quinta-feira, 30 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


Quem nasce pobre, tarde ou nunca se endireita.
A imagem romântica da miséria atrasou cem anos um país pobre.

Agustina Bessa Luís em Caderno de Significados

Legenda: fotografia de Gérad Castello-Lopes

OLHAR AS CAPAS


O Caçador do Nada

Pedro Alvim
Capa: José Luís da Conceição
Predo Editora, Lisboa Maio de 1972

Ia muito quieto. Ia muito quieto aquele senhor.
«Dormita» - pensou a senhora gorda que se sentou no mesmo banco.
O menino, que se sentou depois da senhora gorda, fungou por não ir junto da janela, a ver, com olhos grandes as coisas da rua.
«E este velhote a dormir com a cara no vidro!» - dizia o menino de si para si.
Amarelo, tilintado, o eléctrico foi-se aproximando do términus. Agora unicamente seguia o senhor adormecido. Fim da linha.
Acorda-o, Zé – disse o guarda-freio ao condutor.
… E veio a ambulância. O corpo foi retirado do eléctrico. Quieto. Com um bilhete de dez tostões entre os dedos da mão esquerda.

TÍTULOS


Um certo título é difícil de fixar pela sua sua extensão, mas todos sabemos que ele existe e tentamos reproduzi-lo com um sorriso: Papá, Pobre Papá, a Mamã Pendurou-Te no Armário e Eu Estou Tão Triste, da peça de Arthur L. Kopit.

Mário de Carvalho em Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão.

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


30 de Abril de 1975

Publicação da lei da Unicidade Sindical.

A lei é violentamente contestada pelo Partido Socialista, mas é aprovada por unanimidade pelo então Conselho dos Vinte, precursor do Conselho da Revolução.

O decreto reconhece a Intersindical Nacional como Confederação Geral dos Sindicatos Portugueses.


 Recorte do Diário de Lisboa de 27 de Janeiro de 1977 que resume a história da Intersindical desde a clandestinidade até ao 25 de Abril.

 Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO



Restam poucas dúvidas de que o principal motivo – há outros… e bem variados - por que as pessoas não se deslocam às salas de cinema tem a ver com o preço dos bilhetes.
A primeira Festa do Cinema a realizar-se em Portugal vai ter lugar nos dias 11, 12
e 13 de maio, e quer levar mais pessoas às salas do cinema
Nos dias 11, 12 e 13 de Maio todos os cinemas, cinematecas e auditórios do país (499 salas no seu todo) associam-se à Festa do Cinema, e vão cobrar apenas 2,5 euros pelos bilhetes, excepto para os filmes Imax, 3D e salas VIP.


quarta-feira, 29 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


Há no mundo alguma coisa mais triste do que um com­boio parado na chuva?

Pablo Neruda

Legenda: pintura de Paul Delvaux

OS TESOUROS DE SINATRA


No Steel Pier, Agosto de 1939
Algumas das primeiras actuações de Sinatra tiveram lugar em Atlantic City, perto de casa. Sinatra cantou muitas vezes no Steel Pier, como cantor residente da orquestra de Harry James; aqui vemo-lo sentado ao lado de James, que está na frente ao centro.

Charles Pignone

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


29 de Abril de 1975

OS JORNAIS dão conta que Eusébio, por um cachet de 2.550 contos, vai realizar 15 jogos dos Estados Unidos.

ANUNCIADA a saída próxima de um semanário: O Jornal. Um conjunto de jornalistas, insatisfeitos pelas pressões que não lhes permitem a liberdade de informação desejada, constituem-se em cooperativa para publicação do semanário

MIGUEL TORGA no seu Diário:
Meu dito meu feito. Depois do amuo, a reacção raivosa dos vencidos. Vencidos menos pelo significado numérico dos votos do que pela maneira  ressentida como vivem a sua condição minoritária. O que devia ser um íntimo contentamento colectivo – cada português a felicitar-se de pertencer a um agregado humano que depois de um  cativeiro de meio século, acrescido de um inesperado surto de medo que parecia não ter fim, foi capaz  de uma atitude cívica exemplar -, motivo de desespero para todos os derrotados. Não sabemos perder nem ganhar, Se perdemos, odiamos o vencedor, e fazemos tudo para lhe tirar da cabeça a coroa de louros; se ganhamos, ninguém nos atura, porque falseamos a dimensão da vitória na expressão empolada do triunfalismo.


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Diário de Miguel Torga.

OLHAR AS CAPAS


Livro de Andar e Ver

Luís Veiga Leitão
Capa: João B.
A Regra do Jogo, Lisboa, Março de 1978

Tragédia das mulheres que, neste coice do mundo, mal provaram sequer as alegrias da adolescência, muito menos as da infância. Demais, as palavras que talham a figura tresandam a roupa coçada.
Mortos os pais, cavadores de sol a sol, a madrinha tomou conta dela. Ensinou-lhe a fazer meia, a talhar um avental, a cozer o pão no forno e outros amanhos da casa. Tudo isto acompanhado de pancada; mormente quando os seios teimavam em romper a blusa. E os seios iam teimando e crescendo… Neles, os rapazes davam de comer aos olhos.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


No dia 21 de Maio as salas de cinema do Centro Comercial Fonte Nova, fecham portas.

Há 20 anos que a Medeia Filmes explorava estas salas.

Oito ao todo,

Foram inauguradas em 1997,

Sobre o encerramento das salas, Paulo Branco disse que as frequências de espectadores já eram muito reduzidas e nem se justificava a existência daquelas salas ali, sobretudo porque a não muita distância se situa o Centro Comercial Colombo, também com exibição cinematográfica, em nove salas comerciais e modernas.
Paulo Branco fica agora com apenas dois espaços em Lisboa: o Monumental, com programação regular, e o Nimas destinado a ciclos temáticos.

O cinema King, também da Medeia, encerrou em Novembro de 2013.

Os quatro trabalhadores dos cinemas do Fonte Nova vão ser transferidos para as outras duas salas.

Ainda hoje não consegui escrever sobre o encerramento do King, de que fui um dos últimos espectadores e dos cinemas que, nos últimos tempos, mais frequentava.

Há por aí uns alinhavos sobre esse dia em que vi o lindíssimo, Viagem a Tóquio, de Yasujiro Ozu, mas há coisas que doem muito.

Não é esquecê-las… é apenas arranjar, um tempo, uma disposição.

Mas que tempo? 

Que disposição?

terça-feira, 28 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


Primeiro dizem uma coisa e, depois, fazem outra…

Hugo Pratt em A Balada do Mar Salgado

DA MINHA GALERIA

NOTÍCIAS DO CIRCO


Não é normal que um país tão pequeno tenha detidos, seja já condenados, seja à espera de decisões dos tribunais, um primeiro-ministro, ministros, secretários de Estado, um líder de bancada parlamentar, diretores gerais. Nenhum país europeu tem tantos políticos a contas com a justiça como em Portugal.

Henrique Neto, candidato às eleições presidenciais.

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


28 de Abril de 1975

NA COMPOSIÇÃO DA Assembleia Constituinte os advogados estão em maioria.
Em 250 eleitos há apenas 20 mulheres.
Em quatro décadas de democracia que estão cumpridas desde 25 de Abril, encontramos 31mulheres ministras e 467 homens, nenhuma mulher como presidente da República, apenas uma candidata a presidente: Maria de Lurdes Pintasilgo nas eleições presidenciais de 1986, sendo também a única mulher que chefiou um governo, nomeada, em 1979, pelo Presidente Ramalho Eanes.

CRISTÓVÃO AGUIAR EM Relação de Bordo:
As primeiras eleições livres de toda a minha vida! Ficou o Partido Socialista à frente, com cerca de trinta e oito por cento de votos expressos. Nunca tinha votado antes, que nunca me deixaram recensear nas alturas em que havia eleições ou um arremedo delas. E se calhar valeu bem a pena esperar tanto tempo por este dia em que o Povo Português foi votar em plena liberdade e com uma alegria que afastava nuvens e outras sombras dos rostos onde elas não há muito costumavam vir aninhar-se. Foi como se estivesse toda a gente em festa tanto pelo direito como pelo avesso.

VERGÍLIO FERREIRA NO 1º Volume da sua Conta-Corrente:
Dia 25 houve eleições. Noventa por cento do País foi às urnas. Só dez por cento votou em branco, ou seja o que as tropas aconselhavam para demonstrarem, como Salazar, a nossa incapacidade política. Mas o povo sabia o que queria. E disse-o. Vagas de gente à porta das assembleias. Duas horas em pé e à espera, foi a minha ração. Notabilidades na minha bicha, o Rosa Coutinho. Mas também tive um jornalista a questionar-me… Resultado: vitória dos socialistas, ou seja do slogan «socialismo sim, ditadura não». Somos um país pacífico, vagamente preguiçoso, chateia-nos uma ordem de caserna como a que nos imporia o comunismo. Revelado este como pobre minoria. O activismo, a ousadia, a ameaça davam este na aparência como uma força maioritária. Não era. Estava tudo na primeira linha e imaginava-se que havia outras linhas atrás. Clamor agora de vencidos: «A esquerda triunfou.» Pois. Mas não a deles. E agora?

MIGUEL TORGA NO seu Diário:
Eleições sérias, finalmente. E foi nestes cinquenta anos de exílio na pátria a maior consolação cívica que tive. Era comovedor ver a convicção, a compostura, o aprumo, a dignidade assumida pela multidão de eleitores a caminhar para as urnas, cada qual compenetrado de ser portador de uma riqueza preciosa e vulnerável: o seu voto, a sua opinião, a sua determinação. Parecia um povo transfigurado, ao mesmo tempo consciente da transcendência do acto que ia praticar e ciente da ambiguidade circunstancial que o permitia. O que faz o aceno da liberdade, e como é angustioso o risco de a perder! Assim os nossos corifeus saibam tirar do facto as devidas conclusões. Mas duvido. Nunca aqui os dirigentes respeitaram a vontade popular, mesmo quando aparentam promove-la. No fundo, não querem governar uma sociedade de homens livres, mas uma sociedade de cúmplices que não desminta a degradação deles.


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Relação deBordo – Cristóvão de Aguiar.
- Conta-Corrente de Vergílio Ferreira.
- Diário de Miguel Torga.

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO


Série de nove "fascículos de poesia" publicados no Porto, entre 1957 e 1961, sob a direção de Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro. Incluíam poesia empenhada, que se insurgia contra o mundo circundante (a violência, a injustiça, a falta de liberdade) e afirmava o valor da solidariedade com o próximo.
A designação da revista, retirada do título de um poema de Egito Gonçalves, publicado no 4.° fascículo de Árvore, remete para um programa de poesia de resistência, aludindo metaforicamente ao cerco a que estavam submetidos os intelectuais portugueses.
Sem apresentar texto programático, nem textos de crítica ou teoria poética, a publicação reúne criação poética de autores com opções estéticas diversas (além da direção, Jorge de Sena, Casais Monteiro, Miguel Torga, Afonso Duarte, António José Fernandes, Vasco Costa Marques, Mário Henrique Leiria, Maria Almira Medina, João Ribeiro Melo, Orlando da Costa, José Fernandes Fafe, António Reis, Daniel Filipe, Joaquim Namorado, João Rui de Sousa, Alexandre O'Neill, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz), mas que colaboram sistematicamente com composições subordinadas a um intuito de denúncia e combate. Cada fascículo incluía, ainda, nas últimas páginas, tradução de poetas estrangeiros (Brecht, Guillevic, Stephan Hermlin, Jorge Carreara Andrade, Jean Todrani, Nicolau Vaptzarov). Os fascículos 6 e 8 são dedicados a poetas moçambicanos e angolanos.

Da Infopédia, Porto Editora

Este é o poema Notícias do Bloqueio de Egito Gonçalves, do livro A Viagem com o Teu Rosto (1958) e reunido em Os Arquivos do Silêncio:

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

Notícias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
             e a esperança reproduz-se 


Esta é a canção Let My People Go cantada por Paul Robeson e referida no poema de Noémia de Sousa Deixa Passar o Meu povo

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio

Poemas de Noémia de Sousa, José Craveirinha Rui Knopfli, Rui Nogar
Capa: Rui Knopfli
Porto, Agosto de 1959

DEIXA PASSAR O MEU POVO

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimba chegam até mim
— certos e constantes —
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar…
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Marian cantam para mim
spirituals negros de Harlem.
«Let my people go»
— oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo —,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
«Let my people go».
Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo…
(Dentro de mim,
deixa passar o meu povo,
«oh let my people go…»)
E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda — minha irmã.

Escrevo…
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé — meu irrião — e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho lumírioso do rádio
— «let my people go».
oh let my people go.

E enquanto me vierem de Harlem
vozes de lamentação
e os meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insónia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:
«Let my people go»
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO.

Lourenço Marques 26.l.50

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Será que este rapaz, a perguntar: 
- Eu?... Porquê?... é o Jorge Jesus treinador do Benfica?
Se não é... bem parece!...
O anúncio foi publicado em O Seculo Ilustrado de 4 de Maio de 1974.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

POSTAIS EM SELO


E o horizonte que no olhar não cabe.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS


Histórias do Cinema

João Bénard da Costa
Capa: Lígia Pinto
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa Agosto de 1991

O chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso), se nada deixou igual ao que antes estava, abateu-se igualmente sobre o cinema. Como todos os outros portugueses, os cineastas dividiram-se nas mais variadas facções e partidos e a aparente unidade do «cinema novo» (assaz fictícia, como atrás se disse, nos inícios dos anos 70) quebrou-se. O Centro Português de Cinema que em princípios de 1974 já contava 36 sócios dividiu-se em várias outras cooperativas (Cinequipa, Cinequanon, Virver, Grupo Zero, Paz dos Reis) agrupando os cineastas em diversas – e opostas – famílias estéticas e políticas. Em 1977, o C.P.C. – mantido aberto, apenas para «liquidação» do terceiro e último plano com a Gulbenkian anunciado em Maio de 1974 – cessou produção. Em 1978, a expressão «cinema novo» passava à história. O arranque decisivo que parecia iminente em Março de 1974, com a aprovação do I Plano do I.P.C. e do II com a Gulbenkian foi varrido, como tudo, pelos ventos de Abril.

OS TESOUROS DE SINATRA


Com Dean Martin e Sammy Davis Jr., Setembro de 1963
O trio de Dean, Sammy e Sinatra era sempre bem-vindo no palco do Sands. Aqui davam a conhecer uma das suas brincadeiras do momento, desenvolvida à volta da estatura reduzida de Sammy.

Charles Pignone

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


28 de Abril de 1969

Ontem o 1º espectáculo deplorável do Salazar na televisão – escaveirado, com o lado esquerdo paralisado e a ler enrodilhadamente uma mensagem de que ninguém percebeu patavina.
O texto – vi-o hoje nos jornais - era o seguinte:
«O número de pessoas que se interessaram pela minha saúde e vida quando gravemente comprometidas, comoveu-me profundamente. É a primeira vez que me apresento em público e não podia deixar de ter no meu espírito todas essas manifestações de amizade, carinho e interesse para lhes render o tributo da minha gratidão. Deus foi infinitamente bom para com as nossas súplicas e demonstrações de aflição. Pedimos-lhe que continue a proteger-nos e a ajudar-nos.»
O Abelaira:
- Não há direito dos marcelistas pregarem esta partida vergonhosa aos salazaristas. Mostrarem-lhes um cadáver maquilhado para provarem ao país que o Salazar já não podia governar. O pobre coitado lá voltou para a cova.

José Gomes Ferreira no 7º Volume de Dias Comuns

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


27 de Abril de 1975

OS JORNAIS continuam a dar relevo aos resultados das eleições para a Assembleia Constituinte.
Hoje, sabe-se que não mais voltou a existir um grupo de deputados, de todos os partidos, como aquele que foi eleito.
Quer política quer culturalmente.
Nas páginas de cobertura do acto eleitoral o Popular conta a história de uma senhora de 78 anos, que se apresentou no local da votação «a tremer e as lágrimas a rebentarem nos olhos, implorando que a ajudassem.» Obtida a concordância dos seus colegas, o presidente da mesa aproximou-se dela e ajudou-a a fazer um risco no voto («estava provado à evidência, que aquele não seria um acto político consciente», daí a opção pelo voto nulo).
À saída, o repórter fala com a cidadã. Fica a saber que é moradora na Rua do Arco Carvalhão, «onde proliferam barracas». E que vive «de uma esmola da Misericórdia».
- Veio votar porquê?, pergunta o jornalista.
-Porque tinha medo que me retirassem a esmola.
O repórter vê, no episódio, «uma marca indelével do fascismo». E também o «preço de uma aprendizagem política» a haver.

NATÁLIA CORREIA, no seu livro Não Percas a Rosa:
À medida que a televisão transmitia imagens do cerco repugnante dos repórteres aos eleitores rústicos que se avizinhavam das assembleias de voto, a certo regista:
Interpelando uma idosa mulher do campo, um dos garanhões da reportagem destinada a vexar a consciência cívica das populações rurais, lançou-lhe este desafio:
- A senhora sabe o que é uma Assembleia Constituinte?
A velha estacou para o medir com um olhar desprezível e ripostou-lhe numa ironia embaraçante:
- E vossemecê sabe o que é um almude?

DOMINIQUE POUCHIN à conversa com Mário Soares:
Um ano. Dia após dia, a seguir à sublevação libertadora dos capitães, Portugal elegeu os deputados à Assembleia Constituinte: eis chegada a hora que Você tanto esperava, certo de que seria a desforra. À noite, nos salões da Fundação Gulbenkian – onde mil jornalistas de toda a parte do mundo ouviam os resultados sem surpresa -, saboreava a sua vitória e o fracasso dos comunistas. Em privado, Você não deixaria de notar que este segundo 25 de Abril seria um duro golpe para aqueles que fizeram o primeiro.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Não Percas a Rosa de Natália Correia
- Portugal: Que Revolução? de Mário Soares e Dominique Pouchin, Perspectivas & Realidades Editores, Abril de 1976.

MARCADORES DE LIVROS

domingo, 26 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


O derrube de uma árvore provoca um estrondo enorme; uma floresta a crescer não se ouve.

Autor desconhecido

Legenda: não foi possível obter o autor/origem da fotografia.

DITOS & REDITOS


Não é pobre o que tem pouco, mas o que deseja muito.

A solidão da partida sabe tão bem como o desejo da chegada.

Porque será que todos os burros têm sorte.

As mulheres vestem-se tanto melhor, quanto mais tencionam despir-se.

O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Os pobres quando adoecem deitam-se e tomam chá.

A boca a saber-lhe a risos podres.

Enquanto dura, vida doçura.

OLHAR AS CAPAS


Ponte Inquieta
3º Volume de Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 2000

13 de Setembro de 1967

Miguel Torga discursou ontem na Universidade de Coimbra num colóquio comemorativo da Abolição da Pena de Morte em Portugal. Não li a comunicação e ignoro até se os jornais a publicam na íntegra.
Oxalá Torga, com a costumada coragem dos escritores que aceitam essas missões, não se tenha esquecido de protestar contra o que hoje tanto nos desonra diante de nós mesmos: as medidas de segurança e as torturas policiais.
Sem isso para que serviria o discurso? Para dourar um momento?
Não se pode ser nada, quando o solo debaixo dos pés é um coágulo informe sorvido por outros corpos sociais dominantes de que os que governam são apenas lacaios.

PORQUE HOJE É DOMINGO


Inevitavelmente.
Bom domingo!

sábado, 25 de abril de 2015

OLHARES







Hoje, na Avenida da Liberdade em Lisboa.

POSTAIS SEM SELO


Não se pode ser nada, quando o solo debaixo dos pés é um coágulo informe sorvido por outros corpos sociais dominantes de que os que governam são apenas lacaios.

Maria Velho da Costa em Cravo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

AO CAIR DAQUELA TARDE DE ABRIL


Rua António Maria Cardoso em Lisboa.

Hoje, este edifício

é um condomínio de luxo.

Outrora, foi a sede da sinistra PIDE.

Já tinha sido, de 1933 a 1945, da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).

Em 1969, tempos da dita «primavera marcelista», passou a chamar-se DGS, mas a mudança apenas aconteceu no nome.

Continuaram a perseguir, a prender, a espancar, a torturar, a assassinar.

No findar da tarde de 25 de Abril de 1974, das janelas da sede, os pides abriram fogo sobre os populares que aguardavam a sua rendição.

Quatro mortos, dezenas de feridos.

Também a morte de um pide, quando em fuga, foi atingido pelos militares.

Lembrança de José-Augusto França nas suas Memórias para o Ano 2000:

Na sua sede, na António Maria Cardoso, a Pide, cercava, atirava da janela sobre a multidão, por raiva e pânico, matando quatro pessoas e nunca foram identificados os assassinos, orém fáceis de achar, entre os da casa que, sem dúvida, os teriam denunciado  e foram ocupando o forçado recolhimento a destruir os arquivos da corporação, bens do Estado não só Novo - do que foram curiosamente desculpados.


No tal edifício de luxo, a placa que assinala a morte desses populares.


Título de O Primeiro de Janeiro, de 16 de Janeiro de 1971, resultante de uma
discussão na Assembleia Nacional, sobre o modo como os presos políticos eram tratados nas prisões da ditadura.

Dias antes, os deputados da ala liberal, Sá Carneiro e Pinto Balsemão, tinham-se deslocado às prisões e confirmaram as queixas que os familiares dos presos políticos lhes tinham dirigido.


Texto publicado no Diário de Lisboa de 18 de Maio de 1974:

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


25 de Abril de 1975

Dia de Eleições.
Dia histórico, Dia de Festa.
Os militares de Abril cumpriam mais um dos seus objectivos programáticos.
De um total de 6.177.698 eleitores inscritos, 1.700 mesas de votos espelhadas pelo país, votaram 5.666.696-
A abstenção cifrou-se nos 8,3%.
Pela primeira vez milhares de portugueses sabiam o que era depositar um voto numa urna e escolher um futuro novo.
Longas filas de portugueses juntaram-se, desde manhã cedo, junto às assembleias de voto.
A RTP realizou uma emissão de 30 horas para, a par e passo, dar conta de tudo o que nesse dia ia acontecendo.
Foram acreditados 911 jornalistas estrangeiros para cobrirem as eleições.
Muitas eram as opiniões de que o povo não tinha a plena consciência do que era a democracia e em quem votar.
É reconhecido o papel fundamental da Igreja que, através dos seus padres, alertavam os fiéis para os perigos do Socialismo e do Comunismo.
O Partido Socialista venceu as eleições.
Militares, e não só, ainda hoje mantém a ideia que o voto no PS muito ficou a dever às campanhas de dinamização do MFA, em que a palavra socialismo era largamente referida e o PS era o único partido que tinha essa designação.

Segue-se um extracto da análise política das eleições feita pelo Conselho da Revolução. O documento é retirado de Portugal Depois de Abril:


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso,  
   Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976.

E ENTÃO O QUE É QUE SE HÁ-DE FAZER?...


Não havia muito por onde me informar na circunstância: telefonei ao Fernando Azevedo, que, já sabia, mas não sabia de nada e, apesar do segundo ou terceiro telefonema da mãe, bem certa já do que acontecia e dos seus perigos, fui rua acima até ao Rato, talvez por referência histórica visivelmente inútil, que não havia Rotunda no saco, e não encontrei ninguém; tornei a casa e saí depois rua abaixo até à Misericórdia onde as pessoas começavam a animar-se, com correrias para o Carmo, em gáudio de rapaziada, e outras gentes a rondar, à espera, interpelando-se a medo, ainda. Não quis (ou tive medo de) continuar, voltei a ouvir em casa as notícias excitadas da rádio – e as transmissões das forças fiéis, apanhadas em grande surpresa e susto, a comunicarem para um comandante tido como chefe das operações, que, felizmente para ele, não deixou nome na história desse dia. Falavam as forças do Camões,não hostilizadas, na verdade, mas talvez porque o povo julgasse que eram também revolucionárias – dizia o seu oficial. E no Rossio? Interrogava o general. Não se sabia nada. Havia que mandar um pelotão a saber! Pois tinha sido mandado,mas não dera mais sinal de si… E no Carmo? Pois estava uma multidão de gente ao lado da tropa, a cercar o quartel da Guarda. Era preciso mandar um avião bombardear, receitou então o General. Mas, assim no centro da cidade? duvidava o major. Pois era, pois era… reflectia o Estado Maior, ante a dificuldade em que não tinha pensado. Era a guerra tal e qual como o meu caro Raul Solnado a contara! Ficou gravado e sabe-se com certeza o nome dos oficiais, generais e não, em causa, pobres diabos apanhados numa história que se fazia historieta, à altura deles. Um só, brigadeiro de seu posto, e à paisana resistiu, no Terreiro do paço…
No Carmo tinham achado refúgio Marcelo Caetano e uns tantos ministros; alguns choravam o emprego perdido, ele foi digno e triste, sabendo há muito como tudo estava perdido, no Estado Novo que sempre servira, por convicção, ambição e final sacrifício. Depois viria um general de passado carregado mas oportunamente achado, à falta de outro, para dar salvação ao caso – e recomeçar uma história republicana havia quase meio século interrompida. Na medida das possibilidades destes dias incertos.

José-Augusto França em Memórias Para o Ano 2000.

Legenda: fotografia  tirada do Catálogo 25 de Abril, Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Abril de 1984. 

OLHAR AS CAPAS


Poemas de Ponta & Mola

Mendes de Carvalho
Editorial Futura, Lisboa, Abril de 1975

POEMA DE ABRIL

No silêncio da noite
a palavra
(a)guardada

No silêncio da noite
a palavra
libertada

No silêncio da noite
transmitida
a palavra

No meu país cinzento
no meu país sofrido
mártir
prisioneiro
e atraiçoado

a palavra alastra
e voa
a tua palavra
meu povo
penitente
sem pecado

tinhas um cravo de sangue
um cravo de medo
um cravo de morte
um cravo de sal
cravo de terror
cravo de caxias
cravo de peniche
e tarrafal

Na manhã de Abril
um cravo encarnado
nasce no peito
aberto
dum soldado

Na cidade na aldeia
nas praças nas ruas
irrompe liberta
uma flor de força
e de combate

um cravo-país-amor

NOTÍCIAS DO CIRCO



A notícia tem dois ou três dias mas quis deixá-la no dia de hoje.
Entretanto, face às legítimas reacções, o aborto foi já colocado na gaveta.
Apenas colocado, note-se.
Não quer dizer que, mais dia menos, não volte a aparecer.
Porque são imensas as saudades que uma clique de gente tem desse tempo negro que nos assolou durante meio século.
Em cada dia que passa mais se instala a ideia de que já não sou daqui nem de parte alguma.
Porque esta cáfila de aldrabões e corruptos que nos rodeiam, inventam, diariamente, um Portugal que não é o meu nem, salvo eles próprios, de nenhum português.

Por Setembro, convém perceber, de uma vez por todas, que não poderemos continuar a eleger toda esta escroqueria que nos conduz à miséria e à fome. 

SEMPRE!


sexta-feira, 24 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez.


Legenda: gravura do Capitão Salgueiro Maia tirada do Catálogo 25 de Abril, Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Abril de 1984.

CRAVOS E VERDI


Nos últimos anos da ditadura, o Teatro São Carlos estabeleceu uma parceria com o Coliseu dos Recreios de modo a que as óperas que Eram representadas no São Carlos também pudessem ser vistas na velha sala das Portas de Santo Antão.

Era a possibilidade de um vasto leque da população, sem dinheiro, nem fraque, nem jóias para frequentar São Carlos, pudessem usufruir desses espectáculos, como que dando seguimento à célebre frase de António Silva de que a ópera é música para operários.

Quando, nessa noite,  24 de Abril de 1974, perto de cinco mil pessoas aplaudiram freneticamente os artistas, com Alfredo Kraus e Joan Sutherland à frente do elenco, que representaram La Traviatta de Verdi, já as senhas do Movimento das Forças Armadas tinham sido transmitidas pela rádio.

A reportagem do Diário de Notícias dava conta que, no meio das ovações intermináveis, cravos foram lançados das frisas.

Regressando a suas casas, desconheciam que esse começo de 25 de Abril não era mais um dia do calendário, um dia como outro qualquer.

Um regime decrépito, que nos massacrava os ouvidos com afirmações de coragem e heroicidade, que se as forças do mal atentassem contra a  ordem estabelecida, vinham  para as ruas dar o peito às balas.

Em escassas horas, o senil regime esfrangalhou-se.

Não soltaram um pio.

Como disse o Hélder: foi um ar que lhes deu.

A partir desse dia, protagonistas de uma grande esperança, nem nos pesadelos mais negros, admitimos que viríamos a ser invadidos por um desencanto sem nome.

Aconteceu!

Encharca-nos os dias.

Mas é bom não esquecer que há coisas que não têm fim: a esperança num mundo melhor, por exemplo, e a luta por consegui-lo. 


OS IDOS DE ABRIL DE 1975


24 de Abril de 1975

AMANHÃ é Dia de Eleições.
As 24 horas de reflexão determinadas pela lei serão quebradas apenas por uma alocução do Presidente da República General Costa Gomes.

SEGUNDO o Jornal Novo, um grupo de pessoas lançou o Movimento para a Contracepção e Aborto Livres Gratuitos. O movimento fala em atitude hipócrita por parte da sociedade, pois o número de abortos praticados no País equivale mais ou menos ao número de nascimentos: de três em três minutos, uma mulher portuguesa aborta.

JOSÉ GOMES FERREIRA em Intervenção Sonâmbula:

Se há pessoas que me ofendem até ao mais fundo do desdém são os indiferentes.
Tanto os que fingem ignorara, com frigidez palerma de manequins, o tumulto enternecido da revolução em que vivemos, como os que se escondem atrás de risinhos de boca torcida com cepticismo que alguns confundem com inteligência idiota.

- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- IntervençãoSonâmbula – José Gomes Ferreira

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS


Então mas que é isto toda a gente vota menos eu parece que mandam um papelinho e a gente escreve o nome de quem quer e mete numa caixa e depois eles vão lá e contam e quem tiver o nome escrito em mais papéis ganha lá o que se ganha não sei porque ninguém me explicou e já perguntei a mais de cem pessoas ou talvez fossem só cinco e começam a olhar para mim como se eu fosse doida e mudam de conversa mas que Pagode é este o meu Pai diz para eu meter o bedelho na minha vida como se esta não fosse a minha vida até parece que tenho outra o meu primo Manel diz que o melhor é eu estar calada e não fazer perguntas o meu padrinho quando eu lhe perguntei o que é que ganhava quem ganhasse as votações perguntou-me se eu queria metê-lo em sarilhos mas então que é isto senhor José que é o dono do talho onde a minha Mãe compra carne de cavalo que depois diz meu pai que é de vaca quando eu lhe perguntei que nome é que ele escrever no papelinho das votações abriu os olhos deixou cair a faca e cortou-se num dedo do pé e disse uma palavra que se a minha Mãe ouvisse ia-lhe a um sítio que eu cá sei bumba bumba bumba que ele ficava a arder ai não mas então que pagode é este ninguém me diz nada e eu se não fosse ter os ouvidos abertos morria burra nestas coisas de votações ai não mas como não estou cá por ver andar os outros já percebi umas coisa que não posso é dizer senão fico por aqui e não aprendo mais nada que eles calam-se logo mas a minha Avó coitada que não regula bem da cabeça para não falar do estômago e de outras coisas porque ontem foi à casa de banho sete vezes diz que as votações só servem para ir parar tudo não sei aonde o meu pai que é funcionário público não quer brincadeiras e diz que isso é para gente rica não é para funcionários e quando eu lhe peço para me explicar começa aos gritos a dizer que sabe muito bem o que está a dizer e que o Gomes ficou pobre e que ele não quer ficar pobre mas se ele tem tanta certeza no que diz então para que é que grita isso é que eu queria saber sim isso é que eu queria saber mas ninguém me diz é ó dizes mas lá que mete medo mete eu estava a pensar em escrever o nome do meu pai no tal papelinho para ver se ele ganhava as votações porque se calhar fazia-lhe arranjo que ele com o que ganha não se governa mas quando falei n isso e ele ia caindo da cadeira baixo e depois bumba bumba bumba que já não se pode querer ajudar a família livra que isto de levar tareia no rabo não é vida para ninguém quem me contou mais coisas foi o senhor Ricardino que vende lotarias da Santa casa e que tem tantos fregueses que já podia vender lotarias mesmo dele até já falámos nisso mas ele tem medo é o que eu digo anda toda a gente com medo então que diferença é que fazia sim que diferença é que fazia as lotarias dele não davam nada mas a s outras também quase nunca dão e ele sempre ganhava para meter um queijito no pão que aquilo de comer sempre pão com nada e nada com pão até faz mal mas ele é que me disse que as votações são assim um jogo diz o senhor Bernardino que vende lotaria branca pensos pentes e atacadores agora há muitos que já não escrevem nada porque viram a barba do vizinho a arder que é como quem diz que isso a mim a tal barba do vizinho  havia de me fazer muita diferença o que me fazer muita diferença o que me faz diferença é o rabo bumba bumba bumba não é a barba do vizinho o meu Pai diz que se ninguém soubesse também lá ia deitar o papelinho mas é ó vais eu gostava que ele deitasse lá isso gostava que era para ele ficar com o rabo a arder para aprender como é ai não que dói como burro mas ele não é homem para isso nem a minha Mãe deixa a minha Mãe ser mulher para isso nunca podia ser porque já está como mulher no bilhete de identidade  e quem muda o que vem ni bilhete de identidade trama-se eu que diga a bumba que levei quando pintei uns bigodes no retrato do meu Pai no bilhete de identidade levei que ia ficando doida bumba bumba bumba mas para me vingar no sítio onde diz sinais particulares escrevi é parvo e bate na filha e ele ainda não deu por nada quando der é certo e sabido bumba bumba bumba ai não mas não escapa de toda a gente saber que ele é parvo porque eu escrevi a tinta da China e lá essa coisa das votações é assim e o resto são tretas como diz o senhor Bernardino que já disse que desta vez talvez saia uma terminaçãozita mas não sai mais nada senão bumba no tambor para agente aprender agora foram lá pôr na minha rua uns cartazes que são uns papéis que se colam para tapar os buracos aos prédios enfim o que eu queria era saber o que é que ganha quem ganhar as votações há quem diga que é brinde será de plástico ou chocolate isso é que eu queria saber mas também gostava de votar lá isso gostava porque com o treino de bumba bumba que tenho lá de casa ficava-me a rir desta vez tenho de assinar com outro nome que lá em casa é como se houvesse votações quem manda é ele e bumba bumba bumba

                                                                                    ANTONINHA

Esta Antoninha que assina esta redacção não tem nada a ver com a Guidinha que assinava as outras nem é da mesma família e até é órfã de Pai de maneira que se o meu Pai ler isto e me der outra vez bumba bumba bumba faz outra injustiça.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO



Quem não sabe nada e pensa que sabe tudo, deveria lançar-se na política.


Legenda: não foi possível obter o autor/origem da imagem.

DO BAÚ DE POSTAIS


Algés, Cruz Quebrada, Trafaria foram as praias da minha infância e adolescência. 
Toldos e barracas de pano às riscas de diversas cores. 
Os papagaios de papel voando nos ares e ficava a olhá-los. Surpresa feliz.
Hoje, vêem-se nas praias outros papagaios, mas sofisticados representando diversas figuras. 
Os do meu tempo eram feitos de papel de seda colorido, pedaços de canas cruzados, um longo rolo de corda.
O conselho de quem sabia: os papagaios de papel sobem contra o vento e não a favor dele.