sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

MARCADORES DE LIVROS


POSTAIS SEM SELO


 Há certo gosto em pensar sozinho. É acto individual como nascer e morrer.


Legenda: fotografia de Cecil Beaton

SARAMAGUEANDO


O ministro do interior não disse que a mulher do médico fosse culpada, Senhor comissário, eu não passo de um inspector de polícia que talvez não chegue nunca a comissário, mas aprendi de experiência deste ofício que as meias palavras existem para dizer o que as inteiras não podem.

José Saramago em Ensaio Sobre a Lucidez, Editorial Caminho, Lisboa Março de 2004.

Legenda: pintura de Rafal Olbinski

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

VELHOS DISCOS



Entrar portas dentro da  Grande Feira do Disco e arrancar para o escaparate onde estavam os vinis das grandes orquestras.
Muitos dos discos que lá moravam nem sequer conhecia os nomes.
É ocaso deste e, com toda a certeza, foi comprado por causa de Delilah, Spanish Eeys, The More I See You, Night and Day.
Ouvido o disco  vir a saber que havia outras canções de encanto: que Wuderbar ist die Welt , posto em miúdos quer dizer oh! que mundo maravilhoso, que Der letzie Walser se transforma na última valsa
Trabalhava todo o dia de sábado, e estes eram os discos de domingo que, muitas vezes metia chá e bolos secos.

CONCENTRAÇÃO EDITORIAL


Em artigo de opinião, publicado na Notícias Magazine de 25 de Maio 2008, Manuel Alberto Valente mostrava o seu  entendimento sobre o fenómeno da concentração editorial..

SARAMAGUEANDO


Ontem ficou a saber-se que será a Porto Editora irá editar a obra de José Saramago, e que o romance inédito de José Saramago Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas será já editado pela Porto Editora.

A Porto Editora, a exemplo da Leya, é um dos grupos que, nos últimos anos, t~em vindo a adquirir outras editoras.

Existe, porém, uma grande diferença.

A Porto Editora que, entre editoras,engloba a Assírio & Alvim tem à frente da parte editorial o escritor Manuel Alberto Valente que há muitos anos manuseia livros, que lhes conhece as cores, os cheiros, o miolo, e que aos livros dedica aquilo que mais os torna importantes e diferentes: o amor.

Manuel Alberto Valente, ver post seguinte, reconhece, nos dias de hoje, a inevitabilidade da concentração editorial, mas avisa que à frente desses novos pequenos impérios, deve esta gente que não seja alheia ao mundo do livro.

Manuel Alberto Valente está nesse número. Para além de não ter, por hobby, carros de corrida, sabe da importância dos livros.

Um pão vale mais que um livro?

Aí está uma interminável discussão.

Outra editora que concorria para a publicação das obras de José Saramago era a Relógio d’Água do escritor de Fernando Vale, que se tivesse sido esta a escolha de quem teve de decidir, se saberia que os livros de José Saramago estariam, também, em muito boas

Tanto Manuel AlbertoValente como Fernando Vale de modo algum desdenham aquele bonito sentir de Manuel Hermínio Monteiro:

Gosto de pensar que edito livros como quem trata de uma vinha.

Legenda: fotografai da Cornerstone Books Shop

DO BAÚ DOS POSTAIS


Cabo da Roca.

POSTAIS SEM SELO


Que precisão tenho eu de ir ao encontro de quem ainda não se lembrou de vir ter comigo?

Shakespeare

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Os jogos de sedução são iniciados quase sempre pelas mulheres, mas elas preferem deixar que os homens acreditem que a iniciativa foi deles. Esta atitude é também uma maneira de atrair a pessoa desejada. A mulher desencadeia o processo de sedução em três de cada quatro casos quando olha e sorri.


Legenda: pintura de Joadoor

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Bergman disse um dia que as mulheres têm mais talento para representar do que os homens. A afirmação, segundo ele, não tinha nada de moralista, antes cultural. A representação é uma profissão especialmente feminina porque as mulheres olham para a câmara (e para o espectador) com o mesmo fascínio e entrega com que estão habituadas a olhar-se ao espelho.

Maria João Freitas

Legenda: HarrietAndersson em Mónica e o Desejo,filme de lngmar Bergman,

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

PETE SEEGER (1919-2014)


Aos 94 anos, num hospital de Nova Iorque morreu Pete Seeger.

Uma tristeza sem fim enrola-se por aqui e as palavras não saem, talvez por inúteis serem.

Partiu Pete Seeger mas fica a fortíssima marca da sua presença neste mundo, em que trabalhou imenso para manter viva a memória da riquíssima tradição da música popular  norte-americana, bravamente lutou por um mundo melhor esteve em todas as lutas de esquerda, fosse a luta pelos direitos civis dos negros, fosse pela denúncia da poluição do Rio Hudson.

Woodie Guthrie tinha escrito no seu banjo que «esta máquina mata fascistas», no seu banjo Pete Seeger escreveu «esta máquina cerca o ódio e força-o a render-se».

Considero-me um contador de histórias, por vezes um organizador. Não sou um bom
cantor. Não sou particularmente bom a tocar banjo. Mas sou especialista em conseguir que uma multidão cante comigo, e quando esta canta bem sinto-me feliz."

No dia dos seus 90 anos, a data foi celebrada com um grande no Madison Square Garden de Nova Iorque. Entre as dezenas de músicos que estiveram presentes contaram-se Bruce Springsteen, Joan Baez, Eddie Vedder, Arlo Guthrie, Ben Harper, Billy Bragg, Emmylou Harris, Ramblin' Jack Elliott, Richie Havens, Roger McGuinn,

O cubano Sílvio Rodrigues foi impedido de entrar nos Estados Unidos  mas enviou a Seeger uma carta de saudação:

La Habana, 3 de mayo de 2009.
Admirado y querido Maestro Pete Seeger:

En estos momentos se está celebrando el concierto de homenaje que decenas de cantores justamente te ofrecen. Pasan por mi mente algunas de las veces que tuve el privilegio de disfrutar de tu talento seductor de multitudes. Así te recuerdo en La Habana, cantando solidario junto al Grupo de Experimentación Sonora; así te recuerdo en aquella gira dedicada a Víctor Jara, por varias ciudades de Italia; y así también revivo aquella helada noche de febrero de 1980 en que respondiendo a tu llamado viajamos desde Nueva York hasta Poughkeepsie y te escuchamos “Snow, Snow”, obra maestra de quien se hizo preguntas ante un paisaje invernal.
Traté de volver a estar contigo hoy, pero, como bien sabes, no me dejaron llegar los que no quieren que los Estados Unidos y Cuba se junten, se canten, se hablen, se entiendan. Son los que piensan que el mundo se divide en poderosos y en débiles; los que sólo aprecian a los que son ricos y fuertes. Son los que no nos perdonan que aún siendo pequeños hayamos decidido vivir de pie. La realidad grita que cada vez deben ser menos estos brutos, pero de alguna forma esa minoría todavía impera y manda. Algunos de ellos vieron un peligro en que nos encontráramos y que un simple acto de fraternidad simbolizara a dos pueblos vecinos que pueden coincidir en canciones y afectos.
Pero no solo yo, querido Pete: todo mi digno y sin dudas mejorable país te admira, te respeta y celebra tus honorables nueve décadas defensoras de la justicia social, la paz y la cultura.
Aquí nadie te ve como un peligro sino como un extraordinario amigo que no nos dejan abrazar con la libertad que quisiéramos. Por eso, más que yo, toda esta Cuba que te quiere, bloqueada todavía por los abusadores, está a tu lado ahora cantando tu profética We Shall Overcome y nuestra martiana Guantanamera.
Un beso para Toshi y un fuerte abrazo para ti de
Silvio Rodriguez

Escreve Ramón Padilla em Canciones de Protesto del Pueblo Norte Americano:

Muito alto, magro, e com o cabelo começando a embranquecer, um homem sai do teatro, de banjo ao ombro e viola na mão. Durante duas horas, com as mãos meio ligadas porque se feriu a rachar lenha, tocou aqueles instrumentos e cantou em inglês, yiddish e castelhano. Cantou canções da guerra civil espanhola, canções de amor, canções para crianças - e canções contra a guerra do Vietname. É ainda meio aloirado, tem olhos azuis e, embora mantenha um aspecto juvenil, descobrem-se-lhe na face marcas de dificuldades e canseiras. Em Pete Seeger conjuga-se o tradicional e o actual, as canções de há séculos e as dos cantores urbanos de hoje. Cantará, umas atrás das outras, uma balada escocesa, uma canção de trabalho judaica, uma melodia negra nascida nas prisões do Sul, uma canção de mineiros, outra contra a Guerra do Vietname. O fio condutor desta enorme variedade é a luta contra a injustiça, a fome e a miséria, a sua indestrutível fé no homem, a luta contra toda a opressão.

Por diversas vezes, Pete Seeger foi sondado para vir cantar a Portugal, mais concretamente à Festa do Avante. Indisponibilidade de datas não o permitiu.Mas em 2 de Dezembro de 1983 foi mesmo possível trazer Pete Seeger a Lisboa.

Desse memorável concerto foi feito registo sonoro que mais tarde seria publicado em disco. Uma edição limitada de 3.000 exemplares numerados numa caixa que contém 1 LP, o livro-programa do espectáculo, folheto com textos da gravação com tradução para português das canções, as fotos do espectáculo.

Em Lisboa, ao jornalista Viriato Teles disse espero que vocês pensem que sou comunista.

 A sua vida de luta está também registada nos testemunhos que prestou na Comissão de Actividades Anti-Americanas, o mccarthysmo, uma das muitas páginas negras da história da America:

Não responderei a nenhuma pergunta sobra as minhas actividades associativas, sobre os meus credos filosóficos ou religiosos, sobre as minhas convicções políticas ou, ainda, sobre como votei em qualquer das eleições.

Considero tais questões impróprias para serem postas a qualquer americano, particularmente sobre coerção, como acontece aqui. (…) Sei que, em toda a minha vida, jamais fiz o que quer que fosse de natureza conspiratória e sinto profundamente que, na intimidação para comparecer perante esta comissão esteja implícita a diferença existente entre as minhas opiniões e as vossas e que por isso me considerem menos americano que qualquer outro.

"Mas amo muito o meu país (...) Há vinte anos que, por toda a parte, canto canções populares da América e doutros países. A canção, cujo título foi especificamente citada neste julgamento, “Wasn’t That a Time”, é uma das que prefiro. Gostaria de ter a vossa autorização para a cantar aqui antes de terminar".

- Não pode, retorquiu seco o juiz Murphy.

OLHAR AS CAPAS


Poesia I

José Gomes Ferreira
Prefácio: Alexandre Pinheiro Torres
Colecção Poeta de Hoje nº 5
Portugália Editora, Lisboa Maio de 1962

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
«Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.»
E virias depois, suavemente,

velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

POSTAIS SEM SELO


Monterey possui uma qualidade imutável. Quase todos os dias, de manhã, o Sol brilha nas janelas do lado ocidental das rua; e, de tarde, brilha no lado oposto. Diariamente, o autocarro vermelho passa, retinindo, no seu vaivém entre Monterey e Pacific Groive. Todos os dias as fábricas de conservas expelem para o ar o desagradável cheiro do peixe a que reduzem o tamanho. Todas as tardes, o vento sopra da baía a agita ois pinheiros nas colinas. Os pescadores à linha sentam-se nas rochas de cana na mão e no rosto vinca-se-lhes a paciência e o cinismo.

John Steinbeck em O Milagre de São Francisco.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro junto ao Centro Comercial Colombo.

DITOS & REDITOS


É bom ver crescer uma árvore plantada por nós.

O que tem de ser, tem de ser, e tem muita força.

Feliz ao jogo, infeliz aos amores.

Todo o silêncio é um grito.

As palavras falam por elas próprias.

A esperteza tem limites.

Dar-se sempre ao respeitinho.

A ganância dos ricos não tem limites.

O miudinho escrutínio da solidão.

Rosa morta, rosa posta.

O HOMEM DO MALBORO


Soube-se hoje que Eric Lawson, um dos muitos rostos da publicidade para os cigarros Marlboro, morreu, com 72 anos, no passado dia 10.

Fumava desde os 14 anos e trona-se no terceiro homem da Marlboro a morrer de cancro.

Fumar mata, sabe-se, mas alguns continuam a fumar.

A mulher de Eric Lawson disse aos media norte-americanos que ele sabia que os cigarros os estavam a matar, mas não conseguia parar.

Escolhas.

Uma coisa é certa: a vida lança-nos, quando muito bem quer, para os braços da morte. Só não sabemos nem o dia nem a hora.


O escritor Manuel da Fonseca, amiúde, dizia: Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal.

Um poema de Rui Caeiro:


Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se – ou nem isso
Sobrevive-se – ou nem tanto
Morre-se – sempre
Muito

SARAMAGUEANDO


Quanto à criança lacrimosa, essa só estava uma hora mais velha, o que demonstra que o tempo, ainda que os relógios queiram convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda a gente.

José Saramago em Todos os Nomes, Editorial Caminho, Lisboa Outubro de 1997

domingo, 26 de janeiro de 2014

PORQUE HOJE É DOMINGO


É bom estar à espera da Primavera, mas ainda é Inverno e temos um bom pedaço para penar.
Dias cinzentos, aborrecidos.
Tarde na Rua do Carmo.
O cheiro bom a castanhas assadas, quentes e boas.
A ternura de uma criança junto ao vendedor de castanhas: filha?, neta?, importa pouco e esta é a oportunidade de ir buscar o Homem das castanhas cantada pelo carlos do Carmo, versos de Ary dos Santos, música de Paulo de carvalho.
Porque é domingo!


Na Praça da Figueira, ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono, à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.

Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.
É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.

Um carro que se empurra, um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.

Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor (amor) para casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.


Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

POSTAIS SEM SELO


Todos os inquisidores do mundo queimam os livros em vão: quando os livros têm valor, conseguimos escutar o seu riso silencioso entre as chamas. Porque um livro autêntico renasce sempre das cinzas.

OLHAR AS CAPAS

Círculo Aberto

António Ramos Rosa
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Abril de 1979

É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e uma música da cidade compuseram. Ela é preguiça de felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.

sábado, 25 de janeiro de 2014

O ULTRAJE


No Público de anteontem, Luís Fernandes, da Universidade do Porto, ironizou sobre a transformação em pasta de papel, pelo grupo Leya, "de dezenas de milhares de livros de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura, publicados pela ASA".
Sempre quis comprar um dos livros destruídos: a antologia de poesia e prosa que Eugénio de Andrade fez e a ASA editou, com o nome maravilhoso e verdadeiro de Daqui houve nome Portugal. Era um livro bonito, grande, muito bem impresso e encadernado, sob a chancela da Oiro do Dia. Li-o na biblioteca de universidades inglesas mas, para vergonha minha (como já o tinha lido, num prenúncio dos malefícios da Internet), nunca o comprei; apesar de achar que, sendo caro, era barato para o que era. O papel era bom. A selecção era boa. Era um livro perfeito - e até hoje não o tenho.
Tenho ligações sentimentais ao grupo Leya (por causa d"O Independente) e ainda esta semana recebi uma proposta simpática e tentadora da Dom Quixote, que agora faz parte da Leya. Mas que posso fazer quando uma grande editora, recém-formada e sem qualquer tradição literária, transforma um livro que era caro de mais para eu comprar em pasta de papel? É de vomitar. Não podemos dar dinheiro a quem só pensa em dinheiro. José Saramago - mau escritor mas boa pessoa, na minha miserável opinião - foi enganado. Eugénio de Andrade e Jorge de Sena - um grande poeta e um génio - foram ultrajados.
Desejo sinceramente que a Leya se foda.

Miguel Esteves Cardoso, Público, 4 de Março de 2010

Legenda: ilustração de Snowball

DETALHES


Dizem as escrituras: não sabeis nem o dia nem a hora.
Na noite em que Miklós Fehér morreu, a agenda dos matutinos fazia chamada de atenção para transmissão que a Sport TV iria fazer do jogo Guimarães-Benfica, marcado para as 19H45, no Estádio D. Afonso Henriques.
O Diário de Notícias adiantava que, dada a lesão de Nuno Gomes, Fehér poderia ir a jogo.
O treinador José António Camacho acabou por optar por Zahovic, mas aos 60 minutos Fehér entrou para substituir João Pereira.
O suficiente para ter participado na jogada que daria o único golo do jogo, alcançado aos 90 minutos por Fernando Aguiar.
Por mera curiosidade, diga-se que o treinador do Vitória de Guimarães era Jorge Jesus.

O Diário de Notícias, nessa manhã, dava a notícia que o contencioso, originado pela saída do F.C. do Porto para o Benfica, chegara ao fim.

O ÚLTIMO SORRISO


Quem em directo, pela televisão, viu aquele sorriso de menino a caminho da morte, não mais pode esquecer.
Miklós Fehér, Miki para os companheiros, avançado húngaro ao serviço do Benfica, jogava os últimos minutos do tempo complementar de um Guimarães-Benfica.
Uma noite chuvosa, o Benfica conseguira o golo, que lhe dava a vitória, aos noventa minutos de jogo.
Após uma falta, Fehér impede o recomeço do jogo e o árbitro admoesta-o com o cartão amarelo.
Ele sorri, tá bem abelha, vamos ganhar, e cai fulminado por uma paragem cardio-respiratória.
Passados que são 10 anos sobre essa trágica noite, continuamos sem encontrar palavras
Apenas aquele sorriso de menino.

Legenda: a capa de A Bola de 26 de Janeiro de 2004, é retirado do Baú, o tal sem fundo, onde a Aida coloca tudo e mais alguma coisa.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

SARAMAGUEANDO


O livro, no bom dizer do saudoso editor Manuel Hermínio Monteiro deve conter a própria vida dos que com ele lidam quotidianamente.

Sou do tempo em que os livros estavam ao cuidado de gente culta.

Orgulhosamente profissionais, livreiros e editores sabiam o que tinham entre mãos.

Com a chamada globalização, os livreiros foram substituídos por computadores e os grandes grupos editoriais como a Leya, Porto Editora, Bertrand  & Cª Lda, desataram a comprar pequenas e grandes editoras, não com o objectivo de as valorizar mas para, simplesmente, ganharem algo com o negócio.

Por exemplo, Miguel Pais do Amaral, um empresário de tudo e mais alguma coisa, constituiu a Leya e comprou, entre outras pequenas editoras, as Publicações Dom Quixote e a Editorial Caminho que têm nos seus catálogos diversos escritores portugueses e jóias da coroa como António Lobo Antunes, e José Saramago.

Numa entrevista à Notícias Sábado, Fevereiro de 2010:

Os carros são o meu hobby, é algo que me acompanha desde sempre. Em termos competitivos, fui evoluindo aos poucos e agora isto é o máximo. O prazer de correr é único e sinto-me um privilegiado.

Pierre Bourdieu, citado por Arnaldo Saraiva disse que o editor é um personagem duplo que deve saber conciliar a arte e o dinheiro.

Claro que é possível gostar de carros e de livros ou, como na aldeia de Asterix, ser-se bárbaro e gostar de flores, mas não é o caso do personagem que presidencialmente se senta numa cadeira do edifício Leya.

Mário de Carvalho, durante muitos anos editado pela Caminho, em 2012 abandonou o   grupo  Leya pois não estava sujeito a que tivessem demorado três anos para saber quem ele era.

Acho que quem sabe de livros, deve fazer livros, quem sabe de cervejas ou de sabonetes deve tratar de cervejas ou de sabonetes…

Quarta-feira ficámos a saber que José Saramago não volta a ser publicado pela Leya.

Não se conhecem os contornos da decisão, apenas se sabe que chegou ao fim uma relação editorial iniciada há 35 anos, com a publicação de A Noite.

A posição da Leya surge depois de uma das editoras do grupo a Editorial Caminho, ter anunciado deixar de publicar as obras de José Saramago, por falta de acordo com as herdeiras do Nobel da Literatura.

As herdeiras de José Saramago e a Editorial Caminho informam que não foi possível chegar a acordo sobre as condições contratuais que permitiriam continuar a publicar nesta editora a obra do escritor, lê-se num comunicado assinado pelas herdeiras do escritor, a viúva, Pilar del Rio, e a filha, Violante Saramago Matos, e ainda por Tiago Morais Sarmento e Zeferino Coelho, da Editorial Caminho.

José Sucena, administrador da Fundação José Saramago já tornou público que a instituição está a fazer diligências no sentido de encontrar uma editora que sirva a Saramago e a quem Saramago sirva, e avançou a hipótese de, caso não seja encontrada uma editora, ser a própria fundação e editar os livros de José Saramago

Almeida Faria, João tordo, José Eduardo Água Lusa, Ricahrd Zimler, João Tordo, os herdeiros de Sophia Mello Breyner Andresen, o anteriormente citado Mário de carvalho, já abandonaram a Leya.

Miguel Sousa Tavares seguiu o mesmo caminho e, hoje, em declarações ao Público,  fala de descontentamento quanto ao trabalho do grupo que, matou a identidade das editoras” que agregou desde a sua fundação, em 2008. Não creio que o grupo Leya esteja vocacionado para a edição de livros. A Leya partiu do princípio que juntando várias editoras faziam sinergias e conseguiam fazer melhor, mas isto não é como juntar as salsichas Nobre com as salsichas Aveirense.

POSTAIS SEM SELO


O tempo não existe.
Há o presente, a memória, mas o tempo não.


François-Paul Journe

OLHAR AS CAPAS


O Milagre de São Francisco

John Steinbeck
Tradução: Gervásio Álvaro
Capa: Dani el barradas
Editora Livros do Brasil, Lisboa Janeiro de 2008

Havia um crepúsculo rosado. Era aquela doce hora em que a sesta já está terminada e o prazer e as conversas da noite ainda não começaram. Os pinheiros, muito escuros, recortavam-se contra o céu; no solo, todas as coisas estavam mergulhadas em escuridão. O céu, porém, estava tão melancolicamente brilhante como uma recordação. As gaivotas voavam preguiçosas para os seus ninhos nas rochas da costa depois de terem, durante o dia, visitado as fábricas de conserva de peixe de Monterey.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

POSTAIS SEM SELO


do cigano
ter a carta de passagem,
da cidade os garotos numa tarde de futebol,
do marinheiro
encharcado no suor das madrugadas,
de Márcia
os cabelos negros, soltos a beijar o vento

Paulo da Cunha Leão

NOMOFOBIA


Não gosto de telefones, tão pouco de  telemóveis.

Dos telemóveis reconheço a sua utilidade para emergências, sejam elas quais forem, mas apenas para isso.

Há alguns meses que sou proprietário de um primitivo modelo de telemóvel, apenas porque a família entendeu que, começando a ficar gagá, servirá para chamar o 112, o que quer que seja, alguém que me dê uma mãozinha em caso de aflição.

Há quem fique aterrorizado com a ideia de ficar sem bateria, rede ou saldo no telemóvel.

Os ingleses chamam-lhe nomofobia e já está definida como uma sensação de angústia que surge quando alguém se sente impossibilitado de se comunicar ou se vê incontactável estando sem seu telemóvel.

A psicóloga Maria João Moura diz que há pessoas que não desligam o telemóvel para não estarem sozinhas.

Mário de Carvalho a págs. 13 de Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina:

Telefones móveis! Soturma apoquentação! Um país tagarela tem, de um momento para o outro, dez milhões de íncolas a quere saber onde é que os outros param, e a transmitir pensamentos à distãncia.

Maria do Rosário Pedreira no blogue Horas Extraordinárias:

A sociedade moderna, excessivamente tecnológica, torna-nos bichos solitários (no masculino, claro). No Facebook, apanhei há tempos uma fotografia divertida de um bar, na parede do qual o proprietário afixara um pedido para que os clientes largassem os telemóveis e falassem, por favor, uns com os outros. É verdade que muita gente vive completamente escrava destes e de outros aparelhos, talvez para não se sentir muito sozinha, mas ainda assim sozinha porque ignorando por causa disso os que ali estão e podiam fazer-lhe companhia melhor do que as SMS que chegam, irritantemente, a todo o momento e exigem resposta. Com muitos cafés transformados em agências bancárias, desapareceram também as conversas e tertúlias que, nos anos 1960 e 1970, segundo me conta o Manel, juntavam à roda de uma mesa (em Lisboa e no Porto, pelo menos) muita gente que queria falar e discutir assuntos, conhecer escritores e mostrar poemas, levantar a voz contra o poder instituído e planear acções culturais e políticas. Hoje, os cafés têm poucas mesas e, ao que parece, os jovens intelectuais perderam o gosto de se encontrar e trocar impressões, a menos que seja por e-mail. Talvez os blogues tenham substituído esses encontros ao vivo, mas, num período tão mau como o que vivemos, não era descabido que se realizassem de novo tertúlias, até porque delas poderiam sair ideias boas e criativas que nos alegrassem os dias.

Jorge Listopad: 

À mesa de uma esplanada, vejo chegar um casal, jovem ainda. Sentam-se, encomendam a bebida, e logo, no mesmo tempo, como em simultâneo, puxam dos respectivos telemóveis e põem-se a conversar.
Cada um para seu lado, animadamente.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Enviado de Riga em 10 de Junho de 2000 pela Angelika e o Hans-Martin..

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

SARAMAGUEANDO


 De acordo com o programa de Português do ensino secundário, homologado esta segunda-feira, os alunos do 12.º ano vão poder optar entre estudar o Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis, ambas obras de José Saramago.
A excepção acontece nos anos letivos de 2017-2018 e 2018-2019, em que O Ano da Morte de Ricardo Reis se impõe a Memorial do Convento e que integrava os currículos do secundário há largos anos.

De um artigo de opinião de Miguel Real no Público:

1. - MC apresenta uma diferença entre a representação da história visível (presente nos manuais da disciplina de História) e a desconstrução da mesma, evidenciando uma profunda reinterpretação e reflexão sobre a sociedade, forçando a necessidade de inquirição do aluno sobre um outro sentido para a História;

2. - MC é um dos romances de Saramago em que se colocam com maior e melhor nitidez a questão da nova complexidade do estatuto do narrador, elemento de profunda originalidade da obra deste escritor;

3. - MC é atravessado, como referimos, por uma onda de lirismo como dificilmente encontra paralelo no romance português contemporâneo, lirismo profundamente harmónico com a mente adolescente dos alunos, para a qual a entrega à Arte (Scarlatti), à Ciência (Bartolomeu de Gusmão) e ao Maravilhoso (Blimunda) são alternativas credíveis na opção pelo sentido de vida;

4. - MC ostenta uma galeria de personagens maravilhosas, singularmente diferentes da normalidade social, que encanta a mentalidade adolescente, criando-lhe um optimismo existencial, uma vontade de enfrentar a vida como raramente se encontra no romance português;

5. - MC caracteriza na figura de D. João V e dos seus áulicos alguns dos males éticos de que padece a permanente elite portuguesa: a ostentação, a vaidade, o excesso, a ambição tola por imitação de modas estrangeiras, a indiferença para com o sofrimento das populações, a antiga repressão sobre a sexualidade do corpo feminino;

6. - MC denuncia, em estilo irónico, sarcástico, até jocoso, estilo que se conforma com a mentalidade adolescente, atraindo-a, o contexto sócio-político megalómano dos costumes cortesãos do século XVIII e a mentalidade interesseira da corte, obviando a evidentes paralelismos com a actualidade;

7. - MC expõe uma amplidão lexical como raramente se assiste no actual romance português, cruzando vocabulário erudito com popular, histórico com presente, abrindo um novo horizonte no domínio plástico da língua aos alunos;

8. - MC enfatiza a necessidade de transgressão social para que a História avance, enaltecendo a capacidade de acção comandada pelo sonho, pelo visionarismo, pela vontade de criação de um futuro diferente;

9. - MC lega uma mensagem implícita, que repercute inconscientemente na mente dos alunos: a necessidade de cada um construir a sua "passarola", de possuir o seu "sonho" e a necessidade de ser diferente dos restantes para o cumprir;

10. - Finalmente, por todos estes motivos, MC é um dos raros textos da literatura portuguesa que interpenetra de um modo admirável Vida e Literatura, Arte e Cidadania, Existência e Reflexão, não raro reconciliando os estudantes com o estudo da Língua e da História.
Dir-me-ão que, oposto ao presente, poder-se-ia criar um texto com 10 características relevantes de OAMRR que de igual modo o qualificariam como uma narrativa de grande qualidade literária, não inferior a MC. É verdade. Eu próprio o fiz. E, por isso, iniciei este artigo referindo que nada havia a opor à integração de OAMRR nas obras de leitura obrigatória do 12.º ano (único problema, externo ao romance, consistiria numa porventura exagerada presença de Fernando Pessoa no novo programa do 12.º ano, mas, reconheço, também este argumento é subjectivo).

POSTAIS SEM SELO


A vida verdadeira é uma solitária repetição de gestos.

Nuno Júdice


Legenda: pintura de Jack Vettriano

O QUÉ QUE VAI NO PIOLHO?


Dizem que os morangos são a fruta símbolo de Vénus, a deusa do amor.

Dizem também que o champanhe é o leite dos adultos, o néctar dos deuses.

Conta a lenda que Dom Perignon, depois de ter inventado o champanhe, chamou um outro monge e foi-lhe dizendo: Venha depressa provar! Estou a beber estrelas!

Uma cena inesquecível de Pretty Woman?

Quando Richard Gere oferece morangos à Julia Roberts.

 Ela olha interrogativa, e ele responde que os morangos realçam o sabor do champanhe.

Na questão deste pormenor há cepticos.

Quem realmente admita que os morangos realçam o sabor do champanhe, mas que não parece ser a melhor qualidade deste mundo possuir opiniões sólidas e infalíveis porque, se verdade existe na teoria, uma outra conduz-nos a que para que isso, de vero, aconteça, fica sempre a faltar a Julia Roberts…

David Gilmour, em O Clube de Cinema, diz ao filho:

Perguntei certa vez ao David Cronemberg se tinha alguns «prazeres inconfessáveis» em relação ao cinema – filmes que sabia não prestarem mas que adorava na mesma. Abri caminho à sua resposta admitindo ter um fraquinho por UM Sonho de Mulher (1990) com julia Roberts. O filme não tem um único momento verosímil, mas é uma narrativa surpreendentemente efocaz, uma sucessºão de cenas agradáveis que nos prendem até ao fim, depois de ficarmos agarrados àquela história tão idiota.
- Os canais de televisão cristãos – respondeu o Cronemberg sem hesitar.
Alago o fascinava naqueles evangelistas do Sul de cara inchada, a agarrar uma multidão.


Legenda: a cena do filme onde se fala dos morangos e do champanhe, não é bem a que podem ver, mas foi o mais perto que consegui encontrar… 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

OLHARES


Numa tarde cinzenta de Inverno, um homem com o aspecto de ser um imigrante de um país do Leste, reparte o pão com os pombos do Jardim Tristão da Silva.

QUATRO OU CINCO OBJECÇÕES...


Como se calculará, esta conversa vem a propósito do voto da Assembleia da República, que determina o depósito de Eusébio no Panteão. Contra a qual tenho quatro ou cinco objecções. Por um lado, não me cheira que Eusébio gostasse de se ver naquela companhia. Por outro, ninguém lhe pediu autorização para esse exercício de propaganda dos políticos, que ele talvez não apreciasse. E há mais. Há que Eusébio era um génio da sua profissão e de repente (tirando Garrett e Amália) o rodeiam de uma série de mediocridades, que nunca se distinguiram por terem ajudado a humanidade ou os portugueses. Sim, senhor, Eusébio merece um Panteão. Mas não aquele. Um Panteão no estádio do Benfica, ou perto dali, que as pessoas pudessem visitar sem medo de se irritar ou contaminar. Quanto ao Panteão Nacional, do que ele precisa com urgência é de um “saneamento” sucessivo, que o aproxime um pouco da realidade.

Vasco Pulido Valente, Público, 10 de Janeiro

Legenda: fotografia de Aida Santos

OLHAR AS CAPAS


Um Sonho Americano

Norman Mailer
Tradução: H. Silva Letra
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 107
Portugália Editora, Lisboa Setembro de 1968

Tomámos chá com biscoitos, numa confeitaria, em silêncio a maior parte do tempo. Ao levar a chávena aos lábios, em certo momento, notei que a mão me tremia. Cherry também o percebeu.
- Teve uma noite agitada – disse ela.
- Não é a noite – respondi. – É a manhã que me espera.
- Tem medo das próximas horas?
- Estou sempre com medo.
Ela não riu, sacudiu apenas a cabeça.
- Estava com a neura – disse ela.
- Alguma boa razão?
- Sentia-me com disposição para o suicídio.
- É uma coisa que acontece a todas as mulheres bonitas.
- Muito pior que isso.
- Sim.
- Não acha que existe um momento em que é justo o suicídio?
- Talvez.
- Como se fosse a última oportunidade?
- Explique-se.
- Já viveu com os mortos?
Fez a pergunta com o seu rosto de americana prática.
- Não – volvi – Não vivi, realmente.
- Bem, vivi sempre com a mamã e com o papá, enquanto crescia, e eles estavam mortos. Morreram quando eu tinha quatro anos e cinco meses. Um desastre de automóvel. Fiquei com o meu irmão e a minha irmã, mais velhos.
- Eram bons?
- Merda, não – disse Cherry – Eram meio loucos.
Acendeu um cigarro. Os círculos sob os seus olhos denunciavam cansaço, o verde fazia-se violeta na beira das pálpebras e, ao dissipar-se nas faces, ia-se convertendo num amarelo gasto.
- Quando vivemos com os mortos chegamos a compreender que num certo dia, num certo ano, estão prontos a receber-nos – disse ela – Tem de ser naquele, pois se não for poderemos morrer num dia em que ninguém está à espera, e ficar vagando no espaço. É por isso que, quando chega, o impulso é tão forte. Eu sei. O meu dia chegou uma vez. Não o aproveitei.

POSTAIS SEM SELO


Tenho fotografias que provam que nunca exististe.


Legenda:  Uma Thurman em Pulp Fiction

DITOS & REDITOS


É bom ver crescer uma árvore plantada por nós.

O que tem de ser, tem de ser, e tem muita força.

Feliz ao jogo, infeliz aos amores.

Há coisas que nunca se poderão explicar por palavras.

A cultura é um mercado de bugigangas.

Deixar para o dia de amanhã o que ao dia de amanhã pertence.

Subir a pulso.

É proibido o massé.

Ter tempo para ter tempo.

As cadelas apressadas parem os filhos cegos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro na Amora.

OLHAR AS CAPAS


Não Posso Adiar o Coração

António Ramos Rosa
Prefácio Eduardo Lourenço
Plátano Editora, Lisboa, Junho de 1974

Este homem que esperou
humilde em sua casa
que o sol lavasse a cara
ao seu desgosto
  
Este homem que esperou
à sombra de uma árvore
mudar a direcção
ao seu pobre destino
    
Este homem que pensou
com uma pedra na mão
transformá-la num pão
transformá-la num beijo
    
Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve

que a sua própria sombra

CARRILHÕES DA LIBERDADE


Ao longe entre o ocaso do entardecer e o dobre quebrado da meia-noite
Abrigámo-nos na entrada, ribombava um trovão
Enquanto majestosos sinos de faíscas acendiam sombras nos sons
Parecendo os carrilhões da liberdade a faiscar
Faiscando para os guerreiros cuja força não é para combater
Faiscando para os refugiados na indefesa estrada da fuga
E para cada um e todos os soldados desfavorecidos na noite
E nós contemplámos os carrilhões da liberdade a faiscar

Na fornalha derretida da cidade, assistimos inesperadamente
De rostos ocultos enquanto os muros se apertavam
À medida que o eco dos sinos nupciais antes da rajada da chuva
Se dissolvia nos sinos do relâmpago
Dobrando pelos rebeldes, dobrando pelos libertinos
Dobrando pelos desafortunados, os abandonados e rejeitados
Dobrando pelos proscritos, constantemente a arder no perigo
E nós contemplámos os carrilhões da liberdade a faiscar

Por entre o louco martelar místico do granizo feroz e dilacerante
O céu estalava os seus poemas em espanto nu
Que a persistência dos sinos da igreja soprava para longe dentro da brisa
Deixando não mais que sinos de relâmpago e o seu trovão
Soando pelos mansos, soando pelos afáveis
Soando pelos guardiães e protectores da mente
E pelo pintor não-alinhado atrasado para além do seu tempo
E nós contemplámos os carrilhões da liberdade a faiscar

Através do selvagem entardecer catedralesco a chuva desfiava contos
Para as formas anónimas sem posição nenhuma
Dobrando pelas línguas sem lugar onde conduzir os seus pensamentos
Em situações dadas como certas
Dobrando pelos surdos e cegos, dobrando pelos mudos
Dobrando pela mãe sem companheiro, maltratada, a mal-apelidada prostituta
Pelo criminosos de pequeno delito, acossado e enganado pela perseguição
E nós contemplámos os carrilhões da liberdade a faiscar

Ainda que a cortina branca duma nuvem num canto longínquo cintilasse
E a hipnótica neblina derramada se fosse elevando lentamente
A luz eléctrica ainda dardejava como flechas, disparadas todas excepto aquelas
Condenadas a perder o rumo ou a ser impedidas de o perder
Dobrando pelos que buscam, no seu trilho da procura
Pelos amantes de coração solitário com uma história demasiado pessoal
E por cada alma dócil e inofensiva erradamente colocada dentro duma prisão
E nós contemplámos os carrilhões da liberdade a faiscar

De olhos brilhantes como estrelas e rindo tal como recordo quando fomos apanhados
Capturados pela ausência da passageira das horas, pois pairavam suspensas
Enquanto escutávamos uma última vez e observávamos com um último olhar
Enfeitiçados e absorvidos até o dobre dos sinos terminar
Dobrando pelos doloridos cujas feridas não podem ser tratadas
Pelos incontáveis viciados desorientados, acusados, abusados e coisas piores
E por cada pessoa angustiada em todo o vasto universo
E nós contemplámos os carrilhões da liberdade a faiscar

Bob Dylan

Canção do álbum Another Side ofBob Dylan (1964)

 Bob Dylan em Canções Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006


Na impossibilidade de colocar a interpretação de Bob Dylan, optou-se por uma gravação, ao vivo, de Bruce Sprinsteen e outros.

domingo, 19 de janeiro de 2014

PORQUE HOJE É DOMINGO


e porque os dias estão triste e e sombrios, trazer aqui uma canção que faça mudar o rumo: Smile.
Tanto quanto me contaram, fala da importância de sorrir, mesmo que por dentro a tristeza se passeie e se possa concluir que a vida vale sempre a pena.
Há muitas interpretações desta canção, mas escolhi a de que mais gosto, a de Nat King Cole.
Bom domingo.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Há semanas com dias em cheio, ou como lhe chamou o Expresso, eufóricos:

Gaspar o ex-ministro das finanças que nos empurrou para o patamar onde , a tudo o custo, tentamos sobreviver,  com o apoio da Merkel vai para o FMI, o ex-ministro da economia, o Álvaro, vai para a OCDE, José Luís Arnaut vai para a Goldman Sachs.

Bagão Félix volta e meia  lembra-nos que melhor do que ser ministro é ser ex-ministro, Pedro Santos Guerreiro atalha melhor do que ser ministro é trabalhar com bancos que trabalham com ministros.

O escritório de advocacia de José Luís Arnaut tem estado em todas as privatizações que o governo tem vindo a despachar: EDP, REN,, ANA, CTT, também a da TAP, que não teve pernas para andar, mas logo se verá.

O governo, depois de chamar nomes feios à Goldman Sachs, acaba de a contratar para assessorar a dívida pública.

De imediato, a Sachs assobia a Arnaut para que ocupe um lugar de topo na empresa, um lugar deixado vago por Mario Monti, ex-primeiro ministro italiano e antigo comissario europeu.

O tio do sr. Edson Athaide dizia que um homem que não se deixa subornar não é de confiança, ao passo que o escritor Eugénio Lisboa, escrevia no último JL que a corrupção em Portugal, tem uma característica distintiva: é totalmente descarada e primária.

Ângela Silva, jornalista do Expresso lembra que Arnaut sabe gerir influências e tirar partido delas e com Nuno Morais Sarmento e Miguel Relvas formou durante anos o núcleo duro do barrosismo. Hoje, curiosamente, todos trocaram a política pelos negócios.

O puto, entre duas colheradas de Nestum: mamã,  quando eu crescer posso ser corrupto?

No limiar do vómito e, porque isto anda tido ligado, socorro-me de um poema de José Miguel Silva cujo título diz tudo: Feios, Porcos e Maus:

Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, a interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.


Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos — tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza em cima de tudo.


A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director-executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

BREL EM VEZ DE CARTAS


Basta dizer que, quando apareceram no mercado os primeiros gravadores a preço acessível, deixámos de escrever cartas às nossas namoradas. Comprávamos os discos de Brel, gravávamos esta ou aquela passagem, fazíamos uma espécie de montagem sonora e enviávamos a fita à sereiazinha cruel. E nesta bolsa de prendas amorosas, a cotação de uma canção de Brel valia bem duas dúzias de rosas.


Didier Decoin em Jacques Brel, Antologia Breve, Assírio & Alvim, Lisboa Setembro de 1985

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Era de treino que ele gostava, não havia dúvida alguma. Mesmo a organização dos horários de cada companhia originava problemas, mas bons problemas. Era, mal comparado, como resolver problemas de palavras cruzadas. O major acendeu um charuto e olhou pela abertura da barraca, através dos cem metros de selva para o oceano, que lambia delicadamente a areia. Respirou fundo, saboreando o cheiro a peixe que vinha do mar. Esforçava-se o mais que podia, ninguém o podia negar. Uma satisfação cor-de-rosa percorreu-o todo.
Nesse momento teve uma ideia. Podia tornar mais agradáveis as aulas de leitura de mapas com uma fotografia, a cores, de tamanho natural, da Betty Grable em fato de banho, com um sistema de coordenadas desenhado em cima. O instrutor poderia apontar para as várias partes do corpo e pedir:
«Dê-me as coordenadas.»
Mas onde é que iria arranjar uma fotografia de tamanho natural? Podia perguntar ao quartel-mestre, mas diabos o levassem se ia fazer figura de parvo a fazer uma requisição desse género. Talvez o capelão Daves, que era um gajo fixe – mas não, era melhor não lhe perguntar.
Dalleson coçou a cabeça. Podia escrever uma carta ao quartel-general do exército (serviços especiais). Talvez eles não tivessem a Grable, mas qualquer pin-up daria o mesmo resultado.
Era isso. Escreveria ao quartel-general. E entretanto podia comunicar também o facto à secção de Auxiliares de Treino do Ministério da Guerra. Era de ideias como essa que eles andavam à procura. O major estava ali a ver a sua ideia posta em execução em todas as unidades do exército. Esfregou as mãos com entusiasmo.
Podre de chique.

Norman Mailer em Os Nus e os Mortos

Legenda: Betty Grable em fato de banho mas não a cores, como queria o major.

sábado, 18 de janeiro de 2014

POETA CASTRADO, NÃO!


Naquela madrugada, faz hoje 30 anos, Ary dos Santos morreu porque não queria estar mais vivo, ou como escreveu Baptista-Bastos, morreu de álcool, de desespero e de solidão.
Natália Correia tinha-o como um vulcão de afectividade, o jornalismo cultural tratou-o sempre com o desdém que reserva aos letristas eJ osé Saramago lembrou que numa terra de narcisistas, poetas ou comuns, que por isso mesmo não raro concitam contra si atitudes de rejeição, porventura justificadas , o Ary dos Santos fez de tão máximo defeito a sua máxima arma. Arma desarmada. Porque o Ary que nós conhecemos, invejado, troçado, desprezado, que ria de tudo isso, sacudindo a cabeça leonina, era, em qualquer canto desse quarto escuro onde nos fechamos nas horas más, um puto que esfregava os joelhos esfolados e engolia as lágrimas, heroizinho triste, e depois ia sentar-se a escrever versos, como quem escreve cartas, para a alegria, para a ternura, para o amor e a esperança. Versos que queriam ser uma voz e foram.


 Soneto presente

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.


Estrela da Tarde tem música de Fernando Tordo.
Soneto Presente pertence ao livro Resumo (1973) e é tirado de Vinte Anos de Poesia, antologia de Ary dos Santos publicada pelo Círculo de Leitores, Maio de 1984

Legenda: fotografia tirada de Ary dos Santos, Fotobiografia de Alberto Bemfeita, Editorial Caminho, Lisboa Agosto de 2003..