Mostrar mensagens com a etiqueta António Spínola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Spínola. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 5 de maio de 2017

MAS GANHA OITO CONTOS!...


Carta de Jorge de Sena, datada de 9 de Março de 1969, para Eugénio de Andrade:

Trago muitas e cruciantes saudades. Não direi da minha casa que me pareceu encolhida e desconfortável; não direi do país que me entristeceu profundamente, com o seu ar de decadência enxovalhada, a amargura dos melhores, e a resignação dos pequenos (uma mãe que se lamentava de o filho estar mobilizado em África, logo acrescentou, com um sorriso de consolada satisfação que ele ganhava oito contos…) mas dos amigos que é quase impensável para mim que não possa rever a bel-prazer. Agora é que compreendo a diferença de quando parti para o que seria uma ausência de quase dez anos: oficialmente eu não partia, e em conformidade não me despedira. Desta vez, foi diferente. E não sei se não é pior do que antes, de um ponto de vista geral: é que não havia saída para o país, mas esperava-se que um dia haveria, e presentemente é claro, demasiado claro, que a não há, e que ninguém ou quase ninguém sequer a deseja. Como viveria quem se habituou a apenas a sobreviver?


A frase da mãe do soldado fará parte do poema «Uma vez eu…», em que Jorge de Sena refere também as fanfarronadas de António Spínola, mais o seu livro «Portugal e o Futuro», bem como os acontecimentos do 16 de Março.
O poema escrito em Santa Bárbara está datado de 21 de Abril de 1974 e faz parte de «40 Anos de Servidão».
É este o poema:

                           I

Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Áfricas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!

                         II

O general combateu heroicamente nas Guinés
(todos os generais são heróicos porque não se arriscam
todos os dias como os soldados, mas só às vezes
quando visitam a »frente» para mostrar aos soldados
que têm colhões como eles, e os soldados acreditam),
foi largamente louvado pelo governo, muito promovido,
e começou a pensar que aquilo não levava a nada
e era mesmo um mau negócio para a União Fabril
(e oq eu é mau para a CUF é mau para a pátria, é claro).
Pensou então que a guerra não se ganhava,
que o país não aguentava (será que alguma vez
havia pensado nessas evidências desde o princípio?),
e que a sua popularidade entre os soldados da Guiné
correspondia a um papel salvador da pátria
para tirá-la da encrenca. Ressuscitou
a ideia da semi-federação, agitou
os imperialismos brasileiros em relação à África dita portuguesa
(que são mais velhos que o Brasil como nação),
E botou livro saudado como enorme êxito nacional e internacional.
Mas a extrema-direita – ou sejam aqueles
que acabam por acreditar eles mesmos nos mitos que impõem aos outros
- não gostou. Os jovens centuriões estavam todos
de olhos fitos na imagem paterna, de monóculo, herói
das Guinés e mais partes. E pensaram em pôr-se
pacificamente em marcha como no 28 de maio
que assim ganharam contra a República há cerca de cinquenta anos.
Mas era dia de futebol. Os soldados estavam todos
Preocupados em quem ganharia o jogo, e tristes
De o perderem na televisão. Outros centuriões
Acharam que não havia chegado o momento.
E assim as colunas motorizadas encontraram-se
frente  a frente ao pé dos Alguidares de Baixo,
e os revoltosos deixaram-se prender entre vivas
ao Benfica, ao Sporting, ou outro clube qualquer.
Na estrada, cruzavam-se as colunas motorizadas,
É tristíssimo isto, por certo, de todos os pontos de vista.
Mas – quem há-de fazer crer a um povo
usado por séculos que os acontecimentos
(para que não o ouvem nem consultam) lhe dizem
respeito? Se o livro do general é um grande êxito,
quem há-de convencer esse povo de que lhe diz
respeito uma questão de salvar-se o que está
para ver como é que fica? O povo, como pode,
sobrevive, entre futebol e emigração. O resto
lê com esperança, com raiva, ou com desânimo,
o livro do general que, silencioso, não comenta
dos jovens centuriões que se precipitaram. 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

OS IDOS DE MAIO DE 1975


 21 de Maio de 1975

O CASO REPÚBLICA continua a inflamar o ambiente político do País.
Segundo o Jornal Novo, Mário Soares e Salgado Zenha foram ontem a Belém dizer ao Presidente Costa Gomes que os titulares do PS não comparecerão no Conselho de Ministros enquanto não estiver solucionado o caso.
Convocada para amanhã uma conferência de imprensa e uma maifestção de protesto para o Rossio.
Citado pelo Jornal Novo, Álvaro Cunhal disse que os comunistas não querem controlar os jornais de outros partidos, do mesmo modo que não comemos criancinhas nem damos injecções detrás da orelha.
Num comunicado, o MDP/CDE afirma que o PS está a desenvolver uma perigosa campanha procurando perturbar a opinião pública e agravar o clima político do país.

Trecho do Apontamento, Uma Nova Provocação, de José Saramago, publicado no Diário de Notícias:



UM RELATÓRIO da Comissão Política do Conselho da Revolução, revela que a delegação do Partido Socialista, sendo a última a entrar no Estádio 1º de Maio, realizando um mini-comício, provocou os incidentes de que se disseram vítimas.


NO BRASIL, António Spínola declarou a amigos que esteve activamente envolvido nos acontecimentos de 11 de Março e mostra-se disposto a continuar a lutar para libertar Portugal.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Os Apontamentos de José Saramago.

terça-feira, 21 de abril de 2015

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


21 de Abril de 1975

O DIÁRIO DE LISBOA, publica um suplemento com o Relatório Preliminar sobre o golpe de 11 de Março.
Preliminar ficou, porque nenhum outro voltou a ser elaborado.
Como, pura e simplesmente, nada se tivesse passado.
No documento é dado especial relevo ao envolvimento de Spínola no golpe.

O DECRETO-LEI nº 212/5 cria o cargo de Provedor de Justiça

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sábado, 21 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


21 de Março de 1975

O ALMIRANTE Vítor Crespo, alto-comissário em Moçambique, vem expressamente a Lisboa para dar conta do seu desagrado por a composição do Conselho de Revolução integrar maioritariamente 0ficiais «gonçalvistas».
Numa reunião tensa é rectificada a composição do Conselho que passa a incluir Vítor Crespo, Melo Antunes, Vítor Alves e, por uma questão de equilíbrio, o «gonçalvista» Costa Martins.

FORAM expulsos das Forças Armadas os implicados no golpe do 11 de Março, entre os quais o general António Spínola, major Sanches Osório w o capitão-tenente Alpoim Calvão.

O DECRETO-LEI nº 147-C/75 atribui ao Conselho de Revolução o poder de passar à reserva militares que não ofereçam garantia de fidelidade ao MFA, bem como de graduar ou promover.

COMÍCIO do Partido Socialista no Campo Pequeno.
Não vamos fazer sair a NATO pelo Minho para deixarmos entrar o Pacto de Varsóvia pelo Algarve.
Do discurso do operário Alfredo Carvalho, candidato a deputado do Partido Socialista.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira


Legenda: imagem do Centro de Documentação 25 de Abril.

segunda-feira, 16 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


16 de Março de 1975

Neste dia ficava a saber-se que, após algumas hesitações, o governo brasileiro dava asilo político ao ex-general Spínola.

No avião da Ibéria que, mais os 18 oficiais que desde o golpe o acompanham, o transportou para São Paulo, em jeito de manifesto, justificaram-se aos jornalistas que se revoltaram para restabelecer a promessa de democracia da Revolução do 25 de Abril. O nosso povo tem estado a sofrer as mais abertas violações e a autoridade desapareceu nas ruas. A anarquia alastra pelo País. Foi para cumprir a nossa promessa, para garantir a liberdade, para salvaguarda as eleições de 12 de Abril, para aniquilar as forças antiportuguesas da desordem, que pegámos em armas. A perseguição política e religiosa é conduzida na sombra por agentes de partidos e internacionalistas, que se tornam cada dia mais fortes. A escalada da violência atingiu um ponto que nunca imaginámos. Um governo complacente, a actuar em conjunto com as forças de subversão, assiste à ruína material e moral da Nação… lançando Portugal no descrédito do mundo livre. As Forças Armadas não intervieram em 25 de Abril para mudar de ditadura. Foi para instalar a democracia, para restituir ao nosso povo a liberdade contra os fascismos da esquerda ou da direita, os que se vestem de negro ou de vermelho… Não podemos consentir no martírio de Portugal e na ruína da Pátria.

À chegada a São Paulo, Spínola apressou-se a desmentir que tivesse afirmado não  desejar voltar algum dia a Portugal, ao mesmo tempo que declarava que se dedicaria a «actividades intelectuais», com o propósito de escrever um livro: «Reflexões sobre os Dilemas do Mundo Contemporâneo».

Mas o antigo governador da Guanabara, Carlos Lacerda, afirmava, ao Jornal da Tarde, que o ex-general «está decidido a continuar a luta».

Em 1973, Amílcar Cabral retratava Spínola:


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

domingo, 15 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


15 de Março 1975

Sábado é dia de Expresso.

O semanário ocupa-se, largamente, dos acontecimentos do 11 de Março.

Este é um pormenor da habitual coluna de comentário político de Marcelo Revelo de Sousa. Um requiem pelo spinolismo.

A determinado passo, pode ler-se:

O 11 de Março foi a oportunidade primeira de se suscitar o confronto destas duas linhas de pensamento e de acção. É ainda cedo para se compreender em toda a sua complexidade o que efectivamente sucedeu a 11 de Março. O inquérito oficial – assegurou o Chefe de Estado – corre ainda os seus trâmites, a ritmo acelerado. Segundo Costa Gomes, ele poderá mesmo a vir a clarificar os acontecimentos de 28 de Setembro que permaneciam, seis meses depois, envoltos em relativo segredo de estado.
Entretanto, algumas perguntas se fazem quanto aos factos os observadores políticos.
1ª Spínola terá liderado desde o início do golpe conforme é genericamente dito, ou teria assumido a liderança momentânea sob o peso de uma versão errada do que ocorria? – conforme disse Salgueiro Maia ao “Século”?
2ª Porquê a incipiente estrutura de um golpe que segundo meios oficiosos, estaria sendo preparado há já algum tempo?
3ª Porquê a aparente ausência de elementos golpistas operacionais de ligação às diversas unidades, e pelo contrário a sua concentração em Tancos de onde fugiram para Espanha?
Estas e outras questões serão certamente respondidas de forma cabal pelo relatório que está em preparação sobre a tentativa aventureirista da direita.

Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, em Os Loucos Dias do Prec, realçam um artigo do Jornal de Notícias com o título: Nacionalizar os bancos não é nacionalizar os depósitos, que ia ao encontro das preocupações dos portugueses sobre o que acontecia ao dinheiro que tinham depositado nos bancos.

E aproveitam para lembrar a seguinte história, ocorrida tempos antes do 25 de Abril:

António Champalimaud adquirira o Banco Pinto e Sottomayor. Ficou acordado que no acto da escritura pagaria 10 por cento do valor e passados seis meses os restantes 90 por cento. Champalimaud pagou os 10 por cento com um cheque dum banco que já detinha. E 180 dias depois pagou o restante com um cheque do banco que havia comprado. Em conclusão: não dispôs nem de um centavo do seu dinheiro e comprou a possibilidade de receber ao fim doa ano milhares de contos de lucro.

Conclusão do Jornal de Notícias:

Com este sistema ganhavam meia dúzia de capitalistas e perdia o povo.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sexta-feira, 13 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


13 de Março de 1975

A INSTITUCIONALIZAÇÃO  imediata do MFA, através do Conselho Superior da Revolução e da Assembleia do MFA; a decisão de que o acto eleitoral decorra nos prazos previstos; a confirmação de que há civis ligados ao alto capital presos por estarem implicados na intentona do 11 de Março; e o reconhecimento da importância da aliançado Povo com as Forças Armadas, através da vigilância popular e da eficácia da actuação das Forças Armadas, foram os factos mais importantes referidos no decorrer de uma conferência de Imprensa dada ontem pelo ministro da Comunicação Social, comandante Correia Jesuíno que se encontrava acompanhado do capitão Duran Clemente da 5ª Divisão do EMGFA e do comandante Montês, director-geral de Informação.
O 11 de Março – adiantou o ministro - não foi um golpe militar representativo de divisões profundas no seio da Forças Armadas. Foi um golpe desencadeado por um grupo minoritário, altaamente reacionário, constituído por pessoas com um currículo já estabelecido. Inclusivamente, algumas dessas pessoas já tinham sido saneadas das Forças Armadas.
Referido, também, que se encontram detidos 25 militares, além da detenção de civis ligados ao grande capital, que subsidiaram partidos políticos e deram fugas a capitais da ordem de milhões de contos.
Quanto à participação nas eleições, dos partidos CDS e PDC, foi afirmado que a decisão caberá ao Conselho Superior da Revolução.



NUM COMUNICADO  do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha, provocado por notícias de Lisboa, que tentariam envolver o governo espanhol nos acontecimentos em Portugal, é reafirmado que o governo espanhol reafirma a sua adesão total ao princípio de não-intervenção nos assuntos internos de outro estado e que observa «rigorosamente» nas suas relações com Portugal.

SPÍNOLA  terá declarado a vários oficiais espanhóis  que «tenciona não voltar nunca mais a Portugal» e que espera encontrar asilo fora de Espanha, provavelmente no Brasil.

NUM COMUNICADO da Comissão Política do Comité Central do Partido Comunista Português lê-se que não é de crer que a conspiração abrangesse apenas os responsáveis já conhecidos. Alguma coisa falhou no plano e isso significa que houve conjurados que, por qualquer razão, não entraram em acção.

O JORNAL DE NOTÍCIAS e A Capital referem a morte de um civil às portas do RAL 1, na tarde do ataque. O civil, acompanhado de uma mulher, foi abatido pelos soldados depois de terem sido disparados tiros do carro onde fugia, depois de provocações aos soldados e populares que se encontravam junto ao quartel.

OS TRABALHADORES da Rádio Renascença consideram «irreversivelmente» anulados os despedimentos ordenados, em Setembro passado, pelo conselho de gerência da estação.
Numa carta enviada ao Presidente da República, em nome da Conferência Episcopal, D. António Ribeiro, patriarca de Lisboa, reclama o «normal funcionamento da emissora católica em condições de Liberdade».


NO SEU EDITORIAL o jornal londrino The Guardian escreve: «A não ser que os próximos dias tragam novas informações sobre o estado das coisas em Portugal, a rebelião de ontem por parte de para-quedistas e unidades da Força Aérea continuará a parecer, como parece agora, um acto de desespero político desnecessário e auto-destruidor.»

NO SEU EDITORIAL, o jornal parisiense Fígaro, destaca: «Duas interpretações dos acontecimentos são possíveis: ou a direita portuguesa é a mais idiota do Mundo, ou os «duros» do regime se comportaram com surpreendente maquiavelismo para eliminarem definitivamente os seus adversários da cena política.»

CÉSAR OLIVEIRA no seu livro Os Dias Decisivos:

O 11 de Março foi, penso eu, a tentativa bem sucedida para levar o general Spínola e os seus apoiantes para uma sublevação militar mal preparada, mal dirigida e com poucos apoios, de modo a evitar que a mesma ocorresse numa fase mais adiantada e segura de preparação.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
Os Dias Decisivos – César Oliveira

Legenda:
- cartaz da autoria de João Abel Manta

- Títulos de O Século de 13 de Março de 1975

OLHAR AS CAPAS


Portugal Depois de Abril

Avelino Torres/Cesário Borga/Mário Cardoso
Capa: António Martins
Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976

O golpe contra-revolucionário de 11 de Março é a tentativa desesperada de ressuscitar o projecto socialista, que, pela sua aliança às forças capitalistas externas e pelo seu anticomunismo larvar, concitava à volta da personalidade de Spínola os interesses do capital nacional, da casta militarista e também dos sectores fascistas colaborantes com Marcelo (civis e militares), todos alarmados com o avanço do movimento e a paralela pulverização dos suportes fundamentais do seu projecto político.
Tentativa de colocar uma vez mais à frente do País, o ex-general Spínola, mas agora sem o «colete de forças» representado pelo MFA e podendo assumir também o papel de novo «salvador da Pátria», o 11 de Março não começou na véspera nem sequer quando o plano começou a ser arquitectado nos começos de 1975. Nasceu precisamente no momento em que Marcelo caetano conseguiu colocar o poder, em 25 de Abril, nas mãos do antigo comandante-chefe da Guiné e seu homem de confiança.
A contra-revolução iniciara a marcha pela mão do cavaleiro do monóculo.

quarta-feira, 11 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


11 de Março de 1975

A História baliza o começo do PREC Período Revolucionário em Curso com os acontecimentos de 11 de Março de 1975.

O Regimento de Artilharia 1, sediado na Encarnação, é atacado por aviões da Base Aérea nº 3 e cercado por tropas do Regimento de Pára-quedistas.

O quartel é cercado e o Aeroporto da Portela é encerrado.

Com alguma ponta de humor, o centrista Francisco Lucas Pires definiu o 11 de Março como o dia em que uns aviões dispararam uns tiros sobre um quartel em Lisboa, e no dia seguinte a banca estava nacionalizada.

Os primeiros atacantes levantaram voo de Tancos às 10,45. Horas: oito helicópteros de transporte, três helicanhões, e dois «Harvard» com um total de 160 pára-quedistas dirigem-se para o RAL-1.

Por trás da tentativa de golpe de Estado está o General António Spínola, ex-presidente da República, acompanhado por uma corte de militares que estiveram na Guiné enquanto Spínola foi governador do território.

No dia 6 de Março, a revista francesa «Témoignage Chrétien» publicara uma notícia que revelava: «Spínola prepara um golpe de Estado em Portugal», afirmando que Spínola recebera luz verde do embaixador dos Estados Unidos, Frank Carlucci, para tentar subverter o processo revolucionário iniciado em Portugal.

O mal-amanhado golpe tinha por objectivos:

- atacar o RAL-1, neutralizando a unidade militar de primeira linha do MFA;

- a GNR revoltar-se-ia pondo-se ao lado dos conspiradores;

- tal como no 25 de Abril apoderar-se-iam de diversos postos de rádio e da televisão.


No próprio dia do golpe, Spínola via telefone, tenta convencer os comandos de diversas unidades a porem-se do seu lado, entre os quais Jaime Neves e Salgueiro Maia.

Jaime Neves diz que apenas recebe ordens do COPCON e Salgueiro Maia recusa-se a ir ao telefone para o atender.

Incompetência? Ingenuidade?

Uma reportagem televisiva regista o caricato diálogo entre o capitão pára-quedista Sebastião de Almeida e o major Dinis de Almeida, do RAL-1, com este a perguntar se o capitão sabia o que estava a fazer.

- Tenho ordem dos meus superiores para ocupar a Unidade.

- Mas porquê? eu tenho ordens dos meus superiores para defender a Unidade

Martins tira um papel do bolso e mostra-o a Dinis de Almeida que passa uma vista de olhos pelo papel.

- Então e vocês atacam uma Unidade por causa de um papel?

- Não é por causa de um papel. Há altas individualidades descontentes com a forma como as coisas têm corrido. É em nome delas que desencadeámos estas acções, para garantir que as eleições de 12 de Abril se realizarão.

Entretanto, populares vão-se juntando em redor dos dois militares e começam a gritar: o povo não está com vocês!

Entretanto, a 5ª Divisão do Estado Maior General das Forças Armadas começa a informar a população:

Música: Indicativo do MFA

Aqui estúdios da 5ª Divisão. Enquanto não se esclarece definitivamente a situação operacional, pedimos ao Povo Português e em especial à população de Lisboa que se mantenha calma e vigilante em união com o MFA e seus órgãos representativos. Contamos fornecer, o mais rapidamente possível elementos concretos e esclarecedores.

Cerca das 15,15 horas, Otelo Saraiva Carvalho, através da rádio disse aos jornalistas:


De como Almeida Faria, Natália Correia, Vergílio Ferreira, viram os acontecimentos deste dia:

Almeida Faria (Ver Olhar as Capas).

Natália Correia:

Começou por ser uma vassourada de sons que revolviam o céu da cidade. Prelúdio aziago do turbilhão de notícias que choveram durante todo o dia. Caças a hélice e helicópteros provindos de Tancos atacam o RAL1 na Encarnação, unidade especialmente afecta à faixa esquerdista do MFA, e o Quartel do Carmo é cenário de uma sublevação.
Mas já a meio da tarde a manobra contra-revolucionária, como a designa a Rádio por entre os conhecidos apelos à vigilância popular, é dominada pelo MFA. O comandante dos para-quedistas atacantes é preso com outros oficiais implicados no risível golpe e Spínola foge de helicóptero para Espanha, onde aterra numa base perto de Badajoz, acompanhado de 18 oficiais que noutros helicópteros o seguem nesta fuga espectacular.
Sim, uma sedição grotescamente consonante com este conglomerado de velhos ridículos nacionais que vão dando à costa da revolução. Isto no caso de se tratar efectivamente de um golpe estruturado com o intuito criminosos de levar a população a uma luta fraticida.

Vergílio Ferreira:

Cerca do meio-dia, houve um novo simulacro-revolução: um avião com duas bombas nas asas lançou uma no Regimento de Artilharia Ligeira nº 1. Ripostou-se. Seis helicópteros desembarcam para-quedistas. Um moço disse-me ter falado com um deles. «tinham-nos dito que havia aqui reaccionários». Comédia para quem? O 28 de Setembro ainda parecia. Mas isto? A menos que seja um ensaio como o movimento das Caldas de há um ano. Mas agora ao contrário (quase).

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
- Não Percas a Rosa, Natália Correia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1978;
- Conta-Corrente, 1º Volume, Vergílio Ferreira.

domingo, 28 de setembro de 2014

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1974

16 a 30 de Setembro

HÁ HISTORIADORES que designam o Setembro de 1974 como tendo sido um Setembro Negro.
O 28 de Setembro foi uma tentativa pífia de conspiração da extrema-direita, apoiada por Spínola, tendo como pano de fundo uma manifestação daquilo que o general designou como «maioria silenciosa» e constitui um dos principais marcos do processo revolucionário.
Em Julho, Spínola já tinha dito: «As maiorias silenciosas têm de sair do seu comodismo ou do seu temor e de se pronunciarem abertamente».

O PARTIDO LIBERAL, no dia 13, redige um comunicado apelando para que as pessoas começassem «a organizar a sua vida para aderirem à Grande Manifestação, e apoiar firmemente Sua Excelência na execução do Programa do Movimento das Forças armadas entendido de boa fé, como via para a democracia personalista, pluralista e livre».


MARCADA a data da manifestação da «maioria silenciosa» para o dia 28.

DURANTE A MADRUGADA do dia 18 são afixados os cartazes.

ESTAVA PREVISTO O ALUGUER DE CAMIONETAS para transportar os manifestantes, aluguer sinalizado antecipadamente com dinheiro emprestado pelo Banco Espírito Santo.

NO DIA 20, num comício na Amadora, Álvaro Cunhal denuncia: «Se a reacção aguça os dentes e se prepara para morder, é necessário partir-lhes antes que morda»!

NA TRADICIONAL CORRIDA DE TOUROS, na Praça do Campo Pequeno, de apoio à Liga dos Combatentes, é feito o ensaio geral da manifestação. Gratuitamente foram distribuídos bilhetes no valor de 300 contos. Spínola marca presença, acompanhado por Vasco Gonçalves, que é apupado enquanto Spínola é delirantemente aplaudido. A cada passe tauromáquico a populaça gritava: «Portugal! Ultramar Ultramar!». O cavaleiro João Zoio apareceria, no meio da arena, ostentando  o cartaz da manifestação da «maioria silenciosa», enquanto pela instalação sonora era feita uma convocatória para a manifestação.


NO DIA 27 o Governo Provisório manifesta a Spínola a sua discordância sobre a manifestação e este emite um comunicado agradecendo a intenção de apoio da «maioria silenciosa» mas declarando que neste momento a manifestação não seria conveniente

NA MADRUGADA do dia 28 populares montam barricadas em diversos pontos do país para evitar qualquer avanço de forças reacionárias. Organizaram piquetes, revistaram automóveis na procura de armas.

Cristóvão Aguiara escreve no seu Relação de Bordo: « … mas quem pode, em dias tão agitados como estes, ficar em casa?»

ANTÓNIO SPÍNOLA convoca o Conselho de Estado para o dia 30, renuncia ao mandato presidencial e os capitalistas portugueses vêem esfumar-se uma oportunidade de recuperar privilégios perdidos, transferem os seus capitais para o estrangeiro e, muitos, abandonam o país.
Costa Gomes é o novo Presidente da República.

ARTUR PORTELA Filho e o final de uma das suas Fundas:
O general Spínola mobilizou a maioria silenciosa.
O MFA mobilizou o País.
Foi um opção.
Que o general Spínola cometeu o erro de fazer.
Porque a maioria não é silenciosa.
Porque o MFA é o País.

Legenda: as imagens dos cartazes foram retiradas de Portugal Século XX de Joaquim Vieira, Bertrand Editora, Lisboa, Novembro de 2007.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1974


1 a 15 de Setembro

NUMA CONFERÊNCIA realizada em Djakarta, o dirigente do Partido Pró-indonésio afirmou que a 70% da população de Timor pretende a unificação política com a Indonésia.

NUMA VIAGEM que efectuou às Lajes, Mário Soares anunciou que é propósito de Portugal manter o acordo que permite aos americanos a utilização daquela base aérea, obtendo porém alguma contrapartida que beneficie especialmente os habitantes dos Açores.

NO ESTÁDIO Universitário, em Lisboa, reúnem-se pela primeira vez em público as Testemunhas de Jeová.

OS TRABALHADORES do Jornal do Comércio manifestam-se irredutíveis quanto ao saneamento de Carlos Machado, director do jornal.

OS SINDICATOS dos trabalhadores das Artes Gráficas, Jornalistas, Administrativos e Revisores de Imprensa e Vendedores de Jornais e Lotarias, em Assembleia Plenária realizada na Voz do Operário, decidiram uma greve de 24 horas (4 de Setembro),em solidariedade para com os trabalhadores do Jornal do Comércio.

ENTRADA no dia 5 de Setembro que Cristóvão Aguiar colocou no seu Diário «Relação de Bordo»  «A História diz-se, não se repete. Mas, se não queda mal o perguntar, não será possível, em Portugal, uma edição revista e remodelada do Chile? É que há por aí movimentos escudos, olhos espreitando do fundo dos seus poços de sombra velha, aguardando a hora do grande descuido, também muitos corvos crocitando e corujas piando nas torres de algumas igrejas…»

MILHARES DE PESSOAS, num comício realizado no Pavilhão dos Desportos em Lisboa, presidido por Rui Luís Gomes, exigiram o fim da repressão no Chile.

A INTERSINDICAL, de acordo com o pedido da Central Única dos Trabalhadores do Chile (CUT) e de acordo com todas as organizações internacionais, decidiu que no dia 11, pelas 11 horas, hora a que foi assassinado o presidente Salvador Allende, uma paralisação de cinco de 5 minutos como forma de solidariedade e apoio à luta do povo chileno.

SEGUNDO O Expresso de 7 de Setembro, muitos padres estão a levantar obstáculos à campanha de alfabetização desenvolvida por um grupo de estudantes universitários.


APROVADA em Conselho de Ministros a nacionalização dos bancos de Portugal, de Angola e Ultramarino.

MÁRIO NEVES é nomeado o primeiro embaixador português em Moscovo.

EM LUSAKA as delegações de Portugal e da FRELIMO chegam a total acordo. Deste modo, Moçambique obterá a independência em meados de 1975.

É ANUNCIADO em Portugal um golpe reccionário em Moçambique em que extremistas brancos ocuparam o Rádio Clube de Moçambique e soltaram os Pides detidos na Machava. O MFA considera estes actos como crimes de alta traição aos superiores interesses de Portugal e de Moçambique, enquanto Vasco Gonçalves afirma que são «obra de uma minoria desesperada que não compreende o futuro.»

É ANUNCIADO oficialmente que os motins de Lourenço Marques originaram 100 mortos e 250 feridos, sendo negros a maior parte das vítimas.

NO ACTO OFICIAL de reconhecimento solene por Portugal da República da Guiné-Bissau (10 de Setembro), o Presidente da República António Spínola, na sua  comunicação ao país disse: «A maioria silenciosa do povo português terá pois de despertar e de se defender activamente dos totalitarismos extremistas que se degladiam na sombra servindo-se das técnicas bem conhecidas de manipulação de massas para conduzir e condicionar a emotividade e o comportamento do povo perplexo e confuso por meio século de obscurantismo político.»

JOVENS PARTIDÁRIOS DO MPP-Movimento Popular Português, foram detidos a colar cartazes no Terreiro do Paço em Lisboa:


 SEGUNDO UM grupo de democratas espanhóis, os Pides estão a ser bem recebidos pelas autoridades espanholas.

MÁRIO SOARES encontrou-se em Paris com o presidente Leopold Senghor e informou que Portugal tenciona debater a independência de Angola com o MPLA, a FNLA e a UNITA.
PÁGINA 61 de Portugal Depois de Abril: «O recurso ao financiamento estrangeiro não foi possível: o boicote económico do capitalismo internacional era já um facto, apesar das promessas demagógicas dos governos sociais-democratas e da OCDE e CEE, que não se concretizaram.
O boicote do grande capital mundial intensificou-se logo que Palma Carlos foi substituído por Vasco Gonçalves.»

Legenda:
1)      O Século, 7 de Setembro de 1974
2)      Diário de Lisboa, 14 de Setembro de 1974
3)      Expresso, 7 de Setembro de 1974

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

OS IDOS DE JULHO DE 1974

  
22 a 31 de Julho

FACE aos últimos acontecimentos ocorridos em Angola com a população branca é criada uma Junta Militar à qual preside o vice-almirante Rosa Coutinho membro da Junta de Salvação Nacional.

FOI ENTREGUE ao Conselho de Estado pelo advogado Dr. Afonso de Carvalho um requerimento para que o referido órgão se pronuncie sobre a inconstitucionalidade do artigo 26 da Concordata celebrada entre o Estado Português e a Santa Sé em 1940 e do artigo 1790 do Código Civil em vigor que vedam aos cidadãos que contraíram casamento canónico depois de 1 de Agosto de 1940 o direito de obterem o divórcio através dos tribunais.

NA SUA PRIMEIRA conferência de Imprensa o CDS, através do Prof. Freitas do Amaral, apresenta-se ao povo português afirmando que deseja uma distribuição melhor do rendimento do povo português.

EM MATOSINHOS termina a greve da pesca da sardinha.



REALIZA-SE no Estádio 1º de Maio uma grandiosa manifestação de apoio ao MFA e ao Governo Provisório na qual tomam parte os Partidos Comunista, Socialista e Popular Democrático.

HELENA NEVES publica no República do dia 24 um trabalho sobre os informadores da PIDE/DGS. Por ano eram gastos mais de nove mil contos com a rede de informadores. Vendiam tudo: a família, os amigos, os vizinhos, os companheiros de trabalho, a escola, o sindicato. Alimentavam a repressão e alimentavam-se dela.. Até simples casamentos eram objecto da vigilância dos informadores da PIDE. Uma denúncia valia ente 250 e 750 escudos.

A POLÍCIA JUDICIÁRIA Militar levou a tribunal um processo-crime em que é arguido o agente da ex-PIDE/DGS António Domingues acusado do assassínio do pintor e militante comunista na clandestinidade, José Dias Coelho.

ÀS 12,00 HORAS DE 27 de Julho o Presidente a República General António de Spínola anunciou perante o País que, sobre reconhecer o direito dos povos das colónias a assumirem o seu próprio destino, podendo encaminhar-se sem qualquer ambiguidade para a independência política, Portugal está pronto a iniciar o respectivo processo de transmissão de poderes.


Do discurso de António Spínola:




Legenda: Título da 1ª página do Diário de Lisboa de 27 de Julho de 1974.
Mário Soares, Magalhães Mota, Álvaro Cunhal no comício no Estádio 1º de Maio.
.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

OS IDOS DE JULHO DE 1974


15 a 21 de Julho

VERGÍLIO Ferreira no seu Conta-Corrente sobre a demissão de Adelino Palma Carlos:
O desarrói político. Palma Carlos demitiu-se. Juntaram-se-lhe os ministros PPD. Boatos de um novo ministério presidido por um militar do MFA e uma representação militar em várias pastas. Se assim for, saber-se-á enfim o que é politicamente o MFA.

NO DIA tomou passe o II governo Provisório sendo Primeiro-Ministro o Coronel Vasco Gonçalves.
No discurso de tomada de posse, a hipocrisia de António Spínola: «Limitar-me-ei portanto a destacar a reconhecida estatura moral e intelectual do coronel Vasco Gonçalves e o facto de ser o cérebro da Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas e, como tal, o primeiro responsável pelo sei ideário.»
Do discurso de Vasco Gonçalves: «Sem trabalho árduo de todos os portugueses, sem um esforço gigantesco a todos os níveis (Estado, empresários e calasses trabalhadoras), no projecto de reconstrução e modernização nacionais, que deve ser o lema instalado na cabeça de todos nós, jamais será levado a cabo o desenvolvimento do País. Simultaneamente, todos teremos de viver, durante este período, em atmosfera de austeridade, gastando menos no supérfluo e poupando quanto possível para aplicação no esforço global de investimento, que a todos, mas a todos, diz respeito.
Composição ministerial do novo governo:
Ministros Sem Pasta – Majores Vitor Alves e Melo Antunes e drs. Álvaro Cunhal e Magalhães Mota.
Ministro da Defesa – Tenente-Coronel Mário Miguel
Ministro da Coordenação Interterritorial: - Dr. António Santos
Ministro da Administração Interna - Tenente-Coronel Costa Brás
Ministro da Justiça - Dr. Salgado Zenha
Ministro da Economia - Dr. Rui Vilar
Ministro das Finanças - Dr. Silva Lopes
Ministro dos Negócios Estrangeiros – Dr. Mário Soares
Ministro do equipamento Social e Ambiente – Coronel José Augusto Fernandes
Ministro da Educação e Cultura – Prof. Vitorino Magalhães Godinho
Ministro do Trabalho – Capitão Cosa Martins
Ministro dos Assuntos Sociais – Engª Maria de Lurdes Pintasilgo
Ministro da Comunicação Social – Major Sanches Osório

O NÚNCIO APOSTÓLICO recusou-se a receber a Comissão Pró-Divórcio.

COMO NOVO PARTIDO político é constituído o CDS – Centro Democrático Social: «Somos uma organização aberta a todos os democratas do centro – quer do centro esquerda quer do centro direita – que, sinceramente identificados com o 25 de Abril, aceitem o humanismo personalista como filosofia de acção. Representamos todos os portugueses que defendem uma nova concepção da iniciativa privada, com base no aprofundamento da solidariedade nacional e da fraternidade social.
Nos seus fundadores encontram-se Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, Basílio Horta.

Legenda: tomada de posse do II Governo Provisório

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

sábado, 19 de julho de 2014

OS IDOS DE JULHO DE 1974


8 a 14 de Julho

As minas do Pejão continuam ocupadas pelos trabalhadores.

Um comunicado do Partido Socialista chama a atenção do Governo provisório e dos democratas em geral para a gravidade das situações que estão a ser criadas em todo o país com a nomeação ou a conservação em cargos de responsabilidade de pessoas ligadas à política fascista e altamente comprometidas com ela.

É anunciado que Franco se encontra gravemente doente.

A grande preocupação dos Estados Unidos neste momento é a situação em Portugal, declarou o Secretário de Estado Henry Kissinger ao jornal brasileiro Tribuna da Imprensa.

Um despacho do general Costa Gomes, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas datado de 5 de Julho gradua no posto de brigadeiro o major de artilharia Otelo Saraiva de Carvalho
No acto de posse, Otelo Saraiva de Carvalho afirmou: «que foram os jovens oficiais dos 25 aos 40 anos que derrubaram o governo anterior, salientando que «os generais apesar de toda a sua juventude não tiveram coragem de o derrubar.»

Numa entrevista à Emissora Nacional, Adelino Palma Carlos anunciou ter formulado pretensões concretas para poder continuar nas funções de primeiro-ministro:

- eleições do Presidente da República no prazo de três meses;
- referendo para a aprovação de uma Constituição Provisória como adiamento das eleições para a Assembleia Constituinte, até Novembro de 1976;
- amplos poderes ao Primeiro-Ministro.

Reunido o Conselho de Estado, houve decisão favorável à terceira pretensão, sendo as restantes rejeitadas.
 Palma Carlos disse que lhe alargaram os poderes mas «simplesmente não lhe deram o poder.» razão que o levou a pedir a demissão do cargo de primeiro-ministro.
Solidarizaram-se com ele, o ministro sem pasta Sá Carneiro, o ministro da Administração Interna Magalhães Mota, Vieira de Almeida, ministro da Coordenação Económica, Tenente-Coronel Firmino Miguel, ministro da Defesa Nacional. Todos os outros membros do governo mantiveram-se nos seus cargos.
«Saio agora para evitar ter de o fazer mais tarde, envolto num banho de sangue e de lama.»
Em 25 de Junho, numa entrevista ao Diário de Notícias, alertara: «as maiorias silenciosas têm de sair do seu comodismo ou do seu temor e de pronunciarem abertamente.»
A História regista este episódio como «Golpe Palma Carlos», mas por trás encontramos Spínola e Sá Carneiro, numa tentativa desesperada de um retorno à direita. O objectivo  consistia em consolidar o poder pessoal do Presidente da República e consequente afastamento dos ministrosde esquerda do governo.

António Spínola iniciou consultas para a escolha de novo Primeiro-Ministro. Hipóteses várias foram aventadas e chegou a dar-se como certa a escolha do tenente-coronel Firmino Miguel para Primeiro-Ministro, mas a escolha veio a recair no Coronel Vasco Gonçalves.

Adelino da Palma Carlos forma um novo partido: o Partido Social Democrata Português do qual fazem parte também Norberto Lopes, Adão e Silva, Ângelo Almeida Ribeiro, Paradela de Abreu, Jacinto Simões, Alfredo Guisado.

A crise provocada por Palma Carlos, é acompanhada em Moçambique e Angola por um surto de terrorismo branco. Consta que em Luanda o governador Silvério Marques esteve implicado num golpe de estado para a proclamação da «independência branca».

Legenda: título da 1ª página do República de 10 de Junho de 1974.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

OS IDOS DE JULHO DE 1974


 1 a 7 de Julho

O DIÁRIO POPULAR  publica um documento, assinado pelo ex-director da PIDE/DGD, major Silva Pais, em que, pelo menos três agentes devem assistir às missas de domingo, principalmente nas igrejas em que alguns padres, em acto de culto, atacam declaradamente as instituições e a política ultramarina do governo e os seus princípios morais.
Sempre que possível as homilias devem ser gravadas.
O que não se pode é assistir passivamente com simples protestos verbais, à acção dissolvente e subversiva conduzida por esses sacerdotes.

A CHINA não reconhecerá o governo português enquanto não for dada independência às colónias de África.

PARTE FINAL da coluna Feira das Vaidades de Artur Portela Filho, publicada no República de 1 de Julho:
O 25 de Abril é História.
Estes dois meses ainda não são.
Ou, se quisermos, já não são.
Porque, não contestando, ainda, ninguém a António de Spínola, a qualidade, a generosidade, a largueza, há o receio de que este homem esteja hesitando entre se o 25 de Abril é um golpe de Estado ou se é uma revolução.
O dilema é este: o 25 de Abril recusa a sua dinâmica ou não recusa.
Se recusa, no temor do temor, e procura substituir um carisma por outro carisma, aí temos a revolução bloqueada.
Se não recusa, no destemor da coerência, e procura substituir o carisma por uma lucidez, e por uma solidariedade, aí temos a revolução em marcha.
António de Spínola é extremamente importante. Há é que decidir se o 25 de Abril é mais ou menos importante do que António de Spínola.
Resta-lhe escolher um dos dois lugares que a História lhe submete – o homem que desacelerou o 25 de Abril, o homem que levou por diante o 25 de Abril.
O primeiro lugar vale um parágrafo.
O segundo vale um capítulo.
Só por isto – porque, no primeiro lugar, entra um homem, e, no segundo, entram nove milhões de homens.

CERCA de uma centena de assinaturas de trabalhadores de teatro subscreveram um texto dirigido aos ministérios do Trabalho, da Educação e da Cultura pedindo um rigoroso inquérito à acção do empresário Vasco Morgado.

A CAPITAL E O REPÚBLICA foram os primeiros jornais a sofrer sanções impostas pela Comissão «ad hoc» para a Imprensa, Rádio, TV e Cinema, tendo sido multados respectivamente, em cem e trinta contos. Os trabalhadores do República resolveram  que a multa fosse paga por eles próprios, demonstrando assim a sua discordância com a penalidade que foi imposta ao jornal.

DOCUMENTOS REVELADOS pela revista Afrique-Asie vêm provar que a UNITA colaborou com o antigo regime português para destruir o MPLA e a FNLA.

FOI ENTREGUE AO Presidente da República, por uma comissão do movimento nacional pró-divórcio, uma lista com as primeiras assinaturas de cidadãos portugueses que pretendem a imediata revogação da lei que inibe os casados canonicamente de se divorciarem.

FOI ARQUIVADO o processo da Capela do Rato.

O CRONISTA Wilf Nassey que passou duas semanas em Portugal cita divergências crescentes entre a Junta, essencialmente conservadora e a esquerda. Os conservadores em Portugal deparam com grandes dificuldades, escreve Nassey, em se organizarem para fazerem frente aos comunistas pois tudo quanto se faz à direita do centro é imediatamente anunciado como uma ressurgência do fascismo expulso pelo golpe de estado do 25 de Abril.

FOI APROVADA em Conselho de Ministros a indicação do prof. Veiga Simão, ex-ministro da Educação da ditadura, para embaixador extraordinário plenipotenciário como representante permanente de Portugal junto da Organização das Nações Unidas.
Artur Portela Filho:
A nomeação do prof. Veiga Simão como embaixador de Portugal junto das Nações Unidas não fez pestanejar os blasés da política.
Registaram-se, no entanto,pelo menos, duas perplexidades.
A de Portugal.
A das nações Unidas.
E isto porque, tendo sucedido neste país, há dois meses e meio, uma revolução, tendo este País passado da Ditadura à Democracia, é inquietante saber que a revolução não achou melhor representante do país do que um membro do Governo contra o qual se fez a revolução.
É que, de duas, uma  ou um membro do Governo contra o qual se fez a revolução é, nitidamente, o melhor representante do país, e então a revolução está em causa, ou um membro do governo contra o qual se fez a revolução não é, definitivamente, o melhor representante do País, e então o que está em causa é esta nomeação.
Se é, porquê a revolução?
Se não é, porquê a nomeação?

Legenda: O recorte do  Diário Popular é de 4 de Julho e o de A Capital é  4 de Julho.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo,
A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

quinta-feira, 26 de junho de 2014

OS IDOS DE JUNHO DE 1974


15 a 23 de Junho

NA ILHA TERCEIRA, Spínola e Richard Nixon analisaram o problema dos territórios do ex-Ultramar e da cedência da Base das Lajes.

AINDA sem solução greve dos pescadores de sardinha de Matosinhos.

CONTINUANDO o impasse na Timex os trabalhadores aventam a hipótese de vender os relógios armazenados.

O MAJOR Pedro Pires, chefe da delegação do PAIGC às conversações de Argel declarou que não houve respostas concretas da parte da delegação portuguesa.

AdAM MALIK, ministro indonésio dos Negócios estrangeiros, afirma que a Indonésia não intervirá nos assuntos de Timor.

CERCA de 35 mil trabalhadores dos CTT estão em greve.

COMEÇOU a ser discutido em Conselho de Ministros o diploma de criação da comissão «ad hoc» para controlo dos meios de comunicação social, até à publicação das novas leis especificas.
O jornal República recordava:



Num artigo «Política e Cinema Político», assinado por João Lopes e publicado na Seara Nova de Junho de 1974 citava-se Jean-Luc Godard:
É preciso começar por aprender a pôr os problemas de uma forma diferente. De outro modo, no cinema como em qualquer outra luta social, não saberemos responder senão de uma forma antiquada a questões completamente novas.

EFECTUA-SE a primeira homenagem pública a José Dias Coelho com o descerramento de uma lápide na Rua da Creche, onde em Dezembro de 1961, o pintor e escritor comunista foi assassinado por elementos da PIDE.

O PAINEL executado em 10 de Junho por 48 artistas do Movimento Democrático de Artistas Plásticos, passará a estar exposto na Galeria de Arte Moderna em Belém.

COMPLICOU-SE inesperadamente a situação na Siderurgia Nacional. Os trabalhadores aguardam um encontro com António Champalimaud.

FINAL DE UMA Carta Aberta a 200 Capitães da autoria de Artur Portela Filho e publicada no República de 17 de Junho de 1974:
Uma revolução não aparece feita, faz-se.
Uma revolução não se deixa a meio acaba-se.
Quando defendemos, u unidade entre o povo e as Forças Armadas, não estamos a apenas a defender a unidade entre o povo e a totalidade das Forças Armadas, de que a Junta de salvação Nacional é uma parte.
De resto, estamos a descobrir uma coisa enorme que é o facto de que as Forças Armadas somos nós.
A nossa força é sermos todos.
Sermos um é a nossa fraqueza.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo,
A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

sábado, 31 de maio de 2014

OS IDOS DE MAIO DE 1974

27 a 31 de Maio

NO PALÁCIO Foz um grupo representativo do Movimento Democrático de Artistas Plásticos, cobriu com um pano negro a estátua de Salazar que se encontra nos jardins do palácio. Esse gesto foi considerado como «um acto de criação artística», pois «a arte fascista faz mal à vista.»

APÓS duas semanas de greve parece iminente a falência da Fábrica de Malhas Simões de Benfica.

A CÂMARA Municipal de Mação recusou-se a pagar o dia 1 de Maio aos seus trabalhadores eventuais.

LISBOA e arredores estão sem pão. Os trabalhadores da Panificação afirmam que foram forçados à greve.

NA NAZARÉ os pescadores continuam a lutar em terra pelo pão. A situação arrasta-se desde o dia 12 do corrente mês e ainda não foram revistos os respectivos acordos de trabalho.

ANTÓNIO Spínola ao chegar ao Porto e falando á multidão que o aguardava: «as ideias democráticas e de liberdade estão sendo criminosamente minadas por forças que visam a destruição e a anarquia.»

DADA a campanha de pressão e intimidação levada a cabo por alguns postos de abastecimento de gasolina e gasóleo do distrito de Lisboa, o Ministério da Coordenação Económica esclarece que se tal for necessário os postos de gasolina serão controlados pelas autoridades militares.

 OS TRABALHADORES da empresa da Companhia das Águas de Lisboa deliberaram apresentar como exigência a reivindicação a nacionalização imediata daquela companhia e requerer um rigoroso inquérito aos actos da administração.

SEGUNDO informação das Forças Armadas ainda não se entregaram às autoridades oito elementos da extinta PIDE/DGS.

SILVA PAIS continua a dizer que desconhecia os processos usados pela PIDE e apenas cumpria ordens.

FIXADA em 1.600$00 a pensão mínima de invalidez. Abono de família passa a 240$00
Reajustado o pré dos praças (de 30$00 para 250$00).

FORAM empossados, pelo Presidente da República, os membros do Conselho de Estado:


Do discurso, pronunciado por Spínola, no acto de posse dos conselheiros de Estado: «É tempo de cada português saber distinguir entre programas políticos e amontoados de bem orquestrados slogans demagógicos».

A INTERSINDICAL divulga um comunicado onde constata com apreensão a acção desordenada e anárquica de certos elementos oportunistas e reaccionários que tentam arrastar os trabalhadores através de greves que no momento presente não servem os interesses dos trabalhadores.

ANTÓNIO Spínola em Coimbra, falando à multidão que o aguardava: «para reivindicar é preciso primeiro edificar» e «não se poderá distribuir riqueza sem a produzir».

COMEÇOU a publicar-se o jornal Revolução porta-voz do Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias.

DE A FUNDA de Artur Portela Filho:
Estão os católicos portugueses dispostos a permitir que a Igreja portuguesa passe, de paramentos e bagagens, pressurosa, subtil, intacta, da Ditadura para a Democracia?
Estão os católicos portugueses dispostos a permitir que a hierarquia da igreja portuguesa salte, do barco que se afunda, para o barco que zarpa, sem molhar, sequer, a ponta da sotaina?
Estão os católicos portugueses dispostos a permitir que todos quanto diziam, no dia 24 de Abril, que o sr. Bispo do Porto e o sr. Bispo de Nampula eram as ovelhas negras de um rebanho branco digam, no dia 26 de Abril, que o rebanho sempre foi todo, mas todo, negro?
Nem todos os católicos estão
Dispostos a.
Permitir.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Maio de 74 Dia a Dia, Edição de Teorema e Abril em Maio, Lisboa, Maio de 2001, Portugal Hoje edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

sexta-feira, 23 de maio de 2014

OS IDOS DE MAIO DE 1974


13 a 19 de Maio

NUMA declaração do Comité Executivo da FRELIMO, pode ler-se: «o inimigo do povo moçambicano não é o povo português, é o próprio regime fascista, o sistema colonial português.»

PORTUGUESES cegos reunidos em assembleia em Lisboa enviam à Junta de Salvação Nacional uma moção onde se destaca os seguintes pontos: recenseamento nacional dos cegos e respectiva situação socio-económica, desenvolvimento da profilaxia da cegueira, integração dos cegos e legislação visando a admissão dos cegos aptos nas empresas públicas e privadas.

EM FÁTIMA, o cardeal patriarca de Lisboa D. António Ribeiro formulou votos de paz, de justiça e de liberdade entre os homens: «Esta é a hora de os cristãos se empenharem a valer».

DEPOIMENTO de um grupo de padres da Beira Baixa: «os bispos são os principais responsáveis pelo silêncio sobre os grandes problemas das guerras coloniais e violação das liberdades fundamentais; crítica aos partidos que se dizem cristãos e acolhem membros do antigo regime.»

CERCA de seis mil motoristas de táxis de Lisboa aprovaram as seguintes reivindicações: oito horas de trabalho diário; salário mensal de seis contos; e que se deixe de usar boné.

O TIMES publica um editorial com o título «Portugal está a perder o domínio da situação em África».

NO DIA 15 na Sala dos Espelhos no Palácio de Queluz, o general Spínola assume as funções de Presidente da República.

AO 7º DIA de greve a Timex ainda não aceitou reunir com os trabalhadores.

AO CABO de 47 amos de exílio, chega a Lisboa o capitão Sarmento Pimentel.

CERCA DE 3000 operários da empresa J. Pimenta, SARL, continuam em greve.

A SECRETARIA de Estado da Informação e Turismo informa que funcionários seus estão a proceder à entrega dos volumes armazenados no Pendão, em Queluz, de livros apreendidos aos editores e livreiros que os reclamem.

A LIVRARIA Opinião expõe autos de apreensão e verbetes da PIDE para obras proibidas pela ditadura.

A COMISSÃO de Cultura e Espectáculos da Junta de Salvação Nacional, divulgou um comunicado, no qual faz o seu veto aos filmes pornográficos, invocando para tal que estes não respeitam o ponto 2,1) do Programa do MFA que acentua a necessidade de evitar perturbações na opinião pública causadas por agressões ideológicas dos meios reaccionários.

A CONSTITUIÇÃO do I Governo Provisório foi anunciada no dia 15, à noite, no decorrer de uma conferência de Imprensa.


O NOVO Conselho de Ministros reúne em S. Bento no dia 17. A primeira reunião demorou cerca de 3 horas.
Adelino Palma Carlos: «Fomos agora chamados a tentar remediar erros que não cometemos e que não podíamos sequer apontar».

SEGUNDO Palma Inácio a LUAR abandona os métodos violentos e vai prosseguir como organização política.

SÉRGIO Godinho actua pela primeira vez em Portugal.

OS EMPREGADOS da empresa Eduardo Jorge continuam sem cobrar bilhetes aos passageiros enquanto a administração se mantiver silenciosa no que respeita às reivindicações salariais.

OS TRABALHADORES da Sociedade Estoril, concessionária da linha ferroviária Lisboa-cascais, mantém a decisão de não vender bilhetes em virtude de ainda não haver uma resposta do conselho de administração.

A ADMINISTRAÇÃO da CUF não consente na proposta de saneamento feita pelos trabalhadores daquela empresa.

MANTÉM-SE o desacordo entre a administração da Lisnave e os seus cerca de 8000 trabalhadores.

DISSOLUÇÃO da Polícia de Choque. Os seus elementos são transferidos para os comandos distritais da PSP.




FORAM suspensos onze associados do Sindicato dos Profissionais de Escritório de Lisboa dado que se verificou a sua ligação aos agentes da PIDE a quem lhes facultavam todas as informações pedidas. Foi ainda despedido o empregado Luís Oliveira Santos por haver provas escritas de ter denunciado à PIDE sócios deste sindicato.

CATARINA Eufémia, símbolo da resistência ao fascismo foi evocada na aldeia de Baleizão, passados que são 20 anos sobre a sua morte.

DE UMA FUNDA, crónica de Artur Portela Filho:
O Partido Comunista é uma estrutura.
O Partido Socialista Português é um élan.
O Partido Comumista está no País.
O Partido Socialista Português está em Lisboa.
Álvaro Cunhal incitou as células a abrir delegações em todos os pontos-chave do território.
Mário Soares foi conferenciar com Wilson, com Brandt, com Miterrand.
Duas maneiras. Duas vocações. Dois resultados prováveis.
Como se comportarão estas duas maneiras, estas duas vocações, a inevitabilidade táctica, e moral, que é a Unidade?

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Maio de 74 Dia a Dia, Edição de Teorema e Abril em Maio, Lisboa, Maio de 2001, Portugal Hoje edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, 

Legenda: fotografia da tomada de posse do I Governo Provisório tirada do Portugal Hoje.
Recorte sobre a Polícia de Choque do República de 13 de Maio de 1974. A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa