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sábado, 21 de março de 2015

DINIS MACHADO



Faria hoje 85 anos.

Não se levava muito a sério, mas escreveu O Que diz Molero, o primeiro livro verdadeiramente moderno em Portugal e não precisou de escrever muitos mais para ficar na História da Literatura.

Um pouco à minha maneira considero O Que Diz Molero uma obra-prima.

Um livro bem gozado, do arco-da-velha.

Ou como escreveu o Luiz Pacheco: uma feira, um tropel de gente, uma festa popular de malucos e malucas tudo chalado, uma alegria enorme quase insensata.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A GUITARRA QUE TRAGO DENTRO DE MIM


A palavra por dentro da guitarra
a guitarra por dentro da palavra.
Ou talvez esta mão que se desgarra
(com garra com garra)
esta mão que nos busca e nos agarra
e nos rasga e nos lavra
com seu fio de mágoa e cimitarra.

Asa e navalha. E campo de Batalha.
E nau charrua e praça e rua.
(E também lua e também lua).
Pode ser fogo pode ser vento
(ou só lamento ou só lamento).

Esta mão de meseta
voltada para o mar
esta garra por dentro da tristeza.
Ei-la a voar ei-la a subir
ei-la a voltar de Alcácer Quibir.

Ó mão cigarra
mão cigana
guitarra guitarra
lusitana.

Manuel Alegre, Público, 24 de Julho de 2004

Legenda: fotografia de Augusto Cabrita no CD Na Corrente de Carlos Paredes, capa de Jorge Mourinha, EMI- Valentim de Carvalho

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Na guitarra de Carlos Paredes está tudo escrito. O amor, o trabalho, a rua, os rios e o mar deste país que descobriu meio mundo e se esqueceu de si próprio. Estão as vozes desta gente a que uns quantos teimam em chamar povo, esquecidos que o povo só existe nos conceitos de cada um. Estão os homens e as mulheres que todos os dias se desgastam à espera de um futuro biblicamente prometido, estão nos choros e a raiva de uma marginalidade que nunca navegou pelos uísques poluídos dos bares “soft-left” de segundo escalão.

Viriato Teles, semanário Sete, s/d

Legenda: fotografia de Augusto Cabrita no CD Na Corrente de Carlos Paredes, capa de Jorge Mourinha, EMI- Valentim de Carvalho

terça-feira, 21 de maio de 2013

POSTAL PARA AUGUSTO CABRITA



Volta depressa,
caçador da luz!

Volta para fixar
no barro claridade
o fruir de uma altura
a expressão de uma asa.

Volta depressa, Augusto.
Sem ti é tão escura
a nossa casa...

Mário Castrim

Legenda: Pormenor da construção das fábricas da UFA, no Lavradio, início da década de 50, fotografia de Augusto Cabrita, incluída no catálogo da Retrospectiva de Augusto Cabrita.

terça-feira, 7 de maio de 2013

OS FOTÓGRAFOS SÃO POETAS DA IMAGEM


Os fotógrafos são poetas da imagem. Assim, sou de opinião que, sendo um país de bons poetas, também somos um país de excelentes fotógrafos. Tinha que ser.

Quando miúdo, vivendo no Barreiro, volta e meia tinha de ir tirar as tais fotografias tipo passe. Não tinha escolha de fotógrafo. A família toda recorria a um que tinha estabelecimento montado, pertinho de casa, junto à Sociedade Os Penicheiros. Questões de amizade (o meu tio era íntimo amigo da casa). Eu lá ia, tinha que ser, molhando constantemente a mão para a passar pelo remoinho no cabelo para ficar menos mal no retrato. Sempre enfadado com os preparos das poses. Que, depois, compensava nas miradas narcisistas sobre a obra feita em que servira de modelo e em que achava que tinha ficado bem, tirando é claro os defeitos congénitos sem emenda – o remoinho que não vergava (em solidariedade com a rebeldia de trato) e as orelhas espetadas, tipo abano, que os puxões de reprimendas por maldades infantis iam acentuando com o passar do tempo.

O fotógrafo era o Senhor Cabrita. Tratava-me simpaticamente, olhar cheio e límpido, procurando pôr-me à vontade, trocando impressões sobre como iam as coisas no nosso Barreirense. Essa paixão pelo mesmo clube de coração fazia ponte entre gerações ou o quer que fosse e era mezinha para construir uma rápida amizade.

(Na altura, dois quaisquer barreirenses de cepa tinham, pelo menos, quatro ódios verdes em comum: o Desportivo da CUF - o clube do Patrão; o Sporting -o clube da Legião; a GNR - a opressão visível na Vila; a Legião Portuguesa - o braço do Salazar. E o Barreirense era, então, o único expediente consentido para se andar com uma bandeira vermelha na mão.)

Ele era um homem culto, de riso aberto e com um olhar que se via que estava para além do pequeno estabelecimento onde ganhava a vida. Enquanto vivi no Barreiro, nunca recorri a outro fotógrafo que não fosse o Senhor Cabrita.

Mais tarde, o Senhor Cabrita (melhor dizendo - Augusto Cabrita) (com o devido respeito – Mestre Augusto Cabrita), galgou espaços para além da sua lojeca e do mundo das fotografias tipo passe, desatou a fotografar por aí fora, tornou-se reconhecido, começou a recolher prémios e a tornar-se famoso. Fez nome no cinema (no Belarmino do Fernando Lopes) e na televisão através de inúmeras reportagens. Fotografou o Barreiro e as suas gentes, que ele amou bem do fundo, só reconhecível hoje através das suas geniais fotografias. De fotógrafo passou a Artista. De Artista a Génio. Por exemplo, os rostos de Amália e de Carlos Paredes só se entendem como rostos, olhando estes monstros da música através das fotografias de Mestre Augusto Cabrita (talvez porque, além da fotografia, ele cultivasse a música de piano). Foi, apenas, um dos melhores fotógrafos portugueses de todos os tempos. O Maior, segreda-me, em reprimenda, a emoção dos meus afectos. Mas, neste caso, o afecto não exagera, apenas sublinha.

Por tudo isto, recomendo a Mestre Augusto Cabrita.

Texto retirado de Água Lisa, o blogue de João Tunes

Legenda: No Clube Naval, a prancha de saltos.
Fotografia retirada do catálogo da Retrospectiva de Augusto Cabrita.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

MESTRE AUGUSTO CABRITA


De vez em quando pedem-me para falar de Augusto Cabrita. É claro que não enjeito o serviço, mas depois fico por aqui, aflito, até à última hora do último dia do prazo, a tentar ser digno da sua memória, na esperança sempre frustrada de superar a minha pequenez para poder atingir a sua grandeza.

Hoje, também não é excepção. Olho à volta as mil recordações dele que perduram nesta casa, e a dor violenta de o ter perdido volta com a intensidade de sempre ao meu coração. Se não fosse a esperança de saber merecer a honra da sua amizade desistia agora mesmo.

Assim, sem recurso e sem talento, sem ofício de escrita que justifique a pretensão para falar de um génio, neste caso do homem que foi conhecido e reconhecido como o maior fotógrafo português, do artista que deslumbrou todos como cineasta, do senhor culto que escreveu admiráveis lições de ternura pelo mundo, resta-me apenas deixar aqui expresso o testemunho da primeira lição e recordação fantástica do dia em que o conheci.

Era um dia de Verão, no Alentejo. Calor insuportável. Inauguração típica do regime. Eu, jovem repórter à procura de postura no meio de uma multidão de gente. Num "ponto" sempre diferente de todos os outros, um cameraman empunhava uma Paillard Bollex 16 mm com uma emoção como nunca tinha visto. Contas feitas às minhas referências de novato, cedo concluí que estava perto do homem cuja obra admirava profundamente: O Augusto Cabrita.

Almoçámos juntos, e estabelecemos de imediato uma amizade que não teve fim. Ficámos a conversar o resto do dia e ao fim da tarde, na despedida, perguntei-lhe: Mestre, qual é o segredo? O Augusto deu­-me a primeira lição: Primeiro, é preciso saber olhar, depois é preciso uma tensão sobre o acontecimento. A fotografia acontece quando a vida fica suspensa e eterna.

Depois de este mágico dia da minha vida passaram-se muitos anos. O Augusto ficou para sempre a maior referência da minha profissão e o meu melhor amigo.

Ensinou-me a olhar, mas não me ensinou a viver com a saudade e a tristeza que o seu desaparecimento deixou na minha vida
.
António Homem Cardoso, depoimento no Catálogoda Retrospectiva de Augusto Cabrita.

Legenda: Populares vèem televisão, finais nos anos 50, no estabelecimento do Calçada, na Rua Eusébio Leão, esquina com a Rua Futebol Clube Barreirense, fotografia de Augusto Cabrita.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

OS DIZERES DO OLHAR


Augusto Cabrita é uma maneira de olhar. É, também, uma maneira de dizer. Há, pois, uma maneira de olhar e uma maneira de dizer chamadas Augusto Cabrita. É o toque, o tom, o estilo, a dedada pessoal e intransmissível deste artista singular, que «diz» os rostos (por exemplo: os rostos de Belarmino e de Amália Rodrigues, Ary dos Santos, Lopes-Graça, José Gomes Ferreira) como se nos rostos houvesse, invisíveis, todas as vitórias e todas as derrotas de uma vida: a questão é descobri-las. Deste artista singular que «olha» o homem, o rio, o voejar grotesco das gaivotas, as tarefas das mulheres, os hangares, os armazéns, os movimentos inseguros das crianças, os cirros das nuvens, os vapores, como uma teoria de conjunto.

Nas fotos de Augusto Cabrita, como nos filmes de Augusto Cabrita, não há espaços neutros, vazios, inertes. Está lá, sempre e sempre, essa maneira de olhar e de dizer as coisas que recusa o banimento da criatura humana, mesmo quando a criatura humana (aparentemente) não figura na foto ou no filme. Esse cuidado pelo «conjunto», essa norma de não separar uma coisa da outra, essa maneira de dizer humanidade, homem, humanismo, humano - esse olhar, direi: musical, isso: esse olhar musical que Augusto Cabrita lança, docemente, sobre tudo o que é humano, atribuem à sua arte uma sedução e um fascínio incomuns.

A fotografia, em Augusto Cabrita, não é um objecto sem direcção nem sentido. E a câmara (seja ela fotográfica ou cinematográfica), nas suas mãos, toma partido. Quero dizer: não se limita à fria objectividade da câmara-olho, tão cara a Dziga Vertov; nem à decomposição laboratorial, tão cara a Henri Cartier-Bresson

Augusto Cabrita, a câmara de Augusto Cabrita parece edificada em «húmidas ternuras» (Raul Brandão dixit): um olhar, um dizer amor e um dizer olhar como se tudo pudesse caber no instante supremo em que dispara a máquina.

Cabrita não coisifica nem deifica o humano. Cabrita, através da sua arte seca, expungida, magistral (vejam-se as fotografias que ele «olhou» e «disse» para o romance de Carlos de Oliveira, «Uma Abelha na Chuva/Edições Dom Quixote), vai-nos sugerindo, através de mil pistas e de mil indícios, que só os bichos e os deuses podem viver sós. 0 homem, esse, nunca.

Baptista-Bastos, depoimento no Catálogo da Retrospectiva de Augusto Cabrita

Legenda: Futebol Ballet, fotografia de Augusto Cabrita

domingo, 28 de abril de 2013

A FOTOGRAFIA É UM OLHAR NATURAL


Nos finais das tardes de segundas-feiras, terminado o alinhamento do Juvenil, os passos do Mário Castrim, estendiam-se para a Pastelaria Orion, ali no cimo da Calçada do Combro: um copo de leite, torrada, a que se seguia uma bica escaldada.

Ali ficávamos à conversa.

                                             Chamava-se

                                             Orion o café
                                             onde encontrava à tardinha
                                             A minha última namorada. (1)

Numa dessas tardes de segunda-feira, já com um pé na Rua Luz Soriano:

- O Augusto Cabrita está à nossa espera.

A ideia era fazer um dos Encontros do Juvenil com a exibição do Belarmino do Fernando Lopes.


Foi a única vez que privei com Augusto Cabrita.


Fiquei com a sensação estranha que há homens que não são deste mundo.

.
Uma humildade desconcertante, um rosto quase a pedir desculpa do que tem para dizer e admite que o que diz não tem importância para quem ouve.

Não se consegue desviar o olhar, face a um rosto daqueles.

Assim como o Carlos Paredes, lembram-se?

Também o Artul Bual, alguns outros, não muitos, com essa arte de, apenas, quererem mostrar as maravilhosas obras que faziam, nunca se colocando em bicos dos pés, um horror a holofotes que, de imediato, lhes provocavam aceleradas fugas.


Não foi longa a conversa.

O Mário Castrim tinha – sempre! - de ir a correr para a casa, esperava-o a televisão a preto e branco da ditadura, para que no dia seguinte, no Diário de Lisboa, pudesse sair o Canal da Crítica, sistematicamente com cortes, por vezes, totalmente cortado, pelos lápis azuis manejado pelos coronéis da censura, analfabetos, crápulas sem nome, às ordens de Salazar, depois Marcelo Caetano.

As fotografias do Augusto Cabrita reflectem o homem que sempre foi: atento, sensível, aquele perfume a neo-realismo, que tantos e tantos não gostam - nunca gostaram! -  de cheirar.

Uma verdade frontal em cada fotografia tirada ao quotidiano do povo, a dureza da vida das gentes do seu Barreiro.

Uma ternura desarmante, um olhar único e tocante.


A retrospectiva da obra de Augusto Cabrita continua patente, no Auditório que no Barreiro tem o seu nome, até ao dia 2 de Maio.

Legenda: o título é uma frase de Augusto Cabrita.
A Arriflex IIB 35mm, com tripé Arriflex IIB, que se vê na imagem, foi utilizada nas filmagens de
Bernardino.

(1) - Versos do poema Ali se Via o Mar em  Poemas do Avante de Mário Castrim, Edições Avante, Lisboa Agosto 1998.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

RETROSPECTIVA DE AUGUSTO CABRITA


Ainda sou do tempo em que os jornais, para além das páginas diárias dedicadas à cultura, tinham suplementos literários, normalmente publicados às quintas-feiras. Pela sua qualidade merecem destaque os de O Comércio do Porto e do Diário de Lisboa.

Hoje, com os jornais nas mãos de grandes grupos económicos, a cultura foi, por completo, banida, bicho peçonhento que não merece que se perca seja que tempo for.

Tardiamente, dei conta, por uma nota publicada por Jorge Calado no Expresso de que, desde 2 de Fevereiro, está patente no Auditório Municipal que, no Barreiro, tem o seu nome, uma exposição retrospectiva da obra de Augusto Cabrita.

A exposição está aberta até ao próximo dia 2 de Maio.

De, e sobre, Augusto Cabrita, por aqui, iremos falando.

Legenda: Capa do catálogo da Exposição de Augusto Cabrita
               A fotografia tem o título Neve no Barreiro, 1953

sexta-feira, 13 de julho de 2012

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

Qual foi a sua primeira fotografia?

Respondeu:

Comecei a fotografar muito cedo. Um dia, tinha então cinco anos, fui acordado pelo barulho das sirenes, no Barreiro, terra onde nasci. Um clarão enorme transformava as silhuetas das pessoas. Era o holocausto: o cinema da terra estava a arder. Foi a minha primeira fotografia. Sem câmara. No meio das cinzas descobri, pouco depois, a carcaça fumegante da pianola que tocava as Valquírias durante as fitas mudas. Alguém disse: «A pianola está a tocar sozinha!» Foi a minha segunda fotografia.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI




Sempre acontece assim:

Ninguém, até hoje, me empresta tanta comoção como Carlos Paredes.

 E é vasto o meu panteão de gente de que gosto

Não apenas pela sua genialidade, o seu virtuosismo, mas também a sua coerência, a sua postura perante a vida, os ideias que cedo abraçou e nunca mais abandonou, uma modéstia arrasadora que levou um dia Amália Rodrigues a dizer que só lhe apetecia bater.

Ouvir Carlos Paredes é sentir todo um país, este que a que, volta e meia, emprestamos arremedos de amor e ódio.

Carlos Paredes era um dos clássicos do meu pai.

Foi ele que comprou todos vinis e considerava-os arrepiantes

Ficava com os olhos molhados quando ouvia “Guitarra Portuguesa” e era esse o disco que aqui eu devia colocar.

Mas será este e passo a explicar.

Uma mensagem enviada de Serajevo, o Pedro a perguntar-me se eu tinha o “Movimento Perpétuo”, na volta eu a dizer que não, já o tivera, mas o disco, emprestado que foi, pelas artes do costume, não retornou à casa pai, ele a finalizar a conversa: “comprei dois, levo-te um quando for a Lisboa.”

Está aqui.

Este lindíssimo disco do Príncipe que nos calhou em sorte, Carlos Paredes de seu nome.
Um tempo feliz, porque uma coisa é ter discos, outra coisa é esses discos serem de vinil, e só quem foi do tempo do vinil, sabe do que estou a falar.

Obrigado, Pedro!

Como isto anda tudo ligado, não fica mal colocar aqui um texto do Mário Viegas, escrito pata uma homenagem que, em 1993, o TEL fez a Carlos Paredes.

A mensagem está incluída na "Auto-Photo Biografia" de Mário Viegas:

“Conheci Carlos Paredes no Pólo Norte … Exactamente! Numa viagem “Mágica” de avião que atravessou esta bola imensa em que vivemos, a caminho do Japão, em 1970, com a Companhia do Teatro Experimental de Cascais.
Lembra-se Carlos, da nossa noite perdida no “bas-fond” de Osaka? O que nos divertimos!!!
É que Carlos Paredes é não só um músico genial como um conversador imparávelel, um homem cultíssimo, um namoradeiro incorrigível, um eterno apaixonado, o maior distraído do Globo terrestre, que atravessou sempre a vida de gravata, máscara de uma enorme humildade e violenta coragem física e crítica.
Se a “Cantiga é uma Arma”, as suas guitarras são e foram um dos maiores canhões contra o fascismo e a indignidade!
Tive a honra de viver com ele espectáculos e convívios que não me esqueço. Mas sem os querer maçar, gostava só de recordar um dos momentos mais comoventes da minha vida. O primeiro espectáculo que se fez dentro dum quartel depois do 25 de Abril, na noite de todos os nossos Primeiros de Maio. No quartel do Campo Grande, onde durante dois anos me embebedava com o horror da estupidez da tropa, como pseudo-oficial miliciano…
Sem hesitar, o Paredes aceitou ir tocar no refeitório e eu a dizer poemas, pela lª vez em Liberdade. E ao ver aquelas centenas de trabalhadores-fardados a aplaudir de pé, a chorarem, a inutilidade da Poesia e das notas de uma guitarra, tive a certeza que ainda podemos servir para alguma coisa como artistas.
Beijinhos Paredes e copiando o seu inimitável estilo, só lhe resta dizer entre o surpreendido e o desajeitado

“Oh amigo!!!”


Nota do editor: o ano da edição em vinil é 1971.
A fotografia da capa é de Augusto Cabrita.
Carlos Paredes é acompanhado por Fernando Alvim na viola e Tiago Velez na Flauta.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O QUE DIZ MOLERO


No semanário  Sete, de 13 de Julho de 1978, Dinis Machado começa assim uma sua crónica:

Um dia, a long time ago, como dizia Ed. G. Robinson mascarado de gangster nostálgico já não me lembro em que fita, abri os olhos. Fiquei espectador.

Esse dia de Dinis Machado ficar espectador, aconteceu em Lisboa, levava o Março de 1930, 21 dias.
Andou escondido num tal de Dennis McShade e escreveu três policiais. Um dia abalançou-se a um outro género, deu-lhe o título  de O Que Diz Molero e colocou-lhe nome próprio. Luiz Pacheco, com o seu olho de águia, topou o livro à primeira, botou crítica no suplemento literário do Diário Popular e o livro, logo no ano de publicação, 1977,  teve cinco edições – um enorme sucesso de público e crítica.

No 10º aniversário da publicação de  O Que Diz Molero, Dinis Machado deu uma entrevista ao JL em que humildemente reconhece que não estava preparado para o sucesso do livro. A jornalista pergunta-lhe se o êxito do livro não o estimulara a escrever, durante esses dez anos, mais nenhum romance.

Paralisou-me. Embora o meu projecto, desde miúdo, fosse fazer um livro memorável, não compreendi o que se estava a passar. Perdi sentido crítico.

Volta e meia volto a  O Que Diz Molero.

Dizia o Helder Piunho que um livro como este só poderia ter sido escrito em Lisboa e por quem a conhecia muito bem , por dentro, por fora, palmo a palmo.

Então a tua tia chalou?, perguntou um dia o Zuca", disse Austin "como é que ela faz?, tem ataques?, é maluca de ter de ficar atada?, de ter ataques com espuma na boca ou é só maluca de não ligar a nada?, o rapaz disse que era maluca de falar em comboios e em serradura, que era um bocado triste e não fazia mal a ninguém, fazia-lhe impressão porque ela já não o conhecia, estava paradinha no banco de lona, então o Bertinho Ranhoso dizia que os malucos com uma grande calma às vezes eram os piores, estão com uma grande calma e só pensam em meter facas no bucho das pessoas, o Peida Gadocha dizia que também tinha uma tia maluca, mas era só maluca de comprar vestidos, tinha mais de quatrocentos vestidos, comprava os vestidos e passava-lhes a mão, era maluca de passar a mão pelos vestidos, o Zuca dizia que quatrocentos vestidos era uma peta das antigas, isso ninguém tinha, o Peida Gadocha dizia que se não eram quatrocentos eram duzentos, isso não interessava, ela era chalada de mexer nos vestidos e de estar sempre a dizer está bem mas tenho de mudar de vestido, dizia os meus vestidinhos, os meus vestidinhos, depois ficava nervosa e ia comprar mais vestidos, o Mané Borbulhas dizia que tinha um tio e uma tia que ficaram malucos ao mesmo tempo, foi por causa de uma roca, ele tinha uma roca em cima da mesinha-de-cabeceira, ela começou a embirrar com a roca, que ele gostava mais da roca do que dela, ele disse que nem ligava à roca, estava ali porque tinha um feitio giro, tinha-a comprado na Feira da Ladra, mas para a chatear começou a cantar uma música que é a Traviata com versos a falar da roca, que lindo som que esta roca tem, tatati, tatatitati, ela para se vingar escondeu-lhe as calças e ele não podia sair de casa, cantava a Traviata à procura das calças, e ao fim de três dias chateou-se e saiu para a rua em cuecas e a tocar a roca, foi logo engavetado pelo polícia, a família toda foi à esquadra, a minha mãe levou-lhe umas calças do meu pai, mas ele não quis, que ficava em cuecas e a tocar a roca enquanto não lhe dessem as calças dele, a minha tia disse que lhe dava as calças se ele deitasse a roca fora, depois fizeram as pazes, o meu tio deu a roca à minha mãe, que ma deu a mim, era eu puto, eles depois deixaram de ficar malucos, a roca é que os chalava, o Zuca então dizia que também tinha um tio maluco, andava sempre de boca aberta e a pensar em nada, era despedido dos empregos porque o apanhavam de boca aberta e a pensar em nada, andava aí pelas ruas com livros debaixo do braço, vai lá a casa só no Natal, dizia ele, no último Natal ficou de boca aberta no meio do jantar, fez-me uma festa na cabeça e foi-se embora, deixou a perna de peru no prato, às vezes encontro-o e faz-me uma festa na cabeça, depois ficamos a olhar um para o outro, pergunta-me se eu já ando na escola, eu começo a falar e ele fica de repente de boca aberta, faz-me outra festa na cabeça e vai-se embora, ninguém consegue falar com ele, desliga quando lhe dá o aparte de ficar de boca aberta e de pensar em nada, o que ele gosta é de dar milho aos pombos nas praças, um dia o meu pai deu-lhe uma grande descompostura, disse-lhe o piorzinho, e depois no fim perguntou-lhe e agora o que é que vais fazer?, vou dar milho aos pombos, disse ele, fez-me uma festa na cabeça e foi-se embora de boca aberta, parece que os pombos é que o conhecem bem, poisam-lhe nos ombros e na cabeça, comem o milho da mão dele, um emprego de dar milho aos pombos é que era bom para ele, às vezes ele anda aqui no Largo do Navegante a dar milho aos pombos muito satisfeito da vida, anda de largo em largo, senta-se nos degraus das estátuas e põe-se a ler uns livros que ninguém percebe nada de um gajo chamado Pessoa, não é o António Pessoa, porque esse é o das balanças, é outro, se calhar é um livro sobre pombos, não sei, uma vez foi para a tropa e desertou, foram dar com ele numa praça a dar milho aos pombos, perguntaram-lhe porque é que ele tinha desertado e ele disse que marchar lhe fazia bolhas nos pés, acabou por ser preso e apanhou uma data de castigos, mas punha-se de boca aberta e não ligava a nada, depois mandaram-no para um manicómio e foi uma grande confusão, o médico perguntou ao meu pai se o meu tio tinha uma coisa que era intermitências não sei quê, o meu pai perguntou ao meu tio se ele tinha essas intermitências, o meu tio perguntou de que cor?, depois viram-lhe a língua e os olhos, ele nos intervalos perguntava ao enfermeiro não se importa de me dar o meu Pessanha?, que é um livro de outro gajo, o médico fazia-lhe perguntas para malucos, mas ele não ligava, só ligava ao Pessoa e ao Pessanha, queria era ficar de boca aberta a pensar em nada, devia sentir a falta dos pombos, acabaram por mandá-lo embora porque não havia lugares, os lugares eram precisos para os malucos assassinos e para os que espumam da boca, vai lá a casa no Natal, agora mesmo está ele, até aposto, a dar milho aos pombos num largo qualquer, a ler livros e de boca aberta, há malucos à brava mas não são perigosos, o meu pai diz que o Bigodes Piaçaba é maluco de ajudar os pobres, de querer pias limpas e banheiras e de acabar com os percevejos, de fazer umas grandes fitas com os senhorios e de querer endireitar o mundo, é um maluco que pensa nas coisas, em escolas e em hospitais, há malucos com outros apartes, de andarem a falar sozinhos ou de arriarem sempre do melhor, como o Joca Farpelas, ou de fazerem discursos que não interessam nada, e os malucos de contar o dinheiro, contam o dinheiro quinhentas vezes, depois falta-lhes um tostão e voltam a contar, se a porra do tostão não aparece até ficam doentes de cama, e os malucos de tocar pífaro só gostam de estar a tocar pífaro e o resto não interessa, todos os gajos têm um tio maluco, às vezes há gajos que têm uma data de malucos na família, o Padeirinha diz que a avó dele é maluca de dizer que lhe roubam coisas da caixa da costura, os dedais, as agulhas e os botões, um dia foi cá uma fita por causa de um botão de madrepérola, o avô do Padeirinha foi aos arames e disse que queria que o botão se fodesse, e bateu com a porta como de costume, o Padeirinha anda sempre a arranjar a fechadura, pede à avó que acabe com a mania que lhe roubam a caixa da costura e ao avô para não bater com a porta, mas eles não ligam, os malucos não ligam, é esse o aparte deles, até a minha mãe um dia acordou maluca, subiu-lhe à cabeça uma coisa que é a ureia, começou a dizer ao meu pai que andava um cágado nas dunas, o meu pai à rasca dizia um cágado nas dunas?, um cágado nas dunas?, levou-a para o hospital das pernas partidas, conhecia lá um enfermeiro, o meu pai começou a dizer às pessoas todas que a minha mãe dizia que andava um cágado nas dunas, uma enfermeira disse que ali era o hospital das pernas partidas, das doenças de pus e coisas assim, dizia que as doenças de cágados nas dunas era no manicómio.

Legenda: Esta fotografia de Dinis Machado é da autoria de Augusto Cabrita, seu cunhado.

sábado, 3 de abril de 2010

CANTILENA

ORFEU ATEP 6325
Fotografia de Augusto Cabrita.

Cantilena - Sebastião da Gama/Padre Fanhais
Juventude - João Apolinário/Padre Fanahis
Areia da Praia - Manuel Pina/Padre Fanhais
Canção do Vento - Trecho biblico/Adaptação Pedro Lobo Antunes

Em 1969, um padre, Francisco Fanahis de seu nome, apareceu no Programa Zip-Zip, a cantar a balada Cantilena, com música de sua autoria, para um poema de Sebastião da Gama.

Nesse mesmo ano publica o EP Padre Fanhais.

Vindo do sector progressista da Igreja Católica, o Padre Fanhais desenvolve trabalho político contra a ditadura. Proíbem-no de cantar, exercer o sacerdócio e dar aulas nas escolas oficiais.


Em 1971 emigra para França e, após o 25 de Abril, regressa a Portugal e passa a colaborar nas Campanhas de Dinamização Cultural do MFA.

Cantilena

Cortaram as asas
ao rouxinol !
Rouxinol sem asas
não pode voar.

Quebraram-te o bico,
rouxinol !
Rouxinol sem bico
não pode cantar.

Que ao menos a Noite
ninguém, rouxinol !
ta queira roubar.

Rouxinol sem Noite
não pode viver...



sexta-feira, 2 de abril de 2010

CARLOS PAREDES É NOME DE GUITARRA

CARLOS PAREDES GUITARRA PORTUGUESA
COLUMBIA SPMX 5002
Editado em 1967
Acompanhamento à viola de Pedro Alvim
Fotografia de Augusto Cabrita

Tinham palavras as músicas, havia poemas recitados e havia música sem palavras.

A música de Carlos Paredes, este LP de capa preta, a acompanhar os dias a caminho de um tal Abril.

Lado 1
Variações em Ré Maior – Porto Santo – Fantasia – Melodia Nº 2 – Dança – Canção Verdes Anos
Lado 2
Divertimento - Romance Nº 1 – Romance Nº 2 – Pantomina – Melodia Nº 1

Ouvir Carlos Paredes é voltar sempre aos verdes anos, àquele mudar de vida. Sentir a ofegante respiração em cada espira dos seus discos, um respirar de dignidade, de carácter, de génio, um corpo dobrado sobre uma guitarra.
“Gosto demasiado da música para viver às custas dela.”, disse, um dia, com aquela desconcertante simplicidade que o acompanhava a todas as horas.
Rui Vieira Nery chamou-lhe “um príncipe”.

Dele disse José Saramago:

“Não o pensava antes, quando escutava a guitarra de Carlos Paredes, mas hoje, recordando-a, compreendo que aquela música era feita de alvoradas, canto de pássaros anunciando o sol. Ainda tivemos de esperar uma década antes que outra madrugada viesse abrir-se para a liberdade, mas o inesquecível tema de Verdes Anos, esse cantar de extática alegria que ao mesmo tempo se entretece em harpejos de uma surda e irreprimível melancolia, tornou-se para nós numa espécie de oração laica, um toque a reunir de esperanças e vontades. Já seria muito, mas ainda não era tudo. O resto que ainda faltava conhecer era o homem de dedos geniais, o homem que nos mostrava como podia ser belo e robusto o som de uma guitarra, e que era, a par de músico e intérprete excepcional, um exemplo extraordinário de simplicidade e grandeza de
carácter. A Carlos Paredes não era preciso pedir que nos franqueasse as portas do seu coração. 

Estavam sempre abertas.”

“Canção Verdes Anos”, que Carlos Paredes escreveu para o filme de Paulo Rocha “Os Verdes Anos” (1963) tem poema de Pedro Tamem:

Era o amor
Que chegava e partia
Estarmos os dois
Era um calor, que arrefece
Sem antes nem depois

Era um segredo
Sem ninguém para ouvir
Eram enganos e era um medo
A morte a rir
Dos nossos verdes anos

Foi o tempo que secou
A flor que ainda não era
Como o outono chegou
No lugar da primavera

No nosso sangue corria
Um vento de sermos sós
Nascia a noite e era dia
E o dia acabava em nós