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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Matai-vos Uns Aos Outros

Jorge Reis
Prefácio: Aquilino Ribeiro
Capa: António Domingues
Prelo, Lisboa, 1963

A terra pertencerá aos que a estimam, porque tudo será amor! Amor pelo próximo, amor por esta coisa maravilhosa que é a Vida!

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

NÃO SUPORTO A VERTIGEM


Carta de António José Saraiva para Óscar Lopes, datada de Amsterdão, Janeiro de 1972, e em que continua a manifestar o seu encantamento pela obra de Agustina Bessa-Luís. Antes já dissera que relendo algumas páginas de Agustina ficara tonto «como se ouvisse música de Beethoven.»

Quanto à Agustina gostaria que me desses as tuas razões Eu considero-a com Fernando Pessoa um dos dois escritores verdadeiramente geniais que Portugal produziu no século XX, e creio que todos os outros estão muito, mas muito baixo deles. Mais: para mim a Agustina é o maior escritor em prosa de toda a literatura portuguesa, talvez com excepção do Fernão Lopes (na parte em que este pode ser considerado como artista criador, como o João de Barros nunca foi). Eu não consigo ler a Agustina durante muito tempo porque não suporto a vertigem, e o mesmo me acontece com o Pessoa. Não entendo como a poder pôr abaixo do Aquilino. É um dos raríssimos pontos em que estou quase de acordo com o Sena: o Aquilino é um grande escritor menor, salvo no Malhadinhas e nas Terras do demo. É um artífice com muito talento, ao passo que a Agustina e o Pessoa são escritores-mediuns. Tem-se vontade de crer que algo a que chamaríamos Espírito os tocou, e nos toca para eles.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O ÚLTIMO GIGANTE


Publicou sessenta e nove livros, dezassete dos quais são romances. O resto é História, biografia, polémica, investigação literária, literatura infantil, memórias, jornalismo, crónica.
Na obra de Aquilino Ribeiro há como que uma súmula de toda uma literatura, o balanço terno, suave, manso, truculento, genial, fradesco, libertário, aventureiro, troca-tintas, aquilo que fomos e somos.

Baptista-Bastos, abertura de um dossier Publicado no Expresso de 24 de Março de 1984, por ocasião dos vinte anos da morte de Aquilino.

Legenda: retrato de Aquilino Ribeiro feito por Leal da Câmara , tirado de Aquilino em Paris de Jorge Reis, Editora Veja, Lisboa s/d..

OLHAR AS CAPAS


A Via Sinuosa

Aquilino Ribeiro
Livrarias Aillaud & Bertrand , Paris/Lisboa 1939

O sol tinha rebentado duma hóstia vermelha em terras de Penedono, mesmo ao de riba do castelo, e as cotovias banhavam-se na sua labareda cantando. Já as franças dos pinheiros encandeavam, e era ao alto dos troncos, que pareciam romper a forma processional para largar connosco, um miraculoso, um incomparável pálio, sêda verde, lhama de oiro, a cobrir pelo caminho fora nossas frontes regaladas.
Pelas rá pidas esgueiras do caminho, à nossa direita, o monte luzia, com a farfalha violeta da manhã a levantar às mancheias de sol nos picotos. Não se avistavam os faunos, mas lá deviam andar nos abrigos, em lutas-cambalhotas ou escorregando o sim-senhor lanzudo de tunantes pelas lájeas em lavadoiro. Lá andariam, porque cacarejava para lá do perdigão e a corcolher, e eles, mercê dos jarretes leves de caprípedes e da carne coriácea, são menos tímidos que os voláteis que o homem abate para comer. De lés a lés nas longas estiradas do baldio, já sob os rebates da canícula havia começado a lenta agonia do verde. Desaparecera-lhe já aquele esmalte que nos velhos pratos de Palissy afoga em tinta crua a guloseima loira duns pomos sazonados. E adoçando-se, vivo ainda no codesso, cinzento nos rosmanos, com laivos de cobre no fieital e na rabugem, que come da frágua, havia em seu espraiar a sonoridade lenta dum monocórdio. Nas espaldeiras surradas de mato, flores do sargaço lacrimejavam; mas eram ralas, muito luzentes, inacreditáveis, como contas de oiro de moira desencantada, que as deitasse fora, ao fugir.

CEM ANOS SOBRE A MORTE DE AQUILINO


 Quem hoje lê Aquilino?

Tentei, mas reconheço que não fui muito além.

Talvez mais tarde, ia pensando.

Não aconteceu bem assim.

A transladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional (Setembro de 2007) não foi consensual. Uns quantos vieram dizer que Aquilino não merecia estar no Panteão por ter sido um terrorista que esteve envolvido na organização do atentado que matou o rei D. Carlos e outros porque a obra de Aquilino não tem valor para que lhe seja reconhecida a honraria de entrar no Panteão. Lembro que Vasco Pulido Valente, no Público, bolsou uma das suas idiotices: Aquilino é um escritor medíocre”.

Por esse tempo, lembro-me de ter concluído comigo mesmo que, do princípio ao fim, apenas lera um livro de Aquilino: Quando os Lobos Uivam.

Há diversos livros de Aquilino que vieram da casa do meu pai.

Mas lembro-me que o único livro de Aquilino que comprei foi A Casa Grande Romarigães.

A lápis, no canto superior direito da 1º página, o livreiro escreveu: 45$00. Mas não passei da página 54. Sei isto porque, naquele tempo, os livros não se vendiam com as folhas guilhotinadas, tinham de ser abertos com uma faca (De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem leitor que fui. A faca de papel. A ferramenta fora de uso morre. A faca de papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura via Jorge Listopad emSecos e Molhados) e a minha tarefa ficou-se por essa página. Havia quem comprasse os livros e os abrisse de uma vez só. Eu gostava de ir abrindo à medida que os ia lendo.
Terá sido a velha história: chateei-me de ler tanta palavra que desconhecia, e, numa de preguiça literária, cansei-me da necessidade de tanto ter que pegar no Dicionário.

Tem um bonito começo:

O Vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!

Voltei hoje a pegar no livro.

Lá estão, ainda, as páginas por abrir.

Dei um salto ao fim do livro, terno final:

É pena que se não possa regular a vida como um relógio, andando com os ponteiros para diante e para trás segundo a nossa conveniência. Como eu faria da Quinta do Amparo um jardim maravilhosos, a minha instância de contemptor do Mundo, e de Nossa Senhora, esta doce imagem de faces bochechudinhas, minha amiga do coração?! A Primavera, tantas vezes rebelde ao calendário, rejuvenesce tudo menos o homem. As leis da ciclidade física assim o mandam. Para o ano, por esta altura, voltarão as aves a cantar. Que chova, que faça um sol radioso, com o mundo vegetal pletórico de seiva ou mais aganado, à triste planta humana é que nada a afasta da sua carreira para a morte. Será ela a obra-prima da Criação ou a pior de todas?

Vou abrir o resto do livro e lê-lo.

Os olhos também são outros… e é sempre tempo…

Mas quem hoje lê Aquilino Ribeiro?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

FREQUENTADO POR ARTISTAS


Desceu na praça e pensou em tomar qualquer coisa no British Bar do Cais do Sodré. Sabia que era um lugar frequentado por artistas e contava encontrar lá algum. Entrou e sentou-se numa mesa do canto. Na mesa vizinha, realmente, estava o romancista Aquilino Ribeiro a almoçar com Bernardo Marques, o desenhador de vanguarda, que tinha ilustrado as melhores revistas do Modernismo português. Pereira deu-lhes os bons dias e os artistas responderam com um aceno de cabeça.

Antonio Tabucchi em Afirma Pereira, Quetzal Editores, Lisboa 1995

domingo, 16 de outubro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Olhem sempre em frente, olhem o Sol, não tenham medo de errar, sendo originais, iconoclastas e anti, o mais anti que puderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados de pé posto e a todas as conjuras dos velhos do Restelo.
Cultivem a inquietação como fonte de renovamento.

Aquilino Ribeiro

Legenda: ilustração de Luís Filipe de Abreu