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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Capitão de Médio Curso

Baptista-Bastos
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Julho de 1977

O relato do que se passa no comportamento dos homens encontramo-lo todos os dias, em todos os jornais: na crónica do crime, nos telexes do estrangeiro, na política nacional, na reportagem desportiva, cada repórter, com a sua verdade e com o grande propósito de ser eficiente em a transmitir – em colocar um anónimo tijolo na casa que se vai erguendo. Mais do que uma instituição pública, o jornal é uma declaração de amor, um momento, e a sua arte reside justamente na virtude de chegar na hora, na criação do contraponto entre o que permanece e o que vai acontecendo.
A solidão do jornalista decorre da fraternidade por ele jamais recusada, da responsabilidade por ele aceite como princípio ético, da severidade imposta pelo comércio das ideias feito com outros homens. Mas a solidão do jornalista é intermediária, porque reflecte uma época também intermediária, onde o poder, a força e a riqueza têm menor importância do que a ciência. Sendo acto, sonho, declaração de amor, o jornal é também uma ciência – eis porque os tiranos temem o prestígio do jornal que vê claro e escreve vivo: a felicidade apoia-se na verdade, a ilusão assenta na mentira.

sábado, 15 de dezembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Um Homem Parado no Inverno

Baptista-Bastos
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, 1991

Ergue-se do banco e dirige-se, lentamente, para a azinhaga. Dissolveu-se a estranha sufocação de cerco. Pára um pouco, olha em redor de si, para a noite e para as sombras. Um pássaro de largo porte voeja pesadamente num círculo largo; depois desfaz o rumo e integra-se na escuridão. Ouve um piar prolongado. O recorte do casario parece alterar-se. O vento traz consigo um odor acre, e distingue o som profundo das águas do mar; folhas de árvores e esporos vagabundos redemoinham. Um murmúrio, um sussurro, algo de impalpável, nada de importante.
O inverno vai ser longo e áspero.
Vou ter muito tempo para recordar.                                                                                                                  

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Passo da Serpente

Baptista-Bastos
Capa: Manuel Augusto
Prelo Editora, Lisboa, 1965

Naquela tépida madrugada ele entrou numa cabina telefónica. As suas ideias repousavam em sentimentos vários e um cão olhou-o do lancil por ode caminhava cautelosamente. Agora, procurava a dádiva das fraternidades antigas. Ouviu o telefone e viu as folhas velhas das árvores de Setembro.
- Amo-te – disse.
- Bebeste outra vez. Porque não vais deitar-te? – disse a mulher.
- Amo-te. Bebi um pouco mas amo-te – repetiu.
Começava sempre ao fim da tarde: um sentimento de inutilidade e de desconforto. Os acontecimentos ordenavam-se à medida do escalonar dos seus dilemas e beber era uma decorrência exacta: gostava de estar bêbado para ter a coragem de praticar actos resolutos. Agora, ao recusar ser cúmplice de solidariedade, os preceitos da moral revelavam-se-lhe princípios imprecisos.
- Amas-me completamente bêbado
- Não quero ir para casa. Tenho medo da madrugada e de estar sozinho.
-  E lembráste-te de mim, por isso?
- E então lembrei-me de ti.
Disse a mulher:
- Foi há muito tempo. Recordas-te? E sempre que isso acontecia estva disposta a receber-te de madrugada. E eu? Um dia comecei a pensar em mim, a maneira mais simples de procurar uma explicação para o teu egoísmo. Estás a ouvir?
- Estou a ouvir-te muito bem.
- O passado não pode ser ressuscitado. Há muitas certezas românticas que foram destruídas.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

OLHAR AS CAPAS



O Secreto Adeus

Baptista-Bastos
Editorial Futura, Lisboa, 1973

«Então, porque bebo?» «É o contrário de estar lúcido.» «Estar lúcido custa assim tanto?» «Custa tanto que é precisos beber. Álvaro ouvia ou falava consigo próprio? O cerimonial da sua consciência, ante o Grande Livro do Direito Divino. Ouvia-se ou ouvia outra voz, em palavras feitas de velhos tormentos, velhas frases que o tornavam hirto, na esperança de ajuda, na hipótese de precária esperança. Teria de escrever, um dia destes, a história do Bósforo e também aquele episódio em Luanda, quando ouvira os murmúrios brandos e agrestes, de uma terra à procura, também à procura, também à procura, da sua própria voz. No Bósforo, em Luanda, meridianos diferentes (pi não?) gritara, gritara, só, comovido e sónico. As histórias bonitas – pensa Álvaro – contam-se para nós, em silêncio, no recesso dos medos, na nossa falta  de coragem. Mas essas coisas todas – pensa Álvaro – pertencem-me: ninguém mas rouba. «Então, porque bebo?» «É o medo de estar lúcido.»

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


No Interior da Tua Ausência

Baptista-Bastos
ASA Editores, Porto, Novembro de 2002

Ainda não há muito gostava de ver o rio. Seguia com o olhar o manso tremular, contava as ondas que se monteavam, ligavam, desfaziam e reapareciam noutras ondas, como ressurreições obstinadas e espantosas, e era o mesmo rio, a mesma água que corria para o mar, e o mar era a fuga do desterro em que fenecia, sem revolta, sem se debater, com submissão. Porém, nunca ousara sair por inércia, por ócio, por indiferença, mas também porque entendia, cansado e triste, ser impossível fugir de si próprio. O local de onde se é anda sempre atrás de nós, por muito que desejemos abolir o passado e anular lembranças. E as grandes viagens começam por pequenos passos no interior de nós mesmos.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS



A Colina de Cristal

Baptista-Bastos
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, Novembro de 1987

«Antigamente» - Diz ele.
Vai para continuar, Os seus olhos revertem até outras paragens, os pensamentos mergulham no caudal dos anos, os anos têm comprimento, e ele sabe que à medida que os amigos foram morrendo as trevas iam-se acumulando à volta.
Diz:
- Fiz muitas vezes o que era necessário; não o que estava certo.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

OLHAR AS CAPAS


Elegia Para Um Caixão Vazio

Baptista-Bastos
Capa: José Pinto Nogueira
Edições O Jornal, Lisboa, Fevereiro de 1984


Percorri um caminho incalculável, um tempo de analogias e de conhecimentos, obedecendo, impotente, a leis naturais que me vão destruindo e degradando. Estou cansado de perseguir: notícias, mulheres, o êxito, a felicidade. Ambiciono uma agitação ordenada, saturei-me do alvoroço aflito, já pouquíssimas coisas me melindram, consegui curar-me de chagas e de remorsos, expulsei-me eu próprio do sonho. Reconheço-me por aquilo que fui realizando, seria difícil o contrário, mas tudo o que fiz parece-me inútil, um intolerável lugar-comum; e já perdi todas as disponibilidades: fui reduzido e reduzi-me. O grito, a imprecação, a viva-voz são mais contundentes, mais eficazes do que a palavra escrita. De aí, talvez, que as histórias contadas de geração para geração (a verdade coral, a oralidade) se tenham mantido mais vivas, mais coloridas do que a palavra escrita. Nunca consegui viver e reflectir com rigor e escrúpulo o que vi. Sempre existi num universo de ideias e de alegorias, e a realidade é-me implacavelmente fastidiosa. Mas houve tempo em que julguei ser impossível acreditar em outra gente, em outro local, em outro destino. É; eu sei, tudo isto é deprimente, inacabado até ao fim dos tempos, sem que nada me tenha notificado do prazo. Todavia, só disponho deste povo, deste país, destes hábitos, desta monotonia, deste corpo e desta consciência. Queira ou não, sou impelido a eles, a com eles convizinhar, eis o meu fado, a minha sina.

quinta-feira, 2 de março de 2017

OLHAR AS CAPAS


A Bolsa da Avó Palhaça

Baptista-Bastos
Capa: Maria Manuel Lacerda
Ilustrações Mónica Cid
Oficina do Livro, Lisboa, Novembro de 2007

Pelos Santos Populares organizavam-se bailes de rua, «abrilhantados» (era assim que se dizia) por agrupamentos musicais de corda: banjos e bandolins, violas, Chamavam-lhes «trupes-jazz», e tocavam as canções da época: sambas e boleros e alguns tangos. Mas começavam sempre por valsas. Eu ficava-me por ali, feito tolo, a observar os dançarinos. Bem gostaria de me encostar a uma rapariga, e sentir o perfume do seu corpo, mas não sabia dançar, e era melhor estar parado do que fazer figura de tolo ainda maior.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS



O Uivo do Coiote

Luiz Pacheco
Entrevista conduzida por Baptista-Bastos
Ilustrações Martim Avilez
Capa: José Teófilo Duarte
Contraponto, Setúbal, Novembro de 1992

Queiras ou não, tu criaste a tua própria moral que vai, embatente, contra a moral estatuída. Começamos a conversa assim?

Ficaria completamente embatucado e não tivesse de despachar este paleio contigo; e pode gabar-te…

Eu? Gabar-me de quê, ó Luiz?

De seres o único sujeito do Mundo que me levaria a este tipo de conversa à pressão. Mas vamos a isto: devo-te grandes finezas e colossais descomposturas, tudo à mistura ou de seguida, de viva voz ou por escrito, exageros ciclotímicos que temos de agradecer, deliciados, ou gramar, de mau cariz e em silêncio, que a personagem em questão, tu, não admite contradita, e começando a doutorar ninguém te cala. Adiante! Estávamos na moral, não é?

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Homem em Ponto

Baptista- Bastos
Capa: João Botelho
Relógio d’Água, Lisboa. Abril de 1984


Todos os livros são datados; quero dizer: devolvem, fragmentariamente embora, a imagem das épocas em que foram redigidos. Este não escapa à regra: assume-a e exige-a, ao contrário de outros, que, um tanto grotescamente, aspiram à pretensa intemporalidade de horizontes improváveis e imponderáveis. Precário e transitório, como tudo o que é humano, reflecte uma particular atmosfera mental portuguesa, e, sem a ambição de extenuar a História, fixa um determinado comportamento plural, através das singulares palavras dos outros e das peculiares situações de momento. Estas entrevistas (mais cinquenta) foram publicadas no semanário O Ponto, nascido de um singelo sonho de liberdade e acalentado por um grupo de jornalistas que de seu só possuía a honra jamais hipotecada e a ingénua convicção de que as palavras (sempre de recusa, sempre de protesto, sempre exaltantes) poderiam ser integradas na grande voz colectiva e aceites pelas minorias sem voz. O Ponto foi um jornal arrebatadamente jovem, truculento, vitalizante, diferente – sobretudo porque admitiu, compreendeu e defendeu o direito à diferença. O que muitos consideraram o seu erro fatal, a sua condenação à partida. O que nós havíamos premeditado como estandarte e cobiçado como emblema.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Cidade Diária

Baptista-Bastos
Editorial Futura, Lisboa, 1972

Mas houve um bom Natal na minha vida. Um bom Natal inesquecível. Um bom Natal em que este metro e oitenta e quatro de português, que redige um português inútil, inútil português de metro e oitenta e quatro, presumiu ser útil escrevendo num português inçado de erros, coxo, desmantelado – mas feliz. Foi assim: pelas onze e meia da noite de um 24 de Dezembro eu estava na redacção do jornal onde trabalhava. Veio um telegrama de Londres que dizia mais ou menos isto: «Um menino que está a morrer pediu à mãe morangos. Não há morangos em Inglaterra por esta época do ano. A mãe foi à B.B.C. e a B.B.C. fez um apelo. Um avião em voo escutou-o. Transmitiu o apelo a todos os aviões do mundo. E alguns aviões do mundo atrasaram as suas partidas, transferiram de bojo para bojo um cesto de morangos que fora adquirido na Cidade do México. Os morangos chegaram a Londres.»
Não havia mais no telegrama; mas era uma grande história de Natal e de amor. Numa suave noite de Natal, em que seria radioso relembrar às pessoas que, por vezes, as pessoas conseguem coisas formidáveis. Ao telegrama de Londres eu tinha, somente, de apor um título. Foi o que saiu: «Os homens levaram-lhe os morangos.»
Nunca soube se o menino de Londres chegou a comê-los. Nunca soube se o menino de Londres conseguiu safar-se da morte. Sei que houve dezenas de aviões que transmitiram o pedido de uns para os outros, que centenas de passageiros, certamente imprecando, saíram atrasados para os seus destinos. Sei que os morangos chegaram a Londres.
Sei que em Lisboa, num Dezembro usualmente triste, a arremedar uma humilde felicidade, a qual, por ser humilde, terá sempre de ser simples, afectuosa e discreta – houve um repórter que escreveu palavras úteis porque eram o alvoroçado testemunho de que os homens, quando querem, conseguem tudo quanto querem.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS



José Saramago: Aproximação a um Retrato

Baptista-Bastos
Capa: Emília Abreu
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1996

Se disser escritor comunista isso significará, talvez, que sou um escritor preocupado em fazer passar aquilo que é a mensagem – usemos esta palavra gasta – do comunismo. Se dissesse que sou um comunista escritor, então seria um comunista que tinha decidido ser escritor para fazer passar essa mesma mensagem. Eu prefiro dizer que sou uma pessoa que é, ao mesmo tempo comunista e escritor. E que, se é preciso meter aqui uma ordem, então a ordem teria de ser necessariamente cronológica. Comecei a escrever aos 25 anos. O meu primeiro livro saiu nessa altura, quando eu ainda não era comunista, portanto parece-me que comecei por ser escritor. Mas também é certo que os meus livros mais importantes vieram quando eu já era, formalmente, militantemente, um comunista.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Coisas

Adelino Tavares da Silva – António Manaças – Baptista-Bastos – Carlos Porto – José Martins – Nelson de Matos – Paulo da Costa Domingos – Pedro Oom – Virgílio Martinho – Vitor Silva Tavares
Capa: João Vieira
&etc, Lisboa, Março de 1974

Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupava-se muito com a ignorância do seu povo.
 A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram a “Cartilha Paternal”, onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.
A “Cartilha Paternal” foi distribuída gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a tudo o que fosse papel, liso ou impresso.

Moral: a instrução não custa um tostão…


(Pedro Oom)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


As Palavras dos Outros

Baptista-Bastos
Colecção Prisma nº 12
Publicações Europa-América, Lisboa, Janeiro de 1969

A Feira dos tempos em que éramos rapazes, nunca mais. Mas há outras Feiras e outros rapazes, rapazes que, como muitos de nós, aprenderam na Feira a amar os livros, de quem a Feira fez leitores em potência, a decorar nomes e títulos e faces e palavras e sonhos. E sonhos sonhados por outros homens escritos por outros homens em frases que se encontram agora expostas na rua.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Viagem de Um Pai E De Um Filho Pelas Ruas da Amargura

Baptista-Bastos
Forja Editora, Lisboa, Março de 1981

Aprendi, no varar de anos dolorosos, que o homem nasce derrotado. Mas é sobre os escombros, os despojos, os destroços de si mesmo que deve construir a sua consciência vitoriosa; a experiência é o edifício do seu comportamento, da sua acção, da sua mobilidade. O homem que não consegue transformar a experiência acumulada numa componente da sua construção moral é um homem vedado, vendado, excluído, que sequer se apropriará do seu destino singular.

Haverá lua, hoje?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

OLHAR AS CAPAS


O Cavalo a Tinta-da-China
Baptista-Bastos
Capa: Cláudia Gigliom
Edições Temas da Actualidade, Lisboa 1995
Clara espera. Tem um livro na mão. Leu algumas páginas, pousou-o, olha para Manuel, volta a ler algumas páginas, pousa de novo o livro.
- Que livro é esse?
Clara cerra as persianas, volta a pegar no livro, dirigisse-se para o espelho, contempla-se, faz uns gestos grotescos, mima alguém, ri, continua com o livro na mão, ouve-se um estalido da madeira do armário, Manuel segue todos os seus movimentos, Clara lê em voz alta:

Vai então, contador de histórias, e constrói
a nave dos milagres. Procura tudo e todos
nos mínimos sentidos, no lírio das barmas,
na nuvem secreta, nas formigas, no bosque
que se forma ao virar da esquina.
É no real que encontras o sentido último
do mais profundo e mágico mundo novo.

- Que livro é esse?
- Do Eduardo Guerra Carneiro. Trouxeste-o há dias.
- Ah!, pois. Estive a beber com ele.
- Pois. Já vinhas com uns dedos acima do nível.
- Gosto de beber com ele. É um tipo cordial e louco.
- É bom poeta?
- É muito bom poeta.
- Suficientemente bom?
- Quem o é?
- Quem vence a morte – diz Clara, mais baixo, e retém o olhar em Manuel. – Quem morre e permanece vivo
- Ou aqueles que disseram coisas que ninguém tinha dito até então.