segunda-feira, 29 de novembro de 2010

POSTAIS SEM SELO


Chegar a isto
tem a sua vantagem, nada nos prometem, nada nos tiram,
não há para onde ir, nem há por que ficar.

Mark Strand

domingo, 28 de novembro de 2010

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Um amigo do meu pai que trabalhava na Companhia Portuguesa de Pesca, no Ginjal, é que lhe arranjava as garrafas, sem rótulo e com uma rolha de cortiça. Falo de óleo de fígado de bacalhau, o terror da minha infância. Raquítico que era, tive que o tomar. 

Ainda hoje sinto o instante da chegada da colher à boca. Mais tarde passei a tomar a mistela em cápsulas. 

Mesmo em cápsulas, acabava por vir à boca aquele sabor horroroso.

Não há imagem dos frascos do amigo do meu pai que trabalhava na Companhia Portuguesa de Pesca, no Ginjal.

As cem maneiras de fazer bacalhau do público não fala do óleo de fígado de bacalhau, mas ficam como ilustração e, também fui buscar uma citação de “Ernestina”, onde a págs. 145. J. Rentes de Carvalho nos dá conta desse pesadelo chamado óleo de fígado de bacalhau:

“A garrafa de óleo de fígado de bacalhau acendeu vívida a recordação e instintivamente afastei-me da mesa, mas nessa noite e daí em diante a minha resistência seria vã.
Unidos como nunca os tinha visto, meu pai sentou-se na cadeira e, segurando-me os braços atrás das costas, prendeu-me as pernas entre as suas para evitar que esperneasse; minha mãe puxou-me a cabeça para trás, apertou-me o nariz, meteu-me a colher entre os dentes e, lentamente, lentamente, deixou escorrer aquela peçonha.
Reviraram-se-me as entranhas, mas eles continuavam a segurar-me e de nada valeu o choro; aquilo era para meu bem, ia crescer e ficar um homenzarrão.”

J. Rentes de Carvalho em “Ernestina” Quetzal”, Lisboa 2001

sábado, 27 de novembro de 2010

BAILES DA VIDA



Disse agora, aos 63 anos, que não mais escreverá música pop.
É pena que assim seja mas, Elton John, deixa muitas mãos cheias de grandes êxitos.
Este “Crocodile Rock”, por exemplo, que muito animou os Bailes da Vida.

SARAMAGUEANDO


Beatriz Barbosa, numa crítica a “Provàvelmente Alegria” de José Saramago, e publicada na revista “Vértice” de Agosto/Setembro 1970, escrevia: 

José Saramago tem um tom pessoal inconfundível, resultante dessa mistura de romantismo com boa consciência, o homem consciente da sua época, lúcido, desabusado, compelido ao uso da metáfora.

Dos “vários bons poemas deste livro”, Beatriz Barbosa salientava que os poemas em prosa estão entre os melhores. 

Este é um desses poemas em prosa:

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

IDÍLIO EM BICICLETA


No devagar depressa dos tempos

João Guimarães Rosa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A HORA DAS NOVELAS

Banda Sonora de “Hilda Firacão” (1998)

Resposta ao tempo – Nana Caymmi
Será Sempre Um Olhar – Pedro Miguéis
You Are My Destiny – Paul Anka
Que Sera Sera – Doris Day
Sonhar Contigo – Adilson ramos
Boneca Cobiçada – Palmeira & Biá
Balada Triste – Agostinho dos Santos
Que Queres Tu de Mim – Altemar Dutra
Nossos Momentos – Elizeth Cardoso
Quem é – Silvinho
Molambo – Roberto Luna
Meditação – Maysa
C’est Ci Bon – Eartha Kitt
Kalú – Angela Maria
Só Dança Samba – Tamba Trio
Túnel do Amor – Celly Campelo
Chega de Saudade – Tom Jobim
Valentina – Roger Henri

COISAS DE NÃO

Come-se bem muito bem na região de Lafões.


Exemplo disso é “O Retiro Dom Alves” em Oliveira de Frades.

Uma vitela no forno de se lhe tirar o chapéu de coco, uns filetes de polvo, 35,00 euros a dose, mas Dom Alves, mãos assentes na mesa, olhando de frente os clientes,  recita que não encontramos outros filetes como aqueles. Nem em Paris. Quem comeu os filetes confirmou o dito de Dom Alves, que pelas delícias da vitela me fiquei.




.Para além de se comer bem, “O Retiro Dom Alves” recolhe um repositório de coisas de “Não”:

“Não aceitamos cartões de crédito nem Multibanco”
“Não são permitidos jogos dentro deste recinto”
“Não é permitida a entrada de animais”
“Não mexam nas árvores”
“Não tenho tudo o que gosto mas gosto de tudo o que tenho”




Depois desta tirada filosófica, sombreada por um viçoso manjerico a brilhar ao sol de um Outono que se aproximava, e, apesar das coisas de "não", há a vontade de voltar. Então para os tais filetes de polvo, a 35,00 euros a dose, e que “nem em Paris”.


Ternurento este Portugal desconhecido que espera por nós, como dizia a canção.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio publicado no "Diário Popular", 23 de Agosto de 1968

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


A 12 de Novembro de 1975, após 3 dias de greve nacional dos trabalhadores da Construção Civil, o Ministério do Trabalho recusa responder às reivindicações contratuais dos trabalhadores.

Estes decidem avançar para S. Bento para conversações com o Primeiro-Ministro Pinheiro de Azevedo, dado que o ministro do trabalho recusara negociar.

Cem mil trabalhadores da Construção Civil rodeiam a Assembleia Constituinte.

O Primeiro-Ministro tenta dialogar com os manifestantes que lhe chamam fascista.  Pinheiro de Azevedo responde-lhes:

Bardamerda pró fascista!.


Levantado o cerco à Assembleia, o VI Governo Provisório, declarando que não tem condições para governar, entra em “greve”.

José Freire Antunes no seu livro O Segredo do 25 de Novembro:

A cena passa-se em Belém:

Um jornalista:

- O Sr. Primeiro-Ministro disse que estava farto de brincadeiras…
O primeiro-ministro:

-Brincadeiras, hã? Estive sequestrado já duas vezes, já chega. Não gosto de ser sequestrado. É uma coisa que me chateia.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

SARAMAGUEANDO


Consequência do 25 de Novembro de 1975, José Saramago foi despedido do “Diário de Notícias”. 

No último dos seus “Apontamentos”, saído na edição de  25 de Novembro, podia ler-se:

“O mais cómodo, seria nada escrever. O mais prudente, seria deixar passar a onda que varre o País, este deflagrar das contradições que minam as Forças Armadas, incapazes de, unitariamente, aceitarem o socialismo ou porem-se de acordo sobre um projecto político socialista. Mas este jornal, que sem ambiguidades nem hesitações se pôs ao lado das classes trabalhadores, não foge à sua responsabilidade. (…)
Houve vítimas. Haverá prisões e, provavelmente, condenações. Fica por saber, depois do que aconteceu, o destino disto que se dizia ser o socialismo português. É essa resposta que se exige: em nome de todas as promessas e garantias com que o povo foi contemplado durante ano e meio… Quem pode responder?”

Em princípio, é difícil imaginar que o despedimento de um trabalhador tenha aspectos positivos. O de José Saramago prova o contrário: ter perdido o emprego no “Diário de Notícias” foi a sorte de José Saramago, foi a sorte da literatura portuguesa, a nossa sorte.

Como, em conversa, muito acertadamente, lhe disse o jornalista Adelino Gomes:

“Ganhámos um escritor, não sei se tínhamos ganho um jornalista comunista interessante…

Legenda: Desenho de André Carrilho, 2008.
Faz parte de um conjunto de postais comprado, em Julho de 2008, aquando da Exposição "José Saramago: A Consistência dos Sonhos", que esteve patente no Palácio da Ajuda.

QUANDO A NOSSA FESTA SE ESTRAGOU


Alguém, e agora não lembro o nome, disse que “o dia 25 de Novembro é como o aniversário de um divórcio. Pode ter sido necessário. Pode até ter sido um alívio. Mas ninguém o festeja”.

Tal como o  poema de Maria Velho da Costa "Este Dia Não!":

“O 25 de Novembro não é para celebrar.
Porque não foi um acto de alegria, foi
um acto de necessidade. Para os melhores,
dolorosa, para os piores, maligna.
Proponho a esta assembleia de povos um
dia de silêncio em honra da fala
portuguesa sem ódio. Que não viva a morte.”

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

CONVÉM, DE VEZ EM QUANDO, IR LEMBRANDO...



Em dia de GREVE GERAL, repesco esta frase da homilia do primeiro-que-ainda-vamos-tendo, proferida, em 17 de Outubro de 2006 , aos deputados do PS:


Baptista-Bastos escreveu, hoje, no “Diário de Notícias”:

"A palavra greve comporta em si um prestígio e uma emoção transversais a várias gerações. E contém uma forte componente moral que se não restringe, unicamente, a opções ideológicas ou a orientações partidárias. A greve é contra alguém? É. Contra as iniquidades, as prepotências, a soberba e as injustiças do poder político. A de hoje faz de nós sujeitos representativos do combate a uma crise de valores e a padrões exportados - cidadãos que não querem ser governados assim”.
Como habitualmente o governo contestou os números da CGTP ,que apontam para  a paragem de três milhões de trabalhadores num universo de cerca de cinco milhões.

Lembro este poema, “No Caminho de Maiakovski” do poeta brasileiro Eduardo Alves Costa:

"Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!”

Também este poema de Bertold Brecht:


“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Primeiro levaram os negros

Mas eu não me importei com isso
Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários
Mas também não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas também não me importei
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho emprego
Também não me importei

Agora estão a levar-me
Mas já é tarde.
Como eu não me importei  com ninguém
Ninguém se importa comigo."

O HOMEM QUE SABIA OUVIR


Chamava-se Michel Giacometti, nasceu em Ajaccio, na Córsega, era etnomusicólogo. 
      
Em Paris conheceu uma portuguesa com quem se casaria. Vieram passar a lua-de-mel a Portugal e apaixonou-se ao ponto de por cá ficar e ter percorrido, de lés-a-lés, o país recolhendo músicas e cantares portugueses, Um trabalho que contou com a colaboração de Fernando Lopes Graça, e que constitui a mais completa documentação do Cancioneiro Popular Português.

No mundo existem poucos homens como Michel Giacometti, com paixão por aquilo que fazem, que vivem para os outros esquecendo-se de si próprios. Desaguou em Portugal e trabalhou em condições de grande precariedade. Em lugar de lhe darem meios e condições para o seu trabalho, a ditadura só lhe colocou problemas e entraves.

“ Nunca tive os meios, mal conseguia sobreviver”, disse numa entrevista a Adelino Gomes.
Mais tarde, já quase em final de vida, e para sobreviver, venderá à Secretaria de Estado da Cultura, os arquivos sonoros, a colecção de instrumentos musicais, e  à Camara de Cascais a biblioteca.

“Penso se tudo isto terá valido a pena. Penso que posso morrer e o material desaparece; que não fui capaz de deixar, não digo discípulos, mas pessoas capazes de continuar o trabalho”, disse ainda na entrevista a Adelino Gomes.

Michel Giacometti deixou dito, que no Alentejo existe um gosto pelo canto, único no mundo. Quando morreu em 24 de Novembro de 1990, quis ser sepultado na pequena aldeia de Peroguarda no concelho de Ferreira do Alentejo. 

Tinha 61 anos.

Legenda: Michel Giacometti com Fernando Lopes Graça

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Nos anos 70, com realização de Alfredo Tropa, Michel Giacometti fez para a Rádio Televisão Portuguesa uma série de programas a que chamou “Povo Que Canta”.
 Na passada segunda-feira, o "Público” lançou o primeiro volume da “Filmografia Completa de Michel Giacometti” (DVD + livro), onde se incluem os 37 episódios de “Povo Que Canta”.
Com periodicidade semanal, a colecção compõe-se de 12 volumes.

OLHAR AS CAPAS


Cancioneiro Popular Português

Michel Giacometti, com a colaboração de Fernando Lopes Graça
Capa: Antunes
Círculo de Leitores, Agosto 1981.

Da vida embrionária aquática a tempos que iam para além da morte, a existência do homem decorria entre sons familiares, num percurso sinalizado por ritos, crenças e superstições várias.
Integradas em práticas sociais ou sobrenaturais – estão a rasgar horizontes para paisagens oculta, as imagens sonoras visavam necessariamente a adequação do homem às normas rígidas da comunidade.
Às vozes presentes neste “passo” haveria que juntar as esquecidas no decorrer do tempo e testemunhadas na entoação algo mágica das rimas infantis, ou aqueloutras escondidas em ritos de há muito obliterados.
Em contrapartida, acham-se aqui reunidos, com alguma arbitrariedade, os cantares a que chamamos “de outra vida”, por considerarmos reflectirem linhas de fractura na contextura sólida da sociedade rural.
E tanto assim era que, na própria hora da morte, recebia ele, com o cântico do “Senhor Fora”, uma última mensagem musical da terra que deixava.
Na verdade, e de acordo com uma crença generalizada, o último eco da voz humana que levava para a sua derradeira viagem seria antes o choro dos familiares ou porventura das carpideiras, a prenunciarem, em volta do corpo frio, o seu eterno regresso aos mundos invisíveis.

O HOMEM DOS MUITOS INSTRUMENTOS








Alguns dos instrumentos recolhidos por Michel Giacometti e que se encontram patentes no Museu de Instrumentos de Música Regional Verdades Faria, no Monte Estoril.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

IDÍLIO EM BICICLETA


Declaram que a melhor maneira de contemplar a natureza é de cima de uma bicicleta (Marilyn Monroe dixit)

Herberto Helder em “Photonaton & Vox”

Imagem de Idílio Freire

OLHARES


Aqui era a “Perfumaria da Moda”, casa fundada em 1909.

Aqui trabalhava a Tatão por quem o Chico, caixeiro do "Grandela", tinha uma paixão assolapada, segundo a trama de “O Pai Tirano” filme realizado, em 1941, por António Lopes Ribeiro.

Hoje é uma loja de trapos-a-armar-ao-fino.

Registe-se que o lindíssimo “Au Bonheur dês Dames” foi conservado.

Ao lado, esquina para a Rua Garrett, onde antes eram instalações da "EDP", está a loja do “Nespresso” do Sr. George Clooney.


Na reconstrução do Chiado, após o incêndio, o lema dos “Grandes Armazéns do Grandela” foi preservado:

"Sempre Por Bom Caminho e Segue"

BAILES DA VIDA

Podem não acreditar, mas nos Bailes da Vida muito se dançou ao som das canções do António Variações. E que bem que se dançava.
Quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga, mas deixa-o pagar se estás a gostar.Uma maravilha!

CRISE?... MAS QUAL CRISE?...


Segundo a “Lusa”, os Governos Civis vão custar em 2011 cerca de 27,5 milhões de euros e à excepção de Lisboa, Porto e Setúbal todos os distritos recebem menos do que em 2010, segundo a proposta do Orçamento do Estado para 2011.

Segundo o “Diário de Notícias”, fazendo fé no “Diário da República”, Rui Quartin Santos foi nomeado embaixador de Portugal em Samoa.

Para que servem os governadores civis?

Desde quando é necessário que Portugal tenha embaixada em Samoa?

O Ministro das Finanças dizia-nos no sábado que contenção e disciplina salarial é a palavra de ordem para os dias que correm, para assegurar a competitividade da economia portuguesa.

O recado é para a gente do costume, aqueles a quem são exigidos os habituais  sacrifícios. À margem ficam os governadores civis, a banca, a lucrar milhões de euros por dia, o restante despesismo do estado… Ah! e o nosso homem em Samoa…

UM PASSEAR PELOS TEMPOS

28 de Março de 1988.

POSTAIS SEM SELO


O tipo que prometia muito e que trabalha agora num escritório. Excepto isso não faz mais nada, ao chegar a casa, senão deitar-se e esperar pela hora do jantar fumando cigarros, deitar-se de novo e dormir até ao dia seguinte. Ao domingo levanta-se muito tarde e põe-se à janela, a olhar a chuva ou o sol, as pessoas que passam ou o silêncio. E assim todo o ano. Ele espera. Ele espera a morte.

Albert Camus em Primeiros Cadernos

Legenda: Imagem encontrada aqui.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A HORA DAS NOVELAS

Banda Sonora de “A Indomada” ((1997)

Impossível Acreditar Que Perdi Você – Fábio Jr.
Ciranda da Rosa Vermelha – Elba Ramalho
Não Adiantou Saber – Sandra de Sá
À procura de Alguém – Geraldo Azevedo
Meu Bem Querer – Djavan
Onde Estará o Meu Amor – Maria Bethania
Unicamente – Deborah Blando
É Tão Bom Te Amar – Fafá de Belém
Cana-Caiana – Alceu Valença
Baby Toque – Baby do Brasil
Maracatudo – Sergio Mendes
Música da Noite – Ricardo Feghali e Guilherme Dias Gomes
Este Seu Olhar – Dick Farney
A Indomada – Guilherme Dias Gomes

DULCE CABRITA (1928-2010)


Primeiras páginas de Reduto Quase Final de Dinis Machado:

Duas horas da manhã. As palavras procuram-se. A Dulce dorme lá dentro. Sossegadamente, espero.

Mais para o final do livro, esta Dulce há-de pôr-se à conversa com Dinis Machado, há-de perguntar-lhe se ele acredita no sonho. Ele diz: Acredito na utopia, esse território invisível onde se pode semear a maior esperança.

Dulce Cabrita, companheira de Dinis Machado desde 1985 e até à morte do escritor em Outubro de 2008.

Numa entrevista ao Expresso contará:

Feitas as apresentações, oferecem-se palavras. A Dinis só ocorre perguntar a Dulce se sofre muito quando canta. A Dulce só ocorre responder a Dinis que se esfrangalha toda. Seja o que for que isso signifique. Em sobressalto, os dois prosseguem em diálogo. Ela confessa-lhe nunca ter lido o livro de que todos falam. Ele confessa-lhe nunca a ter ouvido cantar. Em fim de cavaqueira, ele oferece-se para a levar a casa. Ela agradece, mas não precisa. Tem carro. Então, pede-lhe ele que o leve ela a casa. Não tem carro. Dulce aceita. Pelo caminho, Dinis pergunta-lhe se é casada. Não. Nunca casou. Despedem-se.

Morreu no passado dia 18, discretamente, como discreta foi toda a sua vida, rodada longe dos holofotes e das primeiras, como acontece a quem simplesmente é grande. Tinha 82 anos.

Cantora lírica, meio-soprano, integrou o coro do Teatro de S. Carlos e fez parte do Coro dos Amadores de Música dirigido por Fernando Lopes Graça de quem foi privilegiada intérprete das suas obras, uma bonita cumplicidade.

Narrar e inventar, e fazer pequenas homenagens. Espero que os homenageados /e os leitores) saibam sorrir. Aposto que sim, dirá Dinis Machado no final da tal conversa com Dulce.

Legenda: Imagem tirada do Expresso

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


O coreógrafo francês Maurice Béjart, em Junho de 1968, esteve em Lisboa para uma série de espectáculos.

No final do espectáculo do dia 6, Béjart aparece para agradecer os aplausos e anunciar o assassínio de Robert Kennedy: “Foi vítima da violência e do fascismo. Como todos os que estão aqui esta noite, somos contra as ditaduras peço um minuto de silêncio”.

No dia seguinte a PIDE colocou Maurice Béjart na fronteira e a Fundação Calouste Gulbenkian teve de cancelar os outros espectáculos previstos. Estalou então a maior crise entre o regime e a Fundação.

Desta forma, e sem  nomear Béjart uma única vez, o SNI, Secretariado Nacional da Informação fez difundir para os jornais a seguinte nota:

“Durante o espectáculo de uma companhia estrangeira, realizado em Lisboa na noite de 6 do corrente, foram dirigidos à juventude exortações derrotistas e tomadas atitudes de 4speculação política inteiramente estranhas ao próprio espectáculo.
Perante a luta que temos de manter em defesa da integridade nacional, não pode consentir-se que uma companhia estrangeira aproveite, abusivamente um palco português para contrariar objectivos nacionais.
AS autoridades foram, assim, forçadas a impedir a permanência em território português do súbdito estrangeiro responsável por aquele espectáculo.”

Maurice Béjart morreu em  22 de Novembro de 2007. Tinha 80 anos.  

PESO DE OUTONO


Eu vi o Outono desprender suas folhas,
cair no regaço de mulheres muito loucas.
Cem duzentas pessoas num café cheio de fumo
na cidade de Heidelberg pronta para a neve
saboreavam tepidamente a sua ignorância.

Eu vi as amantes ensandecerem
com esse peso de Outono. Perderem as forças
com o Outono masculino e sangrento.
Os gritos a meio da noite
das amantes a meio da loucura voavam
como facas para o meu peito.

Alguns poetas li-os melhor no Outono,
certos amores só poderia tê-los,
como tive, nos dias doces da vindima.

Fernando Assis Pacheco de Cuidar dos Vivos em A Musa Irregular

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Um bar em Riga

domingo, 21 de novembro de 2010

OLHARES



Melgaço

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Quando em 2001 a UNESCO classificou a "9ª Sinfonia" de Beethoven como património da Humanidade, já o meu pai não estava por cá, para podermos discutir o assunto.

Por mim teria opinado que não entendia por que uma música teria de ser património da Humanidade.
Mas porquê Beethoven?

Por que não “A Sagração da Primavera” de Stravinsky, ou “A Paixão Segundo São Mateus” de Bach, ou o “Requiem” de Mozart, ou a “Sinfonia Incompleta” de Schubert?

Certamente não discutiríamos a escolha, o empolgamento da “Ode à Alegria”, o sol para iluminar os caminhos do homem, um abraço aos homens onde quer que eles se encontrem.

Richard Wagner teria concordado, pois considerava a “9ª Sinfonia” como o limiar absoluto do que é possível conceber em música.

Mas o meu pai tinha uma especial predilecção pela “7ª Sinfonia”: prazeres secretos que cada um deve guardar dentro de si e, por isso, não revelados.

Jorge de Sem, no seu livro “Fidelidade” tem um poema, “Como de Vós”, que dedicou “à memória do papa Pio XII que quis, ouvir, moribundo, o “Alegretto” da Sétima Sinfonia de Beethoven:

“Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,

importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.

Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.

Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo”

OLHAR AS CAPAS


Assassinato no Comité Central

Manuel Vásquez Montalbán
Tradução: Manuel de Seabra
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote
Lisboa, 1982

- Interessa-te jantar com um comunista?
- Depende do que se jante. Além disso, bem sabes que não voto pelos comunistas.
- Arroz com amêijoas.
- E o vinho?
- Viña Esmeralda ou Watrau, segundo estejas com os humores adolescentes ou maduros.
- Adolescentes até à morte.
- Então Viña Esmeralda.
- O comunista é da facção aldrabice ou da facção nostálgica?
- Da facção gastronómica
- Já não sabem o que fazer para arranjar votos. Vou de smoking?
- Fato escuro

UMA MARAVILHA DO MUNDO


Os livros são uma história de dádiva e paixão.

Lembrar Jorge Luís Borges que sempre imaginou que o paraíso será uma espécie de biblioteca.

Também uma livraria, digo eu.

Uma livraria é o lugar de encanto, de referência do dia-a-dia de muita gente, gente que entra numa livraria como as borboletas são atraídas pela luz.

Pelo mundo há lindíssimas livrarias. Em Portugal há uma a "Livraria Lello" no Porto.

A Lonely Planet acaba de a considerar como uma das livrarias “mais espantosas do mundo”, e  um dez locais a visitar,  obrigatoriamente, durante o próximo ano.

Já em 2008 o diário britânico “Guardin” considerou a "Lello" como a terceira mais bela livraria do mundo.

Sim, a “Lello” no Porto, é o tal paraíso de que falava Borges.

SARAMAGUEANDO


Ao lado de um grande homem, há sempre uma grande mulher, dizem.

Sabe-se como Pilar del Rio conheceu José Saramago e o que desse encontro veio a acontecer.

Gostara muito de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e veio a Lisboa para fazer o percurso do livro: Hotel Bragança, Cemitério dos Prazeres, Alto Santa Catarina, por aí fora. 

Telefonou a Saramago para o felicitar. Encontraram-se para um café, mantiveram correspondência e um dia ele perguntou-lhe se a podia visitar em Sevilha.

Na dedicatória de “Caim” Saramago escreveu:

“À Pilar como se dissesse água”.

Há-de também dizer que se tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer Pilar, morreria muito mais velho do que seria quando chegasse a sua hora.

Em “Uma Longa Viagem com José Saramago”,  diz a João Céu e Silva, que em “A Jangada de Pedra” existe a única referência autobiográfica que decididamente se lembra de ter colocado num dos seus livros.

João Céu e Silva há-de perguntar a Pilar del Rio:

“Quando leu os parágrafos de “A Jangada de Pedra” – e essa é a única parte da obra em que se está próximo do autobiográfico – que descrevem o vosso encontro o que é que sentiu?”.

Pilar responde-lhe:

“Quando os li reconheci a situação, mas não disse nada porque sei que o Saramago não deixa passar nada da sua vida privada para os livros. Calei-me e esperei que o José mo reafirmasse.”

As palavras encontram-se na pág. 119 de A Jangada de Pedra:

“Tem ali uma senhora à sua espera. Parou José à entrada da sala, viu uma mulher nova, uma rapariga, só pode ser esta, não há aqui outra pessoa, apesar de estar na contraluz dos cortinados das janelas parece simpática, ou mesmo bonita, veste calças e casaco azuis, de um tom que deve ser anil, tanto pode ser jornalista como não, mas ao lado da cadeira onde se senta tem uma pequena mala de viagem e sobre os joelhos um pau nem pequeno nem grande, entre um metro e um metro e meio, o efeito é perturbador, uma mulher assim vestida não se passeia pela cidade de pau na mão, Jornalista não será, pensou José Anaíço, pelo menos não estão à vista os instrumentos do ofício, bloco de papel, esferográfica, gravador.
A mulher levantou-se, e este gesto inesperado, pois está dito que as senhoras, segundo o manual de etiquetas e boas maneiras, devem esperar nos lugares que os homens se aproximem e as cumprimentem, então oferecerão a mão ou darão a face, de acordo com a confiança e o grau de intimidade e sua natureza, e farão o sorriso da mulher, educado, ou insinuante, ou cúmplice, ou revelador, depende. Este gesto, talvez não gesto, mas o estar ali, a quatro passos, levantada uma mulher esperando, ou, em vez disso, a súbita consciência de se ter suspendido o tempo enquanto não for dado o primeiro, é verdade que o espelho é testemunha, mas de um momento anterior, no espelho José Anaíço e a mulher ainda são dois estranhos, deste lado não, aqui, porque vão conhecer-se, conhecem-se já. Este gesto, este gesto de que antes não se pôde dizer tudo, fez mover-se o chão de tábuas como um convés, o arfar de um barco na vaga, lento e amplo, esta impressão não é confundível com o conhecido tremor de que fala Pedro Once, não vibram, de José Anaíço os ossos, mas todo o seu corpo sentiu, física e materialmente sentiu, que a península, por costume e comodidade de expressão ainda assim chamada, de facto e de natureza vai navegando, só o saiba por observação exterior, agora é por sua sensação própria que o sabe.”

Ainda por encontros, fica a saber-se, pela leitura de “Uma Longa Viagem com Saramago”, que Pilar del Rio inspirou a personagem Carmela no “Assassinato no Comité Central” de Manuel Vásquez Montalbán”.

 Pepe Carvalho conta assim:

“ – Entre naquele café e encontrará uma rapariga sentada a ler “Diario 16”. Apresente-se e ela   acompanha-o.
A rapariga combinava dentadinha de fartura com gole de de garoto, sem se ralar com a tonelagem de gente que tomava o pequeno-almoço à sua volta na sua extravagância de único ser humano sentado em todo o café.
- Teve boa viagem?
Depois no trajecto no carro propiciou uma amena conversa sobre o pouco que chovia ultimamente em Madrid e o muito que chovia dantes, por exemplo, quando ela era pequena. Tinha as pernas bonitas embora um pouco delgadas e a madeixa que lhe caía para atesta permitia-lhe começar a cara com dois olhos esplêndidos, com olheiras,  patéticos com a sua magreza à Audrey Hepburn, sublinhada pela roupa negra e lilaz.”

sábado, 20 de novembro de 2010

BAILES DA VIDA

A música italiana e a música francesa eram o prato forte dos Bailes da Vida.
Este disco foi comprado em 13 de Março de 1967 e “Katy” era um grande sucesso por aqueles tempos.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Na Assembleia Municipal de Odivelas, em 20 de Novembro de 2008, votou-se uma moção sobre o casamento gay.

João Rego de Carvalho, deputado municipal pelo PSD, fez questão de deixar uma declaração de voto onde se dizia:

“Deus colocou no Paraíso um Homem e uma Mulher, não colocou dois paneleiros ou duas lésbicas.”.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

A HORA DAS NOVELAS

Banda Sonora de “Anjo Mau” (1997)

Ser Igual é Legal – Vânia Abreu
Sou Como Um Rio – Delfins
Cruzando Raios – Orlando Morais
Não Voltarei a Ser Fiel – Santos e Pecadores
Sonhos Não São Impossíveis – Adriana
Ai Mouraria – Roberto Leal
Meu Mundo e Nada Mais – Guilherme Arantes
Menina e Moça – Miltinho
Um Amor, Um Lugar – Fernanda Abreu
O Sonho Acabou – Roupa Nova
Estrela do meu Céu – Claudio Goldman
Un Jour Tu Verras – Maysa
A História de Lili Brown – Leila Pinheiro
A Primeira Vez – Delfins
Eu Sei Que Vou Te Amar – Anna Lengruber
Moon River – Robert Henri

IDÍLIO EM BICICLETA


Dois quilómetros de estrada… O que um homem não pensa em dois quilómetros! Às vezes vê-se a vida inteira… Trinta e um anos de trabalho para se chegar ao fim com uma bicicleta e as mãos vazias. Se eu tiver um bocado de sorte, ainda posso trabalhar mais uns anos… talvez dez, talvez quinze… para comer todos os dias, para ter sempre fome e para chegar ao fim como estou agora. Dois quilómetros a pe4nsar nisto e chega-se a casa perdido… Um homem vive mais só que um chaparro velho num montado. É nessas alturas que me apetece meter-me na cama e agarrar-me à mulher com toda a força. Era isto o que eu queria dizer. Um homem precisa de se aquecer numa coisa que seja sua…

Luís de Sttau Monteiro em  E Se For Rapariga Chama-se Custódia

Imagem de Idílio Freire

POSTAIS SEM SELO



Júlia tem a velha noção hippy de que as crianças podem educar-se sozinhas.

Frank Ronan em  “Os Homens Bronzeados Ficam Bonitos”

PROFISSÃO: " BOY"



Esta é a crónica de Manuel António Pina no “Jornal de Notícias” de ontem:

“É uma história de proveito e exemplo e todos os pais a deveriam ler à noite aos filhos para que eles possam aprender que, ao contrário do que professores antiquados ainda ensinam na escola, não é com estudo e trabalho, ou com mérito, que se vai longe na vida.
Pedro era um petiz de palmo e meio e frequentava o ensino secundário. Vivia com o pai, funcionário do PS, numa casa da Câmara de Lisboa pagando 48 euros de renda. Cedo percebeu que, se tirasse um curso superior, decerto acabaria como caixa de supermercado e, miúdo esperto, rapidamente deixou as aulas e se tornou, como o pai, funcionário partidário. Estava lançado na vida. Algum tempo depois rescindiu o contrato e, assim desempregado "por motivo de reestruturação, viabilização ou recuperação da empresa [o PS], quer por a empresa se encontrar em situação económica difícil", obteve do IEFP 40 mil euros de subsídios para a criação da sua própria empresa - que nem precisou de ter actividade - e do seu próprio posto de trabalho. Meteu os subsídios ao bolso e arranjou "o seu próprio posto de trabalho" na Câmara de Lisboa a ganhar 3950 euros por mês como assessor político (o que quer que isso seja) de uma vereadora do PS.
O "Público", que traz a história do jovem Pedro, hoje com 26 anos e um grande futuro político pela frente, sugere que ela é ilegal e imoral. Deixará de ser quando quem faz as leis fizer também a moral. Não tardará muito.”

A (des)propósito ocorre-me “Feios, Porcos e Maus” de José Miguel Silva em “Movimentos no Escuro”

”Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, a interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos — tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferencia em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza em cima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director-executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol”.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

POSTAIS SEM SELO


No dia em que você compreender que o negócio dos livros é uma miséria pegada e decidir aprender a roubar um banco, ou a criar um, que vem a dar no mesmo, venha ter comigo e eu explico-lhe umas  coisas sobre fechaduras.
Carlos Ruiz Zafón em A Sombra do Vento