sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

OS CROMOS DO BOTECO


Valsas de Strauss.
Como já disse um dia,  não há apenas Cromos no Boteco.

CORREIOMANHADAS


O mais recente relatório da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação revela que o Correio da Manhã continua a ser o diário mais vendido em Portugal.

Pela história aqui contada torna-se fácil perceber das razões do triste sucesso.

Um público muito pouco exigente, que adora o sensacionalismo, que gosta de mergulhar na podridão de notícias sórdidas, de escândalos merdosos de gente da sociedade jet-set ou cor-de-rosa, é, desde o primeiro número (19 de Março de 1979), o painel comprador e leitor da pasquinada.

Foi Mário Soares que um dia (Público 4 de Abril de 2009) contou como nasceu a folheca.

Perante o insucesso de vendas de A Luta, Mário Soares pediu a Willy Brandt que enviasse alguém a Portugal para explicar como se fazia um jornal que vendesse.

O especialista chegou e disse:

Se querem ganhar dinheiro, nunca metam política na primeira página e não metam também notícias importantes, ponham mulheres e crime.

Mário Soares franziu o nariz. Vítor Direito chegou-se à frente e disse:

Se não querem pegar nisto, eu vou pegar nestas ideias.

Assim nasceu esse nojo a que , simplesmente, arrepia chamar jornal.

JORNALISMO DE SARJETA


Facto:

Na sequência da notícia de que pai de Carlos Mané é suspeito de tráfico de droga, Leonardo Jardim reforçou o moral do jogador.
O treinador do Sporting, Leonardo Jardim, afirmou que  o futebolista Carlos Mané é um exemplo e um grande profissional, deixando elogios ao crescimento do jogador.

Fico triste com este tipo de notícias, que tenta influenciar a performance de um jovem atleta de valor. O pai do Mané está fora do país há mais de um ano e só agora se lembraram, porque fez dois golos e está na primeira equipa, mas isso não o vai influenciar, disse o técnico, comentando uma notícia do Correio da Manhã, que refere que o pai do futebolista é suspeito de tráfico de droga.

O jornalismo de sarjeta no seu melhor!

O jornalista Ferreira Fernandes deixou hoje no Diário de Notícias, uma belíssima e judiciosa crónica sobre o vómito que a notícia do Correio da Manhã constitui.
Convém lembrar que esta gente não é inocente, sabem o que estão a fazer, seguem à risca as ordens da administração que lhes mandam vender papel a qualquer preço, mesmo quando põem a dignidade de cidadãos.

No DN colaborou em tempos Fernando Pessoa, um bêbedo. Um tipo que era apanhado, não poucas vezes, em flagrante de litro. Para desculpa do DN, naqueles tempos ainda não havia o arsenal de leis purificadoras que permite, hoje, o Correio da Manhã (salve, ó bíblia dos costumes morigeradores!) tirar os seus jornalistas da perdição. Um jornalista tipo CM vai para uma reportagem e salta-lhe ao caminho o advogado da empresa: "Fulano, vamos lá ao nosso exame de deontologia!" O advogado aponta a linha reta feita a giz que o jornalista, de braços abertos, tem de percorrer sem bambolear. Exame conseguido, o jornalista já pode ir fazer, por exemplo, a manchete de ontem do CM: "Pai de Sicrano em fuga por tráfico de droga". Não importa que o Sicrano, de 19 anos, não tenha culpa dos tráficos do pai. Leva com o seu nome, o traje de trabalho (Sicrano é jogador de futebol) e a foto na primeira página. Algumas almas piedosas podem não achar isto bonito, mas o importante, não é?, é que aquela manchete não foi feita por um bêbedo. Um jornal com manchetes alcoólicas, fontes anónimas e jornalistas sóbrios. E, suspeito, talvez outros jornais lhe sigam o exemplo. Infelizmente, eu, que sempre bebi pouco, tenho de declarar que nunca soprarei o balão numa redação. Cruzei-me com alguns camaradas talentosíssimos e bêbedos, e, esgotadas todas as tentativas de lhes chegar às canelas, quero guardar a última esperança de o conseguir com uns copos.

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Parlamento aprovou esta sexta-feira a "criação urgente de um Grupo de Trabalho sobre o Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico", só com os votos do PSD e sete deputados do CDS.
Os restantes deputados centristas votaram contra este projeto de resolução, que vem assinado pelas bancadas da maioria.
Os dois projetos de resolução do PCP e do BE que pediam a "renegociação ou desvinculação" do Acordo Ortográfico, no caso da proposta comunista, e a "revisão" do mesmo, na proposta bloquista, foram chumbados.

Fonte: Diário de Notícias.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio da Movieplay Portuguesa para uma compilação de músicas de José Afonso, publicado na contracapa da revista Ler nº 34, Primavera de 1996

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

OLHARES


Estação do Rossio em Lisboa.

DESAVENÇAS

O Parlamento Europeu realizou ontem um debate sobre o resultado do referendo suíço do dia 9, em que a maioria dos suíços, 50,3%, votaram a favor do "Sim" da imposição de quotas para imigrantes e mão-de-obra estrangeira. Durante o mesmo, os ânimos exaltaram-se e vários eurodeputados trocaram acusações.

Não raro, quando vejo uma referência à Suiça, ocorre-me o Orson Welles no filme O Terceiro Homem de Carol Reed  que muitos dizem ter todos os dedos de Welles na realização do filme:

Um país que é um modelo de ordem, de organização, de seriedade, mas o que deu ao mundo? O relógio de cuco.

Ana Cristina Leonardo, numa crónica no Expresso, escrevia que o suíço de que mais gostava era Robert Walser.

QUOTIDIANOS


Hoje fui apanhado a falar sozinho por essas ruas… Que o primeiro poeta que nunca falou sozinho pelas ruas se levante e me atire a primeira estrela! Cá nós, os poetas, nunca atiramos pedras uns aos outros. Só atiramos estrelas.
E eu, às três da madrugada com passos de rasgar chão, a ouvir ranger nos sapatos o violoncelo da minha solidão…

Montagem de palavras de José Gomes Ferreira tiradas de Poesia II, Portugália Editora, Lisboa Outubro de 1962.

HINO DE CAXIAS


Sempre tive como referência que a autoria do Hino de Caxias, pelo menos a sua letra, é do poeta Vasco da Costa Marques. Há fontes que também lhe atribuem a autoria da música.

Também há quem considere que o Hino de Caxias é um trabalho colectivo em que terá colaborado Vasco da Costa Marques juntamente com outros seus camaradas presos na mesma cela em Caxias.

A única versão que possuo do Hino de Caxias faz parte de uma gravação ao vivo, editada em cassette, de um espectáculo realizado no Pavilhão dos Desportos, nos dias 18 e 19 de Março de 1977, com texto de José Carlos Ary dos Santos, Manuel Branco, Joaquim Pessoa, Rui Pedro, João Rodrigues, Ruben de Carvalho e publicada pelas Edições Avante.

Todas as canções interpretadas no espectáculo têm indicação dos respectivos autores, excepto o Hino de Caxias o que, provavelmente, remete para a sua autoria colectiva.

Seja como for, trata-se de uma peça importantíssima da luta contra a ditadura.

 Longos corredores nas trevas percorremos
sob o olhar feroz dos carcereiros
mas nem a luz dos olhos que perdemos
nos faz perder a fé nos companheiros.

Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca.

Cortam o sol por sobre os nossos olhos
muros e grades encerram horizontes
mas nós sabemos onde a vida passa
e a nossa esperança é o mais alto dos montes.

Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca.

Podem rasgar meu corpo à chicotada
podem calar meu grito enrouquecido
que para viver de alma ajoelhada
vale bem mais morrer de rosto erguido.


Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

MARCADORES DE LIVROS


OLHAR AS CAPAS


O Dito e o Feito

João Martins Pereira
Capa: José Cerqueira
Edições Salamandra, Lisboa 1989

Morreu o Zeca Afonso. Mal o conheci, porque assim o quis a minha quase obsessiva, e talvez ridícula, fuga aos ídolos, mesmo os que venero, mesmo, como era o caso do Zeca, os «involuntários» - os anti-ídolos. Mas sofri, melhor, revoltei-me, com a sua doença como se fosse um amigo. E nem sequer estive em Setúbal messe último dia, porque não fui capaz de imaginar que a «festa» se prolongaria até à noite. Deixo aqui registado o texto que me pediu o Combate, e a que chamei «O que faz falta…»:
«Ir a enterrar ao som das canções, horas a fio, pela noite dentro: é belo. Só um poeta a tanto pode aspirar. Mas não chega ser poeta, bem chega de poemas fazer canções, nem mesmo chega que as canções nos fiquem no ouvido e nos ocorram, quase sem querermos, aos lábios. Não. Para que isso aconteça, é preciso que cada um de nós, vindos de tantos lados, por tantos caminhos, andarilhos de tão diferentes jornadas, sinta aquelas canções como saídas de dentro de si – do melhor que há dentro de si. É então que reconhecemos no poeta, naquele poeta, a nossa própria voz, a que disse o que gostaríamos de saber dizer ou de poder dizer. O que disse o que não fomos, somos, capazes de dizer não tanto por não sermos poetas, mas talvez bem mais porque não tivemos, não temos, a coragem de o dizer.
É bom que se saiba que tal homem, tal poeta, que nos alimentou os sonhos, as lutas, a vida, é o oposto, o radicalmente oposto, do político que todos os dias nos diz os seus esforços para resolver os nossos problemas, para quem a nossa voz se exprime em votos e não em poemas, que nos fala para ser ouvido e não para ser cantado, que não nos conhece nem pretende conhecer-nos – que um dia porventura “se curva perante a memória do poeta” como mero acto protocolar de que pode colher alguns dividendos. O poeta, esse de quem falo, é avesso a actos protocolares e ignora a palavra “dividendo”. Não merece sequer que lhe venham a chamar “generoso”, ou “abnegado”, ou “impoluto lutador”, ou etc., etc.
Merece, isso sim – e teria merecido muito mais, é sempre tarde que o sabemos! – que lhe cantem as canções quando desce à terra. E que lhas fiquem a cantar ainda depois de morrerem todos os políticos. E que um dia, quem sabe, como noutro dia aconteceu, possam transformá-las em hinos de vitória.
Os povos sabem que são homens como o Zeca Afonso que lhe fazem falta.»


Nota do editor: Esta capa deveria ter sido publicada no dia 33 quando passaram 27 anos sobre a morte de José Afonso. Um erro de programação remeteu-a para hoje. Como cá pela casa não precisamos de exactas efemérides para falar de quem gostamos, a preocupação pelo erro não nos incomoda.
O importante é não esquecer!

O Q'UÉ QUE VAI NO PIOLHO?


A madre Bernarda enche os copos de vinho.

Madre Bernarda: Esta preciosidade é oferta da casa. Quem sabe se não estaremos no limiar de uma nova era? Suportámos longamente a era do abandono. Talvez estejamos a  entrar na era da hospitalidade.

João de Deus tira duas cigarrilhas e oferece uma à madre Bernarda. João de Deus (acendendo as cigarrilhas): Com a recrudescência dos fascismos à perna?

Madre Bernarda (expelindo uma baforada): Vou proferir uma blasfémia, mas como Staline dizia, o melhor fascista é o fascista morto. Para que a Besta do apocalipse não ressurja. Nunca mais.

Fazem um brinde e bebem.

Legenda: João César Monteiro e Manuela Freitas em AsBodas de Deus.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O SENHOR COLUNA (1935-2914)


Era assim que Eusébio – e não só! - tratava Mário Esteves Coluna que hoje, em Maputo, morreu aos 78 anos.

Era o respeito e a ternura por um grande senhor do futebol, respeito partilhado por todos os que foram seus companheiros de equipa, ou que com ele conviveram.

O grande capitão, ou o monstro sagrado, colocado, pelas respectivas instâncias, no leque dos 100 melhores jogadores mundiais do Século XX.

Quando Coluna chegou ao Benfica, tinha eu 9 anos e desde os 6 que via futebol.

Estou agora sentado nas bancadas de pedra do velho Estádio da Luz, ao lado do meu avô que se protegia do sol com um chapéu feito de folhas de jornal.

Não lembro agora se assisti à estreia de Coluna, mas acompanhei toda a sua carreira, vi o suficiente para dizer que quando colocou no braço a braçadeira de capitão, que lhe deixou um outro grande capitão e brilhante jogador que se chamava José Águas, aqueles rapazes passaram a ter um ser solidário e humano e que os ajudou a voarem mais alto. Homem de poucas falas, sereno, nunca necessitou de gritos para impor respeito e disciplina.

Bastava um simples olhar.

Lembro-me do meu pai dizer que era nos jogos que o Benfica fazia fora da Luz fora da Luz, que o seu gigantesco trabalho de sapa, de luta mais sobressaía.

O Benfica daqueles tempos foi o que a história regista, montra de grandes jogadores, que se tornaram ainda maiores por ao lado terem aquela figura incontornável de homem sabedor e solidário.

No banco estava um treinador mas dentro do campo havia aquele maestro.

O que fazia toda a diferença.

Já não há jogadores assim, aliás no futebol já nada é como no tempo em que me sentava, com o meu avô, nas bancadas de pedra do Estádio da Luz.

Saudades…

Passados todos estes tempos, e para se perceber o quanto Coluna era importante na manobra da equipa, mantenho uma certeza: o Benfica não ganhou a terceira Taça dos Campeões Europeus, contra o Milan, Wembley, 25 de Maio de 1963, uma bonita tarde de sol, televisão a preto e branco, porque, propositadamente ou não, quando o Benfica ganhava por um a zero, inevitável golo de Eusébio, os italianos, nos primeiros minutos da 2ª parte, lesionaram gravemente Mário Coluna.

Porque para além do inesquecível ferrolho, os italianos tinham por lá uma rapaziada que faziam do pontapé e da canelada a sua matriz de jogo. Cirandava na equipa Trapattoni que, muitos anos depois, como treinador, seria campeão no Benfica.

Não havia substituições, Coluna esteve longo tempo a ser assistido e só regressou, muito debilitado, a escassos minutos do fim do jogo. Já o Milão tinha batido por duas vezes o Costa Pereira, dois golos da autoria de um tal Altafini, brasileiro naturalizado italiano.

Terminada a carreira, quando aconteceu o 25 de Abril, Mário Coluna respondeu ao aceno que Samora Machel lhe endereçou para voltar a Moçambique, terra natal, onde desempenhou funções governativas e desportivas.
Aos poucos vão desaparecendo os nomes grandes da minha juventude, as minhas referências.

Os escritores e os cantores encontro-lhes as obras nas estantes mas para aquelas maravilhosas jogadas, aqueles gritos de golo na garganta… apenas a memória.

Fazer o resto do caminho em silêncio, um exercício sempre solitário e repleto de tristeza.

Em meia dúzia de dias Eusébio e Coluna deixaram-nos.


Que horrível começo de ano!

Legenda: Mário Coluna passeado em ombros na sua Festa de Despedida, 8 de Dezembro de 1970.
Fotografia tirada de  100 Anos de Lenda, Diário de Notícias Lisboa, Dezembro de 2004

OLHAR AS CAPAS


Maria Eugénia Varela Gomes – Contra Ventos e Marés

Maria Manuela Cruzeiro
Capa: Margarida Baldaia
Colecção Campo da Memória nº 12
Campo das Letras, Porto, Dezembro de 2003

A oposição civil vivia a sonhar com a revolta militar… Foi uma coisa que eu rapidamente entendi. E houve um homem que me fez entender melhor do que ninguém: foi o Sousa Tavares. É que eles queriam a revolta militar. O Sousa Tavares vivia pendurado em militares, só queria militares…
Porque o terror que eles tinham era de uma revolução com o povo, que eles não controlassem e que se pudesse caminhar para a esquerda. Portanto o putch militar era com que toda a oposição antifascista, não comunista, sonhava. E era… chegava a ser impressionante a pressão… sobre os militares. E a má vontade e a irritação contra os militares…

QUOTIDIANOS


 Temos de ser militantes do quotidiano. E somos muito pouco militantes.

João Mota, em entrevista ao Público, 5 de Dezembro 2011.

Legenda: não foi possível obter identificação/origem do autor da fotografia.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

OLHAR AS CAPAS



Depoimento

Marcelo Caetano
Distribuidora Record, Rio de Janeiro, 1974

Diga-se o que se disser, a massa do País era salazarista.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

PORQUE HOJE É DOMINGO



Nestes dias vai acontecendo que o sol, apenas, aparece aos domingos.
Talvez por isso me lembrei de uma cantiga muito antiga, também muito ouvida na juke box da Esplanada do Marques na Trafaria, também muito dançada, diga-se.
Os filhos fartam-se de rir mas era assim.
25 de Abril à parte, não troco esses tempos por nada.
Bom domingo e aproveitem os bocadinhos de sol que acontecem lá fora.

NOTÍCIAS DO CIRCO


 Falta de assinatura do ex-ministro para subscrever a lista de Passos Coelho para o Conselho Nacional foi contornada com uma declaração enviada por email
A dúvida instalou-se hoje de manhã no XXXV Congresso do PSD: como é que, estando no Brasil, Miguel Relvas assinou a subscrição da lista de Pedro Passos Coelho ao Conselho Nacional, a qual encabeçou? Segundo informações recolhidas pelo DN, o antigo ministro enviou por email uma declaração escrita, o que foi aceite pelo Conselho de de Jurisdição do PSD, que supervisionou as eleições internas.
A lista liderada por Miguel Relvas ao Conselho Nacional do PSD foi a mais votada com 179 votos, o que corresponde a 18 mandatos, mas seguida de perto da lista da JSD, liderada por Pedro Pimpão, que conseguiu 141 votos e 14 mandatos.
A votação expressou o descontentamento dos congressistas. Apenas 23,4% dos eleitores apoiaram a lista oficial apresentada por Pedro Passos Coelho

Fonte: Diário de Notícias

Legenda: imagem Ritch Stim

COM OS QUAIS CONVERSA NORMALMENTE


Notícia da grande farsa: o presidente Salazar continua a receber alguns dos seus amigos mais íntimos, com os quais conversa normalmente.

Fonte: Notícias de Portugal nº 1138, 22 de Fevereiro de 1969

sábado, 22 de fevereiro de 2014

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS



Acontece que no Boteco não há  apenas Cromos e já tenho, para além dos ditos, colocado aqui alguns disco interessantes
O que vêem aí é um single promocional do álbum Rua da Saudade. que assinala os 25 anos da morte de Ary dos Santos, efeméride que ocorreu em 2009.
Custou-me cinquenta cêntimos, apesar de na contracapa estar assinalado venda proibida.
Como não sou da inspecção, trouxe-o para casa e, diga-se, que cinquenta cêntimos nem dá para beber, um café e esta descoberta vai fazer-me procurar o disco que, muito honestamente, me passou ao lado, não dei conta da sua publicação e, pela amostra, me parece interessante.
Há por lá canções do Fernando Tordo que esta semana nos deixou para fixar residência no Brasil.

OLHAR AS CAPAS



Os Anos Decisivos
Portugal 1962-1985
Um Testemunho

César Oliveira
Editorial Presença, Lisboa 1993

Em Cuimba pernoitámos após termos percorrido a escassa centena de quilómetros desde S. Salvador.
Procurei aí o tal capitão Ernesto Melo Antunes de quem, no calor de Luanda, o Assis Pacheco me falara.
Relativamente baixo e entroncado, óculos, sempre a fumar furiosamente cigarros de tabaco negro, recebeu-me com uma relativa desconfiança, até lhe começar dar algumas referências de que não podiam resultar equívocos ou incertezas. Abriu-se, então, num sorriso que simultaneamente envolvia os olhos e a boca, deixando apenas entrever os dentes, um sorriso «curto» e ao mesmo tempo franco e confiante, e na medida em que a nossa conversa progredia, manteve ainda esse sorriso. Para um canto do quarto (ou do gabinete?) que resguardava livros, e entregou-me para ler Les Damnés de la Terre de Frans Fanon – a «quase» Bíblia do anticolonialismo militante.
Lembro-me que lhe carpi mágoas, lhe falei de deserções que tinham ocorrido há pouco tempo,  mesmo ao lado do sector do nosso batalhão, no Luvo, com oficiais milicianos, um dos quais oriundo de Cabo Verde. Respondeu-me – naquele fim do mês de maio de 1964 – que o lugar dos antifascistas era nas Forças Armadas, que todas as possíveis mudanças políticas só poderiam vir dos militares que era necessário articular a sociedade civil com a militar em termos da ruptura com o regime e da construção da democracia. Olhei e ouvi, meio embasbacado, tanto me pareciam utópicas as palavras e os sonhos daquele capitão, o mais civil dos muitos militares que conheci.

OS VAMPIROS


DR. JOSÉ AFONSO EM BALADAS DE COIMBRA
RAPSÓDIA EPF 5218
Editado em 1963

Acompanhado à viola por Rui Pato
Foto da capa de Rocha Pato

Os Vampiros
 - Dr. José Afonso
Canção Vai...E Vem... -
Dr. José Afonso/Paulo Armando
Menino Do Bairro Negro - Dr. José Afonso

As Pombas - Luís Andrade/Dr. José Afonso

Cantar para que os desertos fiquem à sombra.

Só cantando se pode incomodar, escreverá Manuel Alegre.

Poderia ser uma outra – e são tantas! - mas é esta: Os Vampiros do José Afonso.

Para muitos será a memória mais antiga que têm das suas.

Canção que marcou a luta contra a ditadura de Salazar/ Caetano.

Uma mensagem dura e crua, uma canção daqueles tempos mas também de todos os tempos. Hoje, por exemplo.

Viriato Teles em  As Voltas de Um Andarilho (1)salienta que Os Vampiros é o primeiro tema vincadamente político de José Afonso mas admite, citando alguns companheiros de então, que não terá sido uma intenção social.

A música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define esse compromisso mas o conjunto de circunstãncias que o envolvem histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta.

José Afonso (2)
.
O tempo em que nos jornais, para que a coronelada não topasse assim tão de repente, o nome do Zeca era assim escrito:
  
                                        osnofAèsoJ

A noite das lágrimas e da raiva. A madrugada das carícias e do sorriso. O dia claro da festa colectiva. Tudo isso se encontra na poesia cantada de  José Afonso, cantada por José Afonso. A luminosa gargalhada do povo, o seu suor de sangue nas noras de esforço ingrato e de absurda expiação. O lirismo primaveril e feminino das bailias que não morreram. E o orvalho da esperança. E os ecos de um grande coro de fraternidade sonhada e assumida. José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã.
No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas, com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança. Singelo José Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela panda, do Alentejo infinito sem redenção, dos pinhais da melancolia, dos amores sem medida, do sabor de ser irmão. José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, é a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova.

Urbano Tavares Rodrigues (3)

De facto ao ouvir-se José Afonso pela primeira vez, há uma pergunta que logo nos acode: - «Que voz é esta, tão nova e substantiva, que imediatamente se nos torna familiar?». De tal modo se identifica com as nossas aspirações que nos parece tratar-se de uma voz que sempre nos acompanhou, connosco percorrendo este «areal onde não nasce o dia», agora amplificando e dando forma nova aos cantos ouvidos nas duras tarefas do Povo.

Manuel Simões (4)



(1) As Voltas de Um Andarilho, Viriato Teles, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 2009
(2) Na contracapa de As Voltas do Andarilho de Viriato Teles
(3) Contracapa do álbum de José Afonso Cantares do Andarilho, Orfeu STAT 002 (1968)
(4) Prefácio a Cantares de José Afonso, Nova Realidade, Lisboa s/d

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Foi há 40 anos.

Foi ontem.

Se quiser andar às voltas com a História, escolho este dia como a Hora H do arranque do 25 de Abril, o dia em que o livro de General António de Spínola, Portugal e o Futuro, apareceu nos escaparates das livrarias.

Para trás ficaram as muitas reuniões que os capitães foram realizando até chegarem à que aconteceu, 9 de Setembro de 1973, em Alcáçovas, onde é dada a picadela no elefante adormecido e fundado o Movimento dos Capitães.

A 22 de Fevereiro de 1974, é então posto à venda Portugal e o Futuro.

Sabe- se, é um pormenor da História, mas Spínola não escreveu o livro.

A redacção, e não só, está atribuída a um escritor-fantasma, um oficial oriundo da numerosa e diversificada esfera spinolista.

Porque é difícil aceitar que Spínola, entre muitas outras que se encontram no livro, tivesse a opinião  de que nunca a política de um governo pode ser autêntica se não se orientar pelos anseios dos governados.

Demasiada areia para a cabeça de um personagem tido como vaidoso, com pouquíssima apetência cultural e demagogo.

A 11 de Março de 1974, Artur Portela Filho, publica, no República, na sua coluna, A Funda, uma Carta Aberta ao General Spínola.

Termina assim:

«Portugal e o Futuro» surge como «o livro esperado».
É possível, mas por quem?
Pela nossa parte o livro a escrever não é este – é outro.
E será uma obra colectiva.

E assim começava:

No fenómeno que «Portugal e o Futuro» é, há a distinguir duas coisas – o livro ele próprio e V. Ex.ª
Isto porque o que o livro diz é muito menos original do que o facto de ser V. Ex.ª a dizê-lo.
V. Ex.ª e a sua circunstância.
De resto a circunstância de V. Ex.ª do que V. Ex.ª
Definindo a África como o problema mais agudo da nossa geração, e propondo a criação de uma Comunidade Lusíada, clara e insofismavelmente referendada, V. Exª não põe, ao país, uma opção nova – põe, ao país, a novidade que é ser V. Exª a pô-la.
«Portugal e o Futuro» não é uma proposta nova.
V. Exª é.
Daí que, se há alguma coisa de decisivo neste livro, é, muito simplesmente, - o autógrafo de V. Exª.
O que não provando a debilidade do livro, prova a força que V. Ex.ª

Em 14 de Agosto de 1996, Vicente Jorge Silva, escreve no Público:

O Marechal Spínola ficará para a História não por qualquer feito militar de relevo ou pela sua actividade militar mas por ter escrito um livro. O 25 de Abril não foi obra de um livro. Mas sem esse livro e sem a assinatura do seu autor, é provável que o sobressalto libertador que uniu então as Forças Armadas não tivesse sido possível.

A 15 de Março um despacho enviado pela Secretaria-Geral da Presidência do Conselho à Imprensa Nacional, para próxima publicação no «Diário do Governo», exonerou os generais Costa Gomes e António de Spínola dos cargos de chefe e vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, que ocupavam por designação directa do chefe do Governo. Um outro despacho nomeou o General Luz Cunha, que ocupava o cargo de comandante da Região Militar de Angola, para suceder a Costa Gomes.

Por estes dias, irei repescar livros, discos, notícias, algo que é parte da minha memória do pré e pós 25 de Abril.

Legenda: pormenor da 1ª página do República de 22 de Fevereiro de 1974.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

MARCADORES DE LIVROS


NOTÍCIAS DO CIRCO


Começou hoje em Lisboa o 35.º congresso do PSD.

O líder da bancada parlamentar do partido, em conversa com uma jornalista do Jornal de Notícias, lamentou que ex-dirigentes sociais-democratas façam oposição interna por via do comentário televisivo.

Constatou o líder parlamentar: a vida das pessoas não está melhor mas o país está melhor do que em 2011.

Acredita ainda que, face à vida melhor das pessoas, os portugueses saberão reconhecê-lo nas eleições legislativas.

Leram bem?

Então não se esqueçam para depois não se lamentarem.

Porque é sempre tarde quando se chora!...

QUOTIDIANOS


Um sem-abrigo de 33 anos foi detido pela PSP por suspeita de furto, em Lisboa. Presente a tribunal, o juiz constituiu-o arguido com termo de identidade e residência. Uma ironia do sistema. É que esta medida de coação não foi concebida a pensar nas pessoas que não têm residência. O homem detido no Beco da Galheta não tem casa, vive nas ruas, mas fica obrigado pelo tribunal a não mudar de residência nem dela se ausentar por mais de cinco dias sem comunicar a nova morada ou o lugar onde possa ser encontrado. Quando foi detido pela PSP no Beco da Galheta, em Lisboa, o sem-abrigo tinha na sua posse 1165 euros em dinheiro, uma carta de condução roubada e cartões de memória micro USB. Questionado pelos agentes, disse ter encontrado os bens na via pública.

Fonte: Diário de Notícias

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

A CAPITAL


Neste dia, no ano de 1967, saía o primeiro número de A Capital

O jornal nasce de uma cisão dentro do Diário de Lisboa.

Sai o Director, Norberto Lopes, o sub-direcotr Mário Neves e alguns jornalistas acompanham essa saída, e outros são recrutados.

Gente credível desse tempo, foi de opinião que a cisão tem nas suas origens razões políticas. Sendo o principal jornal da oposição à ditadura, o outro era o República, mas de menor circulação, parte da redacção não concordava com o conservadorismo, a pouca definição política de Norberto Lopes.

Conheço poucas opiniões sobre o sucedido.

Existe a de Mário Neves, publicada no Expresso de 1 de Dezembro de 1990 que, não duvidando da honestidade de Mário Neves, me parece, apesar de tudo, pouco sustentável:

 O Guilherme Pereira da Rosa, um dos donos do DL, resolveu, por motivos familiares, vender a sua parte. Para cumprir um pacto antigo, ofereceu primeiro a quota aos outros donos. Mas eles ofereceram-lhe cinco mil contos, um preço excessivamente baixo tendo em conta que o jornal estava muito vulgarizado. O Pereira da Rosa então vendeu ao Banco Nacional Ultramarino. Acontece que tudo isso se passou à revelia da redacção. Quando soubemos, ficámos alarmados. Afinal de contas, o BNU estava ligado    à situação a Salazar. O Norberto Lopes e eu, que éramos director e director adjunto do DL resolvemos então sair.

Aconteceu que o Diário de Lisboa não deixou, de prosseguir a luta, possível luta dada a censura, contra a política salazarista e, seja-me permitida a opinião, ainda com mais rigor e vivacidade.

Curiosamente, Norberto Lopes na sua primeira Nota do Dia em A Capital, a dado passo, cita La Bruyère: os homens seriam talvez piores, se viessem a faltar-lhes os censores e os críticos.

Ele saberia do porquê da citação…

Neste primeiro número de A Capital é publicado o Suplemento Literário, coordenado por Álvaro Salema.

Publica um polémico artigo de José Régio sobre o filme de Arthur Penn Bonnie &Clyde que dá origem a uma longa polémica entre jornalistas, críticos de cinema e escritores, com destaque para Agustina Bessa-Luís, pouco dada a este tipo de aparições

Régio sustentava a opinião de que o filme não era uma obra de arte e, pela sua violência seria prejudicial quando visto por jovens.

A crítica literária estava entregue a Fernanda Botelho, Rogério Fernandes e José Saramago.

O futuro prémio Nobel da Literatura, fazia a crítica ao livro Vida Crioula de Teobaldo Virgílio, que terminava assim:

Vida Crioula é uma bela afirmação de vitalidade. Do seu autor e da capacidade criadora do cabo-verdiano. Não nos fará mal nenhum (e apostemos que muito bem nos fará) olhar com atenção para a literatura de Cabo Verde. Lá se escreve um excelente português – coisa de que vamos estando desabituados no Chiado…

O último número de A Capital, foi publicado no dia 30de Julho de 2005.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

OLHARES


Lisboa, Elevador de Santa Justa.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Os salários nominais dos trabalhadores portugueses têm de cair mais para o país reduzir o seu défice externo nos próximos dez anos.
A Comissão Europeia já fala em 5% ou mais em cima do corte médio de 5,3% já regista desde 2010 até à data. Tal como referiu ontem o FMI, que levantou sérias dúvidas sobre a eficácia das "centenas" de reformas que o Governo disse ter feitos nos últimos dois anos e meio, hoje a Comissão Europeia, no seu relatório da décima avaliação, vem levantar dúvidas graves sobre o ajustamento do mercado de trabalho.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



CINEMA

Comunidade das pequenas salas de cinema, não muita gente, e a que houver tocada em cheio como o coração tocado por um dedo vibrante, tocada, a pequena assembleia humana, por um sopro nocturno, uma acção estelar. Não se vai lá em busca de catarse directa mas de arrebatamento, cegueira, transe. Vão alguns em busca de beleza, dizem. É uma ciência de ritmo, ciclo, luz miraculosamente regulada, uma ciência de espessura e transparência da matéria? De todos os pontos da trama luminosa, ao fundo da assembleia sentadamente muda morrendo e ressuscitando segundo a respiração na noite das salas, a mão instruída nas coisas mostra, rodando quintuplamente esperta, a volta do mundo, a passagem de campo a campo, fogo, ar, terra, água, éter (ether), verdade transmutada, forma. A beleza é a ciência cruel, imponderável, sempre fértil, da magia? Então sim, então essa energia à solta, e conduzida, é a beleza.

Porque as pessoas amam a morte, a sua morte, figurativa, figurada, figurante, e amam o restabelecimento da vida. Esta é uma espécie de nomeação física que arranca à decadência em nós esparsa das imagens naturais, e transmite, em disciplina e cortejo, o prodígio e o prestígio dos objectos em torno movidos por um inebriamento cerimonial. Refazemos a natureza em imagens simbólicas que podem interpretar literalmente. A escrita não substitui o cinema nem o imita, mas a técnica do cinema, enquanto ofício propiciatório, suscita modos esferográficos de fazer e celebrar. Olhos contempladores e pensadores, mão em mãos seriais, movimento, montagem da sensibilidade, música vista (ouçam também com os olhos!), oh, caminhamos para a levitação na luz!

Alguns poemas já tinham ensinado uma sabedoria de olhar (cf. Divergência entre Goethe e Schiller acerca da objectividade) e, pois, uma sabedoria de ver. Certas montagens poemáticas ditas espontâneas, inocentes (de que malícias dispõe a inocência?), processos de transferir blocos da vista – aproximações, fusões e extensões, descontinuidades, contiguidades e velocidades – transitaram de poemas para filmes e circulam agora entre uns e outros, comandados por arroubos da eficácia. O arroubo é uma atenção votada às miúdas cumplicidades com o mundo, o mundo em frases, em linhas fosforescentes, em texto revelado, como se diz que se revela uma fotografia ou se revela um segredo. O poema, o cinema, são inspirados porque se fundam na minúcia e rigor das técnicas da atenção ardente.

Alimentamo-nos de imagens emendadas, de representações conjugadas simbolicamente, pontos fortes,punti luminosi, pensamentos bucais, “o pensamento forma-se na boca”, Tzara, nos olhos, irrompe ali, todo este fluxo, aqui, diante do medo, do júbilo, do êxtase, oh soberba antologia da magnificação quotidiana segundo o princípio do absoluto! Muitas erratas, muita pontuação, muito recurso à parcimónia, até Beethoven pegar na Ode à Alegria e o triunfo erguer-se, frente aos olhos, dos recessos da dor, filme, mágica prestidigitação tão calculadamente intempestiva nas pequenas salas escuras, o écran defronte.
A imagem é um acto pelo qual se transforma a realidade, é uma gramática profunda no sentido em que se refere que o desejo é profundo, a profunda a morte, e a vida ressurecta. Deus é uma gramática profunda.


Herberto Helder em Poemas Com Cinema, antologia organizada por Joana Matos Frias, Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa Novembro de 2010

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

QUOTIDIANOS


O músico Fernando Tordo vai deixar o país, no próximo dia 18, com destino ao Brasil onde pretende continuar a trabalhar na área musical


                                                                                           Dos jornais


CARTA AO PAI

Ontem, o meu pai foi-se embora. Não vem e já volta; emigrou para o Recife e deixou este país, onde nasceu e onde viveu durante 65 anos. A sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país. Nesses concertos teve salas cheias, meio-cheias e, por vezes, quase vazias; fê-lo sempre (era o seu trabalho) com um sorriso nos lábios e boa disposição, ganhando à bilheteira. Ontem, quando me deitei, senti-me triste. E, ao mesmo tempo, senti-me feliz. Triste, porque o mais normal é que os filhos emigrem e não os pais (mas talvez Portugal tenha sido capaz, nos últimos anos, de conseguir baralhar essa tendência). Feliz, porque admiro-lhe a coragem de começar outra vez num país que quase desconhece (e onde quase o desconhecem), partindo animado pelas coisas novas que irá encontrar. Tudo isto são coisas pessoais que não interessam a ninguém, excepto à família do senhor Tordo. Acontece que o meu pai, quer se goste ou não da música que fez, foi uma figura conhecida desde muito novo e, portanto, a sua partida, que ele se limitou a anunciar no Facebook, onde mantinha contacto regular com os amigos e admiradores, acabou por se tornar mediática. E é essa a razão pela qual escrevo: porque, quase sem o querer, li alguns dos comentários à sua partida. Muita gente se despediu com palavras de encorajamento. Outros, contudo, mandaram-no para Cuba. Ou para a Coreia do Norte. Ou disseram que já devia ter emigrado há muito. Que só faz falta quem cá está. Chamam-lhe palavrões dos duros. Associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas (enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo). E perguntaram o que iria fazer: limpar WC's e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um "tacho" proporcionado pelos "amiguinhos"? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que "deixasse cá a reforma". Os duzentos e tal euros. Eu entendo o desamor. Sempre o entendi; é natural, ainda mais natural quando vivemos como vivemos e onde vivemos e com as dificuldades por que passamos. O que eu não entendo é o ódio. O meu pai, que é uma pessoa cheia de defeitos como todos nós - e como todos os autores destes singelos insultos -, fez aquilo que lhe restava fazer. Quer se queira, quer não, ele faz parte da história da música em Portugal. Sozinho, ou com Ary dos Santos, ou para algumas das vozes mais apreciadas do público de hoje - Carminho, Carlos do Carmo, Marisa, são incontáveis - fez alguns dos temas que irão perdurar enquanto nos for permitido ouvir música. Pouco importa quem é o homem; isso fica reservado para a intimidade de quem o conhece. Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC's e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha. Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país - do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos. Fracassaram nesse propósito; enganaram-se ao pensarem que podíamos mudar. Não queremos mudar. Queremos esta miséria, admitimo-la, deixamos passar. E alguns de nós até aí estão para insultar, do conforto dos seus sofás, quem, por não ter trabalho aqui - e precisar de trabalhar para, aos 65 anos, não se transformar num fantasma ou num pedinte - pegou nas malas e numa guitarra e se foi embora. Ontem, ao deitar-me, imaginei-o dentro do avião, sozinho, a sonhar com o futuro; bem-disposto, com um sorriso nos lábios. Eu vou ter muitas saudades dele, mas sou suspeito. Dói-me saber que, ontem, o meu pai se foi embora.

Carta que João Tordo disponibilizou no seu blogue

 Legenda: pormenor da capa, da autoria de Jorge Simões, do álbum Anticiclone de Fernando Tordo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Que não o ouça o diabo, senhor ministro. O diabo tem tão bom ouvido que não precisa que lhe digam as coisas em voz alta, Valha-nos então deus, Não vale a pena, esse é surdo de nascença.

José Saramago em Ensaio Sobre a Lucidez

DITOS & REDITOS



Inventar coisas felizes.

Guardar a secreta esperança.

Melancolia miudinha.

Sorrir é iluminar.

Histórias em noites de lua cheia.

Donos dos nossos silêncios e reféns das nossas palavras.

A vida é curta.

Só a rotina faz a vida normal.

O mundo gosta de ser aldrabado.

Mãos sujas de trabalho é ser alguém.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

QUOTIDIANOS



Depois de no domingo voltarmos a saber o que é um dia de sol, o cinzento abateu-se, de novo, sobre a cidade.

Andamos para tirar uma série de fotografias, diariamente adiadas pelo tempo que tem feito.

Aproveitar, então, o dia para colocar recortes no arquivo, olhar os jornais atrasados amontoados ao canto da sala que mostram que cerca de 5% dos sem-abrigo de Lisboa têm um curso superior, que o trabalho escravo deixou de se circunscrever ao Alentejo e alastrou pelo país fora, que o sorteio, em que o governo, aos que pedem factura com  número de contribuinte, oferece automóveis topo de gama, parece convencer poucos consumidores, enquanto o dono de um pequeno cafés se lamenta que, enquanto está um cliente à espera que eu coloque os números no computador, estão quatro à espera que eu tire um café, que  juízes absolveram todos os arguidos do caso dos submarinos que umas dezenas de quadros de Miró, propriedade do BPN ,saíram ilicitamente de Portugal para serem leiloados em Londres, que o primeiro-ministro com aquela cara de sacaninha-pequenino diz que  estamos a caminhar para viver dentro das nossas possibilidades, que  a presidente da Assembleia da Republica sonha todos as noites com cravos a enfeitar chaimites, feitos pela Joana Vasconcelos para as comemorações do 25 de Abril, que a maioria dos bancos encerraram os seus exercícios com milhões de euros de prejuízo o que faz anunciar redução de salários e mais negociações para diminuir o número de trabalhadores, que os agentes culturais dizem que a cultura está a morrer em Portugal, que no final de 2013, o Estado tinha 563.595 trabalhadores, menos 22.000 do que no ano anterior, que ainda não se sabe se sairemos do estrangulamento troikiano  à irlandesa, ou se será uma saída limpa, seja lá o que isso for, apenas a certeza de que o que vier a suceder nos vai enterrar em mais austeridade, enquanto que Paquete de Oliveira, provedor do leitor do jornal Público, termina, deste modo,  um dos seus comentários:

O calendário que se segue é reinventar um país sem Eusébio.

O que me leva a regressar à leitura de um belo relato que Manuel S. Fonseca deixou no Escrever Triste:


Pé esquerdo puxa a bola para o pé direito e, corda invi­sí­vel, amarra o defesa louro. Pé direito devolve a bola para o bai­la­rino pé esquerdo e, raio laser de filme, há um guarda-redes imo­bi­li­zado. Pé esquerdo amo­roso, gen­til, inte­li­gente, cien­tí­fico, artís­tico, remata em vólei, colo­ca­dís­simo, colando a bola às redes junto ao poste esquerdo da baliza dos atur­di­dos, para­li­sa­dos, adver­sá­rios. Enzo Pérez, argen­tino, nas­cido em Men­doza, nas bor­di­nhas das Cor­di­lhei­ras do Andes, sabe que aca­bou de assi­nar uma obra-prima. Foi golo e Enzo corre, salta e abraça. A seguir, comove-se e deixa cor­rer uma lágrima. De ter­nura, saber-se-ia depois…

Será que amanhã vai continuar a chover?

Legenda: fotografia Duncan

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Andei ás voltas no Baú e consegui encontrar um bilhete do Londres.
Sessão da tarde do dia 15 de Março de 1993.
Contrariamente  ao que costumo fazer, não coloquei nas costas do bilhete o filme que vi.
Mas sei que o último filme que vi no Londres foi Mamma Mia, filme baseada nas canções dos Abba.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O cinema Londres, que fechou portas nos primeiros dias do ano passado, vai ser, segundo os jornais, transformado em loja de venda de produtos chineses.

Bem localizado, o Londres inaugurado em 1972, veio dar mais brilho a uma das zonas mais interessantes de Lisboa, aquele eixo Alvalade/Avenida de Roma/Areeiro.

Hoje já não é tanto assim.

Uma muito agradável sala de cinema, criteriosa programação, as cómodas cadeiras que não mais serão esquecidas por quem nelas se sentou.

Nada a fazer, os tempos são assim e já não são de hoje.

Já assistimos à transformação do Cinema Império em local de culto de uma seira religiosa, já assistimos a tanta coisa das coisas que têm vindo a acontecer, um pouco por todo o país às salas de cinema, e não só.

Restam as memórias.

Uma sessão da meia-noite para ver o Céu Aberto de Howard Hawks, que tem agarrada uma história que, um dia, contarei.

A tarde em que, com o meu pai, ao fim de vinte minutos trocámos, a exibição de A Insustentável Leveza do Ser, filme de Philip Kaufman sacado do livro de Milan Kundera, a tal Primavera de Praga, por umas garrafas de tinto e rodelas de ananás, em Alcântara, no Cuidado com o Degrau, que já não existe.

As gentes da zona, habitantes comerciantes, estão indignadas com a tal loja de chineses.

Por uma destas noites, eram mais de cinquenta, juntaram-se na Pastelaria Mexicana para curtirem a, tardia, dor e pensarem se haveria uma qualquer volta a dar, qualquer coisa como uma sala polivalente, aberta ao cinema, ao teatro, à música e a actividades  para crianças, e de um café com espaço para tertúlias.

Mas… e o dinheiro?

Pois é!

Com uma pragmática melancolia, regressaram a penates.

Uma história velha.

A história que diz: não há dinheiro, não há palhaços!

OLHAR AS CAPAS


Alta Fidelidade

Nick Hornby
Tradução: Maria Augusta Júdice
Capa: Fernando Mateus
Editorial Teorema Lisboa Maio de 1997

Ela não sorri, não me oferece uma chávena de café nem me pergunta se consegui encontrar a casa apesar da chuva gelada que apanhei pelo caminho e me impedia de ver um palmo à frente do nariz. Limita-se a conduzir-me até um gabinete que dá para o átrio, acende a luz e aponta para os singles na prateleira de cima – há centenas deles, todos em caixas de madeira feitas por medida – e deixa-me ficar a vê-los.
Não há caixas mas prateleiras ao longo das paredes, apenas álbuns, CDs, cassetes e equipamento de alta fidelidade; as cassetes têm pequenas etiquetas numeradas, o que indica sempre que se trata de uma pessoa séria. Há algumas guitarras encostadas às paredes, e uma espécie de computador com ar de conseguir produzir alguma música se se estiver para aí virado.
Subo para cima de uma cadeira e começo a tirar cá para baixo as caixas dos singles. São sete ou oito ao todo, e, embora eu tente não ver o que têm dentro quando as ponho no chão, dou uma olhadela ao primeiro da última caixa: é um single do James Brown na King, com trinta anos, e começo a ficar em pulgas.
Quando começo a vê-los decentemente, percebo logo que é tudo o que sempre sonhei adquirir desde que comecei a coleccionar discos. Há singles do clube de fãs dos Beatles, e a primeira meia dúzia de singles dos Who, e originais do Elvis do início dos anos 60, e montes de singles raros de blues e de soul, e… há um exemplar de “Go Save The Queen” pelos Sex Pistols na A&M! Nunca tinha visto isto! Nunca vi ninguém que tenha visto isto! E oh não, oh, não, céus – “You Left The Water Runnibg” do Otis Redding, editado sete anos depois da sua morte, mandado retirar imediatamente pela viúva por não…
- Que tal? – ela está encostada à aduela da porta, de braços cruzados, a olhar meio meio a sorrir para a cara que eu devo estar a fazer.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

OLHARES


Lisboa, Padrão dos Descobrimentos.

PORQUE HOJE É DOMINGO


... e eu gosto de dançar, gosto de tangos e gosto da fabulosa interpretação de Al Pacino em Perfume de Mulher e que lhe valeu um Óscar.
Bom domingo!

OS SANTOS SÃO MAIS FELIZES


Bati com o pé no deserto
e não nasceu uma fonte… 

Toquei numa rocha
e não se cobriu de açucenas…

Beijei uma árvore
e o enforcado não ressuscitou… 

Amaldiçoei a paisagem
e não secaram as raízes… 


Digam-me lá: para que diabo serve ser poeta? 

(Os santos são mais felizes.)
 

 José Gomes Ferreira Poesia III, Portugália Editora, Lisboa Março de 1963

sábado, 15 de fevereiro de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO



Nicolau Santos no Expresso.

LUIZ PACHECO, EDITOR

E ficas já a saber, meu bom Silveira, que sendo ele Luís de nome próprio como tu, este Pacheco de quem se torna inevitável que dele fale nesta narrativa teve uma vida de sete e mais fôlegos, padeceu o que nem ao diabo lembra, mas fez a sua travessia na coerência e justa pretensão de publicar alguns bons livros que fez chegar às mãos de muita gente através de um ficheiro bem organizado e em trabalho artesanal de largos anos. Editou os livros que mais lhe agradaram, alguns assinalaram mesmo a estreia literária dos seus autores (Herberto Helder, Manuel de Lima, António Tavares Manaças ou carlos Wallenstein), e devo dizer-te que foi ainda companheiro e amigo de poetas e pintores ligados ao surrealismo português.

Serafim Ferreira em  Olhar de Editor, Editorial  Escritor, Lisboa Outubro de 1999.

OLHAR AS CAPAS


Relógio de Cuco

Virgílio Martinho
Contraponto, Setúbal Janeiro de 1997


Eu amava o velho pai como quem ama uma coisa inventada, sem palavras nem carinhos. Via-o enorme, as pernas sempre a fugirem de mim, o corpo magro ligeiramente curvado e lá em cima as fossas do seu nariz. E era esta e não outra a minha invenção de pai. Via-o e era o mesmo que sentir-me duas vezes, como sombra na parede ou imagem no espelho. Porque ele tinha um ar severo e grave, raramente me falava, nunca me beijava, só uma vez me atirou com a mona às pernas. Como um pai que não há. Trabalhava à noite na estação de Setúbal e dormia de dia na nossa casa dos Quatro Caminhos, havia entre nós horários diferentes. Ele via a noite e a lua, eu o dia e o sol, éramos ambos duas paralelas, uma maior outra mais pequena. Encontrávamo-nos porém ao jantar mas o nosso infindável silêncio continuava a ser o nosso silêncio, embora a mãe dos dentes brancos falasse e risse entre nós.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Sou uma boa dona de casa. Cada vez que me divorcio fico com a casa.

Zsa Zsa Gabór

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


A questão é esta: entendemos sempre que os dias disto e daquilo são apenas um negócio falho de qualquer sentido. Porque os dias de, seja lá do que forem, devem ser sempre os de todos os dias.
Mas acabamos sempre por ceder. Já temos tão poucas coisas que nos dêem alegrias....
Hoje é Dia de São Valentim, Dia de Namorados.
Sabe bem receber uma flor, passar a tarde a rever - quantas são? - O Grande Amor da Minha Vida,  beber chá de Carqueja porque faz bem às articulações. Coisas da idade...
E a chuva a bater lá fora.
Bom dia de São Valentim para todos.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

MARCADORES DE LIVROS


NOTÍCIAS DO CIRCO


Decididamente, a presidente da Assembleia da República não acerta uma.

Soube-se que os deputados manifestaram natural incómodo por Assunção Esteves ter colocado na reunião de líderes parlamentares a hipótese de recorrer ao mecenato para suportar os custos financeiros de algumas iniciativas para assinalar o próximo 25 de Abril. 

Uma delas seria uma exposição de chaimites junto à Assembleia da República, ornamentadas com cravos criados pela artista plástica Joana Vasconcelos

De repente ficamos sujeitos a que o Continente, o Pingo Doce, a Mota-Engil, a tropa do costume, aproveite a brilhante ideia da senhora presidente para publicidade de oh! faz favor!!!!
Porque o permitimos, acontece-nos tudo!

PARA RAMONA


Ramona
Chega mais perto
Fecha suavemente os teus olhos molhados
Os tormentos da tua tristeza
Desvanecer-se-ão à medida que os teus sentidos despertarem
As flores da cidade
Apesar de parecerem vivas
Ficam como mortas às vezes
E não vale a pena tentar
Tratar do que está a morrer
Embora eu não saiba explicar isto por escrito

Os teus lábios camponeses gretados
Ainda desejo beijar
Assim como estar sob a firmeza da tua pele
Os teus movimentos magnéticos
Ainda capturam os minutos que vivo
Mas desola o meu coração, amor
Ver-te tentar fazer parte de
Um mundo que simplesmente não existe
Tudo é apenas um sonho, pequena
Um vácuo, um ardil, pequena
Que te arrasta a sentir assim dessa maneira

Vejo que a tua mente
Foi deturpada e alimentada
Por desprezível espuma de raiva
Percebo que estás dividida
Entre ficar ou
Regressar ao Sul
Que o objectivo final está ao alcance da mão
No entanto não há ninguém que te vença
Ninguém que te derrote
Excepto os pensamentos de ti própria sentindo-te mal.

Ouvi-te dizer muitas vezes
Que és melhor que ninguém
E que ninguém é melhor do que tu
Se realmente acreditas nisso
Sabes que não tens
Nada a ganhar e nada a perder
A tua dor provém
De coisas e influências e amigos
Que te sobrevalorizaram e moldam
Fazendo-te sentir
Que deves ser exactamente como eles

Falaria contigo para sempre
Mas cedo as minhas palavras
Se transformariam num som sem sentido
Pois no fundo do meu coração
Sei que não há ajuda que possa trazer
Tudo passa
Tudo muda
Faz apenas o que pensas que deves fazer
E um dia talvez
Quem sabe, pequena
Eu venha e esteja a chamar por ti

Bob Dylan

Canção do álbum Another Side of Bob Dylan (1964)

 Bob Dylan em Canções Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006

POSTAIS SEM SELO


Posto o que, arrumo o papel e a caneta e volto a olhar o lume. Sinto que está lá fora toda a verdade da vida. Sinto que está lá a única coisa que eu deveria escrever. Tenho a lama cheia de pedras. As pedras não ardem e pesam tanto.

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente Vol. III , Bertrand Editora, Lisboa Dezembro de 1990..

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

DAS MORTES DE PACHECO


Em 1995 Luiz Pacheco tinha 70 anos.

Numa entrevista de Março desse ano, feita por Mário Santos para o Público, lamentava-se que já andava por cá a demorar-se.

Morreu no dia 5 de Janeiro de 2008, mas José Gomes Ferreira, em 22 de Setembro de 1967, escrevinhava nos seus Dias Comuns que Pacheco tinha pouco tempo de vida.

Assim:

Em casa do Fafe, o Palma-Ferreira – que ontem falou pelos cotovelos – contou inúmeras histórias deste e daquele. Mas só uma me trespassou do peito às costas: a do Luís Pacheco que, segundo parece, pouco tempo tem de vida.
Coitado! Apodrece na mais extrema miséria e – pelo menos o palma-Ferreira teimou nesta afirmação terrível – anda à procura de comida pelos caixotes.
Senhores! Como é que um homem tão dinâmico, audaciosos e com a coragem da sinceridade (a que não faltava certa frescura de talento) se desprezou tanto e se deixou afogar até ao coração da lama?

José Gomes Ferreira morreu em 1985 e João Palma-Ferreira em 1987.

Ainda no ano de 1995, em Dezembro, Cláudia Galhós entrevistou Luiz Pacheco para o Blitz e lembrou-lhe:

Anda há quarenta anos a ameaçar que morre e afinal está a enterrar todos os outros…

Não se sabe o que o Pacheco terá pensado da pergunta, mas respondeu:

Deixe-os ir. Os que vão á minha frente vão todos bem. Há uns o Saramago teve uma pataleta e eu liguei-lhe logo: «Tu não te deixes morrer que ainda temos de ir juntos ao funeral do Pires.» (Nota do editor: e foram! - José Cardoso Pires morreu em 1998) Há gente da minha idade que passa o tempo nos médicos, nos exames, nas análises. Eu devo ter dez doenças mortais mas só me apanham lá em último caso.

Pacheco numa das suas muitas entrevistas, citando Manuel da Fonseca, dizia:

Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal.

Ou ainda, Setembro de 2005, o Rodrigues da Silva, a perguntar-lhe:

Pensas na morte?

Ele a responder:

Penso, mas não quero que ela me apanhe a dormir. Quero vê-la chegar. 

Legenda: fotografia de Rui Ochôa.