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sábado, 19 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Homem Que Sabia A Mar

Armando Silva Carvalho
Capa: Miguel Imbiriba
Publicações Dom Quixote, Lisboa Abril de 2001

- É aqui a famosa Casa Cor-de-Rosa?
Fala em francês, mas não parece pedante. Nem parece ter vindo para se sentar no rosto da Europa. E não grita. Apresenta-se.
- Sou Tana Macgrave. Marquei uma reserva há tempo para vir descansar no apocalipse e afinal acabei por vir, mas para trabalhar. João Silvestre não está?
Rebeca pensa um pouco, fixa-a, e depois reconhece o nome. E por cima das lágrimas, ri com uma tal frescura que faz chorar a própria actriz. Ela que só conseguia fazê-lo no palco ou frente às câmaras.
- João Silvestre foi ao mar. Ou antes, anda no mar. – Rebeca fez uma pausa. – Mas, por favor, madame, entre. A Casa Cor-de-Rosa estava à sua espera para se começarem as rodagens. Tem um bonito nome, o filme, Entre este Mundo e o Outro e Amor é Absoluto. Talvez um pouco comprido, não acha?
Foi a vez agora de Tana Macgrave sorrir. E dizer:
- Tem razão, Rebeca. É Rebeca, não é? Mas vai ficar mais curto na versão americana. Eles simplificam tudo. A Europa é que está cada vez mais complicada.
E entraram as duas para a sala e ouviram o mar em estereofonia.
Eu, na minha cadeira de rodas, continuei a pintar.
Mas elas não me vêem, pai Silvestre.
São Vozes.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Donamorta

Armando Silva Carvalho
Capa: Manuel Rosa
Assírio &Alvim, Lisboa, Abril 1984

Agora estava Gregório em posição de espera. Com a sua maleta na mão. Molhava o pastelinho de nata no café e a coisa era click saltava-lhe à cabeça a Madalena do liceu, a arguta e epistolar namorada que lhe enviava em férias verdadeiros tratados de moral, sentenças cicerianas que ele digeria junto ao Correio da aldeia com a sofreguidão aflita dum soldado em África colonialista. Foi num assalto carnavalesco que Madalena lhe ofereceu uma dúzia de pastéis de nata, a paixão doceira que Gregório alimentava na altura.
Madalena era baixa, filha dum escriturário da CUF e duma modista semiaposentada que ele nunca chegou a conhecer. Dançava bem o tango e iniciava Gregório nos primeiros passos do rock com a paciência obstinada duma professora de ballet com escola própria. Usava aqueles vestidos de cortinas que lhe caíam até ao meio da perna. E para disfarçar o cheiro dos sovacos encharcava-se em colónias que faziam espirrar Gregório sobre os seus braços roliços.
Nessa altura começavam os Beatles a criar a sua própria filosofia e a fazerem rodar o conceito de amor a Dennis de Rougemont sobre as espiras dum acetato de quarente e cinco rotações. Os Platters choravam como crias esfaimadas o Only You. E Madalena, sempre sentenciosa, lia a Mansfield mas recusava-se a conhecer a Beauvoir. Isto por causa da mãe que era católica a amante dum jornalista conhecido que fazia crónicas patrióticas no Diário de Notícias da época. Havia nesse tempo um entretém preparatório da Guerra. O Angola é Nossa era ainda um hino suportável, mesmo aos ouvidos dos esquerdas. E até os clandestinos não abordavam o tema de forma prioritária.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Antologia de Poesia Universitária

Organizada por Alfredo Barroso, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz,
 J. M. Vieira da Luz, Rui Namorado
Colaboração de Alfredo Vieira da Luz, Almeida Faria, António Augusto Menano,
António Manuel Lopes Dias, António Freire Torrado, Armando, Armando de Carvalho, Boaventura de Sousa, Eduardo Prado Coelho, Fernando Vaz Garcia, Ferreira Guedes, Fiama Hasse Pais Brandão, Francisco Delgado, Gastão Cruz, João Columba, João Medina, João Rui de Sousa, J.M. Vieira da Luz, José Carlos de Vasconcelos, Luís Serrano, Luísa Ducla Soares, Luíza Neto Jorge, Manuel Alegre, Manuela Imar, Margarida Losa, Rui Namorado, Ruy Belo, Sérgio Cardoso
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Poetas
Portugália Editora, Lisboa, Fevereiro de 1964

Janeiro de Sessenta e Dois

este janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés.

mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés.

sacodem-no apressadas as varinas
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas.

seus dias vão depressa para os ardinas:
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos
metido com vamps americanas.

janeiro português por onde poisas
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto às coisas
e a tia chega ao fim da camisola...


(Poema de Armando Silva Carvalho)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

RECADOS


No dia da morte de Armando Silva Carvalho, deixei o registo de que O Livro do Meio, romance epistolar escrito por Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, é um livro fascinante que – tenho essa ideia… - passou um tanto ao lado de críticos – ainda há crítica literária?!... – e leitores.

Aguardava vez para entrar em «Olhar as Capas» e fiz agora a publicação, com o lamento que só agora aconteça porque o Armando nos deixou.

Obviamente, a capa leva textos de cada um dos autores.


O livro junta memórias de infância, de outros tempos, uma cumplicidade de anos e anos de vivências e que, dado o calibre dos autores, nunca poderia sair fruta bichada.

Pelas 412 páginas do livro, passeia uma série de gente, alguns vivos, outros já mortos, ódios, amores, quotidianos, tristezas, alegrias, leituras e notícias do quotidiano, histórias de escárnio e maldizer, amigos e inimigos, perdas e danos, um humor mordaz, venenoso q.b, mas inteligente.

Claro que o livro retém episódios e gentes que escapam ao leitor comum, que são vivências próprias dos autores, «afectos flutuantes», como algures deixa cair Maria Velho da Costa, a mesma Maria que deixa assinalada uma frase de Agustina Bessa Luís: «a amizade é confortável como uma almofada de penas», ou Armando Silva Carvalho que a páginas 322 cita um verso de Jorge de Sena: «sempre me soube a destino a minha vida».

Repito: um livro imperdivel, editado pela Caminho no tempo em que ainda não tinha sido devorada pela Leya.

Pode ser que ainda o encontrem na Feira do Livro, que fecha portas no domingo.

OLHAR AS CAPAS


O Livro do Meio

Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 2006

Uma casa é uma casa como uma rosa é uma rosa.
E já que estás com a casa na boca, falemos de casas, como disse o Herberto. Eu, hoje, tenho três casas, sou um felizardo. Durmo na da mana, trabalho na minha e derramo-me na nossa, a de Peniche.
Aqui, na de lisboa, assaltam-me as lembranças do sexo, as causas amantes, e fazem-me companhia duas ou três coisas essenciais. Não me pedem comida, não me roçam as pernas e não me dão cuidados de higiene.
Uma é a pintura do Hogan, que me defende duma provável miséria que já me ameaça. Comprei-a nas Belas Artes a uma senhora dada ao espiritismo e que me apresentou mais tarde esse pintor das pedras solitárias.
A segunda é o espelho enorme e oval em que me olho de frente enquanto escrevo (dantes usavam-se as caveiras). Ele lembra-me uma grande amiga do porto, a M., que me deu a conhecer o seu grande amigo, o José Cardoso Pires. Foi ele que mo ofereceu, em tempos mais narcisistas, e é um impressionante reflexo de mim a meio-corpo, em moldura rica e trabalhada. Um dia cheguei a casa e fui dar com uma encomenda gigante à minha espera. Eu não adivinhava, Ajudou-me a porteira que quase caiu de cu ao ver o objecto nu. Que rima! Passou-se já tanto tempo que pensei até mudar-lhe o sítio. Eu ficava mais distraído do tempo, do meu tempo. Só que assim a velhice não me espanta. E o espelho repete-me o que não repetiu à Madrasta da outra. Lembra-te de que és pó, etc., etc.

E em terceiro lugar vem a bebida. E bem à mão, numa mesinha de jogo (expressão que me fazia cócegas quando o objecto amado lhe gabava as proporções delicadas). É a lírica mais consumível que alguma vez tive na vida, tanto tempo passado, depois de ter escrito esse livrinho de nome tão aberrante. Criatura volúvel, derramável, ergue-me no ar para me deixar aos tombos, e me faz companhia em verso, prosa ou dura dor de corno.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Livro do Meio

Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 2006

O dia hoje foi curto. Tentar absorver a absorvência da pequena J. Ela comunica por gestualidade e sons, uns mais competentes que outros. Na amizade é preciso traduzir. Revejo-me nela.
A M.G. veio chorara um pouco a morte do Pluma, o cão de família que foi dela e do João César Monteiro, já velho e incontinente. Diz a Agustina que as pessoas que amam os cães são as mais egoístas sobre a terra. E ela gosta de cães. Porque os cães são uns mestres de zelar pelo que é teu, a família, os bens, as emoções profundas, mesmo quando tu te desleixas ou adoeces?  Lobo da decência e da perseverança, o cão. Causa amante, contra toda a evidência, um cão.
Ars longa, vita brevis. Sobretudo a dos cães.
Tenho medo de quem tem medo dos cães.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Lisboas

Armando Silva Carvalho
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2000

Louca do bairro

Tolhida, rebusca entre as caricas um sentido
que escorra, final,
de todas as garrafas que mataram
a sede
aos habitantes do bairro.
Traz laços coloridos no cabelo
e defeca com decência no passeio
onde cagam vigiados os cães da vizinhança.
Do seu nariz agudo, nem a rainha do Sabá
saberia falar a Salomão.
Na testa alta, azeitonada, alberga uma ciência
da distância.
Não olha para ninguém, nem mesmo para os pássaros
que com ela dividem o mesmo alô
de sombra solitária.
É verão e tem consigo o frio
do mundo.
Casacos, roupões de luxo
e uma estola traçada pelos desvarios
do tempo.
Não foi, é uma grande senhora,
esta teatral louca do bairro.
E o seu silêncio impõe nobreza tal
que os rapazes da droga lhe trazem do café
rissóis roubados ou um pouco de leitura
aristocrata.
Tolhida como um ícone, mantém uma beleza
doente.
E não há poema, prosa, melífula voz de incenso,
que a faça flutuar na brancura da tarde
Onde o sol reina, indiferente.


Ela não precisa de tais luzes.
Na sua face enevoada brilha um deus.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Lírica Consumível

Armando da Silva Carvalho
Orientação gráfica: Espiga Pinto
Colecção Poesia e Ensaio nº 9
Editora Ulisseia, Lisboa, Dezembro de 1965

«Fragmentos de Uma Ideia Burguesa»

I

Visto a camisa. Depois distingo
o dia, usando um alfinete
sob a lomba das unhas.

Caiu-me já o tecto. Medi-o
nas paredes:
as quatro profecias.

Pasto: achado alado o logro
nos flancos de um polícia.

Rodas: de carro de poeta
de puta.

Medidas preventivas
até que chegue a noite.

II

Nasce um pensamento na garganta
como um filho. Enrodilho
o filho o pensamento
e a garganta.

Sofremos todos de moscas nos artelhos
eu deixei de ir à missa há mais de um ano
não brinco com os novos e farto os velhos
sacrilégios domingueiros, abortos
deste clima americano.

Não devia haver mais hermetismo
uma boca deslocando o sonho pela mão
e de repente nascermos assim todos
sem baptismo.

É que há uma origem frustrando nosso enlace
repentino com a morte e uma morte dividindo
nosso serviço
absurdo de ir andando.

Andando Armando a rima zune
e o pensamento afasta prejuízos
e só sorrisos são
a morte natural do entendimento.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

OLHAR AS CAPAS


Os Ovos D’Oiro

Armando Silva Carvalho
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Cadernos de Poesia nº 7
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

Mar de Peniche

1

Todos os dias
acordam
violadas
estas praias
que dizemos
virgens.

2

A chuva
esse suor
do mar
já não desfaz
a solidão dos homens
ou o piar dos corvos.


3

Mar de Peniche
onde os peixes se atiram
contra os barcos
e as grutas dos rochedos
nada acoitam.  

4

As traineiras
juntaram-se a dormir.
Mas o mar não esquece
e grita
contra a fortaleza.

5

O mar
sorveu
todo este dia
exausto.
E o que fica
da praia
são estas pedras
lassas
transidas
pelo sono.

6

O que
fica das pedras
é este mar
de sono
que os homens
já submersos
sorem
a curtos
haustos.

7

O que fica
da noite
são os presos
exaustos
que as pedras
dissimulam
e o mar
absorveu.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

OLHAR AS CAPAS



O Que Foi Passado a Limpo
Obra Poética
1965-2005

Armando Silva Carvalho
Prefácio: José Manuel de Vasconcelos
Capa: Maria da Graça Lampreia
Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2007

Aqui o inferno mata as profissões
Que têm acesso ao ar.
Diz-se que deus se absteve
De criar servidores para os condenados
Ao tédio.

Morre-se no emprego
Com a garganta apertada por uma mão
Sem ossos.

Aqui os anos crescem pouco ou nada.
Os dias e dias secam na raiz.
Não há horas felizes.

O sol sempre se deu bem com gente como esta
Que salpica de chuva os seus pequenos
Afazeres
Para ficar em casa.

Gente com plenos poderes
Para desmanchar a festa que se alonga
Para lá da cabeça.

Diz um: eu sou o sábio de domingo.
Agora não me ocupo de dias úteis, de remendos d’alma,
De fragilidades.
Esperem por mim mas só depois
Da missa.

Diz outro: a ética é grega de nascença
Movemo-nos por números, já sentenciava Pitágoras.
Não cunhamos moeda, não sujamos as mãos
Nos improvisados remos do naufrágio.
O nosso destino é perguntar.

Parece que deus quis que não nascesse a obra.
Nascer que nasça o sol
E é bastante.
Quem pergunta ao sonho pelo homem
De serviço?

Nos campos vicejam novamente as urtigas
São restauros agrícolas,
Exemplos a seguir, ordens vindas de cima,
Ao ouvido,
Na sala dos banquetes.

O mar faz de cão velho e deixa-se ficar
À espera no patamar dos mitos.
Ninguém o suporta
Nem ao seu uivar aos pés
Da história.

Comovidos estamos, com um não sei quê,
Um quanto, um como, uma dor
Que levanta asas
E vai do vale à montanha
Como vão os monges cavaleiros
À televisão.

Aqui a cidade abre-se para lá da noite
E é sempre belo ver a madrugada
A chorar os seus ídolos.

Aqui os que têm coração
Têm desconto. 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Três Vezes Deus

Ana Marques Gastão
António Rego Chaves
Armando Silva Carvalho
Prefácio José Tolentino Mendonça
Assírio & Alvim, Lisboa, Dezembro de 2001

Com os anos, a morte começa a desenhar-se
na calmia das tardes quando tudo parece
esperar as maçãs de um rosto glorioso.
Às vezes esquecemo-nos de tacar os sapatos.
Saímos para a rua com as meias trocadas pela alegria
e nos lábios o riso que combina bem
com a camisa do tempo.
Somos senhores do mundo.
Temos as medidas certas da terra
aberta à nossa frente.


Armando Silva Carvalho

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Portuguex

Armando Silva Carvalho
Prefácio: Maria Estela Guedes
Capa: Vitorino Martins
Moraes Editores, Lisboa, Maio de 1981

Quando a rotina assediou Alviela já ele se ocultava para lá das sombras. Houve quem dissesse, nessa altura que ele fazia muito mais do que podia, profissionalmente falando. Mas acontecia é que eram alguns, alguns apenas, os que o viam todas as noites a sair na direcção dos átrios onde pontificavam as Figuras do Sonho, E de longe em longe, quando o cansaço subia às plataformas frias da vontade, Alviela escutava então a estrita festa verbal, o grito acelerado de muitos manifestantes. Mas isso logo morria. Antes de entrar, ficava-se no Mini a olhar as alamedas sob a chuva de Março ou as folhas de Outono maceradas pelos saltos irrequietos das prostitutas do Parque. Chegava sempre cedo e nem a conversa lambuzada dos colegas lhe aquecia o sangue que quase sempre deixava amortecer à entrada.