quarta-feira, 31 de julho de 2013

UM PASSEAR PELOS TEMPOS

Coluna de opinião de Álvaro Guerra no República de 31 de Julho de 1972.

terça-feira, 30 de julho de 2013

DO BAÚ DOS POSTAIS


O ÚLTIMO NÚMERO DE "A CAPITAL"


Primeira página do último número de A Capital, 30 de Julho de 2005, um sábado, tendo como director interino Paulo Narigão Reis.

Em 21 de Fevereiro de 1968 os ardinas passavam a ter mais um título de vespertino para apregoar. E com alguns, saía assim: Lisboa, Capital, República, Popular.

O jornal nasce de uma cisão no Dário de Lisboa. Norberto Lopes, director, Mário Neves, sub-director, juntamente com outros jornalistas, saem do Lisboa e formam a Sociedade Gráfica de A Capital.

Não alinhava com o regime mas não representou uma situação de oposição aberta.

Maria Teresa Horta coordenava o suplemento literário, Isabel da Nóbrega coordenava uma página feminina com ares novos, António Torrado dirigia o suplemento infantil, José Saramago coordenava o suplemento A Semana e esvrevia crónicas que, mais tarde, vieram a constituir o livro Deste Mundo e do Outro.

Na sucessão de directores que o jornal teve ao longo tempo, aparecem os nomes de David Mourão-Ferreira e Francisco Sousa Tavares.

Alguns dos jornalistas de A Capital, de antes do 25 de Abril: Rudolfo Iriarte, Manuel Beça Múrias, Daniel Ricardo, Adelino Tavares da Silva, Manuel Batoréo, José João Louro, Pedro Alvim, Alice Nicolau e o meu amigo Hélder Pinho.

O perfeito louco, o inventor de histórias e reportagens.

José João Louro, seu camarada de redacção:


Hélder Pinho, para mim, o verdadeiro repórter. O mais autêntico até ao «naifismo». O inventor do Leão de Rio Maior. Dezasseis primeiras páginas – o surrealismo na imprensa portuguesa. Foi leão, canguru, até acabar como cão-d’água. Um leão que assustou e entreteve o País. O fascismo decadente e podre pôs-se à caça do leão pelas serras, aventureiro em busca de uma ilusão.

BPN: UM RESUMO.


No início da década passada, a administração do BPN entrou em gestão fraudulenta.

Os reguladores, o Banco de Portugal a CMVM não detectaram, o que se passava na instituição.

Como isso pôde acontecer, é um mistério que ainda ninguém explicou.

Houve que injectar fundos públicos para salvar o banco e daí resultou a nacionalização do BPN.

A gestão e negociatas do BPN, envolvem vários dirigentes do PSD, ex-governantes cavaquistas, a maior parte com papéis determinantes da vida da instituição.

 Estes são alguns dos personagens:

José Oliveira Costa, Dias Loureiro, Rui Machete, Daniel Sanches, Duarte Lima, Ângelo Correia, Arlindo Carvalho, Joaquim Coimbra.

Antes de chegar a Belém, Aníbal Cavaco Silva e a filha, sabiamente aconselhados por José Oliveira Costa, venderam acções do banco que lhes proporcionaram um encaixe de 350 mil euros.

O grupo luso-angolano, que pagou 40 milhões de euros pelo BPN, já enviou para o Tesouro facturas no valor de 100 milhões de euros ao abrigo do contrato de execução, assinado por Maria Luís Albuquerque, actual ministra das finanças.

O Estado já deve ao BIC mais do dobro do que esta instituição financeira pagou pela compra do BPN.

O caso BPN é uma procissão que ainda não saiu do adro.

Já em Maio de 1986, Miguel Torga escrevia no seu Diário, que a corrupção é o cancro que rói o corpo e ameaça contaminar a alma de Portugal.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Pelos idos de 67, o Em Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito, enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no programa.

O prémio consistia numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a realização do programa feito por nós e dito por mim.

Por esses tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.

Esgalhei um arrazoado sobre essas músicas.

 Os rapazes gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.

Lamentavelmente, perdi esse texto, batido à máquina, na minha velha Erika, que ainda está por aqui, como peça de museu.

Foi um belo pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.

Como convidado, alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas, hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson Airplane.

Disseram-me que aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.

Com o João Manuel Alexandre nasceram laços de estima e consideração.

Numa das conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.

Falei-lhe, então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar  uma sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.

Acertámos em ir falar com o Adriano.

Assistimos ao concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa,uns queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa serena com o Adriano.

Só que o Adriano era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António Borga a dizer à malta que o Fernando Lopes Graça estava num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano esqueceu a conversa.

Nada havia a fazer.

Eu, o João e a mulher regressámos a Lisboa no seu Carocha.

Não houve mais oportunidade de voltar ao assunto.
.
Poucas semanas depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.

Para ser preciso no dia 10 de Julho de 1967.

O Em Órbita não chegava à caserna do CISMI.

No dia 29 de Julho de 1967 o Em Órbita passava A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111.

Cândido Mota dixit:

É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.

Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.

Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português tocado e cantado por portugueses.

Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo, focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais.

O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados.

Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.

É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.

Nunca soube de como se chegou ao Quarteto 1111.

Uma coisa é certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.

Legenda: a capa do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.

domingo, 28 de julho de 2013

POLÍTICOS DE SEGUNDA DIVISÃO


DA MINHA GALERIA


Encontrei-o no Boteco mas não pode ir para a secção dos Cromos do Boteco.
É o chamado 2 em 1. Duas coisas de que gosto: o Elvis e, como costume chamar, música de cowboys.

O AVILTAMENTO DE BRAÇOS CRUZADOS


Miguel Torga escreveu estas palavras no seu Diário, Volume  XIV, em 11 de Março de 1985.

O que magoa, e deixa um enorme rasgo de preocupação, é que poderiam ter sido escritas hoje:

Continua o entremez político. A mediocridade e o desplante instalaram-se a todos os níveis na governação, e Deus nos acuda. Mas não é a degradação da classe dirigente que mais me aflige. Nunca alimentei ilusões a esse respeito. O que verdadeiramente me mortifica é o desinteresse, a indiferença com que o país assiste ao espectáculo. Não se vislumbra o mínimo sinal de indignação. É um alheamento trágico, que presencia o aviltamento de braços cruzados, impassível, sem um resmungo, sem uma impaciência. Há horas colectivas más. Esta, para nós, é uma delas. Enquanto durou a ditadura confiávamos no futuro. Embora subjugados, éramos subversivos em pensamento. Tínhamos a esperança na vontade e a liberdade na imaginação. Agora, que fizemos a mais arbitrária revolução da nossa história, ficámos frustrados e desmotivados. Parecemos mortos a representar a vida no palco da nação.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

sábado, 27 de julho de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


PROVAVELMENTE, nesta altura do campeonato, não interesse muito saber se a Maria Luís mentiu, ou não, nos depoimentos que fez na Assembleia da República sobre o caso das swaps que, muito honestamente não sei o que são, e estou acompanhado pela esmagadora maioria dos portugueses.

O que há a destacar é que a senhora não tem condições para ocupar lugar no governo. Não é bem ser incompetente, é outra coisa: ânsia de poder a todo o custo, uma inqualificável falta de ética e de escrúpulos, desonestidade pura e dura.

Nos tempos que correm quem vá para a pasta de finanças de um governo, seja como ministro, seja como secretário de estado, tem a obrigação de saber que as swaps são  uma bomba atómica.

Não havia que esperar por, por parte da anterior governação, que chegassem os dossiers, a informação detalhada
.
Era, de imediato, começar a tratar do assunto, pegar o boi pelos cornos
.
Acresce que Maria Luís não tem ponta de desculpa porque, enquanto membro da direcção da REFER, lidou com swaps e sabe muitíssimo bem o perigo de que o assunto se reveste.

O que estamos a pagar, continuaremos a pagar, por incompetências e irresponsabili- dades deste tipo, é um caso de polícia.

Caso houvesse justiça neste país.

O APARECIMENTO DE RUI MACHETE  no governo, como ministro dos negócios estrangeiros, é um mistério.

De há algum tempo se sabia quem era a pessoa escolhida para essa pasta mas, de repente, eis que tudo muda e surge o homem.

Diz que recebeu um telefonema e só necessitou de três horas para se decidir.

Quem lhe telefonou, ou mandou telefonar?

Não é difícil adivinhar.
O inquilino de Belém entendeu que era altura de colocar no governo alguém de confiança para que aquele bando de garotos não continuasse com as brincadeiras sem rei nem roque.

Havia que recorrer ao polvo.

Um está preso, outros andam por aí, não se sabe bem onde, mas com a certeza que andam a tratar da vidinha.

A escolha recaiu em Machete que, tal como Vitor Constãncio, nunca vislumbrou que algo de anormal acontecia no BPN.

 No momento em que as fraudes do BPN e da SLN pesam tanto nas contas públicas e no bolso de cada contribuinte, julgo tratar-se de uma escolha de muito mau gosto, afirmou o deputado João Semedo do Bloco de Esquerda.

Mas Machete diz-se de consciência tranquila… há muitos anos…

Também de bolsos cheios… há muitos anos… diz que e foi o imperativo de servir o país que o levou a sair do remanso em que vive, das negociatas em que se movimenta.

Os portugueses olham para tudo isto com uma indiferença, um deixa andar, que causa medo.

JOSÉ PACHECO PEREIRA no Abrupto:

Os principais controleiros do aparelho, os que distribuem empregos, benesses, subsídios, pelos “seus”, estão no governo, junto com alguns outros de uma incompetência e ignorância abissal. E quando digo abissal é mesmo abissal. Seria bom começar a dar umas aulas a explicar que Tonga não é na África do Sul, que a Turquia não é um país asiático e que Putin não é o presidente de Bielorrússia.

OLHARES



Mensagem numa parede das Escadinhas da Porta do Carro.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Neste dia, no ano de 1970, às 09:15 horas, e ao fim de setecentos e vinte e cinco dias após uma queda na esplanada do Forte de Santo António, morria o ditador António de Oliveira Salazar.

Da queda da cadeira, até ao dia morte, no Hospital da Cruz Vermelha, depois na residência de São Bento, foi representada uma comédia, uma comédia tão insólita como sinistra.

Rómulo de Carvalho, mais conhecido por António Gedeão, nas suas Memórias, relata  aos filhos dos netos dos meus netos, o episódio da queda da cadeira e o que se seguiu:

A queda de Salazar foi-lhe fatal. Morreu dois anos depois, sem recuperar do traumatismo que sofrera com a queda. Contudo, durante todo esse tempo, retido em casa ou no hospital, sempre os seus vassalos o acompanharam respeitosamente, fingindo que nada tinha acontecido, segundo constou, conversando sobre os problemas da governação, dando-lhe papéis a assinar, sem que o pobre soubesse o que fazia.

Entretanto, logo após a queda, e reconhecida a sua incapacidade para exercer o ofício de governante, foi substituído em todos os cargos sem sequer ter dado por isso.

Este é um dos elementos talvez mais simbólicos do apodrecimento do regime autoritário. Salazar estava mentalmente muito limitado, mas os ministros fingiam realizar Conselhos de ministros na sua presença. O ditador julgava que ainda decidia. À queda da cadeira seguia-se o declínio de uma mente que se esvaziava, em farsa e simulacro.

Em Julho de 1970, terminou a lenta agonia. O antigo chefe de Governo, que os jornais insistiam em chamar "Presidente Salazar", como se ainda governasse, sofreu um súbito agravamento do estado de saúde, por infecção. Pneumonia ou infecção renal, insuficiências cardiovasculares profundas, a situação agravou-se de dia para dia, até ao colapso definitivo, no dia 27 de Julho de 1970, de manhã, quase dois anos depois da mítica queda da cadeira. O regime não iria sobreviver muito tempo a Salazar. Caiu a 25 de Abril de 1974 e o estrondo ouviu-se em todo o País.

Durante os dias de agonia, os fiéis seguidores, Américo Tomás perfilando-se na 1ª fila, afirmavam que Salazar discutia política, e, como julgava ser ainda primeiro-ministro, dava conselhos para a governação do país, concedia entrevistas. Uma dessa entrevistas, foi dada ao jornalista do L’Aurore, Roland Faure, e publicada em 6 de Setembro de 1969, que mais não é que um deprimente chorrilho de disparates.

Nas eleições de Outubro de 1969, Salazar aparece a votar na secção da Lapa.
Salazar deposita o seu voto na urna que para o efeito fora transportada até ao carro em que se encontravam a governanta Maria de Jesus e uma assistente.

Soprou o bolo de velas do 80º aniversário e na residência assistiu à missa, celebrada pelo Cardeal Cerejeira.

Por ocasião do 81º aniversário, recebeu a visita de diversas e variadas gentes que lhe levaram flores e sorrisos.

Não terá dado por nada, mas havia que manter o embuste.

Em vida vegetativa, Salazar protagonizou uma das encenações mais espantosas da nossa história. Durante meses repetiu o papel de presidente do Conselho, fez «reuniões de governo», deu entrevistas, concedeu audiências. Os seus mais antigos colaboradores continuaram a fazer de colaboradores, a ir a despacho, a mostrar-lhe projectos, a pedir-lhe conselhos. (1)

Marcelo Caetano decretou três dias de luto nacional e o corpo, em câmara-ardente no Mosteiro dos Jerónimos, foi depois conduzido para Santa Comba Dão, sendo sepultado numa campa rasa no cemitério do Vimieiro.

Até ao fim dos séculos as gentes se hão-de espantar de como foi possível que a ditadura de um homem só, amargo, desumano, crispado, tivesse lançado o país numa guerra, sem futuro e sem glória, enquanto pelo país, um povo, analfabeto, inculto, vivendo, na sua esmagadora maioria, miseravelmente, sobrevivia de olhares amorfos, complacentes.

Os que se revoltavam, quase poderiam contar-se pelos dedos.

O historiador Fernando Rosas, salientou que nenhum regime se aguenta quarenta e oito anos só com repressão. A mais longa ditadura da Europa, contou sempre com o fundamental apoio da Igreja Católica. Sem os sermões das igrejas, das capelas, das capelinhas, dirigidos um povo analfabeto e inculto, crente de Nossa Senhora de Fátima, o Estado Novo não poderia ter durado perto de cinquenta anos. Junte-se-lhe, a censura, a PIDE, as Forças Armadas e ficamos a saber dos pilares do regime.

Tal como dizia a Lucinda, criada da Nenita:

- Oxalá não morra… É graças a ele que os portugueses não se matam uns aos outros. (1)

O mito de um povo de brandos costumes, um povo perfilado de medo.

1)      – Fernando Dacosta em Máscaras de Salazar, Círculo de Leitores,  Lisboa, Fevereiro de 1998.
2)      – José Gomes Ferreira em Dias Comuns Vol. V, Publicações Dom Quixote,  Lisboa, Novembro de 2010.


Nota do editor: A partir do dia 3 de Agosto, abro um registo de alguns dos dias de Salazar, desde a queda na cadeira, até à sua morte.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

JÁ LÁ DIZIA O BOTAS...


Passos Coelho, em dois anos de (des)governação aumentou os impostos, cortou ordenados, reformas, subsídios, colocou o desemprego em números nunca vistos.

Vivemos uma trágica e brutal austeridade de que ninguém consegue saber como vamos sair.

No cumulo do desplante, da provocação ordinária, da desfaçatez, do que sabe-se lá o quê mais, afirmou em Terras de Rei, no meio das passeatas de propaganda a que, diariamente, dedica o tempo:

A crise tem sido mais forte porque as pessoas gastaram menos do que previmos.

Não governa porque é incompetente mas mesmo assim se perguntaria, com tanto passeio, onde é que arranja tempo para ler os dossiers da governação?

Do ditador Salazar, contou Marcelo Mathias:

Eu não chego a compreender certos ministros portugueses ou estrangeiros que vão a toda a parte, que presidem a banquetes, cerimónias e sessões solenes, que aparecem em todas as festas e recepções. Onde vão encontrar tempo depois de tudo isso, para fazer uma obra, a sua obra?

Legenda: a imagem é do Delito de Opinião.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Se não sabem, ficam a saber que o Diário de Notícias, na sua colecção Divas, disponibiliza, hoje, um CD de Marilyn Monroe, integrado numa colecção por onde já passaram Maria Callas, Ella Fitgerald, Amália, Edith Piaf, Aretha Franklin, Billie Holiday, Judy Garland e, ainda passarão, Marlene Dietrich e Carmen Miranda,

A selecção musical e notas, são da responsabilidade de Rui Vieira Nery, enquanto Patricia Reis assina um texto ficcional sobre Marilyn, que termina assim:

A saúde de Marilyn está cada vez pior. Sofre de fobias. Chega sistematicamente atrasada às filmagens. Começa a fazer terapia com um psiquiatra e aceita ser internada na mesma instituição onde a mãe esteve. O facto de não ter conseguido ter filhos, apesar de ter engravidado duas vezes não ajudou. Queria muito ser mãe. E isso eu compreendo muito bem. Foi uma bênção ter conseguido adoptar os meus filhos. Marilyn foi operada para corrigir uma obstrução nas trompas de falópio. A seguir teve uma crise de vesícula e voltou a ser operada. Nos anos sessenta estava já um fio e era tão nova. Se pensarmos, morreu com 62 anos. Parece que a última pessoa a falar com ela ao telefone terá sido o presidente Kennedy, mas quem o pode garantir? Elton está convencido de que a mandaram matar. Era inconveniente, como misturava bebida com comprimidos, não tinha filtro. Era uma diva e uma menina perdida ao mesmo tempo. Como tantas outras divas. Parece que DiMaggio colocou rosas na sepultura da ex-mulher até morrer. Eme morreu em 1999. A isso eu chamo amor. Elton diz que posso estar enganado. Mas que sei eu? Casei com Elton John, a minha vida é uma montanha russa. E admito, existem dias em que Elton é Marilyn. Não me perguntem mais.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

NOVO GOVERNO? NOVO CICLO?


Se houver um deus, que não lhes conceda qualquer tipo de perdão.

Porque eles sabem o que fazem!

QUOTIDIANOS


Churchill costumava dizer que a falta de pontualidade era um hábito ignóbil.

Marca-se um encontro para as três da tarde e a pessoa chega passados vinte/ trinta minutos e, na maior parte dos casos, nenhuma palavra sobre o atraso.

Chegar atrasado é uma minudência e, pasmem!, uma perfeita normalidade.

Há quem afirme que é um toque de diferença… ou de classe… não sei bem…

O meu pai dizia:

- O encontro é às três? Apareço dez minutos antes!

Mário Castrim com o seu toque de hábil filósofo:

Só quem chegou à estação do comboio um segundo atrasado, sabe como compensa chegar demasiado cedo.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

RAPARIGA DA REGIÃO NORTE


Bem, se viajares pela feira da região norte
Onde os ventos fustigam a fronteira
Manda lembranças àquela que lá mora
Ela foi um dia um grande amor meu

Bem, se fores quando os flocos de neve fustigam
Quando os rios gelam e o Verão termina
Por favor vê se ela usa um casaco bem quente
Que a proteja dos ventos uivantes

Por favor vê por mim se o cabelo dela cai longo
Se ondula e lhe desliza pelo peito
Por favor vê por mim se o cabelo dela cai longo
É assim que melhor a recordo

Pergunto-me se ela se ela se lembra de mim sequer
Muitas e muitas vezes rezei
Nas trevas da minha noite
Na claridade do meu dia

Portanto se viajares pela feira da região norte
Onde os ventos batem forte na fronteira
Manda lembranças àquela que lá mora
Ela foi um dia um grande amor meu.

Bob Dylan

Canção do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan (1963)

Nota dos tradutores:
Girl of the North Country é uma canção dedicada a Echo Helstrom, a segunda namorada do Dylan adolescente (a primeira chamava-se Gloria Story), nos tempos em que este residia em Hibbing (no Minnesota), um centro mineiro perto da fronteira do Canadá. Destas duas raparigas, diz Bob Dylan que ambas foram importantes no despoletar da veia poética que existia em si e a ambas dedicou várias sessões de serenatas.
Quanto à melodia e ao poema da canção, estes são explicitamente inspirados na canção tradicional «Scarborough Fair» e, mais especificamente, no arranjo que o compositor e cantor Martin Carthy fez desta música.«Scarbrough Fair» seria também copiada por Paul Simon, de um modo que Carthy considerou incorrecto, pois Simon, ao contrário de Dylan, não agradeceu nem citou os créditos de Martin Carthy na matéria.
Como curiosidade refira-se que o nome desta antiga namorada de Dylan foi usado por um grupo norte-americano de Portland (Oregon) para nomear a sua banda. Os Echo Helstrom, um grupo de rock progressivo, têm dois discos gravados: Echo Helstrom (2003) e Veil (2006).

Bob Dylan em Canções, Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006.


PÁTRIAS


O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós próprios: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Em menor escala, as escolas.



Legenda: pintura de Jacek Yerka

terça-feira, 23 de julho de 2013

POSTAIS SEM SELO



Chaves, 11 de Abril de 1968Que povo este! Fazem-lhe tudo, tiram-lhe tudo, negam-lhe tudo, e continua a ajoelhar-se quando passa a procissão.

Miguel Torga, Diário, Volume X

Legenda: fotografia de Jean Dieuzaide

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

Abria-se o República de 19 de Julho de 1967 e estes eram alguns dos filmes que podiam ser vistos em Lisboa.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

ASSIM O MUNDO O OUVISSE!


O Papa Francisco já chegou ao Brasil.

Hei-de sempre voltar às palavras e às ideias que este Papa transmite ao mundo.

Num tempo de tanto desencanto sabe bem ouvir as suas palavras:

A crise mundial não traz nada de bom aos jovens. Corremos o risco de ter uma geração que não teve trabalho, ora o trabalho dá dignidade à pessoa. O sentido da minha viagem é de encorajar os jovens a viverem inseridos no tecido social com os idosos. Critico a cultura de rejeição dos idosos, que dão sabedoria à vida. No outro extremo da vida, os idosos têm a sabedoria da vida, da história, da pátria e da família. Precisamos dela.

O MEDO COMO GESTO DO QUOTIDIANO


Em Julho de 1977, Miguel Torga, queixava-se, amargamente, da qualidade da classe política. E mesmo assim, naquele tempo, ainda podíamos encontrar meia dúzia de personalidades a quem poderíamos chamar políticos, políticos responsáveis.

Essas personalidades não deixaram escola.

A escola dos políticos de hoje, foram as juventudes partidárias.

Entraram por ali dentro, quando ainda deviam andar a brincar com carrinhos, não souberam o que eram necessidades, a vida, como Jerónimo disse ao Pedro e meteram meia dúzia de lérias na cabeça, que repetem infindàvelmente, tornaram-se cínicos, imorais, aprenderam os passos para, oportunamente, se tornarem corruptos.

O país para esta gente, apenas existe em tempos de eleições, quando enchem o peito de ares e dizem que vão fazer isto e aquilo.

Não fazem nada. Apenas irão tratar das suas vidinhas.

O espectáculo que esses políticos deram nos últimos vinte dias, tornou-se patético.

Visto de longe, onde as coisas também não são muito diferentes, Portugal é um país ingovernável.

Ontem, Cavaco Silva disse o que poderia ter dito há dez dias.

Ter-nos-ia poupado à cegada que o país, amorfo, desesperado, assistiu pelas televisões.

O filho do sr. Teodoro da bomba de gasolina, regressa à sua eterna irrelevância.

Ainda vai a tempo de umas férias na mansão de Boliqueime.

O país lamenta que, tal como o Vitor, Aníbal não possa pedir a demissão.

Voltando a Miguel Torga:


Já perdemos quase tudo.

Mas temos medo de quê?

Legenda: fotografia de Gérard Castello-Lopes

A LEITURA DE QUEM LÊ


tão importante
que quem vende o que se lê
lê também
claro
sem saber porquê
talvez pelo pluralismo
tão dado a conhecer
ao lisboeta alegre
pluralismo que manda
na leitura e no papel
e que pensa querer reger a leitura
a leitura de quem lê


Fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo do Pássaro, Forja Editora, Lisboa Abril de 1979.

domingo, 21 de julho de 2013

POSTAIS SEM SELO


Em vez de me perder, como outrora, pela serra, a encher os olhos da única realidade que hoje vale a pena em Portugal, a paisagem, passo as horas sentado em frente da rádio e da televisão, na ânsia de uma notícia de esperança. Tal é o meu desespero. Mas vêm palavras. As mais levianas, demagógicas e tolas que se podem ouvir. Os nossos políticos andam ao desafio. Cada qual quer ser mais irresponsável do que o parceiro. E consegue-o sempre.

Miguel Torga, Diário Vol. XIII, Publicações Dom Quixote, Lisboa Novembro de 1999.

DO BAÚ DOS POSTAIS

JAZZ EM AGOSTO 2013


De 25 de Julho até 11 de Agosto, no Anfiteatro ao Ar Livre, Festival de Jazz da Fundação Calouste Gulbenkian.
Aqui, pode consultar o programa detalhado.

A VOZ DA TERRA ALENTEJANA


Lisboa, Novembro de 1945, João José Cochofel em Opiniões Com Data:

Uma casual deambulação lírica pela cidade, na companhia do Manuel da Fonseca, acabou por levar-nos até à beira-rio, à hora em que os barcos da outra banda entornam sobre o Terreiro do paço a mancha negra de gente que rebressa de um dia de trabalho. Um pequeno grupo de homens do povo e de soldados adiantou-se a cantar. Alentejanos, sem dúvida alguma. E mais não foi preciso para que o Manuel saltasse para o meio dos desconhecidos e, sem hesitação, juntasse a sua voz à dolorosa voz colectiva da terra alentejana, ali orgulhosamente ostentada. Vieram-me as lágrimas aos olhos, de espanto e comoção. Mas com os alentejanos é assim. Está-lhe na massa do sangue. Todos os pretextos lhe servem para o canto em comum. Uma polifonia bárbara, de raiz ancestral e apreendida por instinto de geração em geração, quando muito reditível a arquétipos, mas insubmissa a regras.

José Gomes Gomes Ferreira tem um poema que diz que nunca viu um alentejano cantar sozinho.

Nunca vi um alentejano a cantar sozinho
com egoísmo de fonte.
Quando sente voos na garganta,
desce ao caminho
da solidão do seu monte,
e canta
em coro com a família do vizinho.

Não me parece pois necessária
 outra razão
-ou desejo
de arrancar o sol do chão-
para explicar
a reforma agrária
do Alentejo.

É apenas uma certa maneira de cantar.

Legenda:

Opiniões com Data, João José Cochofel, Editorial Caminho, Lisboa Outubro de 1990.
Poeta Militante, 3º volume, José Gomes Ferreira, Moraes Editores, Lisboa Janeiro de 1978.

sábado, 20 de julho de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


É VOZ CORRENTE que a situação económica e financeira do país é muito mais grave do que aquela que nos têm dito que é.

Só assim se compreende a ópera bufa que está em exibição desde que o todo o poderoso ministro Vitor Gaspar pediu a demissão do governo, argumentando que todas as suas previsões tinham falhado, todas as medidas que tomara conduziram o país a uma catástrofe, que o governo não tem rei nem roque.

De imediato, Paulo Portas saltou do barco.

Irrevogavelmente.

Mas não o deixaram sair.

Voltou atrás no que dissera e arrasta-se pelo governo à espera de um qualquer lugar, que lhe dê mais poder, mais exposição mediática.

Cavaco Silva, depois de dois anos a olhar para o boneco, entendeu que era altura de interferir.

Solicitou ao PSD, ao CDS, ao PS que trocassem umas ideias sobre o estado da nação, e lhe apresentassem um acordo de salvação nacional.

Porque se diz um político experiente, que não cede  a pressões, venham elas de onde vierem, teceu um cenário, completamente irrealista e, como entrava pelos dentro, condenado ao malogro.

Durante uma semana os três partidos andaram a fingir que suavam as estopinhas em busca do tal acordo de salvação.

Ontem, o PS bateu com a porta.

Nunca devia ter aceitado o presente envenenado do Presidente, mas isso já é um problema dele e do partido
.
Na opinião do Economist a decisão do presidente foi inapta.

Durante o dia de hoje assistimos ao triste espectáculo do passa culpas, quem traiu quem, de quem inviabilizou o quê.

O governo volta a dizer que está coeso, com amplo apoio parlamentar e insiste em a prosseguir a mesma política, com os desastrosos resultados que se conhecem e que sofremos na pele.

Amanhã, à hora da janta, Cavaco fará o ponto do descalabro.

Deprimente.

Os portugueses manifestam o seu profundo desprezo por esta gentalha.

Uma tristeza sem fim.

PEDRO TADEU no Diário de Notícias:

O que é um acordo de salvação nacional? O que significa salvar o País? O que se quer salvar? Quem se quer salvar?
Os políticos do PSD, PS e CDS que negoceiam umas frases para um papel onde ficará timbrado o percurso para essa dita salvação nacional são os dirigentes dos partidos responsáveis pelo percurso político de Portugal nos últimos 30 anos. São estes os partidos que levaram o Estado, oito vezes secular, à ruína, à perda de independência económica e ao abandono de uma parte da sua soberania política.
Estes são partidos onde medrou gente que na política, nas empresas e no mundo financeiro utilizou abusivamente dinheiros europeus, banalizou faturas falsas, cultivou fugas aos impostos, a "contabilidade criativa", promoveu a construção desenfreada, os atentados ecológicos e urbanísticos, a dependência excessiva do crédito e mais e mais e mais...
Os negociadores do PSD, PS e CDS são dirigentes de partidos que precisam de ser salvos, perdidos na imoralidade carreirista, na servidão aos interesses externos, na dependência eleitoralista, na ambição pequenina, na mediocridade dos seus quadros, no caciquismo dos seus autarcas.

DANIEL OLIVEIRA no Arrastão:

O BPN foi, como se sabe, oferecido ao banco de Mira Amaral. Sim, 40 milhões de euros por um banco é uma oferta. E foi oferecido sem as dívidas, sem tudo o que nele era tóxico e problemático. Isso, Passos Coelho, homem do rigor e dos sacrifícios, deixou para os contribuintes. Para conseguir este extraordinário montante, o Estado deu todas as garantias: o contrato assinado com o BIC prevê que o banco se responsabilize por resolver as ações judiciais instauradas contra o BPN por clientes e trabalhadores, mas, claro está, mediante reembolso do Estado. A primeira factura chegou:100 milhões de euros. No fim o Estado pode vir a pagar ao BIC cerca de 600 milhões de euros. 15 vezes mais do que recebeu pela privatização.

O NÚMERO DE PORTUGUESES que viviam em privação material em 2012 aumentou face ao ano anterior, ultrapassando os dois milhões, revela o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento das Famílias. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, são mais de 2,5 milhões os portugueses em risco de pobreza ou exclusão social.

O nível de desemprego vai ser pior do que diz o Governo, avisa, novamente, uma instituição internacional. Desta feita é a OCDE que aponta para uma taxa de 18,6% da população ativa em 2014.

OS ONZE PRINCIPAIS banqueiros portugueses ganharam cada um, em média, 1,6 milhão de euros em 2011, totalizando 17,6 milhões entre salários e bónus. Os dados foram divulgados pela Autoridade Bancária Europeia e demonstram que estes banqueiros ganharam 5,2 milhões de euros em remuneração fixa e 12,4 milhões em remuneração variável como bónus e prémios.