sábado, 30 de abril de 2011

PORREIRO, PÁ!


Eduardo Catroga, que está a elaborar o programa eleitoral, disse em entrevista ao “Expresso” que “o fartar vilanagem de Sócrates foi uma tragédia nacional e que “as gerações mais jovens deviam pôr este Governo em tribunal”.

O PS respondeu através de Capoulas Santos que, lembrando que decorrem negociações para a ajuda externa a Portugal, disse: "Se alguém merece ser julgado e severamente punido é ele próprio pela sua deslealdade e pelo mau serviço que está a prestar ao país num momento destes. É absolutamente inqualificável a forma caluniosa e grosseira como se dirigiu ao Governo e ao primeiro-ministro.”

O secretário-geral do PS, José Sócrates, afirmou que os portugueses exigem que o PSD apresente as suas propostas e não se esconda num “jogo pueril” de “concurso de ideias”.

O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, anunciou que o PSD só vai apresentar o seu programa eleitoral depois de conhecer o quadro de ajuda financeira externa a Portugal, para que os dois sejam compatíveis.

Algures pelo País Paulo Portas apelou ao PS e PSD "para que cessem as querelas ou que, pelos menos, saibam dirimi-las de forma reservada, pois está em causa evitar a insolvência do Estado português.”

Decididamente, os meninos recusam-se a abandonar o recreio.

Não há pachorra!

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


 Os jornais de 30 de Abril de 1974, nas suas primeiras páginas, apelavam à serenidade do povo português nas comemorações do 1º de Maio, Dia do Trabalhador.

Na 1ª página do “República” podia ler-se: “Só a disciplina dos Homens Livres destrói a “disciplina” do medo!”. Nas páginas centrais um outra frase: “A disciplina é a arma do Povo contra a opressão.”

Na 1ª página do “Diário Popular”: “O 1º de Maio é teu: conquistaste-o. Não deixes que possíveis provocadores alterem o dia que será uma festa de todos!”

O “Diário de Lisboa” lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

“COMPRE HOJE O PÃO DE AMANHÔ

Diversas empresas faziam publicar anúncios de que iriam estar encerradas no 1º de Maio.





Foi sol de pouca dura. Passados os tempos de festa, o patronato mandou às malvas o 1º de Maio.

Hoje, 37 anos depois do 25 de Abril, nas lojas da cadeia “Pingo Doce” do Sr. Jerónimo Martins, bem à vista, podia ler-se:





Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos a democracia, a malta sai à rua com os panos a dizer “25 de Abril sempre” mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada…

Para além do 1º de Maio, o destaque das primeiras páginas ia para a chegada, ao Aeroporto da Portela, após um exílio de 14 anos, de Álvaro Cunha, secretário-geral do Partido Comunista Português.

Na 1ª página de “A Capital”, ao fundo à direita, uma fotografia da ex-comissária da Mocidade Portuguesa Feminina a fazer a entrega das instalações a José Tengarrinha, representante do Movimento Democrático Português. A ocupação verificava-se após decisão da Junta Nacional de Salvação.

Na sua página de espectáculos, o “Diário Popular” publicava a seguinte notícia:

“O conhecido locutor Henrique Mendes, da RTP, encontra-se doente, na sua residência, desde meados da semana passada. Após recurso a uma radiografia, o dr. Silva Rocha diagnosticou uma hérnia discal, pelo que terá de ser submetido a demorado tratamento”

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Era miúdo e lembro que quase não havia varanda que não tivesse, pelas paredes, andorinhas em barro. Hoje raramente se vêem. Alguns encontravam nisso um certo pirosismo, mas gostava de as ver nessas varandas, varandas que também tinham sardinheiras e craveiros das mais várias cores, como também gostava de ficar a olhar os bandos de andorinhas que serpenteavam pelas quintas que rodeavam a casa onde nasci.
Disto me lembrei quando topei com este pedaço de uma crónica de Catarina Portas:

“Vislumbrar a primeira andorinha do ano é uma alegria inexplicável, como o deslumbre de um dia sair à rua e descobrir os jacarandás em flor ou aquele prazer raro de trincar as primeiras cerejas do calor. Agora cerejas já as há todo o ano, vindas daqui e dali, mas como as andorinhas ainda não se dão em estufa e só arribam quando muito bem lhes parece, esta é ainda uma das felicidades inteiras que o ciclo anual das estações nos traz.”

Na quinta do Mário, no Magoito, há andorinhas de barro. Colocou-as na parede da churrasqueira. Entende que elas atraem outra passarada que por ali aparece a esvoaçar e a lançar cânticos. Ele gosta disso e chama a atenção para o facto de, junto ao algeroz, pássaros terem feito um ninho.
Coisa simples a que muito poucos ligam, mas que o deixam feliz, o ajudam a lavar a alma, seja lá o que isso for.

IDÍLIO EM BICICLETA


“Mas nem Bogotá é perfeita, e a clareza da orientação para deixar a cidade, de repente foi perturbada por uma estranha placa de sinalização indicando Lisboa! Ainda me senti tentado a virar à direita e seguir a seta, mas recordei-me que o meu lema é: “em caso de dúvida, virar à esquerda”, não à direita!
Em Bogotá, Lisboa é em frente, claro...
Tinha-me visto passar, á chegada, com a bicicleta e agora entusiasmava-se com as respostas que lhe iam dando. Concluiu rapidamente que esta era uma viagem “bastante loca” e que eu devia ser um pouco louco também! E quando confirmei a dedução dele, a excitação atingiu o auge, falando velozmente para o colega e para a (presumo) mãe, sem que tenha percebido patavina. Foi a mãe que me disse que ele queria oferecer-me as mangas e para eu escolher mais fruta, que era toda “regalada”. Ainda insisti para pagar, mas retorquiam que não e não. Só queriam tirar uma fotografia comigo! E depois das várias fotos com o telemóvel, despedimo-nos com apertos de mão, palmadas nas costas e a tocante frase, mais que confirmada pelo olhar: “cá o esperamos com mucho gusto quando vuelva”.
Não consigo perceber que gene é este, o dos colombianos, praticamente sem excepção, do mais humilde vendedor de caramelos, amendoins, ou fruta, na berma de uma estrada, no cerro de uma montanha ou no vale fechado ao mundo, ao mais “evoluído” empregado de hotel, passando pela própria polícia, que faz deles o povo mais amável, mais simpático, mais amistoso, mais educado com que me cruzei até hoje… Em cada contacto, é como se estivesse entre velhos amigos, vizinhos de sempre, com grande estima, fraternidade e espontaneidade…sei que me estou a repetir, mas é tão grande a surpresa e a intensidade que me apetece narrar cada encontro e cada diálogo…”

Texto e imagem de Idílio Freire

VAGUEANDO PELA CIDADE





Quando por aqui mostrei as laranjeiras da Avª Mouzinho de Albuquerque, fiquei de mostrar as de Sapadores. São estas.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

PORREIRO, PÁ!


Por estranho que pareça, para os ingénuos, sábios, inocentes, habituais clientes do café do bairro, onde tudo se discute, por vezes acaloradamente, as conversas de hoje giravam à volta, não da troika e do que aí vem, mas do casamento real entre Kate e William, em televisor aberto, e da noite europeia jogada na véspera.

Decididamente, estes portugueses não têm emenda.

Declarado o espanto (?) volto-me para uma visita habitual desta casa: o jornalista Manuel António Pina.
Sempre entendi que, quando há quem diga as coisas melhor do que possa agora escrever, o que não é nada difícil, não hesitações e o que de imediato há a fazer, é chutar a opinião.
Esta é a crónica de Manuel António Pina, hoje, no “Jornal de Notícias”:

“Pergunto-me até que ponto é um acto sério a apresentação, por qualquer dos partidos que se propõem governar o país em coligação com o FMI, de um programa eleitoral, se o "programa" desses partidos está a ser preparado pela "troika" da intervenção externa, será comum a todos eles e não irá a votos.
Os programas eleitorais são rituais que, consagrados pelo uso em alturas de eleições, ninguém, sobretudo os eleitores (partindo da improvável hipótese de que algum eleitor os leia), leva a sério. Os partidos exteriores ao chamado "arco da governação" podem dar aí largas ao sonho e ao ressentimento já que a realidade, o que quer que isso seja, não lhes irá pedir contas; mas também os partidos ditos de governo podem prometer o que quiserem pois tais promessas estarão sempre pendentes de uma espécie de cláusula "rebus sic stantibus" que, por um motivo ou por outro (desde a situação em que encontraram o país à situação em que o Mundo se encontra), também se tornou uso os partidos invocarem mal chegam ao poder.
Nas actuais circunstâncias, porém, um programa eleitoral é menos ainda: é um exercício de ficção. Principalmente se não se limitar às coisas miúdas e subalternas da governação, equivalentes àquelas que, na economia doméstica, cabem a uma governanta ou, no Estado, a um chefe de repartição. Que é só (a isto chegámos) o que vamos eleger, chefes de repartição para executar decisões tomadas por outros.”

OLHAR AS CAPAS



Grifo

Antologia de Inéditos Organizada e Editada pelos Autores:
António Barahona da Fonseca, António José Forte, Eduardo Valente da Fonseca, Ernesto Sampaio, João Rodrigues, Manuel de Castro, Maria Helena Barreiro, Pedro Oom, Ricarte-Dácio, Virgílio Martinho.
Realização Gráfica de Vitor Silva Tavares.
Lisboa, Abril 1970

Poesia não é uma medalha para por no peito dos tiranos mas uma imensa solidão feita de pedras, onde o despotismo pode encomendar o ataúde. Cada um de nós odeia o que ama. Por isso o poeta não ama a poesia que é só desespero e solidão mas acalenta ao peito as formigas da revolta e da rebeldia, que todos os déspotas querem submissas e procriadoras. Só os voluntários da miséria e da submissão patriarcal querem a poesia na arca da aliança com a tradição pacóvia e regionalista dos pretéritos dias, glórias patrioteiras, heroicidades frustres, pirataria ignara. Todo o verdadeiro poeta despreza o pequeno monte de esterco onde o dejectaram no planeta e a que os outros chamam pátria, e só ama os grandes continentes mares e oceanos da liberdade e do amor. Só nos vastos espaços incriados a poesia serve o seu destino – catapultar o homem nos abismos do desejo incontrolado onde o próprio assassinato é um acto de poesia e de amor. Este assassinato de que falo é o grande amplexo de homem para homem a solidariedade e a ternura, não a caridade hipócrita ou a cama de família, com todo o seu pequeno cortejo de horrores, onde a exploração do filho pelo pai dita a sua lei.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


A imprensa publicada no dia 29 de Abril de 1974, dá notícia das primeiras decisões da Junta Nacional de Salvação em que o maior destaque vai para aquela que decreta o 1º de Maio, o Dia do Trabalhador, como Feriado Nacional.

Outras decisões:

Amnistia para os Presos Políticos.

Abolida a censura aos espectáculos.

Dissolução da Acção Nacional Popular.

Destituído o Chefe de Estado, bem como todo o Governo do regime deposto.

Outras notícias:

Continuava o regresso dos exilados políticos.

Os desertores e refractários do Exército Português, saúdam a Junta de Salvação Nacional, querem voltar e pedem amnistia.

Os críticos de televisão pedem o saneamento da RTP.

Tal como o MPLA, a FRELIMO rejeita a solução federativa entre Portugal e os países africanos.

Cinquenta contos eram o limite máximo para quem saísse do país.

O Almirante Henrique Tenreiro entregava-se à Junta de Salvação Nacional continuavam a entregar-se os ex-agentes da PIDE/DGS, o capitão Maltês, que comandou sangrentas repressões da polícia de choque, ainda não tinha sido detido.

Passa a designar-se Movimento Democrático Português, a congregação de vários sectores democráticos que integravam a CDE.

Um pouco por todo o país, populares continuavam a perseguir os pides. Apareciam os primeiros desmentidos de quem fora acusado de pertencer à Legião, à PIDE/DGS, ou tinham sido informadores da polícia política. Alguns eram acusados, por vizinhos, conhecidos como mera vingança pessoal. Começavam, por isso, os desmentidos. Este podia ler-se em “ A Capital”:

“O antigo “boxeur” Licinio Sena deslocou-se à nossa redacção, acompanhado do capitão Nuno Santos Silva do Movimento das Forças Armadas, do seu chefe no Tribunal de Contas, onde trabalha, e do seu filho, para nos declarar que não era agente da Pide.”

Outros optavam pela publicação, como publicidade paga, de anúncios deste teor:





Sobre este tipo de incidentes, o “Diário de Notícias”, publicava, na 3ª página, uma local que titulou como: “Enganos lamentáveis”:
“No clima de justa euforia em que actualmente se vive na nossa cidade, um dos principais alvos da população – o que, por vezes, gera alguma violência – tem sido a descoberta de elementos da extinta DGS e ainda não detidos.
Mas, se em muitos casos, se verificou que os indivíduos apanhados eram realmente daquela corporação policial, noutros ocorreram enganos que poderiam tornar-se lamentáveis, se não fosse a intervenção das forças militares.”

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Num anúncio publicado no “República” de 29 de Abril de 1974, a TAP apresentava oTAPMATIC, o novo Sistema Automático de Reservas e Controle de Partidas.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

PORREIRO, PÁ!



A receita que a troika vai aplicar a Portugal, é idêntica à que foi aplicada na Grécia, na Irlanda.

De resto, netas coisas, não há muitas voltas a dar.
Para além de outras medidas, deverão verificar-se

Aumento de impostos

Cortes nas reformas

Desmantelamento da protecção aos trabalhadores, o que em linguagem vulgar de Lineu, quer dizer mais facilidades  no despedimento de trabalhadores.

Neste fim-de-semana, o documento será entregue ao governo.

Será esse o programa do futuro governo que nascerá das eleições do dia 5 de Junho.

Os meninos já podem abandonar o recreio.

Até porque o Dr. Portas, com aquele seu ar convencido, já disse:

 “PS não é competente e PSD não é convincente”.

No editorial do “Diário de Notícias” de hoje, perguntava-se:

“O que vai acontecer proximamente com os salários e as pensões, com os apoios sociais de grupos vulneráveis ou marginalizados, com os contratos de trabalho e as obrigações de aceitar um emprego compatível, com os despedimentos e as indemnizações por rescisão de contratos, com a precariedade laboral e os recibos verdes, com as poupanças voluntárias de cada um e uma eventual poupança forçada?”

Não são difíceis as respostas.

A culpa de tudo isto não será dos diversos governos, dos banqueiros, de quem quer que seja.

A culpa cabe aos trabalhadores que não trabalharam, ao povo que se endividou.

Serão violentos os tempos que se avizinham.

Mesmo muito violentos!

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


A 28 de Abril de 1974, os portugueses viviam o seu primeiro domingo em Liberdade.

Na 1ª página do “Diário de Lisboa” reproduzia-se um “poster” de João Abel Manta:

“Esta é a reprodução de um “poster” que apresentamos nas páginas centrais da nossa edição de hoje. O “poster” alusivo ao actual momento político português, é da autoria de João Abel Manta, artista que, por motivos demais conhecidos, há tempo não publicava qualquer trabalho no nosso jornal.”´

Na página 11 era notícia a morte de Pedro Oom.

Quando o poeta, finalmente, olhou a madrugada por que tanto esperara, o coração não resistiu:

“O irreverente e talentoso poeta surrealista Pedro Oom, figura muito conhecida da Lisboa literária e boémia, frequentador assíduo do café Gelo ao tempo em que ali se reunia o grupo em que pontificavam Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e outras personalidades daquela corrente estética, morreu ontem de comoção provocada pela queda do fascismo em Portugal.
O insólito autor de tão belos poemas fantásticos e escatológicos como os que publicou em “Grifo” e em “Pirâmide não resistiu à alegria da vitória.
Lembramos com mágoa a sua simpática figura e recordamos as suas intervenções na JUBA. Pedro Oom tinha 47 anos.”

Ainda no “Diário de Lisboa”, este era o começo da crítica de televisão de Mário Castrim:

“Anda comigo. Assim de braço dado, lembras-te? Como daquela vez quando estávamos no Terreiro do Paço e me deste o braço e lá fomos e apanhámos ambos a mesma cabeçada do cavalo e tu vieste levantar-me junto da muralha e dizias-me: “Estás bem?, e eu olhava para ti e tinhas sangue a escorrer da testa e depois nunca mais te vi e nem sei quem és nem ao menos o teu nome.”

Na redacção do “Diário de Notícias”, as janelas ainda não tinham sido escancaradas. Na 1ª página podia ler-se:

“Serenidade e expectativa nos territórios do Ultramar”

Na 7ª página um telegrama da “France Press”, proveniente de Montreal, revelava que Agostinho Neto, em nome do MPLA, não aceitava a proposta do General Spínola com vista à formação de uma Federação. O MPLA classificava a proposta como fascista, nazi e salazarista e reafirmava que a luta sempre foi por uma libertação completa e, apenas, neste princípio se dispunha a encetar negociações com Portugal.

Também “O Século” vivia-se o mesmo problema das janelas não escancaradas, e na pág. 11 aparecia este título:

“Efectuada a transmissão de poderes em todos os territórios do Ultramar”

Na página 3, “A Capital” avançava que tudo levava a crer que o 1º de Maio iria ser decretado, pelas Forças Armadas, Feriado Nacional. O pedido fora formulado por Francisco Pereira de Moura, na reunião que, na véspera, a CDE mantivera com o General Spínola.






Na pág. 14 era publicada esta fotografia.

A legenda dizia que “um elemento anónimo do 1º Comité de Acção Popular, baptiza a ponte sobre o Tejo.”

O corpo da notícia esclarecia que o “Comité de Acção Popular” nascera espontaneamente, e propunha-se realizar uma série de acções com vista à eliminação de símbolos do regime derrubado a 25 de Abril.
A alteração do nome de Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril era o primeiro desses actos.
A propósito deste acontecimento, um oficial, não identificado, da Junta de Salvação Nacional, declarou: “estamos aqui, não para desrespeitar os mortos mas pare defender os vivos.”

Na Junta de Salvação Nacional, também as janelas estavam por escancarar!

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio publicado no “Diário de Lisboa” de 28 de Abril de 1974.
A "CP" informava que, em breve, nos serviços suburbanos de Lisboa e Porto, iriam ser colocadas máquinas automáticas de venda de bilhetes.

OLHARES


Meu querido Saramago

“Ainda nos veremos em Lisboa, antes da sua partida para s ilhas de Afrodite de Safo: segredo – top secret – só para três ou quatro pessoas mais chegadas, devo aterrar na Portela na manhã de 30 (4ª feira), avião da Pan American. Não lho digo para que se dê mais uma vez ao trabalho de me ir esperar, mas porque tenho outro favor a pedir-lhe: escrevo hoje ao Hotel Suiço Atlântico (Rua da Glória, 3 – ao ascensor da dita, pedindo que me reservem quarto com banho – e duas camas, sendo possível (vou com a Camila) – para aquela data. Embora não lhe fique à mão, poderia Você passar lá depois de receber esta, e confirmar o meu pedido? Ou fazê-lo, por mim, caso eles não tenham recebido a m/ carta? (Acordei tarde, nesta desvontade em que ando de ir afrontar certos problemas.) É um hotel discreto e mais económico. – Talvez lhe baste telefonar. Se eles não tiverem quarto disponível, poderei tentar o Palace (ou Palácio!), que sempre é mais barato que o Mundial.

Carta de José Rodrigues Migueis, para José Saramago, datada Nova Iorque, 21 de Agosto de 1967, em “Correspondência (1959-1971)”,  Editorial Caminho, Lisboa Abril 2010

quarta-feira, 27 de abril de 2011

IDÍLIO EM BICICLETA




“Sempre igual e sem igual” é o slogan da cerveja Aguilla. É o que sinto em relação aos dias que já lá vão, desde que parti de Inuvik… e o sul da Colômbia é o exemplo perfeito dessa repetição impar e sem igual.
Aqui não existe antes nem depois, apenas a simplicidade do instante com a linha de horizonte como limite”

Texto e imagens de Idílio Freire.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


A 27 de Abril de 1974 a imprensa diária continuava a publicar notícias, fotografias, reportagens sobre o Movimento dos Capitães, a libertação dos presos políticos, o desmantelamento da PIDE/DGS, bem como reacções internacionais aos acontecimentos verificados no país.

Título da 1ª página do “Diário de Lisboa”:

“170 Pides nas celas de Caxias.”

Em baixo, à direita, uma fotografia com a seguinte legenda:

“Máscaras de medo, de terror caracterizavam os Pides ao darem entrada nos camiões que os conduziram da Rua António Maria Cardoso para a prisão de Caxias – medo e terror que durante largos anos se comprazeram em espalhar no povo indefeso e nos estoicamente lutavam para restituir a Portugal a justa liberdade”.

Neste sábado, o “Expresso” fazia, após os acontecimentos do dia 25, a sua primeira edição. 

Em editorial declarava que “não precisamos fazer meia volta como tantos outros (…) continuaremos, portanto, naturalmente, pelo mesmo caminho. Aceitando sem reticências o desafio necessário que a nova situação política nos lança. Participando na batalha contra os outros necessários desafios. Lutando por que o país e cada um dos seus cidadãos saibam adaptar-se e beneficiem da mudança que já estamos a viver.”

Também em editorial, o “Diário de Notícias” dedica-se, à moralidade, ao perfeito cinismo ou o começar de pôr água na fervura do caldo, género portem-se bem meninos que isto não é o da Joana.:

“O que os Portugueses não devem entretanto perder de vista é que para se ter liberdade é preciso merecê-la. Cada um de nós tem de provar por si que é digno dela, adquirindo hábitos de tolerância e respeito pelo próximo que andam muito esquecidos. Só por esse modo poderemos triunfalmente refutar o argumento dos que negam ao povo português a maturidade necessária para ser livre”

Na sua página 5 dava conta da “romaria” que ia pela rua onde reside Spínola:

 “Milhares de pessoas de todas as camadas sociais têm-se dirigido à residência do general Spínola, na Rua Rafael de Andrade, dando àquela artéria um movimento sem precedentes. A intenção é sempre, de saudar o presidente da Junta de Salvação Nacional e de lhe manifestar a sua adesão.”

Na sua 1ª página “O Século” noticiava que Mário de Soares partiria de Paris de comboio, estando prevista, para domingo a sua chegada a Santa Apolónia.
 
Palavras de Hermínio Palma Inácio, ao sair da prisão de Caxias, captadas para uma reportagem publicada na página 5:

 “Isto é maravilhoso!.. Sabemos ainda pouco sobre os objectivos da Junta… Oxalá não seja só uma liberdade de doze meses.”

Noticiava, ainda “ O Século” que grupos de populares invadiram as instalações da Comissão de Exame Prévio, ex-Censura, destruindo mobiliário e vasta documentação e colocava um apelo do capitão Salgueiro Maia, pedindo aos populares que não  destruíssem arquivos de valor histórico inestimável.

Pelas ruas da cidade os populares começavam a caça aos pides, publica-se uma fotografia que ficou para a História. Da notícia retiro este pormenor: “entretanto eram presos vários agentes da DGS entre os quais um morador no Bairro Espírito Santo em Odivelas, que foi denunciado por uma senhora. Trazia uma pistola de guerra nas “roupas íntimas inferiores.”



Em “Ultimas Notícias” referia-se que o embaixador de Portugal no Brasil, José Hermano Saraiva” dirigiu-se pela rádio e televisão à comunidade portuguesa:

“O processo que o país atravessa é pacífico, sem violências, e representa um caminho em busca da solução dos seus problemas, disse.

A página desportiva, falando do regresso da equipa do Sporting, tinha este curioso título: 

“A eliminação da Taça das Taças esquecida na Cortina de Ferro por razões óbvias”.

O jogo realizara-se em Magdeburgo, na então chamada Alemanha Oriental.

 Noticia “A Capital” que foram demitidos os governadores de Angola, Moçambique e Guiné, nomeados novos comandos para as regiões militares, GNR e PSP, as tomadas de posição de diversos sindicatos, que no Técnico reabria a Associação de Estudantes bem como a reunião da Junta de Salvação Nacional com a CDE, a Sedes, a Convergência Monárquica e directores dos diversos órgãos de informação.

A CDE fazia-se representar por Francisco Pereira Moura, José Manuel Tengarrinha, Herberto Goulart, Pedro Coelho e Gilberto Ramos, a Sedes por Sá Borges, Magalhães Mota, Teodoro da Silva, A Convergência Monárquica por Rodrigo Montezuma, Pedro Paiva Pessoa e João Vaz Serra e Moura.

Exilado no Brasil o Prof. Rui Luís Gomes anunciou o imediato regresso a Portugal.

Na última página a notícia de que o capitão cubano Pedro Rodriguez Peralta, condenado pelo Tribunal Militar Territorial de Lisboa em dois anos e dois meses de prisão, acusado de pertencer ao PIGC e que se encontrava internado na Cruz Vermelha Portuguesa, vigiado por dois agentes da PIDE/DGS, ficava sob custódia da Junta de Salvação Nacional.

Na primeira página o “Diário Popular” informava que os bancos reabriam ao público na segunda-feira, enquanto na pág. 17 realçava um comunicado da assembleia da Conferência Episcopal da Metrópole. Os senhores bispos, tão silenciosos em tempo de ditadura, entenderam formular votos para o bem-estar da Sociedade portuguesa.

 A edição do “República” salientava que ainda continuavam à solta e armados, mais de dois mil agentes da PIDE/DGS.

Na sua agenda de  espectáculos, podia ler-se a seguinte nota:

“Como os nossos leitores se têm apercebido, a programação da RTP foi profundamente alterada, não sendo ainda possível a organização de horários. Aconselhamos portanto a manterem os aparelhos ligados para a captação de qualquer informação importante ao País.”

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

Anúncio publicado no “Diário de Lisboa” de 27 de Abril de 1974:

“Uma carta entre tantas outras. Uma carta entre os dois milhões de correspondência que diariamente são aceites e distribuídas num milhão e meio de destinos diferentes. Uma carta entra todas as que todas as noites são o trabalho de três mil pessoas. Uma carta que percorreu apenas alguns dos cem mil quilómetros que todos os dias são percorridos por outras cartas. Uma carta que um carteiro entregou. Apenas um carteiro entre nove mil carteiros. Mas valeu a pena todo o trabalho feito, todos os quilómetros andados. Valeu a pena porque se for menina chama-se Beatriz.”

terça-feira, 26 de abril de 2011

PORREIRO, PÁ!


Uma rapaziada, por isto ou por aquilo, ligada ao PSD e agregada em redor duma coisa, capitaneada pelo presidente da "Vodafone", António Carrapatoso a que deram o nome de “Mais Sociedade”, sugerem que o recurso ao subsídio de desemprego implique uma redução de direitos na pensão de reforma, que os subsídios de férias e Natal sejam pagos em Títulos do Tesouro, que a idade da reforma passe a ser os 68 anos, e o mais que hão-de encontrar para nos lixar, ainda mais, a vida.

Verdade? Mentira? Especulação? Um gesto de mandar o barro à parede?

Entretanto, soube-se hoje que perto de 1 milhão e meio de idosos, recebe pensões abaixo de 485 euros mensais, enquanto, no “Jornal de Notícias” de hoje, Manuel António Pina, terminava assim a sua crónica:
  
“Escreve Carlyle na sua "História da Revolução Francesa" que as revoluções são sonhadas por idealistas, realizadas por "fanáticos" e quem delas sempre se aproveita são os arrivistas de todas as espécies.
O que se tem passado em Portugal não é excepção. O regime evoluiu, nestes 37 anos, para "uma coisa em forma de assim" democrática onde, dos valores centrais que sobrevivem da unânime explosão de esperança de 1974, sobram pouco mais que restos nostálgicos e corrompidos.
Não sei até que ponto a responsabilidade caberá aos "arrivistas de todas as espécies" ou, pelo contrário, terá sido a corrupção de valores que lhes abriu as portas. O certo é que somos hoje um país menos livre, menos igual e menos fraterno do que éramos ontem, e ontem menos do que tínhamos sido anteontem. E que a intervenção financeira externa, que fará do tal "país com mais de 800 anos" um mero protectorado, irá agravar a situação até níveis intoleráveis.
O drama é que estamos metidos num nó górdio e, até onde a vista alcança, não se vê nenhum Alexandre ou, ao menos, um homem de Estado. Só pequenez e mediania.”

POSTAIS SEM SELO


Contar os grãos de areia destas dunas é o meu ofício actual. Nunca julguei que fossem tão parecidos, na pequenez imponderável, na cintilação de sal e oiro que me desgasta os olhos. O inventor de jogos meu amigo veio encontrar-me quase cego. Entre a névoa radiosa da praia mal o conheci. Falou com a exactidão de sempre:
- O que lhe falta é um microscópio. Arranje-o depressa, transforme os grãos imperceptíveis em grandes massas orográficas, em astros, e instale-se num deles. Analise os vales, as montanhas, aproveite a energia desse fulgor de vidro esmigalhado para enviar à Terra dados científicos seguros. Escolha depois uma sombra confortável e espere que os astronautas o acordem.

Carlos de Oliveira em “Sobre o Lado Esquerdo”, Iniciativas Editoriais”, Janeiro 1968

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


 No dia 25 de Abril, o Movimento dos Capitães saiu para as ruas já com os matutinos, em fecho de edição. Alguns ainda conseguiram colocar uma pequena notícia, a informação possível, na 1ª página e mais tarde fariam 2ª e 3ª edições. Os vespertinos têm mais desenvolvimento, mas só no dia seguinte, as notícias, as reportagens os comentários conseguem um outro tipo de desenvolvimento.

Todos os jornais de 26 de Abril de 1974, sem terem sido visados por qualquer comissão de censura, referem os acontecimentos ocorridos na véspera: a rendição, no Quartel do Carmo, de Marcelo Caetano, a apresentação, madrugada alta, da Junta Nacional de Salvação, através da RTP, a rendição da PIDE/DGS, a libertação, em Caxias, dos presos políticos, a partida de Marcelo Caetano e Américo Tomás para a Ilha da Madeira.
Raul Rego, no “República”, terminava assim o seu “Momento”, anos e anos a ser esquartejado pelos analfabetos coronéis da Censura:




“Desfizeram-se as grades. É como se tivéssemos acordado para um ambiente largo, onde nunca pudemos viver. Com o nosso esforço procuraremos contribuir para edificar um pais que seja de todos nós. De todos nós e onde todos nos sintamos livres”.

No “Diário de Lisboa”, Mário Castrim escreve o seu primeiro “Canal da Crítica” em liberdade com o título: “Televisão, alegria”
O começo da crítica de Castrim é um louvor à rádio:

“A Rádio. A Rádio. A rádio, preso a ela por um invisível cordão umbilical. A Rádio. As palavras sabidas de cor. As marchas. As músicas escolhidas de qualquer maneira. O telefone que não pára. Quero saber, querem saber, A pergunta sacramental: “Estás a ouvir o Rádio Clube Português.
Sim. Claro, a Rádio. Sento-me esfalfado, como se andasse a calcetar estradas durante um ano inteiro.”

Relembrando sonhos, sonhos velhos, quase apodrecidos, termina a crónica:

“A madrugada passou, é manhã madura do dia seguinte. Abeiro-me das seis horas: José Afonso canta, na rádio uma vez mais Grândola vila morena terra da fraternidade…
Terra da fraternidade…
Três palavras: uma promessa e uma responsabilidade na primeira claridade deste segundo dia da criação do mundo”

Na sua página de desporto,”A Capital”, dava conta que a equipa de futebol do Sporting, devido ao fecho das fronteiras, estava retida em Badajoz. Tinham ido a Magdeburgo jogar na quarta-feira para a Taça das Taças. Acabaram eliminados.





Na sua 3ª página “O Século” noticiava que, presidida pelo engº Amaral Neto, a presença de 38 deputados, reunira o plenário da Assembleia Nacional.
A sessão demorou quinze minutos e, não mais como Nacional, voltaria a reunir.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Ainda as tropas do Movimento dos Capitães andavam a patrulhar as ruas e já o Teatro ABC anunciava que “a melhor revista dos últimos anos” aparecia “completamente renovada”
Antes, chamava-se “Tudo a Nu”, continuava com o mesmo nome, mas agora “Com Parra Nova”.

Anúncio publicado em “O Século” de 26 de Abril de 1974.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

PORREIRO, PÁ!



Segunda-feira de Pascoela, a coincidir com o 25 de Abril.

O Sol brilhou em todo o país. Nem todos o apreciaram do mesmo modo.

Quatro-Presidentes-Quatro, um em funções, três como ex, discursaram nas comemorações do  25 de Abril e afinaram pelo mesmo diapasão: é preciso bom senso, bom senso, bom senso, coesão, coesão, coesão.

Segundo dados do Instituto de Emprego Formação Profissional o número de casais em que nenhum dos cônjuges tem emprego quase triplicou em cinco meses, passando de 1530 em Outubro do ano passado para os 4369 em Fevereiro.

Numa entrevista ao jornal “I”, Mário Soares diz simpatizar com Pedro Passos Coelho, e que se trata mesmo de “uma pessoa bem-intencionada com quem se pode falar"
Os elogios não foram bem vistos no Largo do Rato.
Esse exemplar, não-único, de dirigente, deputado, etc., que dá pelo nome de José Lello, interrogado pelo “Diário de Notícias”, sobre as declarações do “pai da democracia portuguesa”, respondeu:
"Não li nem me interessa".

À boleia do “Público”, que escalpeliza uma reportagem de uma revista cor-de-rosa sobre Pedro Passos Coelho, fiquei a saber, que o presidente do PSD andou a ser fotografado, com a esposa, nas ruas de Lisboa, com uma confidência pelo meio: que ele é especialista em farófias, papos de anjo e queijadas.
Já sabíamos das cadelas, já o vimos, em reportagem televisiva, a cantar, em coro, num centro de apoio a idosos, que já é público que tem todo o programa do governo na cabeça, ficamos, agora, a saber destes predicados, destas miudezas…
Que mais irá acontecer?..

Na semana passada, a SIC transmitiu uma reportagem, excelente trabalho, sobre a Linha do Tua.
Pelo meio, ouve-se uma transmontana dizer para outra:
- É preciso é refodêlos!

Legenda: a fotografia, é do “Público”, texto assinado por Luciano Alvarez.

SARAMAGUEANDO


Não estou com saudosismo da revolução, ela foi o que foi, com os seus erros e disparates mas também com as suas grandes conquistas e, principalmente, as suas grandes ilusões – enormes ilusões – que alimentaram uma parte substancial dos portugueses. Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos a democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito
seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha também tem democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transição como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui h+a anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram naquela altura…Até o Melo Antunes disse “Esse tipo é parvo!” Por isso não me falem do 25 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer “25 de Abril sempre” mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendemos que são justas.

José Saramago à conversa com João Céu e Silva em Uma Longa Viagem com José Saramago

Legenda: José Saramago, Paris 1998, fotografia de Daniel Mordzinki, constante  do catálogo da Exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos.

SEGUNDA-FEIRA DE PASCOELA


Fiquem com esta bonita evocação, tirada do Blog “Largo da Memória” do jornalista e escritor Luís Malheiro:

“Volto de novo à terra, Doiro acima de comboio, a carreira à minha espera no largo da estação, para me levar até ao planalto, a fiel carreira da Meda que, às dezasseis e trinta, me deixará nos Pereiros.
À chegada será Primavera clara ou quase e eu seria capaz de reconhece-la em qualquer parte do Mundo, pelo perfume das amendoeiras em flor, pelo chilrear dos pássaros, pelo zumbido das abelhas, pela cheiro a terra lavrada, pela simbiose perfeita entre estes cheiros, sons e cores.
Do forno comunitário já sobe o cheiro do pão e, na mesa, a minha mãe tem prontos todos os seus mimos, bola de carne, folar, biscoitos, com que vou matar saudades e fome, logo ao subir da escada.
- Um beijo à avó, minha filha. Olhe como a sua neta está linda, minha mãe !
Amanhã cedo vou à missa como todos os meus conterrâneos, vestirei uma opa vermelha para pegar no pálio na procissão e, com voz afinada, cantarei aleluia, aleluia, respondendo às invocações do Abade Celestino, no salmo em que anuncia à Mãe a ressurreição do Filho, afinal o mais sublime desejo de qualquer mãe que há três dias tenha perdido o seu.
À tarde sairá o compasso que vou receber em nossa casa, na companhia de quem quiser entrar para partilhar alegrias, trocar mimos, comungar afectos!
Os sinos repicarão toda a tarde e eu, pelo jeito de tocar, vou identificar quem toca e prestarei homenagem a quem consegue transformar em sinfonia duas notas repetidas, dlim dlão, dlim, dlão.
Vem daí, João, homem de Deus. Como pediste, as mimosas que conhecemos por acácias, estarão em flor, terás na mesa uma bola de azeite e uma regueifa fresquinha, e, se prometeres que vais, vou rogar a música de Custóias para dar brilho à nossa Páscoa!”

25 DE ABRIL SEMPRE!


Para mim acabou no dia 2 de Maio de 1974.

Mário Viegas em Auto-Photo Biografia (não autorizada)

domingo, 24 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável. No segundo caso, o homem que não dorme pensa: “o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração.

Carlos de Oliveira em “Sobre o Lado Esquerdo”, Iniciativas Editoriais”, Janeiro 1968.

Legenda: Desenho de Pablo Picasso.

PORREIRO, PÁ!


Não choveu neste Domingo de Páscoa.
Não há matéria apetecível para o Porreiro falar com o Pá.
Após almoço familiar, estive a reler passagens de “Os Anos Decisivos” de César Oliveira, militante anti-ditadura, professor, deputado, Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital falecido em Junho de 1998.
O seu testemunho termina assim:

“Penso que somos cada vez mais um povo cinzento e mais baço, onde o oportunismo é favorecido, a partidocracia do laranjismo cavaquista gera medo, impotência e sobretudo a interiorização em muitos portugueses da pior das heranças do salazarismo: a cunha, a “pedinche” aos “senhores do poder, a subserviência perante o senhor ministro a que é sempre preciso dizer… sim, senhor ministro,
Crescemos economicamente, mas tudo ou quase tudo aquilo que é essencial num processo desenvolvimento harmonioso e integrado, que faça de cada homem o senhor da sua história e do seu destino, está por fazer. Deixámos até, muitos de nós, de ter a capacidade e a energia que leva à indignação e ao clamor colectivo que Humberto Delagdo, em 1958, no Porto, exprimiu lapidarmente ao gritar: “Estamos fartos! Cansaram-nos! Vão-se embora!”
Acredito, contudo, na capacidade de darmos colectivamente as mãos, de unirmos esforços e vontades para vencer uma batalha que coincida com a necessidade de ganhar uma guerra: construir uma alternativa que relance, em cada um e em todos, a esperança na edificação de um futuro onde, como escreveu Manuel Alegre, “as mãos do homem tenham, exactamente o tamanho das mãos do homem”.
Eu… por mim continuarei a seguir as bandeiras vermelhas que comecei a erguer, quando vi Humberto delgado numa varanda do Hotel Astória, em Coimbra, junto ao Mondego, no ano já distante de 1958.”

César Oliveira, “Os Anos Decisivos”, Editorial Presença, Lisboa 1993

DOMINGO DE PÁSCOA

Eram diferentes as Páscoas dos tempos da minha infância e de alguma adolescência.
Há muito tempo, mesmo muito tempo, a Semana Santa, era os cartazes de “A Túnica” nas paredes do antigo cinema “Lys”. Era, a partir de quinta-feira, o silêncio das rádios, Salazar transformava a Páscoa em luto nacional e esse silêncio radiofónico apenas era interrompido para a transmissão dos relatos do Torneio de Montreux, em hóquei patins, no tempo em que éramos os melhores. Os relatos do Lança Moreira ou do Artur Agostinho rompiam o é éter, mas, findo o jogo, voltava-se ao silêncio, à até que Cristo ressuscitasse.
A Semana Santa era, também, o Carlos Alberto, perante os outros putos da rua que, em nenhum dia usavam gravata, aparecer de gravata preta. Não jogava à bola apenas aparecia junto de nós, nas suas calças à “golf”, pullover e gravata preta. Perguntado pelo porquê, respondeu grave e peremptório: “Cristo morreu”!
Como não sou de igrejas, nem latinórios, a Páscoa sempre há-de ter o encanto de um cabritinho assado em forno de lenha, batatinhas, cebolinhas, um arroz de miúdos, grelos salteados, uma garrafa de “Murganheira”, muitos chocolates, um “Cohiba” e música de Handel – “O Messias”
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
Cada vez mais, as tradições da Páscoa têm vindo a perder-se, e hoje, já poucos se lançam estrada fora, para a reunião familiar, ao encontro dos avós, dos pais.
Antes é o aproveitar de tolerâncias várias de ponto e idas para a neve, para o Algarve, para as Caraíbas, para as caipirinhas numa qualquer praia do Brasil.
As crianças trocaram as procissões religiosas pelas “playstation” e, cada vez mais,
Comissões de festas e párocos, lutam com a falta de adesão dos mais novos, aos rituais pascais Já não  há muitos “anjinhos” e, há três anos, a tradicional Procissão dos Passos, em Braga,  teve  50 participantes, quando seriam necessários mais do dobro.
O compasso (visita pascal com mordomo, padre e acólitos) também está a extinguir-se. Porque não há padres em número suficiente para as visitas, os que há são velho e, muitos, recusam-se a entrar em lares de casais amancebados.
Eram diferentes as Páscoas dos tempos da minha infância e de alguma adolescência.

”Regateado o preço
com o pastor de ovelhas,
foi a sacrificar ontem no eirado
o cordeiro pascal
que devorámos hoje à mesa.

Isto só tem a ver com a terra.
Nenhum deus nos mandou
matar em seus altares
um animal de rosto ingénuo
nem cantar loas ao assado.
Os deuses não conhecem
o forno a lenha
e nenhum deles chupa as costelas
como nós as chupamos, e os dedos.”

Poema “Domingo de Páscoa” de Nuno Dempster, em  Dispersão - Poesia Reunida” , Edições Sempre-em-Pé, Novembro 2008.

PRIMAVERA DE 1938

Hoje, domingo de Páscoa, de manhã
Passou pela ilha uma tempestade de neve.
Entre as sebes verdejantes havia neve. O meu filhinho
Pra me mostrar um pequeno damasqueiro junto à casa
Veio arrancar-me a um verso em que apontava com o dedo
Para aqueles que estão a preparar uma guerra que talvez
Venha a destruir o Continente, esta ilha, o meu povo,
A minha família e a mim. Calados
Pusemos um saco
Sobre a árvore gelada

Bertolt Brecht em “Poemas e Canções”, tradução de Paulo Quintela, Livraria Almedina, Coimbra 1975

sábado, 23 de abril de 2011

PORREIRO, PÁ!


De manhã fui ao “Minipreço” comprar as amêndoas para os netos, os folares para os afilhados.
Apanhei uma molha de todo o tamanho. Uma rabanada de vento partiu o chapéu-de -chuva que a senhora da Farmácia me oferecera pelo Natal.

D. Manuel Clemente, bispo do Porto, diz que os portugueses têm de viver de forma mais modesta e acredita que ainda estão para chegar os sacrifícios.

Não li, mas parece que o Miguel Sousa Tavares escreve hoje, no “Expresso”, que os políticos nos enganam.
O meu avô filosofava que se os políticos dissessem as verdades não ganhavam eleições, ao passo que Nikita Khrushchev lembrava que os políticos são iguais em toda a parte: “prometem construir pontes mesmo onde não existem rios.” e, amargamente, Miguel Torga, no dia 14 de Novembro de 1985, escrevia no seu “Diário”:

“Há uma coisa que eu nunca poderei perdoar aos políticos: é deixarem sistematicamente sem argumentos a minha esperança”.

O INE, em sintonia com o Eurostat, anunciou este sábado uma revisão da notificação relativa ao Procedimento dos Défices Excessivos enviava a Bruxelas no final de Março. Agora, o défice de 2010, que já fora revisto em alta para 8,6 por cento do PIB, passa a ser de 9,1 por cento, por causa de três contratos de Parcerias Público Privadas.
Bem diziam os rapazes da troika que iriam trabalhar durante a Semana Santa

Ao cair da noite, segundo a SIC, o Benfica, ao vencer o Paços de Ferreira por 2-1, conquistou a Taça da Liga.
E se por via disto, Jesus já não é despedido?

Será que vai chover neste Domingo de Páscoa?
Algumas incertezas…
Um destes dias hei-de perguntar-me dos motivos por que me envolvi nisto da meteorologia pascal…

Legenda: pintura de Steve Hanks.

DOS QUE AMAM OS LIVROS


Que capa de livro se olha, quando ficamos a saber que (mais) uma livraria fechou portas?
Que citação? Que palavras?
Não sei, apenas sei que a morte de uma livraria me deixa uma desesperante tristeza,  uma angustia muita fina que dói.
De uma vez para sempre, devíamos ser mais – que devíamos ser TODOS, os que entendem que um livro não é uma flor de vaidade - a não comprarem livros nas fnacs, nos hipermercados.
“Exmos. Senhores
A Trama Livraria, Lda. entrou em insolvência há escassos dias. Durante os próximos tempos entrará numa espécie de período de "liquidação" que tem por objectivo escoar todos os livros que foram adquiridos (em segunda mão, maioritariamente) ao longo de mais ou menos três anos de trabalho.
Suponho que o nosso encerramento seja uma surpresa para muitos - sobretudo para aqueles que não têm aparecido mas, para dizer a verdade, estava na cara.
Como todos sabemos, nenhum negócio vive de amigos, primos, vizinhos ou entusiastas. Um negócio, qualquer que ele seja, precisa de clientes para poder cumprir com um sem fim de obrigações que passam pela renda, pelos impostos, pelas contas (água, luz, net, telefone, essas coisas) e, com sorte (não a nossa, convenhamos), pelos ordenados.
Como podem ver não fomos bem sucedidos - isto se acreditarmos nesse conceito misterioso chamado "sucesso". A meu ver - e se nos seguem há tempo suficiente bem sabem que aquilo que acho serve de pouco ou nada - fomos muito, muito bem sucedidos. Falhou o guito. Falharam várias coisas, todas passando pelo guito.
Durante três anos fizemos tudo quanto podia ser feito - concertos, leituras, conversas, edição de dois livros, teatro, festarolas, cinema, actividades infantis e sabe-se lá mais o quê. Todas estas coisas foram feitas, essencialmente, por acreditarmos que eram necessárias, pese embora nunca tenham sido lucrativas. Mas que se lixe, não estávamos nisto pelo lucro e, imaginem, nem sequer somos de esquerda. O objectivo sempre foi o mesmo, desde essa tarde de 2007 em que concebemos a Trama, até há uns meses atrás: fazer aquilo de que gostávamos e em que tínhamos alguma experiência, continuar a aprender e... partilhar. Fúria juvenil, ímpeto irracional, inexperiência, falta de jeito para o negócio, chamem-lhe o que quiserem.
Não queremos que lamentem, que tenham pena, que nos consolem. Não estamos arrependidos e, creio, fazíamos tudo outra vez. Talvez agora soubéssemos uma ou duas coisas que tornariam este desfecho diferente... mas a verdade é que se as tivéssemos sabido há mais tempo, a Trama, como a conhecem, nunca teria existido.
Não queremos que lamentem, que tenham pena, que nos consolem. Não estamos arrependidos e, creio, fazíamos tudo outra vez. Talvez agora soubéssemos uma ou duas coisas que tornariam este desfecho diferente... mas a verdade é que se as tivéssemos sabido há mais tempo, a Trama, como a conhecem, nunca teria existido.
Um erro, sim
mas belo
belo
belo
belo
Não queremos que se sintam culpados. Mas se se sentirem também não faz mal.
Até já”
Carta publicada por Catarina aqui.



Chegámos ao ponto em que não há dinheiro para coisa alguma.
Quando se chega a este ponto, começa logo por não haver dinheiro para as coisas da cultura, esse mundo supérfluo habitado por uma minoria de tresloucados.
A frieza dos números, o guito, como lhe chama a Catarina, mataram o sonho de uma vida.
Tramaram a “ Trama”!
Não gostaria, mas sinto o mesmo arrepio que o Jorge Silva Melo sentiu quando uma simpática livraria, em Campo de Ourique, fechou as portas.
Se  a “Trama” fechou, fui também eu que a fechei.
E fico a desejar, uma vez mais, que as livrarias, ao contrário dos homens, possam ressuscitar.
Para já, e até final de Abril, a Trama”, ali na Rua são Filipe Folque nº 51, está em liquidações.

Legenda: Fotograma de “You Got a Mail” de Nora Ephron, com Meg Ryan e Tom Hanks, onde se conta a história de uma pequena livraria, onde havia competência e gosto pelos livros, e que é devorada por uma grande superfície, construída mesmo ao lado, também com uma livraria, mas onde campeiam  a frieza, a ignorância e a incompetência.