quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Os políticos são iguais em todo o lado. Prometem construir pontes mesmo onde não existem rios.



Legenda: ilustração de Debra Yearwood.

OLHARES


NOTÍCIAS DO CIRCO


Logo à noite, na contagem para a chegada de um novo-velho-ano, é bom que os portugueses se lembrem que o governo, chefiado por este senhor, só nos trouxe miséria, fome, corrupção, amargura, tudo maravilhas embrulhadas em oportunismos vários, incompetências e mentiras.
Convém não esquecer que Pilatos perguntou ao povo por quem optava: se por Cristo, se por Barrabás. O que significa que o mais importante não foi ter lavado as mãos.
O mais importante foi o povo ter escolhido mal. 

OLHAR AS CAPAS


A Morte de Ivan Ilitch

Lev Tolstoi
Prefácio: António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Janeiro de 2008

«E a dor? – perguntou a si mesmo. – Que é dela? Então, dor, onde estás tu?»
Ficou atento.
«Sim, cá está ela. Pois bem, deixá-la doer.»
«E a morte? Onde está ela?»
Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde está ela? Qual morte? Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
-É então isto! – disse ele de súbito em voz alta. – Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se ! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. «Acabou-se a morte – disse a si mesmo. – Já não existe.»
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.

OUTROS NATAIS


Natal em Londres.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


E o Natal, sempre o Natal, que fazer ao Natal.

Alexandra Lucas Coelho em O Meu Amante de Domingo

Legenda: pintura de Henri Malott

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Rossio, Lisboa

OLHAR AS CAPAS


O Aprendiz Secreto

António Ramos Rosa
Edições Quasi, Lisboa Julho de 2005

Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio, mas o pilar mais forte da construção será uma palavra. Tão viva e densa como o silêncio e que, nascida do silêncio, ao silêncio conduzirá.     

OUTROS NATAIS


Natal em Gittingen.

OLHARES

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


«Mil anos que escrevas», disse, «não saberás a quem»

Maria Gabriela Llansol

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Lisboa, Praça do Comércio.

OLHARES

OUTROS NATAIS


Natal em Frankfurt.

domingo, 28 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Portugal vive empenhado em pagar direitos de autor a cavalheiros que escrevem uns livros vagamente parecidos com romances, e as senhoras que – se vivessem noutra época – resolveriam o problema com uma ida mais frequente ao confessionário. Diante do vastíssimo número de escritores de hoje em dia, o velho doutor Homem, meu pai, colocaria a hipótese de chamar pela polícia de costumes, uma velharia já no seu tempo. Mas a intenção fica. A vida não acaba, como filosoficamente considerava o tio Alberto, mas os escritores multiplicam-se bravamente. Por mim, leio cada vez mais devagar e tenho de escolher os livros da mesa-de-cabeceira.


Legenda: fotografia de Noé Sendas

OLHAR AS CAPAS


O Meu Amante de Domingo

Alexandra Lucas Coelho
Capa: Vera Tavares
Edições Tinta-da-China, Novembro 2014

Num voo directo dos anos 1980 para o Verão de 2014, o primeiro risco é algum drone, algum míssil. Depois, cá em baixo, no último litoral da Europa, as multidões seguem a derrocada do banqueiro com negócios na China que, cumprindo a palavra da maga, foi forçado a uma caução milionária para evitar o desgaste compulsório de qualquer cadeia, sexo ora, anal, o diabo, Como só tinha dinheiro chinês em casa, o arguido despachou trezentos milhões de yuans num blindado para o Ministério Público. Entre uma mini e um pratinho de caracóis, os portugueses tentam conceber trezentos milhões de yuans. Alguns mudam de banco, outros compram um mealheiro. Numa aldeia do interior um marmanjo dá cabo de uma velhinha para lhe roubar o fio de ouro, com Raskolnikov, exactamente como Raskolnikov. É um Verão dostoiévskiano, continua o bombardeio a Gaza, encapuçados tomaram a Mesopotâmia. Mas resistiremos a Julho, e depois de Julho resistiremos. Estou decidida a isso, tenho de apagar um cabrão, manter-me em forma até lá. Costas, o meu estilo é costas.

OLHARES


OUTROS NATAIS


Natal em Wurzburg.

PORQUE HOJE É DOMINGO


Ninguém me perguntou, mas a minha figura do ano é o Papa Francisco.
Ninguém se lembra de um Papa assim.
Na sua mensagem de Natal invocou os milhares de pessoas, em redor dum mundo em guerra, que perderam casa, família, trabalho, um país.
Gente sem esperança, sem futuro.
Tal como a mensagem do anjo no Presépio, o Papa Francisco, aos Homens de Boa Vontade pediu Paz.
Alguém o vai ouvir?
Bom domingo.
O último deste terrível ano de 2014.

MAR


No inverno, as praias desertas enchem-se de espuma
e de gaivotas. Ouço o rebentar das ondas contra a falésia;
e respiro o ar salgado com a impressão luminosa
da manhã. À noite, esta imagem transforma-se
numa simples memória: e colo-a ao vidro da alma
para não me esquecer do que vi, sabendo que um
dia a poderei usar, no poema, onde o mar se irá
transformar nesta imagem que guardei, numa
manhã de inverno.
Porém, não ouço no fundo das palavras
a rebentação da maré; nem respiro, por entre
os versos, o frio húmido de um litoral onde aprendi
as cores exactas da manhã. O poema não passa de
um mapa onde acompanho, na linha dos substantivos,
a corrente do mundo, e imagino, na mancha
de cada adjectivo, a forma das paisagens. E desfolho
as estrofes numa viagem abstracta, em busca
das grandes praias da vida.
Mas o mar continua colado ao vidro
da minha alma, embaciando o que escrevo
com o seu ritmo matinal.

Nuno Júdice

sábado, 27 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Viver é a coisa menos frequente do mundo.
A maior parte das pessoas existe e isso é tudo.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

NOTÍCIAS DO CIRCO


A idade da reforma vai subir para os 66 anos e dois meses em 2016, segundo uma portaria publicada que aplica o novo factor de sustentabilidade, que reflecte a evolução demográfica e a esperança média de vida.

OLHAR AS CAPAS

Sonhos de Sonhos

Antonio Tabucchi
Tradução de Maria Piedade Ferreira
Capa: Rogério petinga sobre pormenor de pintura de Marc Chagall, Lisboa 1992

Na noite de sete de Março de 1914, Fernando Pessoa, poeta e fingidor sonhou que acordava. Tomou o café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero. Enfiou a gabardina, porque lá fora chovia. Quando saiu faltavam vinte minutos para as oito, e às oito em ponto estava na estação do Rossio, na plataforma do comboio com destino a Santarém. O comboio partiu pontualmente às oito e cinco. Fernando Pessoa tomou lugar num compartimento onde estava sentada uma senhora aparentando cinquenta anos, que lia. Era a sua mãe e não era a sua mãe, e estava imersa na leitura. Fernando Pessoa pôs-se também a ler. Naquele dia tinha de ler duas cartas que lhe tinham chegado da África do Sul e lhe falavam de uma infância longínqua.

OLHARES


OUTROS NATAIS



Natal em Koblenzer.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


A velhice é isso - sermos só nós a nossa testemunha.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente, Volume II

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Segundo o Banco Central Europeu, os trabalhadores portugueses têm poder a mais e prejudicam as empresas e que ainda há muito que fazer para tornar o mercado laboral mais competitivo.

OUTROS NATAIS


Natal em Gostar, Alemanha.

MEDOS


O medo era tal que as pessoas nem o disfarçavam. Quando assinei um papel contra a guerra colonial, recebi um telegrama a louvar a minha coragem assinado por «um anónimo do Porto» e, uma vez, encontrei um na rau que se me dirigiu e disse: «Dou-lhe os meus parabéns pela sua revista. Sabe, eu não sou assinante mas compro sempre nas livrarias, porque tenho medo que vá lá a Pide buscar o ficheiro dos assinantes

António Alçada Baptista em Pesca à Linha

OLHARES


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Recebi as tuas notícias que me diziam textualmente: «Ficam a meu lado, quando me deito, as narrativas da infância, como fica a biblioteca dos místicos. No Natal há para mim uma significação – junção de princípio e de inverno com caminhos intermédios de vida que me visitam em sonho e vigília. Seres reflectidos nas suas imagens eternas – animais, homens, e o que está para além deles.»

Maria Gabriela Llansol em Na Casa de Julho e Agosto

O SURREALISMO ESTÁ ORGULHOSAMENTE EMPALHADO


Em Abril de 1984 a Relógio d’Água publicou as entrevistas que Baptista-Bastos fizera para o semanário O Ponto.

Alexandre O’Neill foi um dos entrevistados.

SILÊNCIOS



                                                             Homenagem a Fernando Lopes-Graça

Frémito
ou minuciosa dança
talvez um murmúrio de glória
ínfima
um passo
de sílabas

um luminoso
espectro

em obscura cave

um eco de música
num país silencioso

uma pedra
se levanta leve e alta
sobre uma invisível cicatriz

antigas claras vozes
elevam-se de um rio
como ramagens de água

uma estrela pródiga e precária
cintila no limiar da página

um pássaro
obstinado
fractura
uma  porta
de pedra

acende-se o sentir sonoro
sobre a lenta passadeira do silêncio

fio fundo
de um espelho
flutuantes bosques
o tremor azul de uma mulher

entre fogos contrários
delicadas surpresas
traçam na areia
ténues linhas de água

ecos de uma sombra
entre pilares de névoa
túmulos e cúpulas
antenas breves
mandíbulas de insectos

por uma escada branca
desce um longo vestido
com sete galgos brancos
as duas mãos de sangue

um astro de chuva
cada gota é uma sílaba
de água silenciosa

suspende-se
a mão errante
num ramo de lágrimas
ou nos dedos da sede

uma fronte respira
uma página de pássaros
de tranquilos clamores

de imperceptíveis
e lentas
germinações
de olhos
de mãos
de tornozelos de lua

vagas flores
labirinto
de minúsculas guitarras
logaritmos
o fogo branco do vento
uma secção cónica

(harmoniosa
desarmonia)

alguns volumes cálidos
o mar os livros
minuciosa monotonia de uma música
o longínquo leque de um riso
os fragmentos lunares
as ruas os jardins
através da neblina azul

o gosto do sal
sobre o veludo da língua
o profundo odor de um nome
pré-natal
a tranquilidade clara
de um privilégio o enlace o desenlace
de uns veios de pedra

ou de dois pensamentos
como dois arcos
de água

o pulso toca uma pequena ilha
de orvalho
uma lâmpada submersa (o azul o verde)
de uma fresca antiguidade
acende-se
no coração errante

a lenta melodia
flui
com um punhado de imagens
quase dissolvendo-se
no anónimo
intermitente
idêntica

(sob o arco do olvido
pássaro de sombra
lâmpada
ou haste de silêncio
embriagada pela sede
da sua luz
minuciosa
mínima
apaixonada
no seu sentir
sonoro
pelo pólen do instante
de um ouro leve

de um alado refúgio)


António Ramos Rosa, inédito publicado no JL

OUTROS NATAIS


Natal em Hildesheim, Alemanha.

OLHARES


AS MINHAS CANÇÕES DE NATAL


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Se eu tivesse que passar o Natal completamente só, aceitava que assim fosse, e nada mais. Só com todas as lembranças fidelíssimas e sem felicidade; porque, o que não nos traz exaltação e alegria é sempre profundo e mais real.
A solidão não é um clima que se possa compensar ou destruir. Livros, imagens, o espírito das criaturas mortas, não dão qualquer conforto, apenas distraem. Estar realmente só não comporta distracção; é melhor mergulharmos na paz terrível de estar só, sem um único desejo, nem que ele signifique uma virtude. De resto, os livros que eu escolheria num momento de mais funda solidão, poe exemplo, A Morte de Ivan Ilitch, serviria não para amenizar, mas para agravar mais. Creio que não é pessimismo o facto de aceitar o pior.


Agustina Bessa-Luís em Caderno de Significados

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

NOTÍCIAS DO CIRCO




OLHAR AS CAPAS


Poemas Com Endereço

Alexandre O’Neill
Colecção Circulo de Poesia nº 19
Livraria Morais Editora, Lisboa, 1962

No reino do Pacheco
                             (Colaboração para um almanaque)

Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.

Querer viver (deixai-nos rir!)
seria muito exigir...
Vida mental? Com certeza!
Vida por detrás da testa
será tudo o que nos resta?
Uma ideia é uma ideia
- e até parece nossa! -
mas quem viu uma andorinha
a puxar uma carroça?
Se à ideia não se der
o braço que ela pedir,
a ideia, por melhor
que ela seja ou queira ser,
não será mais que bolor,
pão abstracto ou mulher
sem amor!

Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.

Neste Reino do Pacheco
- do que era todo testa,
do que já nada dizia,
e só sorria, sorria,
do que nunca disse nada
a não ser prà galeria,
que também não o ouvia,
do que, por detrás da testa,
tinha a testa luzidia,
neste reino do Pacheco,
ó meus senhores que nos resta
senão ir aos maus costumes,
às redundâncias, bem-pensâncias,
com alfinetes e lumes,
fazer rebentar a besta,
pô-las de pernas pró ar?

Por isso, aqui, acolá
tudo pode acontecer,
que as ideias saem fora
da testa de cada qual
para que a vida não seja
só mentira, só mental...

POEMA DE DEZEMBRO PARA UMA CRIANÇA QUE VAI NASCER


Poema de Dezembro Opus 42

OUTROS NATAIS


Natal em Celle-Lower Saxony.

OLHARES


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


O prazer de dar cede lugar à estopada de ter que dar. A serenidade do pensamento da escolha cede passo, a favor do turbilhão de uma escolha que já não o é. O oferecer, como acto que vale por si só, esfuma-se na conta corrente que confronta o que se dá com o que se recebe, medido mais em euros do que em valores de vida e de relação.
Recebe-se o que não se deseja ou o que se tem a mais, por troca com o que se dá embrulhado num frete achado algures no bazar do inútil.
Dar só é bom se for natural. Dar só vale a pena se a pessoa que recebe está antes da prenda que se entrega. Dar só faz sentido se o que se oferece é uma ponte entre pessoas. Uma expressão de um sólido sentimento de união, estima ou consideração.

António Bagão Félix no Público

ESCRITA E VIDA CONJUGAL


Eu formei-me em Medicina, mas não me deixavam ir para os hospitais por razões políticas, e tinha de ganhar a minha vida. A certa altura – foi o Arnaldo que me arranjou – fazia traduções técnicas para a Sandoz, e muitas vezes ia a casa do Alexandre já quando ele vivia na Rua do Jasmim, numas águas-furtadas. Uma tarde fui lá. Ele batia à máquina e íamos traduzindo, e conversávamos disto e daquilo – era muito difícil fazer o trabalho, volta e meia dava-lhe uma maluquice qualquer. Estávamos ali e aparece a Noémia e diz: «O que é que vocês querem jantar?» O Alexandre vociferou: «Não me chateies, não Vês que estamos a trabalhar!? «Olha é o seguinte: estava a fazer um empadão de carne. Querem com arroz, puré de batata ou massa?» O Alexandre vociferou mais um bocado e eu disse: «Ó Noémia não tem importância. Faz com massa.». «Massa não tenho.» O Alexandre gritou. Eu disse: «Não tem importância nenhuma. Faz com arroz.» «Arroz não tenho.» «Com batata.» «Não tenho batata.» O Alexandre ia crescendo. Eu disse: «Não tem importância. Com essa carne e com uns ovos, fazes uma omoleta.» «Não tenho a carne», disse a Noémia, «mas há uma tasca aqui em baixo, e compro uns ovos e umas salsichas.» Foi o que nós jantámos. O Alexandre manteve uma grande ternura pela Noémia,

OLHAR AS CAPAS


Dicionário de Música (Ilustrado)

Tomás Borba e Fernando Lopes Graça
Capa: Martins Correia
Edições Cosmos, Lisboa, Dezembro de 1962

Alguns anos antes da sua morte, por volta de 1945, confiara-nos o Padre Tomás Borba, nosso antigo e respeitado professor no Conservatório, que com a sua amizade nos distinguia, o grosso volume dactilografado do seu último trabalho musicológico, o Dicionário de Música, para o qual ainda não havia encontrado editor. Convictos tratar-se de uma obra a todos os títulos notável, que à nossa parca cultura musicológica trazia uma contribuição valiosa, chamámos para ela a atenção de Bento Jesus Caraça, que a morte havia tão prematuramente de roubar tempos depois ao convívio dos seus amigos e à vida intelectual do País, procurando interessá-lo, como director da «Biblioteca Cosmos», na sua publicação.
O espírito largo e generosos de bento Jesus Caraça, de quem o próprio Padre Borba nos dizia que era «um homem de grande valor», imediatamente se interessou de facto pelo caso, começando a estudar connosco, e com o assentimento do Autor, a possibilidade de dar realização à obra.
Considerando que o trabalho original era apenas de índole técnica e histórica e que, para melhor êxito junto do público, conviria ampliá-lo com matéria biográfica, expusemos esta ideia ao Padre Borba, que com ela concordou, alegando, porém, estar já por de mais avançado em anos para poder ele mesmo proceder à de certo modo pesada tarefa dos complementos biográficos; e propôs-nos, num gesto de amizade e confiança que muito nos penhorou, nos encarregássemos nós dessa parte do Dicionário. Por seu turno Bento Caraça aceitou amàvelmente a sugestão, e assim se assentou em que a obra fosse um trabalho de colaboração.

(Do prefácio de Fernando Lopes Graça)

MERCADO PERSA



Hoje em dia, ir a uma estação de Correios comprar um simples selo para enviar uma carta, é uma trabalheira de todo o tamanho.

Raras são as máquinas de vendas de selos que estão aptas para nos dar um selo.

Na Rua Morais Soares há seis balcões, mas apenas dois têm quem nos atenda.

Tira-se uma senha e aguarda-se.

Dá para ver que, hoje em dia, uma estação de correios parece um mercado persa.

Há catálogos espalhados pelos balcões e constata-se, seguindo página a página, que, nas estações dos CTT, se podem comprar vinhos de marca, garrafs de gin, aguardentes velhíssimas, cestos de Natal Gourmet Prestige, tablets, camaras fotográficas, telemóveis, agendas, sombrinhas para a chuva, t-shirts, cremes de mãos, cremes faciais, garrafas de azeite, bases de copos, medalhas de ouro dos 110 anos do Glorioso (2.706,00 euros), também as de prata (270,00 euros), terços em prata, livros, discos.

Chegada a nossa vez, solicitados os selos, feito o pagamento, a empregada ainda nos pergunta se queremos um bilhete para a Lotaria de Natal, dia 24 anda a roda.

Há horas felizes!

OUTROS NATAIS


Natal na Alsácia.

OLHARES

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO



O tempo passa. É tudo. Compreenda quem puder. Eu desligo.

 Samuel Beckett