quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O DIA OU A NOITE DAS BRUXAS


Que as há, sabemos todos que sim…
Ou o tempo em que o Grupo Jantarista dasÚltimas Sexta-Feira de Cada Mês, comemorava o Halloween, porque ao outro dia era feriado.
Num desses jantares acompanharam-se rabanadas com água-pé e a coisa não correu muito bem…
Deveria haver um  bis, para ver o que falhara, mas não voltou a acontecer.
Quando a noite das ditas voltar a cair numa sexta-feira, se rectificarão os temperos e a bebida.
Vai dar certo!...
Este ano foi por um milímetro!...

QUE FIZESTE DO TEU IRMÃO?


Que economia é essa que tem no centro o culto idolátrico do dinheiro e exclui os doentes, os idosos, os jovens e as crianças? Que religião é esta que reza o Pai-Nosso e tem uns irmãos à mesa e outros à porta?

Frei Bento Domingues no Público

OLHAR AS CAPAS



Intervenção Sonâmbula

José Gomes Ferreira
Capa: Dorindo de Carvalho
Diabril Editora, Lisboa 1997

Que bom! continuar a embalar medrosamente sonhos, considerandos irrealizáveis, difíceis e impossíveis, apesar de estarmos tão próximos… tão próximos do futuro que bastaria um passo apenas… sem abismos nem riscos… Somente um passo…
(Eu sou pelo passo.) 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

OS CROMOS DO BOTECO

SARAMAGUEANDO



Carta de Saramago, datada de 22 de Setembro de 1960:

Já temos saudades suas. Quando volta? E a saúde, como vai? As suas cartas dão-me a impressão de um certo desconforto físico e talvez moral. Se assim é, faço votos sinceros por que depressa seja vencida essa crise. Não lhe peço que se confesse, evidentemente, mas conte-me no número de pessoas a quem os seus pesares ou alegrias tocam de muito perto. Ainda dizem que «longe da vista, longe do coração»: pois eu hoje sinto-me mais seu amigo de que no dia da sua partida

Carta de Miguéis para Saramago datada de 12 de Janeiro de 1961

Caí há dias das nuvens (e ainda não parei de cair) ao receber o exemplar encadernado da tiragem especial! Escola do Paraíso», nota do editor). Não fazia ideia nenhuma de que projectavam esta grata surpresa, que o nosso contrato não prevê, e demonstra uma coragem considerável da vossa parte. A capa está interessantíssima, melhor até que a da Léah III, e tecnicamente mais bem acabada. Peço-lhe que me dê esclarecimentos, poi o volume não traz indicação (ao contrário da Léah especial) de tiragem, assinatura de autor, numeração, etc. Bem sabe que eu sou mais partidário da Perfeição que do Luxo!, e desejo estar ao alcance do público menos abastado: é o que me preocupa quanto á farsa, que em comparação com a Escola, custa muito mais cara. E por sinal, ainda não sei por que se vende: o contrato não indica o preço, e este não vem na capa.
(…)
Diga-me, pelas suas alminhas, como vão saindo os livros, a reação dos leitores e jornais, e o mais que se lhe oferecer. Se fazem já a segunda edição da Escola, quantos exemplares vão tirar? Como isto alterou os termos do contrato quero mandar-lhes a carta nele prevista para a reedição. Brevemente voltarei a escrever. As ofertas aos sábios críticos são do vosso cuidado – eu só faço as pessoais: - desculpem! Diz-me o castro Soromenho que a Arcádia vai adoptar a foto-offset ou coisa parecida para as reedições.

O MAIS IMPORTANTE

  
 Na minha casa foram a votos para saber quem era a pessoa mais importante.
Cada qual escreveu num papelinho.
A Casa disse:
A pessoa mais importante é o homem, porque está em todas as coisas.

Mário Castrim em Histórias Com Juízo, Plátano Editora, Lisboa, Novembro 1973.

COM DEUS DO NOSSO LADO


Oh, o meu nome nada interessa
A minha idade menos ainda
O lugar de onde venho
Chama-se o Midwest
Ali fui criado e ensinado
A obedecer às leis
E que essa terra em que vivo
Tem Deus do seu lado

Oh, os livros de história contam-no
Contam-no tão bem
A cavalaria carregou
Os índios morreram
Oh, o país era jovem
Com Deus do seu lado

Oh, a guerra Hispano-Americana
Teve o seu tempo
E a Guerra Civil também
Foi cedo esquecida
E os nomes dos heróis
Me obrigaram a decorar
Com armas nas suas mãos
E Deus do seu lado

Oh a Primeira Guerra Mundial, rapazes
Desperdiçou a sua sorte
A razão para a luta
Nunca a percebi bem
Mas aprendi a aceitá-la
Aceitá-la com orgulho
Pois não se contam os mortos
Quando Deus está do nosso lado.

Quando a Segunda Guerra Mundial
Chegou ao final
Perdoámos os alemães
E ficámos amigos
Apesar de trem assassinado seis milhões
Que fritaram nos fornos
Também agora os alemães
Têm Deus do seu lado

Aprendi a detestar os Russos
Durante toda a minha vida
Se outra guerra começar
São eles que devemos combater
Odiá-los e temê-los
Fugir e esconder-me
E tudo aceitar corajosamente
Com Deus do meu lado

Mas agora temos armas
Da poeira química
Se obrigados a usá-las
Então devemos dispará-las
Um toque no botão
E um disparo do tamanho do mundo
E nunca se fazem perguntas
Quando Deus está do nosso lado.

Ao longo de muitas horas sombrias
Tenho pensado sobre isto
Que Jesus Cristo
Foi traído por um beijo
Mas não posso pensar por vós
Tereis vós de decidir
Se judas Iscariote
Tinha Deus do seu lado

Então agora que me vou embora
Estou exausto como o Diabo
A confusão que sinto
Nenhuma língua pode expressá-la
As palavras abarrotam-me a cabeça
E tombam para o chão
Se Deus está do nosso lado
Impedirá a próxima guerra

Bob Dylan

Canção do álbum The Times They Are A-Changin (1964)

Bob Dylan em Canções Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006


Legenda: não foi possível obter o autor/origem da fotografia.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

A CAIR NO CAMPO DA ANEDOTA


29 de Outubro de 1968.

A doença de Salazar começa a entrar na rotina mais rotineira e a cair no campo da anedota.

O Notícias de Portugal, semanalmente, vai fazendo o resumo da evolução da doença, nunca deixando de realçar que continuam a rezar-se missas por todo o país pelas melhoras de Sua Excelência e que o Chefe de Estado continua a visitar o doente com regularidade.

Segundo O Séculoo sr. Prof. Bissaia Barreto informou os jornalistas que o Sr. Prof. Oliveira Salazar «já se encontra a dieta sintética e aproxima-se, agora, da dieta habitual. Nessa dieta só toma produtos portugueses.»

Augusto Abelaira soube, através de uma sobrinha de Marcello Caetano, que ele anda mais preocupado com os «ultras» de que com a Oposição.

José Gomes Ferreira não deixa de comentar: o que é vexatório para nós.

Anda José Gomes Ferreira:

Enquanto Cazal-Ribeiro, da Direcção da União nacional, da Legião Portuguesa e da Cidla, diz a quem o quer ouvir nos comícios diários:
- Esse comunista anda a dar cabo da obra de Salazar!
O «comunista» é o Marcelo!, o «Endireita da Esperança» - como também já lhe chamam esses pobres portugueses que só sabem contar anedotas e inventara apodos…

Finalize-se, hoje, este passear pelo tempo com um trecho de Caminhos Para uma Revolução de Jacinto Baptista (1) que, conjuntamente com os Dias Comuns de José Gomes Ferreira e o Notícias de Portugal, constituem a base de trabalho destas evocações:

Assim, Salazar, dado como morto ressuscita.
Um repórter do Diário Popular falou esta manhã, na Casa de Saúde da Cruz Vermelha, onde Salazar está hospitalizado, com o Prof. Bissaia Barreto, que diariamente visita o enfermo. E começou por recolher esta declaração:

- O Senhor Presidente dormiu muito bem, passou uma noite muito calma, com um sono reparador. De manhã, o seu espírito encontrava-se desanuviado. Conhece as pessoas que entram no seu quarto, profere o nome das pessoas conhecidas, a sua memória responde mesmo à evocação de factos passados.

O repórter pergunta depois ao Prof. Bissaia Barreto se esta recuperação permitia manter esperanças de ser dada alta, em breve, a Salazar. Respondeu (fé inabalável):

- Tenho a certeza de que pode ainda levar uma vida normal e escolher o seu próprio modo de vida. Tenho a certeza. O tempo não interessa em casos destes. O que interessa é que ele regresse à vida.

Mais tarde, em entrevista à Televisão, simultaneamente recolhida pelos jornais, Bissaia Barreto declarava:

- O Senhor Presidente estará, em breve, em condições de se ocupara da sua vida pessoal e da vida que interessa à Nação.

A Censura, desconcertada, inquieta, resolve suprimir, nesta frase, as palavras e da vida que interessa à Nação, que não leremos no jornal e todavia ouviremos à noite no telejornal. E a Televisão que, pelos vistos, aposta na ressurreição de Salazar, vai mais longe, citando o Prof. Eduardo Coelho como tendo declarado que se esperava, no enfermo, uma recuperação psíquica da ordem dos oitenta a noventa por cento, motora de sessenta a setenta por cento. E Como Salazar, segundo Eduardo Coelho, tinha uma cabeça que valia por seis cabeças normais, mesmo que só recuperasse um sexto, ainda ficaria bem.


(1)   Caminhos para a Revolução, Jacinto Baptista,  Livraria Bertrand, Lisboa Abril de 1975.

VELHOS DISCOS


Apetece-me dizer: fogo no pandeiro.
Este é um velho disco mas não consigo lembrar em que ano o comprei.
Um grande disco de música para o Carnaval.
Está por aqui a Clara Nunes, o Paulinho da Viola, a Elza Soares, Beth Carvalho.
O disco está riscadinho, quase inaudível..
Nada que dê para grande espantação!...

POSTAIS SEM SELO


O meu avô passa muito tempo no parque. Diz que o problema de envelhecer não é esquecermo-nos das coisas, é que tudo se esqueça de nós.

Afonso Cruz em O Livro do Ano

Colaboração de Sara Calisto

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O ano de 2010 registou as melhores receitas e frequências nas salas de cinema portuguesas:16,6 milhões de espectadores geraram uma receita bruta de 82 milhões de euros, uma clara melhoria em relação a anos anteriores.

Contudo, em 2012 só 13,8 milhões de espectadores saíram de casa para irem ao cinema. A três meses do findar do ano, a perda já vai em mais de um milhão de espectadores e sete milhões de euros em receitas brutas.

A este triste panorama soma-se o fecho de 70 salas de cinema.

São vários os motivos por que os portugueses deixem de ir ao cinema: a crise económica que o país vive, o cada vez mais fácil aceso a filmes disponibilizados na Internet, DVDs que são vendidos a baixíssimos preços.

Ao fundo da rua, uma loja vende DVDs a 50 cêntimos.

E a maior parte não é lixo.

Triste e preocupante.

O cinema é um mundo de afectos.
Nos velhos cinemas da cidade ficaram as mais bonitas e encantadoras memórias que as vidas de cada um guarda.

Eu guardo.

Por cinema… por cinemas… palavras de Manuel S. Fonseca publicadas no Expresso há já algum tempo.

Arrisco uma definição: o cinema é aquilo de que nos lembramos depois de esquecermos tudo o que aprendemos. Quando, e é já hoje, comida, ruas, ou carros, nada for como dantes, quando o corpo com que nos conhecemos for só tatuagens e piercings, há-de acordar-nos na boca o sabor dum filme antigo. Vai saber bem. Será que nos salva? 

NOTÍCIAS DO CIRCO


Ninguém confia em quase nada que seja prometido pelo Governo: isto é incompatível com uma saudável vivência democrática.

De um comunicado da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

DO BAÚ DOS POSTAIS


Lubeck.

E SENTAMO-NOS ALI...


Fora da política, Cunhal deixava uma impressão indelével em todos aqueles com quem se cruzava na vida, pela facilidade no trato e, sobretudo, pela simplicidade e sentido de humor que revelava nas relações com os outros. Joshua Ruah fala das boas memórias que tem do antigo paciente, aludindo a uma conversa que tiveram numa das consultas: Perguntei-lhe uma vez: «Ó sotôr, porque é que… o sotôr desculpe lá, já estamos nisto aqui há tantos anos… porque é que o sotôr tem uma imagem tão dura, tão política, e depois é uma pessoa afável e até carinhosa na maneira de falar, enfim diga-me lá porquê?» E ele disse: «Não, eu sou sempre o mesmo. Olhe, até costumo ir para a praia de Monte Gordo e vou sempre para a praia, dizem que eu tenho guarda-costas, que eu tenho não sei quê… Não eu vou com a minha companheira para a praia e sentamo-nos ali, com o chapéu-de-sol e tal, e aquilo que acontece é que as pessoas passam e uns conhecem-me e falam, outros olham e dizem ”Este velho é tão parecido com o Cunhal”». Isto disse-me ele a rir. Isto é de uma pessoa completamente fantástica.

Judite Sousa em Álvaro, Eugénia e Ana

OLHAR AS CAPAS


 Os Poemas de Álvaro Feijó

Álvaro Feijó
Prefácio: João José Cochofel
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Poetas de Hoje nº 1
Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1961

O altar as vagas
o dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas.
Ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na distância
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
os círios murchos das igrejas velhas
mas o lume de estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
Aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios doiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasgões da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos nos intervalos das campanhas,
aos bichanos que limpam de cabeças
e tripas de pescado
as muralhas do cais.

O dossel a espuma.
O altar das vagas
— e que altar enorme! —
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
— a Fome!

LOU REED (1942-2013)


Aos 71 anos morreu Lou Reed.
O músico que transformou o rock.

domingo, 27 de outubro de 2013

PORQUE HOJE É DOMINGO


Yellow Submarine

Na cidade onde nasci
viveu um homem que se fez ao mar
e nos contou a sua vida
na terra dos submarinos.
Navegamos em direcção ao sol
até encontramos
um mar verde
e vivemos sob as ondas
no nosso submarino amarelo.
Vivemos todos num submarino amarelo
submarino amarelo
os nossos amigos estão todos a bordo
a maioria vive ao lado
e a banda começa a tocar.
Vivemos todos num submarino amarelo
Submarino amarelo.
Como vivemos uma vida simples
todos temos o que precisamos
céu azul e mar verde
no nosso submarino amarelo.
Vivemos todos num submarino amarelo
Submarino amarelo.

(Tradução Rita Ferreira da Silva)


O LATEJAR DE COMBOIOS DA INFÂNCIA

Desta maneira, isolados a sós ou em companhia, os heróis que aqui leio aparecem-me povoados de sinais e andamentos, do latejar de comboios de infância e das luzes dos portos nocturnos.

José Cardoso Pires no prefácio a O Jogo do Reverso de Antonio Tabucchi

Legenda: fotografia de Elliott Erwitt

CREPÚSCULOS DE OUTONO


E porventura não tardará aí o inferno que ninguém quer.
Já começaram em Lisboa os crepúsculos de Outono com esta luz crespa que me acompanha desde as ruas da infância, onde, em constante vadiagem perplexa na Penha de França e na Graça, aprendi a orientar-me no calendário pelos pregões.

José Gomes Ferreira em O Irreal Quotidiano, Portugália Editora, Lisboa Junho de 1971

DITOS & REDITOS

\

O povo é sereno.

É bom ler o que está bem escrito.

Cuidado com o cão.

Deixem a música falar.

Trigo limpo, farinha Amparo.

Cada caso é um caso.

A pensar na morte da bezerra.

Um comboio pode esconder outro.

Não há serviço de esplanada.

O destino é um tipo sem moral nenhuma.

O ferro deve bater-se enquanto está quente.

Mais vale cair em graça do que ser engraçado.

sábado, 26 de outubro de 2013

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

E AGORA, JOSÉ?


 Mortos ou vivos, quem é da casa passeia-se por aqui.

Não são necessárias datas redondas.

José Cardoso Pires morreu há 25 anos.

Quem te deu licença de morrer? escreveu António Lobo Antunes, por um  outro alguém.

Ou ainda numa crónica:

Saudades do Zé Cardoso Pires, saudades do Ernesto Melo Antunes: passou que tempos e não me habituo. Por que razão não falam comigo, vocês?
E um grande silêncio no meio da gente, um vazio que dói.

E ainda:

Fazes-me tanta falta, meu cabrão, há tanto para contarmos um ao outro. O fim de uma amigo é um martírio, não páras de te agitar cá dentro, raios te partam. Tu e o Ernesto melo Antunes: duas feridas abertas que não saram.

E Agora, José?

Ficava bem qualquer coisa feliz, das muitas que andam por Lisboa, Diário de Bordo.

Mas talvez o final daquele De Profundis, Valsa Lenta, Janeiro de 1997:

Dois anos. Já dois sobre isto e só hoje é que dou por encerrada para sempre a minha viagem à desmemória, arquivando-a nestes apontamentos escritos à deriva por indícios trazidos na corrente. Vou interrogando e retendo, apurando a caligrafia da recomposição, e quando chego ao convite do meu companheiro de hospital para uma celebração de lagosta com champanhe, não hesito em fechar e pôr assinatura no texto. Disse e vivi, Acta est fabula.
Como despedida, a festa anunciada parece-me uma vinheta condigna mas, se me é permitido, acrescento-lhe um fio de música.

Pois é, José.

Tal como quando estavas chateado e dizias que a culpa é dos padres ou, outra vez o Lobo Antunes, o meu amigo José Cardoso Pires usava uma expressão para isto, tira a tesão a um mocho  e sobra a Alexandra a dizer que  isto continua a não ser um país, continua a ser um sítio mal frequentado.

Legenda: fotografia de Luís Ramos em Ler nº 0, Outono/Inverno 1987.

POSTAIS SEM SELO


Porque é que as pessoas choram?, pergunta Tomek à dona da casa onde vive.
- Porque não aguentam mais, diz a anciã.

Pedro Mexia no Expresso.

LÓGICAS SUSPEITAS


Sim, há as altas temperaturas, o vento, a incúria, a ausência de limpeza das matas, a quase inexistente vigilância, irresponsabilidades várias, mas, acima de tudo, há o outro lado da dramática situação, a parte que nos querem esconder assobiando para o lado: os fogos florestais têm como beneficiários os madeireiros, os especuladores da construção civil e os interesses dos que querem eucaliptizar o país.

Essencialmente isto!

O Verão já lá vai.

As promessas feitas no calor da desgraça, por altos responsáveis, vão caindo em saco roto.

Restam as cinzas.

O negócio.

As palavras de Solvstag: 

Já não encontramos a árvore onde escrevemos a canivete o nome do nosso primeiro amor.

Legenda: o título é de uma notícia do Público.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O LIVREIRO PRODIGIOSO


Manuel Medeiros morreu em Setúbal, aos 77 anos. Perseguido pela doença, conseguiu ainda comemorar a passagem dos 40 anos sobre a fundação da obra da sua vida, a livraria Culsete, na cidade do Sado. Todo o universal tem raiz no singular. Este açoriano de nascimento, setubalense pelo coração, aí o está para o provar. Há algo de irónico quando designamos a Culsete como livraria. A ironia habita na clara desproporção entre os bens públicos e os benefícios privados associados a uma empresa ligada ao comércio do livro. Para os jovens da minha geração, que aí passavam horas de leitura apaixonada, a Culsete, na verdade, fazia as vezes de uma biblioteca pública à altura do seu tempo. Manuel e Fátima Medeiros, sua esposa e colaboradora, sempre compreenderam a importância do livro e da leitura para o processo de contínuo crescimento das pessoas e dos cidadãos, que não cessamos de ser ao longo da vida. O livro contém dentro de si uma riqueza e uma energia que ninguém está em condições de esgotar. Nem o leitor, nem o crítico, nem mesmo o autor. A tarefa do livreiro é a de libertar e fazer partilhar essa riqueza e essa energia. Por isso, ao longo destes 40 anos, a Culsete criou centenas de encontros entre livros, leitores e autores, muitos deles já parte do panteão da língua portuguesa. Escrevo estas palavras em homenagem a Manuel Medeiros, também em nome de todos aqueles que, não o podendo fazer, gostariam de lhe prestar tributo público pela dívida cultural que jamais estaremos em condições de pagar. Pois uma das maiores lições que Manuel Medeiros nos deixou foi a da dádiva generosa, que é a fonte de todas as dívidas importantes. Aquelas que por natureza não se destinam a ser saldadas. Pois, na verdade, só é nosso, aquilo que já não nos pertence.

Viriato Soromenho Marques, hoje, no Diário de Notícias.

POR COMBOIOS...


Por comboios, pelo cinema, pelas intermitências da morte: um dia, o dia, aquele que sempre chega.
Patrice Chéreau morreu, em Paris, no dia 7 de Outubro,
Antes de morrer, um artista famoso expressa dois desejos: ser enterrado num cemitério em Limoges e, para assistir ao funeral, os amigos e familiares irão de comboio.
Uma história bem contada, uma banda sonora de bom gosto.



Os que de mim gostam irão no 28.
Beberão gin-tonic.

OLHAR AS CAPAS


O Burro-Em-Pé

José Cardoso Pires
Capa: Júlio Pomar
Círculo de Leitores, Lisboa Novembro de 1979

E foi o que aconteceu aos conquistadores do mato, traficantes e outros que tais, quando, depois de muito esfolar, viram a vida deles a andar para trás.
Tinham saído das berças da fome em tempos que já lá iam e, tocados pela necessidade, atravessaram o mar em demanda do igualmente esfomeado, que era preto e que, tanto quanto sonhavam, andava a pé descalço por cima de cascalhos e ouro e diamantes sem dar por isso. Depois, como as coisas não fossem tal e qual, não se desconcertaram e desataram a fabricar negócios de abater o preto à paulada, peneirar e vender farinha de pau-santo, e assim foram crescendo e engordando.
O pior é que de tanto bater, o pau abriu faísca e pegou fogo ao mato – tinha que ser. Os traficantes, conquistadores e outros que tais levaram a mal. Ah, sim?, ameaçaram Pois então o fogo paga-se com fogo, e por dá cá aquela palha puseram-se a despejar tiros, empurrando para longe o incêndio – pensavam eles. Estiveram meses e ano, entretidos a espalhar lume quando numa volta do destino o vento começou a mudar. Aí, ao sentirem as chamas a virarem o dente, alto lá: deram sebo às botas e que se lixe, disseram, ardeu a tenda. Pegaram na saquinha dos diamantes e bateram a asa, rumo ao velho ninho, Portugal.
Enquanto o diabo esfregou um olho já eles tinham pulado por cima do mapa-mundo e da África que lá estava desenhada como coração pousado no oceano.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

OLHARES


Comércio tradicional na Rua da Mouraria em Lisboa.

EU SOU A MEMÓRIA


24 de Outubro de 1968

Antevendo a morte de Salazar os jornais, para registarem a ocorrência, prepararam edições especiais. Os jornais ainda se compunham a «chumbo».

Contudo, nem o pai morria nem a gente almoçava e as notícias sobre o estado de saúde de Salazar começaram a ser remetidas para as páginas interiores.

Aos poucos, os «chumbos» foram descendo para a caldeira.

Aqui se transcreve o que o Notícias de Portugal , neste dia, dedicava ao estado de saúde de Salazar:


Por estes tempos chegou a correr a notícia que um grupo de senhoras devotas queria arrancar dos médicos uma autorização para levarem Salazar a Fátima.

Entretanto os jornais iam publicando desenvolvidas notícias sobre a agenda diária da governação de Marcelo Caetano: recepções, visitas, discursos.

Nas conversas de café, Marcelo Caetano era considerado o administrador da falência.
José Gomes Ferreira, nos seus Dias Comuns, lançava um alerta aos historiadores futuros:

Não acrediteis nos jornais dos últimos 40 anos – dirigidos pela Censura. Nem nos documentos, na sua maioria falsos ou deturpados. (As regentes escolares – acreditai – eram e são recrutadas nas cridas de servir de baixíssima instrução. A Elisa, por exemplo, antiga criada da minha mãe, foi regente escolar e dá cada erro de ortografia!)
ACREDITAI EM MIM.
EU FUI TESTEMUNHA.
EU VIVI ESSES TEMPOS DE INFERNO E DE SILÊNCIO!
E U  S O U  A  M E M Ó R IA!

Legenda: O Presidente do Conselho, e o chanceler da Alemanha Federal Dr. Kurt Kiesinger, durante a recepção no Palácio de Queluz.
Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1122.

SARAMAGUEANDO


Numa entrevista dada a José Carlos Vasconcelos, e publicada na Visão de 16 de Janeiro de 2003, José Saramago aborda o mundo dos Centros Comerciais:

Os ventos da história nem sempre são favoráveis. Como tento mostrar em «A Caverna.» É hoje patente que o único lugar limpo, iluminado, colorido, seguro, com música, nas cidades e já nas aldeias, que as pessoas frequentam e são felizes, é o centro comercial! Antigamente, a mentalidade humana formava-se na grande superfície das de uma catedral; hoje, forma-se na grande superfície de um centro comercial. O que diz tudo.

No 2º volume de O Caderno, volta ao tema e chama-lhe Outra Leitura para a Crise:

A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?

No seu 1º Livro de Crónicas, António Lobo Antunes tem este áureo pedacinho:

Aos domingos a seguir ao almoço visto o fato de treino roxo e verde e os sapatos de ténis azuis, a Fernanda veste o fato de treino roxo e verde e os sapatos de salto alto do casamento, subo o fecho éclair até ao pescoço e ponho o fio de ouro com a amedalha por fora, a Fernanda sobe o fato de treino e põe os dois fios de oro com a medalha e o colar da madrinha por fora, tiramos o Roberto Carlos do berço, metemos-lhe o laço de cetim branco na cabeça, saímos de Alverca, apanhamos os meus sogros em Santa Iria da Azóia e passamos o domingo no Centro Comercial.

Orson Welles lembrou um dia que, neste mundo das grandes superfícies, haverá o dia em que teremos saudades do merceeiro da nossa rua.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

AS RODINHAS DA CASA


A malta chamava-lhes rodinhas...

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE EXTINÇÃO


A malta dizia: onde está a rodinha?
A rodinha era aquele redondo de plástico que tínhamos de colocar no pic-up para pôr a rodar os singles e os EPs.
Não sei se o utensílio tem algum nome especial. Se tem, nunca o  nomear… apenas a rodinha..
Mas nem todos os singles e Eps necessitavam da rodinha.
Alguns, como este velho EP da Telefunken, estavam preparados para colocar de imediato o disco a girar.

VELHOS DISCOS


O meu primeiro disco da Elis Regina.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

QUOTIDIANOS


…um comunista que, por razões de idade e preguiça intelectual, vai morrer sem ter lido sequer um quarto de O Capital embora tenha repetido a leitura de muitas obras do Raymond Chandler.

Vitor Dias em O Tempo das Cerejas

DO BAÚ DOS POSTAIS

Chegou hoje, enviado de Cusco no Perú, pela Isabel e pelo Germano.

OLHAR AS CAPAS


Conversa na Catedral

Mario Vargas Llosa
Tradução: José Teixeira de Aguilar
Capa: estúdios P.E.A.
Colecção Século XX nº 111
Publicações Europa-América, Lisboa Junho de 1972

Não há jornalistas abstémios, Zavalita. A pinga inspira, convence-te disso.

OS CROMOS DO BOTECO



domingo, 20 de outubro de 2013

OLHAR AS CAPAS


 Beatlemania

Poemas dos Beatles (1962-1966
Tradução Rita Ferreira da Silva
Colecção Rock On nº 11
Capa: Paula Viana
Centelha, Coimbra Outubro 1987

I’m Happy Just To Dance With You (A Felicidade de Dançara Contigo)

Antes desta dança acabar
Penso que também te vou amar
Tão feliz fico quando danças comigo.
Não quero beijar-te ou dar-te a mão
Se achas estranho tenta compreender.
Na verdade nada há que eu prefira
À felicidade de dançar contigo
Não preciso de abraços ou de estar agarrado a ti
Apenas quero dançar contigo toda a noite
Nada há neste mundo que eu prefira
À felicidade de dançar contigo.
Dançar contigo é tudo o que preciso
Antes desta dança acabar
Penso também que te vou amar
Tão feliz fico quando danças comigo
Se alguém tentar ocupar o meu lugar
Vamos fingir que nem sequer o vemos
Nada há neste mundo que eu prefira
À felicidade de dançar contigo.
Dançar contigo é tudo o que eu preciso
Antes desta dança acabar
Penso também que te vou amar
Tão feliz fico quando danças comigo.
Se alguém tentar ocupar o meu lugar
Vamos fingir que nem sequer o vemos
Nada há neste mundo que eu prefira
À descoberta que estou apaixonado por ti
À felicidade de dançar contigo.

DITOS & REDITOS!


25 de Abril sempre!

Come e bebe porque vais passar muito tempo morto.

É proibido fumar em toda a rede do metro.

Vocês decidirão a vossa vida, eu vou-me embora.

Corra Portugal de lés a lés com meias Ferrador nos pés.

Oh Incas, oh incas, oh Sol d’Asía!

Não é permitido estudar.

Toyoya veio para ficar.

Sujeito ao stock existente na loja.

Hoje não se fia amanhã sim.

Letras são tretas, cartas são papeis.

A vida só ajuda quem faz por ela.

É A VIDA...


é mijar meus senhores
é mijar
à revolução alegre
à revolução traída
em Lisboa
que querem?
é  a vida


Fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo do Pássaro, Forja Editora, Lisboa Abril de 1979.

sábado, 19 de outubro de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


Aproveito para repetir, pela enésima vez: Cavaco Silva está há sete anos no cargo de Presidente da República e nunca teve uma palavra de censura sobre o roubo do BPN.

João Marcelino no Diário de Notícias.

PASSAGEM


Passa hoje um ano sobre a morte de Manuel António Pina.

Com que palavras ou que lábios
é possível estar assim tão perto do fogo,
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima dos pensamentos?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palavras são de mais?

Agora os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós,

como diremos ainda margens e como diremos rios?

Manuel António Pina em Como se desenha Uma Casa

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


ANtÒNIO MOURÃO (1935-2014)


O fadista António Mourão, de 78 anos, faleceu esta noite na Casa do Artista, em Lisboa.
O autor do conhecido tema Oh tempo volta p'ra trás, nascido a 5 de junho de 1935 e natural do Montijo, afastou-se do mundo artístico nos anos 90.

Há quem discorde mas artistas como António Mourão também fazem parte da História da Música Portuguesa.

ANTIGAS COMUNIDADES


Nunca se esquecerão estes cafés ou estas pastelarias provinciais tão exactas e barulhentas nos Domingos de Fevereiro. Às vezes ainda retardam as decorações natalícias. Mas o que melhor exibem são as taças e galhardetes ganhos pelo grupo desportivo local entre as escassas garrafas das prateleiras. Uma salamandra ou uma braseira rodeiam-se de gente comunicativa das bandejas e do incansável moinho de café. O «cheirinho» no café. A humidade mostra-se nas paredes sob as desafiadoras beldades tropicais dos calendários. Cinzeiros improvisados. Uma raposa embalsamada sobre o televisor. Os empregados transtornados pela muita solicitação. Uma cerveja que se entornou. A serradura que junta cascas de tremoços e amendoins pelo chão. As cores excessivas da televisão. E o relato de futebol por fundo. E as vozes a subir de tom. E a tosse. E a criança que começa a chorar. E o cão que entra para ser escorraçado. Oh estes cafés são os foros das antigas comunidades.

Manuel Hermínio Monteiro em Urzes, Edição O Independente Lisboa 2004

Legenda: fotografia de Willy Ronis

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Orçamento do Estado é um documento vergonhoso, que privilegia os grandes interesses - a banca e as eléctricas - em detrimento dos pobres e remediados, que são todos os funcionários públicos com um salário de 600 euros brutos. Um Orçamento que aumenta os gastos de funcionamento do próprio governo em níveis vergonhosos (os gabinetes vão gastar mais 3,3 milhões de euros que em 2012, época em que o primeiro-ministro anunciava que a austeridade começava dentro de portas), enquanto aniquila as pensões de reforma daqueles que nasceram noutros anos de chumbo e se esforçaram por nos entregar um país mais decente - e que agora sustentam os filhos desempregados por causa de uma política económica cega que trava o crescimento, a procura interna e a criação de emprego.
O que está em curso é o desmantelamento do país tal como o conhecemos, a reboque de uma experimentação económica comandada por pessoas que não elegemos (embora boa parte do governo em funções se identifique com o estoiro, na certeza de que do alto dos seus cargos e futuros cargos em grandes empresas nunca terão de se confrontar com as dificuldades do cidadão comum.


Ana Sá Lopes, jornal I.