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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

UM SINAL DE LUZ


De volta a Barcelona, tropecei acidentalmente num conto de Tabucchi, El pequeño Gatsby: «O vento abanava as cortinas, tu dormias, o farol lançava raios intermináveis, a noite estava agradável, quase tropical, mas eu chegaria em breve ao meu farol, sentia-o, estava perto, bastava esperar que a noite me mandasse um sinal de luz, não deixaria fugir essa oportunidade, não atormentaria a minha velhice censurando-me por não ter ido ao farol.»

Enrique Vila-Matas em Diário Volúivel

terça-feira, 30 de outubro de 2018

OS AÇORES ESTÃO DESERTOS


A Capitania está fechada, mas o senhor Chaves recebe-me igualmente. É um homem distinto e amável, com um sorrisos aberto e ligeiramente irónico, os olhos de algum antepassado flamengo. Já não há quase nenhum, diz-me creio que não será fácil encontrar um embarque. Pergunto se se está a referir aos cachalotes, e ele ri-se divertido. Não, referia-me aos baleeiros, especifica, emigraram todos para a América, todos os açoreanos emigram para a América, os Açores estão desertos, não viu? Sim claro, apercebi-me disso, digo, lamento muito. Porquê?, pergunta ele? É uma pergunta embaraçosa. Porque gosto dos Açores, respondo com pouca lógica. Então gostará mais deles desertos, objecta.

Antonio Tabucchi em Mulher de Porto Pim

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

PETER'S BAR


«Peter’s Bar» é um café do porto da Horta, perto do clube náutico. É um misto de taberna, o ponto de encontro, uma agência de informações e uma estação de correios. É frequentado pelos caçadores de baleias, mas também pela gente dos barcos que fazem a travessia atlântica ou outros percursos mais longos. E como os navegantes sabem que o Faial é um ponto de apoio obrigatório e que todos passam por aqui, o «Peter’s Bar» tornou-se o destinatário de mensagens precárias e de sorte incerta que, de outro modo, não teriam outro destino. No balcão de madeira do «Peter’s» estão colados bilhetes, telegramas, cartas à espera de alguém que venham busca-las.

Antonio Tabucchi em Mulher de Porto Pim

domingo, 30 de setembro de 2018

PARA ONDE O VENTO ME LEVAR


Para os navegantes que param na Horta é norma deixar no paredão do molhe um desenho, um nome, uma data, É um muro com uns cem metros de comprimento, onde se sobrepõem desenhos de barcos, cores de bandeiras, números, frases. Refiro uma entre muitas: Nat, de Brisbana. Vou para onde o vento me levar.

Antonio Tabucchi em Mulher de Porto Pim

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

RELACIONADOS



No Prólogo que escreveu para Mulher de Porto Pim,Tabucchi explica o Post Scritum, uma baleia vê os homens, com que finaliza o livro e que colocámos como citação em Olhar as Capas:

«… o texto intitulado Uma baleia vê os homens, além do meu velho vício de espiar as coisas do outro lado, inspira-se sem dissimulação num poema de Carlos Drummond de Andrade, que, primeiro e melhor do que eu, soube ver os homens através dos olhos dolorosos de um lento animal. E a Drummond de Andrade é humildemente dedicado esse texto, também como recordação de uma tarde em Ipanema em que, em casa de Plínio Doyle, ele me falou da sua influência e do comete de Halley.»

O escritor catalão Enrique Vila-Matas disse sobre este interessantíssimo livro de Tabucchi:

«Toda a vida escrevi sobre a Mulher de Porto Pim, livro de cabeceira e artefacto literário que contemplo como se fosse um Moby Dick em miniatura. As suas menos de cem páginas são um bom exemplo de «livro de fronteira», um mecanismo feito de contos breves, fragmentos de memórias, diários de viagens metafísicas, notas pessoais, biografia e suicídio de Antero de Quental, fragmentos de uma história ouvida na coberta de um barco, mapas, bibliografia, bizarros textos jurídicos, canções de amor: elementos que à primeira vista não têm nada a ver entre si, sobretudo com a literatura, mas que Antonio Tabucchi transformou em ficção pura. Um livro memorável.»

Legenda: Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

QUOTIDIANOS


Para Pessoa seria impossível imaginar uma morte mais perfeita, mais em pontas dos pés. Ele foi internado de urgência num hospital, ficou um dia, e no dia seguinte morreu. Na ficha clínica não consta uma razão da morte que seja elucidativa, porque uma crise hepática não quer dizer nada, qualquer pessoa pode ter uma e não morrer.

Antonio Tabucchi no Expresso, 4 de Junho de 1988

Legenda: Fernando Pessoa por Costa Pinheiro

terça-feira, 29 de setembro de 2015

QUE LHE PARECE?


Antonio Tabucchi, que assina o prefácio da edição francesa de The Fragments, escreve que no interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de suspeita.

Na  Autobiografia de Marilyn Monroe, Rafael Reig cita:

Sim, lei muito. Toda a gente está convencida de que sou praticamente analfabeta. A loura burra que eu, aqui entre nós, nem sequer seja totalmente loura. De gve ser por causa das minhas mamas. Como são muito volumosas, devem julgar que tampam metade do livro e que, por isso, não consigo compreender nada do que elio. Não sei, mas a verdade é que leio muito. De tudo, seja o que for: romances, poesia, filosofia, de tudo.
Leio até os folhetos dos medicamentos. Passo as noites quase sempre acordada a ler. A ler ou a flar ao telefone. Também gosto de falar ao telefone. É porque me custa muito a adormecer. Mas, claro, isso está você farto de saber. É por isso que estou aqui. Passei a vida a tentar conciliar o sono. Esse poderia ser um bom epitáfio para a minha sepultura. Mas já escolhi outro. Quero que ponham apenas isto:
«Aqui jazz Marilyn Monroe 95-58-91.»
Que lhe parece?

quinta-feira, 5 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Tomai Lá do O’Neill

Alexandre O’Neill
Selecção, prefácio: Antonio Tabucchi
Fotografias: Alexandre Delgado O’Neill
Capa: Luiz Duran
Círculo de Leitores, Lisboa, Dezembro de 1986

A minha amiga alentejana tem uma grande alegria. Natural? Acho que não. A sua grande alegria foi ter deixado de viver no Alentejo. Lá, o que era ela, afinal? Uma grande ansiedade nos fundões dos olhos, mãe à perna, aspirante de Finanças a prometer, o idiota, frigorífico e alta-fidelidade, irmã casada, bebé sobrinho todo ringidos, fogagens e refegos, cunhado a atrever-se, paternal.
Agora passeia para mim pela casa toda. Descobriu a minissaia. Descobri a açorda à alentejana. Na capital dos trânsfugas, um quarentão e uma rapariga, contam, a dedo, os barcos que há no rio, vão ver a açorda que está ao lume (brando?), passam rasteiras um ao outro, estatelam-se, riem como desalmados que são, não atendem o telefone («Não vás, pode ser o mêc'cunhado!»), bebem tinto com cerveja, rijo bagaço a seco, lacrimejam, engasgam-se, dão palmadas de gáudio nas coxas, atrapalham-se no sempiterno tango de 75: Ese tu corazón pan-pan de gorrión pan-pan senti-mental vlan-vlan! Que grandes maganos!
A minha amiga alentejana, de minissaia, passeia pelas ruas dos trânsfugas em fuga. Esfrega-se pelas montras, malsetém nas pernas. Dá brincos. Vai e vem. Encosta-se ao meu ombro protector. Que amor!
De repente, o bom costume:
- Miguinho, não te esqueceste de fechar o gás? A minha amiga alentejana é a grande ternura que lhe tenho! Pode lá resistir-se a quem andou no varejo da azeitona e agora estende a mão senhoril aos velhos lambuzeiros de porta de livraria malcontendo o riso! Que o cunhado experimente vir buscar-ma já de olho nas pensões da Praça da Figueira! Que o aspirante rechine em missivas de alta fidelidade! Que a mãe perfile o seu luto severo nos umbrais! Que o bebé sobrinho se escame todo! Que a irmã empine a sua nova prenhez! Ninguém pode tirar-me a minha amiga alentejana, este meu acordar do lado da alegria, este delicioso desconchavo quotidiano em que abandalhei (e salvei!) os meus quarenta, esta minha (já póstuma!) elegia.


sábado, 5 de julho de 2014

POSTAIS SEM SELO


Os fins de tarde eram lentos, arrastados, ensanguentados por pores de sol magníficos. Seguiam-se noites quentes e lânguidas, ritmadas pelo soluço verde do farol do outro lado do golfo. Eu ficava à janela.

Antonio Tabucchi em O Pequeno Gatsby, conto incluído em O Jogo do Reverso, Quetzal Editores, Lisboa Abril de 1999.

Legenda:  pintura de Edward Hopper.

domingo, 27 de outubro de 2013

O LATEJAR DE COMBOIOS DA INFÂNCIA

Desta maneira, isolados a sós ou em companhia, os heróis que aqui leio aparecem-me povoados de sinais e andamentos, do latejar de comboios de infância e das luzes dos portos nocturnos.

José Cardoso Pires no prefácio a O Jogo do Reverso de Antonio Tabucchi

Legenda: fotografia de Elliott Erwitt

sexta-feira, 21 de junho de 2013

POSTAIS SEM SELO


Quando chegou a casa eram quase sete horas. Tinha-se demorado um bom bocado no Terreiro do Paço, sentado num banco, a olhar os cacilheiros que iam para a outra margem do Tejo. Estava um belo fim de tarde, e Pereira quis ficar a gozá-lo. Acendeu um charuto e aspirou o fumo avidamente. Estava sentado num banco em frente ao rio e junto dele veio sentar-se um mendigo com um acordeão que começou a tocar velhas canções de Coimbra.

Antonio Tabucchi em Afirma Pereira, Quetzal Editores, Lisboa 1995.

Legenda: fotografia de Gérard Castello Lopes.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

Fala também na morte, algo que está presente na sua obra. O que aprendeu sobre ela, neste livro, Tristão Morre, ao vestir a pela de alguém a 30 dias de morrer?

Respondeu:

Este livro aproximou-me muito da ideia da morte. É uma das maiores desgraças que pairam sobre o mundo moderno. As pessoas que estão no poder, sobretudo, devem pensar que nunca vão morrer. É por essa razão que são tão estúpidas. A modernidade elidiu a ideia da morte. É uma omissão incrível. Deveria ensinar-se aos miúdos, na escola, da maneira mais natural, que temos de morrer. Mas a nossa sociedade escondeu totalmente a ideia da morte. Em compensação, porém, estamos cheios de cadáveres. É só abrir a televisão. Como pode funcionar bem uma sociedade em que há muitos cadáveres mas não há a ideia da morte?

Antonio Tabucchi, entrevista concedida a  Adelino Gomes e publicada no Público.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

À LUPA


Descobri-o no fim. Descobri-o nas palavras dos outros. Nos títulos que os outros diziam que ele tinha escrito. Nas palavras dos que confessavam o seu amor pelas palavras dele. Por ele. Descobri-o melhor num texto. Escrito noutra língua por outro autor que, entretanto, eu já tinha descoberto. Foi através das suas frases - que tive o privilégio de traduzir para a minha língua - que ele começou a chegar. O seu nome já me tinha acenado. Já o vira, já quase o lera, mas por uma razão ou por outra, a página não se virara.
Comecei com Noturno Indiano. Lido num só dia. Numas horas em que não houve lugar para mais nada, a não ser acompanhar aquele homem que percorre a Índia em busca de um amigo, de si, dos hotéis e dos passos, do passado, do futuro, dos encontros, dos sonhos, de quartos cheios de histórias (e de horas). Um homem que eu descobri. Mesmo que tarde. Neste momento leio Requiem, e deixo-me encantar por mais uma viagem interior, a única escrita diretamente em português. Afirma Pereira chegará a seguir. Já o tenho. Depois quero descobrir A Mulher de Porto Pim. O quarto dos tantos livros possíveis que Antonio Sarabia destacou naquele texto que eu li, que me cativou, e que me parece já tão longínquo. Percorri livrarias, alfarrabistas, nada. Diz-me um amigo que a reedição está para breve. Espero, sinceramente, que sim. Antes que seja tarde.
Francisca Cunha Rego no JL

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

CINEMATECA: ANTEVISÃO DE SETEMBRO


A programação volta cheia de sessões fortes em Setembro, com uma retrospectiva da fundamental obra do brasileiro Glauber Rocha, um Ciclo dedicado à luminosidade de Marilyn Monroe, a evocação no cinema da obra literária de Antonio Tabucchi (em sessões apresentadas por Inês Pedrosa, António Mega Ferreira, Jorge Silva Melo, Clelia Bettini e Augusto M. Seabra), o cinema experimental de Stephen Dwoskin e o assinalar de duas décadas de trabalho do festival Curtas Vila do Conde (com filmes de José Miguel Ribeiro, João Nicolau, Miguel Gomes, Basil da Cunha, Matthias Muller, Christoph Girardet, Sandro Aguilar, Daniele Cipri e Franco Maresco, João Salaviza e Norberto Lobo, Gabriel Abrantes).

Na reabertura, a sessão especial das 21h30 do dia 1 propõe “The Big Parade” de King Vidor com acompanhamento ao piano por Gabriel Thibaudeau. A primeira matiné do mês, às 15h30 de dia 3, decorre sob o signo do verão de Bergman com “Sommarlek”. Entre as muitas propostas dos programas “Primeiro Século do Cinema” dos sábados, destacam-se as exibições da cópia restaurada do título italiano “La Moglie di Claudio” realizado em 1918 por Gero Zambuto (no dia 15); “Face” e “The Velvet Underground in Boston” de Andy Warhol (também a 15); ou o raro título soviético de 1948 “Skazanie o Zemlie Sibirskoi / O Canto da Terra Siberiana”, de Ivan Pyriev (programado para dia 29).

Seis sessões evocam “In Memoriam” as atrizes Celeste Holm e Isuzu Yamada, o ator Ernest Borgnine, Chris Marker e Gore Vidal. A “Abrir os Cofres”, Paulo Filipe Monteiro apresentará “A Mãe” e “A Sagrada Família” e “A Comédia de Deus”, de João César Monteiro, nas sessões das 19h de 11 e 13 de setembro. A comédia britânica “The Man in the White Suit” (Alexander Mackendrick, 1951) é projetada às 21h30 de dia 19 antecedida de uma apresentação de Alberto do Nascimento Regueira no contexto do programa “Não O Levarás Contigo – Economia e Cinema”.

 As “Histórias do Cinema” são em setembro protagonizadas por João Mário Grilo, que escolheu e apresentará cinco sessões à volta de um tema, “Cinegeografias”, a decorrer na última semana do mês.

terça-feira, 15 de maio de 2012

CARLOS FUENTES (1928-2012)


Aos 83 anos, morreu hoje na Cidade do México o escritor mexicano Carlos Fuentes.

Nos últimos dias a morte tem invadido os corredores da casa, e levado quem tanto  nos ajudou a olhar a vida, a olhar as gentes, a olhar o mundo: Antonio Tabucchi, Fernando Lopes, Miguel Portas Bernardo Sassetti, agora Carlos Fuentes.

É de arrepiar.

O impacto dos seus primeiros romances -projetaram-no como um dos principais actores da literatura latino-americana.
À semelhança de outros intelectuais seus contemporâneos, de Gabriel García Márquez a Mario Vargas Llosa ou Julio Cortázar, Fuentes nunca pôs de lado o compromisso político e social.

Carlos Fuentes foi o mais ‘infeliz’ dos três grandes nomes do 'boom' da literatura latino-americana: Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e ele”,
diz Manuel Alberto Valente, seu editor em Portugal.

Só que os outros dois ganharam o Prémio Nobel. Do Fuentes falava-se sempre que podia ser um candidato ao Nobel mas infelizmente não o teve. Manuel Valente lembra que, também em termos de vendas, foi sempre um autor menos lido do que os outros, Márquez e Llosa. “Pelo menos em Portugal nunca teve um grande sucesso de público. Mas é um autor extremamente importante e o facto de ter tido sempre menos sucesso que os outros dois pode explicar-se por ser o mais político dos três. A obra dele é muito o espelho do México e das suas vicissitudes políticas. É um autor muito marcado ideologicamente e isso talvez tenha contribuído para que não tenha sido um autor tão popular. Mas é indiscutivelmente um dos grandes nomes da literatura latino-americana e da literatura mundial.Em 1955, fundou com Octávio Paz e Emmanuel Carballo, a Revista Mexicana de Literatura. Era um homem de esquerda, membro do Partido Comunista, próximo de Fidel Castro antes de se afastar depois da prisão (1971) do poeta cubano Ernesto Padilla.

Num ensaio da revista Tiempo Mexicano, de 1972, escreveu: O que um escritor pode fazer politicamente deve fazê-lo também como cidadão. Num país como o nosso, o escritor, o intelectual, não pode alhear-se da luta pela mudança política que, em última instância, supõe também uma transformação cultural.

Fonte: jornal Público.

segunda-feira, 26 de março de 2012

POSTAIS SEM SELO


Debaixo da amendoeira da tua amiga,
Quando a primeira lua de Agosto
Se levantar em cima da casa,
Poderás sonhar, se os deuses sorrirem,
Sonhos de um outro.

Antiga canção chinesa

Epígrafe colocada por Antonio Tabucchi em Sonhos de Sonhos.

Legenda: quadro de Van Gogh

domingo, 25 de março de 2012

ANTONIO TABUCCHI (1943-2012)


O escritor italiano Antonio Tabucchi morreu de cancro, em Lisboa, aos 68 anos. Tabucchi tinha uma longa ligação com Portugal e era considerado um dos nomes maiores da literatura europeia.

Há uma série de motivos que nos podem levar a comprar livros: o autor em si, as capas, um começo, um final, tantas outras, também um título.

Sempre pensei que gostaria de visitar os Açores. Como tantos outros destinos, está arrumado no baú do que há a fazer um dia.

Não conhecia António Tabucchi, um dia, percorrendo livros nos escaparates de livraria encontrei Mulher de Porto Pim.

Fala dos Açores e começa assim:

Tenho uma grande afeição pelos honestos livros de viagens e deles fui sempre um assíduo leitor. Têm a virtude de oferecer um alhures teórico e plausível ao nosso onde imprescindível e maciço. Mas uma elementar lealdade obriga-me a pôr de sobreaviso quem porventura esperasse deste livrinho um diário de viagens, género que pressupõe tempestividade de escrita ou uma memória impermeável à imaginação que a memória produz – qualidade que devido a um parodoxal sentido do real desisti de perseguir. Tendo chegado a uma idade em que me parece mais digno cultivar ilusões do que veleidades, resignei-me ao fado de escrever segundo a minha índole.

Foi a partir daqui que passei a outros livros de Tabucchi.

Gosto de Sonhos de Sonhos e já por aqui andaram citações suas.

Grande admirador e conhecedor de Fernando Pessoa, era amigo íntimo de Alexandre O’ Neill, de quem foi testemunha do seu casamento com Maria Teresa Pinto Basto Gouveia., José Cardos Pires e o realizador Fernando Lopes.

Maria José Oliveira conta, em Alexandre O’Neill – Uma Biografia Literária, o modo como se conheceram:

Provavelmente um pouco antes desta viagem travou conhecimento com um jovem estudante recém-chegado a Lisboa, António Tabucchi, que viria a ser seu amigo chegado, e tradutor da sua poesia. Tabucchi preparava uma tese sobre a poesia surrealista portuguesa e trazia uma carta de apresentação para O’Neill. Foi então visitá-lo e encontrou-o a meio de um jantar, para o qual foi imediatamente convidado: “Queres comer sardinhas decapitadas?”

Nunca percebi muito bem como, mas travou-se de razões com José Saramago.
Pode ser que, por um destes dias, traga o assunto até ao Saramaguando, se bem que o que tenho em dossier não seja muito e o saber quem teve, ou não teve, razão, não fica muito claro.

De uma entrevista ao Público:

Está reformado. Sente-se com mais tempo?

Gosto muito de perder tempo. Acho que é um grande privilégio.

Como é que perde tempo em Lisboa?

Olhando para as coisas, para as pessoas na rua, para a paisagem. A pessoa fica a pensar, a aprender coisas, observa. Pelo gosto de ver, de apanhar a vida alheia, ou de a imaginar. Gosto muito de passar pelo jardim do Príncipe Real, de tomar um cafezinho, de ouvir as conversas dos outros.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

FREQUENTADO POR ARTISTAS


Desceu na praça e pensou em tomar qualquer coisa no British Bar do Cais do Sodré. Sabia que era um lugar frequentado por artistas e contava encontrar lá algum. Entrou e sentou-se numa mesa do canto. Na mesa vizinha, realmente, estava o romancista Aquilino Ribeiro a almoçar com Bernardo Marques, o desenhador de vanguarda, que tinha ilustrado as melhores revistas do Modernismo português. Pereira deu-lhes os bons dias e os artistas responderam com um aceno de cabeça.

Antonio Tabucchi em Afirma Pereira, Quetzal Editores, Lisboa 1995

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

OLHAR AS CAPAS


Lisboa Livro de Bordo

José Cardoso Pires
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote/Expo 98, Lisboa, 1997

A última Vista da Cidade será uma cortina de gaivotas enfurecidas a levantarem‑se entre mim e o Tejo.

Na altura estarei, ou estou ainda, sentado num café‑snack do Terreiro do Paço junto ao cais dos cacilheiros, com uma larga vidraça a separar‑me do rio. Café Atinel, que nome mais estúpido. Olho as mesas vazias e pergunto‑me por que razão é que um sítio assim, tão privilegiado, consegue estar desconhecido. Por mim não quero outra coisa: barcos que chegam, barcos que partem, gente de entrar e sair a servir‑se ao balcão, e eu sentado em cima do Tejo.

Tal como estou tenho a cidade pelas costas. Comércio, multidão, Europa, fica tudo para trás. Lá as pessoas andam todas a perguntar as horas umas às outras, enquanto que neste reduto para aqui esquecido sabe‑se do correr do dia pelo mudar da cor do Tejo, e não me digam que não é uma felicidade estar‑se assim, à mesa sobre as águas, com gaivotas a saírem‑nos de baixo dos pés e a passarem‑nos a dois palmos dos olhos num bailado de gritaria.

Tempo bom, o desta solidão. Tempo melhor ainda, lembram os eméritos de biblioteca num ulissiponês de fazer inveja, quando se via a olho a nu o Promontório da Lua por toda essa costa além. Tempo, dizem, em que nas margens da Outra Banda havia areias que escorriam ouro (Marco Terêncio fala disso) e pastagens celestes onde as éguas emprenhavam pelo vento. Tempo de poeiras luminosas e lágrimas lunares. E de pérolas. E de tritões. Tritões cantadores como aquele que consta da Descrição da Cidade de Lisboa de Damião de Góis.

"Noutros tempos, longos tempos, havia em Lisboa uma sereia..." Conheço uns versos de Robert Desnos que começam desta maneira mas é melhor ficar por aqui porque o Tejo não é de fábula nem de poema e corre sem nostalgias. E Lisboa a mesma coisa, disso podemos estar nós bem seguros. Só que, com o saber dos séculos e os sinais de muito mundo que a perfazem, sugere várias leituras, e daí que a cada visitante sua Lisboa, como tantas vezes se ouve dizer.

Daí também que nós, os que somos dela, lhe estejamos tão errantes na paixão. Um dia pode acontecer que, sentados como agora sobre o rio, a tentemos ler pela voz dos outros e então ainda nos sentiremos mais errantes, mais incertos. Entre uma Lisboa de Tirso de Molina, saudada como a “oitava maravilha”, e a Lisboa de Fielding, o genial, que a amaldiçoou como um pesadelo leproso, correm águas insondáveis. Beckford viveu-a em palácio, Sade inventou-a num cárcere de rancores. “Lisboa oferece uma apreciável variedade de escolhas para um nobre suicídio”, escreveu um dos grandes narradores dela, Antonio Tabucchi. Vozes, tudo vozes. Olhares. Memorações.

Quando por fim fechamos a página onde líamos a cidade, descobrimos que a vidraça do café está toldada por uma dança de gaivotas em turbilhão e que não há Tejo. Que desapareceu por trás duma desordem de asas e já não é prenúncio de oceano.
Então, ternamente, confiadamente, reconhecemo-nos ainda mais ancorados à cidade que nos viu partir.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

CADERNOS DE LANZAROTE


Pode colocar-se a questão de “Cadernos de Lanzarote ser um lado marginal da obra de José Saramago.

Mesmo tendo em conta que a prosa dos Cadernos é belissima – Saramago não sabe escrever mal! - gostaria que José Saramgo não se tivesse metido nos “Cadernos Lanzarote”, ou pelo menos no modo como eles apareceram – mas quem sou? Que sei eu?...

A propósito de um outro assunto, no vol. I , Saramago cita Alexandre O’ Neill que sempre nos recomendou que não contássemos a “vidinha”.

Desde o 1º volume que o incómodo se instalou em mim e aumentou drásticamente com a publicação dos IV e V volumes. Por sorte, as muitas viagens que foi obrigado a fazer para falar dos livros, receber distinções académicas, o proprio Nobel, o afastaram da publicação de outros volumes dos Cadernos.

Fosse por exigência editorial, fosse por vontade própria, fosse pelo que fosse, os Cadernos aconteceram e lá terei que trazer o lugar-comum: em Saramago nada nos pode deixar indiferentes.

O 1º volume saíu em Abril de 1994 e contempla os días que vão de 15 de Abril a 31 de Dezembro de 1993. Saramago sabia os riscos que corria e aprestou-se a advertir logo na abertura da escrita: “Este livro, que vida havendo e saúde não faltando terá continuição, é um diario. Gente maliciosa vê-lo-á com um exercício de narcisismo a frio, e não serei eu quem vá negar a parte de verdade que haja no sumário juízo, se o mesmo tenho pensado algumas vezes perante outros exemplos., ilustres esses, desta forma particular de comprazimento próprio que é o diario.”

Numa conversa telefónia, o escritor João de Melo (Vol. II, pág. 137) dá a opinião de “que os “Cadernos”, tal como eu os concebí e vou redigindo, dão armas aos meus inimigos. Com a serenidade de quem já leva muita vida vivida, tranquilizei-o: em primeiro lugar, os meus inimigos não precisam de armas novas, usam bastante bem as antigas; em segundo lugar, para os amigos é que eu escrevo, não para os inimigos.”


Ainda no vol. II (pág. 172) escreve Saramago: “Já antes, porém de modo vago, uma ou outra alusão de amigos a casos descritos nestes “Cadernos” me tinha causado o mal- estar de quem de repente se dá conta de haver dito o que deveria ter calado, umas quantas insignificâncias aparentes, que, afinal, teriam acabado por tornar flagrante o que desejaria manter oculto.”


O escritor António Tabucci no “JL”, 4 de Janeiro de 1995:

“José Saramago, que diz ter ido procurar a solidão nas Ilhas Canárias, é o menos solitario de todos nós. O seu “Diário” desenrola-se entre jantares elegantes, editores internacionais, cocktails, recepções nas embaixadas e citações de elogios à sua pessoa.
Como bom novo-rico, Saramago, impante de orgulho do seu renome internacional, exibe-o qual troféu, assim como os caçadores nos romances de Hemingway exibem a cabeça de uma gazela.
Um médioco da minha aldeia, uma espécie de médico filósofo, discípulo de Hipócrates e Galeno, disse-me recentemente uma coisa que me deu que pensar: os escritores quando envelhecem, devem ter cuidado com duas hipertrofias, a do ego e da próstata. Não conheço o estado da próstata de Saramago, mas a sua hipertofia do ego, é evidente neste “Diário” que anda à volta do seu umbigo.”


Torcato Sepulveda no “Público” de 16 de Abril de 1994:


”Cadernos de Lanzarote” assemelha-se a um guía das viagens do autor pelo mundo fora, porque o convidam muito para falar sobre as suas ideias. Ainda assim, isso poderia ajudar-nos a entender a obra de Saramago, se ele nos transmitisse aquilo que disse nesses colóquios aos seus ouvintes. Mas o que lá está limita-se, quase sempre, a cominucar-nos que ocorrersm sucessos, que os estrangeiros o estimam, enquanto em Portugal não o amam.”!

Provavelmente os “Cadernos de Lanzarote” serão mais importantes com o passar dos tempos e não podemos esquecer que no 4º volume (pág. 54), José Saramago deixou escrito:


“Na verdade, terá de vir procurar-me nestas crónicas quem verdadeiramente me quiser conhecer."

Cadernos de Lanzarote


José Saramago
Editorial Caminho
1º volume: Março de 1994
2º volume: Março de 1995
3º volume: Março de 1996
4º volume Março de 1997
5º volume: Outubro de 1998