terça-feira, 30 de setembro de 2014

AS PLANTAS TÊM O SEU DESTINO


Alisubbo é errante como alma. Não para desde o nascer ao pôr-do-sol e, mal se senta, um novo trabalho desponta, por vezes um nada que ele efectua minuciosamente afirmando que as plantas têm o seu destino. Profere também frases enigmáticas e eu creio que foi por causa desse aldo envolvente que Luís M. e a Grande Dama me enviaram para aqui. Mal acaba de regar a horta sobe à cidade na madrugada limpa de sangue sem que eu saiba que sítio de Lisboa é esse domínio; quando regressa, cultiva-se com a terra; quando planta as batatas fá-lo com rigor e, ao mesmo tempo, eleva-as no ar e diz-lhes uma palavras antes de as cobrir, Faz a sesta de maneira irrequieta levantando-se mil vezes para cuidar um tronco, desviar ou matar insectos, erguer um feijão verde, ou trepadeira, dar água a um pé de milho que seca na sede; nem à noite se acomoda definitivamente para dormir.

Maria Gabriela Llansol em Na Casa de Julho e Gosto

Legenda: imagem de Judi Harris 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

COM AS CASAS PASSA-SE O MESMO


Apaixonamo-nos pelas pessoas, quando as escutamos. Amamo-las. E só deixamos de as desejar quando deixamos de as ouvir. Com as casas passa-se o mesmo. Depois fica apenas uma ténue lembrança. Grata. Porque cheia de memórias.
Permitam-me que insista. As casas são como as pessoas. Porque também haveremos de amá-las mais quando elas deixarem de nos ser. Quando as perdermos. E, então, das duas uma: ou haveremos de desejá-las em ruínas, ou haveremos de desejar a nossa morte. Ou as duas. Depois, não teremos coragem nem para uma coisa nem para outra. Guardaremos essa mágoa. Sobreviveremos.

Dóris Graça Dias em As Casas

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

domingo, 28 de setembro de 2014

PARABÉNS, MINHA SENHORA


Quando pelo Natal de 2003, surgiu nos escaparates uma compilação, em CD, com algumas das canções de Serge Giansbourg.

Inevitavelmente lá aparece o Je t'aime moi non plus, mas com o Gainsbourg a fazer dueto com Brigitte Bardot, no lugar da inglesinha Jane Birkin.

Como não se pode saber tudo, desconhecia que Brigitte Bardot foi o grande amor da vida de Serge Gainsbourg e que a canção foi composta, especialmente, para ela.

Tal como Harley Davidson, a canção da motard enlouquecida de cabelos ao vento.

A quantas cabeças deu Brigitte Bardot a volta?

Talvez nem ela própria  saiba e que hoje faz 80 anos que nasceu em Paris.

O Serge Gainsbourg partiu a 2 de Março de 1991.


É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio publicado no Diário Popular de 28 de Setembro de 1977.

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1974

16 a 30 de Setembro

HÁ HISTORIADORES que designam o Setembro de 1974 como tendo sido um Setembro Negro.
O 28 de Setembro foi uma tentativa pífia de conspiração da extrema-direita, apoiada por Spínola, tendo como pano de fundo uma manifestação daquilo que o general designou como «maioria silenciosa» e constitui um dos principais marcos do processo revolucionário.
Em Julho, Spínola já tinha dito: «As maiorias silenciosas têm de sair do seu comodismo ou do seu temor e de se pronunciarem abertamente».

O PARTIDO LIBERAL, no dia 13, redige um comunicado apelando para que as pessoas começassem «a organizar a sua vida para aderirem à Grande Manifestação, e apoiar firmemente Sua Excelência na execução do Programa do Movimento das Forças armadas entendido de boa fé, como via para a democracia personalista, pluralista e livre».


MARCADA a data da manifestação da «maioria silenciosa» para o dia 28.

DURANTE A MADRUGADA do dia 18 são afixados os cartazes.

ESTAVA PREVISTO O ALUGUER DE CAMIONETAS para transportar os manifestantes, aluguer sinalizado antecipadamente com dinheiro emprestado pelo Banco Espírito Santo.

NO DIA 20, num comício na Amadora, Álvaro Cunhal denuncia: «Se a reacção aguça os dentes e se prepara para morder, é necessário partir-lhes antes que morda»!

NA TRADICIONAL CORRIDA DE TOUROS, na Praça do Campo Pequeno, de apoio à Liga dos Combatentes, é feito o ensaio geral da manifestação. Gratuitamente foram distribuídos bilhetes no valor de 300 contos. Spínola marca presença, acompanhado por Vasco Gonçalves, que é apupado enquanto Spínola é delirantemente aplaudido. A cada passe tauromáquico a populaça gritava: «Portugal! Ultramar Ultramar!». O cavaleiro João Zoio apareceria, no meio da arena, ostentando  o cartaz da manifestação da «maioria silenciosa», enquanto pela instalação sonora era feita uma convocatória para a manifestação.


NO DIA 27 o Governo Provisório manifesta a Spínola a sua discordância sobre a manifestação e este emite um comunicado agradecendo a intenção de apoio da «maioria silenciosa» mas declarando que neste momento a manifestação não seria conveniente

NA MADRUGADA do dia 28 populares montam barricadas em diversos pontos do país para evitar qualquer avanço de forças reacionárias. Organizaram piquetes, revistaram automóveis na procura de armas.

Cristóvão Aguiara escreve no seu Relação de Bordo: « … mas quem pode, em dias tão agitados como estes, ficar em casa?»

ANTÓNIO SPÍNOLA convoca o Conselho de Estado para o dia 30, renuncia ao mandato presidencial e os capitalistas portugueses vêem esfumar-se uma oportunidade de recuperar privilégios perdidos, transferem os seus capitais para o estrangeiro e, muitos, abandonam o país.
Costa Gomes é o novo Presidente da República.

ARTUR PORTELA Filho e o final de uma das suas Fundas:
O general Spínola mobilizou a maioria silenciosa.
O MFA mobilizou o País.
Foi um opção.
Que o general Spínola cometeu o erro de fazer.
Porque a maioria não é silenciosa.
Porque o MFA é o País.

Legenda: as imagens dos cartazes foram retiradas de Portugal Século XX de Joaquim Vieira, Bertrand Editora, Lisboa, Novembro de 2007.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

sábado, 27 de setembro de 2014

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS



Luz Casal vem a Portugal dar dois concertos.

Dia 29 na Casa da Música no Porto, dia 30 no Centro Cultural de Belém em Lisboa.

Foi Pedro Almodôvar quem lhe fez a apresentação: “Sapatos Altos” era o filme. Só muito vagamente, de Luz Casal, ouvira falar, mas tinha duas canções na banda sonora que lhe ficaram no ouvido.

Ao tempo, disco da banda sonora ainda não existia, mas conseguiu encontrar “Luz”, onde estavam incluídas as tais duas canções do filme: “Piensa en Mi” e “Un Año de Amor”.

Acabou por gostar de todo o disco e passou a seguir, nas “músicas do mundo”, os passos desta galega de origem.

Há três anos lutou contra um problema cancerígeno. Deu-lhe a volta e decidiu fazer um disco de boleros.

“O apelo visceral destes boleros. Porque quando cantamos canções relacionadas com os sentimentos, sempre nos passa algo por dentro não fica à flor da pele. Mas tive cuidado para não exagerar, porque senão ficaria uma caricatura, não seria verdade. Na música podemos estar à beira da lágrima mas se a lágrima cai isso não é bom, é como um “overacting”.

É preciso calma e distância para cantar uma canção sentindo-a mas não fazendo dela uma ferida.

Porque sangra.

”A vida vale sempre a pena, mesmo que seja uma luta desesperada como a de Luz Casal – tanta outra gente - sim porque, sabe-se, nada disto é um jardim de rosas.

Mas agora soube que Luz Casal cancelou todos os concertos até ao final do ano.

Uma nova luta.

Depois chegará um novo disco… chegará… Vai torcer por isso.

Horas demasiado lentas, dias demasiado rápidos.

Manda descer um charuto, coloca o disco no CD player, e sente um leve arrepio quando a voz de Luz se deixa de ouvir, os metais surgem e os violinos ficam em fundo.

Colaboração de Gin-Tonic


(Roubado daqui)




sexta-feira, 26 de setembro de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO


1.

Pedro Passos Coelho recusou hoje fazer "striptease bancário" das suas contas no período 1997-1999.
Fê-lo depois de António José Seguro lhe ter exigido que levantasse o sigilo bancário sobre as suas contas nesse período, para provar definitivamente que foi mesmo deputado em exclusividade nessa altura.
"Se eu tiver que fazer o striptease para deleite dos leitores de jornais - eu isso não faço", disse Passos.

2.

O Presidente da República sublinhou esta tarde que Passos Coelho respondeu "a todas as questões que lhe foram colocadas" sobre o caso Tecnoforma e que "escolheu o sítio certo" para o fazer, a Assembleia da República, por ser a instituição que fiscaliza o Governo.

Fonte: Diário de Notícias

Legenda: fotografia de André Koster, Lusa

OLHAR AS CAPAS



O Adeus às Armas

Ernest Hemingway
Tradução e prefácio de Adolfo Casais Monteiro
Editora Ulisseia, Lisboa s/d

Para o fim do Verão daquele ano vivíamos numa aldeia que, para lá do rio e da planície, confrontava as montanhas. No leito do rio havia seixos e pedregulhos secos e brancos ao sol e a água clara corria suavemente pelos canais. Passavam tropas em frente da casa e desciam a estrada, e a poeirada que levantavam cobria as folhas das árvores. Os troncos das árvores estavam também cobertos de pó e as folhas caíram cedo naquele ano e víamos as tropas marchando pela estrada fora e o pó que se levantava e as folhas levantadas pela brisa caíam sobre os soldados em marcha e depois a estrada deserta e branca sem nada além das folhas.

A DEFESA DO POETA



Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto 

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim 

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes 

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei 

Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição 

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ? 

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.

Natália Correia

Legenda: pintura de Wassily Kandinsky

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O CAMINHO CERTO


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...

DO BAÚ DOS POSTAIS


Postal enviado pela Angelika e o Hans-Martin.

O CHEIRO DO VINIL


Lembro-me do cheiro do vinil, do Valentim de Carvalho, das capas dos EP e LP, do Salut les Copains, e do desespero que vivi quando o meu primeiro78 rotações do Bill Halley, que ainda cheguei a ouvir numa reles grafonola, se partiu em cacos. E das festas e reuniões, dos namoros, da animação e do divertimento espontâneo e saudável, tudo isso com a "nossa" música como pano de fundo e elemento aglutinador.

Luís de Freitas Branco no Prefácio à Biografia do Ié-Ié de Luís Pinheiro de Almeida

OUTONO


A mais suave, pacata e mole das estações, o Outono, suplanta a anterior e instala-se com sobressaltos medrosos, temporais enormes, manhãs escuras, turbilhões e massacres de folhas que fazem compreender quanta violência custa a maturidade

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: Meg Ryan e Billy Cristal em WhenHarry Meet Sally de Rob Reiner (1989)  

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

OLHARES

TEM A FORMA CERTA



- Vamos lá ouvir essa Malagueña – e eu tocava-a – Apanhaste-a bem – Depois punha-me a improvisar em torno do tema, Então ele dizia: - Espera lá, não é bem assim!
- Pois não, vô, mas podia ser.
- Estou a ver que estás bem encaminhado.
No princípio, o que mais me interessava não era tornar-me guitarrista. A guitarra era apenas um meio para alcançar um fim: produzir som. Mas à medida que progredia, sentia-me cada vez mais fascinado pelo instrumento em si. Acho mesmo que, se queres ser guitarrista, o melhor é começar com a acústica e só mais tarde passar à eléctrica. Não penses que lá porque consegues sacar um uí, uí, uí, uá, uá e outros truques electrónicos te vais tornar num Townshend ou num Hendrix. Primeiro, tens de conhecer a malandra. Ir para a cama com ela. À falta de garina, dormes com a guitarra. Tem a forma certa.

Keith Richards em Life



terça-feira, 23 de setembro de 2014

O VERÃO A DESPEDIR-SE...


O Outono, eram 02,29 horas, olhou a passadeira vermelha, e entrou portas dentro.

O Natal está porta.

Os pássaros voltarão em Março.

Desde o Domingo 14 que, diariamente, nos fomos despedindo do Verão, com uma pequena recolha de versões de Summertime.

Havia centenas de chaves de ouro para encerrar esta evocação.

Escolhi a versão do Sr. Sydney Bechet, e acrescento-lhe, de Ruy Belo, o Primeiro Poema do Outono, tirado de Aquele Grande Rio Eufrates:

Mais uma vez é preciso
reaprender o outono-
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração.

E sabe deus a minha humana mão.

OLHAR AS CAPAS


Na Água do Tempo

Luísa Dacosta
Capa: Isabel Rodrigues
Quimera Editores, Lisboa, Outubro de 1992

Maio, Matosinhos, Maio de 1974

Hoje fui à praça e encontrei a hortaliceira muito desanimada com os militares no Governo.
~Tem lá algum jeito! – dizia-nos enquanto me tentava ainda com um molhinho de rabanetes . então eles perderam a guerra que era a única coisa que sabiam fazer e, agora, querem-nos governar?
Irrespondível

NOTÍCIAS DO CIRCO


Os patrões querem prolongar para 2015 o pagamento pela metade das horas extra e feriados. Defendem que as empresas continuam sem capacidade financeira para repor o pagamento integral. O tema, levantado em encontros bilaterais, deverá subir de tom à medida que se aproxima o Orçamento do próximo ano, mas conta à partida com a oposição dos sindicatos.

Legenda; ilustração da  Hermes Press

CASAS QUE CHEIRAM A MAÇÃS


Não sou o primeiro que recorda casas
que cheiram a maçãs,
nem o único recordando este cheiro
da sala de fora de meus avós.
Como eu, recordam meus tios,
meus primos e irmãs
e recordariam meus pais se estivessem entre nós.
Casa para páscoas, natais
e, em maio, para a feira.
Casa escura e fresca com um pequeno postigo.
Havia maçãs no centro da mesa de nogueira
e em cima de um loureiro muito antigo
havia outras cortadas em fatias.
Secas ao sol para durar mais uns dias.

Américo Brás Carlos em O Cheiro a Maçãs na Sala de Fora, colocado por Nicolau Santos no Expresso.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O VERÃO A DESPEDIR-SE


Quão longe vão os tempos em que as férias de Verão eram mesmo Férias Grandes.

As escolas e os liceus acabavam pelo findar de Junho e só voltávamos, consoante fosse liceu ou primária, a 1 e 7 de Outubro.

Os Bailes dos Bombeiros, nas noites escaldantes do Verão dos anos 60,damas ao bufete, garrafas de vinho branco Camilo Alves metidas em gelo dentro de um enorme alguidar de alumínio, cada taça vinte e cinco tostões, Victor Gomes e os seus Gatos Negros a tocarem Honeymoon, não em arranjo Marino Marini, mas num arranjo muito deles.


É Joni Mitchel que, hoje, nos traz a versão de Summertime e ao piano está o Sr. Herbie Hancock


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

GUNFIGHT AT GASTOWN


Aqui se conta a história de como eu, John Wayne e um bêbado que encontrara a dormir  no balcão de um “saloon” demos cabo do perigoso bando de Steps Rabbit e Paul Doors.

A coisa durava já há demasiado tempo…

Qual Robin dos Bosques às avessas, descaradamente e com total impunidade, o bando roubava aos pobres para entregar aos ricos...

O “Sheriff” Cave Silver, quando chamado a pronunciar-se, balbuciava três ou quatro frases incompreensíveis e assobiava para o lado, como se não fosse nada com ele…

A gentalha lamentava-se às escondidas, mas ninguém mexia uma palha para mudar fosse o que fosse.

Alguns,  como eu,  pensavam que a brincadeira já tinha chegado longe demais e interrogavam-se se  a única alternativa não seria corrê-los a tiro da cidade.  Mas a verdade é que ninguém avançava…

Decidi então chamar a mim essa responsabilidade. Mas precisava de ajuda, e puxei pela cabeça…

John Wayne, complicado como sempre, duvidava dos pressupostos ideológicos da empreitada e dizia-me que era bom era com uma espingarda Winchester 1892 na mão, e não com um par de pistolas... Para conseguir  a sua colaboração tive de lhe garantir que ficaria com a Angie Dickinson no final, e que  lhe faria um plano daqueles que só Hawks e Ford lhe souberam fazer, em que ficava assim como suspenso no tempo, os braços e a espingarda ao longo do corpo, a balouçar para lá e para cá como se estivesse a ser batido pelo vento.

Quanto ao bêbado, esse ansiava por uma boa garrafa de vinho e por justiça social, se possível exactamente por esta ordem. E  nem pestanejou quando lhe pus em frente um frasco de whisky, garantindo-me que, na altura da verdade, as suas mãos não lhe iriam tremer, como estava a suceder naquele preciso momento…

A cidade estava deserta e embora se vissem às janelas alguns vultos a espreitar  envergonhadamente por detrás dos cortinados, ninguém ousara, uma vez mais, sair à rua.

O silêncio era total, interrompido, aqui e além, pelo barulho dos cavalos que relinchavam nos estábulos e pelo ladrar dos cães do Velho que, como sempre, andavam engalfinhados uns com os outros.

Aproximava-se o meio-dia, e desde O Comboio Apitou Três Vezes que toda a gente sabe que meio-dia é a hora a que os bandidos descem à cidade


Teria sabido bem,  enquanto esperávamos, uma musiquinha tipo My Riffle, My Poney And Me, mas a verdade é que nenhum de nós sabia cantar. Ainda me lembrei de contratar Daniel Bacelar, um  Ricky Nelson português que me sairia mais barato, mas já era muito tarde para fazê-lo embarcar de Lisboa…


Das primeiras sombras vislumbradas no horizonte até à entrada na cidade decorreu uma  eternidade e o silêncio tornara-se cada vez mais insuportável.

Doors e Rabbit não vinham sós. Traziam com eles  o ajudante Charlie Coins, que vinha dar um último passeio pela cidade antes de rumar a outras paragens.

Vinham descontraídos,  alegres e bem dispostos, a contarem uns aos outros anedotas de subidas de salários mínimos, novos impostos e cortes de pensões, rebolando-se a rir à gargalhada em cima das suas selas.

Nunca pensaram que alguém os pudesse enfrentar face a face, e quando deram por nós já era tarde demais.

John Wayne e o bêbado cumpriram a sua tarefa com uma desenvoltura e uma rapidez que já está, como diria Molero.  Rabbit e Coins caíram como tordos para não mais se levantarem…

Havia pedido aos meus parceiros que deixassem para mim o tipo do nariz comprido, por pensar que talvez fosse ele o menos hábil a manejar uma pistola, mas a verdade é que não consegui matar à primeira Paul Doors.

Ficou caído no chão a espernear, a borrar-se  todo e a gritar pela sua mãezinha.

Com as poucas forças que ainda lhe restavam arrastou-se pelo chão e agarrou-se às minhas pernas, prometendo-me lugares de administração em tudo o que fossem ranchos nos arredores se lhe poupasse a vida.

Pareceu-me vê-lo sorrir quando lhe disse que era irreversível, e ainda mais me sorriu quando lhe meti pela garganta abaixo o cano da pistola, imediatamente antes de um esgar de pânico tomar conta do seu rosto ao perceber, pelo meu olhar, que desta vez o irreversível seria mesmo irreversível…

Fechei os olhos e disparei.

O que teria visto se os tivesse aberto não seria nada que já não tivesse encontrado muitas vezes  nos filmes do Tarantino e do Robert Rodriguez...

Mas mantive-os fechados durante tanto tempo que me pareceu uma eternidade. E ainda estava de olhos fechados quando o borburinho começou a tomar conta da cidade,  e os medrosos de há pouco assumiam agora, sem qualquer risco, a sua alegria e a sua coragem. 

Os restantes capangas do bando, esses haviam entregue de imediato as suas armas sem pestanejar

O “Sheriff” Cave Silver, chamado ao local,  abriu alas por entre a multidão, olhou para os três corpos estendidos no chão, balbuciou duas ou três frases incompreensíveis e seguiu o seu caminho, como se não fosse nada com ele. E foi o mais acertado que poderia ter feito,  porque um passo em falso ou uma frase fora do contexto e teria ido, também ele, desta para melhor…

Teria sido bonito  sair da cidade tipo justiceiro solitário, como nos filmes do Clint Eastwood, muito direito na minha sela, chapéu enfiado na cabeça até aos olhos e o cavalo em passo lento,  enquanto novelos de cotão atravessavam o plano levados pelo vento.

Mas a verdade é que não me apetecia estar sozinho.

Não naquele dia em que, pela primeira vez, havia ceifado a vida a um Ser Humano. E a sangue frio, ainda por cima…

Mas a verdade é que não havia nada a fazer.

John Wayne havia pregado dois beijos e uma palmada no rabo da Angie Dickinson e zarpara de imediato para Hollywood, onde o esperava mais um filme de “marines”.

O Velho mal se arrastava nas suas pernas  e jamais seria capaz de abandonar os seus cães e a cidade onde desde há muito se habituara a viver.

O bêbado, esse tudo quanto ainda esperava da vida estava naquele balcão daquele “saloon”, no fundo daquela garrafa.

Despedi-me de todos, sabendo que saudades, verdadeiras saudades, só iria sentir do Velho. Das canções antigas  que me cantava enquanto bebíamos um copo de vinho e fumávamos um charuto rasca,  de pernas esticadas no alpendre…  Das suas  gargalhadas, dos nomes que me chamava...

Sabia que o mais certo seria nunca mais encontrar nenhum deles, excepto os políticos e os oportunistas porque a esses, como dizia Chandler dos polícias, ainda ninguém inventou maneira de lhes dizer adeus.

Não tinha, por isso, grandes ilusões em relação ao futuro. Sabia que bando morto bando posto, e aqueles abutres que havia visto alegremente aos pulos pelas ruas da cidade não auguravam nada de bom…

Enquanto me preparava para virar costas à cidade, não me sentia muito bem  comigo próprio… A minha costela humanista não parava de me gritar que, salvo  raríssimas excepções, felicidade nenhuma  poderá ser conquistada sob a perda de um Ser Humano. Mas procurava consolar-me  dizendo-me que talvez esta tivesse sido  uma dessas excepções e, quem sabe, talvez que muita gente me viesse ainda a agradecer no futuro…  

Absorto nos meus pensamentos, só muito tarde me apercebi da algazarra que se passava atrás de mim.

Virei-me e deparei com o Velho que, acompanhado pelo mais fiel dos seus cães,  ensaiava uns passos de dança enquanto cantarolava uma das músicas que sabia que eu mais gostava.

Parou quanto o olhei nos olhos, receoso que o recambiasse de volta para a cidade.

De certeza que a sua miopia não o deixaria ver as minhas lágrimas, mas e verdade é que,  de repente, soltou uma sonora gargalhada, chamou-me um nome muito feio e perguntou-me, pela enésima vez, se alguma vez tinha sido mordido por uma abelha morta…  


Luís Miguel Mira

UTILIDADES


Um achado de pin que o Miguel nos trouxe do Canadá.

domingo, 21 de setembro de 2014

O VERÃO A DESPEDIR-SE


Um domingo, o último do Verão deste ano, com raios e coriscos, chuva a cântaros.

Hoje, a escolha da versão de Summertime, também é de cinco estrelas: Billie Holiday.

Conhecia a horta de Verão da casa dos velhos para onde os meus pais me mandavam, miúdo, passar as férias, numa aldeia plana, cercada por canais de irrigação e renques de árvores, com vielas entre arcadas baixas e águas-furtadas muito altas. Da minha infância só me ficara o Verão. As ruas estreitas que por toda a parte desembocavam nos campos marcavam de dia e de noite as fronteiras da minha vida e do mundo. Era um grande acontecimento se um automóvel, a buzinar com estrépito, vindo sabe-se lá de onde, atravessava a aldeia pela estrada principal e se afastava sabe-se lá para onde, para outras cidades, para o mar, levantando uma nuvem de garotos e de poeira.

Cesare Pavese em O Diabo Sobre as Colinas

Legenda: pintura de Nikolay Bogdanov-Belsky




PORQUE HOJE É DOMINGO


Tem sido uma semana levada do diabo, tempos formidáveis.
Neste momento, em Lisboa, chove torrencialmente, chuva acompanhada de trovoada.
E ainda é Verão.
Escolho hoje a ternura de uma canção brasileira: É Isso Aí, cantada por Ana Carolina e seu Jorge.
Bom domingo!

PARABÉNS, MESTRE COHEN!


Faz hoje 80 anos.
Há uns dias publicou o seu 13º trabalho em disco: Popular Problems.
Que dizer de Cohen?
Juntamente, com tantos outros, ajudou a que todos os meus dias fossem diferentes.
Há uns anos atrás aborrecia-se com os jornalistas: Não percebo o fascínio que as pessoas têm com o número de mylheres que tive. A grande naioria das minha noites passei-as sozinho. E não foi por opção.
Deverão existir meia-dúzia de canções de Leonard Cohen de que não gosto muito, mas não sei dizer quais são.
Pelos seu aniversário, colocar uma canção de Cohen de que gosto mesmo, é tarefa aparentemente fácil.
Acontece que não é. Antes terrivelmente difícil.
Arrisco Bird On the Wire.

Como um pássaro num fio pousado
como um bêbado num coro nocturno
eu tentei a meu modo ser livre.
Como uma minhoca num anzol
como um cavaleiro de algum livro antigo
eu guardei todas as minhas condecorações para ti.
Se eu, se eu não fui amável
espero que não dês importância a isso
se eu não fui sincero
espero que saibas que isso nunca foi para ti
como uma criança nascida sem vida
como um animal com o seu chifre
eu feri todos os que me tentaram tocar
mas juro por esta canção
e por todo o mal que já te causei
que farei tudo para te compensar.
Eu vi um pobre apoiado na sua muleta de madeira
ele disse-me:«Não deves pedir tanto»
e uma mulher bonita encostada a uma porta escurecida
gritou-me, «Eh, porque não me pedes mais?»
como um pássaro num fio pousado
como um bêbado num coro nocturno
eu tentei a meu modos ser livre

(Tradução de Manuel Cadafaz de Matos)

O CAPRICHO DE UM SEGUNDO


O capricho de um segundo
roubou-me o meu futuro
provisoriamente inteiro.
Hei-de reconstruí-lo ainda mais belo
como o imaginava desde o princípio.
Hei-de reconstruí-lo sobre esta terra firme
que se chama a minha vontade.
Hei-de elevá-lo sobre os altos pilares
que se chamam o meu ideal.
Hei-de dotá-lo de um subterrâneo secreto
que se chama a minha alma.
Dotá-lo-ei de uma alta torre
que se chama solidão.

sábado, 20 de setembro de 2014

O VERÃO A DESPEDIR-SE...


Quando o fim de Verão cai sobre a praia – uma grande chapelada aos Chats Sauvages – apetece ainda um louvor às mulheres que preenchem a areia, o mar, deliciosamente descrito por Cesare Pavese em A Praia:

No dia seguinte encontrávamo-nos no alto do escolho, eu e Doro, e abaixo de nós Célia, deitada de costas, com os olhos tapados. O toldo, na areia, estava deserto. Voltámos a falar de Mara e concluímos que uma praia é feita de mulheres e, quando muito, de crianças. Falta um homem e ninguém repara; falta uma Mara qualquer e desfaz-se o grupo.

Hoje, a aparecer por aqui, a  primeira versão tocada de Summertime-

Convidámos Charlie Parker.

E ficamos bem.

Legenda: pintura de António Ramalho


ABSOLUTAMENTE DOCE MARIA


Bem, a tua cancela de caminho-de-ferro, sabes que não consigo saltá-la
Às vezes é tão difícil, percebes
Estou só sentado aqui a atacar o meu trompete
Com todas estas promessas que me deixaste
Mas onde estás esta noite, doce Maria

Bem, esperei por ti quando estava adoentado
Sim, esperei por ti quando tu me detestavas
Bem, esperarei por ti dentro do trânsito congelado
Quando sabias que tinha um outro lugar para estar
Então, onde estás esta noite, doce maria?

Bem, qualquer um pode exactamente como eu, obviamente
Mas então, ora bem, não muitas podem ser como tu, afortunadamente

Bem, seis cavalos brancos que prometeste
Foram por fim entregues na penitenciária
Mas para viver fora da lei, deves ser honesta
Sei que dizes sempre que estás de acordo
Mas onde estás esta noite, doce Maria?

Bem, não sei como aconteceu
Mas o capitão do barco fluvial, ele conhece o meu fado
Mas todos os outros, até tu própria
Vão mesmo ter de esperar

Bem, tenho febre no fundo dos bolsos
O bêbado persa, ele segue-me
Sim, posso levá-lo para tua casa mas não posso abri-la
Percebes, esqueceste-te de me deixar a chave
Oh, onde estás esta noite, doce Maria?

Ora, estive na cadeia quando toda a minha correspondência mostrava
Que um homem não pode dar o endereço a más companhias
E agora estou aqui a olhar para o teu caminho-de-ferro amarelo
Nas ruínas da tua varanda
A perguntar-me onde estás esta noite, doce Maria

Bob Dylan

Canção do álbum Blonde onBlonde (1966)

Bob Dylan em Canções Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006.

Legnda: fotografia de Peterboroughimage



Nota do editor: Esta é uma grande canção de Bob Dylan. Infelizmente o You Tube não disponibiliza Absolutey Sweet Marie cantada por Dylan.
Certamente Dylan é Dylan, mas o Sr. George Harrison não o deixa ficar mal.
Digo eu.

PELA NOSSA DEVOÇÃO


Faz hoje 80 anos e continua irresistivelmente fascinante.

Diz a lenda que o segredo de sua beleza é o amor à vida e ao esparguete,

Tudo o que vêem devo ao macarrão, além de banhos com azeite de oliva. quando me olho ao espelho,vejo-me feliz.

Algures, num canto do país, num domingo à noite, 30 de Julho de 2006, Tiago Galvão escrevia:

Que faço a esta hora da noite? Sonho, meus caros. Sonho com os clássicos. Mais propriamente, com Sophia Loren. A doce menina que cresceu nos arredores de Nápoles, entre a decadência e a perdição. A pecaminosa mulher, filha ilegítima de Romilda Villani e Riccardo Scicolone. A diva, que, ainda na adolescência, conheceu o homem, Carlo Ponti, vinte e dois anos mais velho, com quem se haveria de casar por duas vezes, uma em 57 e outra em 66 até aos dias de hoje. A senhora, que, em 82, cumpriu dezoito dias de prisão, por fuga aos impostos. No fundo, a bela e imortal Sophia, a minha paixão, que tem menos cinco anos que a minha avó Alice, o meu grande amor. Mas enquanto a minha querida avó passa os dias silenciosamente, encostada a um canto, sentada numa cadeira, a fazer tricô, o que faz Sophia? Sophia pousa semi-nua, para o calendário da Pirelli. Sim, leram bem, Sophia Loren, aos setenta e um anos, em indumentária desenhada por Giorgio Armani, com quantidades modestas de tecido, submete-se a uma cama e deixa-se fotografar. Porquê? Não sei, ninguém sabe e, sinceramente, ninguém quer saber. Sophia Loren não pousa em nome da luta contra o cancro, nem sequer o da mama, e, ainda menos, pelos direitos dos pobres dos animaizinhos, que todos os anos morrem espancados por fétidos donos como eu. Sophia Loren pousa por nós. Pelo nosso deleite. Pelo nosso inteiro e imerecido deleite. Pela nossa devoção.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O VERÃO A DESPEDIR-SE...


O Verão angustiava-o. Certamente o desespero de nunca conseguir viver de acordo com ele.

Hoje, a versão de Summertime cabe a Maria Callas.

QUOTIDIANOS


Consternadores os resultados do vento.
Quem envolveu o girassol que havia encostado ao muro e ao soprara sem descanso, derrubou o tutor a que ele se arrimava, e o quebrou na queda?
Ao dar das cinco horas, Alice chega; desta vez, mais do que em mim repara na grande flor por terra, e sofremos a morte de um se humano.
Segredo-lhe inundada num sol imaginário:
- Dá-te aquele que já tem o teu nome.

Maria Gabriela Llansol em Na Casa de Julho e Agosto.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O VERÃO A DESPEDIR-SE...


Que bem que lhe ficava o Verão, menina...

Hoje, a versão de Summertime pertence à fabulosa Mahalia Jackson.


OLHAR AS CAPAS


O Diabo Sobre as Colinas

Cesare Pavese
Tradução: Fernando Gil
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Livro de Bolso nº 23
Portugália Editora, Lisboa s/d

- É inacreditável – disse - , mas a alma mais antiga que temos dentro de nós é a de crianças. Parece-me que continuo a ser uma criança. É o mais velho hábito que possuímos…

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O VERÃO A DESPEDIR-SE...



Começou a ver os dias ficarem mais curtos.

Da janela do sótão, olhava os crepusculos.

Pelo Verão deparava-se com sentimentos vários. Tinha dias em que o odiava, e a quietude do Outono, que se aproximava, não o deixava sossegado.

Lera, já não lembra onde: «No Inverno penso que a Primavera me vai salvar e, no Verão, penso que será o Outono, e, no Outono, fico a pensar que é sempre o mesmo; esperar de uma estação para outra.» 

Maria Callas também cantou Summertime.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

SARAMAGUEANDO


Com Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, um esboço de romance, uma reflexão sobre o poder e a violência, que chegará às livrarias no próximo dia 23 de Setembro, acaba-se a obra de José Saramago, o homem que não queria morrer sem ter dito tudo.

 O JL, saído hoje para as bancas, regista o acontecimento.

Numa abordagem ao livro, Carlos Reis, um dos principais especialistas da obra de Saramago, escreve:

E assim, o que está em Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas é tão-só uma palavra dita em fim de vida, quando o homem lúcido que foi José Saramago entendeu que era seu dever trabalhar até ao derradeiro alento; e tentar honradamente que a sua obra ficasse para além dele.

OLHARES


A solidão dos crepúsculos, vista daqui.

OLHAR AS CAPAS



Obra Escrita 
Volume 1

João César Monteiro
Coordenação e Intróito: Vitor Silva Tavares
Capa: Luís Henriques
Livraria Letra Livre, Lisboa, Junho de 2014

Nota do Editor: o habitual desta secção é a apresentação da capa, os colaboradores, a editora e a transcrição de um excerto da obra.
Porque se entende que o Intróito Inaugural, da autoria de Vitor Silva Tavares, é de uma importância extrema e clarividente – está lá tudo! - resolveu-se digitalizá-lo e deixá-lo por aqui.








terça-feira, 16 de setembro de 2014

O VERÃO A DESPEDIR-SE...


Vão faltar tantas estupendas versões de Summertime.

Mas a de Nina Simone de modo algum poderia estar nesse número.

O resto é o Verão a encaminhar os seus passos para o Outono.

Alice só tinha ido ainda uma vez à praia e chegara à conclusão de que a qualquer praia onde uma pessoa vá há-de encontrar sempre uma série de barracas, crianças a cavar na areia com pazinhas, uma fila de pensões e  hotéis e,  por ta deles, uma estação de caminho de ferro.

Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, Publicações Europa-América, Lisboa Outubro de 1977.


Legenda: imagem tirada do blogue Duas ou Três Coisas.

LEMBRAS-TE, GEORGE?


A grande desordem do mundo é o assunto do dia.

Jorge Almeida Fernandes no Público.

A ESTÁTUA E A PEDRA



A Estátua e a Pedra


Digo às vezes que não concebo nada tão magnífico e tão exemplar como irmos pela vida levando pela mão a criança que fomos, imaginar que cada um de nós teria de ser sempre dois, que fôssemos dois pela rua, dois tomando decisões, dois diante das diversas circunstâncias que nos rodeiam e provocamos. Todos iríamos pela mão de um ser de sete ou oito anos, nós mesmos, que nos observaria o tempo todo e a quem não poderíamos defraudar. Por isso é que eu digo, e esta será a epígrafe desse Livro das Tentações: «Deixa-te levar pela criança que foste». Creio que indo pela vida dessa maneira talvez não cometêssemos certas deslealdades ou traições, porque a criança que nós fomos puxaria pela manga e diria: «Não faças isso».

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Era assim, no tempo da outra senhora!...

Fonte: Agenda Cultural da Câmara Municipal de Lisboa, Abril de 1974

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O VERÃO A DESPEDIR-SE...


Setembro, o Verão a partir.

Há dias, Ana Cristina Leonardo escrevia no Expresso:

Setembro, o mês menos cruel. A promessa do Silêncio.

Com toda a subjectividade de opinar sobre essa vertente, ficamos, hoje, com uma das grandes versões de Summertime.

Digo eu.

Dois monstros da música norte-americana, da música do Mundo: Ella Fitzgerald e Louis Armstrong..




OS IDOS DE SETEMBRO DE 1974


1 a 15 de Setembro

NUMA CONFERÊNCIA realizada em Djakarta, o dirigente do Partido Pró-indonésio afirmou que a 70% da população de Timor pretende a unificação política com a Indonésia.

NUMA VIAGEM que efectuou às Lajes, Mário Soares anunciou que é propósito de Portugal manter o acordo que permite aos americanos a utilização daquela base aérea, obtendo porém alguma contrapartida que beneficie especialmente os habitantes dos Açores.

NO ESTÁDIO Universitário, em Lisboa, reúnem-se pela primeira vez em público as Testemunhas de Jeová.

OS TRABALHADORES do Jornal do Comércio manifestam-se irredutíveis quanto ao saneamento de Carlos Machado, director do jornal.

OS SINDICATOS dos trabalhadores das Artes Gráficas, Jornalistas, Administrativos e Revisores de Imprensa e Vendedores de Jornais e Lotarias, em Assembleia Plenária realizada na Voz do Operário, decidiram uma greve de 24 horas (4 de Setembro),em solidariedade para com os trabalhadores do Jornal do Comércio.

ENTRADA no dia 5 de Setembro que Cristóvão Aguiar colocou no seu Diário «Relação de Bordo»  «A História diz-se, não se repete. Mas, se não queda mal o perguntar, não será possível, em Portugal, uma edição revista e remodelada do Chile? É que há por aí movimentos escudos, olhos espreitando do fundo dos seus poços de sombra velha, aguardando a hora do grande descuido, também muitos corvos crocitando e corujas piando nas torres de algumas igrejas…»

MILHARES DE PESSOAS, num comício realizado no Pavilhão dos Desportos em Lisboa, presidido por Rui Luís Gomes, exigiram o fim da repressão no Chile.

A INTERSINDICAL, de acordo com o pedido da Central Única dos Trabalhadores do Chile (CUT) e de acordo com todas as organizações internacionais, decidiu que no dia 11, pelas 11 horas, hora a que foi assassinado o presidente Salvador Allende, uma paralisação de cinco de 5 minutos como forma de solidariedade e apoio à luta do povo chileno.

SEGUNDO O Expresso de 7 de Setembro, muitos padres estão a levantar obstáculos à campanha de alfabetização desenvolvida por um grupo de estudantes universitários.


APROVADA em Conselho de Ministros a nacionalização dos bancos de Portugal, de Angola e Ultramarino.

MÁRIO NEVES é nomeado o primeiro embaixador português em Moscovo.

EM LUSAKA as delegações de Portugal e da FRELIMO chegam a total acordo. Deste modo, Moçambique obterá a independência em meados de 1975.

É ANUNCIADO em Portugal um golpe reccionário em Moçambique em que extremistas brancos ocuparam o Rádio Clube de Moçambique e soltaram os Pides detidos na Machava. O MFA considera estes actos como crimes de alta traição aos superiores interesses de Portugal e de Moçambique, enquanto Vasco Gonçalves afirma que são «obra de uma minoria desesperada que não compreende o futuro.»

É ANUNCIADO oficialmente que os motins de Lourenço Marques originaram 100 mortos e 250 feridos, sendo negros a maior parte das vítimas.

NO ACTO OFICIAL de reconhecimento solene por Portugal da República da Guiné-Bissau (10 de Setembro), o Presidente da República António Spínola, na sua  comunicação ao país disse: «A maioria silenciosa do povo português terá pois de despertar e de se defender activamente dos totalitarismos extremistas que se degladiam na sombra servindo-se das técnicas bem conhecidas de manipulação de massas para conduzir e condicionar a emotividade e o comportamento do povo perplexo e confuso por meio século de obscurantismo político.»

JOVENS PARTIDÁRIOS DO MPP-Movimento Popular Português, foram detidos a colar cartazes no Terreiro do Paço em Lisboa:


 SEGUNDO UM grupo de democratas espanhóis, os Pides estão a ser bem recebidos pelas autoridades espanholas.

MÁRIO SOARES encontrou-se em Paris com o presidente Leopold Senghor e informou que Portugal tenciona debater a independência de Angola com o MPLA, a FNLA e a UNITA.
PÁGINA 61 de Portugal Depois de Abril: «O recurso ao financiamento estrangeiro não foi possível: o boicote económico do capitalismo internacional era já um facto, apesar das promessas demagógicas dos governos sociais-democratas e da OCDE e CEE, que não se concretizaram.
O boicote do grande capital mundial intensificou-se logo que Palma Carlos foi substituído por Vasco Gonçalves.»

Legenda:
1)      O Século, 7 de Setembro de 1974
2)      Diário de Lisboa, 14 de Setembro de 1974
3)      Expresso, 7 de Setembro de 1974

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.