Mostrar mensagens com a etiqueta Antonio Skármeta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Antonio Skármeta. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 11 de maio de 2018

UM FATO QUE ME FICA DEMASIADO LARGO


«Queria mandar-te mais alguma coisa além das palavras. Por isso meti a minha voz nesta gaiola que canta. Uma gaiola que é um pássaro. Ofereço-ta. Mas também quero pedir-te uma coisa, Mario, que só tu podes fazer. Os outros meus amigos todos ou não saberiam o que fazer, ou pensariam que sou um velho gagá e ridículo. Quero que vás com este gravador passear pela Ilha Negra, e me graves todos os sons e ruídos que fores encontrando. Preciso desesperadamente nem que seja do fantasma da minha casa. A minha saúde não anda bem. Falta-me o mar. Faltam-me os pássaros. Manda-me os sons da minha casa. Vai ao jardim e deixa tocar os sinos. Primeiro grava esse repicar fininho dos sininhos pequenos quando os agita o vento, e a seguir puxa a corda do sino maior, cinco, seis vezes, Sinos, meus sinos! Não há nada que soe tanto como a palavra sino, se a ouvimos de um campanário junto ao mar. E vai até às rochas e grava-me a rebentação das ondas. E se ouvires gaivotas, grava-as. Paris é bonita, mas é um fato que me fica demasiado largo. Além disso aqui é Inverno, e o vento revolve a neve como um moinho de farinha. A neve sobe e sobe, trepa-me pela acima. Faz de mim um triste rei com a sua túnica branca. Já chega à minha boca, já me tapa os lábios, já não me saem as palavras».
«E para que conheças alguma coisa da música de França, mando-te uma gravação do ano de 1938 que encontrei esquecida numa loja de discos usados do Bairro latino. Quantas vezes a cantei quando jovem? Sempre quis tê-la e nunca consegui. Chama-se J’attendrai, canta-a Rita Ketty, e a letra diz: «Esperarei dia e noite, esperarei sempre que regresses.»

Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


A poesia não é de quem a escreve, mas sim de quem a usa.

Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

AS PALAVRAS SÃO UM CHEQUE SEM COBERTURA


A mãe pôs-se de pé e cruzou diante do peito as palmas das mãos, horizontais como as lâminas de uma guilhotina.
- Filhinha, não me conte mais nada. Estamos perante um caso muito perigosos. Todos os homens que primeiro tocam com a palavra, depois chegam mais longe com as mãos.
- Que mal têm as palavras! – disse Beatriz abraçando-se à almofada.
- Não há pior droga que o blá-blá. Faz uma taberneira de aldeia sentir-se como uma princesa veneziana. E depois, quando chega a hora da verdade, o regresso à realidade, repara que as palavras são um cheque sem cobertura. Prefiro mil vezes que um bêbedo te apalpe o cu no bar, a que te digam que um sorriso teu voa mais alto que uma mariposa!

Antonio Skármeta em OCarteiro de Pablo Neruda

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

COMO UM BARCO BALOUÇANDO NAS SUAS PALAVRAS


- E para pensar ficas sentado? Se queres ser poeta começa por pensar caminhando. Ou és como o John Wayne, que não conseguia andar a mascar chicletes ao mesmo tempo? Agora vais até à Calheta pela praia, e enquanto observas o movimento do mar, podes ir inventando metáforas.
- Dê-me um exemplo.
- Olha este poema: “Aqui na ilha, o mar, e quanto mar. Sai de si mesmo, a cada instante. Diz que sim, que não, que não. Diz que sim, em azul, em espuma, em galope. Diz que não, que não. Não pode estar quieto. Chamo-me mar, repete pegando numa pedra sem conseguir convencê-la. Então com sete línguas verdes, de sete tigres verdes, de sete cães verdes, de sete mares verdes, percorre-a, beijando-a , humedece-a, e bate no peito repetindo o seu nome” – Fez uma pausa satisfeito - O que achas?
- Estranho.
- “Estranho” Que crítico severo és tu!
- Não, Don Pablo. Estranho não é o poema. Estranho é como me sinto quando recitou o poema.
- Querido Mário, vamos a ver se te despachas um pouco, porque não posso passar a manhã toda a desfrutar da tua conversa.
- Como se pode explicar? Enquanto dizia o poema as palavras iam de cá para lá…
- Como o mar, claro!
- Isso é o ritmo.
- E eu senti-me estranho, porque com tanto movimento enjoei.
- Enjoaste?
- Claro! Eu ia como um barco balançando nas suas palavras.
As pálpebras do poeta despegaram-se lentamente.
- “Como um barco balançando nas minhas palavras.”
- Claro!
Sabes o que fizeste Mário?
- O que foi?
- Uma metáfora.

Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Carteiro de Pablo Neruda

Antonio Skármeta
Tradução: José Colaço Barreiros
Capa: Fernando Mateus
Colecção estórias nº 81
Editorial Teorema, Lisboa s/d

O que não conseguiu o Oceano Pacífico com a sua paciência semelhante à eternidade, conseguiu-o o simples e doce posto dos correios de San Antonio: Mario Jimenez não só se levantava de madrugada, assobiando e com um nariz fluído e atlético, como se lançou com tanta pontualidade no seu ofício que o velho funcionário Cosme lhe confiou a chave do local, no caso de alguma vez se decidir a levar a cabo uma façanha desde há muito sonhada: ficar a dormir de manhã até tõ tarde que já fosse hora da sesta e dormir uma sesta tão grande que já fosse horas de deitar, e ao deitar-se dormir tão bem e com um sono tão profundo que no dia seguinte sentisse pela primeira vez essa vontade de trabalhar que Mario irradiava e que Cosme meticulosamente ignorava.

domingo, 27 de novembro de 2011

MATINÉ DAS 3



O Carteiro de Pablo Neruda
Realização: Michael Radford (1994)

Com: Massimo Troisi, Philippe Noiret, Beatrice Russo

O filme esteve quase um ano em exibição no Cinema Mundial.Há a história de uma idosa que ia ver o filme quase todos os dias.
No Mundial vi-o duas vezes e volta e meia revejo-o e acabo sempre de lágrima ao canto do olho.
De uma deliciosa ternura.
Massimo Troisi, o carteiro, adiou uma intervenção cirúrgica para poder finalizar o filme.
Pouco depois de terminadas as filmagens, um ataque cardíaco fulminou-o.