sábado, 28 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Tinha imaginado uma cidade tão enevoada como San Sebastian ou Paris. Ficou surpreendido com a transparência do ar, a exactidão do cor-de-rosa e do ocre nas fachadas das casas, a uniforme cor avermelhada dos telhados, a estática luz dourada que perdurava nas colinas da cidade com um esplendor de chuva recente. Da janela do seu quarto, num hotel de corredores sombrios onde toda a gente falava em voz baixa, via uma praça de janelas iguais e o perfil da estátua de um rei a cavalo que enfaticamente apontava para o Sul.

Antonio Muñoz Molina em O Inverno em Lisboa

DA MINHA GALERIA



Textos manuscritos de José Afonso.
Postais da Associação José Afonso

OLHAR AS CAPAS


O Verão de 2012

Paulo Varela Gomes
Edições Tinta-da-China, Lisboa, Janeiro de 2013


Deixou que se esvaíssem todos os projectos e planos, e tentou aprender a difícil arte de viver um dia de cada vez, como um moribundo, pensando que o mesmo devia suceder aos soldados na guerra, absolutamente lúcidos em relação à contagem decrescente a que todos os seres vivos estão submetidos desde o momento em que nascem e para quem a morte já não é a abstracção distante com que a maioria desses seres se entretém.

TODAS SÃO RIDÍCULAS


Joaquina escrevia cartas de amor, quase todos
 Os dias, ao seu "adorado" António. Acabava
 com "tua para sempre" na sua letra redonda
 e miúda. Dobrava cuidadosamente a folha,
de linhas azuladas e introduzia-a no envelope,
que tinha forro violeta. Depois de escrito o
endereço postal, metia a carta por uns
segundos no decote, como para lhe transmitir
algo da própria pele. Sandra recebeu um sms
do Hugo. Guardou nas mensagens
recebidas para reler de novo. Era do rapaz que
tinha conhecido na véspera. Trazia muitos sinais
redondos a enviar sorrisos e muitas
abreviaturas de palavras, como por exemplo:
Bjs. Já tinha armazenado na pasta respectiva
do pequeno celular, várias mensagens
 daquelas, do Tiago, do Rodrigo, do Diogo, do
Afonso... Só ainda não tinham
descoberto a abreviatura da palavra "amor".
Ignora-se porque certas palavras resistem à queda das
letras, por muito tempo...

Inês Lourenço

(Poema colocado por Nicolau Santos na sua coluna de economia do Expresso de 29 de Março de 2013).

NINHARIAS


Planeio e tomo o meu lugar
Quebras a tua promessa por tudo quanto é lado
Prometeste amar-me, mas o que é que eu vejo
Só tu a chegares e a despejar intrigas sobre mim
Ninharias, ninharias
Não se recupera o tempo perdido

Ora, tu pegas no teu arquivo e baixas-me a cabeça
Nunca consigo lembrar-me de nada do que disseste
Prometeste amar-me, mas que sei eu
Estás sempre a despejar intrigas em cima de mim como se tivesses algum lugar
      aonde  ir
Ninharias, ninharias
Não se recupera o tempo perdido

Ora, já estou farto, a minha caixa está limpa
Sabes o que estou a dizer sabes o que quero dizer
De agora em diante era melhor meteres-te com outro qualquer
Enquanto o fizeres, guarda essas intrigas para ti
Ninharias, ninharias
Não se recupere o tempo perdido

Bob Dylan

Canção do álbum The Basement Tapes

Bob Dylan em Canções Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006.

À LUZ DE CANDEEIROS


Barroselas

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


É mau a gente habituar-se.


Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

OS TESOUROS DE SINATRA


Emissão radiofónica a partir de lá? E como! Quatro vezes por noite! Cada vez que te viravas alguém te entregava um microfone… Diverti-me enquanto trabalhei no Rustin Cabin… Era aquilo a que naqueles tempos chamávamos um antro dissimulado. Com isto quero dizer que todos os tipos casados estavam lá com as namoradas porque dentro da própria sala havia cabines pequenas, e tinham muita privacidade.

Frank Sinatra

Em 1939 essas emissões a partir do Rustin Cabin proporcionaram a Sinatra um trabalho com Harry James e depois com Tommy Dorsey. Frank Sinatra tornou-se uma presença essencial na rádio, ouvido regularmente em emissões de actuações ao vivo e «remotas» que apresentavam orquestras.


SEGUNDA INFÃNCIA


Quando morrem, os poetas deixam os seus poemas.
Mas lamentamos sempre quando nos deixam.
Ficamos atarantados, perdidos.
Foi o que aconteceu com o Ruy Belo.
Faria hoje 82 anos e deixou-nos tão cedo, naquele Agosto de 1978, tinha apenas 45 anos e tanto, tanto para nos dar.

À tua palavra me acolho lá onde
o dia começa e o corpo nos renasce.
Regresso, recém-nascido ao teu regaço,
minha mais funda infância, meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos.
Nem houve céus forrados sobre as horas,
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros.
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua.
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos.
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias.


Legenda: Ruy Belo com 15 anos, fotografia tirada de Ruy Belo, Coisas de Silêncio de Duarte Belo e Rute Figueiredo, Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 2000.

DOÇURAS


A Doçura de hoje remete para uma noite romântica com a minha namorada e a sugestão é um Leite-Creme com açúcar mascavado.

NOTÍCIAS DO CIRCO


A exemplo de toda a tralha que tem passado pela Comissão de Inquérito Parlamentar ao BES, Zeinal Abedin Mohamed Bava, em sã consciência, também não soube, enquanto Presidente da Portugal Telecom, responder a uma série de perguntas colocadas pelos deputados.

Mas com ele a coisa complicou-se porque a deputada Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, não o deixou baldar-se quando questionado:

Porque é que estavam, em termos acumulados, 15 mil milhões de euros da PT investidos em aplicações do GES no final de 2013?

Bava, ajeitou a gravata, olhou o vazio da sala e balbuciou:

Porque estavam.

Foi quando, calmamente, Mariana Mortágua, lhe disse:

É um bocadinho de amadorismo para quem ganhou tantos prémios, não é?

Chapeau!

FERNANDO ALVIM (1934-2015)


 Com 80 anos, morreu Fernando Alvim.
Se a guitarra de Carlos Paredes tinha aquele som inigualável a viola de Fernando Alvim tem o seu importante dedilhar.
Foram companheiros durante 25 anos.
Um homem sóbrio, competente.
 Nunca o vimos em bicos de pés e sempre longe dos holofotes.
Gostava de música, sabia da importância dos seus acompanhamentos e era isso que lhe marcava a vida e a carreira.
Faz parte daqueles homens admiráveis que não se dá por eles, mas estão no sítio certo e tornam as coisas mais fáceis e bonitas.

Legenda: pormenor da capa de Movimento Perpétuo.

OLHAR AS CAPAS


Pátios de Lisboa, Aldeias Entre Muros

Ana Cristina Teixeira
Fotografias: João Francisco Vilhena
Capa: José Teófilo Duarte
Gradiva, Lisboa, Novembro de 1991

Lisboa é uma cidade onde existem muitos pátios.
Encontramo-los não só nos bairros mais antigos, mas também em todas as áreas da urbe, mesmo nas que outrora faziam parte da franja rural da cidade, como Chelas, Lumiar, Charneca, Ameixoeira, Benfica, entre outras.
Os pátios têm uma história do passado e uma história no presente. A história do passado comunga da história da cidade e do seu devir urbanístico e social; é quase sempre um passado intemporal, perdido e suspenso no tempo; formalmente incaracterístico de uma época determinada. Por isso mesmo, é difícil classificarmos individualmente a maioria dos pátios lisboetas.
A história do presente é sobretudo a história das suas gentes, das suas origens, mentalidades, hábitos e modos de vida ancestrais que a estrutura do pátio determinou e, ao longo das sucessivas gerações, ajudou a perpetuar.
Aqui, nos pátios, a vida corre lenta.

MANHÃ FARTA


É terrível o som
da casca do ovo cozido partido sobre o balcão
é terrível esse som
quando ressoa na memória do homem sem pão
é terrível também a cabeça desse homem
do homem sem pão
quando se olha às seis da manhã
na montra do grande armazém
uma cabeça cor de farinha
mas não é para a sua cabeça que ele olha
na montra da loja Potin
está-se nas tintas para a sua cabeça, o homem
não pensa nela
sonha
imagina uma outra cabeça
uma cabeça de vitela, por exemplo,
com molho vinagrete
ou qualquer outra cabeça que se trinque
e remexe o maxilar lentamente
lentamente
e range os dentes lentamente
porque o mundo lhe dá cabo da cabeça
e ele nada pode contra esse mundo
e conta pelos dedos: um dois três
um dois três
há três dias que não come
e por muito que há três dias repita que
isto não pode continuar
isto continua
três dias
três noites
sem comer
e atrás daqueles vidros
aqueles pastéis, aquelas garrafas, aquelas conservas
peixes mortos protegidos pelos chuis
chuis protegidos pelo medo
tantas barricadas para seis míseras sardinhas…
Logo adiante o bar da esquina
café-creme e croissants quentes
o homem cambaleia
e dentro da cabeça
uma névoa de palavras
uma névoa de palavras
sardinhas para comer
ovo cozido café-creme
café com um pingo de rum
café-creme
café-creme
café-crime com pingos de sangue!…
Um homem muito estimado no seu bairro
foi degolado em pleno dia
o assassino o vagabundo roubou-lhe
dois francos
ou seja: um café pingado
setenta cêntimos
duas fatias de pão com manteiga
e vinte e cinco cêntimos para a gorjeta do empregado.
É terrível
o som da casca do ovo cozido partido sobre o balcão
É terrível esse som
quando ressoa na memória do homem sem pão.


Jacques Prévert

Legenda: pintura de  Karen Offutt

UM LUGAR NA MÚSICA CLÁSSICA


Se os encartados arrumadores de música persistirem, mesmo assim, em recusar à obra de José Afonso um lugar na categoria da música «clássica» que se apressem a rever a sua definição desta, antes que, por completo, os deixemos de tomar a sério.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


A morte está escondida nos relógios.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

DA MINHA GALERIA


7 de Março de 1967.
Segunda mão da eliminatória da Taça das Cidades Com Feira.
Benfica-Lokomotiv de Leipzig.
Ganhámos por 2 a 1.
Mas não chegou.
Na primeira mão tínhamos perdido por 3 a 1.

O MEDO DE ESQUECER TUDO


Às vezes tenho medo de esquecer tudo:
a casa onde nasci, o recreio
da escola, essas vozes
que lembram um copo de água
no Verão.

Jorge GomesMiranda

Legenda: pintura de John French Sloan

SÓ ME CALHAM DUKES


Fernando Assis Pacheco no JL, 25 de Fevereiro de 1992.

OLHAR AS CAPAS


Poemas Quotidianos

António Reis
Prefácio: Eduardo Pardo Coelho
Colecção poetas de Hoje nº 25
Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1967

Não esqueço os mortos

Não esqueço os heróis

Não esqueço
o luto
das famílias

Todos silenciosos

Denuncio
pùblicamente
a nossa cobardia

e quem mente

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Antes de dar ao povo sacerdotes, soldados e maestros, seria oportuno saber se ele está a morrer à fome.

Leon Tolstoi

DOÇURAS


Talvez porque a Páscoa se aproxima, a SIDUL, a exemplo do que faz pelo Natal, oferece-nos uma doce e enternecedora colecção de pacotinhos de açúcar.
A exemplo de outras ocasiões irei colocando por aqui os pacotinhos.
Respectivamente, frente e verso.
Porque no verso, a SIDUL, oferece-nos receitas de bolos.
Começo com um Domingo em Casa da Avó.
A receita é um Bolo de Laranja Tradicional.

OLHAR AS CAPAS


O Manuscrito na Garrafa

Daniel Filipe
Colecção Horas de Leitura nº 15
Guimarães Editores, Lisboa Março de 1960

O Pinheiro apressava-se. «Ele é sincero consigo e com os outros, porque acredita em tudo o que defende. Mas eu não. Já não sou suficientemente simples para acreditar em fadas, nem ainda bastante hipócrita para o fingir a contragosto. Nada tenho a fazer aqui. Para experiência basta».
À porta quatro homens olhavam-no, indecisos. Entraram, um a um, tìmidamente, como quem pede desculpa de se fazer notar. Carlos identificou-os logo – operários em traje domingueiro. Aqueles, por certo, também acreditavam. Vinham, de toda a parte, procurar a verdade, integrar a verdade nos corações submissos. Sorriu-lhe, inquirindo:
- Desejam alguma coisa?
Pinheiro ergueu a cabeça. E explicou:
- São representantes dos trabalhadores. Caramba, esqueci-me Tinham pedido para serem recebidos.
E para os homens, à vontade:
- Vocês desculpem. Mas com tanta coisa que fazer, passou-me inteiramente. Fica para a próxima. Cá nos encontraremos de novo. Tenham paciência.
«Tenham paciência». Carlos sentiu a frase como uma bofetada. «Tenham paciência. Uma vida inteira a ter paciência: paciência para os filhos, para a mulher, para os salários de fome, para os patrões espoliadores, para a doença, para a morte. Cabeça sempre curvada, concórdia, humilhação. E agora também paciência para os intelectuais de pacotilha que não se lembrara deles. Raio de vida».
Falou-lhes:
- Mas, afinal, queriam alguma coisa? Se lhes pudermos ser úteis…
O mais velho dos quatro gaguejou, rodando nas mãos o boné de xadrez:
- A gente queria era vê-los. Apenas para dizer que cá a rapaziada está pronta para o que for preciso. O que a gente quer é aprender
Carlos sentiu um nó na garganta. «Raios partam isto tudo. Tanta pureza, tanta ingenuidade malbaratada». 

ZECA


Havia em sua voz o que não havia
a saudade do sul (dizia ele).
Quando menos se esperava ele partia
porque era o sul na voz o sul na pele.

Porque era o espaço azul e ele dizia
- Preciso de partir para outro fado
E havia em sua voz o que só havia
do outro lado de tudo. Do outro lado.

Havia Bensafrim e a hospedaria
cavaleiros da noite bruxaria
S. Francisco de Assis –voz companheira

para levar aos obres da cidade
o calor de mais cinco e da amizade.
E uma canção à sombra da azinheira.

Manuel Alegre

OS TESOUROS DE SINATRA



Antes de ser presidente do que quer que fosse, antes de alguém, fora de Hoboken, saber de que cor eram os olhos dele, Sinatra era, o que está escrito na sua cadeira, «A Voz» e por muito boa razão. A rádio foi a primeira a levar os sons de Sinatra aos quatro cantos de um país ansioso e foi na rádio que a sua fama começou.


Uma noite, na época em que eu fazia o Hit Parade na rádio ao mesmo tempo que aparecia pessoalmente no Waldorf, ia a sair, cerca da 1 da madrugada, quando duas raparigas agarraram as pontas do meu laço do pescoço e começaram uma disputa. Quase me arrancaram a cabeça! Tive de usar um colete com gola, para imobilizar o pescoço, durante semanas.»

Frank Sinatra 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Não temos tempo para sermos nós próprios; temos apenas tempo para sermos felizes.

Albert Camus

Legenda: foto Marion Post Wolcott

DA MINHA GALERIA


À Bout de Soufle.
De uma colecção de postais de filmes comprados em Paris.

QUOTIDIANOS



Um homem de 77 anos foi, esta terça-feira, encontrado morto na Urgência do Hospital de Aveiro, por familiares de outros doentes.

Encontrava-se numa maca desde o dia anterior, altura em que deu entrada no hospital, cerca das 17.30 horas, pelas mãos dos Bombeiros de Ílhavo.

Foi uma acompanhante de outro doente que, desconfiando do estado de José Malaquias, alertou médicos e enfermeiros, que o levaram para o interior da Urgência de Medicina, desconhecendo-se há quanto tempo estaria morto.

Os médicos ainda tentaram reanimá-lo, mas não conseguiram.

ANOS DE OBSCURANTISMO, LEMBRAM-SE?


Eram duras e variadas as dificuldades com que as revistas de cultura, como a Seara Nova, a Vértice, O Tempo e o Modo, viviam em tempos da ditadura.

A maior parte dos livros editados por essas revistas não chegavam às livrarias.

Com medo da actuação da PIDE, muitas recusavam-se a recebê-los.

Era através dos seus assinantes que os livros eram divulgados e vendidos.

Assim aconteceu, por exemplo, com A Praça da Canção, editada pela Vértice.

Posteriormente, a Ulisseia fez uma 2ª edição que, de imediato, na sua quase totalidade, foi apreendida pela PIDE.

Mas havia livreiros que tinham o cuidado de esconder livros que, de antemão, sabiam que seriam alvo da actuação da sinistra polícia.

Em Lisboa, A Barata foi um bastião dessa luta.

Em Braga, a Livraria Victor, propriedade do escritor Victor de Sá.


Há outros exemplos em cidades como Coimbra, Porto, Setúbal, Faro.



 Este é um dos exemplos das dificuldades que a Seara Nova – e não só! – enfrentava: a regularização do pagamento das assinaturas.

À data deste aviso, publicado na Seara Nova n º 1465 de Novembro de 1967, seis escudos era o preço de cada número da revista.

 O que se segue, é um outro tipo de dificuldades vividos naquele tempos.

Veio publicado na Seara Nova nº 1480 de Fevereiro de 1969.

OLHAR AS CAPAS


Crónicas: Imagens Proféticas e Outras
2º Volume
(2004-2005)

João Bénard da Costa
Apresentação Alberto Vaz da Silva
Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2010

Não há ninguém que não vos diga que «isto» é um «sítio» de analfabetos (até os analfabetos). Nunca se venderam menos livros, nunca se leram menos livros, etc. etc. À primeira vista, parece que têm carradas de razão. Basta entrar numa livraria (das raras sobreviventes, fora das muralhas dos «centros comerciais» à busca de um livro que não seja o último de Margarida Rebelo Pinto ou de Paulo Coelho. Ou nos respondem logo que não há pu está esgotado, ou nos fazem perder vinte minutos diante de um computador, em aparente e opaca pesquisa, para chegar à mesma conclusão. Sobretudo se o livro procurado for «velho» (por «velho» se entendendo tudo o que foi publicado há mais de seis meses). Pior ainda, se for um «clássico».

MARCADORES DE LIVROS


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Se pudesse voltar a escolher, seria professor, animador cultural, agitador, instrutor de judo, explicador, cooperante em África.
Tudo menos cantor.
Gostava de voltar a estudar Filosofia, como nos velhos tempos. Estudei mal, mas enfim…

José Afonso

Legenda: pormenor de fotografia tirada de As Voltas de Um Andarilho.

VIVO NO CORAÇÃO DE TODOS NÓS


Considero que o José Afonso é uma figura histórica. A partir do momento da sua morte passa a estar mais presente do que nunca. De hoje em diante deixa de estar moribundo: passa a estar verdadeiramente vivo no coração de todos nós.

Carlos Paredes

Legenda: Carlos Paredes e José Afonso, finais dos anos 60. Fotografia tirada de As Voltas de um Andarilho

OLHAR AS CAPAS


Cantares

José Afonso
Prólogo Manuel Simões
Notas: José Afonso
Colecção Nova Realidade – Poesia 1
Edição dos Coordenadores (Manuel Simões e Rui Mendes), 1968

Vejam bem
Que não há
Só gaivotas
Em terra
Quando um homem
Se põe
A pensar

Quem lá vem
Dorme à noite
Ao relento
N’a areia
Dorme à noite
Ao relento
Do mar

E se houver
Uma praça
De gente
Madura
E uma estátua
De febre
A arder

Anda alguém
Pela noite
À procura
E não há
Quem lhe queira
Valer

Nota de José Afonso:

Música do filme «O Anúncio», a apresentar no Festival de Cinema Amador pelo Cineclube da Beira. O filme foi projectado em sessão privada, ainda incompleto e sem diálogos. Um homem procura emprego num escritório, dirige-se ao gerente de uma firma conceituada, a capatazes e mestres-de-obras. Em vão! Privado de fundos, vê-se obrigado a dormir ao relento e a roubar para comer. Por essa altura, festeja-se o Carnaval na cidade. Na retrete de um restaurante, único lugar onde não é visto, devora apressadamente dois ovos que metera no bolso, aproveitando-se da algazarra geral. É à luz deste contexto dramático que poderão entender-se a linha melódica e o texto rimado apensos às sequências julgadas mais expressivas. 

O ANDARILHO DA UTOPIA


Em cada dia olhava o sol que ia nascendo.

De frente.

Sem medos.

Fez cantigas raiva.

Mas não só.

Uma canção sua foi senha de uma revolta que se tornou colectiva.

 Filhos da madrugada que, então, éramos.

Nem todos, diga-se.

Um dia, tempo de embalar a trouxa e zarpar, disse às ribeiras para chorarem que ele não voltaria a cantar.

Disse.

Mas ainda está por aqui.

Sempre.

Entre mim e Urga o deserto que houver.

Disposto a escoicinhar.

Como sempre fez.

Chama-se JoséAfonso.

Também conhecido por Zeca.


Legenda: pormenor da capa As Voltas de Um Andarilho.

OLHARES


Lisboa.

OS TESOUROS DE SINATRA


Fotografia promocional assinada. anos 1940.

Era muito difícil ouvir-me a mim mesmo, durante os anos bobby-sox. Assim que eu cantava uma nota elas desatavam a gritar e a guinchar...  Nesses tempo todos os momentos foram maravilhosos. As aclamações do público eram a maior recompensa do mundo. Nesses tempos o dinheiro nunca foi o mais importante.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Mesmo no meio dos males, concedei à vossa alma o prazer possível em cada dia, já que aos mortos de nada serve a riqueza.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia. 

QUE A AGRICULTURA ACERTE O PASSO


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...

DA MINHA GALERIA


Marilyn Monroe.

DITOS & REDITOS


Como um rato, menina de bom recato.

Um comboio pode esconder outro.

Quem está, está.

Esquecer não pode ser um ofício.

Mas nem tudo o que a gente sabe nos aproveita.

A melancolia é a felicidade de estar triste.

Partir é bom, mas regressar é excelente.

Quem tem calos não se mete em apertos.

LUÍSA DACOSTA (1927-2015)


A escritora e docente Luísa Dacosta morreu aos 87 anos.

Fui sempre mais homenageada como professora do que como escritora.

Temos o triste condão de não partilhar os nossos melhores.

Sejam escritores, pintores, o que quer que seja, menos futebolistas e cantores-pimba.

Preferimos o supérfluo e o folclore medíocre e oco.

Gostava muito de ser professora e não conseguia imaginar a sua vida sem livros.

Militou na Oposição Democrática contra a ditadura.

Considerava o acordo ortográfico um crime.

São parvos, não sabem a língua.


Habituei-me a ler na Seara Nova as suas amáveis e poéticas crónicas.

Chamou-lhes A Ver-o-Mar.

Um título tão bonito como a escrita.

No seu Diário, falou das suas vivências em Timor.

Tínhamos, sem remorsos, abandonado um povo que durante séculos fora feitoria e colónia, primeiro a uma luta fraticida e partidária, depois a uma invasão.

Confessando:

Ia realmente percorrer os caminhos, as terras, as águas do mapa? Ia conviver com as gentes que sabia da enciclopédia e dos poetas?
Ali estava à procura dum destino, disposta a mar. A dar e a receber. Ah! esquecida de que a vida lhe recusara sempre destinos e que tudo o que tocava nas mãos, apodrecia, maleficamente, se esgarçava…

Palavras finais de Na Água do Tempo, escritas em Dezembro de 1987:

O tempo arrefece. Mas há sol e na linha do horizonte uns flocos de nuvens levemente rosadas como borlas de pó-de-arroz, 1920. Sobre as águas um jogo de velas. Os brancos fendidos oscilam, bailam sobre o azul – rodinha de borboletas, entre o leque aberto da rama dos pinheiros.
De manhã, dava logo de rosto com o mar, porquê então aquela melancolia? Olhava aquela beleza balética, oscilante, grácil, como se olhasse um campo lavrado de lágrimas. Era dela, dentro dela, que a melancolia morava.

Legenda: pormenor de uma crónica A Ver-o-Mar de Luísa Dacosta, publicada na Seara Nova nº  1461, Julho de 1967.

NOTÍCIAS DO CIRCO


 Wolfgang Schäuble e Maria Luís Albuquerque.

O ministro alemão entende que a política de austeridade aplicada a Portugal é um caso de sucesso.

A ministra portuguesa abana com a cabeça… e sorri.

É voz que corrente que Portugal e a Espanha foram os países que, na sexta-feira, mais se opuseram a um eventual acordo com a Grécia.

 Jerónimo de Sousa, líder do Partido Comunista:

Aqui o que é relevante é que depois de um processo de chantagem, a manutenção no essencial daquilo que são orientações draconianas para impor aos povos e, nomeadamente ao povo da Grécia, medidas profundamente dolorosas que impedem o desenvolvimento económico, a justiça social e que impedem a própria soberania.

Há nódoas que nem com benzina saem.

OLHAR AS CAPAS


Algumas Palavras

Eduardo Guerra Carneiro
Nova Realidade, Porto, Março de 1969

Que se passou com estes olhos que já sabem percorrer a cidade? Que se passou com estes olhos? É saber afinal que tudo está ligado, desde Lester Young ao som dos Beatles, passando pela ira inglesa, o grito americano, a meticulosa raiva de Fanon, as longas barbas de Walt Whitman, a guitarra de Sandburg, as palavras de Fidel, a voz de Joan Baez. Depois é fácil, meus amigos, meu amor, abrir os braços àqueles que têm braços, sorrir ligeiramente, abrir os olhos.

PORQUE HOJE É DOMINGO



É isso aí
Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa
Quase sempre

É isso aí
Os passos vão pelas ruas
Ninguém reparou na lua
A vida sempre continua

Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Eu não sei parar
De te olhar

É isso aí
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade

É isso aí
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores

Eu não sei parar de te olhar
Não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Eu não vou parar...de te olhar
Eu não sei parar...de te olhar

E esta a escolha de hoje.
Uma lindíssima canção com uma soberba interpretação de Ana Carolina e Seu Jorge.
Trata-se da versão portuguesa de uma canção que faz parte da banda sonora do filme Perto Demais.
Bom domingo.


sábado, 21 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Lançamos o barco.
Sonhamos a viagem;
quem viaja é sempre o mar.

Mia Couto

Legenda. Não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OS TESOUROS DE SINATRA


Praticamente uma das primeiras fotografias do livro Os Tesouros de Sinatra.
Frank Sinatra nos estúdios da Rádio ABC, em 1945.
Palavras de Sinatra proferidas em 1993.
Considero que sou uma das pessoas com mais sorte no mundo por ter conseguido fazer uma carreira com aquilo que adoro fazer – interpretar música maravilhosa.
Charles Pignone conclui:
A bem da verdade os sortudos somos nós.