segunda-feira, 30 de abril de 2012

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Esta é a 1ª página do República de 1974.

O destaque ia para a chegada, ao Aeroporto da Portela, de Álvaro Cunhal.

À hora de esta edição ser impressa, um exilado de 59 anos regressa a Lisboal para trabalhar finalmente no seu país libertado. É àlvaro cunhal, secretário-geral do Partido Comunista Português.

Foi a 3 de Janeiro de 1960 que a PIDE/DGS, acordou, em Peniche, para o seu maior amargo de boca – Cunhal volatilizava-se… Regressa hoje, mais de 14 anos depois, e a emoção assalta os seus companheiros de luta.

Anos mais tarde, o dirigente comunista Francisco Miguel, dirá:

Nunca me conformei com a ideia de que haja alguma prisão absolutamente invulnerável.

Juntamente com Álvaro Cunhal chegavam outros exilados políticos, entre eles encontravam-se  José Mário Branco e Luís Cilia.

Spínola recebia pelas 19,30 horas, todos os presidentes dos sindicatos.

Em nota editorial, o jornal chamava a atenção para eventuais provocações que pudessem ocorrer durante as manifestações do 1º de Maio:

Não respondamos a provocações, nem nos deixemos ir na onda dos que querem afundar e comprometer. Cuidado com as infiltrações de provocadores!

Claro que, naquele dia, não apareceram nem provocadores, nem agitadores.

Estavam na toca, à espera de melhores dias.

Dias que, aos poucos, por distracção nossa, ou pelo que lhe quiserem chamar, acabariam por acontecer.

Sabemos, hoje que muitos militares, muita outra gente, se meteu na barca para a afundar.

Como escreveria o colunista Artur Portela Filho, na sua Feira das Vaidades, publicada neste mesmo número do República:

O camaleão não muda de cor de cor uma vez só.

Mudar de cor é a própria natureza do camaleão.

POSTAIS SEM SELO


“Abril tão triste no País de Abril”
Dizia a canção do poeta antes de Abril de 1974.
“A poesia está na rua”
Dizia o poeta logo após Abril de 1974
“Mudam-se os tempos mudam-se as vontades”
Dizia o poeta há séculos atrás
A única maneira de cumprir Abril é ouvir as palavras dos poetas.
É lutar por um Abril mais feliz no País de Abril,
É continuar a levar a poesia todos os dias à rua
É continuar a lutar unidos para que mudem os tempos
E as vontades, num País de todos os meses.
Cumprir Abril é fazê-lo outra vez!

Mário Viegas

Legenda: Desenho da Prisão, Álvaro Cunhal

domingo, 29 de abril de 2012

JANELA DO DIA



Por norma os fins-de-semana são dias parcos em notícias, os políticos, os fala-barato, vão arejar e, apenas ficam as outras notícias, normalmente mortes, outras tragédias, por vezes, um acontecimento feliz.
É um tempo propício para colocar à janela o que, nos últimos dias, fui lendo pela concorrência.

1.

Na abertura da Feira do Livro de Lisboa, não foi apenas a comitiva oficial que passeou pelo parque, trocando cumprimentos com os passantes. Também os trabalhadores das livrarias Bulhosa, do Grupo Civilização, e da Europa-América marcaram presença, com panfletos que explicavam aos visitantes da Feira o que se passa nos seus locais de trabalho (salários em atraso, subsídios por pagar, total instabilidade laboral). Nessa altura, um dos trabalhadores da Bulhosa deu uma entrevista à SIC, falando sobre a sua situação laboral e a dos seus colegas; três dias depois, foi suspenso, como se pode ler na notícia do Expresso:

A administração da Bulhosa Livreiros suspendeu hoje de manhã Rui Roque, o trabalhador que surgiu, na reportagem da SIC, a denunciar a atual situação de salários em atraso na empresa, no âmbito da ação de protesto que decorreu durante a abertura da Feira do Livro de Lisboa.

“Hoje a administração decidiu suspender-me porque acha que não reúno condições para trabalhar na empresa”, contou ao Expresso Rui Roque.

O Expresso tentou obter esclarecimentos da Bulhosa Livreiros, do grupo Civilização, mas não conseguiu mais do que uma declaração. “A empresa não comenta questões internas relacionadas com os seus funcionários”, leu o assessor de imprensa, acrescentando: “A Bulhosa Livreiros pauta-se pelo respeito escrupuloso pelos direitos legais dos trabalhadores, designadamente o direito à manifestação”.

Na comunicação do processo disciplinar que enviou ao funcionário, a administração refere, especificamente, que a decisão ocorre na sequência do conhecimento do comportamento do trabalhador no dia 24 de Abril de 2012, data da manifestação conjunta de trabalhadores da Bulhosa Livreiros e da Europa-América, organizada com o Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal CESP), para denúncia dos salários em atraso nas duas empresas.

Sara Figueiredo Costa no Cadeirão Voltaire

2.

Era miúda na altura, não percebi a correria, o medo, a alegria súbita. Depois sim, e na verdade o vinte e cinco de abril deu-me a possibilidade de ser refilona ainda muito jovem, de não aceitar as coisas como elas são mas como devem ser. Ao ver na televisão as imagens antigas, percebo como a data se transformou em história distante, matéria escolar, porém não sinto nostalgia. E quando dizem que os ideais do vinte e cinco de abril não se cumpriram, não compreendo. Uma revolução é necessária para dar cabo de qualquer coisa, acabar com uma ditadura, por exemplo; é uma resposta violenta e curta, deve ficar por aí. É mais importante, e também mais difícil, o que vem depois e se prolonga: reconstruirmos o nosso dia a dia, assumirmos a responsabilidade de pensar e agir em conjunto, darmos às nossas palavras e aos nossos gestos um sentido justo — isso não muda o mundo, mas eu mudo.

1º DE MAIO

QUOTIDIANOS


Aonde é que isto vai parar?
- Mais longe do que a gente possa imaginar!

Legenda: pintura de Roberto Nobre

OLHAR AS CAPAS


Memória Dum Pintor Desconhecido.

Mário Dionísio
Colecção Poetas de Hoje nº 19
Portugália Editora, Lisboa Dezembro 1965

Com o dedo escreves
no vidro molhado
uma palavra indecifrável

Às oito e meia da manhã
na cidade apressada
ninguém a pode ver

Mas quem ouve o segredo
desse arabesco de árvore
já não vai ao emprego

Fica tonto a olhar
internecidamente
tudo e nada

mesmo sem entender



Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política. A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

OLHARES

POSTAS SEM SELO


Ah, esta calma matutina, este bulício fino, esta límpida rede de sons que não magoam…
É domingo e há sol. Esta manhã os pensamentos são como as aves – voam!

sábado, 28 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS



Casa na Duna

Carlos de Oliveira
Prefácio: Mário Dionísio
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Maio de 1964

Hilário encosta-se ao coreto. Quer saber quanto pesa a coragem. Uma situação nova para ele, que fugiu sempre a tudo, à vida aos próprios sonhos. Lá Custar, custa. Um, suor miúdo corre-lhe na espinha e gela-o. Treme a cada olhar que lhe deitam. Cerca-o a festa, o mundo rude dos bêbados, das fêmeas, do cio, caldeado num pobre temor religiosos. A ternura não existe de graça, é preciso consegui-la à força, magoar, bater. Mas valerá a pena? A primeira gota de abandono. Lentamente, o veneno encharca-o e o simples facto de viver transforma-se em repugnância física. Está nu diante de si mesmo. Escusa de fingir. E antes que o suor o petrifique ou o medo lhe dê a volta ao estômago e o faça vomitar, abala para casa.
As luzes do largo ocultas pelas árvores, o céu já sem estrelas, a madrugada ainda distante, rodeiam-no de treva. Apressa o passo, transpõe o portão. E nunca mais saberá como a água turva de que é efeito se perdeu no mar. Uma dor fulgurante de tém-no por segundos; e oscila, ajoelha, sem consciência de nada.
De manhã, os trabalhadores da quinta encontram-no ainda com a enxada que o matou enterrada de alto a baixo na cabeça.


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política. A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

POSTAIS SEM SELO


Roubar a alguém o sonho de uma vida inteira é pior, e mais imperdoável, do que privá-lo do pão que lhe é devido, da paz a que tem direito, da própria liberdade.

Autor desconhecido

sexta-feira, 27 de abril de 2012

JANELA DO DIA


1.

O economista e Nobel Joseph Stiglitz, considerou que a austeridade na Europa está a empurrar o velho continente para o suicídio.

Em causa as medidas de austeridade que atingem os 450 mil milhões de euros, aplicadas pelos 27 no meio de uma crise financeira mundial.

Caso a Grécia fosse o único país europeu a aplicar medidas de austeridade, os responsáveis europeus poderiam ignorá-lo, mas com o Reino Unido, a França e todos estes países a sofrer a austeridade é como se fosse uma austeridade conjunta e as consequências económicas vão ser duras, alertou.

2.

Manuel António Pina, numa das suas últimas crónicas no Jornal de Notícias referia o ministro da economia Álvaro Pereira:

Agora que vivazmente se preparava para argumentar com a média europeia para reduzir ainda mais o valor das indemnizações por despedimento, veio o Eurostat lembrar-lhe que os custos do trabalho em Portugal já vão em menos de metade da média europeia e nem assim os seus queridos empresários são mais "competitivos". Eu ia à bruxa.

3.

A Associação Nacional de Municípios Portugueses considerou escandaloso e vergonhoso o fim da televisão analógica, afirmando haver um conjunto muito grande de cidadãos, principalmente em municípios do interior, que ficaram sem acesso à informação.

A Associação é deopinião que este programa foi todo montado para privilegiar uma empresa, para privilegiar a Portugal Telecom e mais nada".

4.

A nova taxa sobre o comércio alimentar vai afectar entre 1600 a 1800 lojas de todo o país e terá um impacto directo nos preços praticados no retalho, dos supermercados aos hipers.

Assunção Cristas, ministra da Agricultura, adiantou que o Governo quer cobrar uma contribuição anual, definida em portaria, entre cinco a oito euros por metro quadrado.

É uma taxa nova com um impacto diminuto e incidirá sobre as superfícies da grande distribuição. Os estabelecimentos comerciais abaixo de 2000 m2 estarão isentos., disse a ministra

Com este imposto, o governo estima encaixar 12 milhões de euros.

OLHAR AS CAPAS



Jorge de Sena

Selecção e prefácio de Eugénio Lisboa
Capa de Rui Ligeiro
Editorial Presença, Lisboa 1984

Um dia se verá que o mundo não viveu um drama.
 
Todas estas batalhas, todos estes crimes,
todas estas crianças que não chegam a desdobrar-se em carne viva
e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,
todos estes poetas furados por balas
e todos os outros poetas abandonados pelos que
nem coragem tiveram de matar um homem,
toda esta mocidade enganada e roubada
e a outra que morreu sabendo que a roubavam,
todo este sangue expressamente coalhado
à face integra da terra,
tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.
 
Um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.

Poema de Coroa da Terra, datado de 1942.

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

DA MINHA GALERIA

SEMPRE!


Tirei esta fotografia, no sábado, antes do jogo com o Marítimo.
Uns putos idiotas, irresponsáveis e com uma enorme falta de civismo, dedicaram-se a borrar as paredes, numa atitude de protesto contra o presidente e o treinador.
Fiquei danada.
Amanhã o campeonato entra na sua recta final e eu quero dizer que ainda acredito.
Ser dum clube, e um clube como o Benfica, é saber que há dias de glória e outros dias.
O facto de as coisas, nos últimos jogos, não terem corrido bem não pode levar a este tipo de atitude.
Cá na casa também há quem esteja contra o presidente e o treinador.
Eu pergunto sempre se há melhor.
José Sócrates não prestava. Os que estão agora no governo são melhores?
Voltando ao que disse atrás. Acredito.
E se as coisas não correrem de feição só posso dizer que para o ano voltarei a estar lá.
E a acreditar!

25 DE ABRIL NA A.R.

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Bem, há que louvar a capacidade dos dois partidos do governo, por aceitarem que se festeje o 25 de Abril, e até assistirem às celebrações. Não nos esqueçamos que o PSD foi fundado por ex-deputados da Assembleia Nacional, membros do partido que nos governou em ditadura durante 48 anos. O CDS por sua vez, foi fundado por ex-ministros de Salazar, nasceu das cinzas da Acção Nacional, é um partido fundado para acolher, e bem porque estamos em democracia, os defensores do antigo regime. Isto é assim como se o Pinto da Costa fosse celebrar uma vitória do Benfica sobre o Porto, pusesse um cachecol vermelho, e ouvisse embevecido um coro a cantar o "Ser Benfiquista".

POSTAIS SEM SELO



Devo ter dormido, mas não me lembro. Na verdade, o dia mais longo da minha vida não foi bem um dia: começou naquelas horas vertiginosas do dia 25, até ao 1º de Maio, e que continuaram a sê-lo durante uns meses.
                   
Autor desconhecido.

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

quinta-feira, 26 de abril de 2012

JANELA DO DIA


Governo de Pedro Passos Coelho, de cravo ao peito, durante as comemorações oficiais do 25 de Abril, na Assembleia da República.

Sem comentários!...

OLHAR AS CAPAS



Para a História da Cultura em Portugal

António José Saraiva
Capa de António Domingues
Publicações Europa-América, Lisboa, Julho 1961

O problema nacional da cultura tem de começar a ser resolvido pela base.
Quer-se primeiramente uma população de cultura média suficientemente moderna. Mas aqui põe-se outro problema: como poder elevado o nível cultural de uma população esfomeada? Como pode o nível cultural ser alto onde o nível económico é baixíssimo? Há, portanto, preliminarmente, problemas de aparelhagem técnica, de aproveitamento de recursos naturais e de redistribuição da riqueza a resolver. E como o problema económico de um país pequeno não pode ser resolvido na base da autarquia, impõe-se o problema das trocas com o estrangeiro, e, portanto, da política externa. Mas outro problema se põe ainda: onde estão os técnicos e os dirigentes capazes de levar a cabo e de garantirem a continuidade de uma transformação desta ordem? A questão não é saber se os há em determinado momento, por acaso. Consiste em que, se o nível dos dirigentes é função do nível da massa, como lembrámos há pouco, uma massa culturalmente atrasada não nos dá o direito de esperar os dirigentes em qualidade e número suficientes para lhe melhorar as condições técnicas de vida, em que além disso, qualquer grupo de dirigentes precisa do apoio e do controle de uma massa esclarecida. E voltamos ao princípio: põe-se de nova na bases o problema pedagógico, círculo vicioso e insolúvel, se os houvesse para a natureza humana – plástica e capaz de se conhecer a si própria.


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA



Esta foi a escolha, para o dia 26 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

Em destaque, a sessão da meia-noite, do cinema Londres, com o filme Lilith de Robert Rossen.

Não sei se houve sessão, no Londres, ou em qualquer outro cinema: uma revolução estava na rua!

Por mera curiosidade direi que, se não fosse o 25 de Abril, eu seria um dos espectadores do filme de Robert Rossen, pois nunca o tinha visto.

Como, a abrir a prosa, o Eduardo escreve:

É muito natural que o nome de Robert Rossen nada evoque à grande maioria do público de cinema.

E mais escreveu:

É precisamente Lilith (que, em português, recebeu o título um pouco fatalista e bastante moralista de Lilith e o Seu Destino) que hoje lhe recomendamos, na certeza de que lhe chamamos a atenção para um dos filmes mais importantes que, na década de 60, se produziu em Hollywood.




O dia 26 era o último dia das escolhas do Cinéfilo, e convém dizer que havia, sempre, uma outra escolha. A do DIA NÃO!

Como o nome indica, servia para avisar o leitor de que não valeria a pena mexer um pé, para ir ver, ouvir, ou ler, o que o Eduardo entendia como puro  (des)aconselhamento.

O NÃO desta semana, recaía no filme de Sydney Pollack, O Nosso Amor de Ontem, com Robert Redford e Barbra Streisand.

Destaque ainda para uma rubrica regular do Cinéfilo.

Dava pelo nome de O Colocador de Cartazes e era assinada por Adelino Tavares da Silva, um dos grandes jornalistas portugueses, homem de um humor fino e, ao mesmo tempo, desconcertante.

No cartaz deste número, a propósito do Jaime de António Reis, Adelino Tavares da Silva, contava a história de um maluco num dia em que aVolta a Portugal em Bicicleta, passou por Serpa.




Uma coisa é o Jaime do António Reis; outra é uma história de malucos.

Não queria terminar a viagem, pelo número 29 do Cinéfilo, da semana de 20 a 26 de Abril de 1974, sem referir um pormenor.

Só no número 31 do Cinéfilo, semana de 4 a 10 de Maio de 1974, se ficou a saber da razão de o número anterior, semana de 27 de Abril a 3 de maio, não ter uma única referência à data histórica:

Razões de fabrico da revista fizeram que o último número do Cinéfilo saído dois diaa de pois do Movimento do 25 de Abril estivesse já pronto na véspera, o que fez com que em nada reflectisse as consequências profundas que, a todos os níveis e, neste caso, na a informação, alteraram de um dia para o outro o funcionamento e a fisionomia dos jornais, revistas, emissões de rádio e televisão e os espectáculos em geral. Os artigos publicados nesse número, por exemplo, haviam sido todos objecto de censura e, coisa obsoleta, dois dias depois desta ter sido suprimida, o Cinéfilo saía pois com artigos censurados.

Por fim, dizer que, uma vez por outra, voltarei a pegar no Cinéfilo, destacar um número, e viajar por ele

SEMPRE!





Sim, eram péssimas as condições atmosféricas: chuva, vento, frio.
 Mas ninguém arredou pé.
25 de Abril Sempre!
Já estamos a caminhar para o 1º de Maio.

POSTAIS SEM SELO


Sabe-se quem travou a marcha ruidosa e feliz. Conhece-se os nomes daqueles que na sombra e no silêncio, isolaram e subjugaram, de novo, as nossas emoções.

Baptista-Bastos, Diário de Notícias, 22 de Abril de 2009

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

UMA REVOLUÇÃO PARADA NO SINAL VERMELHO


Era uma vez, no ano de 1974, a madrugada de vinte e cinco, de um Abril português.

Às 22h 55, João Paulo Dinis, diz, aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa, que faltavam cinco minutos para as 23h00 e anunciando que Paulo de Carvalho vai cantar E Depois do Adeus.

ÀS 00h29, no programa Limite da Rádio Renascença, começam a ouvir-se os passos cadenciados que, José Mário Branco inventara para Grândola Vila Morena do álbum Cantigas do Maio de José Afonso, e são declamadas as primeiras estrofes da canção:

Grândola Vila morena, terra da Fraternidade, o Povo é quem mais ordena dentro de ti ó cidade.

Começavam a nascer as cores vibrantes dos sonhos de uma geração, quase perdida, que vivia dentro do medo.

Sabemos hoje, que a alegria desses sonhos, converteu-se, aos poucos, em algo de muito doloroso…

Nem nos piores pesadelos, essa geração, pressentiu que chegaríamos ao ponto onde hoje nos colocara, deixámos que nos colocassem.

Relato de um capitão de Abril, Salgueiro Maia de seu nome:

Quando, pelas 3 horas da manhã de 25 de Abril, saímos da EPC, o carro da PIDE e o agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) que costumava estar junto ao mercado municipal tinham desaparecido. Soube depois que avisaram Lisboa, mas, por exemplo o comando da PSP não se preocupou, por considerar que devíamos estar a sair para exercícios.

Também à entrada do Campo Grande, em Lisboa, ouvi, num dos meus rádios, um carro patrulha da PSP a informar o respectivo Comando da nossa passagem, bastante impressionado com o número de metralhadoras que via passar.

Enquanto ouvia estas informações, o jipe trava de repente e dou comigo parado no sinal vermelho do cruzamento da cidade Universitária. Olho para o lado e vejo um autocarro da Carris também parado. Achei que era de mais parar a Revolução ao sinal vermelho, quando o que distinguia os carros do MFA era um triângulo vermelho no lado esquerdo das viaturas ou tapando a matrícula. Mando avançar tocando as sirenes das autometralhadoras EBR até chegar ao Terreiro do Paço.(…)

Pelas 7 horas, no Terreiro do paço, surgem dois repórteres. Perguntam se podem tirar fotografias e conversar com as pessoas. Respondo-lhes: “À vontade, é também para garantir isso que nós aqui estamos.” Olham-me com um certo ar de espanto e vão à vida.

Um furriel vem trazer-me uma senhora funcionária da limpeza dos CTT do Terreiro do Paço; diz que quer á viva força ir para o trabalho, e como tal atravessar o largo. Quando chega junto de mim, com ar de desânimo diz-me: “Tenho de ir trabalhar e o senhor tem de me deixar passar!” Replico-lhe: “Não se preocupe, porque hoje, e daqui para o futuro, o 25 de Abril vais ser feriado nacional.” A mulher olha-me com ar de quem mada mais tem a fazer e volta para o lado da Estação Marítima do Sul e Sueste, dizendo talvez para ela que “aquele tipo é mesmo doido.

O capitão parte do Terreiro do Paço, para subir até ao Largo do Carmo. E conta:

Quando regressei ao quartel, dirigi-me ao comandante e disse-lhe que, se ele não mandava, então eu queria falar com quem mandasse. Conduziram-me à presença de Marcello Caetano; mas para isso passei por uma antecâmara, onde encontravam Moreira Baptista e Rui Patrício, chorando este como uma criança, olhando o infinito o primeiro.

Dessa reles cobardia, de quem se considerava resguardado no medo que infligia a todo um povo, o Diário de Lisboa, colocará em caixa:

Massacravam-nos os ouvidos com afirmações de coragem.

Diziam que se, se alguma vez o chamado estado Novo corresse perigo, iriam dar tiros para a rua.

Afirmavam-se prontos a morrer.

Juravam, rejuravam e trejuravam que o Povo só chegaria ao poder passando por cima dos seus cadáveres.

Gritavam aos quatro ventos que iriam vender cara a vida.

Consideravam-se soldados de uma guerra gloriosa.

Não perdiam uma ocasião de proclamar o desejo que tinham de provar a sua fidelidade vertendo, para tal, o seu próprio sangue.

Arrotavam postas de valentia.

As suas permanentes gabarolices, infantis e monocórdicas, tinha-nos levado a crer que, no dia da mudança, iriam dizer qualquer coisa.

Dar um grito, por exemplo, um grito, um suspiro, um soluço…

Mas nem isso.

No dia vinte e cinco de Abril os heróis do palavreado não cumpriram uma única das promessas que tinham feito.

Perderam o pio.

Regressamos ao relato do Capitão:

Marcello estava pálido, barba por fazer, gravata desapertada, mas digno.
Fiz-lhe a continência da praxe e disse-lhe que queria a rendição formal e imediata. Declarou-me já se ter rendido ao Sr. General Spínola, pelo telefone, e só aguardava a chegada deste para lhe transferir o Poder, para que o mesmo não caísse na rua!
Estive para lhe dizer que estava lá fora o Poder no povo e que este estava na rua.

Provavelmente, inspirado por estas palavras do Capitão, José Carlos Ary dos Santos,  há-de escrever:

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Fontes: Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril de
             Salgueiro Maia, Editorial Notícias, Lisboa Novembro de 1997.
             As Portas Que Abril Abriu, Editorial Comunicação, Lisboa Novembro de 1975.

Legenda: fotografia de Alfredo Cunha.

MARCADORES DE LIVROS

OS DIAS LEVANTADOS


O 25 de Abril é um dia e são dias,
meses, anos. É daquelas datas
que se  constelam, que estão
antes de hoje, que hoje ecoam ainda,
e que tremulizarão no depois de hoje
como a memória de uma outra
possibilidade no conflito dos reais.
Porque foi um processo de irrupção
de imensas vozes e corpos
no teatro da história
tal como a fazemos.
Porque foi um processo de
transformação do nosso espaço-tempo
e das nossas formas de habitar.
Porque foi a liberdade e a
democracia como emancipação
Porque foi a política como poiesis.

Manuel Gusmão, autor do libreto para a ópera Os Dias Levantados de António Pinho Vargas sobre o 25 de Abril, estreada no Teatro São Carlos em 25 de Abril de 1998

Legenda: ilustração de António Pimentel para o livro As Portas Que Abril Abriu de José Carlos Ary dos Santos, Editorial Comunicação, Lisboa Novembro de 1975.

SARAMAGUEANDO


Tenho com o 25 de Abril um sentimento que transporto do futebol: a enorme alegria pelo golo que entrou na baliza, mas, depois o adversário empata, dá a volta ao jogo e saio do estádio, acabrunhado, direito a casa, com a vontade de  estilhaçar a baixela deixada pelos antepassados.

Nunca gostei de fardas, teria preferido que a ditadura caísse com um levantamento popular, que a sua queda não tivesse na sua origem um estilo corporativista de tropa, cansada de uma guerra, inútil e odienta.

Um levantamento popular como aquele que, exemplarmente António Borges Coelho, descreve em A Revolução de 1383.

Não foi por mero capricho que a ditadura, logo que o livro saíu, o colocou fora do mercado.

Digo-vos que não é com gosto, bem pelo contrário, que, hoje reproduzo, este passo da conversa que José Saramago manteve com João Céu e Silva, tal como estou bem certo, que foi com enorme tristeza que Saramago as proferiu:

Não estou com saudosismo da revolução, ela foi o que foi, com os seus erros e disparates mas também com as suas grandes conquistas e, principalmente, as suas grandes ilusões – enormes ilusões – que alimentam uma parate substancial dos portugueses. Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos a democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha tem a democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transicção como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui há anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram naquela altura… Até o Melo Antunes disse “Esse tipo é parvo!” Por isso não me falem em 2 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer “25 de Abril sempre” mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendermos que são justas.”

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA


Esta foi a escolha, para o dia 25 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

Apesar dos desejos do Eduardo, para que os leitores dessem um salto à Livraria Opinião, para ver as fotografias de teatro do Alfredo Cunha, temos que pensar que os leitores do Cinéfilo, como a enorme multidão que invadiu as ruas de Lisboa para, neste 25 de Abril de 1974, chegar ao Largo do Carmo, tinham outras intenções, a feliz possibilidade de participarem num acontecimento de que, quem por lá andou, jamais esquecerá, o ficar a saber, definitivamente,de como um dia foi tão importante para tanta gente

Sabe-se hoje que, muitos outros acontecimentos se registaram ao longo destes
38 anos, , mas todas aquelas longas-breves horas daquele dia, jamais serão esquecidas.

So quem viveu antes daquele dia de Abril, podem perceber que não há preço para a alegria vivida nas ruas.

Tão perto ficámos da felicidade. Faltou apenas um golpe de asa

Mas também sabemos agora, que muita daquela gente, em breves tempos, iria mudar de rumo.

Nem sequer lembro se a Livraria Opinião abriu as portas, mas, em frente da livraria, ficava o República e, ainda tenho nos ouvidos, o som das rotativas imprimindo, pela primeira vez em 48 anos, um número do jornal, que não tinha sido visado pela Comissão de Censura.

Se até agora nos temos debruçado sobre as ofertas cinematográficas que o Cinéfilo propunha, olhamos hoje para as ofertas teatrais.

No Teatro Maria Matos, com encenação de Artur Ramos e interpretação de Rogério Paulo, Fernanda Borsatti, António Montez, podia ver-se: Morte de Um Caixeiro Viajante de Arthur Miller.

No Teatro Vasco Santana, com bilhetes de 20 a 80 escudos, representava-se O Mar de Edward Bond, com encenação de Luzia Maria Martins e interpretação de Rui Pedro, Mário Pereira, Helena Félix.

No Teatro Laura Alves, Zoo Story, peça de Edward Albee, encenação de Costa Ferreira e interpretações de José de Castro e Canto e Castro.

Em Torres Vedras o Grupo de Teatro de Campolide representava Filopópulus de Virgilio Martinho, encenação de Joaquim Benite.

Na Parede, na Sociedade União Paredense, A Comédia Mosqueta de Angelo Beolco pelos Bonecreiros e encenação de Mário Barradas.

Com a ante-estreia no Ginásio do Atlético Clube da Baixa da Banheira, a Veto-Teatro Oficina, depois de vencidas todas as dificuldades que se levantaram à realização do espectáculo, apresentava Olé! Olé, uma adaptação de textos de António José da Silva (O Judeu) e José Daniel Rodrigues da Costa.

OLHAR AS CAPAS


A Mãe

Maximo Gorki
Versão Serafim Ferreira
Capa Carlos Santos
Editorial Início, Lisboa Maio 1970

Virá o tempo em que os homens terão admiração uns pelos outros, em que cada um escutará a voz do seu semelhante como se fosse música. Haverá na terra homens importantes e grandes pela sua liberdade, de coração aberto e purificado de qualquer ambição ou interesse. A vida passará a ser nessa altura um culto prestado ao homem. A sua imagem será exaltada, porque para os homens livres todas as formas de cultura são acessíveis. Viveremos na liberdade e na igualdade, na busca da beleza. E os melhores serão aqueles que mais souberem abarcar o mundo no seu próprio coração, que mais o amarem! Ora por uma vida assim estou disposto a tudo. Arrancaria a mim mesmo o coração, pisá-lo-ia com os pés…

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

POSTAIS SEM SELO



Despertem as harpas e os tambores
A espada já está nas mãos do povo.
É a hora da vingança.
Hora de pôr os príncipes a ferros
e de ler a sentença aos poderosos.
Despertem as harpas e os tambores
e dancemos.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos, Campo das Letras, Porto Outubro 2007

Legenda: quadro de Pieter Brueghel, o Velho

terça-feira, 24 de abril de 2012

JANELA DO DIA


1.

Abriu hoje, no Parque Eduardo VII, a 82.ª Feira do Livro de Lisboa.

Se houve justificações para alteração da data de abertura da Feira do Livro, não dei por elas.

Sempre me lembro de a feira abrir nos últimos dias de Maio, e prolongar-se, normalmente, até ao dia 13 de Junho, mas já o ano passado abriu, também, por esta altura.

Diga-se que todo o tempo, é tempo de livros, mas há que concordar que  a antiga data oferecia melhores condições meteorológicas.

Para invocar sentença popular, Abril é de águas mil , e andar a percorrer os pavilhões da feira com chuva, ou ameaça de chuva não é assim muito convidativo.

De resto os pássaros que se passeiam pelas árvores do Parque, não cantam tão bem se não houver sol.

A Feira é uma festa.

Terá perdido um cunho que era importantíssimo: as editoras colocavam nos escaparates, a preços muito convidativos, fundos de colecção que tinham em armazém e que, por norma, deixavam de se encontrar nas livrarias.

Hoje, vamos encontrar, na Feira os mesmos livros que podemos encontrar em qualquer livaria ou grande superfície, e os parcos descontos, não fazem a diferença.

Mesmo os alfarrabistas já se armam ao fino, e pechinchas, viste-as!...

Não me ocorre que, algum ano, tenha faltado uma ida à Feira do Livro.


Teso que sempre fui, comprava livros que nunca cheguei a ler, se guindo, religiosamente, uma das muitas pancadas em que a minha vida é fértil.

Agora o apertadíssimo orçamento familiar, obrigar-me-á ao estritamente necessário.

A Feira abre, de segunda a quinta, às 12h30, encerrando às 23h. À sexta fecha mais tarde, às 24h. Ao sábado e em véspera de feriado, decorre a partir das 11h e fecha às 24h. Ao domingo, abre às 11h e encerra às 23h.

A Feira do Livro encerra os stands no dia 13 de Maio.

2.

Há dias já tinha sido João Proença que, dizendo que o governo não cumpria o que assinara, foi acusado de, pela aproximação do 1º de Maio, querer tornar-se notado.

Agora, a propósito das ausências de Mário Soares e Manuel Alegre nas comemorações oficiais do 25 de Abril, tocou-lhes a vez:

Estou habituado a que ao longo dos anos algumas figuras políticas queiram assumir protagonismo em datas especiais.

Já não basta o que nos vai acontecendo e ainda temos que aturar garotices.

Alguém – haverá esse alguém? – que lhe dita que o ridículo mata, ou, ser primeiro-ministro não é a mesma coisa que andar a brincar-domingo-no-parque, nos baloiços da jotaessedê.

Legenda: pintura de Toni Demuro.

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA


Esta foi a escolha, para o dia 24 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

Na crítica de cinema, Eduardo Prado Coelho, um dos colaboradores do Cinéfilo, aborda Ritual, filme de Ingmar Bergman.

Começa assim:

Qualquer comunicação travada entre duas pessoas parece depender sempre de um contrato implícito, que estipula a fronteira, que separa o que se pode dizer do que não se pode dizer. A comunicação autêntica corresponde ao alargar progressivo destas fronteiras. Assegura-se assim que num exame de literatura o professor me pode interrogar sobre os meus sentimentos perante um soneto de Camões, mas não pode, segundo o contrato que nos une, inquirir acerca da minha da minha vida. E assim por diante. Pois é esta mínima lei, que parece regular as relações entre as pessoas , que Bergman transgride espectacularmente no seu filme Ritual – e daí a violência.



Para terminar a crítica, Prado Coelho escreveu:

Rito infindável (que apenas uma decisão formal vem fechar) – ou (como se diz num poema de Luiza Neto Jorge) “rio que só tinha de humano o ir/secando”.

O filme estava em exibição no Estúdio do Cinema Império.

No Monumental podia ver-se Harry, o Detective em Acção de Ted Post com Clint Eastwood.

A violência transformada no mais desprezível dos espectáculos.

No Mundial exibia-se O Nosso Amor de Ontem de Sidney Pollack, Com Robert Redford e Barbra Streisand

Da história de amor filmada no mais puro estilocpublicitário ao revivalismo da América  dos anos 40, passando pela “mensagem” social e pelas vedetas sempre em grande plano, nada falta nesta superprodução medíocre, fabricada para o êxito fácil fácil e imediato. De lamentar, sobretudo, o facto de se tratar de um filme realizado por Sydnay Pollack, um dos cineastas americanos mais interessantes da última década, agora, ao que parece, promovido a funcionário conformado.

O Politeama continuava a exibir Eusébio, a Pantera Negra de Juan de Orduña

A imagem convencional do mito ou como aproveitar o futebol para lucro fácil.

O Cine Clube Universitário fazia exibir no cinema Paris, Ladrões de Bicicletas de Vittorio de Sica

No Porto, o Cinéfilo aconselhava, no Estúdio, a ver  A Máscara de Ingmar Bergman, com Bibi Anderson e Liv Ullmann.

Não tarde a ir vê-lo. Aconselhamo-lo mesmo a vê-lo mais do que uma vez, que uma obra como Persona, não encontrará muitas vezes.

O Cine-Clube do Porto exibia, no Batalha, O Mundo a seus Pés de Orson Welles.

MIGUEL PORTAS (1958-2012)


Miguel Portas, eurodeputado pelo Bloco de Esquerda, morreu esta terça-feira, aos 53 anos, de cancro no pulmão, em Antuérpia.
Economista, jornalista, activista contra a ditadura, tendo sido preso quando tinha 15 anos.
Foi militante do Partido Comunista Português, de onde saíu em 1989.

                                  Aqueles que se percam no caminho,
                                  que importa! Chegarão no nosso brado.
                                   Porque nenhum de nós anda sozinho,
                                   e até mortos vão ao nosso lado.

                                   José Gomes Ferreira em Jornada.

SAUDADES DO 24 DE ABRIL



Crónica de António Rego Chaves no Diário de Notícias s/d

(Para uma melhor leitura clique sobre a imagem do texto)

Legenda: Imagem do I Encontro da Música Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa, na noite de 29 de Março de 1974., a antestreia da senha do 25 de  Abril.

HOJE, 24 DE ABRIL


A crónica de Manuel António Pina no Jornal de Notícias de hoje:

As imagens que circulam na Net de funcionários municipais a lançarem das janelas da Escola da Fontinha livros escolares para a rua representam de forma expressiva a gestão autárquica de Rui Rio, a sua arrogância obscurantista, a sua insaciável sede de "autoridade" e a sua aversão a tudo o que lhe cheire a cultura e a autonomia cidadã; só faltou, à intolerante " Bücherverbrennung " do Alto da Fontinha, a fogueira.

A História do século XX ensina-nos que o facto de um indivíduo ser eleito democraticamente não faz dele um democrata. A História do Porto nos anos de Rio - já é possível avaliá-la, agora que esses anos se aproximam do fim - é disso um bom exemplo.

Rio herdou a cidade num momento em que, na sequência da Capital Europeia da Cultura e da classificação do centro histórico como Património Mundial, ela fervilhava de animação e criação culturais, de multiplicação de iniciativas, de participação colectiva. Deixa-a com a ocupação policial de uma escola e centro cultural numa zona carenciada e a destruir livros e material escolar.

Pelo meio ficaram, entre outros, casos como a descaracterização, com recusa de qualquer diálogo com a população, da Avenida dos Aliados ou a proibição de as associações apoiadas pela autarquia criticarem a Câmara, o que, na prática, significou a compra com dinheiros públicos do silêncio crítico sobre a sua gestão.

Hoje, 24 de Abril, é o dia apropriado para evocar tudo isso.