domingo, 31 de outubro de 2010

CINZENTO NOVEMBRO



Amanhã entramos em Novembro.
Cava fundo em Novembro para plantares em Janeiro
De Santos ao Natal é bom chover e melhor nevar
Dos Santos ao Natal é um salto de pardal
No dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho
Novembro à porta, geada na horta
Tonel mal lavado, vinho estragado
É o 11º mês do ano e tem 30 dias.
No dia 1 o Sol nasce às 07h 03m e ocaso verifica-se às 17h 37m.
No dia 30 o Sol nasce às 07h 35m e o ocaso verifica-se às 17h 07m.
Durante o mês de Novembro o dia diminui 52 m.
As mulheres nascidas em Novembro têm um carácter franco e irrequieto, coração excelente e sentimentos delicados; são entusiastas e curiosas, vivas, impressionáveis, arreebatadas e independentes. Amam o trabalho e sabem mandar, ainda que muito presumidas. Começam por ser alegres, mas terminam melancólicas e românticas.
Os homens nascidos em Novembro têm espírito activo e entusiasta. Muito expansivos são sociáveis, constantes nas suas afeições, conseguindo amigos com facilidade; trabalhadores tenazes, empreendedores e muito prudentes. Dotadso dum temperamento vigoroso e de grande agilidade gostam dos exercícios físicos e de desporto.
Incensos – eucalipto
Pedra – granada
Metal – ferro
Cor – vermelha
Na horta semear agriões, alfaces de inverno, ervilhas de Outono, favas e rabanetes.
No jardim plantar bolbos de várias flores, roseiras e arrancar plantas que já deram flor.
Um mês que começa com sombras. Todos os Santos. Finados.
A pergunta que Tolstoi põe num Ivan Ilitc moribundo: “onde é que eu estarei, quando já cá naõ estiver?”
Aquele momento em que alguns dizem que há algo para lá e os que, pura e simplesmente, dizem que não há nada.

Mário de Sá-Carneiro

“Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro”
.
Faltam 55 dias para que seja Natal.

BAILES DA VIDA


Estes dois fizeram parte dos Bailes da Vida. E que parte!
Por aqui o Johnny catat vinte e quatro mil beijos, tutti frutti, amar-te-ei loucamente, era um biquíni pequenino às bolinhas amarelas e a Sylvie se eu canto é por ti, ouvindo a chuva, a mais bela para ir dançar.
Grandes músicas, grandes dias.
A propósito deles tenho um recorte do "Diário de Lisboa" de 16 de março de 1967:
“Vinte e uma cadeiras partidas, manifestações transbordantes de entusiasmo durante mais de duas horas e um serviço de ordem interno e externo reforçado (que não chegou a intervir) assinalaram, ontem à noite, a apresentação conjunta, no “Olympia”, do casal Smet, mais conhecido pelos nomes de Sylvie Vartan e Johnny Hallyday.”

GOSTOSURAS OU TRAVESSURAS?


Halloween: de 31 de Outubro para 1 de Novembro.

Bruxas, fantasias, guloseimas, fantasmas, partidas, abóboras, mistério.

A fabulosa noite de Halloween em “Meet Me in St. Louis, filme de Vincente Minnelli.

Katya Delimbeuf explica o porquê de Halloween:

“Os celtas acreditavam que, nessa noite, as almas dos mortos regressavam aos sítios onde tinham vivido à procura de corpos para possuir para o ano vindouro. Como os vivos não queriam ser alvo de tal “privilégio”, apagavam as fogueiras de suas casas, mascaravam-se e saíam ruidosamente para a rua, desfilando e deixando atrás de si um rasto de destruição, para asustar os espíritos. Será essa a origem da tradição que faz com que hoje milhares de miúdos se mascarem e saiam à rua em busca de “doces ou travessuras” (“trick ot treat”). Conta-se também que o Halloween marcava, no século V, o fim do Verão na Irlanda céltica. O ano agrícola terminava com a última colheita, armazenavam-se as provisões para o Inverno e celebrava-se o Samhain (fim do Verão). O costume foi importado para os Estados Unidos por imigrantes irlandeses em 1840, aquando do período de fome provocado pela crise da batata. Aí passou a ser conhecido como o Dia das Bruxas. Às portas das casas americanas penduram-se abóboras com olhos, nariz e boca e uma vela acesa no interior, em jeito de lanterna”.

Dos Estados Unidos a tradição voltou à Europa, para se transformar em negócio, e motivo para as pessoas se juntarem, comerem, beberem, rirem e, se, para aí estiverem voltados, honrar os seus mortos. O Grupo Jantarista das Últimas Sextas-feiras do Mês, por uma noite de Halloween, jantou de chapéus pretos enfiados na cabeça. Alguém disse que com o dinheiro gasto nos chapéus se teria comprado mais umas garrafas de espumante.

Feliz Halloween!

POSTAIS SEM SELO


 “Aos domingos eu o meu irmão íamos ver e “ouvir” os jogos de futebol do Benfica no seu campo, lá ao fundo jardim. Não havendo dinheiro para os ingressos, íamos e ficávamos cá fora a seguir o desenrolar do jogo. Os golos do Benfica chegavam ao nosso conhecimento pelo clamor da multidão. Não sabíamos era se o adversário tinha marcado, já que esses golos eram sublinhados naturalmente com o silêncio da Assistência.”
António Cartaxo em “Quase Verdade Como são Memórias”, Edições Colibri Dezembro 2009
Legenda: Joaquim Teixeira a dificultar a intervenção do célebre João Azevedo. Era o 154º Benfica-Sporting e disputou-se no Campo Grande, em 9 de Abril de 1943. À esquerda reconhece-se Julinho. Ganhou o Benfica por 2-1.
Imagem tirada de “100 Anos de Lenda”, Edição do “Diário de Notícias”, 2004

CORRER ATRÁS DO TEMPO



Daqui a pouco, quando forem 02:00 horas, os relógios serão atrasados uma hora.
A hora muda porque o tempo deixa que isso aconteça.
Mas um tempo que definitivamente não é nosso porque nunca o podemos recuperar.

sábado, 30 de outubro de 2010

OLHAR AS CAPAS


Uma Longa Viagem com José Saramago

João Céu e Silva
Fotografias: João Céu e Silva
Porto Editora, porto, Março de 2009


E porque todo o livro deve ser uma tese este não fugirá à regra: José Saramago é o escritor que saiu da gaveta com o 25 de Abril de 1974. Não foi o escritor de grandes obras guardadas para serem publicadas quando o regime mudasse, porque até então fizera os mesmos versos de que qualquer português poderia ser autor, mas um homem que foi fermentando na sua cabeça – e em alguns escritos do período formativo que se prolongou por décadas de vida – uma escrita vigorosa e inventiva, que veria a luz do dia pela força das contradições que a democracia em construção fez explodir. Se Portugal tivesse seguido ido pelo caminho que José Saramago e os seus camaradas do Partido Comunista Português lutavam, o escritor que havia em José Saramago poderia ter sido morto, mais uma vez, à nascença, mas a vitória de outras correntes políticas e a dispersão do voto nacional por outras opções de governação resultaram num abrupto fim de percurso de fazedor de opinião pública em troca de um ganhar a vida através da literatura. E foi assim que o escritor que durante o regime de Salazar não pudera ir mais além, por não sentir receptividade para as suas propostas literárias, nem vontade para continuar a escrever para a gaveta, aprontou a terra para plantar em definitivo os grãos de um campo de livros que foram sendo colhidos ao longo de três décadas e ainda continuam a sê-lo.

OLHARES


A Câmara Municipal de Lisboa, o responsável do pelouro é José Sá Fernandes, continua a licenciar publicidade nos edifícios em obras, contra os pareceres negativos do Igespar.
Este prédio na Rua Garrett, esquina com a Rua Anchieta, é o último exemplo.

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI

 Um disco que arrepia, dizia o meu pai cada vez que lhe pegava.
No seu entender não seria fácil voltar a juntar, num só disco, gente de tanto gabarito: Beethoven, David Oistrakh, Mstislav Rostropovich, Sviatoslav Richter, Herbert Karajan dirigindo a a Orquestra Filarmónica de Berlim
Uma das jóias da coroa da discoteca da casa.
O meu pai haveria de gostar de saber que David Oistrakh,  recusou uma recepção da Marquesa do Cadaval, para ir ao Estádio da Luz ver o Benfica e o Eusébio. Marquesas do Cadaval há muitas espalhadas pelo mundo, Eusébio é que só aquele.
A história conta-a o José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus “Dias Comuns”
“O incomparável violinista soviético David Oistrakh está em Lisboa. E ontem, depois de um concerto triunfal no Império, foi convidado para uma recepção em casa da Marquesa do Cadaval.
O russo porém recusou e preferiu ir assistir a um desafio de futebol em que jogava o Eusébio – hoje o português mais conhecido em todo o mundo pela maneira como joga à bola.
- O Choskatovich ainda gosta mais de futebol do que eu – confidenciou o genial violinista não sei a quem.”
A marcar a página do livro do Zé Gomes, está um velho anúncio do “Diário de Notícias” de 16 de Agosto de 1968 dando conta da participação de Igor Oistrakh, filho de David Oistrakh, no XII Festival de Sintra no dia 19 de Agosto de 1968.
Fica aqui como mera curiosidade

IDÍLIO EM BICICLETA


“O músico David Byrne é um fanático da bicicleta. Para todo o lado onde viaja leva a sua (que hoje em dia é um modelo dobrável). Escreveu um livro, Bicycle Diaries, onde fala de várias cidades do mundo, vistas da sua bicicleta. Há capítulos sobre Nova Iorque, Berlim, Londres, Buenos Aires, Sydney ou Manila. Mas as cidades mais interessantes, diz o vocalista dos Talking Heads, são as que não têm condições para bicicletas, como Roma (e ele nunca pedalou em Lisboa!)
“Sinto-me mais ligado à vida nas ruas do que se estivesse dentro de um automóvel ou um transporte público”, escreve o músico. “Ocorreu-me que as cidades são manifestações físicas das nossas crenças mais profundas, dos nossos pensamentos muitas vezes inconscientes, não tanto como indivíduos, mas como os animais sociais que somos”. Vista de uma bicicleta, a cidade é uma espécie de retrato vivo e a três dimensões da complexidade da mente humana. “É como navegar pelas fibras neuronais de um enorme cérebro global. É realmente uma viagem no interior da psique colectiva”.
E é também, diz ainda David Byrne, um exercício de auto-contemplação e meditação, e a melhor forma, para um artista, de obter inspiração para criar."

Texto de Paulo Moura tirado daqui

Fotografia de Idilio Freire

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

SARAMAGUEANDO


Numa carta, datada de 8 de Maio de 1967, José Saramago diz a José Rodrigues Migueis:

Sabe que fui promovido a crítico literário? E da Seara, ainda por cima, que é coisa fina. Eu conto: Aqui há meses telefona-me o Costa Dias a dizer que queria falar comigo. Que era, que não era, e vai daí vem o convite. Abri a boca de puro pasmo. Encontrámo-nos, e eu, honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões Contra: falta de preparação e de grau universitário, pouco tempo disponível ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. A nada o Costa Dias se moveu. Que eu sou um sujeito assim, que eu sou um sujeito assado, e por aí fora. Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número, escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.

José Saramago publica a sua primeira crítica na Seara Nova no nº 1459 referente a Maio de 1964, e a última aparece no nº 1476, referente a Outubro de 1968.

Numa crítica a O Ser e o Ter de José Marmelo e Silva, e publicada na Seara Nova nº 1472, referente a Junho de 1968 escreve:

José Marmelo e Silva há-de vir a dar muitas dores de cabeça aos historiadores da nossa literatura. Entretanto, vai incomodando os críticos encartados ou aqueles que, como nós, sem carta nem diploma, vão fazendo o que podem para dar conta do que lêem aos leitores de boa fé.

José Saramago, para além das acima referidas, colocou como assustada condição não fazer crítica de livros de poesia.

Enquanto crítico da Seara Nova debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís: 

“As Relações Humanas” e  “Homens e Mulheres”. 

Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”.

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar “génio” a Agustina Bessa Luís.
 
A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus “Dias Comuns”:
“Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).

Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?”

Abordando um outro livro, “Eva” de Sá Coimbra, Saramago considera-o, entre outras coisas, “uma oportunidade perdida” O autor (”sou um homem do foro e estou habituado à análise critica das provas antes de condenar…”) dirige-lhe uma carta querendo saber dos porquês da análise de Saramago. Na volta o crítico diz: “Valerá a pena responder? Então se eu tenho chamado obra-prima ao livro de Sá Coimbra ele perguntar-me-ia também porque?"  Acaba por colocar o seguinte ponto final na história:

“O ponto final é mesmo um ponto final. Tenho outras críticas a fazer (mas valerá a pena?) e Sá Coimbra outros romances a escrever. Marco um encontro a Sá Coimbra para daqui a vinte anos. O mais certo é estarmos ambos esquecidos. Não nos demos, pois, demasiada importância…”

A última crítica de José Saramago na “Seara Nova”,  aborda dois livros: “O Despojo dos Insensatos” de Mário Ventura e “O Delfim” de José Cardoso Pires.

Sobre a crítica ao livro de Cardoso Pires há-de escrever, a 22 de Julho de 1994, um texto que consta do Vol. II dos “Cadernos de Lanzarote”:

“Agora eis-me perante os fantasmas de opiniões que expandi há quase trinta anos, algumas bastante ousadas para a época, como dizer que Agustina Bessa Luís “corre
o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”. Apesar da minha inexperiência, e quanto sou capaz de recordar, creio não haver cometido grossos erros de apreciação nem injustiças de maior tomo. Salvo o que escrevi sobre “O Delfim” do José Cardoso Pires: muitas vezes me tenho perguntado onde teria eu nesse momento a cabeça, e não encontro resposta…”

Hoje, relida a crítica, percebe-se o espanto de Saramago ao” não saber onde tinha a cabeça” quando se debruçou sobre “O Delfim” .

Conhecendo-se o Saramago de então, não é fácil encontrar motivos para não ter entendido (?) o que Cardoso Pires queria com o livro.

Só Saramago nos poderia responder, e nunca o fez claramente.

Uma boa altura para lembrar o estafado "ninguém é perfeito!" 

Legenda: Mário Dionísio, José Cardoso Pires e José Saramago na Avenida da Liberdade, em Lisboa, por ocasião de uma manifestação pacifista.

Fotografia de Luis Ochoa, “Expresso”.

CORPOS DE DELITO


“Não tenho por costume folhetinizar em episódios estas crónicas (como o taoista, chamo-lhes assim porque não sei que nome têm e posto que tenho que chamar-lhes alguma coisa), mas as declarações do "porta-voz oficial da PSP" ao DN acerca da detenção de quatro raparigas e um rapaz da JCP que pintavam um mural na Rotunda das Olaias, em Lisboa, talvez justifiquem, na sua exemplaridade novilinguística, uma excepção.
A PSP considera naturalíssimo e "decorre[nte] das medidas cautelares de polícia" que duas das jovens detidas (menores, tudo o indica) tenham sido obrigadas a despir-se completamente na esquadra. Porque tudo terá tido, pelos vistos, a maior pureza de propósitos: fazer-lhes uma "revista sumária" (imagine-se o que será uma "revista completa") à procura de "armas, de fogo ou brancas" ou "produtos cujo transporte pode ser considerado crime, nomeadamente drogas".
Dir-se-ia, pois, que é rotina da PSP, de modo a pôr a nu todas as suspeitas possíveis sobre comuns cidadãos "conduzidos à esquadra", pedir-lhes o BI e mandá-los logo pôr-se em pelota. Talvez seja, mas, a crer no que se passou, será só com jovens raparigas, já que, no caso, os agentes se dispensaram de qualquer actividade por assim dizer investigatória no corpo do rapaz. Aparentemente, nem as mochilas do grupo terão sido revistadas. Só os corpos das jovens.
Há-de ter havido um bom motivo para isso. Talvez até mais do que um.”

Manuel António Pina no Jornal de Notícias” de hoje

FEITOS NUM OITO!...


Do "Público" de hoje:

O “gesto” pedido por Teixeira dos Santos ao PSD surgiu esta manhã: Pedro Passos Coelho afirmou que “a aprovação do Orçamento” é um “pequeníssimo degrau da escalada” necessária para evitar “problemas maiores”.

Comportam-se como crianças no pátio da escola.

A sobrevivência de milhões de portugueses é algo que não lhes tira o sono nem lhes impede a diarreia mental.

Não estão preocupados com os problemas do país, preocupam-se apenas com os seus próprios interesses.

BAILES DA VIDA



Ficava muito mal no retrato se não trouxesse para estes bailes o meu amigo Daniel Bacelar.
Ontem passaram cinquenta anos sobre a edição do primeiro disco do “ié-ié português, onde juntamente com “Os Conchas”, aparece o Daniel Bacelar.
Uma canção do Daniel rodava nos Bailes da Vida: “Marcianita”.
Em almoços de amigos, quando de pede ao Daniel para cantar “Marcianita” ele. fica pele de galinha.
A voz do Daniel é como o Vinho do Porto: ganhou com a idade, e é uma pena que ele ainda não se tenha abalançado a um concerto no “Maxime”, como tantas vezes os amigos lhe têm pedido.
Pode ser que seja um dia.
Fui buscar a letra da “Marcianita” porque, nos almoços do “Ié-Ié, quando nos pomos a cantar em coro desafinado, ninguém sabe a letra completa. A começar por mim. Imperdoável!

"Esperada, marcianita,
Asseguram os homens de ciência
Que em dez anos mais, tu e eu
Estaremos bem juntinhos,
E nos cantos escuros do céu falaremos de amor .
Tenho tanto te esperado,
Mas serei o primeiro varão
A chegar até onde estás
Pois na terra sou logrado,
Em matéria de amor
Eu sou sempre passado pra trás.
Eu quero um broto de Marte que seja sincero
Que não se pinte, nem fume
Nem saiba sequer o que é rock and roll.
Marcianita, branca ou negra,
Gorduchinha, magrinha, baixinha ou gigante,
Serás, meu amor
A distância nos separa,
Mas no ano 70 felizes seremos os dois."

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

BAILES DA VIDA


Se não sabem, ficam a saber que estes rapazes ajudaram a que os tempos de muita gente fossem tempos diferentes.
Os Conchas eram o Zé Manel e o Fernando que, infelizmente, já nos deixou e de que ninguém fala.
Onde eles actuavam a raparigada da rua deslocava-se e em coro cantava-se o “Oh! Carol!”, “Adão e Eva”, “Somos Jovens” e até o Let’s Twist Again”.
O delírio naqueles anos 60, uma saudade, uma amizade nunca esquecida.
Hoje passam 50 anos sobre a gravação do 1º disco do “Ié-Ié” português em que aparecem “Os Conchas” e também o Daniele Bacelar. Ver aqui,
Estes rapazes foram mesmo dos meus Bailes da Vida.

OLHAR AS CAPAS


Le Bassin de John Wayne seguido de “As Bodas de Deus

João César Monteiro
Capa de João Vieira
&etc, Lisboa 1997

“CENA 06

Cenário: Jardim do Convento, Exterior, diua,
Personagens: João de Deus, Madre Bernarda, Freiras.
João de Deus e a madre Bernarda estão sentados num banco ao fundo do jardim. Sai fumo da chaminé da cozinha do convento e ouvem-se os risos das irmãs, que folgam. Uma freira serve-lhe dois cálices de licor.
João de Deus: E a Joana?
Madre Bernarda: Um amor-perfeito. Raparigas assim são raras nos tempos que corem. Serve crianças no refeitório da paróquia a ainda nos dá uma ajuda nos trabalhos do convento.
A madre Bernarda levanta-se e passeia nos jardins com João de Deus.
Madre Bernarda: Eu sei que não acredita em milagres, mas não esqueço o dia em que, trémula de frio, Joana me apareceu pela primeira vez. Parecia um espectro saído de um campo de concentração. Que força a mantinha viva? A transfiguração é maravilhosa, não haja dúvida. Os prodígios de Deus não cessam de nos surpreender.
João de Deus: A César o que é de César, a Deus o que é de Deus.
Madre Bernarda: Porque não vai visitá-la?
João de Deus: Prefiro não.
Madre Bernarda: Talvez se arrependa.
João de Deus: Arrepender? Esta não é propriamente uma comédia penitenciária.
O Barão tira um envelope do bolso do casaco.
João de Deus: Prefiro deixar este donativo para que não lhe falte nada em caso de aflição e para obras de beneficiação do convento. Basta uma chuvada para fazer ruir o tecto.
A freira recebe o donativo.
Madre Bernarda: Tantas notinhas! Não serão manhas de Lúcifer?
João de Deus: È dinheiro imaculado. De hora a hora, Deus melhora.
Madre Bernarda: Sede misericordioso. Sou uma mulher de pouca fé. É pena que não possamos celebrar esta dádiva à volta de um honesto cozido à portuguesa servido pela Joana. Comidinha caseira!
João de Deus: Irmã, Irmã, muito te será perdoado. Mas livra-me dessas tentações!

CENA 07

Cenário: Refeitório da Paroquia de Colares. Interior. Dia.
Personagens: João de Deus e a madre Bernarda, Joana, crianças, empregadas.
João de Deus e a madre Bernarda, sentados numa mesa posta: pão e vinho tinto.
Joana (rindo): Bom apetite.
João de Deus: Não páras de rir. Estás a rir-te de mim?
Joana: Estou a rir-me porque estou contente,
Madre Bernarda (servindo-se): Ri-se na alegria do Senhor. Abençoados sejam os pobres d espírito porque será deles o Reino dos Céus.
João de Deus: Já que é assim, esperemos que o cozido esteja de chorar por mais.
João de Deus e a madre Bernarda atacam o pitéu.
Joana continua a sua lide com a leveza graciosa de uma dançarina. As empregadas servem taças de gelado às crianças espalhadas pelas mesas do refeitório. Joana que, que transporta duas taças de gelados, aproxima-se da mesa de João de Deus e da madre Bernarda.
Joana: Desejam gelados?
João de Deus: Gelados? Nem vê-los.
Joana afasta-se.
A madre Bernarda enche os copos de vinho.
Madre Bernarda: Esta preciosidade é oferta da casa. Quem sabe se não estaremos no limiar de uma nova era? Suportámos longamente a era do abandono: Talvez estejamos a entrar na hora da hospitalidade.
João de Deus tira duas cigarrilhas e oferece uma à madre Bernarda.
João de Deus acendendo as cigarrilhas): Com a recrudescência dos fascismos à perna?
Madre Bernarda (expelindo uma baforada): Vou proferir uma blasfémia, mas como Staline dizia, o melhor fascista é o fascista morto. Para que a Besta do apocalipse não ressurja. Nunca mais.
Fazem um brinde e bebem. Joana olha para eles a rir.”

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

QUOTIDIANOS


Lisboa, Alto de Santa Catarina.
Deixou a litrosa da “Sagres” num degrau da escada, como farol.. Tapou a cabeça com o cobertor. Não liga puto ao orçamento de estado de 2011, tão pouco sabe o que é isso.
Não quer saber de mercados, de agências de ratings, por ele a pátria bem pode ir ao fundo, que quem boa cama fizer nela há-de deitar-se.
Tentará ter olhos para ver a luz da manhã e umas moedas para mais umas litrosas de “Sagres”.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS



"Cumprimentar os adversários, aceitar as derrotas, cumprir obrigações que resultam de durante dez anos ter sido primeiro-ministro e também candidato à Presidência da República” são normas que Cavaco Silva deveria conhecer. O desconhecimento levou-o a estar ausente da tomada de posse do novo Presidente da República. Não seria preciso invocar o sentido de Estado de que sempre se arrogou. Bastavam as regras mínimas da boa educação. Justificou-se afirmando que não quer voltar a ser figura pública. Veremos se cumpre.”

Da notícia da tomada de posse de Jorge Sampaio como Presidente da República em 1996 e publicada pelo “Público”

ESTE HOMEM NÃO GOSTA DE LIVROS!...


Cavaco Silva apenas percebe de números.

Mas o  Luís Contas diz que nem  de números ele percebe, que é mais a parra do que a uva.
Mas sabe-se que não lê um livro, não vê um filme, não vai a um concerto, seja de que música fôr, não bebe vinhos, não gosta de futebol, nem tem opiniões sobre o que passa por aqui , tão pouco pelo mundo.

Numa entrevista, penso que ao “Expresso”, ou à revista “Ler”, o recorte de que me sirvo não indica nem a data nem a publicação, disse Cavaco Silva:

“Leio papéis de manhã à noite. Quando chego ao fim do dia tenho uma grande dificuldade em agarrar de uma forma voluntária um livro para ler. Aproveito as férias para ler. Gosto de ler policiais. Há dias resolvi, porque mo ofereceram, ler um livro é a “Utopia” de Thomas Mann. Thomas More, corrige-me a minha mulher e bem.”
"Não li nem penso ler “O Evangelhos Segundo Jesus Cristo". Só faço as leituras que me agradam. Não me atormento com as leituras. Acho que uma leitura não pode ser para sofrer. Se eu começo a ler um livro e ao fim de umas quantas páginas eu continuo aborrecido, eu desisto do livro. De facto, eu uma vez comecei a ler um livro dele e não cheguei ao fim porque comecei a acabar um pouco maçador. E era aquele que me diziam ser um dos melhores do Saramago., Não sei se é por falta dos pontos finais, das virgulas, dos pontos e virgulas, o certo é que eu não sou um entusiasta dos livros do José Saramago.”

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

TEMPOS MEDÍOCRES


Cavaco Silva está dentro daquele saco sem fundo, onde se encontram os maiores responsáveis pela situação em que o País se encontra.

Um homem de direita, que nunca tem dúvidas e raramente se engana, e se lhe chamam à atenção para o erro, nunca o reconhece Acima de tudo porque ter ideias é um perigo, e pessoas como Cavaco Silva têm medo dos perigos e, inevitavelmente, das ideias.

O seu mandato como Presidente da República pauta-se pelo silêncio em alguns assuntos melindrosos, pela mediocridade, pela banalidade daquilo que diz, o pouco que diz, com aquela voz que causa uma irritação profunda a quem o ouve , e quando sorri, se aquele esgar que faz é um sorriso, logo vem à lembrança aquela expressão inglesa “eat shit smile”, o que traduzido à letra quer dizer um “sorriso-come-merda”.

Quando o pudor o deveria ter levado a abndonar Belém, anunciou ontem a sua recandidatura à Presidência da República.

Demagogicamente disse que vai diminuir as despesas da sua campanha eleitoral fazendo, uma campanha barata. Assim pode falar quem, há meses, anda pelo país, inaugurando isto e aquilo, com as câmaras dos tele-jornais atrás.

Para debater a crise política que se vive, anunciou que vai convocar, para sexta-feira, o Conselho de Estrado. Já o deveria ter feito há um ror de tempo. Mas isso dava muito pouco jeito.

Há quatro anos, prometendo a salvação da Pátria, disse, em sussurro que, com ele em Belém, o Governo seria melhor.

Vê-se!... 

DESORÇAMENTO


Quando se olha para os jornais e para a nossa vida de hoje, é fácil pensar que é uma sucessão de tragédias. Ainda não se sabe tudo, mas desde já se pode concluir que a situação é aterradora.

Na tentava pífia de dançarem o tango, PS e PSD andam num jogo de cadeiras e Cavaco Silva, neste momento, apenas está interessado na sua reeleição.

Ministros e secretários de estado andam num virote pelo país fora.

Alguém nos governa?

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso disse que "é importante para a vida dos portugueses" que se chegue a um acordo sobre o orçamento de Estado para 2011.

Entretanto Teixeira dos Santos foi considerado, pelo “Finantial Times”, o pior ministro das Finanças de 19 países da União Europeia. Ao ministro português foi atribuída a pior «performance» política, revelando um fraco perfil a nível europeu.

No final de Junho, segundo o Banco de Portugal,havia 630 mil portugueses com crédito vencido junto das instituições financeiras que operam em território nacional.

No ano passado, segundo o Instituro Nacional de Estatistica,21,4 por cento dos portugueses viviam em privação material, o que equivale a dizer que tinham dificuldade em pagar as renda de casa em atraso, manter a casa aquecida ou fazer uma refeição de carne ou de peixe pelo menos de dois em dois dias.

Segundo o “Diário de Notícias” são cada vez mais as famílias a precisar de apoio alimentar para sobreviver. Só no primeiro semestre deste ano mais de 300 mil pessoas recorrem ao Banco Alimentar.

Nos primeiros nove meses de 2010 venderam-se 614 automóveis de luxo, mais 4% que em igual período de 2009.

 “Este orçamento do Estado é a aceitação do desastre que tem sido a governação do país na última década. O primeiro-ministro acabou por aceitar o desastre da sua própria governação”
Henrique Neto, empresário e dirigente do PS no “Público”

terça-feira, 26 de outubro de 2010

QUOTIDIANOS



Colávamos cartazes a noite toda e inicialmente os gestos eram difíceis e estudados – a cola que escorria, os pincéis pouco largos, os cartazes finalmente que se enrodilhavam e que eram pequenos no meio das paredes dos quartéis e dos edifícios públicos, as esquinas dos prédios, passávamos a conhecer as várias luzes da noite ao longo das horas, os vários muros da cidade, os candeeiros, e na manhã seguinte olhávamos a cidade que tínhamos repovoado anonimamente com palavras, anúncios de concentrações, cores vermelhas ou amarelas, letras a preto – tínhamos derrotado por dentro mais um bocado do passado.

Eduarda Dionísio em “Retrato Dum Amigo Enquanto Falo”, Armazém das Leras, Lisboa 1979.

Legenda:  Colagens de Ana Hatherly feitas a partir de cartazes arrancados das paredes e muros de Lisboa, a seguir ao 25 de Abril.

"OBRIGANDO-OS A DESPIR-SE"




"Militantes da JCP viram, mais uma vez, ser impedida a pintura de um mural junto à Rotunda das Olaias, em Lisboa, tendo sido identificadas duas pessoas e apreendido o material usado (...).
A pintura mural (...) já tinha sido impedida dois dias antes chegando os agentes da PSP a deterem e insultarem os jovens comunistas, obrigando-os a despir-se e retendo-os durante várias horas na esquadra".
A notícia vem no "Avante!" e em numerosos blogues (alguns particularizam que eram quatro raparigas e um rapaz) e, a confirmar-se, não é surpreendente para quem conheça o que se passa hoje em certas esquadras da PSP e relatórios internacionais regularmente vêm denunciando.
 Como não surpreende que a notícia tenha singularmente "escapado" à generalidade da imprensa e das TV, mesmo àquelas que fazem dos "faits-divers" o pão nosso noticioso de cada dia e que nem aquele afrontoso "obrigando-os a despir-se" parece ter sido capaz de interessar.
Gostaria de estar certo, eu que sou um ingénuo, que o comportamento a vários títulos abusivo da PSP (a pintura de murais em locais públicos é um direito reconhecido por lei e um parecer do Tribunal Constitucional condena impedimentos ao seu exercício) e o silêncio dos media não se deve ao facto de os cinco jovens serem militantes de uma organização comunista.
Mas temo, sobretudo, o que pode significar o facto de um caso destes já não ser hoje notícia entre nós."

Manuel António Pina no “Jornal de Notícias” de hoje.

IDÍLIO EM BICICLETA


 - Custa a morrer papá?
-Não, acho que é fácil, Nick. Depende.
Estavam instalados no barco, Nick à popa e o pai a remar.
O sol aparecia por detrás das colinas. Um barbo saltou, descrevendo um arco de círculo por cima da água. Nick deixava correr a mão pela superfície líquida, quente com aquele frio tão vivo da manhã. À escassa luz da aurora, no lago, sentado à popa do barco, enquanto o pai remava, teve a certeza de que nunca havia de morrer.

Ernest Hemingway em A Aldeia Índia

Fotografia de Idílio Freire

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

OLHARES


Deitaram abaixo o Hotel Estoril Sol, em Cascais, porque era um mamarracho que bulia com a paisagem. Até se pode concordar, mas era evidente que  o motivo forte  e único, não tinha nada a ver com a paisagem , mas sim com a ganância.

No lugar de um mamarracho, a que já nos tínhamos habituado, colocaram lá um monstro.
E não é necessário ter tirado um curso de arquitecto a um domingo, para se ter a opinião de que estamos perante um verdadeiro atentado paisagístico, pata além de um aberrante mau gosto.
Como foi possível?

Simples: Money, Money!

Se existe crise no mercado imobiliário, por aqueles lados não se sente nada.

Segundo o “Expresso” já estão vendidos 93% dos 110 apartamentos do “Estoril Sol Residence”
Um T1 custa 1,2 milhões de euros e um T6 3,8 milhões de euros e 40% dos compradores são ingleses, alemães, russos, angolanos, brasileiros, que irão pagar um valor de condomínio na ordem dos 600 euros.

Conforme amostra junta, a crise só ataca os suspeitos do costume…

Legenda: Fotografia do “Público”

A HORA DAS NOVELAS


Banda Sonora de“História de Amor” (1995)

Nada Apaga Essa Paixão – Mauricio Mattar
Uma História de Amor – Fanzine
Querem meu Sangue – Cidade Negra
Desencanto – Anna Lemgruber
Minha Ambição – Loop
Só Chamei Porque Te Amo – Gilberto Gil
Saber Amar – Os Paralamas do Sucesso
Alô Alô Marciano – Elis Regina
O 40 – Faróis Acesos
Futruos Amantes – Gal Costa
Um Dia Não Outro Sim – Fernanda Abreu
Como? – Netinho
Delirando de Prazer – Veneza
Lembra de Mim – Ivan Lins

domingo, 24 de outubro de 2010

OLHARES


Lisboa, Calaçda do Combro nº 3

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...



Máquina registadora do século passado, encontrada na "Antiga Casa Marítima", Trafaria, Abril 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Jazz no Seixal de 20 a 30 de Outubro nos Antigos Refeitórios da Mundet (Entrada Livre), no Auditório Municpal e Cinema S. Vicente (Bilhetes à venda no Auditório Municpal).

IDÍLIO EM BICICLETA


A Califórnia prometida está apenas à distância de uma vida – de cada uma única vida…
As flechas de papel esbarram nas balas de desespero. Os gritos explodem em choros. O tropel dos cavalos desencadeia avalanches de rochas e terra que esmagam os pés há muito descalços. A criança que corre, espalha o fogo do seu cabelo ruivo. O vale em chamas e fumo repousa finalmente em paz. À espera da próxima vida que há-de ir mais e mais além, até passar a última colina, estender o olhar e deixar as lágrimas irrigarem o campo outrora morto.”

Texto e ilustração de Ilídio Freire

POSTAIS SEM SELO


Cada vez que oiço um discurso político ou que leio os que nos dirigem, há anos que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E visto que os homens se conformam, que a cólera do povo ainda não destruiu os fantoches, vejo nisso a prova de que os homens não dão a menor importância ao próprio governo e que jogam, essa é que é a verdade, que jogam com toda uma parte da sua vida e dos seus interesses chamados vitais.

Albert Camus, Agosto de 1937 em Primeiros Cadernos.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PEDIDO DE AUTORIZAÇÃO


Ao Governador Civil de Lisboa foi enviado um pedido de autorização de uma reunião do M.U.D. e que se realizou na “Voz do Operário”.
A ordem de trabalhos, que foi enviada ao Governador Civil, tinha os seguintes pontos:

1º – Examinar o momento político actual à luz das afirmações e conclusões da Primeira Conferência da União Nacional.
2º - Deliberar sobre as condições em que os cidadãos presentes poderão intervir na solução do problema político nacional.
A reunião terá lugar no próximo dia 30 de Novembro pelas 20,30 horas, em local a designar, e participarão nela. Somente os signatários e os portadores de bilhetes de convite assinados por qualquer dos requerentes.
Ao abrigo do disposto no nº4 do artº 8º da Constituição
Pedem deferimento
Lisboa, 22 de Novembro de 1946
a)      Mário de Azevedo Gomes
Bento de Jesus Caraça
Maria Isabel de Aboim Inglês
Fernando Mayer Garção
Luciano Serrão de Moura
Alberto Dias
Manuel Tito de Morais
António Lobo Vilela
Manuel Mendes
Mário Soares

Edição da Comissão Central do M.U.D.

Preço 2$50

Composto e Impresso “Imprensa Beleza”, Rua da Rosa, 99 a 105 - LISBOA

DOPPING



Já Joaquim Agostinho dizia que não se sobem as montanhas do Tour apenas a comer bifes.
Em Setembro de 1967, Jacques Anquetil adiantou:

“Tenho tomado estimulantes e os que pretendem nunca o ter feito são hipócritas. A lei contra os estimulantes é uma idiotice, e também é verdade que tenho comprado outros ciclistas, que paguei a Jean Stablinsky para me ajudar. E foi por falta de dinheiro que perdi a Volta a Itália."

Há uma semana oex-ciclista austríaco Bernhard Kohl, que acusou positivo num controlo antidoping na Volta à França de 2008, onde atingiu a terceira posição, assegurou que “não é possível vencer” o Tour sem a ajuda de substâncias dopantes. São 3.000 quilómetros. O equivalente a escalar o Evereste quatro vezes. Sem ajuda é impossível», afirmou Kohl

O espanhol Alberto Contador, vencedor da Volta à França deste ano, foi agora suspenso por suspeita de doping.

Roger Vailland dizia que ninguém ganha a Volta a França sozinho.

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


O meu pai gostava de música clássica e de Beethoven em particular

Tinha todas as suas sinfonias mas, em vinil, apenas restam a a 3ª  e a 5ª sinfonias.

Esta é a capa da “Eroica” pela Orquestra Filarmónica de Berlim dirigida por Herbert Von Karajan.

Na biografia de Beethoven, escrita por Jean e Brigitte Massin, pode ler-se o depoimento de Ries sobre a 3ª Sinfonia, a “Eróica”.

“Nesta sinfonia Beethoven tinha escolhido por assunto Bonaparte,, quando este ainda era primeiro-cônsul. Até então Beethoven considerava-o um caso extraordinário e equiparav-ao aos maiores cônsules romanos.
Eu próprio, bem como outros amigos íntimos de Beethoven, vimos na sua mesa de trabalho a partitura manuscrita da sinfonia; ao alto, na folha do título, estava escrito o nome “Buonaparte, e no extremo inferior: “Luigi van Beethoven, sem mais qualquer palavra. Certamente esta lacuna devia ser preenchida; mas como? Ignoro-o por completo.
Quem primeiro deu a Beethoven a notícia de que Bonaparte  se fizera proclamar imperador fui eu. A sua reacção foi enfurecer-se e exclamar: “Afinal, não passa de um homem vulgar! Agora vai espezinhar todos os direitos humanos e obedecer apenas à sua ambição; há-de querer elevar-se acima de tudo e de todos; tornar-se-á um tirano!” Avançou para a mesa, arrancou a folha do título, rasgou-a de alto a baixo e atirou-a para o chão. A primeira página foi reescrita e a sinfonia recebeu então, pela primeira vez o seu  título: "Sinfonia  Eróica".

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A HORA DAS NOVELAS



Banda Sonora de“Mulheres de Areia” (1993)

Ai Ai Ai Ai – Ivan Lins
Pensando em Minha Amada – Chitãozinho & Xororó
Sexy Yemanjá – Pepeu Gomes
Encontro das Águas – Maurício Mattar
Caminhos Cruzados – Gal Costa
Ovelha Negra – Os Fantasmas
Paraíso – Mariana Leporace
Down – T Set Squad
Toque de Emoção – Joanna
A Vida é Festa – Bando Beijo
Desafios – Simone
Figura – Orlando Morais
Fantasia Real – Biafra
Gitã – Raul Seixas
Dirty Game – Easy Rider
Voyager – Franco Perini

A CÉSAR O QUE É CÉSAR A DEUS O QUE È DE DEUS


A Câmara de Lisboa gastou afinal 228 mil euros com a visita do Papa Bento XVI, em Maio passado, apesar de todas as declarações do presidente da autarquia e de responsáveis da Igreja sempre terem ido no sentido de não haver dinheiros públicos envolvidos na missa campal do Terreiro do Paço.
D. José Policarpo tinha afirmado que não iria pedir dinheiro para o altar à câmara presidida por António Costa, por entender que as cerimónias litúrgicas não deviam ser financiadas pelo poder autárquico ou político. "A César o que é de César, a Deus o que é de Deus", disse, na altura.
Omito qualquer comentário.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

PELA ESTRADA FORA


Neste dia, em 1969, morria Jack Kerouac, escritor norte-americano, autor de “Pela Estrada Fora”, um livro a que chamam a celebração da amizade. Tinha 47 anos.

Escrito, em 1951, em apenas três semanas, “Pela Estrada Fora é daqueles livros míticos da história da literatura. É o relato de uma experiência, que resulta de uma viagem por terras americanas, e também o México, demorou cerca de dez anos e  só os encontros e os desencontros contaram. para a escrever.

 Encontros com vagabundos, bêbados perdidos em bares, “o bar ideal não existe na América. O bar ideal é algo que desapareceu do nosso horizonte. Em 1910 um bar era um sítio onde os homens iam encontrar-se durante ou depois do trabalho, e tudo o que lá havia era um balcão comprido, um varão de lata, escarradores e um pianista para tocar música; mais alguns espelhos e barris de “whisky” a dez cêntimos o copo entremeados com barris de cerveja a cinco cêntimos a caneca. Agora é tudo cromados, mulheres bêbadas, paneleiros, “barmen” hostis, proprietários ansiosos a espreitarem pela porta preocupados com os seus assentos de couro e com a polícia; uma data de gritaria na altura errada e o silêncio mortal quando entra um desconhecido.”, boleias atrás de boleias, jazz  em Nova Orleães, mulheres, muitas mulheres, “depois fui ter com Rita Bettencourt e levei-a para o apartamento. Metia-a no meu quarto após uma longa conversa na escuridão da sala. Ela era uma bela rapariga, simples e verdadeira, com um medo tremendo do sexo. Eu disse-lhe que era uma coisa bela. Queria provar-lho. Ela deixou provar, mas eu fui impaciente em demasia e não provei coisa nenhuma. Ela suspirou no escuro.
- Que pretendes da vida? - perguntei. Era o que eu costumava perguntar então sempre às raparigas.
- Não sei – disse ela – Servir às mesas e tentar ir andando.
Bocejou. Pus-lhe a mão na boca e disse-lhe que não bocejasse. Tentei explicar-lhe como eu estava excitado com a vida e as coisas que podíamos fazer juntos; a dizer isto, e a planear sair de Denver daí a dois dias. Ela, tristemente, virou-me as costas. Ficámos estendidos a olhar para o tecto e a pensar por que razão teria Deus feito a vida tão triste. Fizemos vagos planos para nos encontramos em Frisco.”
e acima de tudo a loucura uma enorme loucura “era extraordinário como Dean podia passar de um estado de completa loucura para um de paz de alma – e penso  que a sua alma estava envolta em automóveis rápidos, uma costa para alcançar, e uma mulher no fim da estrada – como se nada tivesse sucedido.”


Naturalmente, muito naturalmente mesmo,  ler hoje “Pela Estrada Fora," não tem o mesmo perfume de, enquanto jovens, o devorámos, sim porque aquilo não era ler, era devorar, porque um livro como este não se lê, devora-se, e dizer que é um livro que ainda nos toca, talvez seja o melhor elogio que se lhe pode fazer.

“Porque as únicas pessoas autênticas para mim são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, aquelas que nunca bocejam ou dizem um lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas peças de fogo-de-artifício a explodir entre aranhas, entre estrelas…”

América de costa a costa, expressão tantas vezes repetida e tornada roteiro de tantas e variadas gentes, o grande sonho “uma enorme nostalgia em relação ao passado”.

É capaz de ser isso mesmo, o sabor nostálgico das memórias.

“Qual é a tua estrada, homem? A estrada do santo, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, qualquer estrada. Há uma estrada em qualquer parte para qualquer pessoa em qualquer caso. Onde quem como?”

As transcrições são feitas a partir da tradução que H. Santos Carvalho fez para a Editora Ulisseia, Lisboa 1978.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

POSTAIS SEM SELO


Durante o dia, a telefonia estava ligada para o emissor clássico da Emissora Nacional. Apenas ao serão havia uma interrupção do fluxo da grande música quando a voz do meu avô ordenava: “Meninas vamos ouvir a BBC”. Mudava-se de onda durante os minutos com as notícias de Londres lidas pelo Ferando Pessa ou pelo Augusto da Silva, sobre o desenrolar da guerra. “Aqui Londres, Estação da BBC na banda dos 41 e 49 metros.
António Cartaxo em “Quase Verdade Como são Memórias”, Edições Colibri Dezembro 2009

IDÍLIO EM BICICLETA


“O céu é das águias; o rio é dos patos, partilhado por uma ou outra garça branca; as árvores são de pássaros de várias cores, tamanhos e timbres; a estrada é minha…
Depois da vasta planície que se estende de Sacramento a Winters, pensei que até ao pacífico seria um passeio. Nada mais errado…as colinas vão-se sucedendo suavemente, mas sempre a subir. Nas encostas multicolores, o amarelo-torrado do feno em fim de vida, contrasta com as manchas densas dos carvalhos que trazem sombra à estrada. O lago Berryessa é uma pequena barragem na montanha, com os seus braços de águas verdes envolvendo os pequenos vales ressequidos.”

Texto e fotografia de Idílio Freire

CÉZANNE PINTOU ROMÃS?


A Maria, minha neta, esteve ontem à conversa a falar sobre os frutos de Outono, que lhe ensinaram no infantário. Os marmelos, os dióspiros, as romãs. Ainda tentei a minha tese sobre se o marmelo é fruto do findar do Verão ou começo do Outono, mas, não tive sorte nenhuma, ela foi peremptória: “é do Outono”!

Já há uns dias que começaram a aparecer as primeiras romãs. Hoje estavam no Pingo Doce a 2,99 euros o quilo e eram espanholas que lhes chamam granadas.

Segundo livros de mezinhas e outras coisas, o sumo das romãs pode ajudar a diminuir o cancro da próstata e um copo de sumo por dia diminui os riscos de doenças cardiovasculares.

Charlotte, protagonista da série O Sexo e a Cidade, perfumou-se de romã e o produto, lançado pouco depois no mercado, foi o mais procurado nas lojas da marca. Na festa de Fim do Ano de 2004 da produtora da série, uma das bebidas mais procuradas foi a “marguerita” de romã, que passou de imediato a fazer parte dos menus de bares e restaurantes.

As romãs não me sabem a nada, mas gosto de as ver, na fruteira, juntamente com outras frutas, mas não mais do que isso.

Yvette K. Centeno, a propósito de romãs, evoca o “Cântico dos Cânticos”:

“Como és bela, minha amada,
como és bela !

Teus lábios são fita vermelha,
tua fala melodiosa;
metades de romã teus seios
mergulhados sob o véu.”

Encontra também poesia persa, e cita Firdousi:

" as suas faces são como a flor da romãzeira e os seus lábios como o doce das romãs"

Ela própria tem um poema “Reguengos” que fala de romãs e que foi publicado na “Mealibra”, Revista do Centro Cultural do Minho:

“Já pesam as romãs semi-abertas
nas romãzeiras molhadas

cairam as chuvas da tarde
aguardam-se os beijos fatais
que só os Anjos concedem

bagos vermelhos
em bocas apetecidas

Jardim de Inverno
onde se perdem as vozes
onde se abrem feridas

onde secretamente
mais árvores são plantadas”


Mas não me vou daqui embora sem lembrar João César Monteiro em “As Bodas de Deus”, numa cena afrodisíaca, com a actriz Rita Durão, filmada na Praia da Adraga.

O cartaz do filme está lá em cima.

“Na boa companhia da madre Bernarda, a superiora do convento, João de Deus visita Joana que, sem comer as crianças, serve alegremente no refeitório. João de Deus almoça com a madre Bernarda: cozido à portuguesa, tintamente regado.
Após a santa ingestão, passeio com Joana numa falésia verdejante à beira-mar. João de Deus encontra uma romã no chão. Senta-se com Joana, tira um canivete do bolso esquerdo do casaco de cachemira, corta a romã irmãmente e oferece a Joana uma das metades. Longo silêncio. É tudo”

Da sinopse de As Bodas de Deus”em Le Bassin de John Wayne seguido de As Bodas de Deus Editora &Etc., Lisboa 1997

terça-feira, 19 de outubro de 2010

QUOTIDIANOS


Alter do Chão” deve muito do seu desenvolvimento ao cavalo e esta vila tem que cheirar a cavalo por tudo quanto é sítio.”

Humberto Cruz, Presidente da Câmara de Alter do Chão, sobre a inauguração de uma estátua em homenagem ao cavalo de raça Alter Real.

"Público", 14 de Outubro de 2005 

OLHAR AS CAPAS


A Mulher Nua

Ross Pynn
Capa de Maria de Lurdes Paes
6ª edição, Abril de 1983 com tiragem de  10.000 exemplares. Portugal Press
A 1º edição saiu em Outubro de 1962
Em Janeiro de 1063, A Mulher nua  foi apreendido pela Direcção dos Serviços de Censura, tendo sido alegado que, encontrando-se o país em guerra, e sendo o personagem Joe Stassio contra a guerra,  a sua publicação era contraproducente.

Um homem como eu pode acordar de manhã em diversos sítios. Tudo depende da noite anterior. Acordar numa casa, num banco de jardim, atrás de uma pilha de caixotes, num valado ou numa prisão – tudo é possível. Não que seja vagabundo. O bilhete de identidade, além do nome Joe Stassio – diz: “sem profissão” – mas foi com ele que me apresentei quando da questão do  paralelo 39 (lembram-se, não é verdade?), e por lá mordi as pedras em Pork Chop Hill.

OLHARES


Num domingo de Outono, a solidão sentada num banco do Jardim de Belém.

MEMÓRIAS


Sempre lembro de me perguntar: os marmelos anunciam o fim do Verão ou o princípio do Outono?

Uma pergunta, como outra qualquer, e para a qual não se exige resposta.

A minha avó fazia a marmelada no findar de Setembro.

Ficava sempre uma tigela guardada para a véspera de Natal.

Também enchia grandes frascos com quartos de marmelo que eram cosidos em água e açúcar.
Há um filme-documentário, muito bonito, do espanhol Victor Erice, O Sol do Marmeleiro  - gosto mais do título em espanhol  El Sol del Membrillo - que mostra  o pintor Antonio López a pintar o sol sobre o marmeleiro do seu jardim.


A tela ficou por acabar

O pintor gastara todo o Outono em busca da perfeição, aquilo que sonhara que seria  a sombra do marmeleiro no seu jardim, e as primeiras chuvas impedem-no de continuar o trabalho.