sexta-feira, 24 de março de 2017

APENAS ROCK AND ROLL


Elvis Presley com Priscilla.

quinta-feira, 23 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


Um bom amigo é como um trevo de quatro folhas, difícil de encontrar e sorte de ter.


Provérbio irlandês

MARCADORES DE LIVROS

MARIA CAMPANIÇA


Debaixo do lenço azul com sua barra amarela
os lindos olhos que tem!
Mas o rosto macerado
de andar na ceifa e na monda
desde manhã ao sol-posto,
Mas o jeito
das mãos torcendo o xaile nos dedos
é de mágoa e abandono...
Ai Maria Campaniça,
levanta os olhos do chão
que quero ver nascer o sol!

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

Legenda: serigrafia de Cipriano Dourado

GOSTO MUITO DE ANDAR DE COMBOIO


Terceira descrição de António Gedeão a caminho das Termas da Curia e onde ressalta o seu estimado gosto por comboios.

Mas isto sou eu a pensar, sentado aqui na carruagem pouco arejada deste comboio que nos irá levar à estação da Curia. Saímos há pouco de Lisboa, será uma viagem de, aproximadamente, três horas. Gosto muito de andar de comboio. Muito mais do que andar de avião, embora já tenha feito muitas viagens  nessas aves mecânicas, gigantescas e velozes, Gosto deste ramerrão continuado, do deslizar das rodas de aço nos carris, gosto desse guincho metálico, pesaroso, gosto de ver as pessoas coabitar tão pacificamente na estreita atmosfera da carruagem, gosto de ver as pessoas comer e oferecer e trocar peças de fruta e pastéis de bacalhau, uns goles de vinho tinto, gosto das trocas dos olhares oblíquos e dos agradecimentos de banco para banco, trocam tudo, aqui de repente, unidas as pessoas pelo sentimento comum de se verem obrigadas a repartir algumas conversas, algumas lembranças, alguns gostos e desgostos.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Segundo informa o site do Vaticano, o Papa Francisco aprova canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto.
É enorme a força das ratas de sacristia!...

quarta-feira, 22 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


Já para responder a Jeroen Dijsselbloem, um curso rápido de arte portuguesa
chegava: um caralho das Caldas para ti, pequeno holandês.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias

PAISAGEM A DOIS ESPAÇOS


O som de uma máquina de escrever matraqueando Marx, traduzido, em Santo António à Estrela. O assobio. A janela iluminada que se abre. A loucura invadindo os gestos. As ruas desertas. Parados, à espera, debaixo das letras H.M.P. Um sob cada uma. O café. O pocho agradável com um odor recente aos States (se calhar Algés). Mas, o importante: sem ruídos outros na rua. Apenas Marx: a dois espaços.

Eduardo Guerra Carneiro em Assim se Faz a História

UMA PERDA IRREPARÁVEL


Em carta, datada de 3 de Julho de 1961, Miguéis diz a Saramago que ainda vive debaixo da impressão – do choque – que nos causou o suicídio do Hemingway (e por muito bestial que o homem fosse, o artista era único, e a sua perda irreparável.

E já em findar de carta escreve:

A quase todos nos falta a longa paciência (a consciência, o métier) que faz os Hemingways… O homem estava a sofrer duma velha cirrose, de hipertensão, talvez de diabetes, e (suspeito) de cancro: é mais fácil enfrentar um toiro Miúra (em imaginação?) do que a morte lenta da desintegração… Ah, se ele tivesse lido Um Homem Sorri à Morte! Trop tard… O Hemingway viveu a afrontar perigos: fractura da espinha, ferimentos graves, alcoolismo, trabalho duro… Respeito-lhe a decisão. Também o Essenin, o Block, o Mayakóvasky se mataram…


terça-feira, 21 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


A vida é só uma, e se se perde o autocarro fica-se sozinho no passeio com a carga de todos os fracassos.

D.H. Lawrence em O Amante de Lady Chatterley

DO BAÚ DOS POSTAIS

SEGUNDA VEZ


                                                Infelizes, que em vida descem à casa
                                                de Hades, morrendo assim duas vezes,
                                                quando os outros homens morrem só uma!
                                            
                                                                                             Odisseia, C. XII

Por muito menos se morre
chama-se a polícia os bombeiros
Verdadeiramente começo a ficar velho
Numa hora destas quem me chamarei?

Chamei-te. Morte verdadeiramente morta,
como só sucede uma vez na vida e na morte
Oh não me venham dizer que não chamei uma vez
de mais pela tua comida irremediável!

Os antigos chamavam as musas
ou a si próprios, eu estou velho pata tudo
Aproximo-me a grande velocidade de tudo
E nem nunca mais serei o mesmo nem serei diferente


Manuel António Pina em Poesia Reunida 

PRIMAVERA


No segundo dia de Primavera, o sol anda por aí um tanto ou quanto envergonhado.
Primavera, a primeira das estações de Vivaldi.
Existem quatro sonetos para as quatro estações. Desconhece-se se esses sonetos são da autoria do próprio Vivaldi.

Concerto No. 1 em Mi maior, op. 8, RV 269

1.      Allegro

A primavera chegou
Os pássaros celebram a sua chegada com canções festivas
e riachos murmurantes são docemente afagados pela brisa
Relâmpagos, esses que anunciam a Primavera,
rugem, projectando o seu negro manto no céu,
para depois se desfazerem em silêncio
e os pássaros mais uma vez retomam as suas encantadoras canções.

2.      Largo

No prado cheio de flores com ramos cheios de folhas
os rebanhos de cabras dormem e o fiel cão do pastor dorme a seu lado.

3.      Allegro Pastorale

Levados pelo som festivo de rústicas gaitas de foles,
ninfas e pastores dançam levemente sobre a brilhante festa da Primavera.


Leitura complementar: Música e Cultura


O PAI DO MEU PAÍS


O Bob Dylan é o pai do meu país. O Highway 61 Revisited e o Bringing It All Back Home eram não apenas grandes álbuns, mas também, tanto quanto me lembrava, as gravações que, pela primeira vez, me haviam exposto a uma visão verosímil do sítio onde morava. A escuridão e a luz estavam lá, e o véu de ilusão e engano fora posto de parte. Ele revelou a educação estupidificante e a rotina diária que encobriam a corrupção e a podridão. O mundo por ele descrito estava à vista de todos, como por exemplo, na minha cidadezinha, bem como na televisão que entrava nas nossas casas, mas prosseguia sem comentários e era tolerado em silêncio. Ele inspirou-me e deu-me esperanças. Fez as perguntas que mais ninguém fez por modo, em especial na



perspetiva de um rapaz de 15 anos How does it feel to be on your own? Abrira-se uma fenda sísmica entre gerações e sentíamo-nos, de repente, órfãos, abandonados, no fluxo da História, as nossas bússolas avariadas, sem-abrigo dos sentimentos. O Bob apontou corretamente o Norte e fez as vezes de farol para nos ajudar a descobrir o caminho por entre o novo caos em que a América se tornara. Ele hasteou uma bandeira, escreveu as canções, cantou as palavras essenciais à época e para, naquele momento, a sobrevivência emocional e espiritual de muitos jovens americanos.

Bruce Springsteen em Born to Run

segunda-feira, 20 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


Como Soares, à esquerda, também Cavaco não faz o pleno, à direita. Alguém que pense pela sua cabeça não pode ser nem cavaquista nem soarista o tempo todo.

Pedro Baldaia, Diário de Notícias

Legenda: fotografia de Rui Ochôa, publicada no Expresso.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Na reunião da comissão política distrital de Lisboa do PSD, Teresa Leal Coelho teve 23 votos a favor, dois nulos, dois brancos e um voto contra.
Depois de um enorme folclore de negas e mais negas, Passos Coelho não teve outro remédio senão virar-se para a sua amiga e vice-presidente do partido na escolha para a candidatura à Câmara Municipal de Lisboa.
Perante as críticas internar e externas feitas à actual vereadora da Câmara de Lisboa por ter faltado à maioria das reuniões do executivo camarário durante os quatro anos de mandato, Miguel Pinto Luz, presidente da Distrital de lisboa do PSD, garantiu que Teresa Leal Coelho só faltou porque esteve sempre envolvida no seu trabalho como deputada da bancada social-democrata.
Não esteve de férias nas Caraíbas!
Tem tudo para correr mal, dizem à boca grande e à boca pequena diversos responsáveis sociais-democratas.
Marques Mendes, ontem, no seu comentário na SIC:

A gestão política deste processo foi mais ou menos desastrosa. Foi uma gestão política péssima.

CHUCK BERRY (1926-2017)



Chuck Berry morreu aos 90 anos.
Não faz parte das minhas preferências musicais.
Sobre a morte do cantor, João Gobern assina hoje, no Diário de Notícias, um  interessante artigo:

Basta um quadrado de canções - "Maybellene", "Roll Over Beethoven", "Rock and Roll Music" e "Johnny B. Goode" - para se entender como ele faz parte história da idade Rock.

Para mim, o rock nasceu quando o meu pai levou para casa um 78 rotações por minuto do Rock Around the Clock tocado pelo Bill Halley e os seus Cometas.
Quando viu Sementes de Violência de Richard Brooks ficou encantado com o frenesim de Bill Halley – quem não ficava?! -, terá passado pela primeira discoteca que tinha à mão, ou ao pé, e não resistiu: levou o rock para casa.
Este é um pormenor de ordem pessoal mas, curiosamente, João Gobern também refere Bill Halley:

Berry "cresceu" musicalmente na melhor companhia: entre os seus parceiros de selo, contavam-se, além do próprio Waters, Howlin" Wolf, Willie Dixon, Buddy Guy, Bo Diddley (todos negros) e Carl Perkins, o criador de Blue Suede Shoes, branco, que se tornou grande amigo de Chuck.

De todos estes afro-americanos, foi Berry que conseguiu os maiores êxitos, capazes de ultrapassar as fronteiras raciais. E se a história do rock costuma consagrar Bill Haley (e Rock Around The Clock) como "primeira pedra" e Elvis Presley como a estrela que mudou o estilo para outra dimensão, não deixa de ser curioso que muitos dos futuros deuses deste Olimpo elétrico - os Beatles, os Rolling Stones, Eric Clapton e os Beach Boys, responsáveis por "descolorir" a canção Sweet Little Sixteen, de Berry, adocicando-a, escrevendo uma nova letra e rebatizando-a como Surfin" USA - escolham Chuck como o homem que efetivamente moldou e batizou o rock.



TRUMPLALHADAS


Não estudem o Trump, olhem-no

Chama-se  Não estudem o Trump, olhem-no, a crónica que Ferreira Fernandes escreve, hoje, no Diário de Notícias:


O leitor não é especialista de climatologia, pois não? Era o que eu pensava, não é. Como eu. Mas noções básicas de civismo temos. Se convidamos uma senhora a casa, somos polidos e até gentis. Sentados em frente a várias pessoas, se ela nos pergunta como estamos, respondemos com urbanidade. Não como Donald Trump. Nem a olha, faz questão de que vejam que não a olha, e não lhe responde. Ele, o presidente americano. Lá está, é a principal crítica que lhe faço. Fosse ele só o velho garoto insolente que é, já me cruzei com alguns na vida... Mas é o homem mais poderoso do mundo. E sendo ele esse carroceiro, temo-o. Não se deixem enganar por aqueles gestos de mão mole e boquinha, próprios de um frouxo, ele é perigoso. Quem chega ao lugar dele convencendo milhões é perigoso. E o principal perigo dele é o carácter. Ontem, Ernest Moniz, o ex-secretário de Estado americano para a Energia, físico do MIT, de origem portuguesa, foi entrevistado pela CNN. Disse estar assustado pelas posições "anticientíficas" de Trump sobre o clima. Eu, pobre ignorante, também. Mas por razão mais sábia. Poderosos enganados em ciências sempre os houve, mas os factos foram-nos moldando antes da tragédia global. Mas um Trump daqueles - como o leitor e eu já não podemos deixar de saber que Trump é - não muda. A esperança são os americanos. E não precisam de estudar eletrões e protões. Precisam é de abrir os olhos, com a ciência da gente comum, para o triste tipo que têm em cima.

QUOTIDIANOS


A Primavera chegou às 10,29 horas, mas apresentou-se com pouca graça: céu nublado, temperaturas baixas e cairá neve nas serras.
Mas o importante é que chegou.
E sabe-se da ansiedade com que aguardamos o nascer do despertar dos sentidos.
O meu avô, que odiava os meses de Janeiro e Fevereiro, esperava febrilmente a chegada da Primavera.
No antigamente dos tempos, as andorinhas anunciavam a Primavera mas estas aves migratórias, dado as alterações climatéricas que o planeta vai sofrendo, já aparecem em princípios de Janeiro
Contudo, mantém-se a filosofia do meu avô: a chegada da Primavera começa a notar-se nos vestidos frescos e curtos das mulheres.

PRÉMIOS LITERÁRIOS DA DITADURA


Necessitei de consultar A Capital de Eça de Queiroz e, de repente, saltou este recorte, datado de Novembro de 1966, que noticia, em tempo de ditadura, prémios atribuídos a Vitorino Nemésio e a António Manuel Couto Viana.
Penso que terá sido o meu pai que o guardou, porque não tenho ideia nenhuma de o ter feito.
Só o SNI poderia considerar que tanto Nemésio como Couto Viana tenham contribuído para o prestígio das letras portuguesas.
Curiosamente, ando há muitos anos para ler Mau Tempo no Canal.
São daquelas biras que apanho e de que dificilmente me vejo livre.
Apenas aguardo encontrar o livro num qualquer alfarrabista, ou feira de ocasião.
Também nunca li A Sibila de Agustina Bessa-Luís.

domingo, 19 de março de 2017

OS CROMOS DO BOTECO


Nunca me tinha deparado com um disco de Rino Salviati. Tão pouco ouvira falar, mas diz a Wikipédia que foi um cantor italiano que consolidou a sua carreira na América Latina. Morreu em Janeiro do ano passado com 92 anos.

MAS A MOÇA FOI ESPERTA


13-8-63
Em conversa com o cipaio José soube que o bufo Pina apanhou 30 dias de cadeia. Motivo: denunciou um homem só para assim poder deitar-se c/ a mulher dele. Mas a moça foi esperta. Meteu duas testemunhas em casa, quando ele veio adiou por qualquer motivo e depois apresentou queixa Claro, que se não fossem as testemunhas não valia de nada. Assim o comandante (Bayan) deu-lhe dez dias e o comandante geral agravou para 30 dias.

José Luandino Vieira em Os Papéis da Prisão

Legenda: fotografia de Robert Bresson

SÓ A BORDO DE UM COMBOIO SE SENTIA FELIZ


Os seus pensamentos nada tinham de agradável. E ele que, habitualmente, só a bordo de um comboio se sentia feliz, encarou a perspectiva desta viagem com uma tristeza desgarradora. Pressentia umas férias de Natal amargas e um regresso talvez pior.

José Rodrigues Miguéis em Idealista no Mundo Real

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

MISSA DE ANIVERSÁRIO


Há um ano que os teus gestos andam
ausentes da nossa freguesia
Tu que eras destes campos
onde de novo a seara amadurece
donde és hoje?
Que nome novo tens?
Haverá mais singular fim de semana
do que um sábado assim que nunca mais tem fim?
Que ocupação é agora a tua
que tens todo o tempo livre à tua frente?
Que passos te levarão atrás
do arrulhar da pomba em nossos céus?
Que te acontece que não mais fizeste anos
embora a mesa posta continue à tua espera
e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez florido?
                                                               
Era esta a voz dele assim é que falava
dizem agora as giestas desta sua terra
que o viram passar nos caminhos da infância
junto ao primeiro voo das perdizes

Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata. A tua morte
deixou de nos vestir completamente
No verão em que partiste bem me lembro
pensei coisas profundas
É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
neste canto de nós donde anualmente
te havemos piedosamente de desenterrar
Até à morte da morte 


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

sábado, 18 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


Resta só dizer que me fez lembrar, quando imitava o inglês das letras que não sabia, aqueles vocalistas das sociedades recreativas dos anos 50, ao som dos quais apanhei tampas, aprendi a dançar e bebia dois de branco no bufete. E agora, senhoras e senhores, variedades!...

José Duarte


Legenda: fotografia encontrada no blogue Conta-me Como Era

TRUMPALHADAS


A Casa Branca apresentou, esta semana a proposta de Donald Trump para o orçamento estado de 2018. O plano prevê o desinvestimento na educação, investigação para a saúde e na diplomacia para compensar mais dinheiro para o sector militar e na defesa das fronteiras dos Estados Unidos.

O TESTAMENTO DOS NAMORADOS


Escolhamos as coisas mais inúteis
o verde água o rumor das frutas
e partamos como quem sai
ao domingo naturalmente.

Deixemos entretanto o sinal
de ter existido carnalmente:
da tua força um castiçal
da minha fragilidade um pente.

Esse hieróglifo essa lousa
deixemos para que uma criança
a encontre como quem ousa
um novo passo de dança. 

Natália Correia em As Maçãs de Orestes

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

IDENTIFICAVA-ME COM O HARRY


Harry Belafonte era o melhor cantor de baladas da terra e toda a gente o conhecia. Era fantástico, cantava sobre amantes e escravos – trabalhadores acorrentados, santos, pecadores e crianças. O seu repertório estava cheio de antigas canções folk como «Jerry the Mule», «Tol’ My Captain», «Darlin’Cora», «John Henry», «Sinner Prayer» e muitas canções folk das Caraíbas, todas com acordes que apelavam a uma grande audiência, muito maior do que a dos Kingston Trio. Harry tinha aprendido canções em primeira mão com o Leadbelly e com o Woody Guthrie. Gravou para a RCA e um dos seus discos Belafonte Sings of the Caribbean, tinha chegado a vender um milhão de cópias. Era também uma estrela de cinema mas não como o Elvis. Harry era um verdadeiro durão, na linha do Brando ou do Rod Steiger. Era dramático e intenso no ecrã, tinha um sorriso arrapazado e uma hostilidade intrínseca. No filme Odds Against Tomorrow não se dá por que seja um actor, por que seja o Harry Belafonte. A sua presença e magnetitude eram amplas. Harry era como Valentino. Bateu todos os records de bilheteira como intérprete. Tanto podia tocar para uma casa cheia no Carnegie Hall como aparecer no dia seguinte num comício de sindicalistas num centro de têxteis. Era-lhe absolutamente indiferente. Pessoas eram pessoas. Ele tinha ideais e fazia-nos sentir como parte da raça humana. Nunca houve nenhum intérprete que fosse tão longe, Chegava a todos, quer fossem operários siderúrgicos, patrocinadores ou adolescentes, até mesmo crianças – toda a gente. Tinha essa rara aptidão. Disse algures que não gostava de aparecer na televisão porque achava que a sua música não podia ser bem representada no pequeno ecrã e provavelmente tinha razão. Tudo nele era gigantesco. Os puristas do folk tinham um problema com ele, mas Harry – que podia ter dado um pontapé no rabo a todos – não se incomodava nada, dizia que os cantores folk eram todos intérpretes, afirmou-o publicamente, como se alguém lhe tivesse encomendado o sermão. Até disse que detestava as músicas pop, achava que eram lixo. Identificava-me com o Harry de todas as maneiras. Em tempos ficou à porta de um famosos clube nocturno de Copacabana por causa da sua cor e mais tarde, acabou por ser o artista principal daquela espelunca. É inevitável imaginar-se as emoções que poderiam ter sido despertadas com uma coisa destas. Por mais espantoso e inacreditável que possa parecer, eu iria fazer a minha estreia de gravação profissional com o Harry a tocar harmónica num dos seus álbuns chamado Midnight Special. Estranhamente, estas datas de gravação foram as únicas que guardei durante anos na cabeça. Mesmo as das minhas próprias sessões de gravação acabariam por perder-se na memória. Com Belafonte senti que, de alguma maneira, tinha ficado consagrado. Ele fez por mim o mesmo que o Gorgeous George fizera. Harry era aquele género raro de personagem que irradia grandeza e fica-se na esperança que aquilo seja algo que se pegue. O homem impõe respeito. Apesar de o ter podido fazer, é sabido que nunca escolheu o caminho fácil.

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: HarryBelafonte


sexta-feira, 17 de março de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Circo está ao rubro.

1 - Onze anos depois de ter falhado a OPA lançada pela Sonae à PT, Paulo Azevedo disse que o jogo estava viciado. Agora que o assunto volta a ser falado no âmbito da Operação Marquês, o CEO da Sonae diz, que estavam todos feitos e que a justiça fará o seu trabalho.
Aguardamos mesmo que a Justiça faça o seu trabalho mas temos que nos sentar.
Se não der em aborto, o parto não vai ser fácil.

2 - O que Assunção Cristas disse, em entrevista, ao Público deixou muito a desejar sobre o Governo de Direita que, para agradar à Troika, tramou - e de que maneira! – o povo e os trabalhadores portugueses: cortes nos ordenados e nas reformas, perca de regalias, aumento de impostos constavam da receita.
Como, segundo Cristas, da banca não se falava no Conselho de Ministros, somos levados a concluir que o Conselho de Ministro, eram aqueles sorrisos gravados pelas televisões, no início de cada conselho, como os treinos das equipas de futebol, e mais não seriam que umas reuniões que a minha mãe, a long time ago, fazia lá em casa para as amigas em que se vendiam tupperwares, acompanhados de sandes em pão de forma e bolos sortidos da Nacional.

3 – O Público noticia que Paulo Núncio terá estado ligado ao registo de 120 "offshores", ao longo dos 10 anos em que trabalhou para a Zona Franca da Madeira, como fiscalista, antes de ir para o governo.
Também se soube agora que o ex-secretário de estado dos assuntos fiscais foi advogado, durante três anos, da petrolífera estatal venezuelana, que enviou parte significativa dos 7,8 mil milhões para o Panamá, via BES.
Recorde-se, ainda Cristas, que, quando se soube das trapalhadas em que o dirigente centrista estava metido, declarou com pompa e circunstância:
Paulo Núncio mostrou uma grande elevação de carácter e o país deve muito ao doutor Paulo Núncio pelo trabalho de combate à fraude e à evasão fiscal.
Lembrei- me agora:

Por onde anda Paulo Portas?

Legenda: pintura de Nikias Skapinakis

FOI HÁ 50 ANOS




Já está à venda uma nova edição de O Canto e as Armas de Manuel Alegre, comemorativa dos 50 anos da 1ª edição.

No meu exemplar pode ler-se:

Este livro edição do autor foi composto e impresso em Novembro de 1967 na Tipografia do Carvalhido no Porto.

A capa, composta a partir de uma fotografia de Eduardo Gageiro, não tem indicação de autor.

Deste livro, Adriano Correia de Oliveira, retirou poemas, musicou-os, e ao álbum não teve qualquer dúvida em dar-lhe o mesmo nome do livro.

A primeira faixa do álbum, E de Súbito um Sino, é também o primeiro poema do livro, cujos primeiros versos são ditos pelo actor Ruy Mendes:

Eis como tudo
entra de súbito
pelas palavras:
a terra e o mar
as mãos e as vozes.
Tua guitarra
 povo. Teu génio.

E o teu silêncio
É de súbito um sino
Tocado pelo vento

Em todas as aldeias do meu sangue.


Poemas e canto que marcam toda uma geração, e não só uma geração, diga-se.

Esta nova edição de O Canto e as Armas tem prefácio de Mário Cláudio.

Que começa assim:

O convívio com um texto no espaço que o justifica, quando não resulta de um privilégio da nossa escolha, poderá corresponder a uma consequência da força das circunstâncias. Calhou-me dialogar com O Canto e as Armas nas bolanhas da Guiné onde cumpria a minha comissão de serviço militar obrigatório, e no verbo «cumprir», e no adjectivo «obrigatório », não pouco se insinuará do animus que terá comparecido à leitura. Não se tratando de uma proposta «neonefelibata», igual às que aliás informavam boa parte da poesia que nesse tempo se ia escrevendo na chamada «Metrópole», o texto de Manuel Alegre engastava o «espírito» no exacto lugar que o segregara, e onde o subscritor destas linhas se encontrava. Eu estava numa guerra, e numa guerra injusta, na qual muitos se envolviam desmotivadamente, como estaria qualquer leitor de Moby Dick a bordo de um baleeiro de Nantucket, e em busca do Leviatã branquíssimo, ou de Guerra e Paz na estepe gelada da Campanha da Rússia, e sob o comando de Napoleão. E quanto ao vocabulário estruturante de toda a obra literária, eis que coincidia ele com o que por então povoava a nossa fala quotidiana, percorrida por «bazucas e morteiros e estilhaços», por «granadas», e por «metralhadoras». Não me recordo de outro livro, a não ser talvez o de Job, eleito em momentos de infortúnio, que se me tenha amassado tão imediatamente no sangue.
Mas O Canto e as Armas assegurar-nos-ia ainda, a muitos, e a mim também, a permanência de um horizonte longínquo, o da terra europeia que nos fora berço, evocando o regaço da Mãe superlativa, por quem clama ao que se diz cada soldado antes de ascender a herói ou, o que valerá o mesmo, ao plano de quem «jaz morto e arrefece». Era a absoluta ruralidade que investia por aquelas páginas, conforme à grande paisagem, natural e humana, que a desertificação não avassalara ainda, e que haveria de enquadrar os anos seguintes. Despertavam de facto por ali criptomnésias de um pequeno paraíso agro-pastoril, «arados» e uma «espiga», ou «uma flor de verde pinho», a pontuar «oitenta e nove mil quilómetros quadrados».

Alguns dos poemas de Praça da Canção, como os deste livro, registam o aparecimento de um tal País de Abril, adivinhações, sonhos de Manuel Alegre.

É em O Canto e as Armas que está Poemarma, onde a dado ponto se pode ler:

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Assim foi, como alguns, cada vez menos, se lembram.

OLHAR AS CAPAS


José Rodrigues Miguéis
Vida e Obra

Mário Neves
Capa: Luís Silva, sobre auto-retrato de José Rodrigues Miguéis
Editorial Caminho, Lisboa, Outubro de 1990

O seu aparecimento em Lisboa foi saudado efusivamente pelos amigos que o tinham visto partir com desgosto das tertúlias dos cafés. José Gomes Ferreira anotou o facto como um acontecimento jubiloso, nesta passagem do seu livro A Memória das Palavras – ou o Gosto de Falar de Mim: «Pouco mais ou menos por essa ocasião aconteceu o reencontro, para mim desvanecedor, com a personalidade poderosa de José Rodrigues Miguéis, que exercia, então, como nas gerações subsequentes, um fascínio dominador, sobre tudo e todos, exultante dum conjunto de virtudes raras num escritor que, a par da inventiva psicológica, da luminosidade do pensamento, da influência mágica da palavra, moldável a qualquer capricho de expressão pedagógica, política ou polémica, amava contar histórias- histórias com um toque de sensualidade de lucidez doentia que o acanhado meio e o puritanismo de olhos baixos do idioma reprimia a custo. No momento em que voltámos a abraçar-nos (desde a adolescência que a nossa vida tem sido um abraço de reencontro pegado!), José Rodrigues Miguéis preparava a edição da Páscoa Feliz…» 

MAS OS TEMPOS SÃO SOMBRIOS


Já há algum tempo que lhe devia ter agradecido o seu último volume de ensaios (1) e o seu conto (2) – ambos magníficos – mas os tempos são sombrios e eu não consigo erguer-me de rosto limpo para coisas que me requerem inteiro. a poesia que não escrevo, a pureza que o amor implica, a transparência que a amizade exige, e outras ainda. Parece-me que já o silêncio é sem mácula – e quebrá-lo é uma violentação.
Foi uma pena que tão mesquinhas razões impedissem a inclusão de «Os Amantes» no seu livro, além de ser um dos seus melhores contos, são ainda das páginas mais francas, e, portanto, mais puras, que em português se escreveram sobre o amor – e quem não saiba ver isso nada sabe de amor nem da arte de contar.

Carta de Eugénio de Andrade datada de 27 de Julho de 1961 em Correspondência.

(     (1) - O Poeta é um Fingidor, Edições Ática, 1961

(     (2) - Trata-se de «Os Amantes» que fará parte das «Novas Andanças do Demónio» publicado pela Portugália em Agosto de 1966 e que, segundo Sena, deveria fazer parte de «Andanças do Demónio» editado em 1960.

quinta-feira, 16 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


Sim. A estupidez é o bem melhor distribuído.

Autor desconhecido

DÉCIMO QUARTO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS


Maravilhava-se com o feto bicéfalo
e dúzias de dedos peludos de macaco
que se contorcia no ventre de Maria.

Dizia: todo o real é racional.
Como se fosse Deus

António Rego Chaves em Três Vezes Deus

Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou

O PILOTO DA BARRA


Tinha o ar distante e austero de quem recebe
no rosto os ventos do mar, e se dizia uma palavra
só ele a ouvia. No canto da mesa onde estava,
olhando para as conversa e sacudindo
a cabeça por nada ouvir, fazia parte de outro
mundo. «Foi o rio que o pôs surdo», disse
alguém; «foram os gritos das gaivotas»,
corrigiu a mulher que saiu de ao pé dele e
atravessou a sala, com o olhar dos homens
a persegui-la. «Faz versos», disse-me
o amigo, «e guarda-os só para ele». A noite
continuava o seu caminho. A mulher
não voltou. E ele segurava o copo ainda
cheio de bagaço, como quem segura o leme
e não sabe quando, nem onde, irá chegar.


Nuno Júdice em JL, 29 de Maio de 2013

quarta-feira, 15 de março de 2017

OLHAR AS CAPAS


Este Tempo

Maria Judite de Carvalho
Antologia organizada e prefaciada por Ruth Navas e José Manuel Esteves
Capa: Luís Silva
Editorial Caminho, Março de 1991

Cuidado com o álcool, com o tabaco. Muita a tenção ao stress. Sejamos cautelosos na estrada. Vigiemos o colesterol. É aconselhável fazer de vez em quando um check-up. Não nos deixemos engordar. Os alimentos devem ser criteriosamente escolhidos. As gorduras, os açúcares, o sal, o excesso de peso são um perigo para a saúde. O cancro do pulmão espreita-nos, E as doenças do coração. E as circulatórias. E a cirrose. Estejamos atentos. Se nenhum destes males, tão ameaçadores, nos levar, se conseguirmos escapar a todos eles, talvez sejamos eternos. Ou, pelo menos, talvez possamos receber condignamente, cheios de saúde e amor à vida, as bombas atómica ou de neutrões que, com tanto esforço e dinheiro, são construídas e aperfeiçoadas em nossa intenção. E recebê-las em bom estado físico é o menos que podemos fazer para corresponder a tanta dedicação do homem pelo homem.

E ALI ESTAVA EU A MEXER NAS MINHAS TRANÇAS


Três décadas mais tarde, em 1997, a Vogue alemã pediu-me para entrevistar Paul Bowles em Tânger. Fiquei com sentimentos contraditórios em relação à minha tarefa, pois foi-me mencionado que ele estava doente. Mas asseguraram-me que tinha concordado prontamente e que essa situação não o perturbaria. Bowles vivia num apartamento de três assoalhadas, num prédio de linhas simples e modernas doas anos 50 de uma zona residencial. Uma pilha alta de baús e malas com marcas de muitas viagens formavam uma coluna à entrada. Havia livros a forrar as paredes e os átrios, alguns que eu já conhecia e outros que gostava de conhecer. Ele estava sentado na cama, encostado à cabeceira, com um robe leve de xadrez vestido e o seu rosto pareceu iluminar-se quando entrei no quarto.
Agachei-me, tentando encontrar uma posição simpática naquele espaço estranho. Começámos por falar da mulher, Jane, já falecida, mas cujo espírito parecia pairar por todo o lado. E ali estava eu a mexer nas minhas tranças e a falar de amor. Perguntei-me se ele estaria realmente a ouvir.
- Anda a escrever alguma coisa? Perguntei eu.
- Não, já deixei de escrever.
- E como se sente agora? – inquiri eu.
- Vazio – respondeu ele.

Patti Smith em M Train

Legenda: Paul Bowles com Patti Smith

UMA HERANÇA HÁ MUITO PERDIDA


Conheci um guitarrista que dizia «a minha amiga rádio». Sentia um parentesco menos com a música do que com a voz da rádio. A sua qualidade sintética. A sua voz única, distinta das vozes que a atravessam. A sua capacidade de transmitir a ilusão de gente a grande distância. Dormia com a rádio. Falava para a rádio. Discordava da rádio. Acreditava numa Terra Longínqua da rádio da Rádio. Como achava que nunca encontraria esta terra, reconciliou-se consigo mesmo a ouvir a rádio. Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida.

Sam Shepard em Crónicas Americanas

terça-feira, 14 de março de 2017

MARCADORES DE LIVROS

A JUSTIÇA TEM DE SER MELHOR QUE SÓCRATES



Pedro Tadeu, hoje, no Diário de Notícias

TRUMPALHADAS


Todos os dias, a todas as horas, o circo do Presidente dos Estados Unidos não pára de nos surpreender.
No meio da polémica em que Donald Trump, sem provas, acusou Barak Obama de o ter mandado espiar enquanto vivia na Torre Trump, aparece agora a impagável Kellyanne Conway, conselheira de Donald Trump, a afirmar que até através de micro-ondas, que se transformam em câmaras, se podem espiar pessoas.

Se o ridículo matasse!...

NOTÍCIAS DO CIRCO

Em entrevista ao Público, Assunção Cristas garante que o Governo de Direita a que pertenceu, nunca discutiu, em profundidade, questões da Banca.
Nem BES, nem Banif, nem Caixa Geral de Depósitos, NADA!
Então, de que falavam, com profundidade, as excelências em Conselho de Ministros?
Não é preciso ser bruxo para saber que , em Conselho de Ministros, apenas abordavam, com profundidade, as directrizes da Troika que visavam lixar os trabalhadores, o povo, o País.
Durante quatro anos estivemos entregues a esta gente.

OLHAR AS CAPAS


Fiesta

Ernest Hemingway
Tradução: Jorge de Sena
Capa: José Antunes
Colecção Universal Unibolso nº 46
Editores Associados, Lisboa s/d

Pela manhã desci o boulevard até à Rue Soufflot para tomar café e um brioche. Estava uma manhã linda. Os castanheiros dos jardins do Luxemburgo estavam em flor. Sentia-se a agradável expectativa matinal de um dia quente. Com o café, li os jornais e depois fumei um cigarro. As floristas vinham do mercado, compondo o fornecimento quotidiano. Estudantes subiam a rua para a Faculdade de Direito ou desciam para a Sorbona, O boulevard estava cheio do movimento dos carros e de gente a caminho do trabalho. Meti-me num autocarro S e fui até à Madeleine, de pé na plataforma traseira. Da Madeleine, passeei-me pelo Boulevard des Capucines até à Ópera, e dirigi-me para o meu escritório. Cruzei-me com o homem das rãs saltadoras e o homem dos bonecos que jogam o boxe. Desviei-me para não passar por cima do fio com que a rapariga ajudante fazia mexer os pugilistas. Ele nem olhava, segurando o fio nas mãos fechadas. O homem incitava dois turistas a que comprassem. Três turistas mais tinham parado a ver. Segui atrás de um homem que empurrava um cilindro que imprimia a palavra «CINZANO» no passeio, em húmidas letras. Passava gente para o trabalho, constantemente. Sabia bem ir para o trabalho. Atravessei a avenida e virei para o meu escritório.

AOS DOMINGOS HÁ LEITÃO ASSADO E LEITE-CREME


Apresentamos o segundo passo da narrativa que António Gedeão escreveu sobre uma sua ida, com a filha Cristina, às Termas da Curia:

De momento viajo para a Curia, onde vou fazer o meu tratamento anual de águas termais milagrosas que fazem com que o meu organismo expulse os cálculos renais de que padeço. Viajo com a minha filha Maria Cristina. Aqui neste comboio sentamo-nos de frente um para o outro. Ela dormita. Eu observo. Vamos sempre ao dois, ano após ano. Observamo-nos, no passar dos anos. Às vezes, a meio da estada, a Natália vem passar uns dias. Concordo que este é um ambiente difícil – muitas senhoras, senhoras mesmo, daquelas que é difícil imaginar de manhã quando se levantam ainda sem os grossos colares de pérolas e sem os seus grossos maridos que também se enroscam à volta dos seus pescoços bem nutridos. Sim concordo! E depois estes horários das tomas de água são rígidos, o primeiro copo às oito da manhã, o segundo, ao meio dia, o terceiro às quatro da tarde, o último, às sete e meia, não dá para ir a lado nenhum, a pequena tem um grupo de jovens, eu escrevo e leio e passeio e como e durmo, o sítio é bonito, muito bonito, o lago, as gaivotas do lago a marulhar namorados, as noites quentes, aos domingos há leitão e leite-creme, não falo com ninguém, não conheço aqui ninguém (nem me interessa conhecer…) gosto muito do senhor Eduardo Simões e da mulher, a dona Maria e acho uma certa graça à Leninha que é a filha e à tarde, ao fim da tarde, quando todas as aves do mundo recolhem nos braços dos castanheiros e das amoreiras deste grande parque existe um silêncio, uma espécie de silêncio que é o mesmo que tenho ouvido em outros locais que conheço, o silêncio na paz dos conventos antiquíssimos, o silêncio das ameias dos castelos arruinados, o silêncio das masmorras exuberantes de condenados, o silêncio dos tempo e dos tempos que já foram e ainda mais dos que virão.


Legenda: fotografia do Mototurismo do Centro

segunda-feira, 13 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


Não há ninguém mais ocupado do que os que têm pouco que fazer.

José Saramago numa carta a José Rodrigues Miguèis em Correspondência.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Postal de Zanzibar enviado pela Angelika e o Hans-Martin.

NOTÍCIAS DO CIRCO



A revista Visão publica, assinado por Miguel Carvalho, mais um capítulo dedicado aos negócios de Fátima.


Por seu lado, a sindicalista Helena Cardinali refere uma reunião com responsáveis do santuário para resolver o problema de uma trabalhadora e jamais esquecerá o que desses responsáveis lhe disse:


Legenda: fotografia de Rui Duarte Silva na Visão.

NEM SEQUER ESTREBUCHAMOS


Essa sede de notícias, bem a compreendo. Mas o pior é que não as há. A inconsciência em que se vive em Portugal, seria enternecedora se não fosse trágica. E de tal modo que vista aqui de dentro a situação, apesar dos gritos de alarme de fora, passam-se os dias, soalheiros ou chuvosos, como se tivéssemos lido no livro do destino o próspero futuro que a Senhor de Fátima tem prometido a Portugal. Graças ao terço que todos nós, duma maneira ou doutra, vamos rezando. Nunca nação nenhuma caminhou para o abismo com tamanha indiferença. Nem sequer estrebuchamos. É claro que acabaremos por abrir os olhos, mas isso será já na queda, quando já nada nos puder salvar.

Carta de José Saramago, datada de 26 de Maio de 1961, para José Rodrigues Miguéis em Correspondência.

Legenda: imagem Pinterest