quarta-feira, 31 de agosto de 2016

QUOTIDIANOS


Caramba! …com o nada querido mês de Agosto a finar-se, já cheira a Setembro.
Amanhã, como então dizia o meu pai, voltamos ser gente.

Legenda; pintura de Mihai Criste

OS MESTRES CANTORES DE PARDILHÓ


A aldeia, encostada à Ria de Aveiro, tem uma boa mancheia de habitantes dependendo da terra ou das fábricas próximas, meia dúzia de cafés vulgares, uma estação dos Correios, uma cabine telefónica, uma agência bancária, dois carros de praça e um largo ajardinado com um quiosque e uma estátua. Já houve calafates, hoje resta um em actividade; o próprio sindicato da classe fechou. Às três da tarde de todos os Verões os senhores cansados dormem a sesta.
A estátua deveria simbolizar o Emigrante mas falhou miseravelmente porque se parece com a deum poeta que lá mais para o Norte noutro quadrado do mapa. Como se não bastasse esse desaforo a Junta de freguesia lembrou-se de embelezar o pedestal com uns versos tão cruéis que talvez só o autor os siaba de memória. A melhor estatuária local são ios bustos de Simón Bolivar espalhados pelos quaintais dos «venezuelanos», há um que brinda mesmo ao «libertador da Pátria».
Sempre que regresso numa data qualquer do mês de Agosto, o meu primeiro cuidado é arrumar os livros no escritório do falecido senhor meu sogro, ir ao bazar por papel e canetas de feltro, e esperar a manhã inaugural das férias com uma impaciência feita de sobressaltos e alta voltagem arterial. Na manhã seguinte eles lá estão, os melros, aquecendo a gorja para me saudarem. Primos irmãos, não escondem o afecto nem eu lhes perdoaria tal. Houve um que vinha cantar-me no rebordo do grande alpendre, fiado no professor francês: «E para começar, música!»
Se era lição aprendi-a porém mal, pois cada vez mais a dissonância vem tomando conta da minha poesia, ao ponto de poder ser confundida com prosa baça. Pouca vigilância, talento disperso: uma explica o outro, e vão vividos os anos suficientes para eu não mudar um mícron que seja. Agora espero a velhice e dentro dela a morte surda.

Fernando Assis Pacheco em Respiração Assistida

DO BAÚ DOS POSTAIS


Lisboa.
Outros tempos na Rua Garrett.

OLHAR AS CAPAS


Nylon, Mulheres e Crimes

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 249
Livros do Brasil Editores, Lisboa, s/d

Um cão reconhece sempre outro cão. Vêem-se, cheiram-se ou ouvem-se, mas nunca se tomam por outra coisa, a não ser por cães. Podem ser de qualquer, feitio ou cor, mas para um cão, um cão é um cão.

ENCONTRO


Ele não apareceu.
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele.
Talvez se tenha esquecido do relógio,
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo.
Talvez o carro não pegasse,
ou tenha ficado avariado a meio do caminho.
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral
ou que a mãe dele tinha morrido.
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido.
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
tenha sido despedido e esteja a esconder
a cabeça debaixo de uma almofada.
Talvez a ponte estivesse fechada e
a seguinte também.
Talvez o semáforo permanecesse vermelho.
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera
do porta-moedas.
Talvez tenha perdido os óculos,
não conseguisse deixar de ler,
houvesse um programa que ele queria acabar de ver,
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta,
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e
o cão dele de repente começasse a vomitar.
Talvez não houvesse um telefone por perto,
não encontrasse o restaurante
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
Talvez – a última possibilidade,
incompreensível e inesperada –
ele tenha deixado de me amar.

Hagar Peeters

Tradução: Maria Leonor Raven-Gomes

Poema encontrado aqui. 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

WALT WHITMAN


Uma noite, na Brasileira do Chiado, meados dos anos 60, eu e o Zé Ferraz, mesas cheias de intelectuais, outras gentes, também pides, e o Armindo a entrar porta dentro, com a sua pasta de cabedal preto, que colocava ao seu lado como se fosse um cão. 

Bica escaldada pedida, começou a tirar da pasta uma série de folhas A4, que eram poemas de Walt Whitman que ele acabara de traduzir.

O Armindo deu a cada um de nós, cópias dessas traduções que ele tivera o cuidado de passar a papel químico. Longe estava o mundo das fotocópias.

Foi assim que conheci Walt Whitman.

Digo com mágoa: não sei que descaminhos levaram essas traduções, excelentes traduções.
Armindo, um jovem cheio de talento que um dia, para fugir à guerra colonial se exilou em Paris, e de quem não mais tive notícias.

O Zé Ferraz também seguiu os mesmos passos, e também o silêncio.

Walt Whitman, autodidacta, aprendiz de tipografia, jornalista, enfermeiro na Guerra da Secessão confortando soldados, escrevendo-lhes cartas para os familiares, lendo-lhes poemas. Assumindo a sua homossexualidade, em tempos tão difíceis para esses sentimentos, teve de enfrentar os mais diversos ódios e incompreensões.

Como os de um crítico de um jornal de Boston em 1855:

O autor devia ser corrido a pontapés de qualquer sociedade decente, por pertencer a um nível inferior ao das bestas. Não há inteligência nem método nesta tagarelice desarticulada e cremos que deve tratar-se de um pobre louco fugido do manicómio em pleno delírio.

Ou os de um crítico londrino:

Mas que direito tem este Walt Whitman de ser considerado um poeta? A sua familiaridade com a arte é tão escassa como a de um porco com a matemática.

Mas o seu pensamento, livre e corajoso, tudo varreu.

Fernando Pessoa, via Álvaro de Campos, em Junho de 1915, envia-lhe uma saudação de que se reproduz um extracto:

Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!

De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!
Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,
Grande democrata epidérmico, contíguo a tudo em corpo e alma,
Carnaval de todas as acções, bacanal de todos os propósitos
Irmão gémeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquinas,
Homero do insaisissable do flutuante carnal,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Electricidade futura!
Incubo de todos os gestos,
Espasmo p’ra dentro de todos os objectos de fora
Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares, paneleiro de Deus!
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.

Quantas vezes eu beijo o teu retrato.
Lá onde estás agora (não sei onde é mas é Deus)
Sentes isto, sei que o sentes, e os meus beijos são mais quentes (em gente)
E tu assim é que os queres, meu velho, e agradeces de lá,
Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado no meu espírito,
Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma.

Federico Garcia Lorca, em 1930, escreve-lhe uma ode, musicada há uns anos por Patxi Andion e que está incluída no álbum Poetas en Nueva York, um trabalho, publicado em 1986, por ocasião dos 50 anos do assassinato, pelo franquismo, deFederico Garcia Lorca:

Ni un solo momento, Viejo hermoso Walt Whutman,
he dejado de ver tu barba llena de mariposas,
ni tus hombros de pana gastados peor la luna,
ni tus muslos de Apolo virginal,

ni tu voz como una columna de ceniza.



Também Pablo Neruda:

Eu não me lembro
com que idade,
nem onde,
se no grande Sul molhado
ou na costa
temível, sob o breve
grito das gaivotas,
toquei certa mão e era
a mão de Walt Whitman:
pisei a terra
com os pés descalços,
andei sobre o pasto,
sobre o firme orvalho
 de Walt Whitman.

Yeats, Ezra Pound, Allen Ginsberg, também saudaram Walt Whitman.

E ainda há Robin Williams, em O Clube dos Poetas Mortos, a recitar Oh capitain, my capitain!

OLHAR AS CAPAS


Cálamo

Walt Whitman

Versão e notas de José Agostinho Baptista
Edição bilingue
Capa: Ilda David
Colecção Gato Maltês nº 8
Assírio e Alvim, Lisboa, Setembro de 1984


Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido no capitólio, mesmo assim nessa noite não fui feliz,
E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos, nem assim fui feliz,
Porém, no dia em que me levantei cedo, de perfeita saúde, repousado, cantando e aspirando o ar fresco de outono,
Quando, a oeste, vi a lua cheia empalidecer e perder-se na luz da manhã,
Quando, só, errei pela praia e nu mergulhei no mar e, rindo ao sentir as águas frias, vi o sol subir,
E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha a caminho, então fui feliz,
Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia, e esse belo dia acabou bem,
E o dia seguinte chegou com a mesma alegria e depois, no outro, ao entardecer, veio o meu amigo,
E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas invadindo lentamente a praia,
Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem felicitar-me,
Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fresca,
Na quietude daquela lua de outono o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito – nessa noite fui feliz.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

domingo, 28 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Tentei com todas as minhas forças, conhecendo as minhas fraquezas, ser um homem de moral. A moral mata.

Albert Camus em Cadernos III

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


NOTÍCIAS DO CIRCO


sábado, 27 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


 O Verão

Cesare Pavese
Tradução: Fernando Gil
Capa: João da Câmara Leme
Colecção O Livro de Bolso” nº 77
Portugália Editora, Lisboa Abril de 1965

Naquele tempo tudo era festa. Bastava sair de casa e atravessar a estrada para ficarem como loucas; e era tudo tão belo, especialmente de noite quando, ao regressarem mortas de cansaço, esperavam ainda que qualquer coisa acontecesse, que um incêndio estalasse, uma criança nascesse em casa ou até que subitamente viesse a manhã e toda a gente saísse para a rua e pudessem continuar a caminhar, caminhar até aos prados e para lá das colinas.

SODADE


Há 75 anos, no Mindelo, nascia Cesária Évora.
Foi ela que levou a música de Cabo Verde a muitos cantos do Mundo.
Há uns vinte anos uns amigos alemães ouviram um disco aqui em casa e ficaram fãs.
Na altura, compraram os discos disponíveis e sempre que vinham a Portugal perguntavam se havia novos discos da Cesária.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

DANÇAR FORA DA DANÇA


Nunca dancei. Vi os outros dançarem, em terraços voltados para o mar, no chão de areia de África ou do Brasil, em clandestinos infernos de bares de marinheiros ou em inflamadas discotecas de praia turísticas, vi-os e julguei-os felizes, esquecidos e voláteis, perdidos e enovelados numa bola de fogo, mesmo se às vezes os pares se rompiam e ela vinha sentar-se a chorar, e então eu pensava que ainda havia palavras que podiam funcionar como carícias, que eu sabia dizê-las, palavras redondas, encostadas à face magoada e triste. Também dancei sem que os outros soubessem que eu dançava, mas dancei fora da dança, porque dançava para mostrar que também dançava, e lembrava-me disso em cada passo, e nunca esquecia que era o meu próprio corpo que dançava, e nunca soube dançar sobre o esquecimento do corpo, nunca ninguém dançou sobre o meu corpo como se fosse a areia da praia ou um terraço voltado para o mar, nunca ninguém que eu sentisse os dois esquecidos de mim.
Pouco a pouco, aprendi a olhar a arte da dança, e passei noites inteiras no deslumbramento de os ver, sem palavras úteis que me explicassem o que ali se passava à minha frente. Era apenas ficar sentado com os olhos colados ao vidro de um mundo outro em que os corpos se multiplicavam como estrelas no momento preciso em que ainda não se tinham tocado, mas já começavam a precipitar-se uns para dentro dos outros. Eles dançavam, esplêndidos, gloriosos, e eu ao vê-los sei que nunca dancei.


Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi, Volume II

Legenda: pintura de Di Cavalcanti

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Mais do que qualquer outro pecado, devereis libertar-vos da tristeza. A tristeza não é um pecado, mas nenhum pecado endurece tanto o coração como a tristeza.

Dito hassídico citado por José Tolentino Mendonça em Que Coisa são as Nuvens

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

NOTÍCIAS DO CIRCO


Nós levamos a sério a política. Nós levamos a sério o país. Nós levamos a sério as pessoas. E é porque nos preocupamos com elas e com o seu futuro que faremos o que é difícil, que faremos o que é preciso, e esperamos que o que seja preciso e o que é difícil seja menos do que aquilo que nós podemos fazer, porque podemos fazer mais do que aquilo que é difícil, podemos também fazer aquilo que é necessário para que Portugal possa ser, como a Espanha tem vindo a mostrar, como a Irlanda mostrou também, um país em que no futuro todos querem apostar.

Pedro Passos Coelho no Pontal

OLHAR AS CAPAS


Tampo Vazio

Raul de Carvalho
Colecção Círculo de Poesia
Moraes Editores, Lisboa, Dezembro de 1975

Como me mandam sempre
fazer o que não sei...
encho-me de pavor por não saber...
Penso depois que o necessário é preencher o tempo...
É o que tenho feito.
De qualquer maneira...
De todas as maneiras.
Às vezes penso que é bom trabalhar para os outros...
Que isso nos traz um grande alívio.
Que, enquanto temos o espírito ocupado com o que sobra ou enche o espírito dos outros,
nos vamos iludindo, esquecendo...
nos vamos apoiando.
Penso que precisamos, todos, de apoio.
Que, se Deus nos falta, falta-nos tudo.
E que é compreensível recorrer,
de vez em quando,
à estricnina.
Penso que, de manhã, se está, em geral, mais desperto.
Que é a hora melhor para iludir compromissos.
Para se esquecer que se acordou, e temos...
Penso várias e uma só coisa ao mesmo tempo.
Penso que tenho tido pouca sorte mas que assim era preciso.
E se ouço passos, tremo...
Penso que gostaria, tanto!, de ler um livro...
sem pensar em mais nada.
De ajeitar, delicadamente,
o lenço a minha mãe.
De viajar.
Penso que a vida nos reserva grandes coisas,
e que ainda estais a tempo...
Dou por mim a pensar de outra maneira:
que nunca chegaremos ao fim,
que não sabemos se queremos lá chegar,
e que, se a vontade nos escapa, temos vontade de tudo menos de morrer.
Porque algo, um pequenino motivo inconsciente, uma parte, minúscula, do nosso destino,
precisa atravessar as trevas, e viver!
Penso muitas vezes se acaso ser poeta não será outra coisa,
e que os versos que escrevo bem pode ser que estejam
me enganando...
Há forças que não sei explicar.
No que sempre acredito, duvido sempre -
observo-me - estou sempre de pé atrás...
Também eu, é verdade, senti deslumbramento
pela variedade multicolor dos canteiros,
pelos reflexos e mil jogos de cor da luz sobre a folhagem...
Parecia-me que a beleza perdoava tudo e a todos conferia majestade.
Hoje penso que não: que adoeci, que fui envelhecendo, que há poucos livros úteis, que, para sobreviver, temos de trabalhar... e que o trabalho sem amor
 mata.
Não penso já no amor, penso na morte.
Não na morte que a todos nos espera, a um canto do mundo, a um momento, não na morte final estou pensando agora.
Agora e a toda a hora penso na diária morte que atravesso e se atravessa em mim.
Nessa, sim, é que eu penso; irremediavelmente.
Porque a outra morte tem remédio ou, se o não tem, paciência...
Esta, sim, é que custa.
É que custa a carregar todos os dias,
peso morto.
Peso morto em que penso
sobre o tampo limpo.
Limpo e vazio

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

SAUDADES DE D. HELDER


Anos e anos e anos de conversas com o Helder Pinho. 

Os dedos de uma mão chegam para dizer as vezes em que essas conversas não eram bem regadas.

Numa dessas noites, a conversa girava à volta do Luiz Pacheco e, a determinado ponto, o Helder deixou dito, preto no branco, que para compreender e sentir o Luiz Pacheco era preciso ter passado fome.

Ficámos a olhá-lo.

Ninguém esboçou qualquer comentário.

Quando o Helder Pinho desencantava saídas destas, ficava tão feliz como se lhe tivessem oferecido uma bicicleta pelo Natal.

Legenda: fotografia de Helder Pinho da autoria de Maurício Abreu.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


A gente que nasce e vive junto do mar é mais pura.

Herberto Helder em Os Passos em Volta

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

UMA GARGALHADA DO MEU FILHO



Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.

Rui Knopfli

Legenda: fotografia de George Hodan

OLHARES


Ainda se encontram terras singulares neste país. Desterradas do mundo e obrigadas a serem um mundo, criam-no à sua medida, com todo o sentido prático que a necessidade impõe, e toda a liberdade imaginativa que os lazeres permitem. O bafo de cada habitante a aquecer o vizinho, a carga de presuntos a servir de unidade monetária, a lei codificada em parábolas, histórias fantásticas em que os penedos, cansados da incómoda imobilidade milenária, mudam ardilosamente de posição, e torres de cortiços sobrepostos permitem alargar os horizontes da inquietação emparedada. O real e o irreal agasalhados no mesmo gabão. Nós sociais apertados, que nenhuma força centrífuga consegue desatar, correspondem sempre a nós cegos telúricos que a natureza não deixa desfazer. E há nem sei que sedução envolvente bessa coesa harmonia entre o antropológico e o geográfico – a eternidade humana reflectida no espelho da eternidade panorâmica.

Miguel Torga, Diário Volume X

Legenda: Fajão

O texto de Miguel Torga está datado de 21 de Julho de 1968

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO



 A memória é uma vasta ferida.

Chico Buarque em Leite Derramado

Legenda, fotografia de Ernst Haas

OLHAR AS CAPAS


Autobiografia

Mário Dionísio
Colecção Autobiografias nº 3
Edições O Jornal, Lisboa, Dezembro de 1987

Disse um dia a um jornal que os erros dos que estão mais próximos dos meus ideais, mesmo só em teoria, nunca me farão cair nos braços dos inimigos desses mesmos ideais. Disse-o então, digo-o agora. Amanhã a mesma coisa. Espero.

domingo, 21 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


O passado é um sítio muito perigoso.

Dulce Maria Cardoso

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Há mais cinema nas séries de televisão americanas do que nas salas. Grandes histórias, grandes argumentistas, grandes actores. Muitos adultos não estão interessados em ir a um filme onde se come, onde há barulho de pipocas e o sorver do fim da Coca-Cola, mensagens de telemóvel, e-mails... Não estão para isso! Portanto, não vão, ficam em casa. O cinema passou a ser um entretenimento. Deixou de ser uma sala escura, quase uma missa onde se celebrava, apagavam-se as luzes, as pessoas ficavam todas muito caladinhas. No teatro desliga-se o telemóvel e não se come. Por que hão de comer no cinema? E tudo porque o cinema é um negócio. Num bilhete de cinema, uma distribuidora ganha dois euros, o exibidor ganha um ou dois. Mas ganham na pipoca e na Coca-Cola! Querem filmes onde se possa comer e beber. E eu não sei fazer isso.

João Botelho

SEGUNDA «POESIA DE PAREDE»


Em Maio de 1967 o poeta soviético Evtuchenko esteve em Portugal.

Aquiaqui e aqui, há pormenores sobre essa historieta.

Muitos de nós embarcámos no canto de sereia.

José Gomes Ferreira foi um dos que não foi em cantigas.

Exactamente em 1967, José Gomes Ferreira entendeu escrever poemas no quarto do filho Alexandre.

Escreveu apenas duas poesias incluídas em A Poesia Continua.

E anotou:

A segunda criticava um bom poeta soviético, então de visista a Portugal – Ievtuchenko – que caíra, por inadvertência ou ignorância dos truques fascistas, na armadilha de se deixar fotografar por debaixo de um galo, espécie de brasão do S.N.I. Não pôde com certeza evitá-lo, o poeta.

É este o poema:


Meu filho, queres saber
porque recusei fazer o papel de paisagem
e não entrei no elenco
da farsa que houve aí de homenagem
a Ievtuchenko?

Primeiro: porque já estou velho para pagem.
Depois, porque quase chorei quando vi
que foram fotografá-lo
debaixo do galo
do S.N.I.

Ah! Ievtuchenko,
que pensarão das tuas fotografias
e desse galo torto
(que tão bem te define)
as raivas do coração fundo
dos presos de Caxias!

E Lenine?

Que pensará o camarada Lenine
que - sabias? -
até depois de morto
fez a revolução no outro mundo?

Conclusão, meu rapaz:
nunca queiras ser cartaz.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Lisboa.
Largo do Carmo em outros tempos.

sábado, 20 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Ah, como dói viver quando falta a esperança.

Manuel Bandeira em Obras Poéticas


Legenda: fotografia de Herbert Maeder

QUOTIDIANOS


Passagem dos concorrentes da 29ª Volta a Portugal em Bicicleta na Ponte, recém inaugurada.
Cumpria-se a 15ª etapa entre Lisboa e Estremoz que veio a ser ganha por Leonel Miranda do Sporting.
Esta 29ª Volta teve um percurso total de 2.341 quilómetros divididos por 21 etapas.
A Volta seria ganha por Francisco Valada do Benfica com 64 horas, 38 minutos e 36 segundos.
O Benfica também ganhou por equipas, seguido do Porto, do Tavira, do Sporting, da Cedemi, da Flandria e do Sangalhos.
Sérgio Páscoa do Tavira foi o vencedor do Prémio da Montanha.
Estes eram os tempos em que a Volta a Portugal era um acontecimento nacional.
Hoje, não passa de travesti de volta.

OLHAR AS CAPAS


A Fenda Erótica

Hélia Correia
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, Março de 1988


Eu era rapazinho quando Maruja entrou na minha vida. Apareceu a morar com os avós num andar do meu prédio. E era ruiva, via-se que ninguém conseguia domar aquela imensa rama de cabelos que chispava, feroz, em torno da pele melada e dos olhos muito azuis. Usava golas brancas, quadradas sobre as costas, de modo a por assim exibir prova das suas ascendências marinheiras. O pai, contava ela, morrera num naufrágio, deixara-se afundar com o navio. E ela própria já dera a volta ao mundo. Sobre a mãe não falava e, como tinha o dom tão raro nas crianças de inspirar confiança e esfriar tentativas de mais intimidade, nunca nenhum de nós lhe perguntou por ela. À Maruja, as perguntas que podiam fazer-se eram sobre piratas ou ruelas chinesas – jamais sobre a família ou hábitos domésticos.

O FAROL CHAPMAN


O Sol pôs-se; o crepúsculo desceu sobre as águas e surgiram luzes ao longo das margens. O farol Chapman, uma engenhoca de três pernas erguida num baixio lamacento, brilhava intensamente. Luzes de navios moviam-se no passo navegável – um grande vaivém de luzes para cima e para baixo. E para oeste, a montante, o local da cidade monstruosa continuava sinistramente assinalado no céu: uma caligem ensimesmada à luz do Sol, um clarão lívido sob as estrelas.


Legenda: pintura de Harry Russell

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


O tempo, neste caso, não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não são nada. Ser artista é não contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva, que resiste, confiante, aos grandes ventos da Primavera, sem temer que o Verão possa não vir. O Verão vem. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão calmos como se tivessem na frente a eternidade. Aprendo-o todos os dias à custa de sofrimentos que bendigo: a paciência é tudo.

Rainer Maria Rilke em Cartas a um Poeta

O HOMEM QUE SEMPRE CALÇOU BOTAS


Primeira página do Notícias de Portugal, 20 de Agosto de 1966, boletim semanal de propaganda da ditadura.

A fotografia mostra o general França Borges, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a entregar a Salazar a medalha de gratidão da cidade.

A história regista que Salazar nunca foi um entusiasta da construção da Ponte Sobre o Tejo.
Nota-se-lhe o ar de frete a receber a benesse.

Mas o regime entendeu que teria de existir mais uma vassalagem ao ditador.

A medalha foi entregue no Forte de Santo António da Barra, em S. João do Estoril, local que Salazar sempre escolheu para passar alguns dias de férias.

Foi neste forte que Salazar, no dia 3 de Agosto de 1968, caiu de uma cadeira, bateu com a cabeça no chão e a ditadura encetava os primeiros dias do resto da sua tenebrosa existência.

UMA MISSA NEGRA


Tirado da badana de Missa in Albis de Maria Velho da Costa

OLHAR AS CAPAS


Missa in Albis

Maria Velho da Costa
Círculo de Leitores, Lisboa s/d

Sabes tu, Ir-me em Guarda, o que é viver dez anios agarrado ao gargalo da Glenfiddich? Todas as mulheres se me lembram fermento de aveia, nem uma pouca de louro para a testa. Caçadoiras caçantes. E dizia eu, no posfácio de Z., que, matar-me: nem aos poucos, nem aos muitos.
É meio-dia e meia Jack Daniels. O esmalte foi-se. Fiquem os dedos. Maria S.: Você tem pouca paciência com os meus lutos. Qual Imogen:
«Perder duas misses escrevedoiras é azar; três é desleixo, Aleixo.» Parafraseava; simile modo me pôs a escavadoira Royal ladeada de cravos verdes. Eu? de Óscar Selvagem? A ideia há-de haver de ter vindo de mano Salvador: - Aleixo, tanta força para rimar com desfecho. «Quem não pode arreia», disse-lhe eu como se nele isso não fosse um hábito; professor monge, o sacana: ter tudo. ‘Pera aí, Belinha. Pois «Quem não tem competência não se estabelece», dixit chulo à puta-atraso-vida.
Aprendi, tarde. Lisboa esmaga quando não esborrata.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Um imenso fastio de tudo.
Basta de palavras. Um gesto. Não escreverei mais.

Últimas palavras de Cesare Pavese em Ofício de Viver.
Palavras escritas no dia 18 de Agosto de 1950.
No dia 27, suicidou-se.

OLHAR AS CAPAS


Buridan

José-Augusto França
Capa: Paulo Sousa sobre óleo de Vespeira
Quetzal Editores, Lisboa, 2002


- O Sebastião está como aquele burro da fábula, do Buridan, sabe? (o Mota não entendeu sequer o nome), que tinha fome e sede e não foi capaz de se decidir pela comida ou pela água que lhe ofereciam. E morreu à míngua…

A DEFESA DAS ESPÉCIES


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


AS UTOPIAS TAMBÉM SE REALIZAM


As entrevistas que Baptista- Bastos publicou no semanário O Ponto, fizeram um tempo.
O autor entendeu, muito bem, seleccionar algumas e reuni-las em livro, publicado em Abril de 1984.
São notáveis entrevistas, provavelmente datadas, mas mesmo assim importantes para se ficar a conhecer algumas das personagens que fizeram esse tempo.
São intérpretes: Otelo, Manuel da Fonseca, António Victorino d’Almeida, João Camossa. Fernando Lopes-Graça, Artur Correia. Lucas Pires. António Arnaut, Maria João Seixas, Manuel Alegre, Guilherme de Melo, Lena d’Água, Almeida Santos Davis Mourão Ferreira, Helena Roseta, Fernando Lopes, Ary dos Santos, Alexandre O’Neill, Lídia Jorge, José Mário Branco.

Reproduzo a abertura da entrevista a Fernando Lopes Graça,  a que Baptista-Bastos chamou As Utopias Também se Realizam, feita na sua casa, um modesto segundo andar de uma vivenda, na Parede:


OS CROMOS DO BOTECO


Encontrar no Boteco os violinos fantásticos de Felix Slatkin que tocam  Bonanza, Exodus, The Magnificent Seven, Tha Song of Delilah.
Um tempo em que as orquestras estavam na moda: Helmut Zacharias, Mantovani, Frank Pourcel, Percy Faith, James Last, tantas outras
Há muitos e variados exemplos cá pela casa.
Bonanza, foi uma série, a preto e branco, que fez as delícias da minha adolescência. 
As aventuras no rancho Ponderosa com Ben Cartwright e os filhos: Adam, Little Joe e o gordo Hoss.
Sair de casa para ir ao café da esquina ver o Bonanza.
Poucos tinham televisão, e eram os cafés de bairro que cumpriam a missão de serviço público.


terça-feira, 16 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Primeiro vão-se as memórias, depois as ligações. Ou vice-versa. É assim que se morre.
Luís Januário


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

PAPÉIS DATADOS



O Luiz Pacheco acaba de publicar um livro a que chamou Exercícios de Estilo.

Reúne alguma parte dos seus textos que andam para aí espalhados em folhetos e pedaços de papel, o que só meia dúzia de felizardos consegue apanhar. Esses papeluchos que o Pacheco faz de vez em quando para, como ele diz, dar p’ra bucha. Custam cinco ou dez paus mas a gente dá sempre vintes porque é para o Pacheco. E, por favor não chamem a isto piedade ou caridade.

Luiz José Machado, Gomes Guerreiro Pacheco, nasceu em 7 de Maio de 1925 e espera morrer no ano 2000. Está bem disposto, porque está desempregado. Publicou muitos livros de outros autores. Não se lembra de publicar nada (dele) que prestasse. Escreveu muitas obras e perdeu quase todas. Teve três mulheres, nove filhos e netos, nem conta. Folhetos de sua autoria: Os Doutores, e o Menino e a Salvação, Carta Sincera a José Gomes Ferreira, O Teodolito, Os Namorados, o Cachecol do Artista. Teve 18 valores na admissão. O Urbano teve 12.

É altura de muito boa gente inclinar-se sobre a prosa livre, louca e viva do Pacheco. Tomarão contacto com um dos homens mais interessantes destes dias que aqui se vivem.

Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá, onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci.

O livro custa setenta paus. O Pacheco também já vende caro. Mas esqueçam isso pois vale bem a pena o dinheiro gasto. Temos andado todos a (fazer por) esquecer o Pacheco. É altura de o descobrirmos (?) e ao seu humor louco e rebelde – isto de adjectivos no Pacheco até parece heresia – para que daqui a uns anos não se ter remorsos  e raiva por ignorarmos este tipo que é gente grande e dá pelo nome de Luiz Pacheco.

Mas Pacheco é principalmente, para muita gente, um péssimo exemplo de se ser escritor!... escreveu Serafim Ferreira

A gente vê no Pacheco aquilo que não pode ser: por vergonha, ou falta de coragem. Porque há quem não goste do Pacheco. Não por aquilo que ele faz, ou pela maneira como anda vestido, mas sim por aquilo que ele representa.

Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo já. Se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra um desgraçado. Sou, e sei que sou.
Mas alto lá! Sou um tipo livre, intensamente livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade, livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.

Pacheco está, agora, repleto de malandrice, a espreitar-nos das montras das livrarias.

É proibido não o ler!


(12 de Agosto de 1971)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Histórias, Memórias, Imagens e Mitos Duma Geração Curiosa

Eduarda Dionísio
Círculo de Leitores, Lisboa, Novembro de 1981

Um homem não nasce, nem para ser espezinhado, nem para matar. Um homem não nasce para ser castigado sem razão. Um homem é um homem. Um homem nasce para amar e para lutar, pela justiça, por todos os homens. Um homem vice com outros homens. Um homem que luta, ama. Um homem que luta, ama, ama a lutar. Ir para a guerra colonial não tem nada que ver com a luta nem com o amor, nem sequer com ódio. Carlos assustou-se com o que dizia. A quem dizia? O quê?
Foi chamado à reitoria: - Padre, tenho muita consideração pelo seu valor intelectual, pelas suas qualidades pedagógicas. Penso que os seus serviços aqui deixaram-nos de ser úteis, Padre. Chegou-me aos ouvidos que o Padre apelava à deserção. Aconselho-o a pedir ao Patriarcado mudança de liceu. Se não o fizer, eu faço-o. Penso que seria pior para si, É um conselho de amigo, Padre. Nunca pensei que chegássemos a esta situação.
Em 1966, Carlos partia para França.

domingo, 14 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


A gente sente-se não sei como quando sai e vê as mulheres com vestidos de Verão.

Cesare Pavese em Terras do Meu País

sábado, 13 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


A História Me Absolverá

Fidel de Castro
Tradução e introdução: Carlos Grifo
Capa: J.C.
Colecção Perspectivas nº 25

Chego agora ao final da minha defesa mas não a acabarei, como os advogados geralmente fazem, pedindo que os acusados sejam libertos. Não posso pedir liberdade para mim enquanto os meus camaradas sofrem na ignominiosa da Ilha dos Pinheiros. Enviai-me para lá, para que me junte a eles e partilhe do seu destino. É compreensível que os homens honestos sejam mortos ou presos numa República em que o Presidente é um criminoso e um ladrão.
Para vós, Meretíssimos Juízes, a minha sincera gratidão por me haverdes permitido exprimir-me, livre de desprezíveis destrições. Não guardo amargura contra vós e reconheço que, em certos aspectos, tendes sido humanos. Sei que o Presidente deste Tribunal. Homem de uma impecável visa privada, não consegue disfarçar a sua repugnância perante o corrente estado de coisas que o obriga a tomar decisões injustas.
Mas um problema mais sério está ainda para resolver nesta sessão: as decisões a tomar quanto ao assassinato de setenta homens, ou seja, quanto ao maior massacre que jamais conhecemos. Os culpados continuam em liberdade e de armas na mão – armas que contìnuamente ameaçam os cidadãos. Se todo o peso da lei não cai sobre os culpados, por causa da cobardia ou do domínio sobre os tribunais, e se, em tal caso, todos os magistrados e juízes se não demitirem, causais-me pena. E lamento a vergonha sem precedentes que recairá sobre o poder jurídico.
Sei que estar na prisão será, para mim, tão duro como alguma vez o foi para alguém, rodeado de ameaças cobardes e perversas torturas. Porém, não temo a prisão, tal como não temo a fúria do miserável tirano que roubou as vidas a setenta dos meus camaradas.
Condenai-me. Isso não importa. A História me absolverá.


Nota do editor: A História Me Absolverá é o texto da alegação dirigida por Fidel de Castro ao Tribunal que o julgou, à porta fechada, após o insucesso da sua primeira insurreição, em 26 de Julho de 1953, contra o regime de Batista.

90 ANOS


Fidel de Castro faz hoje 90 anos.

Recentemente, discursou no encerramento do Congresso do Partido Comunista Cubano:

Em breve, terei 90 anos. Não falta muito para estar como todos os outros. Chega sempre a nossa vez.
Talvez esta seja uma das últimas vezes que falarei nesta sala.,

Os ideais dos comunistas cubanos vão permanecer.