segunda-feira, 30 de junho de 2014

QUOTIDIANOS


Entre a enxerga e as tábuas da cama, eu encontrara, com efeito um velho bocado de jornal, amarelecido e transparente, quase colado ao pano. Relatava um acontecimento cujo início faltava, mas que devia ter sucedido na Tchecoslováquia. Um homem partira de uma aldeia para fazer fortuna. Ao fim de vinte e cinco anos, rico, regressara casado e com um filho. A mãe dele, juntamente com a irmã, tinham uma estalagem na aldeia. Para lhes fazer uma surpresa, deixara a mulher e o filho noutra estalagem e fora visitar a mãe, que não o reconheceu. Por brincadeira, tivera a ideia de se instalar num quarto como hóspede. Mostrara o dinheiro que trazia. De noite, a mãe e a irmã tinham-no assassinado à martelada e atirado o corpo ao rio. No dia seguinte de manhã, a mulher do desgraçado viera à estalagem e revelara, sem saber, a identidade do viajante. A mãe enforcara-se. A irmã atirara-se a um poço. Devo ter lido esta história milhares de vezes. Por um lado era inverosímil. Por outro lado, era natura. De todos os modos, achava que o viajante merecera até certo ponto a sua sorte e que nunca se deve brincar com estas coisas.

Albert Camus em O Estrangeiro

domingo, 29 de junho de 2014

PORQUE HOJE É DOMINGO


Hoje é Dia de São Pedro.
Por este ano, acabaram os Santos Populares.
Como diz a canção: Santo António já se acabou, o São Pedro está-se a acabar e eu nunca entendi muito bem porque se um acabou , outra está a acabar, ainda se vai buscar o São João, que no meio está e também já acabou.
Questões de rima, possivelmente.
Pouco importa.
Agora estamos no Verão, de repente verificaremos que Setembro já se aproxima e que, tudo num grande galope, estaremos de novo no Natal.
Bom domingo!

São João santo Bonito,
Bem bonito que ele é. Bem bonito que ele é
Com os seus caracóis de oiro,
E seu cordeirinho ao pé. E seu cordeirinho ao pé
Não há nenhum assim, pelo menos para mim
Nem mesmo São José.

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
São João, São João
Dá cá um balão para eu brincar.

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
São João, São João
Dá cá um balão para eu brincar.

São João vem ver as moças
Que bonitas que elas são, que bonitas que elas são.
São ainda mais bonitas
Na noite de São João, na noite de São João.
Não estavam só rapazes
Mais uma luz além.

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
São João, São João
Dá cá um balão para eu brincar.


sábado, 28 de junho de 2014

OLHARES


Do que eu gostava mais no jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, falassem. Possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à amaneira de fins de rebuçado na concha da língua.

António Lobo Antunes em Os Cus de Judas.

Legenda: imagem tirada do blogue Restos de Colecção.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

OLHARES


Começam as despedidas dos jacarandás.

AGORA ACABOU-SE TUDO, BABY BLUE


Deves partir agora, leva o que precisas, o que pensas que há-de durar
Mas o que quer que desejes guardar, é melhor agarrá-lo depressa
Além está o teu órfão com a sua arma
Chorando como uma fogueira ao sol
Cuidado que os santos estão a passar
E agora acabou-se tudo, Baby Blue

A estrada é para os jogadores, é melhor usares o teu bom senso
Leva tudo o que juntaste da coincidência
O pintor de mãos-vazias das tuas ruas
Está a desenhar padrões loucos nos teus lençóis
Também este céu se está a dobrar debaixo de ti
E agora acabou-se tudo, Baby Blue

Todos os teus marinheiros enjoados, eles estão a remar para casa
Todos os teus exércitos de renas, estão todos a ir para casa
O apaixonado que acabou de sair pela tua porta
Tirou todos os seus cobertores do chão
Também o tapete se está a mover debaixo de ti
E agora acabou-se tudo, Baby Blue

Deixa o trilho de pedras para trás, algo chama por ti
Esquece os mortos que abandonaste, eles não te seguirão
O vagabundo que bate levemente à tua porta
Está com as roupas que dantes usavas
Acende outro fósforo, vai e começa de novo
E agora acabou-se tudo, Baby Blue

Bob Dylan

Canção do álbum Bringing It All Back Home (1965)

Bob Dylan em Canções Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da pintura.

QUADRILHA


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
 

Carlos Drummond deAndrade

quinta-feira, 26 de junho de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO


Portugal disse adeus ao Mundial de Futebol.
No fundo... no fundo... é uma questão de unhas!...

Legenda: O Fado, pintura de José Malhoa.

OS IDOS DE JUNHO DE 1974


15 a 23 de Junho

NA ILHA TERCEIRA, Spínola e Richard Nixon analisaram o problema dos territórios do ex-Ultramar e da cedência da Base das Lajes.

AINDA sem solução greve dos pescadores de sardinha de Matosinhos.

CONTINUANDO o impasse na Timex os trabalhadores aventam a hipótese de vender os relógios armazenados.

O MAJOR Pedro Pires, chefe da delegação do PAIGC às conversações de Argel declarou que não houve respostas concretas da parte da delegação portuguesa.

AdAM MALIK, ministro indonésio dos Negócios estrangeiros, afirma que a Indonésia não intervirá nos assuntos de Timor.

CERCA de 35 mil trabalhadores dos CTT estão em greve.

COMEÇOU a ser discutido em Conselho de Ministros o diploma de criação da comissão «ad hoc» para controlo dos meios de comunicação social, até à publicação das novas leis especificas.
O jornal República recordava:



Num artigo «Política e Cinema Político», assinado por João Lopes e publicado na Seara Nova de Junho de 1974 citava-se Jean-Luc Godard:
É preciso começar por aprender a pôr os problemas de uma forma diferente. De outro modo, no cinema como em qualquer outra luta social, não saberemos responder senão de uma forma antiquada a questões completamente novas.

EFECTUA-SE a primeira homenagem pública a José Dias Coelho com o descerramento de uma lápide na Rua da Creche, onde em Dezembro de 1961, o pintor e escritor comunista foi assassinado por elementos da PIDE.

O PAINEL executado em 10 de Junho por 48 artistas do Movimento Democrático de Artistas Plásticos, passará a estar exposto na Galeria de Arte Moderna em Belém.

COMPLICOU-SE inesperadamente a situação na Siderurgia Nacional. Os trabalhadores aguardam um encontro com António Champalimaud.

FINAL DE UMA Carta Aberta a 200 Capitães da autoria de Artur Portela Filho e publicada no República de 17 de Junho de 1974:
Uma revolução não aparece feita, faz-se.
Uma revolução não se deixa a meio acaba-se.
Quando defendemos, u unidade entre o povo e as Forças Armadas, não estamos a apenas a defender a unidade entre o povo e a totalidade das Forças Armadas, de que a Junta de salvação Nacional é uma parte.
De resto, estamos a descobrir uma coisa enorme que é o facto de que as Forças Armadas somos nós.
A nossa força é sermos todos.
Sermos um é a nossa fraqueza.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo,
A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

POSTAIS SEM SELO


Sim eu sei que sou um solitário e jamais encontrarei a forma de destruir a minha solidão. No meio de milhões de seres, ombreando com eles, encarando-os, respirando o seu hálito, tocando-lhes as mãos, sentir-me-ei sempre perdido, isolado, crescendo num deserto. É o mal de todos nós na nossa época: a solidão. Mas uma solidão estranha, paradoxal; não resistiria à ideia de fazer esta viagem sem ver ninguém, e agora, aqui, rodeado por esta gente, sinto-me infeliz e anseio por um reduto impossível.

Mário Ventura em A Noite da Vergonha

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

POSTAIS SEM SELO


Quando chegavam cartas da América eu era requisitado para a leitura. A minha fama de bom aluno do seminário fazia de mim o confidente necessário das intimidades dos emigrados. Eu ia assim conhecendo a saudade crioula dos filhos das ilhas. Tão variadas as cartas, mas todas elas revelavam a voz do arquipélago chamando tenazmente os emigrantes para o canto do mundo donde partiram.

Baltasar Lopes em Chiquinho

terça-feira, 24 de junho de 2014

AVENTUREIROS SEM GLÓRIA


Não quero entrar nos detalhes da história da ascensão e queda de Ricardo Salgado. Tem demasiado odor a suor e outras secreções para ser um assunto sobre o qual alguém que preserve um sentido apolíneo da decência e da beleza queira escrever. O problema é de outra natureza. Salgado, Oliveira e Costa, Rendeiro, Dias Loureiro são as ovelhas negras de uma casta que domina a Europa inteira: os banqueiros da UEM. Uma elite certificada pelo Tratado de Maastricht e pelas regras de funcionamento da zona euro. Tal como os aristocratas da Europa do absolutismo, também eles estão acima da lei geral. Inimputáveis, manipulam os governos e fazem do sistema de justiça um interminável jogo de paciência que termina, invariavelmente, em absolvição por cansaço e prescrição. Foi a sua desmesura que transformou o sistema financeiro, de importância vital para uma sociedade de mercado funcional, no palco para uma tragédia de Shakespeare. Nem todos os membros desta elite se comportaram abusivamente, mas a simples possibilidade de o abuso de poder passar sem castigo, provocou o carrossel de especulação e a avalancha de crédito Norte-Sul dos primeiros anos do euro. Foi sobretudo a ganância do sistema financeiro, e não o despesismo dos Estados, que conduziu a Europa ao atual beco sem saída. A mesma ganância conduziu à Grande Depressão de 1929. Nessa altura, sob liderança dos EUA de F. D. Roosevelt, o financismo foi colocado no seu lugar por uma firme regulação do negócio bancário, que garantiu a prosperidade económica durante muitas décadas. Hoje, a União Europeia continua paralisada, sem a necessária coordenação e firmeza políticas, indispensáveis para colocar o sistema financeiro dentro dos limites da lei e da ordem.

Crónica de Viriato Soromenho Marques no Diário de Notícias de hoje.

OLHAR AS CAPAS


Alexandra Alpha

José Cardoso Pires
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa. Abril de 1997

«Lamentável», repetia ele com o enojado do olhar, em resposta a qualquer coisa que acabava de ser dita. Tinha pelas costas um poster da Ars Planetarium afixado na parede, com uma lua salpicada de crateras que ficava mesmo a condizer com a cara dele, pensou Alexandra, mas Amadeu Gruyère é que jamais, mas jamais, saberia reconhecer isso. Agora tirava da sua bolsa a tiracolo o último número da Communications e preparava-se para mergulhar nele. Queria esquecer o lamentável desta coisa, deste país onde todo o idiota aventurava opiniões. Principalmente desde que o Barthes andava em visita a Lisboa, não havia bicho-careta que não emitisse o seu zumbido.
Alexandra: «Isto não é um país, é um sítio mal frequentado.»

segunda-feira, 23 de junho de 2014

OS CROMOS DO BOTECO


Já por diversas vezes tenho dito que no Boteco não lá lugar apenas para Cromos.
Por vezes encontro bonitos discos dos meus tempos de juventude.
Este é um desses casos.
Os violinos mágicos de Helmut Zacharias.
Um bonita capa de disco onde se pode ouvir:

Lado A
Rustle of Spring
Ack, Varmelandd, Du Skona

Lado B
Midsummernight in Gotland
Solveig's Song

NOTÍCIAS DO CIRCO


Como se os roubos, os atropelos, as trafulhices, a arrogância, etc. e tal do governo, não fossem por si suficientes para nos darem cabo dos dias, ainda temos que levar pelas trombas com a triste figura que a selecção, que tem o melhor jogador do mundo, anda a fazer no Mundial do Brasil.

Legenda: imagem do Diário de Notícias.

domingo, 22 de junho de 2014

PORQUE HOJE É DOMINGO


                                 

Hoje, seria o primeiro domingo de Verão mas está mais de Inverno.
Chico Buarque fez 70 anos na passada quinta-feira , mas como o blogue tem andado um pouco aos tropeções, a efeméride não foi assinalada.
Também sempre dissemos que nunca havia uma grande preocupação com datas redondas.
Quem aparece, aparece quando a gente quiser e é dentro desse princípio que fica aqui o Chico e o seu Apesar de Você.
Sim, porque apesar do governo Passos Coelho, da má figura que, futebolisticamente, andamos a fazer por terras brasileiras, é bom não esquecer que amanhã será sempre um outro dia.
Temos é que marrar por isso.!
Apesar de tudo, fica o habitual Bom Domingo!


Amanhã vai ser outro dia

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Esse samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
De "desinventar"
Você vai pagar, e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
Antes do que você pensa
Apesar de você
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente
Apesar de você
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Você vai se dar mal,

Etc e tal

sábado, 21 de junho de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO



É por isto tudo que não aceito a culpabilização sistemática dos mais pobres e mais fracos e da classe média, por terem vivido “acima das suas posses”, mesmo quando não o fizeram. E mesmo quando havia uma casa a mais, um carro a mais, um ecrã plano a mais, um sofá a mais, um vestido ou um fato a mais, umas férias a mais, uma viagem a mais, recuso-me a colocar estes “excessos” no mesmo plano moral dos “outros”. Algum moralismo salomónico, que coloca no mesmo plano a corrupção dos poderosos e dos de cima com os pequenos vícios dos de baixo e do meio, tem como objectivo legitimar sempre a penalização punitiva de milhões para desculpar as dezenas. É por isto que esta crise corrompe a sociedade e vai deixar muitas marcas, mesmo quando ninguém se lembre de Portas e de Passos.


José Pacheco Pereira no Público sobre o que se vai passando na banca portuguesa.

QUOTIDIANOS


O chefe de escritório assina a correspondência. Viviana dactilografa uma carta. O meu colega Bernardo – Bernardo José da Costa e Silva – alinha parcelas com uma letra cheia de grossos e finos; e eu arquivo, por ordem alfabética, toda a correspondência do dia anterior. Assim_ - Alves, depois Assis, Biscaia, Castro – um mar de apelidos e de sono.
O escritório é grande. Tem muitas janelas, muitos móveis, muitos empregados. Tem mapas coloridos pelas paredes, e um relógio que é o relógio mais vagarosos do mundo. Tem dez salas e um corredor comprido. Ao fundo do corredor ficam os lavabos: - para senhoras, à direita; para homens, à esquerda. Os lavabos dos homens têm duas divisões: - uma pequena para os 47 empregados; outra, bastante maior, com água quente e fria, para os 2 directores.
Os ordenados estão na razão directa dos lavabos.
(Novembro de 1972)

Sidónio Muralha em A Caminhada

sexta-feira, 20 de junho de 2014

OLHARES


O escritório dá para o mar e perdemos alguns instantes a olhar para os barcos de carga, no porto ardente de sol.

Albert Camus em O Estrangeiro

quinta-feira, 19 de junho de 2014

TENHO UMA JANELA



Tenho uma janela 

Tenho uma janela 
que dá para o mar 
barcos a sair 
barcos a entrar 
tenho uma janela 
que dá para o mar 
sonhos a partir 
sonhos a chegar
tenho uma janela 
que dá para o mar 
um fio de fumo 
uma sombra além 
uma história antiga 
um cantar de vela 
um azul de mar 
tenho uma janela 
que seria bela 
seria mais bela 
que qualquer janela 
janela fosse ela 
de Lua ou de estrela 
ou qualquer janela 
de qualquer escola 
se não fosse aquele 
pescador já velho 
que anda pela praia 
a pedir esmola 
barcos a sair 
barcos a entrar 
chego-me à janela 
e não vejo o mar. 

Mário Castrim

Legenda: pintura de Diane Romanello

quarta-feira, 18 de junho de 2014

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Criada por Decreto-Lei em 1937, a licença de porte de isqueiros ou acendedores era obrigatória não a penas para a posse do isqueiro mas também para a sua simples utilização e era nominal e de renovação anual. A infracção implicava o pagamento de uma multa de 250 escudos (uma soma considerável à época) que revertiam em 70% para o Estado e em 30 para o agente autuante. No caso de haver um denunciante, este teria direito a metade da verba do agente. Esteve em vigor até 1970.

Texto e imagem da Agenda Cultural, Abril 2014 da Câmara Municipal de Lisboa.

terça-feira, 17 de junho de 2014

ASSIM VAMOS TRABALHANDO...




No dia 17 de Junho de 1969, Marcelo Caetano, através da Rádio e da Televisão, proferia a sua 4ª Conversa em Família.
O regime colocou-lhe um título: Assim Vamos Trabalhando...
Marcelo Caetano começa por lamentar ter estado tanto tempo ausente dos lares dos portugueses (não aparecia para conversar desde Abril) mas apresentou justificação: andara por terras da Guiné, de Angola, de Moçambique e verificou, in loco, o profundo desejo das populações em se manterem portuguesas.
Os tópicos aqui reproduzidos,  referem o início da conversa, uma referência aos  servidores do Estado e anúncio que, em breve, visitará o Brasil, o grande país irmão.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

POSTAIS SEM SELO


A vida tem que retomar os seus direitos. A mãe tinha um espírito jovem e sabia que as primaveras, depois dela e de nós, também têm o direito de ser primaveras. É nossa missão construir, ajudar a construir a primavera dos outros.

Sidónio Muralha em A Caminhada

Legenda: Salgueiro Maia, fotografia de Alfredo Cunha.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

AGORA HÁ QUE LEVANTAR A CABEÇA E SEGUIR EM FRENTE...


Portugal estreou-se hoje no Mundial de Futebol no Brasil:
Alemanha 4 - Portugal 0
Tal como um dia disse o antigo internacional inglês Gary Linecker:
O futebol são 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha.

OS IDOS DE JUNHO DE 1974


8 a 14 de Junho

FOI DETIDO Saldanha Sanches, director do Luta Popular, órgão central do MRPP.
Dezenas de militantes desfilaram da Praça do Chile até à Praça do Areeiro, gritando slogans: Abaixo a nova Pide e Liberdade para Saldanha Sanches.

Segundo Maria José Morgado, que presenciou a prisão levada a cabo por polícias à paisana, esta prisão visou sobretudo atingir o MRPP e o “Luta Popular” e está integrada num conjunto de medidas repressivas contra os marxistas-leninistas-maoistas”. 

“É uma medida da coligação burguesa no poder contra a classe operária e a sua vanguarda
organizada.

NO DIA !0 DE JUNHO DE 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural. Entre muitos outros pintores , participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro. MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:
Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.



Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.
O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxe.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturada.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor que fazia de Cardeal Cerejeira o artista que proferia estas palavras:

Senhor Presidente da República. Senhor presidente do conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.


Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…


Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.


A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.
Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

OS ARMADORES da pesca da sardinha afirmam que não suportam as exigências dos pescadores.

FORAM INTERROMPIDAS , em Argel, as negociações com o P.A.I.G.C.
Mário Soares:

É preciso fazer notar, neste momento, que incidentes desta ordem são perfeitamente comuns e até direi, quase naturais Há dificuldades da nossa parte, há dificuldades da parte deles.

PROSSEGUE  a greve na Timex.

O RECONHECIMENTO do direito à independência por Portugal é reclamado  pelo MPLA como condição essencial para o cessar fogo.

Sá CARNEIRO numa entrevista a um jornal do Brasil afirmou que o Governo Provisório é uma verdadeira equipa.

Legenda:
a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas daMemória
b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974
c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

QUOTIDIANOS


Começo a conhecer os colegas de trabalho. Há-os de todas as nacionalidades, cores e credos. Hoje, durante a pausa para comer e descansar as pernas, uma colega nigeriana falava-nos da sua vinda para o Reino Unido, uma história de dor e de luta contra a adversidade. Ao mesmo tempo, a TV dava-nos a conhecer os desenvolvimentos sobre as raparigas que foram raptadas na Nigéria. Senti nela um estremecimento. Arregalou os olhos, recuperou a força que por momentos lhe faltou e disse que este era um grande país. Em Portugal, só ouvia os meus colegas falarem de casas, de carros e de férias (invariavelmente um pacote na República Dominicana ou na Riviera Mexicana), tudo pago com o cartão de plástico, a condizer com as suas vidas de plástico. Tenho a dizer que é muito bom conhecer gente de carne e osso.

 Carlos Azevedo em The Cat Scats

domingo, 15 de junho de 2014

JACARANDÁS NO PARQUE



PORQUE HOJE É DOMINGO


Muita gente, mas mesmo muita, é de opinião que o Futebol é o mais belo espectáculo do Mundo.
Este golo de Van Persie, no decorrer do Holanda-Espanha no Campeonato do Mundo no Brasil, ajuda a perceber o porquê da opinião.

DITOS & REDITOS


É regar e pôr ao luar.

Do futuro sabe-se apenas que está para bater à porta.

 Nunca deixar de sonhar.

Como quem se entende no silêncio.

O corpo que é escravo, vai; o coração que é livre, fica.

Dizer que sim para não ter que voltar a falar.

Somos uns contra os outros, quando devíamos ser uns com os outros.

Pouco em paz, muito se faz.

sábado, 14 de junho de 2014

QUOTIDIANOS


Um jogo treino do meu clube diz-me mais que um jogo da Selecção.

Ricardo Araújo Pereira, ontem na TVI, citado de memória.

POSTAIS SEM SELO


Para o fim, lembro-me unicamente de que na rua e através de todo o espaço das salas
e das tribunas, enquanto o meu advogado continuava a falar, eu ouvia a buzina do vendedor de gelados. Assaltaram-me recordações de uma vida que já não me pertencia, mas onde encontrara as mais pobres e as mais tenazes das minhas alegrias: odores do verão, do bairro que eu amava, um certo céu ao anoitecer, o riso e os vestidos de maria.

Albert Camus em O Estrangeiro

sexta-feira, 13 de junho de 2014

UM DIA NA VIDA


Hoje. Ao fundo, um homem sai de um gabinete. O gabinete do chefe. Do ex-chefe. Do ex-chefe que ainda é chefe, ex é ele: ex-empregado. Acaba de ser despedido. É um de um rol de muitos, um nome a mais numa lista, uma fila a menos numa folha de cálculo. Sai calado, pelo espaço aberto, outros olhos viram-se primeiro para ele, depois para baixo. Outro nome é chamado, lá vai ele, o mesmo gabinete, o mesmo destino. Hoje a empresa não é uma empresa, é um matadouro. Morrem empregos. Saiu nas notícias e tudo. É um dia na vida.
A vida já continuará, mas hoje não. “Fui eu? Foram eles? O que fiz de errado? O que farei agora? Como vou dizer? Como vou fazer? Quero um abraço. Não quero ver ninguém. Quero viver. Quero morrer. Merda para isto. Respira fundo. Mas para quê? Rosna. Chora. Põe-te de pé! Desaba… Com esta idade? Com esta idade.”
Todos os dias são um dia na vida. De quem é chamado para sair. De quem não é chamado e fica, às vezes com mais culpa que alívio. Ou mais raiva que tristeza. Fuma-se lá fora, conversa-se lá dentro, recebe-se chamadas aflitas, “não, eu safei-me”. O que se faz aos braços, esmurra-se, cruzam-se? Num jogo de cadeiras, só os que tocam música não estão a jogar. De manhã, a empresa fora sacudida pelo comunicado. Alguns diretores são chamados para a consumação. Outros diretores tiraram férias, fugindo à notícia da razia. Veio o administrador, despedimento coletivo, reestruturação, corte de custos, a crise.
Ontem. Dez de Junho. “Portugueses, este ano de 2014 abre um caminho de esperança. Mas, para ter esperança no futuro, devemos continuar a trabalhar no presente. Não podemos ficar à espera, passivamente, que a situação se altere por si mesma.” Passivamente.
O discurso político é o mesmo desde 2011. É tudo muito difícil, é tudo sem alternativa, é preciso reformas estruturais, é preciso um largo consenso entre partidos e que inclua também os parceiros sociais. Tirando o não-há-alternativa, o discurso fazia sentido em 2011 e faz sentido em 2014 e é isso que não faz sentido nenhum. A devastação económica e social destes três anos tinha de ter tido um propósito de regeneração que não teve. Se tivesse tido, o discurso já seria outro. Isso é o imperdoável. Esse é o falhanço. Se ainda precisamos do que precisávamos ainda estamos como estávamos. Tirando estarmos mais pobres. E mais desiguais. E mais desempregados. “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”.
Todos os dias são um dia na vida de alguém. Hoje foi naquela empresa, ontem foi noutra, e tudo seria compreensível se fizesse parte do ciclo da vida. Faz parte do ciclo da morte. O desemprego de longa duração, o desemprego de jovens e de velhos, a redução dos apoios sociais (flexisegurança sem segurança) não é sentido de justiça nem uma sociedade a funcionar. É uma nação que exclui. Quem perde sai. Às vezes até é notícia. Hoje foi. Um dia de cada vez. Um dia é de vez.
Amanhã?

"I read the news today oh boy
About a lucky man who made the grade
And though the news was rather sad
Well I just had to laugh
I saw the photograph
He blew his mind out in a car
He didn't notice that the lights had changed
A crowd of people stood and stared
They'd seen his face before
Nobody was really sure
If he was from the House of Lords"

A Day in the Life, The Beatles

Pedro Santos Guerreiro no Expresso-On Line.


Nota do editor:

O Grupo Controlinveste anunciou o despedimento colectivo de 140 colaboradores, dos quais 67 são jornalistas do Diário de Notícias, do Jornal de Notícias e da TSF, e a rescisão do contrato com 20 trabalhadores.
Não sei se Pedro Santos Guerreiro, quando escreveu este excelente texto, estava a pensar no despedimento destes trabalhadores.
Por mim entendo-o como um tiro na mouche.
No dia 10 de Junho o Presidente Cavaco convidava os portugueses a terem esperança no futuro.

Legenda: imagem do Diário de Notícias.


ANTÓNIO VARIAÇÕES


Faz hoje 30 anos que morreu que morreu António Variações.
Muitos, só depois da sua morte, repararam no seu enorme talento.
Num dos muitos recortes que guardo de António Variações leio que ele nasceu antes do tempo.
Muito poucos na altura sabiam, da doença que o vitimou.
O corpo é que paga diz ele numa das suas bonitas canções.
Mas cada vez mais, gosto desta Deolinda de Jesus.

Quem me conhece sabe o porquê!

Legenda: imagem tirada da revista Blitz


POSTAIS SEM SELO


George Orwell descreveu o pub perfeito, o The Moon Under Water, até revelar, no fim da crónica, que só existia uma desvantagem: só existia na imaginação dele.

Miguel Esteves Cardoso

Legenda: como o pub de Orwell não existe fica o Ryan's Irish Pub. A fotografai é de David Picom.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO




Portugal ainda está longe da consolidação orçamental exigida por Bruxelas e só com nova austeridade poderá cumprir o Tratado Orçamental. O alerta é lançado pelo Banco de Portugal, que estima a necessidade de se adotarem novas medidas no valor de 4% do PIB durante os próximos cinco anos. Ou seja, o equivalente a metade da austeridade que foi introduzida durante o programa de ajustamento financeiro da troika.

A ministra das Finanças anunciou hoje que o Governo abdicou de "receber o último reembolso do programa" por não querer solicitar "uma nova extensão que reabrisse o programa com a 'troika'".

O Governo aprovou hoje uma proposta de lei para reintroduzir temporariamente os cortes entre 3,5% e 10% aplicados aos salários do sector público superiores a 1500 euros introduzidos em 2011 e que vigoraram até 2013.

Mas isto e outras coisas mais, durante um mês, passarão para segundo plano.

É que hoje, no Brasil, começou o Campeonato do Mundo de Futebol.

Segunda-feira será a vez de Cristiano Ronaldo e Cª entrarem em acção.

O país está em suspenso.

Apetece citar Carlos Drummond de Andrade:

Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade. 

E NO RABECÃO OS SAPATEIROS DO COSTUME


Escutem!!! Depois de Kirkuk e Mossul, a segunda cidade iraquiana, os jihadistas tomaram Tikrit e atacam Samarra. Aqui chegados deixem-me lembrar-vos a velha história Um Encontro em Samarra contada por Somerset Maugham. Tendo um comerciante de Bagdad mandado o criado ao mercado, este veio a tremer: "Vi a Morte a olhar para mim!" O comerciante deu o seu melhor cavalo ao criado e disse-lhe para se esconder numa cidade vizinha, Samarra. Depois, o comerciante foi ao mercado e, tendo encontrado a Morte, ralhou com ela por ter ameaçado o seu servo. Mas a Morte disse: "Não ameacei, só me admirei porque tinha com ele, hoje, um encontro em Samarra..." Há, pois, um encontro com a morte em Samarra. Denunciado, aliás, por um velho provérbio português: "Quem te manda a ti, sapateiro, tocar o rabecão." Um dia, um imperialismo forte de músculos e vazio de cabeça tomou Bagdad. E que fez? Acabou com o exército e a polícia iraquiana. Qualquer músico de rabecão saberia dizer a Bush o trivial: "Matem meia dúzia de generais e substituam-nos por jovens coronéis. Mudem os déspotas, nunca destruam as instituições." Mas os sapateiros de Washington não quiseram assim. Apagaram sem precaver-se com alternativa. E querem os atuais sapateiros fazer o mesmo com a Síria... Baralham tudo, embora com desculpa: rabecão em português também quer dizer "carroça fúnebre para indigentes". Nesse sentido, a política americana para o Médio Oriente tem tocado afinada.

Crónica de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias de hoje.

CHEIRA A LISBOA



Lisboa, Marchas Populares.



Estas são duas versões de Cheira a Lisboa pela Amália Rodrigues: uma acompanhada com guitarras
outra com orquestra.
Mas quando andava no You Tube à procura da canção encontrei esta versão e... não consegui resistir.
Desculpem!...

QUOTIDIANOS


 Sou um homem grava, que contempla respeitosamente a horizonte visual. Aguardo o meu filho mais novo, que vai fazer 24 anos no Outono, e reverto o olhar para antigamente. Ainda me movo com presteza; o raciocínio é ainda claro e fértil, mas o recurso à memória, por vezes, é sufocado por hiatos breves. Esqueço-me dos nomes das coisas e costumo dar outros nomes aos nomes. Tenho 65 anos, sou escritor, escrevo um livro de asserções fingidas, sem sentir a necessidade de explicar muita coisa ou de atenuara as diferenças de regime narrativo entre a ficção pura e a História. Sei que as pessoas têm a nostalgia de épocas passadas. Desejo entrar nos sonhos das pessoas: escrevo os meus sonhos.

Baptista-Bastos em O Cavalo a Tinta-da-China.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

POSTAIS SEM SELO


Se quiseres ser universal, começa por conhecer a tua aldeia.



Fotografia de Chris Killip

OLHAR AS CAPAS



Tomás, por ele Mesmo

Selecção e prefácio de Orlando Neves
Edições Saber Porquê, Lisboa s/d

Nenhum processo foi instaurado, após o 25 de Abril de 1974, contra o homem que, durante quase dezasseis anos ocupou o cargo do “mais alto magistrado da Nação” (fórmula preferencial do fascismo para designar o Chefe do Estado) e daí que o actual Presidente da República por razões, ao que parece, “humanitárias”, lhe permita o regresso a Portugal, após a sua expulsão do Continente na noite de 25 para 26 de Abril de 1974. Se, obviamente, espanta qualquer português antifascista a decisão de permitir o regresso de Américo Tomás (e não foi espantoso também que, tanto ele como Marcelo Caetano e outros, comodamente tivessem sido instalados na Madeira e, depois, generosamente enviados para o Brasil?!), o que realmente assombrará a História será o facto de o regime democrático, pós 25 de Abril, jamais se ter lembrado de acusar A. Tomás de algo que o fizesse comparecer na barra dos tribunais. Como se um homem que, ao longo da sua carreira militar, e mais tarde, política, deu cobertura e aval a todos os crimes contra a liberdade cometidos durante os consulados de Salazar e Caetano, pudesse ser equiparado ao mais inocente ou inócuo dos cidadãos! Como se A. Tomás não tivesse sido, organicamente, o mais responsável de todos os fascistas que nos governaram! Como se a ele, pela qualidade do cargo que desempenhou, não devesse ser assacada a responsabilidade de crimes comuns em que avultará o assassínio de Humberto Delgado, o seu opositor nas urnas em 1958, que, pelo menos, permitiu ficasse sem investigação nem julgamento! Como se A. Tomás não tivesse sido Comandante-em-Chefe de umas Forças Armadas em guerra e, como tal, permitido ou ocultado os massacres da guerra colonial! Como se A. Tomás não tivesse, em tudo isto, exercido o crime de “abuso de poder” que uma Constituição, que ele permitiu fosse completamente desrespeitada, previa! Como se A. Tomás não fosse o garante de um regime moralmente condenado por todas as forças democráticas do mundo e, inclusivamente, pela ONU!
É evidente que muita matéria deveria haver – pensaria o cidadão comum – para que A. Tomás, a regressar a Portugal, o fizesse directamente para a prisão.

(Do Prefácio de Orlando Neves)

OLHARES


Manjerico.
Santos Populares, Lisboa

terça-feira, 10 de junho de 2014

NOTÍCIAS DA CRISE


Hoje, enquanto discursava na cidade da Guarda, o Presidente Cavaco Silva teve um ligeiro desmaio.

Nada de preocupante.

Em 1964, também na Guarda, discursando sem desmaio, o Presidente da Ditadura Américo Tomás disse:

E a Guarda tem uma particularidade: é a cidade mais alta da Metrópole.

1O DE JUNHO


Como facilmente se compreenderá, não é Luís de Camões que está em causa, mas este dia feriado não devia existir.

Logo após o 25 de Abril deveria ter sido eliminado.

Ou, recentemente, quando este governo permitiu que a troika nos roubasse quatro feriados, um desses feriados eliminados deveria ser este e nunca o 5 de Outubro, valha, hoje, essa data o que possa valer.

Por mais voltas que pudessem ter dado, este feriado traria sempre à memória, uma das páginas mais negras da nossa História.

Hoje, na Praça do Comércio, já não se medalham militares por feitos heroicos, já não se medalham pais que ficaram sem os filhos, nem mulheres que ficaram sem maridos, nem filhos que ficaram sem os pais.

A guerra colonial foi um crime sem qualquer espécie de perdão ou esquecimento.

Hoje, chamam ao 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades,

Escolhe-se uma qualquer cidade do país, arranja-se uma série de personalidades, que da  maior parte ninguém sabe que feitos ou obras fizeram, e enfia-se-lhes uma qualquer ordem pela cabeça abaixo.

Esboçam-se sorrisos amarelos, ouvem-se palmas pífias.

Simplesmente patético!

Mais patético ainda, quando há uns anos atrás, o Presidente Cavaco Silva, em conversa com os jornalistas, ter deixado que à superfície viessem as suas saudades salazaristas, e ter-lhe chamado o Dia da Raça.

Para que conste, repete-se:


O poeta Luís de Camões não tem nada a ver com isto!

POSTAIS SEM SELO


Ia dizer-lhe que não valia a pena obstinar-se: este último ponto não tinha tanta importância como isso. Mas ele interrompeu-me e exortou-me pela última vez, olhando-me de alto e perguntando-me se eu acreditava em Deus. Respondi que não. Sentou-se indignadamente. Disse-me que era impossível, que todos os homens acreditavam em Deus, mesmo os que não queriam ver.

Albert Camus em O Estrangeiro