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quinta-feira, 18 de abril de 2019

VIVES


Vives sob o som de um telefone que tu deves
tocar. Mas quando?
Um telefone pode ser um barulho feliz
no silêncio da sala em que a esperança desceu
em busca de um coração adormecido.
Cabe-te a ti trazer a voz
da distância par dentro do teu peito
ou deixar que ela se perca no charco intransponível
Do mundo indefinido.

Armando Silva Carvalho em Três Vezes Deus

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 26 de março de 2019

O MEL EM BRASA


Traçaram-lhe o perfil ao sair da água.
Não era nadador
Nem os seus pulmões conheciam o ar da clausura
Isso que está por baixo
E só o próprio sabe controlar tão bem
Como no sono.

Por vezes os seus gestos eram jactos
De fogo.
Houve quem dissesse
Que os seus poemas balavam os túmulos
Levedavam a vida
E sagravam o corpo numa ostentação
De jóias e artérias.

Tive a sorte de vê-lo
Quando se dirigia ao local prévio
Onde fundia a sede
E levava à boca um pequeno vaso
De limalha.
Não era o seu ofício, aquilo,
Não era ainda o fogo, a grata labareda
Que lhe saía do peito.

Assim se permitia mover os dedos
Com uma estranha timidez que não vem nos livros
Abafando os relâmpagos ao nível dos castiçais
Para que se ouvisse a voz primeiro
Que a dança.

Não trocámos palavras nem sedas de circunstância.
Olhámos os dois em frente.
E eu não sabia onde ocultar a pedra
De mim próprio.

Armando Silva Carvalho de Sol a Sol em O Que Foi Passado a Limpo

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


A Matiné das Duas

Na penumbra da pequena sala talvez o milagre
fosse um gato preto que miasse
ou uma mulher loura
que cantasse
uns blues vagamente sinceros
e se decidisse depois por um streap-tease de músculos
hermafroditas.
Mas tudo parece de cartão.
Ver um filme às duas em ponto da tarde
é como entrar
num drama de papéis higiénicos
para doentes do sido.

Quem pode habitar este pulmão
sem ar
e ouvir saltar a tosse
como rãs da secura para o veneno do mundo
em celuloide?

Não sentimos sequer uma perna avançar
sonâmbula,
dormente pelas agulhas do desejo
ou o olhar aceso no escuro
dum rosto
que o desespero
transforma numa visão celeste,
quase inebriada.

É o tempo do limbo das lamas solitárias,
sentadas, em princípio da tarde
de má vida,
p tempo dos animais quietos, subterrâneos,
à espera.
Depois virá correndo, veloz, essa inocente droga
que te leva a sonhar
com um suicídio discreto,
de veludo puído,
descoberto duas horas depois
ao reacender das luzes,
pelos outros quatro ou cinco
que continuam vivos
como tu.

Armando Silva Carvalho em Lisboas

sábado, 14 de julho de 2018

AS CORDAS DE PAREDES


Nesta cidade sem música
o homem da guitarra gritava o seu segredo
com as mãos em desalinho.

Cristais de crispação
jorravam de uma lua baça
ou quentes do forno da madeira
do linho.

Aí vai a minha vida.
E o homem vergado sobre si, enrolado e mudo,
bordava-se nas suas cordas de aço
macias de suor e livres
do fracasso.

Nesta cidade de ventre abandonado ao vento
mais perverso
ele é uma raiz, uma toalha de água
leve tremor de pálpebras
que retine feliz
no rosto da nossa mágoa.

Colhemos a sonora fruta
que ele deixa tombar das mãos.
E como um rapazinho amedrontado
o homem da guitarra
ainda está aí
à espera de nós, da voz,
de outra cidade.
Talvez de outros irmãos.

Armando Silva Carvalho em Lisboas

sábado, 14 de abril de 2018

FOLHAS TRAÍDAS


Agora estás sozinha à mesa do cobalto.
E como adolescente obstinada
comungas muros brancos
na secura da cal
sinistra nos teus olhos
– ó imaculada.
Os punhos nos ouvidos não são força
bastante para empurrar o som
até às nuvens, ó idolatrada.
Querias tanto à terra com seus gatos,
criaturas do sol no teu regaço azul
que nenhuma palavra te protege
da minha boca em fúria
– amada e destruída até aos ossos.
Às vezes quando no silêncio acordo
a perguntar por ti
e habitas o meu corpo,
que mais posso fazer do que arranhar na noite
a tua carne fria, ó desamparada?
Na folhagem do sangue eu afogo
a cabeça,
percorro com a língua a rede dos pulmões,
o meu eco atravessa toda a natureza
– porque não respondes?
E lentamente o teu olhar flutua.
Trazes na mão o peso
dos meus dias e ouço-te dizer:
a terra não resiste ao fogo do meu ventre,
ao ar que me respiras,
às águas surdas em que me bebeste.

Armando Silva Carvalho, 4º Poema de Folhas Traídas de Sentimento de um Acidental em O Que Foi Passado a Limpo

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

HOSPITAL CURRY CABRAL


Parecem as termas de Fellini, disse ela, a catalã
que não sabia nada dos hospitais
de Lisboa.

De facto, o chão fumava,
um vapor espesso subia-lhe pelas pernas
e acalorava os gatos.
E até um garnisé que por ali passeava em busca
das migalhas das visitas
cantou
desirmanado.

Mas era quase erótico o som da sua voz
como a da vedeta italiana
desse filme barroco
caindo inocente na doença ambulante
levada por maqueiros gordos
e libidinosos.

As palmeiras derramavam um choro
no vento melancólico.
E ela a catalã, jovial e magra,
ia batendo palmas às aves embaraçadas,
e avançava a sorrir
pelas zonas infecto-contagiosas.
Mas não lhe era preciso aplaudir um tal cenário
de figurantes mudos e fantasmagóricos
com os seus roupões azuis
de sida
com os seus pijamas de cinza
e tuberculose.
Bastava-lhe olhar a direito ou fechar os olhos
e perguntar pelo Hotel Barcelona.

Mas ela preferiu tropeçar nos varões com sono
arrastados pelo verde do jardim
e passar rente a precipícios que deslizam deitados
à sombra da morte.

E é preciso amar e partir depressa.
Ou atordoar-se com os perigosos jogos do contágio.
Eu respiro a calma que a desgraça me oferece
entre galinhas-da-índia
a encurtar caminho
nesse antigo lugar de mulheres da vida
arrependidas.

Normalmente vou só e não me engano.
A amiga catalã é um devaneio
numa rambla de encontros tenebrosos
com outra espécie de morte.

Tantas vezes pensei
e o poema não veio ao meu encontro.
Tantas vezes devorei este fumo quente e sensual
que começa por lamber-me as calças
e faz de mim um animal em erecção precoce.
Belas termas, estas, amiga tão distante,
nas tuas quimeras musicais
no teu regaço de coloridas risas de passagem.

Passa comigo e pede um copo de água
ou de cólera, como diz o brasileiro,
àquele rapaz com a morte a prazo.
A menina do filme, essa perversa inocente
Cardinale, fica-te tão bem,
diria ele,
esse jovem director de espectros
que te tira o chapéu
e deixa ver um quisto inquietante
na cabeça pelada de trapezista mortal.
Traz contigo mais música.
E passeia comigo entre pavões rubro-azuis
e corpos que rolam
sentados ou jacentes e avançam
para a saída
da vida.


Armando Silva Carvalho em Lisboas

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



A Matiné das Duas

Na penumbra da pequena sala talvez o milagre
fosse um gato preto que miasse
ou uma mulher loura
que cantasse
uns blues vagamente sinceros
e se decidisse depois por um strip-tease de músculos
hermafroditas.

Mas tudo parece de cartão.
Ver um filme às duas em ponto da tarde
é como entrar
num drama de papéis higiénicos
para doentes do siso.

Quem pode habitar este pulmão
sem ar
e ouvir saltar a tosse
como rãs da secura para o veneno do mundo
em celuloide?

Não sentimos sequer uma perna avançar
sonâmbula,
dormente pelas agulhas do desejo
ou o olhar aceso no escuro
dum rosto
que o desespero
transformou numa visão celeste,
quase inebriada.

É o tempo do limbo das almas solitárias,
sentadas, em princípio de tarde
de má vida
o tempo dos animais quietos, subterrâneos,
à espera.
Depois virá correndo, veloz, essa inocente droga
que te leva a sonhar
com um suicídio discreto,
de veludo puído,
descoberto duas horas depois
ao reacender das luzes,
pelos outros quatro ou cinco
que continuam vivos
como tu.

Armando Silva Carvalho em Lisboas

Legenda: Michelle Pfeiffer, uma mulher loura que cantasse uns blues vagamente sinceros.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Antologia de Poesia Universitária

Organizada por Alfredo Barroso, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz,
 J. M. Vieira da Luz, Rui Namorado
Colaboração de Alfredo Vieira da Luz, Almeida Faria, António Augusto Menano,
António Manuel Lopes Dias, António Freire Torrado, Armando, Armando de Carvalho, Boaventura de Sousa, Eduardo Prado Coelho, Fernando Vaz Garcia, Ferreira Guedes, Fiama Hasse Pais Brandão, Francisco Delgado, Gastão Cruz, João Columba, João Medina, João Rui de Sousa, J.M. Vieira da Luz, José Carlos de Vasconcelos, Luís Serrano, Luísa Ducla Soares, Luíza Neto Jorge, Manuel Alegre, Manuela Imar, Margarida Losa, Rui Namorado, Ruy Belo, Sérgio Cardoso
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Poetas
Portugália Editora, Lisboa, Fevereiro de 1964

Janeiro de Sessenta e Dois

este janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés.

mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés.

sacodem-no apressadas as varinas
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas.

seus dias vão depressa para os ardinas:
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos
metido com vamps americanas.

janeiro português por onde poisas
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto às coisas
e a tia chega ao fim da camisola...


(Poema de Armando Silva Carvalho)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Lisboas

Armando Silva Carvalho
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2000

Louca do bairro

Tolhida, rebusca entre as caricas um sentido
que escorra, final,
de todas as garrafas que mataram
a sede
aos habitantes do bairro.
Traz laços coloridos no cabelo
e defeca com decência no passeio
onde cagam vigiados os cães da vizinhança.
Do seu nariz agudo, nem a rainha do Sabá
saberia falar a Salomão.
Na testa alta, azeitonada, alberga uma ciência
da distância.
Não olha para ninguém, nem mesmo para os pássaros
que com ela dividem o mesmo alô
de sombra solitária.
É verão e tem consigo o frio
do mundo.
Casacos, roupões de luxo
e uma estola traçada pelos desvarios
do tempo.
Não foi, é uma grande senhora,
esta teatral louca do bairro.
E o seu silêncio impõe nobreza tal
que os rapazes da droga lhe trazem do café
rissóis roubados ou um pouco de leitura
aristocrata.
Tolhida como um ícone, mantém uma beleza
doente.
E não há poema, prosa, melífula voz de incenso,
que a faça flutuar na brancura da tarde
Onde o sol reina, indiferente.


Ela não precisa de tais luzes.
Na sua face enevoada brilha um deus.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Lírica Consumível

Armando da Silva Carvalho
Orientação gráfica: Espiga Pinto
Colecção Poesia e Ensaio nº 9
Editora Ulisseia, Lisboa, Dezembro de 1965

«Fragmentos de Uma Ideia Burguesa»

I

Visto a camisa. Depois distingo
o dia, usando um alfinete
sob a lomba das unhas.

Caiu-me já o tecto. Medi-o
nas paredes:
as quatro profecias.

Pasto: achado alado o logro
nos flancos de um polícia.

Rodas: de carro de poeta
de puta.

Medidas preventivas
até que chegue a noite.

II

Nasce um pensamento na garganta
como um filho. Enrodilho
o filho o pensamento
e a garganta.

Sofremos todos de moscas nos artelhos
eu deixei de ir à missa há mais de um ano
não brinco com os novos e farto os velhos
sacrilégios domingueiros, abortos
deste clima americano.

Não devia haver mais hermetismo
uma boca deslocando o sonho pela mão
e de repente nascermos assim todos
sem baptismo.

É que há uma origem frustrando nosso enlace
repentino com a morte e uma morte dividindo
nosso serviço
absurdo de ir andando.

Andando Armando a rima zune
e o pensamento afasta prejuízos
e só sorrisos são
a morte natural do entendimento.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

OLHAR AS CAPAS


Os Ovos D’Oiro

Armando Silva Carvalho
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Cadernos de Poesia nº 7
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

Mar de Peniche

1

Todos os dias
acordam
violadas
estas praias
que dizemos
virgens.

2

A chuva
esse suor
do mar
já não desfaz
a solidão dos homens
ou o piar dos corvos.


3

Mar de Peniche
onde os peixes se atiram
contra os barcos
e as grutas dos rochedos
nada acoitam.  

4

As traineiras
juntaram-se a dormir.
Mas o mar não esquece
e grita
contra a fortaleza.

5

O mar
sorveu
todo este dia
exausto.
E o que fica
da praia
são estas pedras
lassas
transidas
pelo sono.

6

O que
fica das pedras
é este mar
de sono
que os homens
já submersos
sorem
a curtos
haustos.

7

O que fica
da noite
são os presos
exaustos
que as pedras
dissimulam
e o mar
absorveu.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

OLHAR AS CAPAS



O Que Foi Passado a Limpo
Obra Poética
1965-2005

Armando Silva Carvalho
Prefácio: José Manuel de Vasconcelos
Capa: Maria da Graça Lampreia
Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2007

Aqui o inferno mata as profissões
Que têm acesso ao ar.
Diz-se que deus se absteve
De criar servidores para os condenados
Ao tédio.

Morre-se no emprego
Com a garganta apertada por uma mão
Sem ossos.

Aqui os anos crescem pouco ou nada.
Os dias e dias secam na raiz.
Não há horas felizes.

O sol sempre se deu bem com gente como esta
Que salpica de chuva os seus pequenos
Afazeres
Para ficar em casa.

Gente com plenos poderes
Para desmanchar a festa que se alonga
Para lá da cabeça.

Diz um: eu sou o sábio de domingo.
Agora não me ocupo de dias úteis, de remendos d’alma,
De fragilidades.
Esperem por mim mas só depois
Da missa.

Diz outro: a ética é grega de nascença
Movemo-nos por números, já sentenciava Pitágoras.
Não cunhamos moeda, não sujamos as mãos
Nos improvisados remos do naufrágio.
O nosso destino é perguntar.

Parece que deus quis que não nascesse a obra.
Nascer que nasça o sol
E é bastante.
Quem pergunta ao sonho pelo homem
De serviço?

Nos campos vicejam novamente as urtigas
São restauros agrícolas,
Exemplos a seguir, ordens vindas de cima,
Ao ouvido,
Na sala dos banquetes.

O mar faz de cão velho e deixa-se ficar
À espera no patamar dos mitos.
Ninguém o suporta
Nem ao seu uivar aos pés
Da história.

Comovidos estamos, com um não sei quê,
Um quanto, um como, uma dor
Que levanta asas
E vai do vale à montanha
Como vão os monges cavaleiros
À televisão.

Aqui a cidade abre-se para lá da noite
E é sempre belo ver a madrugada
A chorar os seus ídolos.

Aqui os que têm coração
Têm desconto. 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Três Vezes Deus

Ana Marques Gastão
António Rego Chaves
Armando Silva Carvalho
Prefácio José Tolentino Mendonça
Assírio & Alvim, Lisboa, Dezembro de 2001

Com os anos, a morte começa a desenhar-se
na calmia das tardes quando tudo parece
esperar as maçãs de um rosto glorioso.
Às vezes esquecemo-nos de tacar os sapatos.
Saímos para a rua com as meias trocadas pela alegria
e nos lábios o riso que combina bem
com a camisa do tempo.
Somos senhores do mundo.
Temos as medidas certas da terra
aberta à nossa frente.


Armando Silva Carvalho

sábado, 1 de agosto de 2015

TRANSUBSTÂNCIAS


À porta da tasquinha onde compro o tabaco
há sempre um rancho d’homens do Benfica.
Julgo até que cobram quotas para ficarem ali
a discutir estratégias e treinadores.
Quando entro, a meio da noite, a discussão
suspende-se e eles põem-se a tossir e a fazer tempo.
A velhota tem um ferro comprido
com que retira do alto das prateleiras
o maço de cigarros.
Existe uma luz fraca que deixa ver
as  caixas de bolachas e as garrafas de anis
cobertas de poeira.
Não sei porque perturbo aquele comício
de velhos reformados e jovens de blusão
que pousam sobre mim os seus olhos de somo de modo sobranceiro.
Sempre que quis fixar um rosto
ouvi  uma gargalhada ou murro sobre a pedra
das mesas com círculos de vinho:
não ando de sotaina pelas ruas
e o cabeção não me aperta o pescoço.
Começo a decorara os nomes desses apóstolos
que passam entre si uma hóstia
maciça e cobiçada.
E sei que um dia vou entrar naquela Tasca
e em vez de pedir o maço do costume
comungarei também a última jornada.

Armando Silva Carvalho

Legenda: fotografia de Valter Vinagre tirada daqui.  

quinta-feira, 11 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


12 Poemas Para Vasco Gonçalves

António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Casimiro de Brito, Eduardo Olímpio, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Gastão Cruz, J.J. Letria, José Barreiros, José Ferreira Monte, Maria da Graça Varela Cid, Maria Teresa Horta
Com um cartaz de Armando Alves e um desenho de José Rofrigues
Colecção O Oiro do Dia nº 9
Editorial Inova, Abril de 1976

A tua voz excessiva tornava-os mais pequenos.
Eles exigiam-te palavras untuosas,
as secas flores da jactância,
seu sono e alimento.
A verdade saía da tua boca iluminada
e eles tinham os ouvidos postos na mentira
no bocejo intrigante, na fala camuflada.
A tua voz recuada na origem não se perdia
nos afazeres verbais da litigância
não sabia a ganância.
Era o vento dos pobres sobre os metais do luxo.
Não te punhas a embalar o povo
como à criança que tarda a adormecer.
Atiravas-lhe à cara as palavras abruptas
um rosto incorruptível por marés de ferrugem
e gestos de morrer.

A tua fronte vasta tornava-os mais pequenos.
Nela despertava o susto das mães familiares,
o trigo parco dos homens nas tabernas
que te olhavam ingénuos vendo a seara crescer.
Ao colo dos pais os meninos sorriam
e os velhos viam coisas saltar dos teus cabelos.
Mas eras tu que soltavas a vida
amarrada a um poste como um burro de carga
a vida desavinda que os enraivecia
e que lhes dava um coice na pança saciada.

Aqui perde-se o tempo a trabalhar as lendas.
Mas o teu rosto não pode adormecer
sobre a toalha tépida que tece a tua ausência
onde derramo o choro e os outros vão beber.
Porque o teu pulso não suportava a febre
e erguia-se no ar como um pássaro agudo
que respirasse os ventos antes de partir.

Sobre o ladrar dos cães a tua voz alteia
como a papoula que o tempo não desfolha
a coluna de fogo que cai sobre a alcateia.
És o lagar imenso onde as uvas fermentam
sob os pés descalços e vivos da memória.
És a boca que a História utilizou por boca
o corredor onde o orvalho cresce entre a juventude
e os homens se passeiam com trigo na cintura.
Neste lugar de Inverno lembramo-nos de ti
como quem desperta.
Ninguém aqui precisa de recuar no tempo
nem das sereias que engolem o nevoeiro.
Ninguém aqui suporta que tu voltes
como um Desejado
com o seu cortejo de rotas feiticeiras
que gritem pelo teu nome junto aos becos do mar
com as suas luas gordas de saudade e preguiça.
Teu nome está de pé como um mastro
de cal rubra.
Estás aqui, entre nós, no meio do teu País.
Connosco vais contigo porque o povo assim o quis.


Armando da Silva Carvalho

segunda-feira, 30 de julho de 2012

SARAMAGUEANDO



OS DOIS DE LANZAROTE

Eram um casal aéreo, cruzavam aeroportos,
digo eu o delator, o escriba acocorado, e sigo-os
nas suas fantasias voadoras,
açambarcando as nuvens, os romances,
toda a luta de classes
nas longas, estreitíssimas passagens dos jactos
pelo céu alucinante e cru.
Um casal a encher uma península.
Ruídos pérfidos perseguiam a sua alta rota revoltada,
a ela lambuzavam-lhe os vestidos, transparentes,
abertos sobre as nuvens.
E a ele arrancavam-lhe os cabelos
agarrados ao cérebro.
Mas eles voam mais alto, no assombro, mais livres.
Só eu pareço agora um cão acabrunhado
nas coxias deste chão sem ar,
e os olhos presos naquela exuberância.
Eles são dois padrões erguidos na terra retalhada
pelos elegantes domadores da fala,
e do mar mediterrâneo.
Recordai, ó leitores, a exibição da ternura,
a estridência feliz dos abraços frente à multidão,
a imponência do sucesso a pulso.
Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica.
E o ar que acolhe os seus impulsos
com a firme decisão de fazer estremecer
o mundo.

Armando da Silva Carvalho em De Amore, Assírio & Alvim Lisboa 2012