quinta-feira, 31 de maio de 2012

A EMPREGADA PORTUGUESA DO RESTAURANTE ITALIANO JUNTO A RUSSELL SQUARE

Já não espero dormir como dormia, vítima de sobressaltos,
ficar à chuva dois minutos que seja, certificando-me
de como fui ignorado ainda que a chuva seja
um dos poucos prazeres sem resíduo, como acordar de noite
e mobilar a insónia com ovos mexidos,
café, cigarros, poemas. Aconteceu há muitos
anos, estava na fila da com o sexo pendente
de vergonha e frio, o médico perguntou: “defeitos físicos?”
e eu só confessei ter miopia e astigmatismo. Agora
não tenho nenhuma relutância em deitar-me em camas estranhas,
mas prefiro dormir sozinho.

Ah! Verão tumultuoso, corpos em risco de desabar,
o trânsito frenético de comboios, miragens
- alguém lá dentro que evita olhar,
levanta-se do assento e quer saber quanto lhe falta,
“por favor dizia-me que horas são” (novo silêncio)
- Deus, relojoeiro magnífico!

- como se pode viver de boa mente numa cidade estranha,
a imprudência de estar à espera que alguém nos ouça,
que connosco lamente quartos húmidos e manhãs frias,
mas sem ter pena? Nunca será de mais louvar
os solavancos do autocarro, já que perdemos rumo e destino.

Pois estava previsto ser um acaso
e a geografia de  Abril claudica nas noites mais intensas,
um perfume que se liberta, uma granada de ternura perdida
na carruagem do Metro. Pode chover granizo, acordar
o cheiro tumultuosos da terra e depois de tropeçar na lista
dos pedidos, passar duas semanas em coma,
com janelas estreitas, folgas ao domingo, nostalgia dessa morrinha
que cai em Famalicão no Inverno, que as videiras bebem
e aduba o coração, um abandono que consola
ao dizer “gosto muito de ti”, no momento em que é certo
que já não voltaria.

José Alberto Oliveira em 366 Poemas Que Falam de Amor, Antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores, Lisboa 2004.

Legenda: pintura de Edward Hopper.

OS CROMOS DO BOTECO

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


A Porto Editora comprou a Assírio & Alvim.

Com disse António Lobo Antunes:

Estamos nas mãos dos grandes grupos editoriais para quem só o dinheiro e as vendas contam. Esta é a verdade. Olhem à vossa volta, se houver cinco livros bons na livraria já não é mau. Esta é a verdade.

Se bem que à frente da parte editorial esteja Manuel Alberto Valente, um homem experiente, que sabe e gosta de livros, a Porto Editora não deixa de ser um grande grupo que, primordialmente, tem o lucro como seu único horizonte.

Prometem respeitar integralmente o espirito da Assirio & Alvim, mas não passam das habituais palavras de circunstância.

Vem esta abertura a propósito de Frank O’Hara, poeta norte-americana que descobri através das campanhas de baixos preços que a editora fazia.

Desconfio que esses tempos não voltarão…

Chama-se o livro Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço.

José Alberto Oliveira, que fez a tradução, escreve no prefácio:

Para concluir quero deixar escrito por extenso e em boa caligrafia que o percurso que me conduziu ao enorme prazer de ler e traduzir O’Hara teve o seu primeiro passo nos “longínquos” anos setenta, em que o “jornalismo do sucesso” talvez não fosse ainda o que é hoje e Joaquim Manuel Magalhãs podia em “A Capital” manter uma coluna, em beneficio da divulgação da poesia e de quem o queria ler.

Sim, apesar de tudo, como era diferente o jornalismo, a cultura em Portugal.

O poema de O’Hara que trago aqui ao Piolho chama-se Avé Maria:

Mães da América
                           deixem os vossos filhos ir ao cinema!
tirem-nos de casa sem eles saberem o que planeais
é certo que o ar livre é bom para o corpo
                                                                 mas quanto à alma
que cresce na escuridão, adornada por imagens prateadas
e quando envelhecerdes como tendes de envelhecer
                                                                                  não vos hão-de odiar
nem criticar nem hão-de saber
estarão nalgum país encantador
que viram pela primeira vez numa tarde de Sábado ou de gazeta

talvez até vos agradeçam
                                        pela primeira experiência sexual
que só custou um quarto de dólar
                                                     e não perturbou a paz do lar
saberão de onde vêm os rebuçados
                                                       e os sacos de pipocas gratuitos
tão gratuitos como sair antes de o filme acabar
com um estranho agradável cujo apartamento é no
                                                       Céu na Av. Terra
perto da Ponte Williamsburg
                                             ó mães tereis feito tão felizes
os putos porque se ninguém os apanhar no cinema
não aprenderão a diferença
                                           e se isso acontecer será puro gozo
e de qualquer forma ter-se-ão divertido a valer
em vez de vagabundearem no pátio
                                                         ou no quarto deles
                                                                                        odiando-vos
prematuramente pois que ainda não fizestes nada horrivelmente
maldoso
excepto mantê-los afastados das alegrias mais sombrias
                                                                           o que é imperdoável
portanto não me culpem se não seguirem este conselho
                                                                           e a família se desunir
e os vossos filhos ficarem velhos e cegos frente à televisão
                                                                                             vendo
filmes que não os deixastes ver quando eram novos

quarta-feira, 30 de maio de 2012

MARCADORES DE LIVROS

OLHAR AS CAPAS


Esta Estranha Lisboa
Fotografias de Eduardo Gageiro
Arranjo gráfico: Dorindo de Carvalho
Prelo Editora, Lisboa 1972

Dois factos convergem nesta simples reflexão: o encerramento sucessivo de duas fábricas no Norte do País (a de Tecidos do Rio Ave, que lançou na miséria 700 operários, a União Metalúrgica da Fontaínha, que deixou no desemprego outros cem operários, entre homens e mulheres) e o aparecimento do importante ensaio de N. Gaouzner “A Classe Operária Irá Desaparecer?”
Não venho aqui exibir a mágoa profunda, nem mesmo a indignação (que levaria tempo a esmiuçar; por detrás das insolvências estão as estruturas) em mim – e em tantos outros decerto – causadas pelo espectáculo dos milhares de pessoas marginalizadas e acossadas por estes tristes sucessos.
Pergunto-me, sim, aqui no centro do calor húmido deste dia de Lisboa, qual o destino das camadas sociais cada vez mais numerosas que representam a força do trabalho e não têm qualquer controle sobre os meios de produção. Refiro-me não sóa à gente dos armazéns e das fábricas, das oficinas e dos campos, mas aos empregados dos escritórios, dos bancos, das lojas, aos investigadores, aos técnicos, e, já que vem a pelo, porque não aos jornalistas?, em suma a todos os produtores assalariados sem contacto algum com a transformação do seu esforço em rendimento.

POSTAIS SEM SELO



Tinham-se calado. Estavam sentados, frente a frente nos bancos de pedra de um daqueles mirantes da Esplanada das Azenhas do Mar que convidam a olhar para o Oceano.

Urbano Tavares Rodrigues, em Vida Perigosa, Livraria Bertrand, Lisboa 1955

terça-feira, 29 de maio de 2012

DA MINHA GALERIA


Esta é a capa da caixa de uma colecção das Selecções Reader´s Digest, intitulada Discos Pedidos, e que pretende dar uma ideia das músicas que eram tocadas no programa Quando o Telefone Toca da Rádio Renascença.
Ainda se lembram?

- Boa noite Sr. Joaquim Pedro
- Posso pedir um disco?
- Posso dizer a frase?
- Posso dizer o meu nome?

Todos os dias, durante meia-hora, o Sr. Joaquim Pedro dava satisfação aos pedidos que, antecipadamente, eram solicitados.
Foram anos e anos a ouvir o Quando o Telefone Toca e as minhas mãos são mais que suficientes para contar as vezes que tive sucesso e oportunidade de pedir o Al Di La pela Connie Francis.
Sei de uma noite em que fiz o pedido e não houve transmissão.
Vim mais tarde a perceber, acontecera a outros, que, como linhas cruzadas de telefones naqueles tempos eram pão nosso de cada dia, fiz um pedido a um engraçado que não se desmanchou e registou o meu pedido.
Já não acompanhei os últimos anos do programa.
Mas posso dizer que a amostra que esta colecção de 8 long-plays contendo 48 músicas, apresenta, está muito longe de dar a conhecer o que então se ouvia.
As lacunas são gritantes, principalmente no que diz respeito à música portuguesa, italiana e francesa.
Das canções que na colecção  são apresentadas dou-vos uma listagem daquelas que tenho a certeza ter ouvido naquelas noites de discar o número de telefone da Renascença:

Natahlie – Gilbert Bécaud
Puppet on a Sting – Sandie Shaw
La Casa d’Irene – Nico Fidenco
Ninguém, ninguém – Marco Paulo
Sapore di Sale – Gino Paoli
Una Lacrima Sul Viso – Bobby Solo
Guantanamera – Joe Dassin
Un Rayo de Sol – Los Diablos
Pepito – Los Machucambos
El Porom Pompero – Los Paraguayos
Pimpollo – Los Hermanos Reys
Malagueña – Luis Alberto del Paraná
Quando calienta el Sol – Los Hermanos Rigual
Borriquito – Peret
The Great Pretender – The Platters
When a Man Loves a Woman – Percy Sledge
Gigi l’Amoroso – Dalida
Non No L’Etá – Gigliola Cinquetti
Delilah – Tom Jones
Ansiedad – Nat King Cole
You Are My Destiny – Paul Anka
La Novia – António Prieto
Dio Como Ti Amo – Domenico Modugno
Y Viva España – Sylvia
Il Giorni dell’Arcobaleno – Nicola di Bari
Aranjuez Mon Amour – Richard Anthony
Il Mondo – Jimmy Fontana
O Arlequim de Toledo – Ângela Maria
Unchained Melody – Righteous Brothers
Na Cabana Junto à Praia – José Cid
Solo Tu – Camilo Sesto
Il Silenzo - Nini Rosso

SARAMAGUEANDO




Lanzarote, 7 de Fevereiro de 2003

Meu caro Urbano,

Com não sei quantos de atraso vais receber o Prémio “Vida Literária”, com atraso também te há-de ser entregue o “Camões”. Parte da justiça que se te deve será feita no dia 11, a outra confio eu que não tarde. É-me impossível estar em Lisboa nessa altura, por isso não poderei dar-te o abraço de parabéns que seria igualmente o abraço da amizade que me une a ti, que nos une a ambos. Uma amizade que não se traiu nunca, que a distância não diminuiu e que é dos melhores sentimentos que ainda me ajudam a crer que o respeito, a estima e a admiração são possíveis entre escritores, sem hipocrisias nem segundas intenções, sem rasteiras nem navalhadas pelas costas. Tu não és desses, eu também não sou, por isso a nossa amizade não se limitou a sobreviver “tant bien que mal”, é firme e digna como o teu carácter e, se me permites a vaidade, como o meu todos os dias se esforça por ser. Partilho contigo a alegria desse Prémio, partilharei contigo todo o bem de que és merecedor.
A Pilar pede-me que te felicite e te envie um abraço. Eu abraço-te e felicito-te como a um irmão.

Com admiração e afecto,

José Saramago.



Legenda: José Saramago e Urbano Tavares Rodrigues na Festa do Avante de 2000.
Fotografia tirada de Urbano Tavares Rodrigues 50 Anos de Vida Literária Edições ASA, Porto Junho 2003

segunda-feira, 28 de maio de 2012

JANELA DO DIA


1.

O provedor do ouvinte da RDP, Mário Figueiredo, disse hoje à Lusa que tomou conhecimento de que não iria ser reconduzido no cargo pela administração da RTP por carta registada e lamentou a forma como o anúncio foi feito.

Questionado se a posição que assumiu durante o processo do fim da rubrica “Este Tempo”, na Antena 1, em que participava o cronista Pedro Rosa Mendes, poderá ter influenciado a decisão da RTP Mário Figueiredo afirmou:

Claro que sim.

Durante a sua audição na comissão parlamentar para a Ética, Cidadania e Comunicação sobre aquele processo, em Fevereiro, Mário Figueiredo classificou o fim do programa como um acto ilícito, prepotente e arrogante.
O responsável deu também o exemplo do caso do fim das emissões em onda curta, também numa audição parlamentar, onde “desmantelou as declarações do presidente da RTP e do ministro Relvas, que tem a tutela da comunicação social.

O provedor não é cómodo para o conselho de administração, salientou.

Também para o ministro da tutela, digo eu.

2.

O ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, acredita que o seu lugar no Governo não estará em perigo, ao contrário do que vaticinam comentadores políticos como Marcelo Rebelo de Sousa que o vê como "meio morto" no Executivo
O ministro Relvas disse ao jornal
Vou sair mais forte!.

Entretanto lá longe, Cavaco Silva diz que está a acompanhar o caso Relvas, e espera que tudo se resolva com muita transparência.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Voo TP 602 de Lisboa para Copenhaga no dia 3 de Julho de 1994.

Pintura de Francisco Relógio para a capa da ementa servida, em classe executiva, por aqueles tempos, a bordo dos aviões da TAP.

Hors d’oeuvre

Salmão fumado
Alcachofra fiorentina

Entrée

Lagosta suada Cabo da Roca
Arroz branco

Dessert

Queijo – Crackers
Bolo Império

Apesar dos nomes pomposos, não passava de puro e mero catering, e o vinho branco, não estava à temperatura, minimamente exigível.

Gosto de viajar de barco e de comboio.

Os aviões não fazem o meu género.

Sei que morre mais gente em acidentes de viação, e outros, do que em desastres de aviação.

Não é bem uma questão de medo, é uma outra coisa qualquer, e sempre que viajei de avião, foi por exigências profissionais.

Nunca gastaria um cêntimo do meu bolso para viajar de avião e já cheguei a uma idade em que quase posso dar a afirmação por definitiva.

O único interesse por aviões limitou-se ao gosto de os ver levantar e descer na Portela, o tempo em que isso era um espectáculo dominical dos meus tempos de infância.

Sim os aviões estavam guardados para os domingos de Verão, quando o futebol estava no chamado defeso e não havia jogos.






Os domingos do meu avô, os meus também, regulavam-se por haver, ou não, jogos no Estádio da Luz.

Na Praça do Chile apanhávamos, para a Portela, aqueles autocarros verdes, de dois andares, e por ali ficávamos a ver os aviões.

O aeroporto não era o que hoje é, e o movimento de aviões era diminuto.

No edifício havia uma esplanada, com grandes chapéus-de-sol, que se via cá de baixo, do gradeamento que limitava a pista. Adivinhavam-se mulheres com vestidos vaporosos às ramagens, homens de fato e gravata, a beberem o seu chá, o seu café, a sua limonada ou o seu “whisky”.

Penso que assim era, pois nunca cheguei a subir até lá.

Não consigo situar bem quando a TAP começou a deixar de ser uma companhia de aviação, elogiada pelo mundo fora, para passar a ser o que hoje é.

Quando viajar de avião ainda tinha um pouco de charme e glamour.

Os tempos em que havia a possibilidade de escolher lugares entre fumadores e não fumadores.

Prazeres de outro século... claro está!...

As viagens que fiz foram todas ownwer’s account. e enfiavam-me em executiva porque essas eram as directivas da casa: fosse para os membros do Conselho de Gerência, fosse para os restantes trabalhadores.

Não sei se a bordo dos aviões da TAP ainda se pratica este luxo das ementas com quadros de pintores portugueses.

Também considero que colocar a TAP em vias de extinção seja um exagero.

Talvez que a designação correcta seja… em vias de privatização.

Ainda agora Cavaco Silva & Cª Lda se passeia por destinos longínquos, na tentativa de vender as jóias da coroa que ainda restam.



TP 577 de Hamburgo para Lisboa no dia 8 de Julho 1994.


Pintura de Manuel Cargaleiro para a capa da ementa servida neste dia:

Hor’s d’oeuvre

Salmão fumado
Salada da Estação

Entrée

Medalhões de Porco ao Molho de mostarda
Ervilhas
Batatas croquete

Dessert

Quiejo – Crackers
Mousse de Chocolate.

Viajar em executiva oferece – oferecia? – um certo tipo de paneleirices.

De quando em vez, uma simpática hospedeira interrompia-me a leitura de um livro para saber se estava tudo bem, se necessitava de alguma coisa.

Mostrava o meu melhor sorriso, que é coisa nada fácil, e ficava com uma vontade doida de dizer que me deixasse em paz, que preferia que me tivessem servido comida, a saber a comida, e não aquela coisa que a comida não sabia e, rigorosamente, não sabia a nada!

Há quem goste!

Que sejam muito felizes!...

E A GRÉCIA AQUI TÃO PERTO



Crónica de Manuel António Pina no Jornal de Notícias de hoje:

As chocantes declarações da directora-geral do FMI ao "Guardian" revelam bem que género de gente preside hoje aos nossos destinos e a quem governos como o português ou o grego subservientemente se vergam. Por momentos, Lagarde deixou cair o idioleto técnico com que ela, Durão Barroso e a "fürehrin" Merkel, mais os seus feitores locais, justificam o empobrecimento forçado dos povos e mostrou o rosto selvagem do neoliberalismo dominante, assente no direito do mais forte à liberdade.

Perguntada se não lhe custava impor ao povo grego, sobretudo aos mais pobres, medidas de austeridade que cortam em serviços fundamentais como a saúde, a assistência social ou o apoio a idosos, a directora-geral não podia ser mais clara (nem mais cínica): "Penso mais nas crianças que andam na escola, numa pequena aldeia do Níger, que apenas têm duas horas de aulas por dia e partilham uma cadeira por três...".
E que tem Lagarde a dizer àqueles que, na Grécia, todos os dias lutam hoje pela sobrevivência, sem emprego e sem serviços públicos? Que se ajudem a si próprios "pagando os seus impostos". Mas as crianças, senhora? "Bem, os pais são responsáveis, não? Por isso os pais que paguem os seus impostos".

Maria Antonieta não o teria dito melhor. Só que os "sans cullotes" de hoje persistem em crer que ainda vivem em democracia (se calhar até em democracia económica).
Aos 140 anos de idade, o grande cipreste do jardim do Príncipe Real, em Lisboa, luta por se manter vivo. Às mazelas próprias da idade juntam-se as malfeitorias dos vândalos, que já chegaram a incendiar o interior do tronco, e os ataques cíclicos de piolhos.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Quarta-feira, dia 30 de Maio, às 18.30 horas, no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras de Lisboa, homenagem a Urbano Tavares Rodrigues.

O Urbano é um homem que transporta consigo o culto antigo da amizade e consciência da necessidade da fraternidade e a capacidade de ser solidário. Um homem que aprendeu a duvidar e a viver com a dúvida, com a interrogação por vezes dolorosa dos seus ideias. A sua geração foi daquelas que pôde viver sucessivos desastres da esperança, nas primeiras tentativas históricas de construção de sociedades libertas da exploração do homem pelo homem. E, entretanto, é alguém que permaneceu fiel ao que para ele é uma exigência ética e política vitais, no sentido em que sustentam uma vida.

Manuel Gusmão nos 50 Anos de Vida Literária de Urbano Tavares Rodrigues, Edições ASA, Porto Junho 2003.

domingo, 27 de maio de 2012

JANELA DO DIA


Segundo o Correio da Manhã, de hoje, Marcelo Rebelo de Sousa acaba de renovar, por mais dois anos, o seu contrato com a TVI: 10 mil euros por mês.
Não teve aumento, também não sofreu corte e é o comentador mais bem pago da estação.
Não se pode dizer que a TVI não pague bem aos seus entertainers…
Ou como diria a minha avó: há gente que nasce com o cú virado para a lua!...


QUOTIDIANOS


Uma espécie de raiva e pela minha incapacidade para aceitar que não esteja toda a gente na rua a protestar contra o que lhe está acontecer.

Laurie Anderson, a propósito do seu novo álbum Dirtday, citada por João Lisboa.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Abrir o baú para colocar aqui a única colecção de cromos que conseguiu chegar aos dias de hoje.
A capa já não está muito famosa mas por dentro está impecável.
Fiz muitas, mas as andanças daqui para ali, fizeram com que as perdesse.
Da que tenho mais pena é a das Raças Humanas.
Esta terá sido feita em 1966, ou por aí perto.
Já não lembro quanto custavam as carteirinhas de cromos, mas sei os malabarismos que tive de fazer para as comprar.
Na contracapa está o preço da caderneta:
Continente: 6400
Ultramar: 8$00


O primeiro cromo tem a seguinte legenda:

Mary Poppins, com o seu maravilhoso chapéu de chuva falante e voador, e a sua malinha mágica, é uma espécie de fada, vestida de preceptora: uma fada “supercali- fragilistico- expialidosa”, ou, por outras palavras, “pràticamente perfeita em tudo”.

Esta é a legendo do segundo cromo:

Bert, amigo de Mary Poppins, é uma espécie de mágico optimista que, para emprestar alegria e simpatia, a miúdos e graúdos, não se importa de aparecer como artista ambulante, como pintor de quadros, ou mesmo como limpa-chaminés.

E, como não há duas sem três:

A nossa história começa na Primavera de 1910, na cidade de Londres. Bert, simpático músico ambulante, tocando, simultaneamente vários instrumentos, interpreta um número musical na rua da Cerejeira, atraindo as atenções dos transeuntes que se agrupam em seu redor para o admirarem.

Passei, anos mais tarde, a acompanhar as colecções dos filhos, agora acompanho as dos netos e, acreditem, que me está sempre a saltar a vontade para voltar a fazer uma colecção.
Não faltará muito!...

OLHAR AS CAPAS


Photomaton & Vox

Herberto Helder
Capa de Manuel Rosa
Assírio & Alvim, Lisboa 1979

Às vezes as coisas desatam a crescer numa espécie de sentido ao contrário. Desenvolvem-se em dois planos, movem-se em lugares diferentes. Entre eles bate um coração, uma alma, um motor. Aqui é que estão a unidade e o sentido - o senso, o contra-senso.

Imaginemos uma planta com as raízes no ar e a flor debaixo da terra - mas raízes eficazes, e uma flor perfeitamente organizada. A máquina desta planta é um milagre de energia. Foi tocada pelo sopro da alegria criadora. Faz coisas simétricas, assimétricas - maravilhas circulatórias e respiratórias: estruturas vivas. Mas está de cabeça para baixo. Não se integra nas matemáticas gerais. Falha nas relações. É outro milagre - um rasgão, uma oposição, uma subversão: um clarão. O conjunto estremece, abalado por uma luz nova. Todas as coisas refluem então para este centro devorador, este aparelho centrípeto. O contra-senso é o senso.

Falo do cotidiano absolutamente real, realizado.

Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que de outro. Cortaram-lhe um bocado do lado maior: foi demais. ficou maior do lado que era primitivamente menor. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objetivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados. Só algumas pessoas compreenderam.

Não me venham com teorias, estou farto. Acontecimentos, seres, objetos, lugares. A coluna vertebral disto tudo. A posição vertical - eis o que me parece justo. Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa. Trata-se de uma fé antípoda. Porque o erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça. De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra. Bem: pode tomar-se um espelho e colocá-lo em frente das coisas. Na melhor das hipóteses, onde era esquerdo fica direito, e vice-versa. Pode acontecer tudo negro noutros casos. Porque as coisas são negras. Dormimos ou estamos acordados conforme a escolha. Atenção. É uma espécie de espetáculo. Vem anunciado nos jornais. Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo. Sim, na cabeça. Chama-se a isto malícia ou intenção.

Segue. Sempre. 

sábado, 26 de maio de 2012

DO BAÚ DOS POSTAIS


Fajão, Penedos de S. Salvador.

DINHEIRO, MENINO, O OMNIPOTENTE DINHEIRO!


Mas Ega, justamente, achava uma desgraça incomparável para o país esse imoral desacordo entre a inteligência e o carácter. Assim, ali estva o amigo Gonçalo, como homem de inteligência, considerando o Gouvarinho um imbecil.
- Uma cavalgadura – corrigiu o outro.
- Perfeitamente! E todavia, como político, você quer essa cavalgadura para ministro, e vai apoiá-la com votos e com discursos sempre que ela relinche ou escoucinhe.
Gonçalo correu lentamente a mão pela gaforinha, com a frase franzida:
-- É necessário, homem! Razões de disciplina e de solidariedade partidária. Há uns compromissos. O Paço quer, gosta dele.
Espreitou em roda, murmurou, colado ao Ega:
- Há aí umas questões de sindicatos, de banqueiros, de concessões em Moçambique. Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!
E como Ega se curvava, vencido, cheio só de respeito – o outro, faiscando todo de finura e cinismo, atirou-lhe uma palmada ao ombro_
- Meu caro, a política hoje é uma coisa muito diferente! Nós fizemos como vocês, os literatos. Antigamente a literatura era a imaginação, a fantasia, o ideal. Hoje é a realidade, a experiência, o facto positivo, o documento. Pois cá a política em Portugal também se lançou na corrente realista. No tempo da Regeneração e dos Históricos, a política era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrório. Nós mugámos tudo isso. Hoje é o facto positivo – o dinheiro, o dinheiro! o bago! a massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino dinheiro!

Eça de Queiroz em Os Maias, Livros do Brasil, Lisboa s/d


Legenda: imagem tirada de Life Photo Archive.

VAGUEANDO PELA CIDADE


Pelas noites de Verão, descíamos até à Fonte Luminosa.

Malta nova, correrias, namoros adolescentes, naquele espaço, aberto e largo, que ainda hoje é o relvado da Alameda D. Afonso Henriques.

A fachada principal da Fonte Monumental foi projectada por Carlos Rebelo de Andrade e em redor podem ver-se estátuas e figuras de artistas como Diogo de Macedo, Maximiano Alves e Jorge Barradas.

Pretendia-se que fosse inaugurada em 1940, para assinalar a chegada das águas do canal Tejo a Lisboa.

Não foi possível e a inauguração acabou por ocorrer a 28 de Maio de 1948, por ocasião do 22º aniversário do golpe que levou Salazar ao poder.




No miradouro, que fica no alto da Fonte, havia uma esplanada.

A televisão ainda não tinha esmagado o quotidiano das pessoas, e espalhadas pelas mesas, deliciavam-se com a frescura da noite, conversavam entre cervejas e refrescos.

Um tempo lento e suave, uma memória perdida e cheia de silêncios.

Chegados os tempos da televisão não mais houve esplanada.

Um dia, a Fonte Monumental deixou de ser luminosa e a água deixou de cair.

Obras de reabilitação ocorreram em 2005 e custaram mais de um milhão de uros.

Foi água e luz de pouca dura.

Desde 2007 que o lindíssimo monumento tem vindo a degradar-se.

A instalação eléctrica, canalizações, projectores de luz, aos poucos, foram sendo roubados.



A casa das máquinas foi vandalizada e a desolação abateu-se sobre a Fonte.

Desde Fevereiro que decorrem obras de requalificação e que se espera estejam conluídas em Agosto próximo.

Custos superiores a 1,1 milhão de euros.

O projecto prevê um percurso de visita do espaço e vão ser criadas estruturas de apoio ao visitante, bem como uma plataforma na área central do espaço, que funcionará como miradouro. A área de visitantes, particularmente a galeria, poderá receber exposições permanentes ou temporárias.

Há quem diga, e não são poucos, que em tempos de crise, o dinheiro ali enterrado deveria ter outro destino.

As gentes que viveram aquelas noites antigas de Verão, não pensam o mesmo.

POSTAIS SEM SELO


Cortaram os trigos. Agora
a minha solidão vê-se melhor.

Sophia  de  Mello Breyner Andresen de O Nome das Coisas em Alentejo não tem Sombra, antologia organizada por Eugénio d’Andrade, Oiro do Dia, Porto, Primavera 1982.

Legenda: Campos de Trigo perto de Arles, pintura de Van Gogh

sexta-feira, 25 de maio de 2012

JANELA DO DIA

1.

No Jornal de Notícias pode ler-se que os 19 bancos alimentares existentes no País apoiam 2110 instituições que no ano passado ajudaram 337.500 pessoas.

Ou seja: mais de 3% da população portuguesa recebe ajuda do Banco Alimentar.

2.

As coisas quando cheiram mal devem ser abandonadas.

O caso Relvas está nesse ponto.

 Tão cedo não nos iremos ver livres daquele sorriso idiota.

Não se demitiu, nem ninguém o demite.

Porque alguém tem sempre de pagar qualquer coisinha, soube-se, hoje, que um adjunto do Relvas  pediu a demissão.

Questionado sobre a demissão do seu adjunto, declarou:

Não falo!

O Público revelou hoje o que o Relvas, sobre a vida privada da jornalista Maria José Oliveira queria colocar na praça pública: a autora da notícia vive com um homem de um partido da oposição,

3.

O Pingo Doce abordou ao longo das últimas semanas diversos produtores nacionais com o objetivo de aumentar entre 2 a 3,5% das suas margens de lucro a partir de Maio.

A denúncia partiu do presidente da Centromarca - Associação Portuguesa de Empresas de Produtos de Marca, que não tem dúvidas de que se trata de uma consequência das campanhas do 1º de Maio e das que se lhe seguiram.

Ninguém do Grupo Jerónimo Martins quis comentar.

Alguém pensa que esta gente dá alguma coisa a alguém?

E ainda vêm para a televisão arrotar postas de pescada!...

MARCADORES DE LIVROS

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Este espectáculo, na Aula Magna, em Lisboa, foi o Requiem do Cantigas do Maio.

Organizado pela Associação José Afonso,  Cantigas do Maio, teve a sua primeira edição no ano de 1989.
   
Quando a Associação se aprestava para a organização da XIV da edição do Festival, a ter lugar em Maio de 2003, recebeu a notícia de que a Camara Municipal do Seixal, dada a crise económica, que começou a abater-se no país, não poderia dar o seu contributo.

Sabe-se que quando a crise ataca, a cultura é a primeira a ser pontapeada.

A Camara era o principal apoio, ou mecenas, do Festival.

O resto provinha de outras pequenas parcerias, receitas diversas, provenientes da venda de discos e livros, bem como garrafas de vinho, rótulo “Cantigas do Maio”, colheita especial que A Associação, encomendava em Fernando Pó na Península de Setúbal., Um vinho honesto e de bom beber.

A Associação José Afonso, decidiu apresentar ao público dois concertos num só dia e resolveu chamar-lhe "Afirmar" Cantigas do Maio - fazendo adivinhar que é possível o regresso do festival já para o próximo ano, eventualmente noutra cidade.
No cartaz vamos ter a voz de Uxía, também uma das mais importantes referências da actualidade, na preservação da cultura Galega. A encerrar a noite vão estar, pela primeira vez em Portugal, os irmãos Samir e Wissam Joubran da Palestina, dois mestres do alaúde.

Este Afirmar Cantigas do Maio teve a rodeá-lo a expectativa de um largar de sementes que permitissem continuar Cantigas do Maio.

As sementes não vingaram e, Cantigas do Maio, não mais se realizou.

Pelo caminho ficou um importante acontecimento cultural, que permitiu ver e ouvir nomes importantes da World Music, insertos na componente internacional de Festivais de Música Tradicional.

Talvez um dia, fresca brisa moira encantada, vire a proa desta barca.

SUD-EXPRESS


Quem quer que tenha depositado nas viagens do Sud Expresso, ou naquilo que delas resta, a auspiciosa alternativa ao turismo de massas, capaz de proporcionar o kitsch da contemplação do passado, só poderá acolher as recentes notícias com muita consternação. Acusando prejuízos incomportáveis, a mítica linha parece condenada à morte sem recurso, e doa o que doer, a quem privilegiar ainda o remanso dos extensos percursos ferroviários. Não valerá sequer a pena verter sobre tal sentença a agridoce lágrima romântica, desacreditados como se acham gestos e sentimentos assim pelo pragmatismo do empacotamento global.
Somos da época em que a vetusta composição, circulando entre Lisboa e Hendaye, retinha um luxo verdadeiramente viscontiano. Os painéis de mogno da carruagem-restaurante, e as poltronas de veludo do wagon-lit, caturravam a uma luz de apliques que teria feito também as alegrias de Gabriele d'Annunzio. E mesmo nos anos imediatamente posteriores à Revolução dos Cravos, mediante a módica gorjeta, não se tornava impossível fruir do pequeno-almoço em tabuleiro, trazido à nossa cama para que o saboreássemos diante da paisagem das penhas bascas que precedem a chegada a Vitoria. O café com leite preparava-se com ingredientes autênticos, servidos em legítima porcelana, e a manteiga fresca convivia com compotas mais ou menos artesanais.
Ao longo das décadas, e em contínuas jornadas, fomos assistindo à degradação deste quadro, e à alteração da qualidade da existência que decorria sobre carris, emparceirando com o genérico abastardamento de um mundo sem particularismos. Sobrava porém um ramalhete dessa humanidade que tende à extinção, inquinada pelo igualitarismo dos comportamentos, e pela desalma dos objetivos. Mantinha-se a solteirona britânica, persistindo na leitura do seu romance de Stanley Weyman, o trabalhador sazonal que regressava à sua terra beirã, e que se enfrascava no bar com a festiva alegria dos copinhos de Macieira, e o aerofóbico que connosco partilhava o horror às máquinas voadoras.
O Sud Expresso desaparecerá sem rasto, não se duvide, deixando os curiosos da verificação dos cenários literários de mãos tristemente vazias. Dele apenas irão falar por algum tempo as páginas de Eça de Queirós, atestando toda uma história dos costumes, e toda uma atmosfera dos caracteres.
E oferecer-se-á às gerações vindouras este ensejo do desabafo com que se brinda hoje a ausência da água canalizada, ou do aquecimento central, "Que seca, Deus do Céu!, e que atraso de vida!"

Mário Cláudio,  Expresso, 24 de Setembro de 2010.

Leganda: não foi possível identificar origem do cartaz do Sud-Express

quinta-feira, 24 de maio de 2012

JANELA DO DIA


1.

Há notícias que deixam sem pinga de palavra, quem as lê.

Segundo o Diário de Notícias de hoje, os Centros de Orientação de Doentes Urgentes do INEM receberam no ano passado mais de 21 mil chamadas falsas.

Estas chamadas terão originado a saída desnecessária de 7634 ambulâncias, ou seja: uma média de 21 ambulâncias que são enviadas para situações de emergência que são falsas.

Saber da existência de um bando de idiotas, de irresponsáveis, que se entretém a brincar a vida das pessoas, que colocam em risco a assistência que possa ser dada a quem dela necessita, é qualquer coisa a que não sabemos dar nome.

Ou até sabemos?!!!


2.

Parece definitivo: o Relvas não pede a demissão, nem é demitido.

Hoje esteve na, Entidade Reguladora da Comunicação Social, a ser ouvido sobre a trapalhada telefónica com a editora de política e a directora do Público.

O ministro reconheceu que telefonou à editora de política do jornal:

Liguei e disse: continuando a haver comportamento como este, tenho o direito de apresentar uma queixa na ERC, nos tribunais e de eu, pessoalmente, deixar de falar com o Público.

Questionado sobre se está disponível para ir à Assembleia da República esclarecer os deputados, tal como fez no caso das "secretas", Relvas respondeu que um membro do Governo está sempre disponível para ir ao Parlamento, mas esquivou-se a responder se considera que, depois de ter sido citado já por três vezes em casos de alegada pressão sobre a comunicação social – além deste, os episódios da crónica de Pedro Rosa Mendes na Antena 1 e do telefonema para o presidente da RTP sobre a contratação de Paulo Futre -, mantém condições para continuar no Governo.

3.

Está tudo a postos para que amanhã, em Lisboa, abram as portas da 5ª edição do Festival Rock in Rio que, segundo os organizadores, reúne a maior aposta que o evento até hoje teve: 25 milhões de euros.

Crise? Mas qual crise?

VAGUEANDO PELA CIDADE


Bairro Alto, Lisboa

OLHAR AS CAPAS


Para Acabar de Vez Com a Cultura
Woody Allen
Tradução de Jorge Leitão Ramos
Capa de José Cândido
Bertrand Editora, Lisboa Janeiro 1989.

Um homem aproxima-se de um palácio. A única entrada está guardada por alguns hunos façanhudos que só deixam entrar homens que se chamem Júlio. O homem tenta subornar os guardas oferecendo-lhes o fornecimento por um ano de bocados escolhidos de galinha. Eles nem desprezam a oferta nem a aceitam, mas agarram-lhe simplesmente o nariz e torcem-no até parecer um parafuso Molly. O homem diz que é imperativo que entre no palácio porque traz uma muda de roupa interior ao imperador. Quando os guardas mantêm a recusa, o homem começa a dançar o charleston. Eles parecem gostar da dança, mas em breve torna-se mais impertinentes que o tratamento dado aos Navajos pelo Governo Federal. Já sem fôlego, o homem desfalece. Morre nunca tendo visto o imperador e ficando a dever sessenta dólares aos tipos da Steinway, de um piano que lhes alugara em Agosto.

O CHIC(O) DA CULTURA


Em entrevista ao Jornal de Notícias, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, afirma-se solidário com as preocupações dos agentes culturais e garante que a nova lei do cinema vai servir os interesses do setor e da cultura portuguesa, e remata: é um exagero falar em fim do cinema português.

José Manuel Costa, sub-director da Cinemateca, em declaração ao Público:

 Neste  momento, a continuação do nosso trabalho, quer ao nível da Cinemateca enquanto arquivo como de sala de cinema em que é dada a conhecer a História do cinema, não está garantida.
Joe Berardo é um estranho personagem que por aí  se passeia, entre tantos outros, a debitar uns disparates sobre isto e aquilo, que tem uma colecção de arte no Centro Cultural de Belém, em que o Estado assume as maiores despesas, que deve 360 milhões à Caixa Geral de Depósitos por um empréstimo que contraíu para comprar acções do BCP, e os bancos terão de assumir prejuízos ou executar contragarantias, entre elas a coleção de arte, que foi proprietário da extinta Gazeta dos Desportos, onde teve como director Francisco José Viegas e que diz ignorar os conhece os motivos de o Secretário de Estado da Cultura não gosta dele.

Não sendo pessoa com quem alguma vez tenha simpatizado, tinha a ideia de que José Francisco Viegas vivia, confortavelmente, com os seus escritos, artigos de opinião na comunicação social, ex-director da Casa Fernando Pessoa, ou ex-director da revista Ler, editada pelo Círculo de Leitores e que o poder seria a última coisa em que pensaria na vida, muito mais sabendo que toda aquela gente do governo e arredores, foge da cultura como o diabo da cruz, ou sacam logo da pistola quando de cultura ouvem falar.

Grosseira interpretação.

A vaidade suplante tudo e mais alguma coisa, género, pai, sou Secretário de Estado da Cultura.
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Na edição de Inverno da Seara Nova o arquitecto Manuel Augusto Araújo, em artigo de opinião, que intitulou Para Acabar de Vez com a Cultura, começa por afirmar que a cultura sempre foi o parente pobre dos Orçamentos de Estado sem nunca ter alcançado o 1% contumazmente prometido mas factualmente desmentido de imediato.

Escreve Manuel Augusto Araújo:

O cenário mudou para muito pior. Agora afirma-se como paradigmas de uma nova maneira de olhar para a cultura, as práticas culturais. Expõe-se e defende-se essa atitude com uma demagogia que chega a ser obscena, embrulhada em falas mansas que nenhum vício lógico trava, bem ao estilo a que nos habituou Francisco José Viegas, o actual secretário de estado da cultura, homem com um longo percurso de agente cultural. O trabalho que tem desenvolvido nessa área é uma amálgama entre literaturas, críticas gastronómicas sobretudo de sabor regionalista, croniquetas sobre charutos do mais fino recorte, vinhos raros, prazeres da vida, comentários futebolísticos, o blogue de conteúdos todo o terreno, a derrama de opiniões políticas travestido de liberal à moda antiga, quando não passa de um liberalote de meia-tijela pós-moderna. Enfim, tudo o que para ele se pode inscrever na rúbrica dos requintados interesses culturais de uma certa cultura mundana onde esfumam os questionamentos de cultura, que na teoria e na prática, sobressalta e procura transformar a vida.

Parece-me que é suficiente.

Neste ligeiro retrato, residem as dúvidas do director-adjunto da Cinemateca, de quem entende que a cultura é algo de muito importante e não uma mera flor de adorno que se coloca na banda do casaco.