Gilda era Rita Hayworth
num tempo em que havia filmes.
Uma canção
«Amado Mio», muitos anos depois revisitada por Pink Martini, uma orquestra que
me foi revelada pelo meu filho Mário, que nos levou a vê-los ao vivo na Aula Magna, 11 de Novembro de 2005, Como
éramos tão novos!...
Sou já em alguns crepúsculos de verão, na praia, vendo o sol
desaparecer na água e a minha vida com ele, sobretudo a saudosa fracção da
minha existência em que, aos dezoito anos, era o pavor das mães e o regalo das
filhas nos bailes de sábado dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, me
murmurava, durante os boleros
- Tem os olhos tão azuis, seu fofo
isto as filhas claro, o que as mães murmuravam quando me aproximava
para uma nova dança era mais no género
-Desapareça antes que chame o meu marido que é estivador e lhe dá um
murro no alto da cabeça que fica oito dias a cuspir brilhantina
O Sebastião também não gosta de dançar e eu gosto imenso. Por isso não frequentamos boites. Não se riam, mas até sou capaz de dançar sòzinha! Isabel da Nóbrega em Viver com os Outros Legenda: pintura de Connie Chadwell
Resta só dizer que me fez lembrar, quando imitava o
inglês das letras que não sabia, aqueles vocalistas das sociedades recreativas dos
anos 50, ao som dos quais apanhei tampas, aprendi a dançar e bebia dois de
branco no bufete. E agora, senhoras e senhores, variedades!...
Esta música leve e valsitante
Ondula-me a monotonia
Como vejo passar aos sábados
As raparigas da fábrica para o baile.
É doce esta melodia fácil
Simplifica a minha incerteza
E na resolução prevista pela teoria
Deixa-me a poesia simples
Das quadraturas, sete sílabas,
Em que dor se salva rimando com amor.
Esta música leve e valsitante
Leva ao baile fim de semana
Os meus desejos duma vida burguesa
E areja, ou procura fazê-lo,
A minha ciência inútil.
Quando havia
programas de autor e a ditadura das «play-list» não tinha entrado portas
adentro.
Nos primeiros
meses de 1980, joâo David Nunes ainda podia dizer:
Acho que alguma da
Rádio que já se vai fazendo, neste momento, em Portugal, não nos deixa muito
envergonhados em relação à Rádio que se faz lá fora.
Há dias, morreu Jaime Fernandes, um dos homens dessa rádio de autor.
Numa entrevista
ao Jornal de Notícias, Janeiro de 2011, José Duarte falava de um dos
seus programas de assinalável êxito na rádio: A Menina Dança?
Fui convidado por Jaime Fernandes. Trabalhávamos na Rádio Comercial. Tinha
eu escrito um texto para "O Jornal" sobre Irving Berlin, grande
compositor norte-americano". Jaime Fernandes gostou e ficou admirado de
meu saber sobre aquela música. Convidou-me para fazer um programa sobre
"standards". Inventei então "a menina dança?" que é um
programa semanal dedicado a grandes nomes vocais da música norte-americana e a
grandes compositores do "American Song Book".
O texto que se
segue julgo pertencer a uma qualquer crítica ou sinopse do programa:
Tudo acontece num salão de uma sociedade recreativa. É
um baile ao som de canções. Como as canções devem ser: cheias de «swing», a
puxar o pé para a dança. Ouvem-se os «crooners» ou - Bing Crosby, Dean Martin, Tony Bennett – uns
mais apaixonados, outros menos, ouvem-se outras vozes que fizeram as músicas da
América. Ouve-se Sinatra e as suas histórias. Aos domingos à noite, quando a
Menina encontra o seu par, são as grandes orquestras que se vocam, num qualquer
baile de despedida; e são as histórias à margem do tempo que se relatam. O
programa realizado por José Duarte podia ser o cenário para os «Dias da Rádio»
de Woody Allen. Mas não é. No que diz respeito a rádio, vai mais longe.
«A Menina Dança» oferece um dos mais eficazes
exercícios do uso da linguagem radiofónica: diálogos a uma voz definem
cenários; afastam e atraem. Informam. E fzem com que a menina, de facto,
exista. Ela é a personagem que ganha forma, a cada instante. Do desconhecimento
da música passa ao espanto; e deste, ao saborear da descoberta. Mas isso não
lhe basta: a Menina «trova s voltas», comanda o jogo e, às vezes, transforma num
inferno a vida do seu par: a Menina torce um pé, a Menina pinta o cabelo de
louro. A Menina é a Gata Borralheira que parte à meia-noite, abandonando o seu
par.
A menina, mais
as suas danças, deixaram-nos a 30 de Dezembro de 2012.
Não vivíamos
para ouvir rádio. Somente para melhorar essa vida.
Nunca dancei. Vi os outros
dançarem, em terraços voltados para o mar, no chão de areia de África ou do
Brasil, em clandestinos infernos de bares de marinheiros ou em inflamadas
discotecas de praia turísticas, vi-os e julguei-os felizes, esquecidos e
voláteis, perdidos e enovelados numa bola de fogo, mesmo se às vezes os pares
se rompiam e ela vinha sentar-se a chorar, e então eu pensava que ainda havia
palavras que podiam funcionar como carícias, que eu sabia dizê-las, palavras
redondas, encostadas à face magoada e triste. Também dancei sem que os outros
soubessem que eu dançava, mas dancei fora da dança, porque dançava para mostrar
que também dançava, e lembrava-me disso em cada passo, e nunca esquecia que era
o meu próprio corpo que dançava, e nunca soube dançar sobre o esquecimento do
corpo, nunca ninguém dançou sobre o meu corpo como se fosse a areia da praia ou
um terraço voltado para o mar, nunca ninguém que eu sentisse os dois esquecidos
de mim.
Pouco a pouco, aprendi a olhar
a arte da dança, e passei noites inteiras no deslumbramento de os ver, sem
palavras úteis que me explicassem o que ali se passava à minha frente. Era
apenas ficar sentado com os olhos colados ao vidro de um mundo outro em que os
corpos se multiplicavam como estrelas no momento preciso em que ainda não se
tinham tocado, mas já começavam a precipitar-se uns para dentro dos outros. Eles
dançavam, esplêndidos, gloriosos, e eu ao vê-los sei que nunca dancei.
Encontrei este anúncio dos Bailes nos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, recorte do Diário Popular de 13 de Maio de 1967. Tempos de «A menina dança», das damas ao bufete. Coisas do outro século para «Maiores de 15 anos».
Volto, hei-de voltar muitas vezes, à frase «Não se riam, mas até sou capaz de dançar sozinha». Hoje, uma fabulosa cena de Al Pacino em Perfume de Mulher.
Quão longe vão os tempos em que as férias de Verão eram mesmo Férias Grandes.
As
escolas e os liceus acabavam pelo findar de Junho e só voltávamos, consoante
fosse liceu ou primária, a 1 e 7 de Outubro.
Os
Bailes dos Bombeiros, nas noites escaldantes do Verão dos anos 60,damas ao
bufete, garrafas de vinho branco Camilo Alves metidas em gelo dentro de
um enorme alguidar de alumínio, cada taça vinte e cinco tostões, Victor Gomes e
os seus Gatos Negros a tocarem Honeymoon, não em arranjo Marino Marini, mas num
arranjo muito deles.
É Joni Mitchel que, hoje, nos traz a versão de Summertime e ao piano está o Sr. Herbie Hancock
Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.