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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Cacilheiros

Luís Miguel Correia
Aguarelas: Rodrigo Bettencourt da Câmara
Fotografias: Francisco Sequeira Cabral e Luís Miguel Correia
Edições Iniciativas Náuticas, Lisboa 1996

Num movimento permanente de barcos, cais e gente, os cacilheiros espraiam-se discretos por entre a luminosidade brilhante do Tejo, os cascos laranja inconfundíveis, as proas rumo a Belém, Cacilhas, ao Cais do Sodré, ao Montijo, ao Porto Brandão, ao Seixal, ao Terreiro do Paço, à Trafaria…
À popa, a mesma esteira branca salpicada de azul em tempos desenhada por velhos barcos das carreiras de Pedrouços, da Cova do Vapor ou de Alcochete. Já se chamaram Progresso e Victória, Flecha e Renascer.
Hoje continuam a chamar-lhes cacilheiros e são personagens de uma Lisboa marítima de séculos, paisagem do rio e suas cidades, num quadro que a geografia e a história foram desenhando com o tempo. Quem, do castelo de São Jorge ou do forte de Almada olhar o Tejo vê sempre, entre cais e navios, os cacilheiros nas suas travessias sucessivas, parte do quotidiano dos noventa mil passageiros que todos os dias atravessam o rio.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

CAIS


                                        «… o cais é uma saudade de pedra».

Partem navios
e chegam navios
de todos os pontos cardeais,
só eu fiquei
sonhando os orientes
no cais.

Outros partiram...

- Tantas vezes me chorei perdido
e vencido me arrastei
ao sabor das tempestades e dos fados...
Tantas vezes fui o herói da aventura,
o navio naufragado...
e sempre ressuscitei
no cais.

Que em mim vive esta ânsia
sempre nova
da largada.

Eu não amo o que possuo,
o que sou
não é jamais onde estou;
eu sou o ausente:
a posse deixa-me inerte,
só o desejo me abraza...

Só eu fiquei
com saudade de mim
nunca embarcado...

Joaquim Namorado de Navegação à Vela em Novo Cancioneiro

Legenda: fotografia de Artur Pastor

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


O seu charuto apagara-se. Lamentou não ter trazido a bicicleta e correu, sim. Correu pelas ruas, como um gaiato, de tal modo o desvairava a ideia daquele navio que, por falta de mazute, ia perder a maré e ver talvez gorar-se a sua viagem a Riga.

Georges Simenon em O HomemQue Via Passar os Comboios.

Legenda: imagem tirada do site da Latvian Shipping Company.

sábado, 22 de setembro de 2012

POSTAIS SEM SELO


Vez por outra, o meu pai levava-me até à Trafaria. Atravessar o rio era uma aventura sem parágrafos. Colocava-me na amurada do vapor e seguia o doce movimento das ondas, perdidas em outras ondas e em espuma e em salpicos. As gaivotas soltavam gritos estridentes e poisavam levemente nas águas, procurando comida ou seguiam em bando a uns metros da popa do barco. O barco deixava um sulco borbulhante nas águas.

Baptista-Bastos em A Bolsa da Avó Palhaça, Oficina do Livro Lisboa Novembro 2007.

sábado, 10 de dezembro de 2011

POSTAIS SEM SELO



Vivemos todos neste mundo a bordo de um navio
Saído de um porto que desconhecemos
Para um porto que ignoramos
Devemos ter uns para os outros

Uma amabilidade de viagem.

Fernando Pessoa

sábado, 26 de novembro de 2011

POSTAIS SEM SELOS


um barco
na distância
subitamente proporcional
ao esquecimento
e depois, um murmúrio
de noite
nos teus olhos

Carlos Alboim

Legenda: fotografia de Idílio Freire

sábado, 27 de agosto de 2011

POSTAIS SEM SELO


Amarra o teu barco a um porto que ande à deriva. Assim podes viajar enquanto estás parado.

Caderno de Pensamentos do Sr. Anacleto da Cruz.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

POSTAIS SEM SELO


Navegando em pleno Atlântico, ele avistava, através da vigia dupla, as imensas vagas verdes, mansas, de dorso reluzente, correndo à desfilada. Mal sentia a oscilação da marcha. Nisto desencadeou-se o temporal e o “steward” veio fechar e trancar as formidáveis portinholas de aço das vigias. Pensou ele então na compacta profundidade do oceano, mais de mil metros ali, lá em baixo imóvel e obscura: sobre esse abismo de água, poisada ou suspensa, deslizava a frágil casca de noz do navio… Custou-lhe adormecer a pensar nisso.

José Rodrigues Migueis “Aforismos & Desaforismos de Aparício”, texto datado de 1935.

terça-feira, 28 de junho de 2011

POSTAIS SEM SELO


Há barcos que gostamos de perder,
que partem devagar para outras mortes
e nos deixam juntos, sem palavras.

Manuel de Freitas

segunda-feira, 11 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


Ah, comandante, quanto tarda ainda
a partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo –
músicas alegres, banais, humanas,, como a vida –
faz partir, que eu quero partir…

Álvaro de Campos