domingo, 31 de julho de 2016

O SONHO DE TER UM CAFÉ


Estico as pernas e observo o Zak a realizar as suas tarefas matinais. Ele não podia adivinhar que em tempos eu tinha tido o sonho de ter um café. Suponho que terá começado quando li sobre a vida boémia da geração Beat, os surrealistas e os poetas simbolistas franceses. Não havia cafés no sítio onde eu cresci mas existiam nos meus livros e povoavam os meus devaneios. Em 1965 eu tinha vindo de South Jersey para a cidade de Nova Iorque apenas para passear e dar umas voltas e nada me parecia mais romântico do que estar calmamente sentada n escrever poesia num café de Greenwich Village. Acabei por arranjar coragem para entrar no Caffè Dante, na Rua MacDogal. Como não tinha dinheiro para uma refeição, bebi apenas um café, mas ninguém pareceu ligar a isso. As paredes estavam cobertas com murais pintados da cidade de Florença e com cenas de A Divina Comédia. Ainda hoje existem, descoloridas por décadas de fumo dos cigarros.

Patti Smith em M Train

sábado, 30 de julho de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


Os ricos estão a ficar mais ricos.

Já o sabíamos mas o balanço anual da revista Exame não deixa de o fazer lembrar.

Os números revelam que pelo terceiro ano consecutivo as 25 maiores fortunas de Portugal cresceram, acumulando um total de 15 mil milhões de euros em 2015, ou seja, 8,3% do PIB nacional. Em 2015 estes números chegavam aos 14,7 mil milhões de euros e, em 2014, 14,3 mil milhões de euros.

O homem mais rico do país está ainda mais rico: Américo Amorim.

Ocupa o primeiro lugar da lista dos donos das maiores fortunas desde 2013, tem agora uma fortuna avaliada em 3,1 mil milhões de euros, quando no ano passado a sua fortuna rondava os 2,5 mil milhões. Amorim, que foi ainda o mais rico de Portugal em 2008, 2009, 2010 e 2011.

Em segundo lugar está Alexandre Soares dos Santos, o dono da Jerónimo Martins que aumentou a sua fortuna em 200 milhões de euros, tendo agora dois mil milhões de euros enquanto que o terceiro lugar é ocupado pela família Guimarães de Mello,  com uma fortuna avaliada em 1,2 mil milhões de euros.

Belmiro de Azevedo, desceu para quarto lugar em 2015. Já foi o homem mais rico do país mas no último ano a sua fortuna bolsista desceu 250 milhões para 1150 milhões de euros.


A mulher mais rica de Portugal é Maria Isabel dos Santos e ocupa a oitava posição da lista com uma fortuna de 545,5 milhões de euros.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


Leio jornais, vejo televisão, tenho cada vez menos memória e cada vez mais memória mediática, uma contradição entre os termos. Curta. Muito curta. Atafulhada de bola, casos da vida, acidentes, incidentes, nada. Dura um dia, quinze dias? Mais? Já não me lembro porque não é para lembrar, é para entreter, para distrair, para passar o tempo. Não sei. Sei cada vez menos. Devo estar doente. O meu cérebro está cada vez mais pequeno. Pequenino.

José Pacheco Pereira

Legenda: pintura de Francis Luis Mora

quinta-feira, 28 de julho de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


Jeroen Dijsselbloem,  presidente do Eurogrupo, afirmou que está desiludido com a decisão da Comissão Europeia de não aplicar sanções a Portugal e Espanha.

É desapontante que não haja seguimento à conclusão de que Espanha e Portugal não adoptaram acções eficazes para consolidaram os seus orçamentos.

Marcelo Revelo de Sousa presidente, jamais perderá os tiques de comentador dominicall da TVI e o seu opinar sobre todo e qualquer acontecimento faz com que amiúde resvale para o deslize. 

Afirmar. como ontem afirmou que quando os portugueses se unem por causas justas vencem sempre, para além de uma banalidade, Marcelo sabe que grande parte da direita já esfregava as mãos de contentamento face às eventuais sanções com que a Comissão Europeia vinha ameaçando Portugal.

Também os Jeroens Dijsselbloems portugueses ficaram muito desiludidos e a azia nãos larga.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


NOTÍCIAS DO CIRCO


OLHAR AS CAPAS


Estorvo

Chico Buarque de Holanda
Capa: António Jorge Gonçalves
Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2019

Depois de certa idade, acho que o acervo de sonhos se esgota, e eles começam a reprisar. Mas como nada é totalmente péssimo, a memória de um velho também enfraquece, e ele já não tem a certeza se sonhou aquele sonho ou não. Vai reconhecendo as passagens mais marcantes e diz é «mesmo», mas não sabe direito o que vem pela frente. E se pela frente vier um precipício, um incêndio, um desastre de avião, a morte de todos os parentes, uma perseguição no labirinto, um cataclismo que a gente acorda sobressaltado e com falta de ar e solta um grito, senta-se na cama e perde o sono, o velho diz «eu sabia», ou «eu não avisei?». E emenda noutro sonho sem grande expetativa, mas sem maior enfado, preferindo resonhar todos os sonhos a atender à campainha da porta.

terça-feira, 26 de julho de 2016

OS CROMOS DO BOTECO



Alberto Cortez.
Hoje com 76 anos, este cantor argentino que fez furos nos anos 50.
Os seus boleros faziam parte dos bailes de domingo à tarde.
Este é um desses EPs.



segunda-feira, 25 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Casa Eterna

Hélia Correia
Capa: José Antunes
Círculo de Leitores, Lisboa, Abril de 1991

Fala de Bento Serras, cobrador de bilhetes, nascido e morador em Amorins:
«Diz que quer contar tudo dos princípios?
Dos princípios a gente nunca sabe.
Quando é o caso de se lhe pôr a vista em cima, já o que quer que seja vai no meio…
Pois eu do homem não me lembro, não. Diz que seria fácil de lembrar, mas não para mim que tenho esta cegueira.
Cegueira é modo de falar, entende. Não me fixo. É assim como umas sombras. Dizem para onde querem ir, eu marco e marco, boto-lhe as notas gradas entre os dedos, os trocados na mala, e vai que não vai, volta que volta, e é noite, e é manhã, e nem reparo. Podia levantar-se aí uma cidade por obra do demónio, é um supor, uma cidade dessas que se perdem de vista na direcção de cima, e eu não dava por ela, tão cego ando.
Pois o homem não vi. Se veio na carreira, se foi no meu serviço, não no vi.
Sendo segunda, que podia ser, vau para aí um povo, um corropio. Diga. É a feira, pois. Sacas e trouxas, criançada, vinhos. Parece isto uma terra dos Brasis. Que, não se exagerando, eu não condeno. Não tenho é alegria. Falta-me muito o ar. Desde pequeno, sim, nem eu estou certo de quando começou. É isto que lhe digo. Ninguém sabe os princípios.
O tal homem? Pois não, minha senhora, fosse ele como fosse, eu não no vi.»

domingo, 24 de julho de 2016

BANHO DE MAR


Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?

De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.

Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”. Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer. Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas.

Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava o mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.

Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.

O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever.

O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.

Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.

Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café.

E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.

Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.

A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?

Nunca mais.

Nunca.

sábado, 23 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS

A Paixão

Almeida Faria
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Romancistas nº 4
Portugália Editora, Lisboa, Lisboa, Dezembro de 1965

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e enregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os osso da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima – deve ser reumático – mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um certo cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface ou atão ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera, pôr arrelicas e se aparelhar do casaco comprido, cinzento e desbotado, meter a carteira na algibeira, descer de novo a escada em caracol para a cozinha, botar a água ao lume já pegado, pegar na alcofa dente cestos e cabanejos, bilhas, tarefas, potes grandes de azeite ou azeitona e alguidares com todos os tamanhos, vermelhos e vidrados, largos para a matança e para o sangue, tachos de cobre, fulvos, em pé contra a parede de fumo nunca escura, branca, branca, caiada e mais caiada, em seguida descer por vez segunda os degraus do quintal, abrir o pesado portão fechado à chave, soltar os cães esquentados da noite para a rua, ir pela rua velha e árida à derêtura caminho da praça do mercado, comprar o que de véspera a senhora, a cuja obediência ela está, na lista de papel pardo assentara, com uma letra grossa.

NOTÍCIAS DO CIRCO


sexta-feira, 22 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


A tradição é alimentar o fogo, não ficar a olhar as cinzas.

OLHAR AS CAPAS


Nos Mares do Fim do Mundo

Bernardo Santareno
Edições Ática, Lisboa, Junho de1999


Enquanto o “David  Melgueiro” se afasta, mais e mais de Lisboa, eu surpreendo-me com as mãos  abertas ao vento, para nele colher um certo olhar negro e patético, ou um riso estridente e nervoso que queria ser lágrima, ou aquele dorido inclinar de cabeça silencioso e resignado, ou aquele beijo enviado por alguém que me pede uma estrela como testemunho da aventura, ou a serenidade hirta e requintada de quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa, nem saudade) por mim... Com as minhas longas mãos abertas ao vento...

A CAMINHO DO 36!


Chegou hoje à Caixa do Correio.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

RELACIONADOS


Houve uma altura em que pensava que escrevia para mim mesmo. Mas ninguém escreve para si mesmo, agora tenho a certeza absoluta. Mesmo que seja discreta, a escrita nunca é secreta; e mesmo se for secreta, nunca é feita só para si mesmo, há sempre um leitor a espreitar por cima do ombro. O próprio facto de se escrever, significa que há um leitor potencial. O Barthes falava da "familariedade social do poeta". O facto de se escrever numa língua, já implica um leitor algures, implica a leitura. Se fosse para nós mesmos, nem se escrevia, ou escrevíamos numa língua secreta. Mas Os Papéis de K não o fiz com intenção de publicação, sequer... Às vezes escreve-se só para ver, para ver no que dá. E foi a Ilda David, o livro até lhe é dedicado, que achou que se devia publicar aquilo. Tem muita ficção, mas tem muitas coisas verdadeiras, também, das minhas memórias.

Manuel António Pina

Legenda: pormenor da capa de Os Papéis de K. sob uma pintura de Ilda David

OLHAR AS CAPAS


Os Papéis de K.

Manuel António Pina
Capa: pintura de Ilda David
Assírio &Alvim, Lisboa, Junho de 2003


Aquilo de que me lembro (num presente que me parece também já passado) está cheio não só de estranhezas e improbabilidades mas igualmente de vazios, de hesitações e de imprecisões, pois se calhar não me recordo de factos mas da minha recordação deles. Pode por isso suceder que o que recordo não seja o que ouvi; ou o que tenha ouvido a outra pessoa, noutro lugar, noutras circunstâncias; ou mesmo que o tenha eu próprio sonhado ou imaginado. Ouvi e li muitas coisas desde a minha distante primeira viagem ao estrangeiro, onde tudo (pelo menos aquilo de que agora me lembro) começa. Talvez, quem sabe?, nem essa viagem tenha acontecido, ou eu tenha lido, ou ouvido contar a ninguém. A matéria da memória é indefinida e insegura e nela, como na matéria da vida (e a vida é provavelmente apenas memória), se confundem acontecimentos e emoções, imagens e conjecturas, cuja origem nem sempre nos é dado com clareza reconhecer e cuja finalidade a maior parte das vezes nos escapa. E, no entanto, é tudo o que temos, memória

quarta-feira, 20 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


Jesusalém

Mia Couto
Prefácio: Miguel Real
Colecção Essencial-Livros RTP nº 3

A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar caldo. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhando, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
- Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.
Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era sim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia;
- Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.

OS CROMOS DO BOTECO


Os discos, pertença  de Ilda Costa, que encontrei no Boteco, têm uma particularidade: estão num estado como se tivessem saído da loja.
Ou tinha muito cuidado em ouvi-los, ou então tocaram muito pouco.
Este então, comprado em 15 de Abril de 1971, está como novo.
Tanto Eu Te Amo Meu Brasil, como Belinda, foram grandes êxitos daqueles anos 70 e muito abrilhantaram os bailes das tardes de domingo.

terça-feira, 19 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


Quando falarem, cuidem para que as vossas palavras sejam melhores do que o silêncio.

Provérbio indiano

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

CADA DIA QUE PASSO ESCREVO MENOS


cada dia que passa escrevo menos, e o pouco que escrevo exige todo o tempo disponível, requer paixão e partilha.
está frio de quebrar ossos.
às vezes queria ser pastor, homem transumante, ir e regressar com o sol e as chuvas, ir e regressar eternamente com o ciclo das estações.
hoje fiz trinta e seis anos. acabaram-se algumas coisas na minha vida, sinto isto, apesar de ainda não perceber claramente o quê. estou certo que a juventude não recomeça nunca, nem terá início hoje. habituo-me à grande desolação dos dias
diz o horóscopo que os capricórnios têm uma velhice feliz. a velhice, dizia Céline, é um sobejo da vida.
escasseia o tempo na tentativa de vislumbrar algum sossego.
escrever, passar a vida a escrever, para quê?


Al Berto em O Medo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

OLHAR AS CAPAS


A Guerra Civil de Espanha

Hugh Thomas
Tradução: Daniel Gonçalves
Capa: Sebastião Rodrigues
Colecção Documentos do Tempo Presente nº 21
Editora Ulisseia, Lisboa, s/d

 Um homem no fundo do salão gritou o slogan de Millán Astray: «Viva la muerte!» Millán astray soltou a série de berros sacrimentais: «Espanha!», gritou ele. Automàtiacmente um número reduzido de pessoas bradou: «Una!» «Espanha!» voltou a gritar Millán Astray. «Grande!», replicou a ainda de certo modo relutante audiência. «Espanha!», insistiu o general, e a turba respondeu: «Livre!» Alguns falangistas nas suas camisas azuis, fizeram a saudação fascista ao inevitável retrato de franco, pendurado na parede. Todos os olhos se encontravam voltados para Unamuno, que se levantou lentamente: «todos vós estais suspensos das minhas palavras», disse ele. «Todos vós me conheceis e sabeis que eu não sou capaz de me calar. Em certas ocasiões calar é mentir, porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência. Desejo comentar o discurso – chamemos-lhe assim – do general Millán Astray, que se encontra entre nós. Ponhamos de lado a afronta pessoal implícita na súbita torrente de vitupérios contra bascos e catalães. Eu próprio, claro, nasci em Bilbau. O bispo, e Unamuno apontou para o trémulo prelado sentado a seu lado, quer queira quer não, é um catalão de Barcelona». Fez uma pausa, Houve um terrível silêncio. Jamais um discurso destes se ouvira na Espanha Nacionalista. Que mais iria dizer o reitor? «Agora mesmo», prosseguiu Unamuno, «ouvi um grito necrófilo e insensato: «Viva la muerte». E eu, que passei a vida a compor paradoxos que despertaram a cólera dos que não os compreendiam, devo dizer-lhes, como entendido, que este paradoxo vindo de fora me repugna. O general Millán Astray é um aleijado. Digamo-lo sem a menor amenidade. É um inválido de guerra. Tal como Cervantes. Infelizmente, neste momento há demasiados aleijados em Espanha. E em breve haverá ainda mais se Deus não se apiedar de nós. Penaliza-me que seja um homem como o general Millán Astray a ditar os padrões da psicologia de massas, Um aleijado a quem falta a grandeza espiritual de Cervantes procura uma odiosa consolação para o aseu mal provocando mutilações à sua volta». Neste momento Millán Astray foi incapaz de conter-se por mais tempo. «Abajo la inteligencia!, rugiu. «Viva a Morte!» Houve um clamor de aplauso entre os falangistas. Mas Unamuno prossegiu: «Este é o tempo do intelecto, e eu sou o seu sumo sacerdote. Sois vós quem profanais os seus paços sagrados. Vencereis porque possuís força bruta mais do que suficiente. Mas não convencereis porque para convencer é necessário persuadir. E para persuadir seria necessário possuirdes aquilo de que careceis: razão e direito na luta. Considero fútil exortar-vos a pensar na Espanha. Tenho dito.»

segunda-feira, 18 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


Vindes de muito longe…
Mas a distância
o que é para o vosso sangue, que canta sem fronteiras?
A morte necessária chama por vós todos os dias,
não  importa em que cidades, campos ou caminhos.
Deste país, do outro, do grande, do pequeno,
do que no mapa ocupa um lugar quase ignorado,
com as mesmas raízes que tem o mesmo sonho,
anónimos, simplesmente viestes até nós.

Rafael Alberti, extracto do poema A Las BrigadasInternacionales.
Tradução em Liberdade, Liberdade de Luiz Francisco Rebelo, Luís de Lima e Helder Costa

Legenda: Ernest Hemingway junto das forças republicanas durante a Guerra Civil  de Espanha.

NO VOSSO E EM MEU CORAÇÃO



Espanha no coração
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão.

Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!

Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!

Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe II
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!

Espanha da liberdade:

A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da Revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração! 


Manuel Bandeira

CARA AL SOL


Os falangistas, grupo da direita, tinham um hino: Cara Al Sol

Cara ao sol, com a camisa nova,
que tu bordaste, companheira,
Vou sorrindo a encontrar a morte
e não te volto a ver
voltarão bandeiras vitoriosas
o passo alegre pela paz;
e trarão, vermelhas, cinco rosas
do sangue do meu coração.
voltará a rir a primavera
cara al sol, para sempre eu estarei
Arriba Espanha, Espanha livre,
viva Espanha, meu amor Espanha

Portanto, cuidado. as tiranias também compõem belas canções.

Em Liberdade, Liberdade de Flávio Rangel e Millôr Fernandes



VIVA LA QUINCE BRIGADA


Canções da Guerra Civil Espanhola/Pete Seeger.

Jarama Valley - Cookhouse/Young Man From Alcala - Quartermaster's Store - Viva La Quince Brigada - El Quinto Regimento - Si Me Queres Escribir - Los Quatro Generales - Die Thaelmann-Kolonne - Hans Beimler - Das Lied Von Der Einheitsfront - Lied Der Internationalen Brigaden - Moorsoldaten 


HÁ 80 ANOS


Há 80 anos, começava a Guerra Civil de Espanha.


En El Frente de Gandesa é uma das mais conhecidas canções da Guerra Civil Espanhola.
É aqui cantada por Joaquin Diaz.
Recital é um disco gravado, ao vivo, em Madrid, Março de 1968 e um dos primeiros discos de Joaquin Diaz a ser vendido em Portugal.

OLHAR AS CAPAS


Agora e na Hora da Morte

Luís Filipe Costa
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa, Agosto de 1988

No écran apareceu a palavra fim, as luzes começaram a acender-se e a malta, ainda a piscar os olhos, pôs-se a aplaudir.
Era sempre assim nas sessões do cineclube. Às vezes, até se gritava abaixo a censura quando o filme dava um salto e a gente via perfeitamente que tinham cortado uma cena.
Mas, naquele dia, a voz que se ouviu era outra.
Vinha lá do fundo, do pé da porta, e disse:
- Tudo em fila por aqui, para identificação.
As palmas morreram num instante e a voz, então, ouviu-se muito bem
Depois começou tudo a falar ao mesmo tempo e veio um tipo pela coxia fora a mandar andar.
Caraças, é a Pide, pensei eu e fiquei à rasca.
Era a primeira vez que me via num assado daqueles. Levei a mão ao bolso e lá o senti.
Um livrinho do Gorki. Era mesmo o que me fazia falta.
- Tens coisas aí?
Olhei para o lado. Havia um tipo a sorrir-me. Tinha o cabelo todo aos caracóis e os maxilares quadrados. Devia ser um bocadinho mais velho que eu. Já devia ter pelo menos vinte anos.
- É A Mãe – disse eu e abri o bolso para ele ver o livro.
A malta continuava a morder palavras alusivas ao acto, andando pelo corredor, abaixo, devagarinho.
- Embora por aqui.
O tipo levantou a perna e passou por cima da cadeira, para a fila da frente. Fui atrás dele. Saímos para a coxia lateral a correr em direcção ao écran. E de repente um cortinado verde e uma porta e um hall vazio e outra porta e por fim a rua.

domingo, 17 de julho de 2016

UMA CASA BONITA


A Livraria Lello, no Porto, é uma das mais bonitas livrarias do Mundo.

O actor americano Harrison Ford, de visita ao norte do país, juntamente com sua mulher, a actriz Calista Flockhart, ficou deslumbrado com a centenária livraria.

E fez questão de deixar mensagem no Livro de Honra da Livraria:

O conhecimento merece uma casa bonita. Esta é uma delas.

OS CROMOS DO BOTECO



Já há muito que não ia ao Boteco.
Alguém, de nome Ilda, possivelmente sem espaço para guardar vinis, deixou por lá um pequeno monte de EPs e singles.
Vieram comigo e irei colocá-los por aqui.
Começar com Jacques Brel, é um excelente começo.

OLHAR AS CAPAS


Cem Poemas de Sophia

Sophia de Mello Breyner Andresen
Selecção e Introdução de José Carlos de Vasconcelos
Capa: José Pinto Nogueira
Edição Visão/JL, Lisboa, Setembro de 2004

Mar

I

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


II


Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

sábado, 16 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


É uma trágica ironia dizer que o fracasso do golpe de Estado e a confirmação de Erdogan no poder configuram uma vitória da democracia.


Francisco Seixas da Costa

DIAS TRÁGICOS NA TURQUIA


O golpe militar na Turquia regista, até agora, 161 mortos, um número não contabilizado de feridos e 2.800 militares detidos.

O presidente Erdogan já disse que a traição dos golpistas constituiu uma "dádiva de Deus e que vai permitir limpar o Exército. Este levantamento, este movimento, é um grande presente de Deus para nós, porque o exército será limpo.

A chanceler alemã Angela Merkel condenou a tentativa falhada de golpe de Estado contra Erdogan, mas pediu-lhe que trate os golpistas respeitando as regras do Estado de direito.

Erdogan não ouvirá Merkel, nem qualquer líder mundial.

Há nele uma sede insaciável de poder e vingança.

Os próximos dias na Turquia serão trágicos.

Por este caminho nunca a Turquia entrará na Comunidade Europeia.

Se nunca foi fácil, muito menos o será agora.

OLHAR AS CAPAS


Coração das Trevas e No Extremo Limite
Joseph Conrad

Tradução: Margarida Periquito
Capa: Carlos César Vasconcelos
Relógio d’Água Editores, Lisboa, Janeiro de 2012


Todavia, como estão a ver, não fui fazer companhia a Kurtz nessa hora. Pois não. Fiquei cá, para sonhar o pesadelo até ao fim e para mostrar a minha lealdade a Kurtz uma vez mais. Era o destino! O meu destino! Que coisa engraçada é a vida, essa misteriosa trama de lógica implacável para se alcançar um objectivo vão. O mais que se pode esperar dela é um certo conhecimento de nós próprios – que chega demasiado tarde -, e uma safra de inesgotáveis desilusões. Lutei com a  morte. É a batalha menos empolgante que se possa imaginar. Desenrola-se numa atmosfera cinzenta impalpável, sem nada debaixo dos pés e nada à nossa volta, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vencer, sem o grande receio da derrota, num clima doentio de tíbio ceticismo, sem grande convicção na nossa razão e ainda menos da do nosso adversário. Se é dessa forma que o derradeiro ato de introspecção ocorre, então a vida é um enigma maior do que alguns pensam. A última oportunidade de me pronunciar esteve por um fio, e concluí, humilhado, que provavelmente não teria nada para dizer. É por isso que afirmo que Kurtz era um homem notável. Ele tinha alguma coisa para dizer. E disse-a.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


«Às vezes o ódio tem de parar.»

Eric Lomax, final de Uma Longa Viagem

A EUROPA EM GUERRA


Uma multidão estava concentrada na Promenade des Anglais, em Nice, para assistir ao fogo de artifício que encerrava as comemorações do 14 de Julho, Dia Nacional da França.

De repente um camião frigorífico, conduzido pelo tunisino Mohamed Lahouaiej Bouhlel, 31 anos, com cadastro na polícia, irrompeu pela multidão causando a morte a 84 pessoas e um número de feridos acima da centena.

O atentado não foi reivindicado, mas existem fortes probabilidades de ter sido cometidopelo DAESH.

Outras informações dizem que o camião esteve parado na rua pelo menos nove horas e, quando questionado, o condutor disse à polícia que ia entregar gelados.

Apesar de não ser permitido viaturas deste porte ficarem paradas na Promenade des Anglais em dias de feriado ou fim-de-semana, existem excepções para pessoas que fazem entregas.

O jornal francês Le Monde relembrou as declarações feitas por um porta-voz do grupo extremista, Abou Mohamed Al-Adnani, em Setembro de 2014:

Se não tiverem engenhos explosivos ou balas para matarem, infiéis americanos e infiéis franceses, ou os seus aliados, esmaguem as cabeças deles com pedras, chacinem-nos com uma faca, atirem o vosso carro contra eles, atirem-nos de um sítio, sufoquem-nos ou envenenem-nos.

REQUIEM PARA UM DEFUNTO VULGAR


Antoninho morreu. Seu corpo resignado
é como um rio incolor, regressando à nascente
num silêncio de espanto e mistério revelado.
Está ali - estando ausente.

Jaz de corpo inteiro e fato preto.
Ele, da cabeça aos pés,
trivial e completo,
estátua de proa e moço de convés.

Jaz como se dormisse (pelo menos
é o que dizem as velhas carpideiras).
Jaz imóvel, sem gestos, sem acenos.
Jaz morto de todas as maneiras.

Jaz morto de cansaço, de pobreza, de fome
(sobretudo, de fome). Jaz morto sem remédio.
É apenas, sobre um papel azul, um nome.
De ser mais qualquer coisa, a morte impede-o.

Jaz alheio a tudo à sua volta,
à grita dos parentes, companheiros,
como um cavalo à rédea solta
ou no mar largo, os rápidos veleiros.

Jaz inútil, feio, pesado,
a colcha de crochet aconchega-o na cama.
Nunca esteve tão quente e animado.
Nunca foi tão menino de mama.

Os filhos olham-no e fazem contas cuidadosas:
padre, enterro, velório, certidão
de óbito... E discutem, com manhas de raposas,
os parcos bens e a possível divisão.

Entanto, sobre o leito que foi da vida de casado,
Antoninho jaz morto. Definitivamente.
Os parentes e amigos falam dele no passado.
A viúva serve copos de aguardente.


Daniel Filipe em Pátria, Lugar de Exílio


Legenda: fotografia de Jeanloup Sieff

quinta-feira, 14 de julho de 2016

NUM DESSES CAFÉS


Num desses cafés, desde o meio da manhã até ao meio da tarde, três ou quatro mesas estavam sempre reservadas para uma gente que se juntava ali todos os dias e cedia, a horas sacramentais, o lugar a outros que chegavam depois – os primeiros eram advogados, militares na reserva, políticos, coisas assim; os segundos pertenciam à fauna suspeitíssima que são os artistas e esses das letras, cujo préstimo verdadeiramente até hoje ninguém descobriu.

Eugénio de Andrade

PARA MAIS TARDE RECORDAR


Com o habitual selo de qualidade, a BBC fez uma selecção das melhores imagens do Euro 2016.

Os golos, os espectadores, o individual, o colectivo, a alegria de uns a tristeza de outros, tudo  o que faz do futebol um grande espectáculo, enquanto vamos ouvindo David Bowie a cantar Heroes.


quarta-feira, 13 de julho de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


Apertam-se as malhas em redor de Durão Barroso e eleva-se um vasto coro de protestos pela sua nomeação para chairman e consultor do Goldman Sachs.

Mas, em nome da sua gula de poder e dinheiro, nada demoverá Barroso.

È bom que a Europa veja – pena que só agora! - o tipo de rapaz que colocaram na Presidência da Comissão Europeia.

O governo francês pediu a Durão Barroso para desistir do emprego no grupo Goldman Sachs e O secretário de Estado dos Assuntos Europeus francês, Harlem Desir, disse que a escandalosa escolha levanta questões sobre os conflitos de interesses na União Europeia e que as regras sobre as incompatibilidades precisam de ser apertadas.

Também o comissário europeu dos Assuntos Económicos e Financeiros, Pierre Moscovici, considerou que o ex-primeiro-ministro português devia ter feito uma reflexão política, ética e pessoal quando foi contratado pelo Goldman Sachs:


Quando um político passa para o setor privado deve pensar na imagem que projecta, acrescentou o comissário europeu.

OLHAR AS CAPAS


Uma Longa Viagem – O Homem dos Comboios

Eric Lomax

Tradução: Ana Maria Chaves e Márcia Montenegro

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio D’Água Editores, Março de 2014

Em 1909 o meu pai mudou-se para Edimburgo, uma cidade de política, leis e serviços, mas continuou a ser até ao fim da vida um filho da revolução industrial, cheio de memórias bem vivas do carvão, do fumo, das nuvens de poluição e das máquinas a vapor, das grandes turbinas e locomotivas, e do Manchester Ship Canal. É difícil explicar aos jovens nascidos em países onde já quase se perdeu a memória das indústrias pesadas quão inspiradoras podiam ser os processos que moldavam as nossas vidas; para o meu pai, e depois para mim, os grandes motores eram, não motivos de medo ou preocupação, mas coisas que mereciam ser celebradas, tão fascinantes quanto o mundo natural, criaturas feitas pelos homens.

terça-feira, 12 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


O tipo que prometia muito e que trabalha agora num escritório. Excepto isso não faz mais nada, ao chegar a casa, senão deitar-se e esperar pela hora do jantar fumando cigarros, deitar-se de novo e dormir até ao dia seguinte. Ao domingo levanta-se muito tarde e põe-se à janela, a olhar a chuva ou o sol, as pessoas que passam ou o silêncio. E assim todo o ano. Ele espera. Ele espera a morte.

Albert Camus em Cadernos


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Hoje de manhã, quando descemos à rua, ficámos a saber que alguém tratou de nos estragar a euforia com que a cidade recebeu os novos campeões europeus.

O Ecofin decidiu que Portugal e Espanha irão ser alvo de sanções por não terem adoptado medidas eficazes para corrigirem os défices excessivos.

De acordo com um estudo recentemente divulgado pelo Instituto de Investigação Económica alemão Ifo, que procedeu aos seus cálculos com base em dados da Comissão Europeia entre 1999 e 2015, a regra europeia de um défice abaixo dos 3,0% do Produto Interno Bruto (PIB) já foi violada em 114 ocasiões pelos Estados membros.

Entre as 114 violações da regra, a "campeã" das infracções é a França, que ultrapassou o limiar dos 3% por 11 vezes, seguindo-se Grécia, Portugal e Polónia, todos com 10, Reino Unido (9), Itália (8), Hungria (7), Irlanda e Alemanha (5, em ambos os casos).

Como escreveu Manuel António Pina, em Julho de 2004:


AS CORRERIAS DO CHERNE POR UMAS PIPAS DE MASSA


Quando Dona Uva, esposa de Durão Barroso, disse num comício, estava ele a trabalhar para essa ideia de que um dia seria primeiro-ministro só não sabia quando, chegou-se à boca de cena e disse que devíamos seguir o cherne.

Citava um poema de Alexandre O’ Neill que terá dado uma catrefada de trambolhões lá pelo sítio para onde se retirou.

Agora que Durão ascendeu a chairman da Goldman Sachs, o banco que manda no mundo, tem ouvido das boas, mas esse é o lado para onde ele dorme melhor.

No Diário de Notícias de domingo, dois textos de opinião:

Pedro Marque Lopes chama-lhe O Grande Facilitador

Pedro Baldaia sente Vergonha e pena de Durão Barroso

Também o comentador Alfredo Barroso sentiu tremeliques nas pontas dos dedos e lembra que a Goldman Sachs é uma instituição  que é responsável, entre outras patifarias, por ter ajudado um governo grego de Direita a mascarar as contas públicas, para a Grécia poder ser admitida na zona euro.

Na opinião de Alfredo Barroso, Durão Barroso foi um mau primeiro-ministro, constatação que o deixa revoltado porque apesar desta estrondosa derrota, foi ‘premiado’ pela direita europeia com o cargo de presidente da Comissão Europeia, durante 10 anos de crise e decadência cada vez mais acentuada da União Europeia.

Acusando o antigo presidente da Comissão Europeia de ter sido um sabujo de Angela Merkel e Nicolas Sarkozy”, que vai agora ganhar pipas de massa, Alfredo Barroso diz ser surpreendente a forma como Durão está a reagir às críticas de que está a ser alvo. Tem a lata de se portar como uma virgem ofendida e de pôr-se a fazer de Calimero - "it's an injustice, it's an injustice!" [é uma injustiça, é uma injustiça] - perante as críticas inteiramente justas que lhe são feitas pelos que o acusam de promiscuidade entre política e negócios.

E remata:

Durão ‘Calimero’ Barroso é o perfeito e lamentável retrato da mediocridade confrangedora da generalidade dos dirigentes políticos que fingem mandar na Europa e no Mundo, mas que, na realidade, não passam de cães de guarda e serventuários da plutocracia, sobretudo da alta finança que suga a riqueza dos povos

segunda-feira, 11 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


Primeira página de A Bola de hoje.

OBRIGADO, FUTEBOL


Obrigado, futebol, por tudo o que nos deste, pelo vinho e pela cicuta (e pelo esquecimento).
Obrigado pelos dias desordenados e pelas noites transbordantes, obrigado por não teres cabido em nós e por nós não termos cabido em nós, obrigado pelas lágrimas e pelo riso, pelas cataratas de cantos, pelo incêndio das bandeiras, pelo amarelo e pelo azul, pelo oiro e pela tempestade, obrigado pelo escândalo ruidoso da alegria, obrigado pelo regozijo e pela esperança, pelos muros efemeramente derrubados, por todos os abismos que, por um momento, se fecharam entre nós.
Agora que partiste, voltaram eles, saídos da sombra, os dos discursos, os das promessas, os economistas, os usurários, os eunucos («os eunucos devoram-se a si mesmos / lambuzam de saliva os maiorais…», cantava, recordas-te? o Zeca Afonso), os meros aldrabões. As palavras deixaram de ser límpidas e sonoras, e servem de novo, não para iluminar, mas para confundir, e as mãos para mistificar e para ocultar. Aqueles desconhecidos que ainda ontem abraçávamos na rua olhamo-los agora com estranheza e com desconfiança e, se vêm na nossa direcção, viramos a cara para o lado e apressamos o passo.

Que nos aconteceu, que ficámos sós?

De repente fez-se um grande silêncio: copos vazios, papéis pelo chão, realidade, sujidade. De que falaremos agora? Que diremos uns aos outros? Olha para nós, cabisbaixos como essas bandeiras pendendo ainda das últimas janelas, destroços cansados de um passado quase perfeito. As ruas estão de novo desertas e já ninguém passa de automóvel gritando e saudando-nos com os braços imensamente abertos.

Agora que tudo voltou a ser lento, sórdido e obscuro, obrigado, futebol, por nos teres permitido um instante de claridade.

Manuel António Pina, Visão, 29 de Julho de 2004

Legenda: Cristiano Ronaldo após a derrota com a Grécia no Euro 2004.