quarta-feira, 31 de outubro de 2012

APROVADO O ORÇAMENTO DO ESTADO PARA 2013


…com os votos contra de toda a oposição e de um deputado centrista.

Legenda: não foi possível a origem/autoria da fotografia.

À LUPA


O tema era o ensino do Holocausto e o embaixador de Israel em Lisboa, Ehud Gol, aproveitou-o para exortar Portugal a assumir as suas responsabilidades.

Com palavras duras, Gol lembrou terça-feira, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, que Portugal  “foi o único país que colocou a sua bandeira a meia haste durante três dias", quando soube da morte de Adolf Hitler. "É uma nódoa que para nós, judeus, vai aparecer sempre associada a Portugal", exclamou.

"Recuso-me a suportar o peso dessa nódoa", respondeu-lhe um professor da Universidade de Coimbra, que se encontrava na sala repleta para mais uma sessão da conferência Portugal e o Holocausto, aprender com o passado, ensinar para o futuro, que terminou ontem. O docente lembrou que o país vivia então em ditadura e que os gestos do Governo de então não podem ser imputados aos portugueses. "O passado é doloroso. O Portugal de hoje não é o mesmo do passado, como a Alemanha de hoje também não é a mesma do passado, mas os países têm de assumir responsabilidades pelo seu passado", respondeu Gol.

Público

SERÁ QUE ELE AGUENTA?


Se um desempregado, em noite de bruxas, nas margens do desespero, partir as montras das agèncias do BPI, o Ulrich aguenta?

Se um sem-abrigo, em noite de bruxas, encontrar o banqueiro farsante na rua, e lhe espetar uma carga de porrada, o Ulrich aguenta?

Se os clientes do BPI, já hoje, tirarem de lá o dinheiro e o depositem na concorrência, o Ullrich aguenta?

Que mal fizemos para levar com este tipo de lixo?

terça-feira, 30 de outubro de 2012

À LUPA


O país aguenta mais austeridade?
Ai aguenta, aguenta!

Fernando Ulrich, presidente executivo do BPI,

OLHAR AS CAPAS


Confissões

Jean-Jacques Rousseau
Tradução: Fernando Lopes-Graça
Introdução: João Gaspar Simões
Colecção Documentos Humanos nº 3
Portugália Editora, Lisboa, Novembro 1964

Vou empreender uma coisa sem exemplo, e cuja realização não será imitada. Quero mostrar aos meus semelhantes um homem em toda a verdade da natureza, e esse homem serei eu. Eu só. Sinto o meu coração, e conheço os homens. Não sou feito como nenhum dos que tenho visto; ouso crer não ser feito como nenhum dos que existem. Se não valho mais, sou pelo menos diferente. Se a natureza fez bem ou mal, ao quebrar o molde em que me vazou, é o que só poderá ser julgado depois de me haverem lido.

POSTAIS SEM SELO


As palavras criam mundos.

Manuel António Pina

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

À LUPA


No dia em que a planície entre estes dois rios for inundada e as águas se juntarem numa mesma foz, a rua tornará ingovernável o país. É raro, vem pouco nos manuais, apenas nos melhores, mas está cada vez mais perto de acontecer.

José Pacheco Pereira no Abrupto.

OS CROMOS DO BOTECO

QUOTIDIANOS


Uma mulher, de 83 anos, foi agredida e violada pelo neto e outros dois rapazes, na sua própria casa, em Oliveira de Azeméis. A vítima vive acamada há mais de dois anos e tinha o marido no hospital há dias. Foi internada no hospital de Santa Maria da Feira.
 O crime terá acontecido já de manhã, quando os jovens voltaram da discoteca "Hollywood", Santa Maria da Feira, e apanharam a idosa sozinha em casa.
O neto, com cerca de 20 anos, era a pessoa encarregada de cuidar dos avós durante a noite, sendo pago por isso. A avó estava sozinha em casa no momento da alegada violação, uma vez que o avô tinha sido internado há dias por complicações de saúde, relacionadas com a amputação das duas pernas há algum tempo.
A presumível violação deixou chocada a vizinhança, que não vê explicação para o caso para além do consumo de drogas, característica pela qual o neto é conhecido.

Dos jornais

POSTAIS SEM SELO



A única coisa romântica, no teatro, é a bilheteira.

Peggy Ramsay.

domingo, 28 de outubro de 2012

REFUNDIR, DISSE ELE...


O comandante da nave de loucos que nos (des)governa, disse ontem à nação que pretende discutir a refundação do memorando de entendimento com a troika..

Os teóricos-os-comentadores-a-malta-dos-fatos-às-riscas-e-gravatas-azul-bebé-do-costume, não sabem o que é que o homem quer com esta história do refundir.

Mas os dos costume já sabem: um qualquer outro meio de nos lixar ainda mais a vida já lixada que enfrentamos.

Esta garotada, como lhes chamou o escritor Mário de Carvalho, está completamente fora das realidades e demonstram uma insensibilidade desesperante, trágica mesmo, sobre os dramas sociais que estão, a todo o momento, a acontecer no país.

Sem qualquer ponta de dúvida, estamos a ser dirigidos por uma cambada de aldrabões

Estes ministros, os deputados que irão aprovar o orçamento para 2013., deviam pensar, por um único segundo, no descalabro que vão causar.

Poderão sorrir aos filhos? Falar aos amigos?

Pelas amostras que vamos vendo, rigorosamente nada os afecta.

Um governo como este, diria o Eça de Queiroz, não cai porque não é um edifício, mas sai com benzina porque é uma nódoa.

Mas, como com benzina, certamente, não cairá, temos que nos juntar e, por um destes dias, corrê-los à paulada.

Sim, à paulada, para que tudo o que já sofremos não tenha sido em vão!

À LUPA


Para este Governo os reformados são um alvo a abater e, nesta matéria, o orçamento é inconstitucional.

Bagão Félix em entrevista ao I

MARCADORES DE LIVROS

sábado, 27 de outubro de 2012

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

E como está a ver os tempos que correm?

Respondeu:

Acho que este é um governo de pardalada. E não quero ser insultuosos mas estas pessoas são muito agarotadas e sobretudo não têm a noção do bem comum, do interessePúblico. Não faz parte dos seus quadros mentais. Não quer dizer que Passos Coelho seja um mau rapaz, mas o percurso deste gente é de quem vive de expedientes e está atrelado a interesses. Gostava de ser governado por homens livres. Nunca via as coisas tão degradadas.

Mário de Carvalho, entrevista ao JL, 17 de Outubro.

OLHAR AS CAPAS


Poemas do Avante

Mário Castrim
Poemas recolhidos à revelia do autor por Correia da Fonseca
Capa: José Serrão
Edições Avante, Lisboa Agosto 1998

Meu pai tinha os olhos azuis.
Ninguém na família
tivera alguma vez olhos azuis.

Um azul de brincar.
Não posso dizer
que era um azul
como isto ou como aquilo
(o céu, o mar, etc.)
por isso não adianta explicar.

Quando a sombra de um pássaro
cruza a minha janela
«é azul – digo –
é azul como os olhos do meu pai.»

O que eu
quero dizer
nestes versos
tem um azul parecido.

DA MINHA GALERIA


Saudades do Monumental.
Não havia sala como aquela. Já não verei outra.
Foi ali que vi um dos mais belos filmes, um filme que só poderia ser visto numa sala como aquela: My Fair Lady.
Sorrio sempre cada vez que me lembro da Audrey Hepburn, no dia das corridas de cavalos aquela parte em que ela, para grande escândalo dos presentes, gritou:

Mexe-me esse cú, velha pileca!

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

DO BAÚ DOS POSTAIS


Oferta dos Correios Portugueses em comemoração do Dia Mundial dos Correios - 1986.

À LUPA


O FMI está muito mais pessimista sobre a sustentabilidade da dívida e as perspectivas de curto prazo – e faz vários avisos ao governo de Pedro Passos Coelho.

Dos jornais de hoje.

CRÓNICA 20 ANOS DEPOIS


O que foi feito dos meus amigos e das coisas belas e desmesuradas por que todos nós perdemos e ganhámos a juventude? Olho em volta e resigno-me: os meus amigos cansaram-se e jazem agora em empregos rotineiros à espera da trombose ou do enfarte. Alguns passaram-se com armas e bagagens (e, naturalmente, proveito) para o lado do inimigo. Os melhores (mas que sei eu?) engordaram – para dizer a verdade, todos engordámos... – e tornaram-se cépticos e amargos carregando a nossa memória comum como um pecado envergonhado. Muitos morreram em guerras sem sentido, ou tão só de tédio, de longo e insuportável tédio. Outros partiram para improváveis distantes lugares; um enlouqueceu (e esse foi, se calhar, o que, imóvel e cegamente, partiu para mais longe).

Aquilo por que, há 20 anos, estávamos dispostos a perder tudo o que tínhamos (que não era, aliás, grande coisa: tempo, paciência, a breve vida), desmoronou-se mesmo antes de termos levantado as primeiras inseguras paredes. Atrás de nós veio pesadamente, a perigosíssima estirpe da chamada gente prática (laboriosas formigas que, enquanto cantávamos na rua e fugíamos à frente de todas as policias, mastigavam metodicamente as sebentas em sombrios quartos onde não chegavam o fogo dos sonhos nem o clamor da vida), e reduziu a utopia a dimensões razoáveis e geriveis. (Façamos-lhe, no entanto, justiça: talvez, quem sabe?, sem eles cedo a despensa se tivesse esgotado e a festa tivesse acabado mal e numa tremenda ressaca...)

Hoje reunimo-nos lentamente nos cafés, aos fins de tarde, e recordamo-nos com complacência de nós próprios como de outras alheias coisas. Nessa complacência me parece, às vezes, entrever alguma secreta mágoa e algum ressentimento. Em quantas ocasiões não nos tenho surpreendido falando com azedume dos filhos, e dos seus desejos, e da sua vida (da sua única vida!), como se aquilo que a eles, um dia, será dado, por sua vez, perder fosse irrisório e mesquinho ao lado do que nós próprios perdemos?

Nessas alturas tento imaginar o que seríamos há 20 anos, pensado de gente como a que hoje somos. E o que imagino (mas a minha imaginação sempre foi pouco recomendável) embaraça-me e apavora-me. Ter-nos-emos tornado em pessoas tão feias e tão impertinentes como aquelas contra quem inventámos a vida e a liberdade? Tenho a inquieta sensação de que, sem o saber, repetimos, também nós, como os notários de Jacques Brel, um monótono papel num dramático e não menos monótono. E que os nossos sonhos passados (como agora os nossos sonhos presentes, tão óbvios, tão prováveis!), e nós, as nossas derrotas, a nossa melancolia, fazemos todos parte da mesma medíocre telenovela.

A verdade é que não me agrada absolutamente nada o argumentista destes últimos anos, muito particularmente o da versão portuguesa deles. O «happy-end» liberal que entusiasticamente por aí se anuncia mais se me afigura um terrível pesadelo de que, por muito que me esforce, não sou capaz de acordar. A diminuição da inflação e das taxas de juro, o equilíbrio da Balança de Pagamentos, a União Económica e Monetária, a televisão de alta definição, não me parecem, de todo em todo, coisas por que valha a pena alguém viver ou morrer, e não vejo nenhum épico na posse das faculdades mentais a dedicar uma epopeia à presidência portuguesa das Comunidades ou aos feitos financeiros do dr. Cavaco Silva. Foi este o temo e o lugar sem grandezas que legámos aos filhos? Valeu a pena tanta esperança para isto?

Olho os filhos e, pudessem eles compreender, dir-lhes-ia: “A culpa foi nossa”. Talvez tenhamos feito o que pudemos, só que não pudemos, como se vê pela figura junta, grande coisa. E agora não temos nada, ou quase nada, para mostrar aos filhos. Nem o tamanho da nossa vida, que mediríamos pelo tamanho dos nossos sonhos (e pelas nossas derrotas) não tivéssemos todos debandado e desertado para a nostalgia e para a ironia quando a vibrante bandeira da nossa juventude caiu nas mãos dos infiéis.


Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 10 de Junho de 1992, retirada de O Anacronista, Edições Afrontamento, Porto 1994.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

QUANDO SALI DE CUBA



“It’s the dream of everyman to go back to the land where he was born, and that’s how it is with me.
Every night I sing a song and cry up for the day when I can go home again, to feel the warm morning sun and to walk where I used to run.
Many things can keep a man homeland apart, but the years and the miles can’t change what’s in a man’s heart, and someday, somehow, I will go back to the land I love”

(“English narration” que integra   Quando Sali de Cuba / The Wind Will Change Tomorrow,  na versão de The Sandpipers)

Imagino que por alusão à Little Italy de Nova Iorque, Little Havana  é o nome  que foi dado ao subúrbio de Miami onde se foram instalando, ao longo dos anos,  os refugiados cubanos que começaram a fugir ao regime de Fidel Castro logo após (ou mesmo antes…) a entrada triunfal das forças revolucionárias em Havana, na manhã de 1 de Janeiro de 1959.

Com o passar dos anos, muito outros “hispânicos” provenientes da América Central e da América do Sul se vieram também instalar em Little Havana, o que fez deste lugar  um “melting pot” no qual os cubanos, embora em decréscimo nas últimas décadas, continuam a constituir a população social e culturalmente dominante.

Ainda hoje Cuba e o regime de Fidel Castro continuam a dividir os corações.

Há os que estão abertamente contra.

Os que estão abertamente a favor.

Há os que estiveram a favor mas,  nos dias de hoje,  já têm algumas dúvidas…

Os que não têm opinião formada sobre o assunto, porque  “vá lá saber-se quem fala verdade…”

E os que se estão absolutamente nas tintas, desde que os charutos continuem a chegar em boa quantidade e qualidade…

Mas eu não escondo a ninguém as minhas simpatias em relação a Cuba e ao povo cubano.

Há que saber situar os factos no contexto histórico da profunda “Guerra Fria” em que ocorreram, e por muitos que tenham sido e continuem a ser os “erros de percurso”,  não posso acusar o regime de Fidel de ter sido o principal responsável por esse estado de coisas…

Mas, por outro lado, também não consigo nutrir uma profunda antipatia pelos cubanos de Little Havana.

A culpa é da Música, como sempre…

Acho que a nostalgia de “Quando Sali de Cuba” me adoçou o coração em relação a esta gente e hoje sinto por eles mais pena do que qualquer outro tipo de animosidade.

Penso nos dramas e nas dificuldades por que passaram…

Imagino o que será estar assim tão perto da nossa Casa e não poder voltar…

E  foi nesta ambivalência de afectos que me dispus a vaguear pela Calle Ocho (Rua 8) que, sobretudo entre a 11ª  e a 17 Avenidas, constitui a verdadeira  “main street” de Little Havana.

É claro que não poderia ter a presunção de tudo ficar a conhecer numas míseras duas horas de passeio…

Mas queria  tentar perceber como é que eles vivem e  saber se ainda seria possível sair dali com um cheirinho a Cuba e às cores de Cuba.

As cores acho que as vi, mas o cheirinho foi mais a Uncle Sam do que a qualquer outra coisa…

Algumas das memórias dessa rua aqui  ficam  documentadas.


Prestamistas e negociantes de ouro…


O Rei  das Batatas Fritas…



Cabeleireiro de Homens e Senhoras, a $10 cada corte de Segunda a Quinta-Feira …


Vendedores de colchões, para os quais a falta de dinheiro do cliente não constituirá qualquer problema…


O reparador Caraballo,  com o qual não haverá  falha possível…


Stands de automóveis com coloridos  “show rooms” ao ar livre…


E lojas de charutos, como não poderia deixar de ser. A mais antiga e  importante das quais passa por ser  “El Credito Cigar Company”, que se situa na esquina da Calle Ocho com a 11ª Avenida e que, entre outros,  produz “La Gloria Cubana”.  Esta Casa foi criada em 1907 e transferiu-se definitivamente para Miami em 1968.


Entrei e fiz despesa.

Mas não lhes confessei que aqueles três charutinhos que me embrulhavam, com tanto zelo profissional, num pequeno saco isotérmico se destinavam a ser fumados pelos meus Amigos numa Festa que, entre outras coisas, celebra e  glorifica a Amizade e a Solidariedade entre todos os Partidos Comunistas do Planeta….

E,  por respeito para com os seus ideais,  nem sequer me despedi  deles da forma  que mais me teria apetecido, isto é, de punho erguido e com um forte PÁTRIA O MUERTE, VENCEREMOS!!!

Se o tivesse feito, o mais certo seria não conseguir chegar inteiro à porta do meu carro…

Mas vi mais coisas ao redor da Calle Ocho…





Vi o monumento em honra dos mártires da Brigada de Asalto 2506,  que na noite de 17/04/1961  foi dizimada na Baia dos Porcos.




Um outro em homenagem a José Marti, o herói da Guerra da Independência  e o  autor de “Guantanamera”, que parece ser o único cubano que,   pelos vistos,  consegue  agradar a gregos e a troianos...



Quase na esquina com a SW 14th Street, vi um bonito mural que glorifica a  união das Américas, cuja elaboração foi da responsabilidade do “Proyecto Multicultural las Américas”. “Unidos a traves del arte” parece ser o seu lema, e os artistas


 homenageados  são, entre outros e para além do Presidente Lincoln, Tito Puente, Rocio Durcal, Pedro Infante, Carlos Gardel, Célia Cruz e Mário Moreno, o




saudoso Cantiflas..  A arte popular no seu melhor, certamente…. E é claro que não falta, por baixo de um desenho das esculturas do Mount Rushmore, um sugestivo “Dios Biendiga y Proteja a América”…

E por falar em arte, consta também que, a exemplo do que sucede em  Hollywood, Little Havana também tem o seu “Walk of Fame” carregadinho de estrelas, onde as do multicultural Júlio Iglésias e da heroína local  Gloria Estefan parecem ser as mais fotografadas. Mas a verdade é que já não tive tempo nem  paciência para ir à procura delas…

Diz a lenda que “Quando Sali de Cuba”  é o hino nacional destes refugiados cubanos e é claro que se pensa, de imediato, que uma música com tanto “sentimiento” só poderia ter saído da pena de um cubano nostálgico da sua terra.

Mas, por ironia do destino,  não foi nenhum cubano quem a compôs… Foi um argentino, de seu nome Luís Aguilé, quem escreveu letra e música  em 1963

Pouco importa, para o caso.

Quando a lenda suplanta a realidade,  publica-se a lenda…

E lá fui eu a  cantar pela Calle Ocho fora…

“Nunca podré morirme, mi corazón no lo tengo aquí
Alli me está esperando, me está aguardando
Que vuelva alli

Quando sali de Cuba
Déjé mi vida déjé mi amor
Quando sali de Cuba
Dejé enterado my corazon


Colaboração de Luís Miguel Mira

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

MAIS UM TIRO NA CULTURA!


Hoje ficou a saber-se que Francisco José Viegas, por motivos de saúde, vai deixar de ser secretário de estado da cultura do governo de Passos Coelho.

Em Agosto, em entrevista ao Le Monde, deixara dito: eu, o editor feliz, o escritor sem preocupações, cometi este erro de aceitar um cargo político. Mas, não vamos falar disso pois não?

Só Francisco Viegas saberá o que pretendeu com a decisão de fazer parte do governo de Pedro Passos Coelho, onde pululam, aosmontes as personagens que não sabem o que é cultura e outras que, quando ouvem falar de cultura, puxam, logo da pistola.

Há quem diga que foi por vaidade, é bem provável, mas de imediato ficou no ar a ideia de que se tratava de um enorme tiro no pé.

Há vaidades que matam…

Num artigo opinião, publicado no Público Augusto M. Seabra, analisava a  (não) actuação de Francisco José Viegas à frente da cultura da nação:

O sector desapareceu com este governo. Do titular, o secretário de estado Francisco José Viegas, o que sabemos é que a sua editora está à espera que entregue um novo romance, facto revelador de todo o empenho que tem posto nas suas funções governativas, mas de resto nada original – era Viegas director da Casa Fernando Pessoa e, segundo o seu interessante blogue A Origem das Espécies, íamos estando a par das suas múltiplas e constantes viagens.
(…)
De romance em romance, os que Francisco José Viegas vai escrevendo mas suas quase permanentes horas livres no cargo de secretário de Estado, vai ocorrendo o afundamento geral das estruturas culturais em Portugal.

Juntamente com a notícia da saída de Viegas da cultura, ficou a saber-se, citação do Público, que: dias antes, a Porto Editora já tinha anunciado o adiamento para 2013 do seu novo romance, O Coleccionador de Erva, previsto para Novembro, "por decisão conjunta" do autor e da editora.
 

MARCADORES DE LIVROS

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO


O cinema foi o primeiro elemento de magia na minha vida.
No São Luiz havia às quintas-feiras sessões para miúdos. A sala tinha os dois andares de balcões debruados com pequenas lâmpadas brancas e depois azuis mais fraquinhas. Apagava-se o lustre, apagava-se tudo, começavam a s cortinas a abrir, apagavam-se as luzes brancas e ficavam as azuis. E depois o filme começava. Nunca esqueci tudo isso.

Eduardo Serra, director de fotografia

terça-feira, 23 de outubro de 2012

GARE DU SUD


Tudo o que temos pertence a outros,
desconhecidos  de nós, e ainda a outros,
e temo-lo como se o perdêssemos
ficando uma sombra, a nossa sombra.
Estamos longe de casa e essa sombra
é a única morada a que podemos acolher-nos.

A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante;
e se a ouvíssemos não a compreenderíamos
porque falamos uma língua estrangeira.
Tivemos um passado mas também ele não nos pertenceu,
lemo-lo, ou ouvimo-lo a
outros mais densos que nós.

Aonde regressamos então?
Ao lado das fluviantes águas,
águas idas e vindas. Noite!,
alguém nos chama mas
não é ninguém que conheçamos
nem ninguém de quem possamos dizer o nome.

Um murmúrio a que alguma razão passada
prende os sentidos e que perdura
no meio da vozearia da solidão e das interrogações,
um olho cego, um animal indecifrável atravessando a
distância e olhando-nos ainda,
a nós que os nossos olhos já não podem ver.

Manuel António Pina em Os Livros, Assírio& Alvim, Novembro 2003.

Legenda: imagem da Gare du Sud tirada da Wikipedia.

OS CROMOS DO BOTECO

SARAMAGUEANDO


Quando há dias, no site da Fundação José Saramago li um comunicado sobre fundações, admiti que era uma resposta/esclarecimento à destrambrulhada investida que Gaspar fizera sobre as fundações.

Acabo de saber que o verdadeiro alvo, é uma diatribe que Miguel Sousa Tavares bolsou na parte final da coluna que assina no Expresso.

Esta gente nunca mais tem vergonha na cara!

Que lhe diria, sua mãe Sophia?

O vómito está escarrapachado aí em cima, o comunicado da Fundação é este:

A Fundação José Saramago não recebe dinheiro da administração pública, seja ela central ou municipal. É sustentada pelos direitos de autor de José Saramago que decidiu compartilhar uma parte do património acumulado ao longo de uma vida de trabalho com os seus contemporâneos. Sublinhamos estes dados, que persistentemente temos referido, na sequência de opiniões divulgadas sem qualquer consulta ou informação prévia de fácil acesso através da Fundação ou da administração pública.

Os estatutos da Fundação deixam claro que a sua atividade se desenvolve no âmbito da promoção da cultura, dos valores cívicos e dos direitos e deveres humanos, nos planos nacional e internacional.

A Casa dos Bicos é gerida pela Fundação José Saramago de acordo com uma concessão administrativa por dez anos, com possibilidade de ser ou não renovada. Até ao momento, e paradoxalmente, é a Fundação José Saramago que sustenta um edifício público emblemático de Lisboa, pela primeira vez aberto ao público. Não é a administração pública que sustenta a Fundação.

As contas da Fundação José Saramago são públicas e podem ser consultadas na sua página oficial, para além de entregues regularmente ao Conselho de Ministros, cumprindo, neste segundo caso, o legalmente exigido.

O trabalho da Fundação José Saramago pode ser acompanhado no dia-a-dia através da sua página web. Nela se dá conta de tudo o que a Fundação faz para o bem comum, ou se realça o que com o mesmo objectivo outros fazem.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

OLHAR AS CAPAS


Os Livros
Manuel António Pina
Assírio &Alvim, Lisboa Novembro 2003


Como Rossetti resgatando a dádiva de amor
verso a verso ao corrupto corpo
de Elizabeth Eleanor, o escritor
é um ladrão de túmulos. E é um morto

dormindo um sono alheio, o do livro,
que a si mesmo se sonha digerindo
sua carne e seu sangue e dirigindo
a sua mão e o seu livre arbítrio.

Quem construiu a sua casa? Quem semeou
a sua vida, quem a colherá?
Nem a sua morte lhe pertence, roubou-a
a outro e outro lha roubará.

Toma, come, leitor, este é o seu corpo,
a inabitada casa do livro,
também tu estás, como ele, morto,
e também não fazes sentido.

À LUPA


Imaginem este país informado quase exclusivamente pelo "Correio da Manhã" e sucedâneos. Imaginem um canal de televisão, uma rádio e vários jornais (DN, JN, I, Sol) nas mãos dos homens de negócios próximos da ditadura angolana. Imaginem jornais feitos por meia dúzia de estagiários, impreparados e indefesos perante todas as pressões. Imaginem jornais sem meios para investigar e jornalistas com medo de investigar. Diretores com medo de administradores e administradores com medo de anunciantes e políticos. Imaginem que tudo o que sobra são as notícias encomendadas e as investigações entregues ao domicílio. Não precisam de imaginar. Estamos praticamente lá

Daniel Oliveira no Arrastão.

EM TUNES HÁ SEMPRE UM BEY



Das andanças e desandanças de Manuel António Pina, no encontro de temas para as suas crónicas, ocorre-me um texto de Eça de Queiroz, que consta das Notas Contemporâneas (1).

Numa publicação da época, Pinheiro Chagas, aparentemente sem razão, metera-se com Eça de Queiroz.
Para aplicar o seu espírito mordaz, a sua fina ironia, Eça não necessitava de ter razão. Mesmo que não tivesse, inventava-a.

Os pés sem cabeça do ataque de Chagas ao Eça só tinham uma razão de ser não ter tema para a crónica que prometera ao director do jornal.

É este o pedaço do texto do Eça, mantendo-se a ortografia da edição:

N’este momento, eu vejo d’aqui o leitor honesto, que vae percorrendo estas linhas, parar, pousar o jornal, o seu charuto, e dizer de si para si, ou às senhoras que costuram ao lado:
- Esta é singular! Caso lamentável e raro! O quê! é isto o que elle tinha escripto? Então, o procedimento do snr. Pinheiro Chagas não me parece regular. Pois o outro cita as palavras d’ um jornal inglêz, offensivas para Portugal, condemna-as como perversas e descortezes, e o autor da Morgadinha de Valflr atribui-lhas a ele e quer-lhe fazer suportar a responsabilidade d’ellas? Se isto são costumes e maneiras litterárias, bem faço eu em odiar os litteratos! Porque é que o snr. Pinheiro Chagas não citou o que o outro escrevera? Caso triste e antipáthico!...
Riamos, meu caro Chagas, riamos aqui a este canto, abraçados um no outro! Rebolemo-nos! Como se vê que aquelle honrado homem, que lê o Atlântico, ignora as amarguras, as necessidades formidaveis do jornalismo... A querer que você me citasse! O ingenuo! Se você me citasse, não podia fazer o artigo: e você tinha absolutamente de fazer o seu artigo!...
Eu conheço a situação: é medonha. Na véspera tem-se dito ao director do jornal, apertando-lhe ferventemente a mão, e com a voz a tremer:
- Palavra de honra, menino. Pela minha vida, que tens lá o artigo, além de ámanhã, às nove horas. Eu sou incapaz de te comprometter! Juro-to, pela alma de meus filhos... Boa noite. Lá o tens!
Depois, naturalmente, como você sabe, não se pensa mais no artigo. Mas, cruel destino! no dia aprazado, lá toca a campainha, lá chega, fatal, implacável, irrevogável — o moço da typografia!
É horroroso. Sobretudo quando elle usa botas que rangem! Fica à espera, passeando no pátio ou no corredor: e aquele lento gemer de solas tristes, cadenciado e accusador, allucina!

E cá no nosso gabinete, que pavorosa lucta! As cinco tiras de papel alli estão sobre a mesa, lividas, ironicas, vazias: e é necessario enchel-as todas, de alto a baixo, com coisas extrahidas do nosso interior.
É trágico. A parte da carcassa humana a que se recorre primeiro é naturalmente ao craneo, deposito de ideias, impressões, adjectivos e theorias; aperta-se o craneo nas mãos frementes; sacode-se o craneo como uma velha algibeira: — nada sai do craneo. E as botas ao longe, a ranger!
Maldição! Recorre-se então ao peito, asylo dos affectos, dos sentimentos generosos. Talvez de lá saia um canto, um grito, uma apóstrophe. Arranha-se convulsivamente o peito; bate-se desesperadamente no peito como n’uma porta fechada: — o peito fica mudo como o craneo. E as botas ao longe a ranger!
Inferno! E então os crentes rezam à Virgem Maria; os atheus invocam a morte, a dôce anniquilação da matéria; os mais violentos pensam em attrahir o moço da typographia com palavras dôces, cortal-o aos pedaços com uma navalha de barba, esconder os fragmentos na sarjeta domestica... E as botas, lá no fundo, ironicamente, rangem!
Ah, caro Chagas, é d’ahi que véem as cans precoces. Sabe você o que eu fiz n’uma d’estas agonias, sentindo o moço da typographia a tossir na escada, e não podendo arrancar uma só ideia util do craneo, do peito, ou do ventre? Agarrei ferozmente da penna e dei, meio louco, uma tunda desesperada no Bey de Tunes...
No Bey de Tunes? Sim, meu caro Chagas, n’esse veneravel chefe de Estado, que eu nunca vira, que nunca me fizera mal algum, e que creio mesmo a esse tempo tinha morrido. Não me importei. Em Tunes há sempre um Bey: arrasei-o.
Por isso eu comprehendo bem que você não me pudesse citar. Que diabo! se me citasse, adeus bellas phrases! adeus bello patriotismo! adeus bello artigo! — E você ouvia, no corredor, as solas malditas rangendo. Talvez eu, no seu caso, tivesse feito peor…


(1)   – Eça de Queiroz, Notas Contemporâneas, Lello & Irmãos Editores, Porto 1945

domingo, 21 de outubro de 2012

POSTAIS SEM SELO


 A alegria da viagem é o regresso a casa.

Manuel António Pina

Legenda: ilustração de Jeffrey Smart.

DAQUI A CEM ANOS NINGUÉM SE LEMBRA


Baptista-Bastos disse um dia que o jornalismo é uma disciplina superior da Literatura. Eu diária que no jornalismo há uma disciplina que sempre me fascinou: a crónica.

Num jornal, se há crónica, é por aí que começo.

Tenho pastas e pastas cheias de crónicas de jornais. Por vezes faço-lhe uma limpeza porque há (havia) um editor que se preocupava em publicar as crónicas de alguns escritores/jornalistas: Mesmo assim confiro sempre se lá puseram todas. Por exemplo, José Saramago, por um motivo ou por outro, não colocou nas Folhas Políticas todas as crónicas que publicara no semanário Extra.

De 2ª a 6ª feira, Manuel António Pina publicava uma crónica na última página do Jornal de Notícias.

Num livro seu, O Anacronista (1), que reúne crónicas publicadas em jornais e revistas, explica-se:


Cinco dias, o quotidiano, o que calhar,1420 caracteres escritos por um cidadão interventivo, que terão de ser entendidos por uma qualquer pessoa e, pelo meio, a perturbação dos políticos, ansiosamente perguntando-se : a quem é que ele hoje vai atirar a farpa. e, tal como os seus livros para crianças, igualmente recomendáveis para adultos, as suas crónicas podem virtualmente ser lidas com proveito por qualquer pessoa.

Numa entrevista ao I, Nuno Ramos de Almeida pergunta-lhe  se o jornalismo não tende a matar a inteligência e a arte.

Uma coisa que eu aprendi no jornalismo é a humildade. Se conhece escritores, sabe que normalmente são tipos que acham que é fundamental aquilo que escrevem. No caso do jornalismo, como sabemos que aquilo que escrevemos no dia seguinte está a embrulhar o peixe, não é assim. No jornalismo aprendi essa humildade fundamental. Tenho de escrever, nas minhas crónicas, 1400 caracteres, o morto à medida do caixão – agora tenho-lhes metido o IVA, como aumentou, escrevo 1420. E meti-lhe o IVA baixo. Depois de escrevermos uma coisa, o coordenador corta e altera o título. O jornalismo é um trabalho colectivo. Isso dá-nos uma grande modéstia. O Luiz Pacheco dizia que daqui a cem anos ninguém se lembra. Qual daqui a cem anos... Mesmo na altura já ninguém se lembra. Os escritores têm muita dificuldade em aceitar que tudo acaba por se esquecer. Tudo tende para o esquecimento. Mas há mais relações, o jornalista aprende com o escritor o respeito pelas palavras, sabendo que há palavras que se dão com as outras, e outras não. Não calcula o tempo que demoro a escrever aquela merda com 1400 caracteres. Leio aquilo tantas vezes... Volto atrás e vou para a frente. Só a trabalheira de arranjar assunto. Eu espontaneamente só tenho opinião uma vez por ano, agora tenho de ter todos os dias porque ganho a vida assim. Nunca leio o que escrevi no dia seguinte, porque se o faço fico completamente frustrado.

(1)   O Anacronista Manuel António Pina, Edições Afrontamento, Porto 1994.

Legenda: pormenor da capa de Luís Carrolo para o livro de crónicas Um Homem Na Cidade, Prelo Editora, Lisboa 1968

PELO OUTONO


Como escrevia o Dr. Manuel de Guimarães, já não há malgas de marmelada nas montras das pastelarias.
Este ano, e até agora, só encontrei esta: Casa Ribeiro, na Parede.
Mas ainda só estavam os frutos.
Hoje, possivelmente já estarão lá as malgas de marmelada.

sábado, 20 de outubro de 2012

MORRER, PORÉM, NÃO É FÁCIL


Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste


para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.


A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.


Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.


Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.



Manuel António Pina, poema O Quarto em Como se Desenha uma Casa Assírio & Alvim, Lisboa Outubro 2011

À LUPA


Daqui a seis meses, mais dia menos dia, ou até antes, ver-se-á que tudo está, nem sequer na mesma, mas pior. E foram mais seis meses de sacrifícios sem sentido para milhões de portugueses, o Sísifo empurrando a pedra eternamente, como punição infernal  "por viver acima das suas posses". Nessa altura, ou antes, o governo cai, os governantes voltam ao "privado" de onde nunca saíram, uns por cima como mandantes, outros por baixo como empregados, o sistema político sofre de uma "italianização" nas urnas, se o caminho for de eleições, e cada peça do corpo institucional, Presidente, partidos, Tribunal, ficará a contorcer-se  para o seu lado, sem nexo. E este não é o pior cenário. Há pior. O problema é que todos sabem disto e ninguém faz nada.

José Pacheco Pereira no Abrupto

OLHAR AS CAPAS



Felizmente Há Luar!

Luís de Sttau Monteiro
Capa de António Vaz Pereira
Edições Ática, Lisboa Abril de 1963

Se ele quisesse? Mas se ele quisesse o quê? Vocês ainda não estão fartos de generais? Cornetas, tambores, tiros e mais tiros… Bestas!

Tens sete filhos com fome e com frio r vais para casa com as mãos a abanar. Julgas que o Gomes Freire os vai vestir?

E tu, que não comes desde ontem – estás compressa de ir para a guerra? Julgas que matas a fome com as balas? Idiotas! Nenhum de vocês tem um tecto que o abrigue no Inverno, nenhum de vocês tem onde cair morto, mas mal passa um tambor, não há um só que não queira ir atrás dos soldados.

Catrapum! Catrapum! Caprapum, pum, pum

- Idiotas!

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Recorte do Diário de Lisboa de 20 de Outubro de 1968, dando conta de que a peça Felizmente Há Luar de Luís de Sttau Monteiro iria ser representada, em Maio de 1969, no Festival Mundial de Teatro Universitário de Nancy.

(Para uma mais fácil leitura clicar sobre a imagem do texto.)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

VÊM AÍ OS TURBOMÉDICOS


A última crónica de Manuel António Pina, publicada no Jornal de Notícias de 3 de Agosto de 2012:

O alerta do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos de que irá aparecer por aí, num futuro próximo, aquilo que o presidente desse organismo chama de "médicos de segunda", com diplomas obtidos em escolas privadas ou por "equivalência" (à maneira da controversa licenciatura de Relvas), devia ser levado a sério pelo Ministério da Educação, que tanto fala em "rigor" e em "qualidade".

A posição da Ordem dos Médicos surge na sequência da notícia de que uma escola privada terá arranjado maneira de transformar os seus licenciados em Ciências Biomédicas em turbolicenciados em Medicina (com dois meros anos de formação especializada), entrando por "equivalência" no 4.o ano da universidade espanhola Alfonso X, El Sabio. Tudo, como habitualmente, "dentro da lei".

O "caso Relvas" é apenas expressão daquilo que poderíamos classificar de "caso português", o chico-espertismo. Este atingiu proporções inimagináveis com o negócio de diplomas em que se tornou algum ensino superior privado (uma escola já oferece mesmo "licenciaturas duplas" em quatro anos, ao bom estilo promocional do "pague uma e leve duas").

A não ser que o Ministério da Saúde faça como o da Justiça, que não aceita licenciados à bolonhesa em Direito nas magistraturas, o mais certo é que os turbomédicos acabem no SNS-D (D de "desconstruído") do dr. Paulo Macedo: ficarão em conta e, para quem é, bacalhau basta.