sábado, 31 de janeiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Enquanto houver miséria e injustiça todo homem deve ser um revoltado.

Albert Camus

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHARES


Curiosas varandas na Avenida dos Estados Unidos da América, Lisboa.

COMO UM DEUS


Em Diário de Lisboa, 16 de Janeiro de 1972

NOTÍCIAS DO CIRCO


Disse, ontem, o inquilino de Belém, que não tem mais esclarecimentos a prestar sobre a(s) conversa(s) que manteve com Ricardo Salgado.

O ex-dono-disto-tudo, enviou uma carta à Comissão Parlamentar de Inquérito parlamentar em que revelava que, em diversas reuniões, avisara todo-o-mundo-e-o-outro da condição deficitária em que o Banco se encontrava e que, com Cavaco foram duas, e não uma como antes afirmara, as conversas.

Sempre foi regra na presidência da República e hei-de mantê-la que tudo o que se vai dizer ao Presidente da República é reservado, afirmou o homem de Boliqueime-inquilino-de-Belém.

Os portugueses não querem saber do que Cavaco e Salgado falaram.

Os portugueses, como se fossem crianças de cinco anos, só queriam que o presidente explicasse porque lhes disse que podiam confiar no BES, estando o banco já com os gatos-pingados à porta?

Tão só!

Se não consegue explicar, demita-se!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


O álcool tira as ilusões. Depois de alguns golos de conhaque já não penso em ti.


Legenda: pintura de Raymond Leech

OS CROMOS DO BOTECO


Tony de Matos.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Debate quinzenal na Assembleia da República.

O desconforto do governo, e da maioria, face ao resultado das eleições de domingo na Grécia.

Pedro Passos Coelho:

Não estarei do lado de nenhuma conferência que seja para perdoar a dívida ou reestruturar a dívida à custa dos povos europeus, isso é claro, muito claro.
respondeu o chefe do Governo português.

Jerónimo de Sousa:

Mantemos a acusação séria ao Governo de não assegurar a defesa do interesse nacional. Executou obedientemente todas as imposições da troika, acatou todo o tipo de condicionamentos. Reagiu às eleições na Grécia, dizendo tratar-se de um 'conto de crianças' a proposta de renegociação da dívida. É um exemplo de como quer ficar bem na fotografia para os grandes interesses económicos.

Manuel Ferreira Lite, ontem na TVI24:

A ortodoxia fanática financeira está a ser derrotada em todo o lado.

Dados, de hoje, do Instituto Nacional de Estatística:

O risco de pobreza continuou a aumentar em Portugal em 2013, afectando já quase dois milhões de portugueses.


Legenda: imagem do Diário de Notícias

QUANDO PARO À PORTA DA ANTIGA FÁBRICA


Quando paro à porta da antiga fábrica
onde o meu avô trabalhou. Risca. Quando
a fábrica onde o meu avô trabalhou
surge de repente aos meus olhos,
sem eu ter procurado, e. Risca.
Passam de repente nos meus olhos
muitas imagens, uma delas é a porta
da fábrica onde meu avô trabalhou.
Ali me deu uma vez dez escudos para.
Risca. É um poema num café. Dele
faz parte uma mesa de café e um café.
Depois olho pela janela do café
e não está lá fábrica nenhuma,
não está lá porta nenhum, e também
sinceramente não tenho bem
a certeza de ser eu que estou aqui.
Mas o meu avô estava lá de certeza.

Helder Moura Pinheiro, Resumo: a Poesia em 2012, Assírio & Alvim, Lisboa Março de 2013 

EUSÉBIO E O PANTEÃO


Soube-se esta semana.

Eusébio a caminho do Panteão. Processo de trasladação começa agora.

A família está de acordo e o Benfica também.

Um conjunto de deputados já fechou o texto, que é o primeiro passo para a trasladação de Eusébio para o Panteão Nacional.

O José Gomes Ferreira dizia que devíamos morrer de outra maneira – transformámo-nos em nuvem, por exemplo.

Não gosto de panteões. Muito menos para pessoas que admiro.

Envolve sempre pontas nebulosas, de hipocrisia, de oportunismo político.

Recorde-se  a polémica, no tempo de Nikolas Sarkoyy, da ida de Albert Camus para o Panteão.

Também não concordei com a transladação da Sophia de Mello Breyner Andresen, e estou certo que Sophia também não concordaria.

Quem ama o mar como ela amou, não gostaria de ser encafuada junto de alguma gente tão pouco recomendável.

O Panteão do Eusébio é o Estádio da Luz.

Foi ali que ocorreram as grandes tardes de domingo, as grandes noites de quarta-feira.

Eusébio como estrela de equipas de primeiríssima água.

É essa a minha memória.

Não quero outra.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Arrumara as telas e metera o resto do material numa grande caixa em cartão, resolvendo que não lhes tocaria mais; e fora nessa noite que descobrira que nunca se regressa ao que se abandonou.

Al Berto em Lunário, Assírio & Alvim, Dezembro 1999

Legenda: não foi possível obter o autor/origem da fotografia

MARCADORES DE LIVROS

ESPERAR PARA VER


Quando um dia lhe perguntaram o que pensava de John Kennedy, Che Guevara respondeu:

É com certeza muito boa pessoa mas é Presidente dos Estados Unidos.

Sobre a recente aproximação diplomática entre Cuba e os Estados Unidos, Fidel de Castro disse:

Não confio na política dos Estados Unidos nem troquei qualquer palavra com eles- Tal não significa – longe disso – a recusa de uma solução pacífica para os conflitos. 

ESTARÁ NA CIRCUNSTÂNCIA, TUDO DITO, QUE É NADA



Vitor Silva Tavares, Público s/d

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


O gin está na moda.

Um projecto que, segundo leio, chama-se Gin Lovers.

Tem site, facebook, revista trimestral, bar próprio, loja online, workshops e já instituíram o Dia Nacional do Gin, que não sei quando calha, porque dias do gin são os dias todos do ano, assim o fígado deixasse.

O Mário Henrique-Leiria se andasse por aqui talvez dissesse bem-vindos ao clube, mas acrescentaria para não apaneleirarem a melhor bebida do mundo, uma coisa simples de mais para lhe meterem acessórios como frutas exóticas, coentros e rabanetes.

Gelo, rodela de limão, casca amarela, aprisionada entre os cubos de gelo, gin e água tónica, de preferência Schweppes que, lamentavelmente, por aqui não tem quinino, apenas essência.

Parafraseando um poema do Vinicius de Moraes: o gin é a arte do encontro.

A Raínha-Mãe, que morreu com 101 anos, a mulher mais perigosa da Europa, no dizer do déspota Adolfo Hitler, era uma pura e dura bebedora de gin.

Muito antes de chegar ao Beefeater, ao Bombay, ao Tanqueray, andei em iniciações com este Gin da Âncora, também o Bols, o inevitável Gordon’s.

O meu avô, nos jantares de domingo, uma vez por mês, galinha assada no forno, bebia uma gotinha de Genebra.

A garrafa durava uma eternidade e, depois de vazia, servia de botija para as noites de Inverno.

O anúncio foi tirado da edição do Diário de Notícias de 4 de Maio de 1967.

OLHAR AS CAPAS



Fotos-Grafias

José Carlos Ary dos Santos
Fotografias de Nuno Calvet
Capa: Cidália de Brito Pressler, Lisboa s/d

Auto-Retrato

Poeta    é certo    mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido á portuguesa    mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toiicnho e talento    ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos    uma folha de hortelã
que é verde    como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate    disparate
palavrão de machão no escaparate
porém    morrendo aos poucos de ternura.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


A vida em sociedade torna-se estranha quando nos aproximamos dos 60 anos; eu falo de livros que os outros não leram e os outros falam de livros que eu não tenho nenhuma vontade de ler.


Legenda: Jean Seberg em À Bout de Souffle

DO BAÚ DOS POSTAIS


Berlengas.

TINHA PIADA QUE FOSSE VERDADE


Vergílio Ferreira faria hoje 99 anos.

Diversas leituras, em diversos tempos, para além de reconhecer que há páginas bem interessantes nunca me emprestaram entusiasmo.

Acontece-me o mesmo com Miguel Torga.

Um homem amargo
.
Numa entrevista a Mário Ventura, este lembra-lhe que escreveu em Conta-Corrente: «Deus errou os meus cromossomas de estar em companhia» respondeu que gosta de estar com os outros, gosta muita da companhia das pessoas, mas é possível que não lhes faça muito boa companhia.

Não declaradamente confessado, lamentou que os seus pares não o tivessem proposto para o Prémio Nobel.

Janeiro de 1978:

O Torga foi pela terceira vez nomeado para o prémio Nobel. Era bom que o conseguisse. Estamos precisados de divisas.

Fevereiro de 1981:

A mulher diz-lhe que a Agustina Bessa-Luís foi proposta para o Nobel.

Comentário:

Oxalá traga as divisas para ajudar às despesas públicas.

Dezembro de 1982:

Dos escritores portugueses, por que raio serei o mais detestado dos confrades? Dou voltas à mioleira e não topo com uma resposta. Ou por outra, encontro apenas uma, por qualquer lado que enfie: é eu ser realmente bom. Tinha piada que fosse verdade.

Legenda: fotografia tirada de Conversas, Mário Ventura, Publicações Dom Quixote, Novembro de 1986.

OLHAR AS CAPAS


Música, Minha Companheira Desde Os Ouvidos da Infância

José Gomes Ferreira
Recolha e Selecção de Raúl Hestnes Ferreira e Romeu pinto da Silva
Campo das Letras, Porto Outubro de 2003

O João José resolveu, há dias, ir ao Valentim de Carvalho, comprar as Flores da Música. E quem havia ele de r lá? O Bissaia Barreto que o João conhece desde criança. Estava a comprar discos da Amália Rodrigues. Fadinhos. Dar de beber à dor.
Ficou um pouco atarantado e desculpou-se:
Estou a escolher discos para um doentinho.
O João José supôs logo que seriam para o Salazar, mas disfarçou:
É para algum doente seu em Coimbra, não?
O Bibi decidiu então pôr as cartas na mesa. E abriu-se todo:
- Tu bem sabes para quem são. São para “ele”.
Mas não resistiu a acrescentar como vaga desculpa:
- Bem, não são bem para ele. Mas para as enfermeiras. Para desanuviar o ambiente – coitadas!

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Certo dia, o Jesse acordou antes do meio-dia, um acontecimento que festejei mostrando-lhe oo7 – Agente Secreto (1962). Era o primeiro filme do James Bond. Tentei explicar-lhe a excitação que aqueles filmes causaram quando surgiram, em meados dos anos sessenta. Pareciam tão sofisticados, tão picantes. Expliquei-lhe que os filmes têm um efeito especial sobre nós quando somos muito jovens: despertam a nossa imaginação de uma forma que é difícil repetir quando somos mais velhos. Vibramos com o filme como nunca mais o faremos.
Hoje em dia, quando vou ao cinema, estou sempre a prestar atenção a tantas coisas, ao marido que fala com a mulher umas filas mais à frente, a alguém que acaba s pipocas e atira o balde para o corredor. Estou atento à edição, aos maus diálogos e aos maus actores; às vezes vejo uma cena com muitos figurantes e dou por mim a pensar: serão actores de verdade, estarão a gostar de ser figurantes ou tristes por não estar na ribalta? Poer exemplo, aparece uma rapariga no centro de comunicações no início de 007 – Agente Secreto. Tem uma ou duas falas, mas nunca mais volta a parecer no ecrã. Pergunto-me o que terá acontecido a todas aquelas pessoas que aparecem nas cenas de multidões, nas cenas de festas: o que é que acabaram por fazer na vida? Terão desistido de representar e escolhido outra profissão qualquer?
Todas estas coisas perturbam a maneira como vejo um filme, Antigamente, podiam disparar uma pistola ao meu lado que não me teriam desconcentrado das imagens que se desenrolavam no ecrã à minha frente. Revejo filmes antigos não apenas para os ver novamente, mas também na esperança de voltar a sentir o mesmo que da primeira vez.

David Gilmour em O Clube de Cinema

Legenda: UrsulaAndres em 007 – Agente Secreto

NOTÍCIAS DO CIRCO



Bonito palavreado.

O ano passado esqueceu-se (?) de saudar a entrega do Grammy a Carlos do Carmo.

Coerências cavaquistas.

Nada a que não estejamos habituados.

Hélas!

Legenda: imagem tirada da Gazeta do Artistas.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

POSTAIS SEM SELO



Amanhã fico triste,
Amanhã.
Hoje não.
 
Hoje fico alegre.
E todos os dias,
por mais amargos que sejam,
eu digo:
Amanhã fico triste,
hoje não.
Para hoje e todos os outros dias!


Poema encontrado na parede de um dos dormitórios de crianças, em Auschwitz

DA MINHA GALERIA


Romy Schneider.

INDIGNAÇÃO


O horror calou tudo, declararam.
Depois de Auschwitz
Continuámos a falar, porém – sem ambição.
Reconhecendo o inalcançável,
Baixando o olhar.
Pois o que pode a fala? Por que dizem
Que, cantada, faz de arma?
Se com ela não nos municiamos.
Se, com a morte de uma Grécia antiga,
Perdemos o condão de nomear
Deuses e sentimentos e até
As pequenas moléculas, enfim, nomear o real
Que, naquele caso, incluía o tremendo e a maravilha?
Esses, os que levavam para a praça
Quezílias, sim, projectos e também,
E, sobretudo, uma noção de polis
E de uma paridade vigiada,
Severamente vigiada.
Os Gregos, esses
Que narravam o medo para que o medo
Se tornasse visível, prisioneiro
Na teia do poema,
Se não compreensível, pelo menos
Transformado em espectáculo – essa Grécia,
Essa Atenas perfeita, mais perfeita
Que qualquer utopia, a rapariga
Inesperadamente transformada
Numa ruína,
Esses – que não existem
E nos deixaram assustados, sós,
Sob o sem-rosto, sós,
Sem as ferramentas adequadas,
Sem pensamento,
Sem esses deuses temperamentais
Que tomavam partido nos combates,
Nós, os abandonados, os que não
Sabem sequer como aplacar
E a quem,
Nós, os emudecidos,
Irmanados com os sem-terra, nós,
Os futuramente esfomeados,
Bárbaros com os pés no alcatrão,
Bebedores de petróleo, como pode
De novo a praça,
A Ágora, juntar-nos?
Transformados em porcos, por feitiço,
Pela malevolência,
Exactamente
Como na Odisseia,
Não sabemos
- e os Gregos esqueceram –
Como é que tal feitiço
Se desfaz? 

Hélia Correia, poema publicado no Público de 21 de Janeiro de 2012.

HÁ 70 ANOS


O exército soviético entrava no campo de concentração de Auschwitz.
Ali morreram cerca de 1,5 milhões de pessoas, na sua esmagadora maioria judeus.
Calcula-se que, durante a Segunda Guerra Mundial, morreram 55 milhões de homens, houve 90 milhões de feridos, dos quais 28 milhões ficaram inválidos para sempre.
Um crime nefando, uma crueldade sem nome, que jamais desaparecerá da memória dos homens.

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O DIA SEGUINTE



Grécia.

O caminho rumo ao futuro não vai ser fácil.

Será uma dura muito luta.

Mas um povo tem, sempre, o direito à esperança, à dignidade, o espaço e o tempo de um povo viver tranquilo, depois de décadas de medo e de vergonha.

Claro que os papagaios do costume já chegaram à boca de cena e bolsaram.

Angela Merkel, Banco Central Europeu e FMI já fizeram saber que não vai haver margem de manobra para uma renegociação da dívida grega.

Até o nosso engravatado-primeiro bolsou estar pouco confiante no caminho agora escolhido pelos gregos e que o programa do Syriza não existe: é um conto de crianças.

Houve quem acreditasse, mas já não engana ninguém, espera-se.

Que dizer de alguém que, em Novembro do ano passado, afirmava com aquela voz de cantor-de ópera-barato:

Se o BCE tivesse por função resolver o problema dos países indisciplinados imprimindo mais euros, pura e simplesmente esse seria um péssimo sinal.

No findar da semana, o BCE mandou-lhe às trombas o péssimo sinal!


A mezzo-soprano grega Agnes Batsa canta Áspri méra ke ya mas (There will be better days, even for us).

Sim, chegarão novos dias para nós.

POSTAIS SEM SELO


Quanto deserto atravessei para encontrar aquilo que morava entre os homens tão perto.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

SÓ OLHA EM FRENTE


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...

DÉMIS ROUSSOS (1946-2015)


Tinha 68 anos.
Os intelectuais nunca gostaram dele, mas os intelectuais não são os donos do gosto, seja ele qual for.
Vendeu 60 milhões de discos em todo o mundo e muitas das suas canções ainda hoje são ouvidas com agrado.
E u gosto do Démis Roussos.
Fez um tempo na minha vida e, como uma gripe estúpida me fez cair numa fragilidade, fiquei muito triste com a sua morte.
We Shall Dance foi o primeiro single que comprei. Custou-me quarenta e dois escudos na Discoteca Roma.
Estas são as capas dos singles de Démis Roussos que rodaram nos nossos bailes caseiros.

Que descanse em paz.








COMEÇAR COM UMA DIFERENÇA NADA PEQUENA


Alexis Tsipras tomou hoje posse como primeiro-ministro da Grécia.
O novo primeiro-ministro prestou juramento perante o chefe de Estado grego, Karolos Papoulias e é o primeiro líder do Governo grego a prescindir do juramento religioso junto do arcebispo de Atenas, líder da Igreja grega, feito tradicionalmente antes de o vencedor se apresentar ao Presidente.

Legenda: imagem de A Bola on-line.

QUANDO NÃO HÁ NADA A PERDER...


Sobre a vitória do Siryza na Grécia, lembrei-me de dois versos da Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos do álbum Os Sobreviventes (1971) do Sérgio Godinho:

                                        como um rio de fúria no peito feito tormenta 
                                        quando não há nada a perder no que se tenta?

A letra é de Sérgio Godinho, a música de José Mário Branco.

Ai o meu pobre filho, que rico que é 
ai o meu rico filho, que pobre que é
Nascidos do mesmo ventre
Um vive de joelhos pró outro passar à frente
E esta velha mãe para aqui já no sol poente
Um dia há muito tempo, vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
Seguiram pela estrada fora
Um voltou-se para trás, disse adeus que me vou embora
Voltaremos trazendo connosco a vitória
De que vitória falas, disse eu então
Da que faz um escravo do teu irmão?
Ou duma outra que rebenta
como um rio de fúria no peito feito tormenta
quando não há nada a perder no que se tenta?
Passaram muitos anos sem mais saber
nem por onde passavam, nem se por ter
criado os dois no mesmo chão
eram ainda irmãos, partilhavam ainda o pão
E o silêncio enchia de morte o meu coração
Depois vieram novas que o que vivia
da miséria do outro, se enriquecia
Não foi para isto que andei
dias que foram longos e noites que não contei
a lutar pra ter a justiça como lei
Às vezes rogo pragas de os ver assim
Sinto assim uma faca dentro de mim
Sei que estou velha e doente
Mas para ver o mundo girar de modo diferente
Ainda sei gritar, e arreganhar o dente
Estou quase a ir embora, mas deixo aqui
duas palavras pra um filho que perdi
Não quero dar-te conselhos

Mas se é teu próprio irmão que te faz viver de joelhos
Doa a quem doer, faz o que tens a fazer




Tanto o Sérgio como o Zé Mário interpretam a Cantiga da Velha Mãe e dos seus Dois Filhos.

Tentei as duas versões, mas só encontrei a do José Mário Branco que faz parte do álbum Margem de Certa Maneira (1972).


domingo, 25 de janeiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Por quem se apaixonaria ela aqui? Por si mesma? Não acredites no riso dela. Não se pode acreditar no riso de uma mulher inteligente que nunca chora: ela ri-se quando tem vontade de chorar.

Anton Tchekov em Platonov

SIM, É POSSÍVEL!


O Syriza venceu as eleições gregas.
Ficou a dois deputados da maioria absoluta.
A exemplo de outros actos eleitorais na Europa, é preocupante a ascensão dos neo-nazis gregos, coligados na Aurora Dourada, tendo sido o terceiro partido mais votado.

Legenda: imagem Reuters.

UMA RAINHA SEM REINO


Tinha 19 anos, ainda não chegara ao esplendor total, quando casou com o minorca Mickey Rooney, que passou o tempo, enquanto estiveram juntos, com infidelidades.

Seguiu-se o casamento com o director de orquestra Artie Shaw, que detestava que ela fosse actriz, as coisas também não correram nada bem e levou-a descambar numa série de casos que, ainda mais, a tornaram dependente do álcool.

 Até que numa noite, depois de dançar com Frank Sinatra, talvez Dancing in the Dark, este convidou-a para dar uma volta no seu Cadillac.

No banco de trás do carro, seguiam algumas garrafas de fosse do que fosse, porque, tanto um como o outro, em matéria de bebidas, tudo o que viesse à rede era para despejar.

Vulcanicamente bem bebidos, numa rua de Indio, desataram aos tiros. A polícia apareceu e Frank telefonou ao amigo Jack Keller: … esta noite eu e aqui a garota, enfrascámo-nos um bocado, viemos até Palm Springs e pensámos que era capaz de ser divertido dar uns tiros para os candeeiros e para as montras, mais nada.

Houve que, generosamente besuntar as mãos dos polícias para que o caso não saltasse para as primeiras páginas dos jornais.


Sinatra, casado com Nancy, não hesitou e envolveu-se com Ava, a mulher cujos olhos verdes sarapintados de amarelo pareciam irradiar uma luz mais brilhante do que o sol.

História de amor e tentação.

Ela enfeitiçou-me, contava Frank aos amigos.

 Mas à medida que o tempo corria e Sinatra não ajustava o divórcio, Ava começou a andar engalfinhada com todo o bicho careta que lhe foi aparecendo, principalmente italianos para deixar Frank, ainda mais em polvorosa.

Artie Shaw de novo em cena e Sinatra que, o odiava por o maestro se ter recusado a colocá-lo como cantor na sua orquestra, ameaçou-o de morte.

Em autobiografia não autorizada, Kitty Kelley mostra à saciedade que Ava Gardner, em turbulência sem medida, pôs a cabeça de Frank em Jack Daniels.
Ava Gardner: uma mulher capaz de tudo.

Como diria Hugo Pratt seria maravilhoso cair nos seus braços sem cair nas suas mãos.

No dia 23 de Agosto de 1941 fez um teste para a MGM.

O produtor George Sidney concluiu:

Não sabe representar, mas é um belo pedaço de mercadoria.

Assim foi.


Quando a felicitavam por uma qualquer representação, dizia:

Você sabe que eu não represento a ponta de um corno.

Ava, mito e magia, mas nunca acreditou no seu talento.

Se eu soubesse representar tudo seria diferente… mas tive o azar de ter esta cara fotogénica, disse a Henry King durante as filmagens de As Neves de Kilimanjaro.

Mas diferente para quê?

Veja-se o que se passa em A Condessa Descalça em Pandora, em Mogambo, em Noites de Iguana e não digam que isso não é cinema.

O cinema, no dizer de Jean Renoir, é a arte de pôr mulheres bonitas a fazer coisas bonitas.

No dia 20 de Outubro de 1953, as relações públicas da MGM anunciavam que, apesar de todas as esforços de reconciliação, o casamento entre Ava Frank chegara ao fim, mas o divórcio apenas se concluiu em 1956.

O crítico George Simon escreveu que Frank Sinatra produziu alguns dos seus mais emocionantes discos enquanto esteve com Ava Gardner.

Como os antigos cantores de blues, Frank despejava a sua alma, fazendo as suas baladas parecerem hinos ao remorso.

Segundo o orquestrador Nelson Riddle foi Ava Gardner quem conseguiu isso, ensinou-o a canta as canções de amor infeliz. Foi assim que ele aprendeu.


Ela foi o maior amor da vida dele e tinha-a perdido.


A alguém perguntaram se tinha animais em casa.

O alguém sorriu e disse que sim: na parede tinha um post de Ava Gardner, o mais belo animal do mundo.

Nasceu, na véspera de Natal do ano de 1922, o pai era trabalhador numa plantação de tabaco em Grabtown, Smithfield, Carolina do Norte.

Um oportuno capricho de Mr. Santa Claus, uma bela prenda de Natal oferecida aos homens, os de boa e os de má vontade.

Morreu, apos uma longuíssima agonia, aos 67 anos, completamente destroçada pela bebida.

Um mulher dominada pela fatalidade, disse George Cukor.

PROJECTO DE SUCESSÃO


Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.

António Maria Lisboa, poema dedicado a Mário-Henrique Leiria

Legenda: Grupo Surrealista de Lisboa, Portugal 1949. Na foto, da esquerda para a direita : Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos. I Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho, 1949.

Imagem retirada de Citizen Grave

PORQUE HOJE É DOMINGO


Não estivesse com uma tremenda carraspana gripal e hoje seria o dia de contar a minha história sobre este filme e como, ao fim de 50 anos, o voltei a ver, sem que nunca me tenha saído da cabeça.
A história merece uma boa disposição para ser contada.
Bom domingo!

sábado, 24 de janeiro de 2015

OLHARES


Rua Jardim do Regedor.

POSTAIS SEM SELO


Entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há uma certa cumplicidade.

Victor Hugo

LUIZ PACHECO, EDITOR





Para além dos -cá-vintesfoi com a utilização destes postais que fui adquirindo os livros do Pacheco que, raramente, chegavam às livrarias.
Foi com estes postais, que Luiz Pacheco incluía nos livro que editavas, que ele foi construindo o seu ficheiro de assinantes.
De tão simples como de importante.
Grande Pacheco!