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quinta-feira, 19 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando se fala na igualdade dos homens, não se pretende dizer que não há diferenças entre eles, mas sim que devemos respeitar essas diferenças.

Augusto Abelaira em A Cidade das Flores

quinta-feira, 1 de março de 2018

POSTAIS SEM SELO


O amigo ideal, eu pensaria que é aquele indivíduo que fosse capaz de me compreender sem eu ter de dizer palavras.

Augusto Abelaira em Conversas 

Legenda: Uma Thurman em Pulp Fiction

domingo, 24 de setembro de 2017

RELACIONADOS


A propósito deste Olhar as Capas, recuperamos um texto publicado neste Cais do olhar em 15 de Outubro de 2011:

Quando Manuel da Fonseca, publica Seara de Vento  encerra aí o seu grande percurso na prosa.

Segue-se um interregno de 10 anos, interrompido pela publicação do livro de contos Um Anjo no Trapézio.

Numa entrevista a Maria Teresa Horta publicada em A Capital de 20 de Junho de 1968 disse Manuel da Fonseca:

“Pouco depois de “Cerromaior”, escrevi um romance. Duzentas e tal páginas. Um sujeito que o leu, gostou. Eu não. Nem o publiquei. Agora, que já tinha “esquecido” o tal romance inédito, mas não as pessoas, nem os acontecimentos, dei-me à escrita, e as duzentas e tantas páginas ficaram reduzidas a quarente e nove. O título do conto é o mesmo do romance “Um Anjo no Trapézio”.

O livro foi muito mal recebido pela crítica.

Alice Vassalo Pereira escreveu no “Jornal do Fundão” de 28 de Julho de 1968:

Manuel da Fonseca publica pouco. Sabemos isso. Temos dele meia dúzia de livros, e um longo silêncio de cerca de dez anos entre a publicação do último – “Seara de Vento” – e a de “Um Anjo no Trapézio” que surge agora nas nossas mãos. Um longo silêncio apenas povoado, de vez em quando de reedições e trabalhos dispersos por jornais. “Um Anjo no Trapézio” é a palavra de quebrar o silêncio.
Mas (infelizmente) para certos casos o silêncio continua a ser de oiro. E por vezes (agora) a palavra nem de pedra é…

José Gomes Ferreira, nos seus “Dias Comuns”, 5º volume, no dia 14 de Junho de 1968 escreve esta entrada:

O Manuel da Fonseca publicou um livro novo: “O Anjo no Trapézio.
Ainda não o li, mas gelou toda a gente.
O João José Cochofel:
- É muito mau… Com as palavras derretidas.
O Augusto Abelaira, a medo, com a delicadeza natural de não dizer mal dos ausentes:
- “O Fogo e as Cinzas” é um livro formidável.
O Carlos de Oliveira sacode a cabeça apavorado com esta verificação:
É terrível! Pode perder-se o talento!
Desgosto de família.

Damos os pêsames uns aos outros. Sinceros.

sábado, 22 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Relâmpago

Nº 11
Número dedicado a Carlos de Oliveira
Colaborações:
José Ricardo Nunes, Manuel Gusmão, Pedro Eiras, Rosa Maria Martelo, Armando Silva carvalho, Augusto Abelaira, Eduarda Dionísio, Eduardo Prado Coelho, Fernando Lopes, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, José Manuel Mendes, Margarida Gil, Nuno Júdice, Urbano Tavares Rodrigues
Capa: Nuno Marques Mendes
Assírio Alvim, Lisboa, Outubro de 2002

De súbito, o Carlos de Oliveira pediu-me:
- Você por acaso tem aí um lápis?
Aquele “por acaso” impressionou-me, era indicativo de que, para ele, só por acidente um escritor usaria lápis (então eu ainda não publicara nenhum livro). E fui perguntando:
- Você esqueceu-se?
Para meu espanto, revelou-me que nunca, por nunca ser, trazia um lápis (ou caneta) na algibeira. O seu lápis era a memória, construía as poesias “na cabeça”. Alinhava e desalinhava as palavras na memória durante o dia, durante as horas do dia, e quando chegava a casa, era somente escrevê-las. Somente? Escrevê-las, reescrevê-las, quem conhece o Carlos sabe como é.
Então, com o lápis, para depois a Ângela as passar à máquina. Quantas vezes?

(Do texto de Augusto Abelaira)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...



Há um pequeno texto de Jorge Listopad, provavelmente publicado no JL, não encontro a data, muito bonito e em louvor das máquinas de escrever. Acredito que muito boa agente desconheça do que se trata:

Tinha um vizinho desconhecido. Mas ouvia-o a escrever à máquina às mais variadas horas nocturnas. Agora reina o silêncio. Pergunto: morreu? Foi raptado? Mudou-se? Comprou um computador?
Seja como for, celebro a memória daquela máquina de escrever, desconhecida.

Sabe-se que Fernando Assis Pacheco, uma das muitas suas imagens de marca, martelava o teclado da sua máquina de escrever HCESAR, apenas com o dedo indicador da mão direita e que se perguntava a Augusto Abelaira por que é que ele demorava tanto tempo a publicar um livro:

É que eu escrevo à mão e depois passo à máquina. Só que depois de uma primeira passagem à máquina vêm as modificações. Então é preciso passar tudo de novo à máquina.

Um dia hei-de falar da minha máquina de escrever, também uma HCESAR.

Está ali, naquele canto, a olhar…

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


- Não sei. O vento existe para as mulheres segurarem os cabelos com as mãos.
- E também para usarmos lenços de seda.
- Sim, o vento faz as mulheres bonitas. Os lenços de seda também.

Augusto Abelaira em Quatro Paredes Nuas

Legenda: Brigitte Bardot

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Comecei a fumar por snobismo e ainda hoje não gosto de fumar. Perdão, gosto de fumar por snobismo.

Augusto Abelaira em Quatro Paredes Nuas

Legenda: Natália Correia

sábado, 4 de fevereiro de 2017

RECADOS

Fernando Assis Pacheco em «Prontuário das Letras», habitual coluna que assinava no Suplemento Literário do «República» faz, aquando da publicação de «Quatro Paredes Nuas» uma curiosa abordagem, à prosa de Augusto Abelaira.
«República» 23 de Novembro de 1972.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

JOSÉ GOMES FERREIRA, POR ELE PRÓPRIO


No dia 14 de Março de 1969, José Gomes colocou nos seus Dias Comuns:

Telefonaram-me agora da Philips a convidar-me a gravar um disco para vender em Portugal e no Brasil. Aceitei em princípio.

A 18 de Março, volta ao assunto:

A voz dos poetas a dizerem versos nos discos…
Porque não o ranger das penas no papel?...
É talvez a verdadeira voz dos poetas.


Na véspera, não se sabe se a propósito do disco, escreveu uma só frase…

A vaidade entristece o mundo…

Entrada de 19 de Março:

Passei a noite a ler em versos em voz alta… Mas aconteceu uma tragédia. Como tenho dentadura nova, senti na boca uma mistura desagradável de palavras com favas sibilantes. E pedras. Vou fazer uma linfa figura de poeta tatibitates para a eternidade dos meses curtos!
E, sobretudo, não gosto dos meus versos. São do outro.


No dia 2 de Abril volta a falar do disco:

Ontem à noite comecei a gravar o meu disco. Voltei para casa fatigadíssimo e passei toda a noite excitado, sem dormir - com uma insónia de deus tenso.
Odeio a minha voz – solene, cantada, boa para sermões redondos. Lutei toda a noite com ela. Em vão! Não consegui torna-la num chicote rude.

No dia 18 de Abril:

Hoje almoço da gente da Philips com a da Portugália a propósito do meu Disco.
Almoço neo-capitalista no último andar do Hotel Eduardo VII com o panorama de Lisboa a comer connosco à mesa.
Almoço de comida complicada que me suscitou uma enorme sonolência…
- É o neo-capitalismo que conseguiu entrar em mim, para me atacar de dentro para fora… Para me adormecer… - expliquei ao Nikias esta tarde no Palladium.

O disco, com a referência 841 402 PY, teve produção de João Martins, reproduz uma fotografia de Nuno Calvet e inclui um encarte com a transcrição dos poemas ditos por José Gomes Ferreira, bem como palavras de Maria Teresa Horta, Carlos de Oliveira e Augusto Abelaira.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Escrevo para um leitor que invento, não me preocupa o número de leitores.

Augusto Abelaira.

sábado, 30 de janeiro de 2016

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Nos montes de papelada que andam pela casa, perdidos em pequenos montes, em pastas, fui dar com este anúncio de O Toni dos Bifes.
Não por acaso, mas por causa de Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira, cafés que fechavam para serem substituídos por dependências bancárias, falou-se aqui de O Toni dos Bifes.
O recorte não tem data, mas é fácil constatar que é uma data de antes do 25 de Abril,  porque o anúncio ostenta que O Toni dos Bifes recebeu um prémio do S,N.I. que era o ministério da propaganda da ditadura de Salazar.
Para além dos famosos bifes, também se podia degustar rancho à moda de Viseu, feijão com entrecosto, ensopado de lulas.
Tudo comida que sabia a comida e a léguas das modernices que agora nos impingem.
E agora já não está aberto aos domingos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

BOLOR


Augusto Abelaira foi buscar a um poema de Carlos de Oliveira o título do seu romance Bolor e utiliza o poema como epígrafe.

O poema, um lindíssimo poema, chama-se Bolor, faz parte de Cantata (1960) e está reunido em Poesias e também no  1º Volume de Trabalho Poético:

Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto,
os rostos a apagar-se
no frémito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor

Legenda: fotografia de Dorothea Lange

OLHARES


Aqui ainda é O Toni dos Bifes.

Um dos restaurantes mais antigos de Lisboa, na Rua Praia da Vitória, junto ao Saldanha.

Carlos de Oliveira morava no prédio ao lado de O Toni dos Bifes.

Almoçava por lá. Depois o Augusto Abelaira ia ter com ele, ou almoçava também, e depois iam para o Monte Carlo onde continuavam a aparecer mais escritores, pintores, cineastas, artistas de teatro e cinema.

Quando ainda havia cafés.

Os cafés eram locais privilegiados para as tertúlias.

 Locais de convívio e de escrita.

Augusto Abelaira terá sido o escritor que mas utilizou os cafés para a escrita dos seus romances.

Era vê-lo mergulhado na escrita/leitura de papeis, cachimbo em riste – podia-se fumar nos cafés, pois então!

Na Cister, na Alsaciana, na Coimbra, que ainda existem.

A primeira fase consiste em escrever, escrever, porque as fases seguintes, de reescrita e montagem, têm de ser em casa. Seria preciso andar com uma mala e espalhar muitos papéis.

Mais ainda:

Como eu escrevo nos cafés, o que eu precisava era que houvesse cafés para, durante a manhã, estar a escrever. Como os cafés vão desaparecendo, a possibilidade de escrever é cada vez menor. Quando todos os cafés tiverem desaparecido de Lisboa eu encerro a escrita. Deixo de escrever, isto é, vou morrer, quando fechar o último café em Lisboa onde possa escrever.


Jorge Silva Melo foi um assíduo frequentador dos cafés de Lisboa.

O seu livro de memórias No Século Passado está cheio de referências:

E era nos cafés, abertos desde manhã cedo e até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo isso se ia passando.

Também os Dias Comuns do José Gomes Ferreira estão cheios de referências dos cafés que frequentava com os escritores seus amigos e camaradas, cafés que iam fechando – naquele tempo com destino certo de dependências bancárias - e obrigava a arranjar outro refúgio.

Tal como no 4º volume desses Dias Comuns, José Gomes Ferreira conta:

6 de Janeiro de 1968

A Bel comunicou-me este triste recado do Carlos de Oliveira: o café Bocage, nosso ninho de longos anos Avenida da República vai fechar amanhã.

28 de Maio de 1968

Fechou o Martinho.
Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
- Mas será verdade’ – PERGUNTEI, INCRÉDULO.
- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no jornal da tarde.
Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do passado.
- E agora?
- Talvez o Paladium  nos restauradores.
- Pois seja o Paladium!


E nisto de cafés, no fechar da página, impossível não ir buscar o João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Em Dezembro de 1975 a «EVA» de Natal vendia-se nas ruas da Baixa e, entre os muitos prémios, havia 2 automóveis e 1 casa.
Sobre a «Eva» deNatal já aqui se falou. e o José Gomes Ferreira contava uma saborosa história.

O segredo do êxito do número do Natal da Eva que, conforme diz o Carlos atinge a tiragem de 200 000 exemplares, reside em ser uma espécie de bilhete da lotaria, a que pode sair, além duma casa completamente mobilada, vários automóveis, rádios, máquinas de lavar roupa, frigoríficos, etc., etc., etc. Um bilhete de lotaria, em suma, convenientemente camuflado com artigos literários, quadros do Menino Jesus, contos, reportagens da pesca do bacalhau, etc.
Ora como o povo tem a agudeza de descarnar as ilusões até ao osso das realidades e os ardinas são povo, encontraram este ano uma forma inteligentíssima de apregoar a revista. Assim:
- Joguem na «Eva»! Joguem na «Eva».
O Abelaira e eu, no autocarro, sorrimos encantados por sermos do partido do povo.


Em Dezembro de 1975, os portugueses ainda bebiam o seu cafezinho com MOSCA, imagem de marca de José Maria da Fonseca.
Nunca mais vi, nos supermercados, garrafas de MOSCA.
Os whiskis de pacotilha fizeram-na desaparecer.

Legenda: os dois anúncios são tirados da edição do Expresso de 1 de Dezembro de 1975.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

UMA PARTIDA MARCELISTA


28 de Abril de 1969

Ontem o 1º espectáculo deplorável do Salazar na televisão – escaveirado, com o lado esquerdo paralisado e a ler enrodilhadamente uma mensagem de que ninguém percebeu patavina.
O texto – vi-o hoje nos jornais - era o seguinte:
«O número de pessoas que se interessaram pela minha saúde e vida quando gravemente comprometidas, comoveu-me profundamente. É a primeira vez que me apresento em público e não podia deixar de ter no meu espírito todas essas manifestações de amizade, carinho e interesse para lhes render o tributo da minha gratidão. Deus foi infinitamente bom para com as nossas súplicas e demonstrações de aflição. Pedimos-lhe que continue a proteger-nos e a ajudar-nos.»
O Abelaira:
- Não há direito dos marcelistas pregarem esta partida vergonhosa aos salazaristas. Mostrarem-lhes um cadáver maquilhado para provarem ao país que o Salazar já não podia governar. O pobre coitado lá voltou para a cova.

José Gomes Ferreira no 7º Volume de Dias Comuns

sábado, 14 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


14 de Março de 1975

NESTE DIA, há 40 anos, o País surpreendia-se com a notícia de que o Conselho Superior da Revolução, como sua primeira grande decisão, nacionalizava todas as instituições de crédito bancário, com sede em Portugal e Ilhas Adjacentes, com pequenas excepções, atendendo à existência de filiais e bancos estrangeiros e caixas económicas e de crédito agrícola mútuo, que aguardarão lei especial.

General Vasco Gonçalves:

Penso que hoje é um dia histórico para o nosso povo. O 14 de Março fica gravado na história do nosso povo, como uma data que corresponde a um passo muito importante dado na sua libertação, na via do progresso, na via do País dominar os seus próprios recursos. Portanto julgo que hoje é um dia de alegria para todos, menos para aqueles que beneficiavam largamente com o sistema anterior vigente.

 O PPD, sublinha que substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa.

Mário Soares chama-lhe um dia histórico em que se pode assinalar que o capitalismo se afundou.

O economista Eugénio Rosa lembra:

É suficiente dizer, e só a título de exemplo, o que aconteceu até há pouco tempo com um banco. O grupo económico a que ele pertencia criou 15 empresas no mesmo edifício, com um capital social de 3.500 contos, a quem emprestou mais de 3 milhões de contos para que aquelas pudessem jogar em acções especulativas, sem qualquer interesse para satisfação das necessidades populares.

Jornalista Miguel Serras Pereira:

Aquilo que se fará com a estatização da banca é, sem dúvida, bem mais importante do que essa estatização em si mesma.

Economista Maia Cadete:

Era absolutamente necessário extirpar o mal pela raíz. E a raiz estava efectivamente podre. Como é sabido a banca constituía um «reino» reacionário com autonomia dentro de um Portugal já democrático.



Neste mesmo dia, a profª Isabel de Magalhães Colaço, Diogo Freitas do Amaral, Henrique de Barros, Rui Luís Gomes, Teixeira Ribeiro e Azeredo,  civis do estado apresentam a sua renúncia.

Também se fica a conhecer os militares que compõem o Conselho da Revolução:

Pinheiro de Azevedo, Rosa Coutinho, Carlos Fabião, Mendes Dias, Lopes Pires, Pinho Freire, Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Otelo saraiva de Carvalho.

Membros da Comissão Coordenadora:

Franco Charais, Canto e Castro, Pereira Pinto, Almada Contreiras, Miguel Judas, Vasco Lourenço, Pinto Soares, Ferreira de Sousa, Sousa e Castro, Pezarat Correia, Marques Júnior, Martins Guerreiro, Ramiro Correia, Costa Neves, Graça Cunha.

Os Bancos reabram amanhã.

QUEBRANDO um silêncio voluntariamente mantido nos últimos meses, o Capitão Salgueiro Maia dá uma entrevista ao jornalista Dinis de Abreu, publicada no Diário Popular.


Salgueiro Maia conta que ao principio da tarde do dia 11, deslocou-se a Tancos para dizer a Spínola que tudo aquilo era irracional e que o momento político não se compadecia com aventureirismos como aqueles que estavam a ser desencadeados.

Quando o viu, Spínola disse-lhe:

- Mas, então, você não está em Lisboa?

- Mas nós somos tudo menos malucos, e não compreendo como é que o meu general se mete numa alhada destas…

Salgueiro Maia fica com a ideia que o general está extraordinariamente mal informado, porque garantia que toda a situação era dele, todas as forças lhe obedeciam e que tinha sido levado àquilo por uma comunicação recebida nessa noite, através de uma lista de elementos a abater por determinada organização política; à cabeça da qual se encontrava com 500 militares e cerca de mil civis, numa operação designada por «Matança da Páscoa».

Salgueiro Maia desabafa a Dinis de Abreu:

Spínola está absolutamente irrecuperável. Na presente situação política, ele era para os seus adeptos um D. Sebastião. Agora, já não há D. Sebastião. É bom não esquecer  que ele foi um dos melhores generais e um dos piores como político.

Editorial de Augusto Abelaira na Vida Mundial:


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
Discursos – Vasco Gonçalves, Edição do Autor, Lisboa, 1976

Legenda:
- pormenor da 1ª página do Diário de Lisboa de 14 de Março de 1975;
- páginas centrais do Diário Popular de 14 de Março de 1975.

domingo, 11 de maio de 2014

AQUI, EM LISBOA CHATICE


  Na cave do Café Martinho onde agora nos reunimos
  todas as tardes – o Abelaira, o Carlos de Oliveira, o
  Manuel de Azevedo, o Vitorino Magalhães Godinho,
  Ontem, o Cardoso Pires. Aqui em Lisboa, chatice.

Que pena! não haver aqui senão barricadas de bocejos   
feitas com canecas de cerveja, amendoins, tremoços e teorias espreguiçadas,
sobretudo teorias com palavras lógicas de corações gelados, para salvar o mundo.
Salvarem-no do quê? - desde criança que peço às estrelas que
[ me perguntem
que crime cometi antes de me nascerem mãos.

Herdei-o como quem herda a morte, as árvores, o fogo
[ adormecido,
o pecado original,
a vida passada a papel químico.

Mas por favor não me salvem. Percam-me antes. Percam-me!
Prefiro andar aos tombos com a cabeça agredir os astros,
neste mundo que, como eu, não quer ser salvo,
mas despedaçado em pequeninas palavras enfim libertas,
soltas ao cimento fluido que as prende ao real do sonho.

Deixem-nas correr, correr livres e sem máscaras nas valetas
para se colarem a outras coisas e sonhos diferentes
de maneira que a Terra pareça mais nova
com cidades por enquanto construídas com saliva
de bocas de mulheres
- quentes do sangue das bandeiras
agitadas pelo bafo de amor do vento.

José Gomes Ferreira em Poesia VI, Diabril Editora, Lisboa, Fevereiro de 1976

Legenda: cave do Café Martinho. Fotografia tirada de José Gomes Ferreira, Fotobiografia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 2001

quarta-feira, 16 de abril de 2014

AUTOCOLANTES DE ABRIL


Estamos catalogados, estamos empalhados dentro de uma redoma de vidro, mergulhados num frasco com álcool, isolados de tudo e com um rótulo debaixo dos pés. O rótulo puseram-nos os outros; nós consentimos, acomodámo-nos e vamos vivendo com ele.

Augusto Abelaira         

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

EVA DO NATAL


A minha memória perde-se em mirabolantes detalhes de que não consigo encontrar uma leve ponta para trazer alguma claridade.

Há livros, discos, papeis, coisas, que não sei que tipo de sumiço levaram.

Uma dessas coisas são os números de Natal da Eva que todos os anos comprava a vendedores ambulantes que andavam pelas ruas da baixa.

Uma ponta de honestidade terá que ser dita e centra-se no facto de que comprava a Eva do Natal, não pelo seu director ser Carlos de Oliveira e grande parte da legião de colaboradores ser tudo gente de bom-tom, mas por causa do número da sorte, impresso num rectangulozinho, e que dava direito a sorteio com diversos e atraentes prémios.

Pesco uma história da Eva do Natal no 3º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira, também ele um colaborador da revista:

17 de Dezembro de 1967

O segredo do êxito do número do Natal da Eva que, conforme diz o Carlos atinge a tiragem de 200 000 exemplares, reside em ser uma espécie de bilhete da lotaria, a que pode sair, além duma casa completamente mobilada, vários automóveis, rádios, máquinas de lavar roupa, frigoríficos, etc., etc., etc. Um bilhete de lotaria, em suma, convenientemente camuflado com artigos literários, quadros do Menino Jesus, contos, reportagens da pesca do bacalhau, etc.
Ora como o povo tem a agudeza de descarnar as ilusões até ao osso das realidades e os ardinas são povo, encontraram este ano uma forma inteligentíssima de apregoar a revista. Assim:
- Joguem na «Eva»! Joguem na «Eva».
O Abelaira e eu, no autocarro, sorrimos encantados por sermos do partido do povo.

Legenda: A capa desta Revista da Eva do Natal de 1971, é uma cortesia de Mr. Ié-Ié.

sábado, 12 de outubro de 2013

QUOTIDIANOS


A memória de elefante que me gabava de ter, há já algum tempo que partiu para as pradarias. Hoje, debato-me com metade do cérebro adormecido, tentar lembrar nomes, datas, episódios e encontrar um amontoado de brancas, de vazio.

Por vezes, a meio da tarde, já não lembro o que almocei.

A memória é das coisas mais frágeis que há, ouve-se dizer e João Bénard da Costa escreveu que terá lido em Romain Rolland que Léon Tolstoi guardava a memória de coisas acontecidas tinha ele seis meses.
Lê-se nas Memórias Para o Ano 2000, a missão do homem na terra é lembrar-se.

Pois.
Sentir que estou a perder a memória e não basta murmurar: I’m old.

Augusto Abelaira à conversa com Mário Ventura:

A passagem dos anos, acho que inquieta todas pessoas. O que me mete verdadeiramente medo não é a morte, mas a velhice. A perde de faculdades – e eu sinto que algumas estou a perder, a memória por exemplo. Leio um livro, de que gostei muito, depois quero lembrar-me do que li, e de facto esqueci-me Não ficou cá. E dantes ficava.

Numa entrevista ao JL, por ocasião do lançamento do livro José-Augusto França:

Trata-se de um livro de rigor. Sempre que me lembrava de uma coisa, de alguém, ou de um acontecimento, tratava de reconstituir tudo o que existia à volta dessa lembrança. Consultei muitas agendas das de bolso, por exemplo. Guardo-as desde 1946, numa gaveta. Se me perguntar o que fiz no dia 14 de Fevereiro de 1957, posso-lhe dizer. Vou à agenda. De facto, em tantos perdi uma agenda em Paris, o que me tirou seis meses de vida.

Fosse o tipo meticuloso, organizado que gostava de ter sido, sabia hoje muitas coisas de que já soube mas lhes perdeu o rasto.

Bastava uma simples agenda.