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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

POSTAIS SEM SELO



Amanhã fico triste,
Amanhã.
Hoje não.
 
Hoje fico alegre.
E todos os dias,
por mais amargos que sejam,
eu digo:
Amanhã fico triste,
hoje não.
Para hoje e todos os outros dias!


Poema encontrado na parede de um dos dormitórios de crianças, em Auschwitz

INDIGNAÇÃO


O horror calou tudo, declararam.
Depois de Auschwitz
Continuámos a falar, porém – sem ambição.
Reconhecendo o inalcançável,
Baixando o olhar.
Pois o que pode a fala? Por que dizem
Que, cantada, faz de arma?
Se com ela não nos municiamos.
Se, com a morte de uma Grécia antiga,
Perdemos o condão de nomear
Deuses e sentimentos e até
As pequenas moléculas, enfim, nomear o real
Que, naquele caso, incluía o tremendo e a maravilha?
Esses, os que levavam para a praça
Quezílias, sim, projectos e também,
E, sobretudo, uma noção de polis
E de uma paridade vigiada,
Severamente vigiada.
Os Gregos, esses
Que narravam o medo para que o medo
Se tornasse visível, prisioneiro
Na teia do poema,
Se não compreensível, pelo menos
Transformado em espectáculo – essa Grécia,
Essa Atenas perfeita, mais perfeita
Que qualquer utopia, a rapariga
Inesperadamente transformada
Numa ruína,
Esses – que não existem
E nos deixaram assustados, sós,
Sob o sem-rosto, sós,
Sem as ferramentas adequadas,
Sem pensamento,
Sem esses deuses temperamentais
Que tomavam partido nos combates,
Nós, os abandonados, os que não
Sabem sequer como aplacar
E a quem,
Nós, os emudecidos,
Irmanados com os sem-terra, nós,
Os futuramente esfomeados,
Bárbaros com os pés no alcatrão,
Bebedores de petróleo, como pode
De novo a praça,
A Ágora, juntar-nos?
Transformados em porcos, por feitiço,
Pela malevolência,
Exactamente
Como na Odisseia,
Não sabemos
- e os Gregos esqueceram –
Como é que tal feitiço
Se desfaz? 

Hélia Correia, poema publicado no Público de 21 de Janeiro de 2012.

HÁ 70 ANOS


O exército soviético entrava no campo de concentração de Auschwitz.
Ali morreram cerca de 1,5 milhões de pessoas, na sua esmagadora maioria judeus.
Calcula-se que, durante a Segunda Guerra Mundial, morreram 55 milhões de homens, houve 90 milhões de feridos, dos quais 28 milhões ficaram inválidos para sempre.
Um crime nefando, uma crueldade sem nome, que jamais desaparecerá da memória dos homens.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O SILÊNCIO DOS HOMENS


Neste dia, no ano de 2006, o Papa Bento XVI visitou o antigo campo de concentração de Auschwitz e perguntou onde estava Deus quando o horror aconteceu.

Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que provém da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante.

Onde estava Deus naqueles dias da barbárie nazi?

Por onde anda Deus quando, em  todos os dias,  as tragédias acontecem no Mundo?

A Biblia refere a pergunta de Jesus:

Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?

O silêncio de Deus será com os crentes, mas o silêncio dos homens já é com todos.

Porque o sentido da vida só tem um caminho: ser vivida.

E cabe aos homens a busca dessa verdade.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A LONGA VIAGEM


Não há um livro da nossa vida, nem um filme, nem uma música.

Não existe tal coisa.

A vida não é uniforme, temos muitas vidas, fases, momentos, em cada uma cabe um livro, um filme, uma música, que nos marcam, de maneira diferente, ao longo de todos os anos da nossa vida.

Em todas as minhas vidas sempre existiu um livro, um filme, uma música.

O tempo em que foram fundamentais e hoje pode não ter o mesmo significado.

Agora que Jorge Semprun nos deixou, peguei em A Longa Viagem”.

Um livro de uma das minhas vidas. Há muito que não o tirava da estante. Reli-o, mais uma vez. Mantém tudo, mas tudo, o que senti da primeira vez que o li. Há livros assim: intemporais, tempos que marcam, “porque há crimes que talvez não possamos evitar, mas tentemos impedir pelo menos o crime do silêncio, tal como escreveu Jan Patocka, filósofo checoslovaco.

A 27 de Janeiro de 1945, o Exército soviético entrou em Auschwitz, campo nazi onde mais de um milhão de pessoas foram exterminadas

Faltavam dois escassos meses para eu saltar para o mundo.

Não existem palavras para descrever aquele inferno, disseram os que passaram pelos hediondos campos e conseguiram sobreviver. Jorge Semprun foi um deles e confessou não estar certo de que fosse verdadeiramente possível levar alguém, que não passou pelos campos de extermínio nazi, a perceber o que fora viver em Buchenwald.

Em Auschwitz, na parede de um dos dormitórios de crianças, foi encontrado este poema:

"Amanhã fico triste,
Amanhã.
Hoje não.
Hoje fico alegre.
E todos os dias,
por mais amargos que sejam,
Eu digo:
Amanhã fico triste,
Hoje não.
Para Hoje e todos os outros dias!"


De uma entrevista de Jorge Semprun:

“O dia mais difícil? Nunca reflecti nisso. Nunca tentei fazer esse balanço. Possivelmente, o dia mais difícil terá sido um dia qualquer em Buchenwald, no campo de concentração. Um qualquer dia de cansaço, de esgotamento físico, de desespero porque não avia a possibilidade física de continuar a viver. Terá sido, possivelmente, um desses dias de total abandono, de total fadiga de viver.

O 11 de Abril de 1945 não sei se é o mais feliz da minha vida, mas um dos mais felizes porque, claro, de repente, a morte fica para trás. A morte estava ali sempre no futuro imediato. Quase todos estávamos convencidos que não sairíamos vivos do campo de concentração.”

Regressar depois de ter experimentado a morte.

Antes, com 19 anos, fora o tempo de uma longa viagem, a viagem do futuro prisioneiro 44.904 de Buchenwald;

“Ouvem-se, subitamente, gritos no vagão, uivos. Um impulso brutal de toda aquela massa inerte de corpos amontoados atira-nos, literalmente, contra a parede do vagão. Os nossos rostos roçam o arame farpado que veda o postigo. Olhamos para o vale de Moselle.

“Está bem tratada esta terra”, diz o rapaz de Semur.

Olho para aquela terra bem tratada.

“Não é como nos nossos sítios, está claro”, diz ele, “mas é bom trabalho.”

“Vinhateiros são vinhateiros”.

Volta ligeiramente a cabeça para mim e ri entredentes.
“Tu sabes disto” diz-me ele.

“Eu queria dizer…”

“Mas é isso”, volta ele, impaciente, “tu querias dizer, é clao que tu querias dizer.”

“O vinho deles não chega aos calcanhares do “chablis”, sabias?

Fita-me pelo canto do olho. Deve pensar que a minha pergunta é uma armadilha. Acha-me complicado, o rapaz de Semur. Mas não é armadilha nenhuma. É uma pergunta para reatar o fio dos nossos quatro dias e três noites de conversa. Ainda não conheço o vinho de Moselle. Só mais tarde o provei em Eisenach. Aquando do regresso desta viagem. Num hotel de Eisenbah onde fora instalado o centro de repatriamento.”

Mário Vargas Llosa afirmou que Jorge Semprun viveu como protagonista os grandes tumultos do século XX e o “El País” colocou em título: “Uma memória do Século XX”.
Nos anos 60, as suas divergências com Santiago Carrillo levaram à sua expulsão do Partido Comunista Espanhol, acusado de “desviacionismo”.

Como argumentista colaborou com os cineastas Alain Resnais e Costa Gravas.

Felipe Gonzalez, primeiro-ministro espanhol, convidou-o para Ministro da Cultura. A sua exigência crítica não permitiu que a experiência mais de três anos e acabou por regressar a Paris, onde veio a falecer, na passada quarta-feira, com, com 87 anos.
       
Foi hoje a enterrar em Garentreville, onde tinha uma casa, e onde estão os restos mortais de Colette Leloup, sua terceira mulher.

“Ontem, numa taberna perto de Semur, onde comíamos presunto, pão e queijo, regado com um bom vinho da região de se lhe tirar o chapéu, Michael dissera, após uma longa pausa de silêncio entre nós:
“Realmente, ainda não me contaste nada.”

Eu sei de que ele quer falar, mas não me importo. O pão, o presunto, o queijo, o vinho da região, eis as coisas que é preciso a gente reaprender a saborear.”