terça-feira, 30 de abril de 2013

JL VEZES 1111


Surgiu hoje nas bancas o nº 1111 do JL.

Convocaram os colaboradores de hoje para, em 1111 caracteres, falarem do que lhes ofereceu dizer sobre o jornal e, repescaram textos de alguns dos muitos colaboradores que, ao longo de 33 anos, passaram por aquelas páginas e que, infelizmente, já não se encontram entre nós: Fernando Assis Pacheco, Eduardo Prado Coelho, Manuel António Pina, Alexandre O’Neill, Augusto Abelaira, José Saramago, Alexandre Pinheiro Torres, João de Freitas Branco, David Mourão-Ferreira, António José Saraiva.

Também há textos de Agustina Bessa Luís e António Ramos Rosa que, por motivos de doença não puderam prestar a sua colaboração.

Em lugar de destaque o texto de Rodrigues da Silva em que, em palavras corajosas e sentidas, se despediu do jornal, ele que emprestara, com o seu fulgor, inteligência e cultura, o melhor de si, para tirar o jornal do cinzentismo que o acompanha desde o primeiro número.

No editorial do primeiro número prometia-se que o JL pretendia ser algo de novo entre nós, um quinzenário de cultura potencialmente para toda a gente.

Para mim foi uma pequena desilusão.

Tirando a entrevista que, na Costa da Caparica, Fernando Assis Pacheco fez a José Cardoso Pires, uns maravilhosos tordos fritos, temperados e fritos pelo Zé, tudo o resto, desse primeiro número,  cheirava muito a hermético para pretensos iluminados.

Teresa Clara Gomes, falando desse primeiro número, disse:

Desiludiu-me. Esperava um jornal que me desse gosto ler, saíu-me mais um dever do que um prazer. Acho o conjunto pesado, tanto na paginação como no conteúdo. Lamento, além disso, o tradicional elitismo co conceito de cultura subjacente à maioria dos textos. Diz-se que é um jornal de letras, artes e ideias, e as ideias quase não tocam o tecido cultural do nosso quotidiano. Esquecem-se, além disso, certas expressões culturais que nascem de criadores não intelectuais. Espero que isso seja meramente acidental e não corresponda uma intenção dos responsáveis.

Leitor desde o primeiro número, mantenho com o JL um sentimento de amor e ódio.

Não posso deixar de lembrar as entrevistas, os dossiers, as pré-publicações livros, e o Jorge Listopad, mais o seu Coelhinho.

Mas fica-me, em cada número, a sensação que nunca conseguiu ser o jornal cultural para toda a gente.

Porém, no triste panorama em que hoje vive o jornalismo cultural, há que saudar a persistência do JL em fornecer-nos lampejos que rompem com a mediocridade reinante.

É, realmente uma lufada de ar fresco.

Começou como quinzenário, custava 25 escudos – na altura, era dinheiro -, mais tarde passou a semanal, mas dadas dificuldades de ordem vária, voltou a quinzenário e hoje custa 2,80 euros.

Continua ser dinheiro!...

Está hoje nas bancas o número 1111.

Que chegue ao 2222, e por aí fora.

Legenda: a capa e a contracapa deste JL, tal como no primeiro número, são desenhadas por João Abel Manta.

PIM-PAM-PUM


PIM-PAM-PUM
cada bala mata um

Mas se a bala não matar
não há problema nenhum
podemo-los estrangular
com a fome ou com a prisão
com o frio
com o segredo
com o degredo
com a tristeza
com o bafio
ou
com o medo

José Fanha em Busca Edição do Autor, Lisboa s/d

segunda-feira, 29 de abril de 2013

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

Estava hoje na caixa do correio.
Soirée dançante é uma coisa que me soa bem, transporta-me para os bailes das sociedades dos meus adolescentes tempos, lembra-me damas ao bufete, rapazes de fato e  gravatinha, raparigas de soquetes e vestidos de organdi.
Ando perdida no tempo mas já ouço falar dos 6 Latinos desde que me conheço nestas andanças.
Se bem que nos últimos anos ande algo enferrujada, garanto que ritmo é coisa que ganho de um momento para o outro.
O Vitória Clube de Lisboa fica ali na Calçada da Picheleira.

OS DIZERES DO OLHAR


Augusto Cabrita é uma maneira de olhar. É, também, uma maneira de dizer. Há, pois, uma maneira de olhar e uma maneira de dizer chamadas Augusto Cabrita. É o toque, o tom, o estilo, a dedada pessoal e intransmissível deste artista singular, que «diz» os rostos (por exemplo: os rostos de Belarmino e de Amália Rodrigues, Ary dos Santos, Lopes-Graça, José Gomes Ferreira) como se nos rostos houvesse, invisíveis, todas as vitórias e todas as derrotas de uma vida: a questão é descobri-las. Deste artista singular que «olha» o homem, o rio, o voejar grotesco das gaivotas, as tarefas das mulheres, os hangares, os armazéns, os movimentos inseguros das crianças, os cirros das nuvens, os vapores, como uma teoria de conjunto.

Nas fotos de Augusto Cabrita, como nos filmes de Augusto Cabrita, não há espaços neutros, vazios, inertes. Está lá, sempre e sempre, essa maneira de olhar e de dizer as coisas que recusa o banimento da criatura humana, mesmo quando a criatura humana (aparentemente) não figura na foto ou no filme. Esse cuidado pelo «conjunto», essa norma de não separar uma coisa da outra, essa maneira de dizer humanidade, homem, humanismo, humano - esse olhar, direi: musical, isso: esse olhar musical que Augusto Cabrita lança, docemente, sobre tudo o que é humano, atribuem à sua arte uma sedução e um fascínio incomuns.

A fotografia, em Augusto Cabrita, não é um objecto sem direcção nem sentido. E a câmara (seja ela fotográfica ou cinematográfica), nas suas mãos, toma partido. Quero dizer: não se limita à fria objectividade da câmara-olho, tão cara a Dziga Vertov; nem à decomposição laboratorial, tão cara a Henri Cartier-Bresson

Augusto Cabrita, a câmara de Augusto Cabrita parece edificada em «húmidas ternuras» (Raul Brandão dixit): um olhar, um dizer amor e um dizer olhar como se tudo pudesse caber no instante supremo em que dispara a máquina.

Cabrita não coisifica nem deifica o humano. Cabrita, através da sua arte seca, expungida, magistral (vejam-se as fotografias que ele «olhou» e «disse» para o romance de Carlos de Oliveira, «Uma Abelha na Chuva/Edições Dom Quixote), vai-nos sugerindo, através de mil pistas e de mil indícios, que só os bichos e os deuses podem viver sós. 0 homem, esse, nunca.

Baptista-Bastos, depoimento no Catálogo da Retrospectiva de Augusto Cabrita

Legenda: Futebol Ballet, fotografia de Augusto Cabrita

POSTAIS SEM SELO


Jantar com um velho amigo e outro, menos velho, mas também amigo. Estamos diferentes, estamos mais crescidos, não necessariamente mais sábios. A sensação estranha de que, de alguma maneira, os meus amigos estão, há muitos anos, permanentemente de partida; um dia aqui, no dia seguinte nada mais do que sombras. É um sentimento que me persegue há muito tempo - que, por vezes, parece pertencer-me apenas a mim, incomunicável - e que se traduz neste disparate sentimental, mas ainda assim verdadeiro: é triste que cada um tenha a sua vida, e que o tempo que nos separa vá sendo maior do que o tempo que nos une. Gosto demasiado dos meus amigos, que são muito poucos, para os ver partir a toda a hora como comboios de passagem numa planície deserta. Gostava de envelhecer na companhia deles; não sei se a vida o permitirá.


Legenda: fotografia de Michael Palmer

ESCADINHAS DO DUQUE


Quando chove em Lisboa
uma náutica gaivota
à toa
fixa o oriente.

Na barra alerta do Tejo
bombardeia o brejo
uma estrela candente.

Nos seios da empregadinha
uma luz que se adivinha
na noite pobre de sempre.

Escadinhas do Grão-Duque
batidas pelo levante
lavadas pelo poente.

E a noite amiga, madrinha.

José Carlos González em Lisboa e Outros Sapatos, Editorial caminho, Lisboa Abril 1980.

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


   (O Maestro bateu com a batuta na estante
e ergueu os braços. A orquestra vai começar
a tocar o programa do costume: a abertura
do «Egmont», etc.,etc.)



Ritual do silêncio vivo nas florestas
com os homens a arrancarem das árvores
a seiva da disciplina dos violinos,
segredos de entranhas de aves,
bichos a lamberem o espelho do orgulho nas ervas,
Beethoven, vocação para passeios nas tempestades
- e que dores são estas?
Quem as sofre por nós
nas canas mordidas
pelos ventos da ventania?

Conspiração dos homens que não entendem a língua que falam,
mas de súbito o universo parece-lhes mais enigmático
e as flores menos misteriosas
- todos sentados em redor duma fogueira insensata
De cinzas em comum.

Solidão
- oiro de cada um.

José Gomes Ferreira em Poesia IV, Portugália Editora, Lisboa Dezembro 1970.

domingo, 28 de abril de 2013

UM SOBERANO DESPREZO PELA CULTURA



Por constrangimentos orçamentais, a programação de Maio da Cinemateca Portuguesa não terá qualquer ciclo temático ou dedicado a um autor, tal como tem acontecido até aqui.

Em comunicado, a direção da Cinemateca explica que teve de abdicar dos ciclos temáticos da programação por estar impedida de recorrer a quaisquer cópias oriundas de fontes externas importadas pela própria Cinemateca, assim como a respetiva legendagem.

Assim, só terão legendagem os filmes que façam parte do acervo da Cinemateca.

É deste modo, que as instituições de cultura, neste país, vão fechando portas.

Cinema?

Mas cinema para quê?

Não puxam logo da pistola, por enquanto, mas não conseguem distinguir um livro de uma abóbora, um filme de um elefante, por aí fora.

A long time ago, Vasco Pulido Valente foi secretário adjunto de Sá Carneiro e tinha de arranjar um secretário de estado da cultura. Não conseguiu. Sá Carneiro começou a ficar à beira de um ataque de nervos, pois tinha de apresentar  a lista do governo a Ramalho Eanes e não eram famosas as relações entre os dois.

- Então já tem o SEC?
- Não!
- Então vai você.
- Eu, porquê?
- Não posso levar a lista do governo sem um SEC e como você estava encarregue de o arranjar, e não conseguiu...
- Olhe que vai ser um fiasco.
- Se for um fiasco sempre se ganha tempo...

A FOTOGRAFIA É UM OLHAR NATURAL


Nos finais das tardes de segundas-feiras, terminado o alinhamento do Juvenil, os passos do Mário Castrim, estendiam-se para a Pastelaria Orion, ali no cimo da Calçada do Combro: um copo de leite, torrada, a que se seguia uma bica escaldada.

Ali ficávamos à conversa.

                                             Chamava-se

                                             Orion o café
                                             onde encontrava à tardinha
                                             A minha última namorada. (1)

Numa dessas tardes de segunda-feira, já com um pé na Rua Luz Soriano:

- O Augusto Cabrita está à nossa espera.

A ideia era fazer um dos Encontros do Juvenil com a exibição do Belarmino do Fernando Lopes.


Foi a única vez que privei com Augusto Cabrita.


Fiquei com a sensação estranha que há homens que não são deste mundo.

.
Uma humildade desconcertante, um rosto quase a pedir desculpa do que tem para dizer e admite que o que diz não tem importância para quem ouve.

Não se consegue desviar o olhar, face a um rosto daqueles.

Assim como o Carlos Paredes, lembram-se?

Também o Artul Bual, alguns outros, não muitos, com essa arte de, apenas, quererem mostrar as maravilhosas obras que faziam, nunca se colocando em bicos dos pés, um horror a holofotes que, de imediato, lhes provocavam aceleradas fugas.


Não foi longa a conversa.

O Mário Castrim tinha – sempre! - de ir a correr para a casa, esperava-o a televisão a preto e branco da ditadura, para que no dia seguinte, no Diário de Lisboa, pudesse sair o Canal da Crítica, sistematicamente com cortes, por vezes, totalmente cortado, pelos lápis azuis manejado pelos coronéis da censura, analfabetos, crápulas sem nome, às ordens de Salazar, depois Marcelo Caetano.

As fotografias do Augusto Cabrita reflectem o homem que sempre foi: atento, sensível, aquele perfume a neo-realismo, que tantos e tantos não gostam - nunca gostaram! -  de cheirar.

Uma verdade frontal em cada fotografia tirada ao quotidiano do povo, a dureza da vida das gentes do seu Barreiro.

Uma ternura desarmante, um olhar único e tocante.


A retrospectiva da obra de Augusto Cabrita continua patente, no Auditório que no Barreiro tem o seu nome, até ao dia 2 de Maio.

Legenda: o título é uma frase de Augusto Cabrita.
A Arriflex IIB 35mm, com tripé Arriflex IIB, que se vê na imagem, foi utilizada nas filmagens de
Bernardino.

(1) - Versos do poema Ali se Via o Mar em  Poemas do Avante de Mário Castrim, Edições Avante, Lisboa Agosto 1998.

sábado, 27 de abril de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


A TODOS OS TÍTULOS lamentável o discurso que o Presidente da República, proferiu no decorrer das comemorações oficiais do 25 de Abril.

Das suas palavras ficámos a saber que, em nome da estabilidade política, escolheu, definitivamente, ficar comprometido com a política do governo.

Tão pouco quer ver que alguns ministros não concordam com as novas medidas que o duo Passos/Gaspar querem impor aos portugueses: mais cortes nos salários dos funcionários públicos, mais cortes nas pensões, além da redução de empregados no Estado.

Arrepiante, desprezível criatura.


O Eça se por aí ainda andasse, deixava-o de rastos...

ISALTINO MORAIS comemorou o 25 de Abril na prisão.

Na quarta-feira bateu, finalmente, com os costados na prisão.

Em cela, eventualmente de luxo, irá (?) cumprir a pena pelos três crimes de fraude fiscal e um crime de branqueamento de capitais, de que , em 2009, foi acusado.

Os advogados de defesa apressaram-se a dizer que a detenção foi ilegal, por considerarem que existem questões pendentes em instâncias superiores.

Estão, neste momento, empoleirados em escadotes, a vasculhar calhamaços para interporem mais um recurso.

Dias antes, à Lusa, Isaltino, dissera: Eu sou um optimista, senão já me tinha suicidado.

Aguardam-se cenas dos próximos capítulos.

A NOMEAÇÂO DE um patarata, para ser cara do Impulso Jovem, constituiu o seu derradeiro acto ministerial.

Relvas descobriu-o no You Tube.

Um trabalho digno de toda a porcaria que, durante dois anos, andou a fazer no governo.

O tal patarata disse, esta semana, que muitos dos que estão desempregados, estão desempregados porque, ponto número um, não querem trabalhar e, ponto número dois, são maus a fazê-lo.

Simplesmente patético!

SECRETÁRIOS DE ESTADO do governo foram substituídos.

As substituições dos secretários de Estado Paulo Braga Lino e Juvenal Silva Peneda ficam a dever-se ao facto de terem autorizado a celebração de negócios altamente especulativos, enquanto dirigentes de empresas de transportes.

A última remodelação a conta-gotas de Passos Coelho envolve episódios rocambolescos que demonstram, uma vez mais, o desespero e a incompetência que grassa entre aquela gente.

No dia 8 de Abril o novo secretário Adjunto da Administração Interna, Fernando Alexandre, escreveu no seu blogue:

Tenho que admitir que este Governo não merece o povo que governa. (…) A decisão do Ministro das Finanças de congelar as despesas mostra que, de facto, ele, embora não viva cá, deve estar de partida para outro lugar. Desejo-lhe boa viagem.

Para secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros entrou o jornalista Francisco Almeida Leite que passou o seu tempo, principalmente no Diário de Notícias, a fazer fretes e a desenhar loas a Pedro Passos Coelho, ainda antes de este ser primeiro-ministro.

A ex-líder do PSD/Açores e antiga presidente da câmara de Ponta Delgada Berta Cabral foi nomeada secretária de Estado da Defesa.

Enquanto candidata do PSD à presidência do Governo dos Açores nas regionais de Outubro passado, Berta Cabral, disse cobras e lagartos da governação de Pedro Passos Coelho, chegando ao ponto de dizer que a sua ida aos Açores, durante a campanha eleitoral, não era bem vista pelos açorianos.

José Pacheco Pereira escreveu no Abrupto:

Entrar num governo, seja como governante ou assessor,  uns dias depois de insultar os seus responsáveis políticos com nomes feios, de pedir a sua demissão, de os mandar ir para outro lado, de proferir aquelas frases taxativas e sem nuances que só se podem escrever quando se está disposto a tirar daí consequências, ou seja, a perder alguma coisa por as dizer, é-me de todo incompreensível. Faz-me vergonha pelos outros, pelo débil carácter que revelam, mesmo que esse estilo seja o pão nosso da cada dia nos blogues, agora percebendo-se que não são muito para levar a sério. Basta o aceno de um lugar, de uma carreira, de uma importância, de um panache e lá vai a vergonha toda, a honra e o carácter pelo caminho.

QUOTIDIANOS


A tarde é de sol, mas o vento varre as ruas, qual ventania de Inverno.

No meio disto, vá lá saber-se porquê, lembrei-me de um poema do Álvaro de Campos.

Poderia perguntar-se o que tem a ver o cú com as calças, a bota que não casa com a perdigota?...

Que assim fique.

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).

Álvaro de Campos em Poesias, Edições Ática, Lisboa, Janeiro de 1964.

Legenda. Pintura de Jack Vettriano.

OLHAR AS CAPAS


Cinco Conversas com Álvaro Cunhal

Catarina Pires
Campo das Letras, Porto Abril de 1999

Uns vão dizer que a revolução foi só o 25 de Abril e que depois o PCP estragou tudo. Vão dizer outros que se podia perfeitamente ter evitado essa revolução, porque se teria chegado à democracia através da liberalização e democratização do regime no tempo de Marcelo Caetano. Fazia-se a transição pacificamente, não era necessária uma revolução para passar à democracia, à democracia actual, naturalmente. Dirão alguns que os fascistas dissidentes, assim chamados no tempo do marcelismo, como Sá Carneiro e alguns antifascitas que antes ou após o 25 de Abril com eles se aliaram, esses é que foram os heróis da instauração de democracia. Dirão outros que foi Mário Soares e ele próprio o diz também. Outros que foram as Forças Armadas depois de destruído o MFA. E dirão também que não foi a contra-revolução, como realmente foi, mas sim a revolução, que destruiu a economia portuguesa.

EXPOSIÇÃO SOBRE ÁLVARO CUNHAL



Hoje, na Sala do Risco do Pátio da Galé é inaugurada uma exposição evocativa da vida e obra de Álvaro Cunhal, uma das mais fascinantes figuras da História de Portugal.
A exposição estará patente até ao próximo dia 2 de Junho.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

VELHOS DISCOS


O Luís tem a colecção completa dos Top of the Pops.
Apenas tenha este exemplar, naturalmente, comprado na Grande Feira do Disco.
Custou 70 escudos.
Hoje, uma bagatela, naquele tempo, para os meus pobres bolsos, era dinheiro.

RETROSPECTIVA DE AUGUSTO CABRITA


Ainda sou do tempo em que os jornais, para além das páginas diárias dedicadas à cultura, tinham suplementos literários, normalmente publicados às quintas-feiras. Pela sua qualidade merecem destaque os de O Comércio do Porto e do Diário de Lisboa.

Hoje, com os jornais nas mãos de grandes grupos económicos, a cultura foi, por completo, banida, bicho peçonhento que não merece que se perca seja que tempo for.

Tardiamente, dei conta, por uma nota publicada por Jorge Calado no Expresso de que, desde 2 de Fevereiro, está patente no Auditório Municipal que, no Barreiro, tem o seu nome, uma exposição retrospectiva da obra de Augusto Cabrita.

A exposição está aberta até ao próximo dia 2 de Maio.

De, e sobre, Augusto Cabrita, por aqui, iremos falando.

Legenda: Capa do catálogo da Exposição de Augusto Cabrita
               A fotografia tem o título Neve no Barreiro, 1953

NO PAÍS DOS SACANAS


Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão, Moraes Editores, Lisboa Setembro de 1982

quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 DE ABRIL SEMPRE!








Foram muitos milhares a celebrar Abril, a gritar contra a política do governo.
Ficámos a saber que basta mais um gesto e eles vão de padiola.
Mas eu sei que faltaram muitos.
Nem todos os que pelos dias, nos corredores do supermercado, na mercearia do bairro, no café da esquina, dizem mal da vida e chamam nomes aos do governo, estiveram lá.
Estão à espera de quê?

UM PASSEAR PELOS TEMPOS

  
No dia 25 de Abril de 1974, olhando as páginas de espectáculos dos diários portugueses, pode constatar-se que era vasto o leque de ofertas, tanto nos cinemas como nos teatros, mas a qualidade era algo limitada.
Na madrugada de 25 de Abril, quando o Movimento das Forças Armadas sai para as ruas, já os jornais da manhã estavam nas rotativas. Apenas o Diário de Notícias e O Século conseguiram imprimir segundas tiragens onde, sem grande desenvolvimento, já davam conta do que se passava no País.

No que ao cinema diz respeito, o Politeama, exibia em 3ª semana, Eusébio, Pantera Negra, uma ignóbil exploração do nome do Eusébio. A javardice era realizada pelo espanhol Juan Orduña:

O rapaz da bola de trapo ao senhor da bola de ouro, 
Eusébio, a Pantera Negra relata-nos a vida do ídolo do futebol português, desde os primeiros pontapés na bola, passando pelos grandes momentos da sua vida pessoal, até à sua consagração como jogador de futebol.

Simplesmente lamentável.


Em contrapartida o Londres iria, nessa noite, estrear Hiroxima, Meu Amor de Alain Resnais, argumento de Marguerite Duras e interpretação da excelente Emmanuele Riva.
Robert Redford estava em dois filmes: O nosso Amor de Ontem, uma fita dolicodoce, realizada por Sydney Pollack, em que Barbra Streisand lhe fazia companhai e em A Golpada de George Roy Hill, ao lado Paul Newman

Curiosamente, no Cinema S. José em Cascais, poderia ver-se A Influência dos Raios Gama no Desenvolvimento das Margaridas, realizado por Paul Newman, com uma soberba interpretação de Jeanne Woodward, sua mulher.

No Satélite, sala estúdio do Monumental, exibia-se, para maiores de 18 anos, Cerimónia Solene de Nagisa Oshima,, no Europa um filme de Jean Chapot, Almas a Nú com Simone Signoret e Alain Delon, no Monumental Clint Estwood interpretava Harry Detective em Acção, no inema Castil, também para maiores de 18 anos, brilhava Jacqueline Bisset em Segredos Proibidos e que, ao lado de Jean-Paul Belmondo, também podia ser vista, no Condes, na fita de Philippe de Broer, O Magnífico.

O Estúdio do Cinema Império exibia, Ritual, a obra-prima de Ingmar Bergman, o Apolo 70 American Graffitti, um dos 10 melhores filmes do ano, realizado por George Lucas com Richard Dreyfus e no Berna podia ver-se Jesus Cristo Super Star.

O Vox estava fechado temporariamente para beneficiações.


 Passando ao Teatro, para além das habituais revistas no Parque Mayer, poderia ver-se, no Teatro Laura Alves a peça de Edward Albe, Zoo Story, com José de Castro e Canto e Castro, numa encenação de Costa Ferreira.


Luzia Martins estava no Teatro Vasco Santana a dirigir  Mar de Edward Bond, no Teatro Maria Matos, em últimas representações, estava A Morte de Um Caixeiro Viajante de Arthur Miller, enquanto que no Teatro Capitólio, em 31ª semana, um espectáculo de Vasco Morgado, A Menina Alice e o Inspector, com a inevitável Laura Alves e também Nicolau Breyner e Simone de Oliveira.


Para quem não quisesse sair de casa, a RTP 1 transmitia, em directo, o jogo de andebol entre o Benfica e o Vitória de Setúbal e, após o Tele-Jornal, Artur Agostinho apresentava No Tempo em Você Nasceu, programa que tinha como convidado Paulo de Carvalho acompanhado pelo Conjunto Musical Clave de Pedro Osório.

Coincidência das coincidências, a canção de Paulo de Carvalho, E Depois do Adeus tinha sido escolhida para primeira senha do 25 de Abril.

Tudo isto estava nos jornais, mas nada disto aconteceu.

Como soe dizer-se, os programas podem ser alterados por motivos imprevistos, e as portas dos teatros, dos cinemas não abriram nesse dia e a televisão tinha outras histórias para contar.

Acontecera o Dia das Surpresas.

OLHAR AS CAPAS


Último Acto em Lisboa

Robert Wilson
Tradução Maria Douglas
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa Março 2009

Quatro homens estavam sentados num carro à entrada do Parque Eduardo VII, no centro de Lisboa: um major, dois capitães e um tenente. O capitão do banco da frente tinha no colo um rádio para o qual todos olhavam, mal ouvindo o que dizia. O major inclinou-se para olhar o relógio à luz do candeeiro da rua. O tenente bocejou de nervoso.
- E agora – disse no rádio a voz tranquila de José Vasconcelos – Zeca Afonso canta Grândola, Vila Morena…
Os quatro homens retiveram a respiração por um instante, até Zeca Afonso começar a cantar. O capitão virou-se no banco
- Começou, meu major – disse, e o major concordou com a cabeça.
O carro desceu dois quarteirões e parou diante dum prédio de quatro andares. Os oficiais saíram e cada um tirou do bolso uma pistola. Entraram no prédio, que tinha uma pequena placa à porta: Rádio Clube Português.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

ABRIL DE NOVO!


Sua Excelência o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, Sua Excelência o Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, decidiram não abrir ao público, amanhã dia 25 de Abril, os jardins do Palácio de Belém e de São Bento.
.
Chama-se a isto ter medo.

Medo do povo.

Mas o povo não quer saber dos jardins de Suas Excelências para nada e amanhã encherá as ruas das cidades para protestar contra a política seguida por este governo e acolitada pelo inquilino de Belém..

Porque é nas ruas que se joga a nossa sorte, se manifesta a revolta de um povo, um povo que alimentou um sonho, um povo que, talvez, não tenha sabido defender o marco mais luminoso que lhe surgiu na vida, a madrugada pela qual tantos esperaram em que emergimos da noite e do silêncio.

A culpa é de todos, a culpa não de ninguém, cantava o José Mário Branco há uns bons anos atrás.


Amanhã a rua continua a ser nossa, suas excelências, cagados de medo, fecham-se nos seus. jardins.

E chegar-lhes-á aos ouvidos as palavras do Mário Viegas:

"Abril tão triste no País de Abril”
Dizia a canção do poeta antes de Abril de 1974.
“A poesia está na rua”
Dizia o poeta logo após Abril de 1974
“Mudam-se os tempos mudam-se as vontades”
Dizia o poeta há séculos atrás
A única maneira de cumprir Abril é ouvir as palavras dos poetas.
É lutar por um Abril mais feliz no País de Abril,
É continuar a levar a poesia todos os dias à rua
É continuar a lutar unidos para que mudem os tempos
E as vontades, num País de todos os meses.
Cumprir Abril é fazê-lo outra vez!



POSTAIS SEM SELO


Cada vez que as redes dos estádios de futebol abanavam com os golos do Eusébio, os melhores de todos nós estavam no seu posto. E dos que estavam no estádio a verem o gritar de golo, muitos sabiam que isso não os fazia esquecer as perseguições e as torturas da PIDE, uma guerra inútil em África, napalm a ser despejado, pelos aviões americanos, nos campos do Vietnam.
Futebol: os comícios dos domingos do nosso desencanto.

Autor desconhecido.

terça-feira, 23 de abril de 2013

BASTA ERGUER AS MÃOS...



Dantes, encontrar um rapaz do meu tempo, era, para mim, uma festa, uma fogueira de abraços e recordações quentes: «Então pá? Que é feito? Venham de lá esses ossos. Estás com um aspecto magnífico! Cada vez mais novo, etc.»

Hoje, confesso, quando os avisto, tremo. Porque não é raro encontrar-se a abraçar cascas de pessoas que conheci no passado. Umas vezes, vazias, sorvidas não sei porque bocas de monstros sugadores. Outras, cheias de substâncias alheias, inimigas, venenosas, irreconhecíveis, quase.

- Mas tu és o Qualquer Coisa, não és? Andámos juntos na Faculdade, não te recordas?

Parecia não querer lembrar-se.

Então, perante a cara agreste do velho camarada, descubro que já não é o mesmo. A vida, o casamento, os filhos, o divórcio, o emprego, o êxito, o inêxito, o desemprego, isto, aquilo ou coisa nenhuma, modificaram-no totalmente.

Olhamo-nos, desconhecidos. Mas sem coragem de nos despedirmos imediatamente como que vexados daquela amizade morta, ainda com tanto peso no caixão. E, sobretudo, pelo meu lado, farto de dizer «pá».

Lembras-te, pá?

Nem ele se lembra nem eu.

Por fim, lá nos conseguimos afastar arrastadamente com o coração ferido e a boca a saber ao amargor das cinzas inúteis onde talvez nunca ardesse qualquer labareda verdadeira.

Noutras ocasiões é uma ex-namorada da juventude, agora tão abundantemente da cintura para cima, que passa do alto da sua estátua de desdém, como quem diz: que bom eu fingir que não o conheço! Nem pode haver possibilidade de termos futuros juntos.

Mas será, na verdade, ela? A deusa que pisava sempre o chão como quem não quisesse magoar o luar?

Será ela?

É.

Escondo-me em mim mesmo a contemplar uma montra e, adeus, até nunca mais, monstro!

Como podem calcular esta situação lastimável piorou depois do 25 de Abril. Nem fazem ideia das surpresas que tenho sofrido nos últimos meses. Camaradas que dantes se apresentavam como democratas de suco ardente e inalterável surgem de súbito diante de mim a bramar contra os difíceis ensaios do novo regime: «Então a Democracia é isto, não? «Este pesadelo que nem permite que as nossas mulheres vão à Baixa fazer compras, às seis da tarde, sem o perigo de serem despidas e violadas?» «Diz-me lá: e como conseguiram arranjar tantos bandidos à solta? Importaram-nos para tornar a vida negra aos burgueses, não? (No fascismo, como vocês lhe chamam, ao menos havia paz. Pelo menos é o que se lia nos jornais!) Sim, senhor. Podes limpar as mãos à parede!»

Claro que volto logo as costas às invenções imbecis do mentiroso, mas a surpresa ainda é às vezes mais sufocante, quando encontro antigos reaças confessos que, mal me bispam ao longe, correm aos berros sôfregos com os braços em jeito de abraçarem um fantasma substituto, não vá eu escapar-lhes por algum alçapão enigmático.

- Finalmente somos livres, hem! Realizaram-se os nossos sonhos comuns, pá! Oxalá esses infames fachos que nos tiranizaram durante meio século, desapareçam sem deixar pegadas! Até já se respira melhor, não achas? Não sentes o perfume de jardins invisíveis no ar?» Etc.,etc.

Em resumo: as pequeninas mágoas e desgostos pessoais a que os pobres homens como nós andam sujeitos em todas as revoluções e que os historiadores dos grandes acontecimentos ignoram nos seus cartapácios.

Que remédio, pois, senão sofrê-las com coragem, essas e outras exíguas misérias humanas (humilhações, desprezos, injustiças, desânimos, traições, covardias…) No fim de contas talvez seja a única lenha, e mesmo assim podre, que poderemos dar para que na nossas Revolução arda melhor a autêntica Fraternidade que nos une, de dentes cerrados, a nós, os portugueses, que não queremos desistir do futuro, agora que basta erguer as mãos, basta erguer as mãos, para lhe tocar. E talvez colher frutos novos nas árvores.

José Gomes Ferreira em Revolução Necessária, Diabril, Junho 1975.

Legenda: cartaz de João Abel Manta, retirado do álbum 25DEABRIL30ANOS100CARTAZES, Editorial Diário de Notícias, Abril 2004

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


No dia 23 de Abril de 1975 é tornado público o Relatório Preliminar Sobre o Golpe Contra-Revolucionário de 11 de Março de 1975.
Está lá tudo: a acção e os responsáveis.
Que aconteceu a esses responsáveis?
Não aconteceu nada
Pura e simples impunidade.
Em 25 de Novembro de 1975, outro galo cantará.
E mal!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

ERA MIL VEZES PIOR, SÓ QUE...


Sempre, 25 de Abril sempre. Assim dizíamos, assim porventura se continuará a dizer. Hoje, 24 anos passados, mudemos de registo e gritemos: 25 de Abril nunca, nunca mais! Nunca mais acreditaremos na justiça social, nunca mais acreditaremos que as pessoas podem tornar-se diferentes, nunca mais acreditaremos na liberdade para todos. Porque a injustiça social grassa, as pessoas não se modificaram, a conquista das liberdades reias, não das formais, revelou-se inalcançável. É claro que os políticos eleitos que nos têm governado nunca reconhecerão como foram supérfluos, nunca admitirão que se converteram ao «monoteísmo de mercado», nunca confessarão que todos os dias recuamos ainda um pouco mais no caminho da igualdade e da fraternidade. Alimentam-se e alimentam-nos co discursos para ganhar eleições. E nada do que sonhámos será real. Era melhor antes do 25 de Abril? Não, era mil vezes pior. Só que ainda não era proibido sonhar.

António Rego Chaves, Diário de Notícias, 25 de Abril de 1998.

Legenda: cartaz de Marcelino Vespeira, retirado do álbum 25DEABRIL30ANOS100CARTAZES, Editorial Diário de Notícias, Abril 2004.

PARA ALÉM DA SOMBRA DAS PENALIDADES


Segundo o Público, o IPAM – The Marketing School fez as contas e concluiu que o derby de ontem, entre o Benfica e o Sporting, gerou cerca de 14,5 milhões de euros, entre receitas directas e indirectas.

O estudo soma as verbas gastas com restauração, viagens, bilheteira, publicidade, segurança, merchandising e direitos televisivos.

A maior fatia deste valor advém dos consumos realizados fora do Estádio do Sport Lisboa e Benfica durante os 90 minutos de jogo. Entre cervejas e snacks, a ver o jogo em casa ou num espaço público, estima-se que os cerca de quatro milhões de telespectadores gastaram 6,9 milhões de euros.

Em receitas directas, o estudo aponta para 2,3 milhões de euros, 15 por cento do valor global. Nesta categoria, são contabilizados os proveitos relacionados com a organização da partida, sendo as receitas de bilheteira (65 mil espectadores, equivalente a um milhão de euros), os direitos televisivos (800 mil euros) e os gastos com a restauração no interior do Estádio do Sport Lisboa e Benfica (300 mil euros), pela referida ordem, os factores que mais contribuíram para o valor apontado.

Um quarto do impacto económico total (3,9 milhões de euros) resulta do consumo na restauração. Para este valor, muito contribuí o facto de o desafio não ter sido transmitido em canal aberto, levando muitos adeptos até cafés e restaurantes.

Junte-se a tudo isto, um parágrafo de um escrito de Mário Castrim, datado de Julho de 1972:

Digo também eu que o futebol é uma arma poderosa nas mãos dos políticos os quais se servem dele (como de outras coisas) para distrair a atenção popular, para a dividir e até para lhe baixar o nível de exigência.

E uma frase de Constança Cunha e Sá, datada de Setembro de 2006:

Não, o futebol não é um mundo à parte. Pelo contrário, é o espelho que melhor reflecte a nossa mediocridade.

MARCADORES DE LIVROS


Este marcador é uma cortesia do Luís.
Obrigado e beijinhos.

UMA CASA JUNTO AO MAR


A minha verdadeira ambição era ter uma casa junto ao mar, com livros, discos, gatos e cães, e alguns rostos amigos e amados, e a visita regular da Alexandra e do Vasco, ir dois dias por semana a Lisboa, ver cinema, espectáculos, comprar jornais e revistas, ler e escrever horas a fio, ver a chuva pela janela, ir todos os anos visitar Veneza, passar por Paris, voltar a ler e a escrever, adormecer tranquilo.

Eduardo Prado Coelho numa entrevista ao JL s/d

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

Não percebi nada do livro, mas gostei tanto. Também não percebo nada de ti e gosto tanto.

Legenda: Frank Sinatra e Shirley MacLaine em Some Came Running (Deus Sabe Quanto Amei), 1958 de Vincente Minnelli.

domingo, 21 de abril de 2013

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Ela chegou ia eu no terceiro conhaque. Era uma mulher jovem, de corpo esplêndido e um rosto de anjo moreno. Mau grado as minhas mágoas, era impossível não reparar na perfeição das pernas, envoltas em meias de nylon, o que era ainda relativa novidade em Portugal. 
Os sábios da América inventaram muitas coisas mas os criadores das meias de nylon, ou de vidro, são merecedores da maior gratidão. Com elas, as mulheres redobraram encantos, sobretudo para quem observa o invento em toda a extensão, dos pés ao cinto-ligas que mantém as meias esticadas como segunda pele das pernas. Pena que tantas senhoras as tenham substituído pelos nefandos e embaraçosos collants. 

Mário Zambujal em Já Não se Escrevem Cartas de Amor. 

Legenda: Sophia Loren numa cena do filme Ontem, Hoje e Amanhã de Vittorio de Sica, 1963

SARAMAGUEANDO


Ter um Presidente da República como Cavaco Silva torna-se, para não encontrar uma palavra mais drástica, doloroso.

É um homem cuja principal preocupação é proteger-se, ficar bem na fotografia e foge de tudo, até de si próprio
.
Não gosta de livros e há quem duvide que saiba de números.

Um dia disse aos jornalistas que nunca leria O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago e adiantou:

De facto eu, eu uma vez comecei a ler um livro dele e não cheguei ao fim porque comecei a achar um pouco maçador. E era aquele que me diziam ser um dos melhores do Saramago. Não sei se é por falta dos pontos finais, das vírgulas dos pontos e vírgulas, o certo é que não sou um entusiasta dos livros de Zé Saramago.

Cavaco Silva não foi ao funeral de José Saramago porque, na altura, andava a mostrar os Açores aos netos.

Agora, durante a sua visita à Colômbia, marcou presença na inauguração da Feira do Livro de Bogotá, de que Portugal é convidado de honra.

Durante o discurso de inauguração do pavilhão português, vários nomes de grandes escritores portugueses foram lembrados, mas, Cavacp Silva, voltou a não referir o nome de José Saramago, tão só o único Nobel português da Literatura.

Valham-nos os deuses todos do Olimpo!