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quarta-feira, 3 de abril de 2019

ETECETERA




Dois recortes da crónica de Frei Bento Domingues no Público.

1.

Título do Público de 24 de Março:

«A estrada Beira-Maputo reabre este domingo e a ajuda vai começar a chegar mais depressa.»

Do Diário de Notícias, on-line de hoje:

«As autoridades moçambicanas admitiram que os bens enviados para ajudar as vítimas do ciclone IDAI estão a ser desviados e prometeram fiscalização apertada e punição exemplar.

Há vários relatos de roubo de alimentos e de desvios de donativos.»

2.

No dia da Mulher, a cidadã Maria João Valente Rosa disse ao Público:

«Entraremos numa sociedade profundamente igualitária quando tivermos mulheres altamente incompetentes como CEO das empresas».

3.

Cerca de 4000 pessoas desaparecem por ano em Portugal.

Metade chega ao Ministério Público - por suspeita de crime - mas muitos não querem ser encontrados. 


Pormenor da capa do JL referindo o regresso de Maria João Pires a Belgais.
Pretexto para, em findar de post, recordar Maria João a tocar Bach, BWV 1056.

sábado, 24 de dezembro de 2016

ENTÃO, É NATAL!


Não há Natal sem música de Bach, dizia o meu pai.
Cantai, alegrai-vos, tal como se ouve na Abertura da Oratória de Natal.

Legenda: Adoração do Menino de Gerard Van Honthorst

                                        

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

BACH: VARIAÇÕES GOLDBERG


A música é só música, eu sei. Não há
outros termos em que falar dela anão ser que
ela mesma seja menos que si mesma. Mas
o caso é que para falar de música em tais termos
é como descrever um quadro em cores e formas e volumes, sem
mostrá-lo ou sem querer havê-lo visto alguma vez.
Vejamo-lo, bem sei, calados, vendo. E se a música
for música, ouçamo-la e mais nada. No entanto,
nenhum silêncio recolhido nos persiste além
de alguns minutos. E não dura na memória como
silêncio. Ou, se dura, esse silêncio cala
a própria música que adora. Porque a música
não é silêncio mas silêncio que
anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.
Se os sons, porém, não são de devaneio,
e sim a inteligência que no abstracto busca
ad infinitum combinações possíveis bem que ilimitadas;
se tudo se organiza como a variada imagem
de uma ideia despojada de sentido;
se tudo soa como a própria liberdade dos acasos lógicos
que os grupos, e os grandes números, e as proporções
conhecem necessários; se tudo repercute como
em cânones cada vez mais complexos que não desenvolvem
um raciocínio mas o transformam de um si mesmo em si;
se tudo se acumula menos como som que como pedras
esculpidas em volutas brancas e douradas cujos
recantos de sombra são um trompe-l’oeil
para que elas mais sejam em paredes curvas;
se uma alegria é força de viver e de inventar e de
bater nas teclas em cascatas de ordem;
e se tudo existiu na música para tal triunfo
e dele descende tudo o que de arquitectura
possa existir em notas sem sentido – COMO
não proclamar que essa grandeza imensa
não se comove com íntimos segredos (mesmo implica
que não haja segredo em nada que se faça
a não ser o espanto de fazer-se aquilo),
é como que uma cúpula de som dentro da qual
possamos ter consciência de que o homem é por vezes,
maior do que si mesmo. E que nada no mundo,
ainda que volte ao tema inicial, repete
o que só foi proposto como tema para
se transformar no tempo que contém. Quando, no fim,
aquele tema torna não é para encerrar
num círculo fechado uma odisseia em teclas,
mas para colocar-nos ante a lucidez
de que não há regresso após tanta invenção.
Nem a música, nem nós, somos os mesmos já.
Não porque o tempo passe, ou porque a cúpula se erga,
para  sempre, entre nós e nós próprios. Não. Mas sim porque
o virtual de um pensamento se tornou ali
uma evidência: se tronou concreto.
Um concreto de coisas exteriores – e o espanto é esse –
Igual ao que de abstracto têm as interiores que o sejam.
Será que alguma vez, senão aqui,
aconteceu tamanha suspensão da realidade a ponto
de real e virtual serem idênticos, e de nós
não sermos mais o quem que ouve, mas quem é? A ponto de
nós termos sido música somente?


Jorge de Sena de Arte de Música em Poemas Escolhidos, Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1989.    


segunda-feira, 4 de junho de 2012

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Sobre uma ária da Oratória de Natal de J.S. Bach



Ouvi o chamamento e respondi-lhe logo:
abandonei sem cálculo o aprisco e as ovelhas
pelo incerto prodígio para sempre clamado;
e vagueio turbado, não sei se longe ainda
desse menino anunciado pelo anjo,
da misteriosa graça prometida esta noite.

São cortantes e íngremes os carreiros que piso,
espessa e armadilhada treva onde caminho;
mas o maior inimigo dos meus passos
sou eu, receosos até deste silêncio,
trôpego por cicatrizes de quedas e de ofensas
que mantêm em mim a agressão dos anos idos.

Vão acusar-me, é certo, de seguir atrasado
os  que disputam o ouro dos lugares dianteiros,
os poderosos, puros, nunca fora da lei
rígida e parcial feita por eles
para acossar e ferrar marginais como eu,
para quem os juízos são pardos, surdos, cegos.

Nem por isso deponho o meu desígnio:
se  aquele apelo perturbou estes montes
distantes dos conluios de reis e sacerdotes,
é também para mim: feriu-me satisfaço-o,
pois infiltra em meu sangue o seu poder radioso
que fará do início desta busca o seu tremo.

Prosseguirei ao encontro desta revelação,
exausto e suspeitosos, eleito embora infame,
serenidade agora o susto em que acordei
ao duvidar se era um sonho a voz a erguer-me:
vejo serem verdade o menino e o curral,
o assombro e o júbilo da luz desta jornada.


José Bento em Resumo: a poesia em 2011, Assírio &Alvim Março 2012.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A PORTA QUE DAVA PARA O JARDIM...


Bebeu um copo de vinho. Depois outro. Ficou algum tempo a olhar para a estrela no cimo do pinheiro. Uma estrela partida. Mil estrelas pequeninas. As variações Goldberg. Apercebeu-se da voz de Glenn Gould cantando baixinho. Talvez tudo não passasse de um pesadelo, talvez daí a pouco encontrasse o caminho para a torre, a sua torre… Mas mesmo lá em cima ouviria as vozes delas, elas que falavam de morcegos e narcisos… A porta que dava para o jardim continuava entreaberta deixando ver a chuva, o nevoeiro.

Ana Teresa Pereira em A Noite Mais Escura da Alma