agora, “A Viagem do Elefante”:

“Uma história magistralmente contada, numa jubilação de escrita que é quase como um renascimento, depois das sombrias cogitações alegóricas dos seus últimos livros. Nada nos diz que este livro não seja tão só um feliz interregno (digamos, um “scherzo) entre dois andamentos “agitati” na vasta obra de Saramago. Mas cheira-me que não: aos 86 anos, fiel a si próprio e ao seu gosto pela escrita (é verdade, escrever para ele não é nem angústia nem catarse, Saramago refundou-se. Renasceu. E há, no seu admirável romance, um tom de reconciliação com a vida (e com os homens) que traz à memória alguns dos momentos mais altos da sua obra.” Li, nos últimos dias, que este é “o seu melhor livro depois do Nobel”.
A “Viagem do Elefante” é, pura e simplesmente, literatura. E é excelente.”
.

José Saramago escreveu, a quase totalidade de A Viagem do Elefante”, depois de uma gravíssima doença que o acometeu durante o ano de 2007.

Na habitual dedicatória, Saramago escreveu:

“A Pilar, que não deixou que eu morresse.”

O brasileiro Viegas Fernandes da Costa lembra:

“Há quem diga que a carícia da morte devolve-nos uma leveza e um certo humor que perdemos com o transcorrer dos anos”.

O livro relata a viagem de um elefante, presente de casamento do rei Dom João III e Dona Catarina a Maximiliano de Áustria, de Lisboa a Viena.

Puro divertimento, uma alegria interior que fica a bailar, quando fechamos o livro.

Começa assim:

“Por muito incongruente que possa parecer a quem não ande ao tento da importância das alcovas, sejam elas sacramentadas, laicas ou irregulares, no bom funcionamento das administrações públicas, o primeiro passo da extraordinária viagem de um elefante à áustria que nos propusemos narrar foi dado nos reais aposentos da corte portuguesa, mais ou menos à hora de ir para a cama. Registe-se já que não é obra de simples acaso terem sido aqui utilizadas estas imprecisas palavras, mais ou menos. Deste modo, dispensámo-nos, com assinalável elegância, de entrar em pormenores de ordem física e fisiológica algo sórdidos, e quase sempre ridículos, que, postos em pelota sobre o papel, ofenderiam o catolicismo estrito de dom joão, o terceiro, rei de portugal e dos algarves, e de dona catarina de áustria, sua esposa e futura avó daquele dom Sebastião que irá a pelejar a alcácer-quibir e lá morrerá ao primeiro assalto, ou ao segundo, embora não falte quem afirme que se finou por doença na véspera da batalha.”

À MESA COM A HISTÓRIA

"À Mesa Com A História"é um livro, póstumo, do Dr. Manuel Guimarâes (1938-1997).
No prefácio Carlos Consiglieri lembra-o como autor e realizador do programa da televisão “Vamos Jogar no Totobola”, desde 1990 a 1993,, das crónicas publicadas no “Correio da Manhã”, no “Diário de Notícias”, ou na “Capital”, onde manteve uma página semanal de gastronomia.

Este é o pedacinho de um capítulo de "À Mesa Com a História" de Manuel Guimarães:

“Também já não há´malgas de marmelada nos Outonos das nossas cidades. A vida moderna encarrega-se de destruir, no espaço de duas ou três décadas, uma assistência familiar personalizada, assente na figura da “Mãe” que, entre outras coisas, garantia uma alimentação diferente em cada casa de família.
Os mais velhos recordam, por certo, os comeres da infância. Aqueles dias perfumados de fazer marmelada. A cor, a transparência e o mistério da gelei que os mais pequenos perguntavam, intrigados, donde vinha e como era possível.
Mas tudo isso se foi, num ápice, na voragem da industrialização.
E nem por isso somos mais felizes.”

MEMÓRIAS


Uma ida a Benfica, para uns tremoços com amigos, fez-me lembrar o restaurante “A Travessa do Rio”, onde alguma vezes, almocei com o Dr. Manuel Guimarães. Ouvi-lo falar sobre comida, outras coisas, era um prazer, que não consigo pôr em palavras. Coisas que ficam cá dentro e, pensar nelas, como diz a canção, trás sempre uma lágrima ao canto do olho.

Gostava que o arroz, qualquer um, fosse mesmo malandrinho, comia-o com uma colher e de olhos fechados.

Trabalhámos na Junta de Benfica.

 A meio da tarde, um intervalo para uma bujeca no bar da piscina. 

Histórias e mais histórias e a alegria com que falava do “Congresso das Sopas”, que todos os anos se realiza em Tomar, e de que foi obreiro e incansável dinamizador. 

Ficámos de lá ir um dia mas, por isto ou por aquilo, nunca se concretizou. 

Mas um dia terá que ser: porque há muitas maneiras de encontrar os amigos que partiram.



“A Travessa do Rio” tem na sua ementa diária, um “Bacalhau à Dr. Guimarães”, que é uma homenagem a este homem da cultura, da gastronomia, do turismo, a um amigo do coração.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

AS PEQUENAS MEMÓRIAS



As Pequenas Memórias

José Saramago
Editorial Caminho, Lisboa, Outubro de 2006

Durante alguns anos, em entrevistas e outras conversas, José Saramago foi falando de um livro, que pensava escrever e que já tinha título – “O Livro das Tentações”.

Passaram os anos e esse tal livro, finalmente, apareceu, mas com outro título: “As Pequenas Memórias”.

Nele conta as recordações da sua vida que decorrem entre os quatro e os quinze anos: 

“Sim, as memórias pequenas de quando fui pequeno, simplesmente. "Queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou".E de memórias, ou recordações, do resto da sua vida disse, então, que nada mais haveria a escrever.

“As Pequenas Memórias” é um livro comovente, sensível, tocante, de uma escrita fácil porque Saramago não quis fazer literatura.

"São fragmentos, cada momento é um momento em si, o tempo pode andar para trás ou para a frente. Mas o que pode parecer desconexo, arbitrário, creio que ficará organizado na cabeça de quem lê. A nossa infância explica muito o que nós somos”.

De como um miúdo, que dormia no chão, comia a sopa do mesmo prato que a mãe, uma colherada para ti, outra para mim, que vivia ,com os pais, por Lisboa em partes de casa, que ansiava pela chegada do Verão, para poder ir de férias para a Azinhaga do Ribatejo, para junto dos avós Josefa e Jerónimo, das oliveiras, dos bácoros, que teve de abandonar os estudos para ir trabalhar, no fundo, vivências que lhe marcaram a personalidade, “se eu não tivesse vivido aquela infância não seria exactamente este que sou.”

“Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados por pessoas que neles houvessem estado presentes, se é que não falariam, também elas, por terem ouvido contar a outras pessoas. Não é esse o caso daquela escolinha particular, num quarto ou quinto andar da Rua Morais Soares, onde, antes de termos ido viver para a Rua dos Cavaleiros, eu comecei a aprender as primeiras letras. Sentado numa cadeirinha baixa, desenhava-as lenta e aplicadamente na pedra, que era o nome que então se dava à ardósia, palavra demasiado pretensiosa para sair com naturalidade da boca de uma criança e que talvez nem sequer conhecesse ainda. É uma recordação própria, pessoal, nítida como um quadro, a que não falta a sacola em que acomodava as minhas coisas, de serapilheira castanha, com um barbante para levar a tiracolo. Escrevia-se na ardósia com um lápis de lousa que se vendia em duas qualidades nas papelarias, uma, a mais barata, dura como a pedra em que se escrevia, ao passo que a outra, mais cara, era branda, macia, e chamávamos-lhe «de leite» por causa da sua cor, um cinzento-claro, tirando a leitoso, precisamente. Só depois de ter entrado no ensino oficial, e não foi nos primeiros meses, é que os meus dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas.”

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...

O “palhinhas” já era.

Ainda os há em plástico mas, aos poucos, também eles vão desaparecendo.

Nos supermercados, nas grandes superfícies, deixaram de existir e apenas os vamos encontrando nas lojas que, algumas cooperativas vinícolas, vão mantendo nos bairros de Lisboa.

Sou do tempo em que se ia para a praia de Algés ou da Cruz Quebrada de garrafão de vinho tinto, pratos e canecas de esmalte – ainda não os havia de plástico - o tacho de arroz de pimentos,

embrulhado em jornais, pasteis de bacalhau e melão.

Para lá da Cruz Quebrada ficava a “linha” e não era, diga-se, politicamente correcto, aparecer de garrafão de tintol ao pé das madames e dos cavalheiros e também porque para essas finuras de praias não havia eléctricos ou autocarros.

Os garrafões de 5 litros estão a ser substituídos por aquilo que se chama “bag-in-box” - um saco completamente estanque inserido numa caixa de cartão com uma torneirinha acoplada. É essa embalagem de 3, 5 ou 15 litros que agora encontramos nos supers e nos hipers.

É prático e seguro, dizem.

No fundo fica apenas a imagem fugidia daqueles verdes, muito verdes anos, em que, aos domingos, apanhávamos, em Sapadores, o “12”, até Algés, os cestos com a comida, o “palhinhas”, ainda o balde e a pá, para umas míseras horas à beira-mar e depois um regresso lento, triste.

Ficar à espera do domingo seguinte, para voltar a olhar o rio, as barracas de pano com tiras coloridas, os toldos, a mulher dos bolos, o homem dos pirolitos, o cabo do mar e a proibição de jogar à bola, aqueles fatos de banho que a moral salazarenta impunha a homens, mulheres e crianças.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE


As Intermitências Da Morte

José Saramago
Editorial Caminho, Lisboa, Outubro de 2005

"No dia seguinte ninguém morreu.”

Assim começa “As Intermitências da Morte” de José Saramago.

“De Deus e da Morte não se tem contado senão histórias, e esta é mais uma delas.”

Duas citações encontradas, aquando da leitura do livro.


Herberto Helder:

“Morrer era agora a minha liberdade, e eu tinha a vida inteira para executá-la pormenorizadamente.”.

A um químico do futuro, exige Maiakowski:

“A primeira coisa que farás é ressuscitar-me, a mim que tanto amava a vida.”

No catálogo, “José Saramago: A Consistência dos Sonhos”, pode ler-se:


“O escritor referiu-se assim a este romance: “A pergunta é: o que aconteceria se fôssemos eternos? Se a morte desaparecesse de repente, se a morte deixasse de matar, muita gente entraria em pânico: funerárias, seguradoras, lares de terceira idade… E isso para não falar do Estado, que ficaria sem saber como pagar as pensões(…) a imortalidade seria um horror.”

Sem a morte, “um dia aquele dia que sempre chega” a vida e o mundo seriam um caos. Porque "sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja" diz a determinada altura o cardeal.


De "As Intermitências da Morte" diz Maria Alzira Seixo, que é “um romance divertido, pois que nos pode dar maior satisfação do que rir à custa da morte, a única coisa no mundo que não faz rir ninguém, a não ser em esgar ou exorcismo?”

quarta-feira, 21 de julho de 2010

DON GIOVANNI


Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido

José Saramago
Editorial Caminho, Lisboa, Março de 2005

José Saramago considera “Don Giovanni” de Mozart uma ópera capaz de o pôr “de joelhos, rendido, submetido.”

Ao desafio de Azio Corghi para a escrita de um libreto, José Saramago dá a volta ao mito de Don Giovanni, humanizando-o e apresenta um sedutor seduzido, explicando no “Prólogo”, que antecede a peça:


“Comecei por argumentar que sobre as malas-artes de Don Giovanni tudo havia sido dito, que não valia repetir o que outros já tinham feito melhor, que qualquer coisa que escrevesse seria o mesmo que chover no molhado, etc…. Era certo que sempre havia pensado que Don Giovanni não podia ser tão mau como o andavam a pintar desde Tirso de Molina, nem Dona Ana e Dona Elvira tão inocentes criaturas, sem falar do Comendador, puro retrato de uma honra social ofendida, nem de um Don Octávio que mal consegue disfarçar a cobardia sob as maviosas tiradas que no texto de Lorenzo da Ponte vai debitando. Azio Corghi insistiu, e então, em desespero de causa atraído pelo desafio, mas ao mesmo intimidado pela responsabilidade da empresa, disse-lhe que se ocorresse uma ideia, uma ideia boa, o intentaria. Passou o tempo, meses. Azio perguntando, e finalmente a ideia surgiu. Suspeito agora de que não será tão boa quanto ao princípio me tinha parecido, mas o resultado aí está. O pano já pode subir. Faltará a música, que é sempre o melhor de tudo. Oxalá o leitor possa escutar, chegando bem o ouvido à página, aquela outra música que as palavras têm e que estas talvez não talvez não tenham perdido por completo.”

Urbano Tavares Rodrigues:


“Um humor constante, uma ligeireza de gestos, palavras e ditos de espírito que ultrapassa a habitual ironia trágica de José Saramago, para nos proporcionar um divertimento inteligente, são os traços dominantes desta curta peça de teatro, aliás libreto para a música da ópera de Ázio Corghi, inspirada (contestando-a briosamente) no sublime Dom Giovanni de Mozart. Mais uma vez José Saramago tira da sua cartola mágica duas ideias astuciosas, em que mais ninguém pensou nem pensaria: a de que o sedutor impenitente não será castigado e o porquê dessa alteração da história, que reside na estratégia do roubo do livro (que denuncia os nomes de todas as vítimas do seu furor erótico) e a prostração que tal quebra na aura do supremo conquistador vai operar, permitindo a Zerlina dele fazer, num grande golpe de teatro, o seu amante monogâmico.”

“Don Giovanni: Que queres que faça contigo?
Zerlina: É tempo de que eu te conheça e me conheça a mim.
Don Giovanni:: E Masetto?
Zerlina: Não amo Masetto, amo-te a ti.
Don Giovanni: Tremem-me as mãos. Este não é Don Giovanni
Zerlina: “Este é Giovanni, simplesmente. Vem
(Saem abraçados. A estátua do Comendador cai desfeita em pedaços.)

Masetto em conversa com Leporello, pergunta por Zerlina
Leoporello: Se está cá, não a vi entrar.
Masetto: Fala claro. Está ou não está?
Leporello: Já respondi. Ajudei a levar daqui o corpo de Don Octávio, que Don Giovanni matou em duelo. Não posso jurar sobre o que se passou durante a minha ausência.
Masetto: Então é verdade que Zerlina está aí dentro?
Leporello: Talvez sim, talvez não. Já te disse que não sei. Mas se ela está onde decidiu, então, caro Masetto, tira o sentido dela, não lhe tornarás a tocar nunca mais.
Masetto: Hei-de vingar-me
Leporello: Não vale a pena, Masetto, não percas o teu tempo. Deus e o Diabo estão de acordo em querer o que a mulher quer.”


O livro completa-se com um posfácio, onde a musicóloga Graziela Seminara, conta a entusiasmante aventura que se desenrola entre José Saramago e Azio Corghi ,durante a feitura de “Don Giovanni Ou O Dissoluto Absolvido”.

Uma história que merece ser conhecida, e que a autora, aquando da representação da ópera no "Teatro alla Scala" de Milão, escreveu para ser incluída no programa.
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MAIS MISTÉRIOS DO ABACAXI

Há dias no "Minipreço" o quilo do abacaxi estava a 0,79 cêntimos.
De amanhã e até domingo, no “Lidl”, vai estar a 0,59 cêntimos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ


Ensaio Sobre a Lucidez

José Saramago
Editorial Caminho, Lisboa, Março de 2004

José Saramago nunca perdeu uma oportunidade de se constituir num gerador de polémicas, de modo algum fúteis e nunca estéreis: 

“A minha especialidade é levantar uma pedra para ver o que está por baixo.”

A apresentação de “Ensaio Sobre a Lucidez”. em Março de 2004, no Centro de Congressos de Lisboa decorreu, perante milhares de pessoas, com um debate moderado por José Manuel Mendes, e que contou com a presença de José Saramago, José Barata Moura, Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa.


Disse, então, Saramago: “Estou contra o sistema que nos governa e consegui encontrar o instrumento por excelência de contestação: o voto em branco.”

“Ensaio de Lucidez”
provoca a discussão do sentido e eficácia do voto em branco que deveria ser um voto validamente expresso, e como tal considerado, em confronto ou contraste, com o poder viciado da democracia partidária.


"O voto em branco é uma arma democrática que possuímos para impedir os políticos de continuarem a brincar connosco.”, ainda Saramago.

Algures, numa não nomeada cidade, há eleições autárquicas. É grande a afluência às urnas mas, após a contagem dos votos, verifica-se que a esmagadora maioria dos votos estão em branco. Nem governo, nem políticos, nem comentadores políticos, nem jornalistas compreendem a situação e interrogam-se de como pode um povo ser tão irresponsável?

“O desencanto, a estupefacção, mas também a troça e o sarcasmo, varreram o país de lés a lés”.
O “Ensaio sobre a Lucidez", assegura Saramago, “toca um assunto que não é tabu, mas tem que ver com o exercício cívico de voto e suas consequências". Como acontece com tudo o que está à vista, acabamos por não ver" essas consequências.”

E conclui:


"Não sou pessimista. O Mundo é que é péssimo",

O livro abre com a epígrafe; “Uivemos, disse o cão.”

“A esperança reside no cão que diz: “Chegou a hora de eu uivar, e esse uivo silencioso é o protesto dos cidadãos, aqueles que têm consciência de que a democracia está ferida de morte, que vão dizer ao Poder: “Este sistema democrático não nos serve.”


Que mais afirma Saramago?


“A democracia não é um ponto de chegada, mas de partida. Quando digo que a democracia se suicida diariamente, perde espessura e se desgasta, estou a falar de um sentimento que nos afecta, a nós, cidadãos.
Que o poder efectivo real é, sem dúvida, o poder económico. Os governantes são comissários políticos do poder económico. Já não há jornais, há empresas jornalísticas, que não têm autonomia porque são propriedade de grandes industriais, da banca.”


Algures no livro:


“Falemos seriamente, senhor ministro, estará o governo disposto a acabar com a farsa do estado de sítio, mandar a avançar o exército e a aviação, pôr a cidade a ferro e fogo, ferir e matar dez ou vinte mil pessoas para dar um exemplo, e depois meter três ou quatro mil na prisão, acusando-as não se sabe de que crime quando precisamente crime não existe. Não estamos em guerra civil, o que queremos, simplesmente, é chamar as pessoas à razão, mostrar-lhes o engano em que caíram ou as fizeram cair, isso é o que falta averiguar, fazer-lhes perceber que um uso sem freio do voto em branco tornaria ingovernável o sistema democrático. Não parece que os resultados, até agora, tenham sido brilhantes, Levará o seu tempo, mas por fim as pessoas verão a luz..."

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


No dia 12 de Agosto de 1902 o “Diário de Notícias” lembrava aos visitantes da praia da Trafaria que podiam usar bilhetes de banhos de ida e volta a preços reduzidos, mas só para as carreiras da manhã.

Num daqueles inquéritos de Verão que os jornais, há uns anos, publicavam, o “Público” perguntou ao actor Rogério Samora, qual a melhor recordação de Verão da sua infância.

“As férias que passava há vinte e muitos anos numa casa de madeira azul e encarnada. Casa que a minha avó teve, a certa altura, imaginem só, na Cova do Vapor e que tinha o significativo nome de “A Alegria do Meu Neto”. Recordo os longos passeios que dava às cavalitas do meu pai numa língua de areia quase até ao Bugio.”

A imagem pertence ao filme, “Os Amantes do Tejo” de Henri Vemeuill (1954), um dramalhão-de-faca-e-alguidar ,com Daniel Gélin, Françoise Arnoul, também com a participação de Amália Rodrigues, passado em Lisboa: os bairros populares, as praias, o fado e, sobretudo, o Tejo.


Os protagonistas saem do barco que, do Cais do Sodré , via Trafaria, chegava à Cova do Vapor. Tinham nomes esses barcos: “Flecha”, “Zagaia”, “Norte-Expresso”.

Ainda me lembro da Cova do Vapor, do Bico da Areia, onde nos anos 50/60, durante o vazar da maré, se apanhavam berbigões e cadelinhas. 


Íamos, então, pela beira-mar , da Trafaria à Cova do Vapor, e regressávamos com os sacos cheios.

A Costa da Caparica era, então, um extenso e belo areal com grandes dunas.

Depois começaram a tirar dali areia, para colocarem nas praias do Estoril.

O mar começou a não encontrar obstáculos e acabou por galgar a terra.

Hoje, por ano, gastam-se milhões de euros para defender, o que é possível ainda defender, o que , em tempos foi, uma das maiores praias da Europa.

BAILES DA VIDA

À procura de artistas e discos dos meus “Bailes da Vida”, fui dar com este.

Claro que a rapaziada do meu tempo se lembra desta canção que, lê-se na contra-capa do disco é “o grande êxito mundial do momento, lançado em Portugal por Henrique Mendes na “Onda do Optimismo”.

“É um bikini pequenino às bolas Amarelas”, na versão portuguesa que penso que era cantada pela Celly Campelo, mas não tenho bem a certeza.


Ainda há dias, no dia 5 de Julho, o jornal “Público” referia a invenção do biquíni, no ano de 1946., como o acontecimento mais importante do século XX, a seguir à bomba atómica. Quem o disse foi Diana Vreeland, directora da revista americana “Vogue”.

Volto aos livros do século que o “Expresso” anda a publicar:


“Em 1946, um ex-engenheiro de automóveis, apresenta na piscina de Molitor, em Paris, uma invenção sua… um fato de banho de duas peças a que dá o nome de uma ilha do Pacífico famosa na época pelos ensaios nucleares aí realizados: Bikini.
Revelando o umbigo, uma parte da anatomia feminina até aí reservada à intimidade, o biquíni (como os portugueses viriam a designá-lo mais tarde) tem o efeito de uma verdadeira explosão atómica. Por isso, serão precisos quase 20 anos para que possa ser adoptado pela maioria das mulheres.”
Alguns países chegaram a proibir o uso do biquini e, em Portugal como não podia deixar de ser,, essa proibição demorou bem mais que 20 anos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O HOMEM DUPLICADO




O Homem Duplicado

José Saramago

Editorial Caminho, Lisboa Outubro de 2002

“O Homem Duplicado” foi escrito e publicado num tempo em que muito se falava de clones e clonados.

Foi uma leitura difícil. Pela primeira vez comecei um livro de Saramago e não o acabei. Fui-o lendo, aos poucos, muito demoradamente e sempre com pouco entusiasmo.

Há quem pense que José Saramago só poderia escrever grandes livros. Felizmente que assim não foi. Não seria possível…tão pouco interessante.

Grosso modo, o livro conta a história de Tertuliano Máximo Afonso, um vulgar professor de História, divorciado, cansado da vida, sem distracções, nem interesse por elas. Um dia aceita a sugestão de um colega, e aluga um filme.

Repara então que um dos actores, António Claro, é uma cópia fiel da sua pessoa: voz, aparência, gestos, tudo. E decide descobrir a identidade da sua cópia, que vive na mesma cidade, mas não no mesmo bairro.

O livro é esse caminho insólito de Tertuliano até encontrar António, a sua duplicação.

Eduardo Prado Coelho, numa crítica ao livro, publicada no “Público” de 9 de Novembro de 2002, curiosamente, foi buscar uma velha história de Alfred Hitchcock:

“Que é um MacGuffin?
Um homem num comboio interroga outro homem sobre um pacote que tinha colocado na bagageira da carruagame. O outro responde, apontando o pacote: “Ah, isso é um MacGuffin.” O primeiro pergunta: “Mas o que é um MacGuffin?” O outro diz: “É um aparelho que serve para caçar leões nas montanhas de Adirondack.” “Mas não há leões nas montanhas de Adirondack”, observa o primeiro. Ao que o segundo retorque: “Então não é um MacGuffin.”
Donde um MacGuffin é qualquer coisa que não é verdadeiramente nada, mas que passa a sustentar um segredo. E o segredo é o que move o protagonista.


José Saramago diz:

“No fundo, o que eu quero abordar é o tema do “outro”. Se o “outro” é como eu, e o “outro” tem todo o direito de ser como eu, pergunto-me: até que ponto é que eu quero que esse “outro” usurpe o meu espaço? Nesta história o “outro” tem um significado que nunca antes teve. Actualmente no mundo entre “eu” e o “outro” há distâncias, e não é possível superar essas distâncias, e por isso cada vez menos o ser humano pode chegar a um acordo. Cerca de 95% das nossas vidas é obra dos demais. No fundo, vivemos num caos e não há uma ordem aparente que nos governe. Então a ideia-chave do livro é que o caos é um tipo de ordem por decifrar. Com este livro proponho ao leitor que investigue a ordem que há no caos.


Na contra-capa de “O Homem Duplicado” pode ler-se uma máxima do “Livro dos Contrários”:


“O caos é uma ordem por decifrar.”

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI



Na Lisboa do principio dos anos 60, a oferta de Música Clássica deixava muito a desejar e, naturalmente, a “Amazon” era algo que ainda não tinha nascidona cabeça de um qualquer galáctico.

O meu pai tinha um gosto muito grande pelas “Danças Guerreiras do Principe Igor”.

As Danças Polovetsianas, fazem parte da ópera “Principe Igor”, abertura e quatro actos, de Borodin, que a não chegou a completar, tendo sido Rimsky-Korsakov que se dedicou a esse trabalho.


O interesse do meu pai não residia na ópera em si, o que, realmente o empolgava eram as Danças Guerreiras.

A única versão que, então, conseguiu encontrar foi da "Deutsche Grammophon", a Orquestra Filarmónica de Berlim dirigida por Ferenc Fricsay. Mas tinha um óbice: era apenas tocada.

E durante mais uns anos o meu pai prosseguiu a procura das danças com coros.

Num cair de tarde de Outono, lembro-me como se fosse hoje, entrou triunfante pela casa dentro: “já cá cantam”! 

E num ápice, eu e o meu avô, estávamos a ouvir as Danças Guerreiras, com coros. Simplesmente empolgante!

Com este disco passa-se um outra história deliciosa: no lado B está “El Amor Brujo” de Manuel deFalla. 

Uma noite, no cabaret “Olimpia”, ao lado do cinema com o mesmo nome, viu uma streapper espanhola dançar a “Dança Ritual do Fogo” e ficou encantado. 

Pela música e pela bailarina.

 A música adquiriu-a, a bailarina foi à vida dela.

O chamado 2 em 1: Borodin e Falla.

.O disco tem a lindíssima capa que podem ver. no topo.

Trata-se de uma gravação da "Decca," a Orquestra Filarmónica de Londres, dirigida por Anthony Collins e os coros dirigidos por Frederic Jackson.

Este disco marca, também ,a primeira peça de Música Clássica que entrou lá em casa sem ser da “Deutsche Gramophon”.

UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

Crónica de Manuel António Pinho no “Jornal de Notícias” de 16 de Julho de 2010:

“Noticia o JN que Rui Rio mais os seis vereadores da coligação PSD/CDS que manda na Câmara do Porto chumbaram uma proposta do vereador Rui Sá, da CDU, no sentido de ser atribuído o nome de José Saramago a uma rua da cidade.
Não custa a crer que Rio e os "seus" vereadores estejam a ser injustamente acusados de mesquinhez e que a responsabilidade do sucedido caiba, sim, ao vereador Rui Sá.
Com efeito, este terá dado por assente que Rio e o PSD/CDS soubessem quem foi José Saramago, não tendo tido o cuidado de lhes explicar tratar-se de um escritor português recentemente falecido, Prémio Nobel da Literatura (o único Nobel da língua portuguesa).
Se o tivesse feito, decerto Rio exclamaria "Ah, sim? Não me diga!", logo votando favoravelmente a proposta, seguido em ordem unida por todo o pelotão PSD/CDS.
Quando, daqui a uns anos, Rui Rio (quem?) for recordado como um camarário do tempo de Saramago que tentou impedir que o seu nome fosse dado a uma rua do Porto (assim como um tal Sousa Lara ficou conhecido por ter censurado "O Evangelho segundo Jesus Cristo"), era bom que se contasse a história toda.”


Legenda: Ilustração de João Caetano para o livro de José Saramago “A maior Flor do Mundo
Faz parte de um conjunto de postais comprado, em Julho de 2008, aquando da Exposição "José Saramago: A Consistência dos Sonhos", que esteve patente no Palácio da Ajuda.

domingo, 18 de julho de 2010

A MAIOR FLOR DO MUNDO


A Maior Flor do Mundo

José Saramago
 Ilustrações de João Caetano
Editorial Caminho, Lisboa  Março de 2001.

José Saramago é bem capaz de ter boa parte de razão, quando diz que, quem o quiser conhecer tem mesmo de ir aos “Cadernos de Lanzarote”.

No 4º volume, respondendo a um inquérito dos alunos da Escola Secundária da Golegã”, escreve:

“Finalmente e vou dizer-lhes que não sei escrever para crianças, que quando eu próprio fui criança mão me interessavam muito o que chamamos “histórias infantis”, o que eu queria era saber o que diziam os livros para gente crescida." 

Já em “A Bagagem do Viajante” abordara a questão das Histórias para Crianças, e é a essas páginas, que vai buscar o âmago de “A Maior Flor do Mundo”, um livro com lindíssimas ilustrações de João Caetano, e, que se saiba, a única incursão de Saramago pela literatura infantil.


“As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crianças, sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas. Quem me dera saber escrever essas histórias, mas nunca fui capaz de aprender e tenho pena. Além de ser preciso escolher as palavras, faz falta um certo jeito de contar, uma maneira muito certa e muito explicada, uma paciência muito grande – e a mim falta-me pelo menos a paciência do que peço desculpa.”.
A deliciosa e bonita história termina com um desafio ao pequeno leitor:

“Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?”
E na contra-capa, como não podia deixar de ser, deixa uma provocação:

“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?”

Este livro deu origem a um filme de animação feito por Juan Pablo Etchevery e Chelo Loureiro, que vivem na Galiza, e para o qual Emilio Aragon compôs a música.

  “Eu próprio apareço nele, de chapéu e bastante favorecido na idade”, escreveu Saramago nos seus "Outros Cadernos."

O filme pode ser visto aqui.

sábado, 17 de julho de 2010

A CAVERNA


A Caverna

José Saramago
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 2000

A 14 de Setembro de 1997, escreve José Saramago no 5º volume dos seus Cadernos de Lanzarote:

“... e à entrada de Lisboa, quando passávamos debaixo do primeiro viaduto interrompi o que ela estava a dizer-me: “Espera, acabei de ter uma idéia.” À nossa frente, sobre o lado direito, um enorme painel publicitário anunciava a próxima inauguração do Centro Comercial Colombo. Uma ideia de quê?”, perguntou Maria José. “Aquilo”, respondi, “talvez esteja ali um livro.” “O anúncio?” “Não propriamente o anúncio.” “Então?” “Não te posso dizer mais, foi como um relâmpago que me tivesse atravessado.” “Como em outras vezes...” “Talvez, quem sabe...” Os caminhos pareciam multiplicar-se dentro da minha cabeça. “Podia chamar-se “O Centro”, murmurei.”

Mas em vez de "O Centro", o livro viria a chamar-se "A Caverna"


Na crítica que Linda Santos Costa publicou no Público” de 11 de Novembro de 2000:, o livro é: “a denúncia da alienação do homem através do tempo da aldeia comunitária em que domina o trabalho artesanal à sociedade de consumo impessoal e desumanizante.
A acção é dominada pela figura do oleiro Cipriano Algor que circula entre os dois mundos (a aldeia, onde vive e trabalha, e o Centro, onde vai vender o produto do seu trabalho) e o que põe em movimento a narrativa é a recusa, por parte do Centro, de continuar a receber e vender os seus produtos.”


José Saramago: “É uma história de perdedores cuja única vitória é que não se entregam ao triunfador. É a revolta possível, mas sem, ela não poderá haver outra. A derrota definitiva seria a submissão, e mesmo assim não devemos esquecer que as gerações se sucedem, mas não se repetem. Assim como de insubmissos podem nascer submissos, também dos que se submeteram poderão nascer os que haverão de se revoltar. Não diria exactamente sobre a globalização, mas sobre essa fatalidade económica que faz com que venha um momento em que já não somos necessários”.Pedro Mexia, numa crítica no “Diário de Notícias”, s/d, disse tratar-se “de um requiem pelo comércio tradicional com reflexões infantis sobre o capital e o trabalho que não estão isentas. Como o autor nos diz, de “simpatia de classe”, quando na verdade estamos diante de uma litania reaccionária contra a tecnologia e o progresso.”


Pedro Correia, no blogue "Delito de Opinião": 


...deixei-o a meio, farto de tanto ataque primário ao capitalismo.

Um extracto de A Caverna:

As sentidas razões de queixa de Cipriano Algor contra a impiedosa política comercial do Centro, extensamente apresentadas neste relato de um ponto de vista confessada simpatia de classe que, no entanto, assim o cremos, em nenhum momento se afastou da mais rigorosa isenção de juízo, não poderão fazer esquecer, ainda que arriscando um espevitar inocente da adormecida fogueira das conflituosas relações históricas entre o capital e o trabalho, não poderão fazer esquecer, dizíamos, que o dito Cipriano Algor carrega com algumas culpas próprias em tudo isto, a primeira das quais, ingénua, inocente, mas, como à inocência e à ingenuidade tantas vezes tem sido maligna das outras, foi pensar que certos gostos e necessidades dos contemporâneos do avô fundador, em matéria de produtos cerâmicos, se iriam manter inalteráveis per omnia saecula saeculorum ou, pelo menos, durante toda a sua vida, o que vem a dar no mesmo, se bem reparamos.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...

Antigamente estas balanças encontravam-se pelas ruas de Lisboa, também nos cafés e cinemas.
Hoje, poucos são os cidadãos que, em casa, não têm uma balança para poderem acompanhar o evoluir da linha, e aos poucos foram desaparecendo.
Esta encontra-se na antiga Rua Eugénio dos Santos, hoje das Portas de Santo Antão, junto ao Palácio da Independência, quase em frente da "Ginginha Sem Rival".
"Pesagem com saída de bilhete"
Atenção só intruduza a moeda com o disco completamente parado."
Deixei o disco parar completamente. Introduzi a moeda de 0,50 cêntimos: NADA!
O peso já sei qual é, a médica de família mandou-me emagrecer 10 quilos, mas estava interessado no conselho que o cartãozinho que, como nos velhos, traria impresso...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

FOLHAS POLÍTICAS


Folhas Políticas
1976-1998

José Saramago
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 1999

De José Saramago sabemos as opiniões políticas de antes do 25 de Abril, também as opiniões naquele Verão Quente de 1975.

Por Julho de 1977, José Saramago, passa colaborar no semanário “Extra”, com uma coluna de opinião a que chamou “Novos Apontamentos”

A “Caminho” convence-o a reunir em livro esses textos, juntamente com outros, que Saramago foi publicando em diversos jornais e revistas. Como habitualmente não se mostrou muito receptivo à ideia, pois não via qualquer interesse em “revolver uma poeira que ninguém, qualquer que seja o espaço partidário, em que se situa ou em que se veio situando desde então, parece interessado em levantar do mofo da nossa história política recente.”

Não conseguiu resistir e, depois de ligeiras rectificações em alguns textos, de não ter incluído outros textos que escreveu, o livro acabou por sair e chamou-lhe “Folhas Políticas” (1976-1978).

Não quis, porém, em pequena nota explicativa, deixar de advertir:

“Não vai faltar quem me acuse de que alguns destes textos são desapiedados e injustos, que, tendo sido já politicamente inoportunos e impertinentes na própria época em que foram escritos, muito mais o vêm a ser agora, e que, argumento final, não é atitude das mais prudentes e sensatas da minha parte, considerando que todos temos os nossos «telhados de vidro», reabrir as chagas que o tempo, melhor ou pior, teve a caridade de cicatrizar. Disso, como do resto, pensará cada um o que quiser, e por isso responderá.

Em todo o caso, creio que estas Folhas Políticas, de cuja honradez cívica não reconheço a ninguém o direito de duvidar, levam dentro verdades suficientes para que sejam capazes de defender-se sozinhas, sem ajuda.Nem sequer a minha”.


Dos textos que José Saramago entendeu não publicar neste volume, inclui-se uma crónica publicada no “Extra “de 15 de Setembro de 1977. 


Intitulou-a “A Festa” e reproduzo, aqui, os dois primeiros parágrafos:

Se o leitor é comunista, leia. Se é socialista (convicto ou desiludido), leia. Se está em qualquer lado da esquerda, nessa pulverização que só nos faz mal a todos, por que não lerá? E se é da direita (ou da fraude chamada centro, que direita é) também nenhum mal lhe fará passar os olhos por esta prosa. Não por ser minha (Não sou homem de vaidades assim, mesmo que não me faltem outras), mas porque tudo quanto for dito sobre a matéria de hoje ainda será pouco, e eu só ajudo. Claro que a ressalva se dirige igualmente a quantos leitores pela esquerda se arrumem e tenham olhos para ver, entendimento para julgar e boa-fé para não cair na injustiça.
Falo da festa, assim escrevendo a palavra simplesmente, sem a retórica da maiúscula, porque foi uma grande vitória e das grandes vitórias só se deve falar com simplicidade. Falo do verdadeiro plebiscito que representou o ajuntamento de meio milhão de pessoas numa terra que há dois meses era mato, lixeira e desolação. Falo da alegria, da fraternidade, da gentileza, falo SOS sorrisos maravilhados e maravilhosos que as pessoas mostravam umas às outras e talvez a si próprias. Falo de um povo tantas vezes acusado de grosseiro, de mal educado, de inculto ( pois claro), de analfabeto (ora essa), e que durante três longos breves dias comemorou no Vale do Jamor a grande festa da amizade, do respeito mútuo e da sensibilidade. Falo de uma gente que é costume do Governo insultar agora de preguiçosa, de relapsa ao trabalho, e que ali demonstrou, com o esforço de todos os músculos do corpo e do espírito (o espírito tem músculos, sim senhor, ai dele se não os tivesse), uma capacidade de trabalho e de imaginação que irremediavelmente faltam às cansada comemorações oficiais ou oficiosas de qualquer coisa, sela ela vaga, onda ou bochecho. Falo de pessoas que trabalham se acreditam no que fazem, mas que com legitimidade se interrogam sobre o destino da riqueza que produzem e que não querem continuar a ser os provedores da bolsa de capitalistas e latifundiários. No que, digo eu, fazem muito bem.”