Mostrar mensagens com a etiqueta António Ramos Rosa Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Ramos Rosa Poemas. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 12 de abril de 2019

O HOMEM DE ABRIL


Eis o homem de Abril.
Nasceu fraco e de pé.
Já fraco, fez-se velho.
Fez-se velho a valer.

Sentou-se ao pé dum muro,
Atrás o sol nascia.
Uma rosa rompeu.
Era manhã. Bom dia!

António Ramos Rosa

Nota do editor: este poema, «O Homem de Abril», faz parte de um conjunto que, em carta datada de 14 de Novembro de 1960, Ramos Rosa enviou a Jorge de Sena com a indicação manuscrita: «não são para publicar».

Legenda:
Legenda: ilustração de Rogério Ribeiro para o livro de Manuel Tiago «Até Amanhã Camaradas».

quinta-feira, 21 de março de 2019

POR FALTA DE MASSAS!


Paramos, hoje, em duas cartas de António Ramos Rosa para Jorge de Sena em que
volta a referir as tremendas dificuldades económicas em que vivia.
António Ramos Rosa, para além de poeta admirável, do melhor que a nossa literatura possui, era um homem amável e sincero, de uma humildade desconcertante.
No findar da carta, datada de 13 de Agosto de 1958, pergunta a Jorge de Sena se recebeu o seu livro «O Grito Claro»:

«Recebeu o meu livrinho? Vi-me obrigado a fazer essa selecção porque as massas não chegavam para o livro completo. Fiz mal? Mesmo assim, fiquei inteiramente depenado. Vamos a ver se se vende.»

Tomem nota: por falta de massas Ramos Rosa não publicou o livro que tinha entre mãos, o livro que deveria ser publicado.

No dia seguinte envia outra carta:

«Aí lhe mando um poema que lhe é especialmente delicado que me levou a escrever as palavras de admiração que lhe dirigi ontem. Não ponha em dúvida a minha sinceridade do que ultrapassa de muito longe a pura amabilidade. Não o enganará decerto o tom dos meus versos, fracos porventura, mas onde eu creio perpassa algo de puro e genuíno. Eles foram inesperados. Há mais de cinco, seis ou sete meses que eu não escrevia um verso. Quase me sinto feliz – e duplamente por eles terem nascido para si. É decerto um sangue novo que aflui, não só à minha poesia, mas a esse diálogo que eu julgo não interrompido entre nós. Ainda bem e oxalá V. esteja de acordo comigo. É claro, digo isto, independentemente do valor real que se possa atribuir a esta minha poesia. Pode V. fazer dela o que entender, mas eu tinha empenho em que ela fosse publicada, para público testemunho duma gratidão que neste caso ultrapassa qualquer pessoalismo. Como não posso inteiramente descurar o lado material da questão, sugeriria que a publicasse na pág. lit. Do Diário de Notícias *, pois encontrando-me neste período de Verão, quase sem trabalho, como é habitual, muito jeito me fazia esse negócio. Claro, o negócio é por acréscimo, mas tem urgência.

*Há tempos pedi a este jornal que, na secção «Ronda», anunciasse o meu livrinho: até agora nada. Há anos enviei para lá um artigo, em carta registada, dirigida a Natércia Freire e também não o publicaram nem me responderam.»

Segue-se o poema que Ramos Rosa dedica a Sena e que foi publicado no Diário de Notícias de 4 de Setembro de 1958, Certamente não seria publicado se Jorge de Sena não tivesse feito diligência junto da matriarca Natércia. «Já lho pagaram?, pergunta ainda Sena em carta de 28 de Setembro.




Legenda: reprodução da 1ª edição de O Grito Claro, tirada de In-Libris

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

ONDE O CAMINHO


Onde o caminho é a mão que se abre,
a mão que vai.
O silêncio que respiro é o caminho que vem.

A mão nova palpa a parede do ar.
Uma parede nova.

Caminho para o solo alto.
Desloco a terra-

O fragor branco do céu.

O dia não estala.

António Ramos Rosa em Respirar a Sombra Viva

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

AS PALAVRAS MAIS NUAS



As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.

António Ramos Rosa

Legenda: pintura de Gustav Klimt

quinta-feira, 21 de junho de 2018

NO CORAÇÃO DA NEVE


No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia

António Ramos Rosa

terça-feira, 15 de maio de 2018

TEU CORPO PRINCIPIA


Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol - verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

António Ramos Rosa em Estou Vivo e Escrevo Sol

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

QUERO DORMIR NA ÁGUA DAS PALAVRAS


Quero dormir na água das palavras
que amam o silêncio
e a lentidão da luz
que é o fulgor de uma evidência indecifrável

Quero ser a concha do ingénuo sossego
de uma flor branca
como o monótono murmúrio
de uma respiração solar

Quero ser o ouvido de veludo
de um insecto azul
e quero beber a linfa do olvido
numa boca de argila
para sentir a monotonia ardente
da garganta da terra

António Ramos Rosa em Resumo: a poesia em 2013

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

DA GRANDE PÁGINA ABERTA DO TEU CORPO


Da grande página aberta do teu corpo
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara

Pela janela vejo a pequenina mão
de um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol

Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor

António Ramos Rosa em Poesia 70

Legenda: pintura de Salvador Dali

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Ocupação do Espaço

António Ramos Rosa
Prefácio: E. M. de Melo e Castro
Colecção Poetas de Hoje nº 12
Portugália Editora, Lisboa, Novembro de 1963

Do Mar Para a Terra

Impreparado ainda
te procuro na sombra,
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.

Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia
de sede mais ardente.

E na água me envolvo,
me afundo corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e me abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real.

E é um torso, um dorso
que a água move,
trabalha,
donde despontam brancos
membros,
que na superfície ondeiam
e altos se levantam
cheios de luz.

Assim nasce o possível,
se mais fundo o procuro
e se largo demoro
na sede do ar,
no côncavo da água,
se mais fundo respiro
e formo os membros livres.

Aprendo a prender-te.
soltando-te
e impelindo-me
para a forma que desato
- rígida e macia
seiva que transluz.

Tronco é que te quero,
redondo animal
de delicadas palmas,
afeito às ondas
- largas ancas
rodopiantes pernas

- sobre a terra,
mas formado no mar.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

ESCOLHI A TERRA PARA DORMIR


Escolhi a terra para dormir
húmida vermelha dura
nunca formei uma palavra
nunca encontrei a saída

Estou vivo ou estarei morto
ou estarei mais além aberto
entre as constelações salubres
de uma gruta de veias vivas

Já sem andaimes o poema
dilacerado como um nervo
há-se acolher ao rés do solo
um ramo quebrado um formiga
a baba de um caracol

A palavra que nunca foi dita
não será flecha mas ferida feliz
entre os dois pólos do arco
que une o desejo ao silêncio da lua

António Ramos Rosa em Resumo:  a poesia em 2013

Legenda: fotografia de Vivian Maier

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Não Posso Adiar o Coração

António Ramos Rosa
Prefácio de Eduardo Lourenço
Capa: Raul Vaza
Colecção Sagitário nº 3
Plátano Editora, Lisboa, Junho de 1974

                                                                      a Alberto de Lacerda

A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal

Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova interessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto

irradia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O SOL DA CASA


Sou o que veio por um momento
de sol.

Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.

Venho até ver com o sol
 ouro do campo
da casa.

Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.

Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.

António Ramos Rosa em Respirar a Sombra Viva

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

NUMA FRONTE AUSENTE


Terra e noite,
as mãos escavam.
Insistem e desfazem-se
numa fronte ausente.

Na cabeça subsistem
algumas palavras inúteis.

A mão devagar traça
- vai traçar -
uma rede de sinais de que dependo.
A luz descobre o corpo.

Algumas palavras a mais desaparecem.
Neste instante
a pedra é nua. 

António Ramos Rosa em Respirar a Sombra Viva

quinta-feira, 17 de março de 2016

A FACE DO AR


O rosto nu perante o mar.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.

António Ramos Rosa em Respirar a Sombra Viva

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Respirar a Sombra Viva

António Ramos Rosa
Capa: Raul da Vaza
Plátano Editora, Lisboa, 1975

Amor da Palavra, Amor do Corpo

                                A Maria Aliete Galhoz


A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Animal Olhar

António Ramos Rosa
Plátano Editora, Lisboa, Janeiro de 1975

ÁRVORE

Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

NÃO POSSO ADIAR O AMOR


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


António Ramos Rosa em Não Posso Adiar o Coração


Legenda: imagem tirada de Duas ou três Coisas

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


O Aprendiz Secreto

António Ramos Rosa
Edições Quasi, Lisboa Julho de 2005

Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio, mas o pilar mais forte da construção será uma palavra. Tão viva e densa como o silêncio e que, nascida do silêncio, ao silêncio conduzirá.     

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

SILÊNCIOS



                                                             Homenagem a Fernando Lopes-Graça

Frémito
ou minuciosa dança
talvez um murmúrio de glória
ínfima
um passo
de sílabas

um luminoso
espectro

em obscura cave

um eco de música
num país silencioso

uma pedra
se levanta leve e alta
sobre uma invisível cicatriz

antigas claras vozes
elevam-se de um rio
como ramagens de água

uma estrela pródiga e precária
cintila no limiar da página

um pássaro
obstinado
fractura
uma  porta
de pedra

acende-se o sentir sonoro
sobre a lenta passadeira do silêncio

fio fundo
de um espelho
flutuantes bosques
o tremor azul de uma mulher

entre fogos contrários
delicadas surpresas
traçam na areia
ténues linhas de água

ecos de uma sombra
entre pilares de névoa
túmulos e cúpulas
antenas breves
mandíbulas de insectos

por uma escada branca
desce um longo vestido
com sete galgos brancos
as duas mãos de sangue

um astro de chuva
cada gota é uma sílaba
de água silenciosa

suspende-se
a mão errante
num ramo de lágrimas
ou nos dedos da sede

uma fronte respira
uma página de pássaros
de tranquilos clamores

de imperceptíveis
e lentas
germinações
de olhos
de mãos
de tornozelos de lua

vagas flores
labirinto
de minúsculas guitarras
logaritmos
o fogo branco do vento
uma secção cónica

(harmoniosa
desarmonia)

alguns volumes cálidos
o mar os livros
minuciosa monotonia de uma música
o longínquo leque de um riso
os fragmentos lunares
as ruas os jardins
através da neblina azul

o gosto do sal
sobre o veludo da língua
o profundo odor de um nome
pré-natal
a tranquilidade clara
de um privilégio o enlace o desenlace
de uns veios de pedra

ou de dois pensamentos
como dois arcos
de água

o pulso toca uma pequena ilha
de orvalho
uma lâmpada submersa (o azul o verde)
de uma fresca antiguidade
acende-se
no coração errante

a lenta melodia
flui
com um punhado de imagens
quase dissolvendo-se
no anónimo
intermitente
idêntica

(sob o arco do olvido
pássaro de sombra
lâmpada
ou haste de silêncio
embriagada pela sede
da sua luz
minuciosa
mínima
apaixonada
no seu sentir
sonoro
pelo pólen do instante
de um ouro leve

de um alado refúgio)


António Ramos Rosa, inédito publicado no JL

domingo, 26 de janeiro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Círculo Aberto

António Ramos Rosa
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Abril de 1979

É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e uma música da cidade compuseram. Ela é preguiça de felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.