terça-feira, 31 de dezembro de 2013

DESPEDIDAS...


Hoje no Metro entre a Alameda e as Olaias, uma jovem, já não tão jovem quanto isso, conversa ao telemóvel – bem alto para toda a carruagem ouvir:

- O que te digo é que este ano foi péssimo, mas o próximo vai ser muito pior!...

- ?
- É como te digo…

- ?...

- Janto e enfio-me na cama, não quero saber de mais nada…

Miguel Torga, em Milão, no último dia do ano de 1932:

Não se pode dormir com tanta gente lá fora, aos uivos, a festejar o ano novo. Como se fosse possível um ano novo rer melhor do que o velho!

Vergílio Ferreira, no findar de 1978:

Estava eu a querer saber o que vou fazer este ano. Não sei.

António Alçada Baptista, em Dezembro de 1984:

Olho para o novo ano com fé e esperança. O meu incansável de sobrevivência faz-me recordar mais as alegrias que tive do que as tristezas. O que é que querem que eu faça? Gosto de viver e detesto a existência em forma de lamúria.

ILUMINAÇÕES DE NATAL


Largo de São Domingos.

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

REMORSOS DE UM ENCENADOR DE TEATRO


Muita gente me acusa de ser o culpado do estado de desgraça do nosso país por ter reprovado Pedro Passos Coelho numa audição em que eu procurava um cantor para fazer parte do elenco de My Fair Lady. Até o espertíssimo gato fedorento Ricardo Araújo Pereira já afirmou que eu devia ser chicoteado em público todos os dias até Passos Coelho desistir de ser primeiro-ministro, como insistentemente o aconselha o Dr. Soares.
Na verdade, confesso que em 2002, quando preparava os ensaios para levar à cena My Fair Lady fiz uma série de audições a cantores para procurar o intérprete do galã apaixonado por Elisa Doolittle, a pobre vendedora de flores do Covent Garden, personagem saída da cabeça brincalhona e maniqueísta de Bernard Shaw, genial dramaturgo que no seu tempo se fartou de gozar com políticos. Entre muitos concorrentes à audição, apareceu Pedro Passos Coelho de jeans, voz colocada, educadíssimo e bem-falante. Era aluno de Cristina de Castro, uma excelente cantora dos tempos de glória do São Carlos que tinha sido escolhida por Maria Callas para contracenar com a diva naTraviata quando da sua passagem histórica por Lisboa. As recomendações portanto não podiam ser melhores e a prova foi convincente. Porém, Passos Coelho era barítono e a partitura exigia um tenor. Foi por essa pequena idiossincrasia vocal que Passos Coelho não foi aceite, o que veio a ditar o futuro do jovem aspirante a cantor que, em breve, ascenderia a actor protagonista do perverso musical da política. Se não fosse a sua tessitura de voz de barítono, hoje estaria no palco do Politeama na Grande Revista à Portuguesa a dar à perna com o João Baião, a Marina Mota, a Maria Vieira, e talvez fosse muitíssimo mais feliz. Diria mal da forma como o Estado trata a cultura em Portugal, revoltar-se-ia com os impostos que o teatro é obrigado a pagar, saberia que um bilhete que é vendido ao público a dez euros, sete vão para o Estado, teria um ataque de nervos contra os lobbies da Secretaria de Estado da Cultura, há quarenta anos sempre os mesmos... não saberia sequer o nome do obscuro e discretíssimo secretário da Cultura oficial, não perceberia porque em Portugal não há uma Lei do Mecenato que permita aos produtores de espectáculos cativar os mecenas, tal é a volúpia cega dos impostos, saberia que cada vez mais há artistas no desemprego em condições miserabilistas e degradantes, que fazer teatro, cinema ou arte em Portugal se tornou um acto de loucura e de militância esquizofrénica. Mas a cantar no palco do Politeama estaria bem longe da bomba-relógio do Dr. Paulo Portas, cada vez mais fulgurante como pop-star, da troika, agora terrível e pós-seguramente medonha, das reuniões de quinta-feira com o Senhor Professor, do Gaspar que se pisgou para o Banco de Portugal, dos enredos do partido bem mais enfadonhas do que as animadas tricas dos bastidores do teatro, das reuniões intermináveis com os alucinados ministros, das manifestações dos professores, dos polícias, dos funcionários públicos, dos pescadores, dos estivadores, dos reformados, dos trabalhadores de tudo o que mexe e não mexe em cima deste desgraçado país, ah!, e das sentenças do Palácio Ratton que agora são chamadas para tudo, só para tramarem a cabeça intervencionada do pobre Pedrinho... não bastava já as constantes birrinhas do Tó Zé Seguro, as conversas da tanga do Dr. Durão Barroso, o charme cínico e discreto de Madame Christine Lagarde, as leoninas exigências da mandona da Europa para Bruxelas assinar a porcaria do cheque. Valha-me o Papa Francisco que tudo isto é de mais para um barítono!
Assumo o meu mais profundo remorso. Devia ter proporcionado ao rapaz um futuro mais insignificante mas mais feliz. Mas, tal como Elisa Doolittle, que depois de ser uma grande dama prefere voltar a vender flores no mercado de Covent Garden, talvez o nosso herói renegue todas as vaidades e vicissitudes da política e suba ao palco do Politeama para interpretar a versão pobrezinha mas bem portuguesa de Os Miseráveis!

PS. O artigo foi escrito em português antigo. No Teatro Politeama nem as bailarinas russas aderiram ao Acordo Ortográfico.


Filipe La Féria, ontem no número comemorativo dos 149 anos do Diário de Notícias.

CABAZES DE NATAL

Cabazes de Natal.
Este ano, expostos na rua, só os encontrei na Avenida João XXI.

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MINIATURAS DE NATAL

domingo, 29 de dezembro de 2013

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro no Jardim Tristão da Silva nas Olaias.
O abeto que está por trás do candeeiro, permite trazê-lo para o espaço e tempo  de Natal.

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O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Eu deixo-vos com um presentinho, um anúncio curioso que um amigo me contou ter encontrado um dia num jornal francês: «Realizador de cinema procura anão para pequeno papel em curta-metragem.»

Maria do Rosário Pedreira em Horas Extraordinárias

DITOS & REDITOS


Natal findo, Entrudo à porta.

Aprender à própria custa, que é modo mais fiável de aprender seja o que for.

Há muita gente que morre por abusar do vinho.

Adeus, até ao meu regresso.

Há uma estanha amargura naqueles que estão certos de ter sempre razão.

Saber calar-se é mais difícil que falar bem.

Palavras não adubam sopas.

São sempre precisos dois para dançar o tango.

Longo tempo não significa para sempre.

O que foi não volta a ser.

O espectáculo vai começar. Por favor desligue o seu telemóvel.

A merda nunca cheirou mal ao seu dono.

sábado, 28 de dezembro de 2013

ILUMINAÇÕES DE NATAL


Árvore de Natal na Praça Luís de Camões.

MINIATURAS DE NATAL

NATAL DOCE, DOCE NATAL


Tempo de Natal na Praça  Paiva Couceiro.
Os churros são bons, as farturas nem por isso, mas uma fartura é sempre uma fartura... e marcha.

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OLHARES


Pormenor sacado de um monte de lixo na rua.

ESTAMOS DENTRO DOS DIAS


estamos dentro dos dias eu: na cidade do mar hoje é Dezembro
quase Natal quase partilha conheço alguns que têm contribuído
para a construção da terra (oh peço perdão desculpe mas:)

nunca trago trocado comigo. edificamos barreiras nos dias
(a nossa pequena história) reconhecemos nossos passos
desejamos o corpo dos amigos por entre mesas de taberna

entre a sangria e o mimo. na hora de todas as coisas: para
onde vamos? alguém nos irá julgar? talvez não seja esse o
momento final (as partidas foram feitas para se poder
regressar). vivemos para o efémero tentando convencer um

deus mas deuses assim têm um tempo de humanos. passamos
ao lado dos barcos (o tempo avança por sílabas) pode parecer
estranho escrever assim mas é quase manhã e ninguém
confessou ainda quem foi que deu o desfalque no meu coração


João Luís Barreto Guimarães em Natal… Natais, antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Público, Lisboa s/d

Legenda. imagem do filme A Árvore da Vida.

UM REI NO NATAL



Principalmente nos anos, 50, 60, também 70, todos os grandes artistas, bem como as grandes orquestras, editavam um álbum de Natal que se tornavam nos discos mais vendidos do ano.

Charlotte Greig, nos diversos livros que publicou sobre os discos mais vendidos nas diversas décadas, lembra-nos que o álbum de Natal deElvis Presley, lançado em Outubro de 1957, foi o mais vendidona década de 50, qualquer coisa com 7 000 000 cópias.

O top dos 100 álbuns mais vendidos na década de 50, regista que 9 álbuns de Natal se encontram nesse número: Johnny Mathis (o quinto mais vendido na década com 2 000 000 cópias), Tennessee Earnie Ford, Frank Sinatra, Orquestra de Mitch Miller, Bing Crosby, Orquestra de Mantovani, The Rober Shaw Chorale e a Orquestra de Ray Conniff.

A história do álbum do Elvis contada por Charlotte Greig:

Gravado em 1957, o primeiro álbum de canções de natal por Elvis ajudou a defini-lo como rei do entertainment ligeiro, além do rock and roll. Apesar de suscitar alarido quando foi lançado (Irving Berlin, o autor de White Christmas, levou a cabo uma campanha para impedir que a versão de Elvis fosse tocada na rádio), o álbum chegou a número na tabela Billboard e continuou a vender-se em grandes quantidades em cada Natal, até 1962. Desde então tornou-se um clássico de Natal e é actualmente o álbum mais vendido gravado nos anos 50.

O álbum, além de outro material, foi gravado em três dias (5 a 7 de Setembro) no Radio Recorders, em Hollywood. Continha uma mistura de hinos. Espirituais e canções seculares de Natal, todas interpretadas com a marca característica de Elvis. Durante as sessões, os compositores Leuiber e Stoller escreveram o tema de abertura, Santa Claus is Back in Town, que se tornou um dos pontos altos da colectânea.

Ao ser lançado em Outubro, analistas nos media, eclesiásticos e figuras da indústria musical – ignorando as raízes gospel sulistas de Presley – denunciaram-no como um tentativa do jovem rebelde do rock and roll para profanar a Cristandade. O público, porém, reagiu de modo diferente, e o espírito religioso sincero do álbum ajudou a confirmar o estatuto de Presley como um herói folk de toda a cultura americana.

Alinhamento das canções do álbum:

  1. "Santa Claus Is Back In Town" - 2:21
  2. "White Christmas" - 2:41
  3. "Here Come Santa Claus" - 1:54
  4. "I'll Be Home For Christmas" - 1:53
  5. "Blue Christmas" - 2:07
  6. "Santa Bring My Baby Back" - 1:51
  7. "Oh Little Town Of Bethlehem" - 2:34
  8. "Silent Night" - 2:22
  9. "Peace In The Valley" - 3:20
  10. "I Believe" - 2:04
  11. "Take My Hand, Precious Lord" - 3:16
  12. "It Is No Secret" - 3:54

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

QUOTIDIANOS


Pormenor sacado de um monte de lixo na rua.

POSTAIS SEM SELO


 O problema do nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser.

Paul Valéry

NOTÍCIAS DO CIRCO


 Na sua edição de hoje, o jornal I revela:

O ano de 2013 registou a criação de 21,8 mil empregos líquidos entre Janeiro e Setembro, segundo os dados disponíveis mais recentes. O valor fica bem longe dos "120 mil novos empregos líquidos" que Passos Coelho garantiu terem sido criados até Setembro deste ano na mensagem de Natal desta semana. Para o valor do primeiro-ministro ser correcto, o ano de 2013 teria de ter começado em Março, ignorando-se assim a sua parte mais negativa: entre Janeiro e Março perderam-se 100 mil empregos.

Legenda: imagem da Lusa

ILUMINAÇÕES DE NATAL


Árvore de Natal na Gare do Oriente.

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Não se pode dizer qual é o melhor bolo-rei de Lisboa, do Porto ou de Portugal. O que se pode ir fazendo é provando os bolos-rei que nos aparecem à frente (leia-se "que nós perseguimos até aos confins da Terra").

Discutir qual é o melhor bolo-rei é uma actividade infinita e deliciosa, até porque é sempre interrompida: "Sabes lá o que dizes! Tens é de provar o bolo-rei da Garrett - vou-te trazer um e depois falamos".

O melhor que já provei até hoje - e que venho provando há duas semanas, não fosse detectar alguma inconsistência - é o da Confeitaria Nacional, em Lisboa.

(…)

A receita bem pode ser secreta mas cá para mim o verdadeiro segredo é que os mestres pasteleiros melhoram o bolo-rei de ano para ano. Todos os anos está um bocadinho melhor do que o anterior, tendo parecido no ano anterior que tinham atingido a perfeição.

Lembro-me há uma década de achar que o bolo-rei deles, a ter algum defeito, era ter ovos a mais e, sendo fofo e amarelo de mais, não ter a secura que tanto se presta a um chá, um vinho do Porto, um vinho da Madeira ou um Moscatel de Setúbal.

Os defeitos do bolo-rei da Confeitaria Nacional eram sempre por generosidade excessiva. Também me lembro de uma iteração do bolo-rei que tinha passas, fruta cristalizada e nozes a mais na massa do bolo.

Este ano acho que acertaram no que é a mais difícil ambição de um bolo-rei: o equilíbrio. Tem muita fruta e muita noz mas está perfeitamente espalhada pela massa. Não sei como conseguem tal feito de levitação.

(…)

É assim que se vê a grandeza de um bolo-rei: pela longevidade. A massa do bolo-rei não é, ao contrário da maioria de bolos-rei, doce. É abaunilhada e generosa. O açúcar não abafa os sabores diferenciados das frutas e das passas, todas exímias.

Todos os ingredientes são excelsos. As frutas cristalizadas do exterior - que costuma ser o calcanhar de Aquiles dos bolos-rei - são perfeitas. Se quiser fazer uma ideia do tempo que leva e da paciência e perícia que são necessárias para cristalizar fruta à velha moda francesa, consulte um bom manual de pastelaria: é de fugir!

Bolo-rei torrado é muito bom. Melhor ainda, quando já tiver mais de uma semana, é remover o exterior e fazer fatias da massa para torrar. Carameliza lindamente - cuidado que torra num instante - e ganha vida nova, ideal para acompanhar um café, um chá ou um bom whisky de malte.

De uma crónica de Miguel Esteves Cardos, publicada no Fugas, suplemento do jornal Público.

O GLORIOSO NO NATAL


O embrulho onde estava o equipamento completo do Benfica, a prenda natalícia  para o André, oferta do Tio Mário, Tia Cristina, Primo Afonso.
Só falta o campeonato, mas a continuarmos com o Coach Pastilhas duvido que se chegue lá...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


26 de Dezembro de 1968

O Notícias de Portugal, boletim semanal do Secretariado Nacional da Informação, principal fonte desta pesquisa que tem vindo a ser feita sobre os dias do lento estertor de Salazar, na sua edição de 28 de Dezembro, não dá conta aos portugueses de como o ditador passou a Consoada na Casa de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa.

Sobre a doença, apenas esta notícia onde, como sempre se fala das melhoras que o doente vai registando, das inúmeras visitas que as altas figuras do regime, diariamente, ou quase, vão fazendo, das missas que um pouco por todo o país se vão realizando pelas melhoras de sua excelência.

Aliás sobre os Natais – e não só! - de Salazar pouco se sabe: se comia o tradicional bacalhau com couves, as rabanadas, o que quer que  fosse.

Há a lacónica informação que, no Dia de Natal, jantava com o Cardeal Cerejeira.

Mas esses jantares, ano após ano, foram-se desconjuntando.

Salazar queria que a Igreja apoiasse, ainda mais, o regime mas, Cerejeira, pressionado por alguns padres e porgrupos de católicos progressistas, viu-se forçado a dizer, ou a dar a entender, que dera muito e mais não era possível.

Sentados em cada topo da mesa, não falavam um com o outro e era a governanta Dona Maria que fazia as pontes do diálogo:

- O Sr. Presidente pergunta se o Sr. Cardeal quer mais um calicezinho de Vinho do Porto…

NOTÍCIAS DO CIRCO




Aqui na rua, os efeitos da greve já começaram a tomar volume.

As zonas residenciais de Lisboa são hoje as mais afectadas pela greve dos serviços de limpeza da câmara lisboeta, segundo o sindicato dos trabalhadores do município, que estima em 85% a adesão à paralisação.


De certeza que na Baixa, Belém e nos sítios mais turísticos a câmara vai tentar manter a situação o mais normal possível. Se mantêm a Baixa e as zonas turísticas limpas, nas zonas residenciais deve haver mais lixo por apanhar, disse um representante do Sindicato.

Os trabalhadores dos serviços de limpeza da Câmara Municipal de Lisboa estão em greve desde terça-feira e até 05 de Janeiro contra a intenção da autarquia de privatizar este sector.

Na terça-feira, a adesão à paralisação rondou os 90% e a maioria das ruas da capital ficou sem recolha de lixo, segundo o STML.

Na quarta-feira não houve greve por causa do feriado de Natal e hoje o primeiro período de paralisação começou às 05:00 horas.

A Câmara de Lisboa emitiu um aviso à população informando que a greve ao trabalho normal, às horas extraordinárias e ao trabalho suplementar poderá afectar o normal funcionamento do sistema de limpeza e recolha de lixo na capital.

A autarquia recomenda a todos os moradores que separem e acondicionem devidamente os seus resíduos domésticos e evitem a sua deposição na rua, garantido que desenvolverá todos os esforços para minimizar as eventuais consequências do protesto.

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Iluminações na Avenida de Roma perto da Avenida dos Estados Unidos da América.

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O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Coimbra, 26 de Dezembro de 1977

Chego e leio a notícia do falecimento de Charlie Chaplin. E, quase sem eu querer, a imagem do Charlot a que deu vida e universalidade sobrepõe-se instantaneamente no meu espírito à do seu criador, numa consoladora sensação de luto aliviado. Sim o mundo está mais pobre. Um génio que o habitava desapareceu para sempre. Só que esse génio de tal maneira se transmutou na sua criatura, que de há muito ela lhe ocupa o nicho no altar dos meus santos. É, de facto, o vagabundo do bigodinho, das calças largas e rotas, das botas cambadas, do coco e da bengalinha que vive entronizado na minha admiração, desde que na juventude o vi pela primeira vez na pele de um D. Quixote cordo e travesso a desafiar os gigantes da ordem estabelecida como se eles fossem moinhos de vento. O Zé-ninguém a arteiro de A Quimera do Ouro, do Circo e dos Tempos Modernos, que nunca vence nem é vencido, que não desiste mesmo quando parece abandonar a luta, que sabe encontrar sempre o largo caminho da liberdade em todos os becos sem saída, é que é meu semelhante, é que irradia calor humano, é que infunde coragem e dá esperança, é que me espevita a imaginação. E esse, graças a Deus, não morreu nem morrerá.

Miguel Torga em Diário Vol. XIII, Publicações Dom Quixote, Lisboa Novembro de 1999.

Legenda: final de Tempos Modernos.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Iluminações na Praça do Comércio e na Rua Augusta.

A IGREJA DOS ATEUS


Na Rádio, a missa do galo transmitida do Mosteiro de Singeverga com cerimonial de coros falados e a voz agudamente esganiçada de um padre mulherengo.
E penso: Porque é que a Igreja Católica que possui tantos tesouros de música sublime nos dá sempre o espectáculo lamentável desta musicata exígua onde só cabe um Deus medíocre para velhas que acreditam na morte por pobre e musgosa.
Que vocação para tornar tudo pequeno, do tamanho dos homens vazios com entranhas reles!
(Resposta: as missas de Beethoven, dos Estes e dos Aqueles pertencem à Igreja dos Ateus.)

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Vol. VI, Publicações Dom Quixote, Lisboa Janeiro de 2013.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

SENTADOS A MEU LADO


A braços com os meus fantasmas, que nunca deixam de estar presentes nesta data, vou atiçando o lume da lareira. É meu pai, é Minha Mãe, é meu Avô… Estão sentados a meu lado, calados, num recolhimento letal. Vieram porque eu vim, e como há muito me disseram tudo o que tinham a dizer, fazem-me apenas companhia. É uma consoada suplementar, consecutiva, à outra, mas silenciosa e abstinente, de que não compartilha o resto da família, que já dorme. A noite é comprida, e nenhum de nós tem pressa. E vamos deixando correr as horas sacrais, à espera da luz da manhã. Nela, eles regressarão discretamente ao mundo tranquilo dos mortos e eu acordarei estremunhado no mundo inquietante dos vivos. Até que outro Natal nos junte de novo, aqui ainda, unidos pela minha memória, ou lá onde os imagino lembrados de mim no eterno esquecimento.

Miguel Torga em Diário, Vol. XII, Publicações Dom Quixote, Lisboa Novembro de 1999.

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Iluminações de Natal no Rossio e na Rua do Ouro.

OS QUE AMAMOS


 Esta noite de alegria para as crianças será sempre de alguma saudade para os adultos. Assim teremos a esperança terna de sobreviver, por algum tempo, na lembrança dos que amamos – uma boa vez ao menos – de ano para a ano.

Ramalho Ortigão, lido em Natal do Minho ao Algarve, Açores eMadeira.

UM PINHEIRO ROUBADO


Roubaram-nos um pinheiro (para o transformarem por certo em árvore de Natal) e a Rosalia chorou toda a manhã sentada à lareira.
- Ó mulher: não exageres!
- Por minha vontade não voltava mais a Albarraque. Tem de gatunos! – protesta ela, furiosa de pena.
Tento consolá-la:
- Ó Rosalia: e não tens pena do sobreirinho que está a arder na lareira?
Mas ela não tem pena dos mortos que aquecem. Só tem pena dos vivos que arrefecem o nundo. E lhe roubaram o pinheirinho que íamos visitar todos os domingos. Era um pinheiro que usava coleira como um cãozinho vegetal.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Vol. VI, Publicações Dom Quixote, Lisboa Janeiro de 2013.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Sem atingir um pico por aí além, as iluminações da Baixa de Lisboa conseguem mostrar um pouco mais de cuidado do que grande parte de outras artérias da cidade.
Uma situação compreensível não só pela quantidade de lojas mas também pelo tipo de comércio que a Baixa oferece..
As fotografias mostram as iluminações na Praça da Figueira e na Rua da Prata.

OLHARES


MINIATURAS DE NATAL

POSTAIS SEM SELO


O Pai Natal passa o ano a sacudir almofadas, que é onde ficam os restos dos nossos sonhos, disse eu à minha irmã mais nova. É assim que ele sabe o que mais desejamos.

Ela fez bem em não acreditar

Afonso Cruz em O Livro do Ano

Colaboração de Sara Calisto

SARAMAGUEANDO


23 de Dezembro de 1995

Hoje, procedente do Funchal, desembarcou, uma vez mais, a linha descendente da primeira família que formei: a filha Violante, os netos, Ana, que ainda traz fresca a tinta do seu diploma de engenheira informática, e Tiago, onze anos vivíssimos que prometem, além do genro Danilo. Vieram juntar-se aos da casa e aos amigos chegados de Portugal para celebrarmos estes dias. No significado mais exacto e directo da palavra, vamos fazer a festa. Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fôssemos nós a fazê-lo diferente.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Vol. III, Editorial Caminho, Lisboa Março de 1996

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

O LUME DA LAREIRA


Nas casas particulares, também o lume da lareira é reforçado e continua aceso pela noite de Natal adiante para, se o Menino Jesus vier, se poder aquecer.

Lido em Natal do Minho ao Algarve Açores e Madeira

domingo, 22 de dezembro de 2013

QUOTIDIANOS


Título do Expresso

MINIATURAS DE NATAL

AS MINHAS CANÇÕES DE NATAL


O que há anos passados me diverti a cantar com os meus filhos e as minhas sobrinhas este A Todos um Bom Natal. 
Agora é a vez dos netos mas eles não estão muito virados para as cantorias.
Têm outros chamamentos

DO BAÚ DOS POSTAIS