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quinta-feira, 3 de maio de 2018

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Para beber uma garrafinha de tinto, a acompanhar um petisco, qualquer motivo servia.

Mas o mais feliz de todos era irmos ver um filme do João César Monteiro: juntar o gosto petisqueiro à genialidade do João era o suprassumo do quotidiano, dizia o meu pai.

É durante a exibição de Veredas que o meu pai agarra com todos os sentidos a 7ªSinfonia de Anton Brucker que, juntamente com cantos populares de Trás-os-Montes e Alto Alentejo, mais música instrumental da Idade Média, faz parte da banda sonora deste filme datado de 1977.

Aliás, há que salientar que, para além da excelência dos diálogos, há que  mencionar as fabulosas bandas sonoras.

O mesmo se passa com os filmes de Woody Allen.


Lembrar Vitor Silva Tavares:


Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei (na orelha do volume que reúne os argumentos de Le Bassin de J.W. e de As Bodas de Deus): Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.

O bichinho da 7ª de Bruckner já andava a bailar no espírito do meu pai,  mas foi depois de ter visto Veredas que correu a comprar o CD.

Também já tinha lido em A Cidade das Flores do Augusto Abelaira:

« E sorridente continuou. É o sorriso dum homem feliz que observa Santa Croce, lé em baixo. Que é livre, que está a cantar, a cantar muito de mansinho, aquele tema do primeiro andamento da Sétima de Bruckner, aquele que se repete e se prolonga ao longo da sinfonia.»

O meu pai adorava ter prazeres secretos.

Nunca os explicava, não merecia a pena, ninguém entenderia, murmurava de olho brilhante pelo vinhito.


Música: companheira de todas as horas.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

COMO DE VÓS

Final da carta de Jorge de Sena para Eugénio de Andrade datada de 2 de Novembro de 1958:

P.S. – Sabe V. que o meu soneto à memória do papa me valeu uma carta anónima do Porto, classificando-o de… não poesia mas desinteria? Palavra que, para meu governo, gostaria de saber quem foi, pois não terá sido um simples leitor qualquer, Investigue-me isso.

Por carta, datada de 10 de Novembro, Eugénio de Andrade responde a Sena:

Que coisa horrorosa essa história da carta anónima! Não poderei averiguar nada sobre isso – há já muito, muito tempo, que me afastei de qualquer convívio de todos os «literatos» capazes de tais infâmias! E aqui há bastantes!

É este o soneto de Jorge de Sena:

Como de Vós

                       À memória do papa Pio XII que quis, ouvir, moribundo, o «Alegret-
                       To da Sétima Sinfonia de Beethoven

Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,

importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.

Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.

Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A IGREJA DOS ATEUS


Na Rádio, a missa do galo transmitida do Mosteiro de Singeverga com cerimonial de coros falados e a voz agudamente esganiçada de um padre mulherengo.
E penso: Porque é que a Igreja Católica que possui tantos tesouros de música sublime nos dá sempre o espectáculo lamentável desta musicata exígua onde só cabe um Deus medíocre para velhas que acreditam na morte por pobre e musgosa.
Que vocação para tornar tudo pequeno, do tamanho dos homens vazios com entranhas reles!
(Resposta: as missas de Beethoven, dos Estes e dos Aqueles pertencem à Igreja dos Ateus.)

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Vol. VI, Publicações Dom Quixote, Lisboa Janeiro de 2013.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


   (O Maestro bateu com a batuta na estante
e ergueu os braços. A orquestra vai começar
a tocar o programa do costume: a abertura
do «Egmont», etc.,etc.)



Ritual do silêncio vivo nas florestas
com os homens a arrancarem das árvores
a seiva da disciplina dos violinos,
segredos de entranhas de aves,
bichos a lamberem o espelho do orgulho nas ervas,
Beethoven, vocação para passeios nas tempestades
- e que dores são estas?
Quem as sofre por nós
nas canas mordidas
pelos ventos da ventania?

Conspiração dos homens que não entendem a língua que falam,
mas de súbito o universo parece-lhes mais enigmático
e as flores menos misteriosas
- todos sentados em redor duma fogueira insensata
De cinzas em comum.

Solidão
- oiro de cada um.

José Gomes Ferreira em Poesia IV, Portugália Editora, Lisboa Dezembro 1970.

terça-feira, 12 de julho de 2011

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Um velho disco da casa: uma caixa com os seis quartetos de Cordas “Opus 18” de Beethoven.

Beethoven, como já sabem, era o compositor favorito do meu pai, o primeiro entre os primeiros.

Achava estes quartetos deliciosos e lamentava que Haydn não os tivesse apreciado convenientemente, ao ponto de não lhe ter encontrado qualquer originalidade e de os considerar uma mistura do estilo de Beethoven com o de Mozart.

Perfeito disparate, dizia então, o meu pai.

O disparate vinha não por conseguir distinguir a mistura de que Haydn falava, mas pela simples razão de que, quem falava mal de Beethoven, estava feito, não tinha qualquer hipótese de salvação.

domingo, 21 de novembro de 2010

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Quando em 2001 a UNESCO classificou a "9ª Sinfonia" de Beethoven como património da Humanidade, já o meu pai não estava por cá, para podermos discutir o assunto.

Por mim teria opinado que não entendia por que uma música teria de ser património da Humanidade.
Mas porquê Beethoven?

Por que não “A Sagração da Primavera” de Stravinsky, ou “A Paixão Segundo São Mateus” de Bach, ou o “Requiem” de Mozart, ou a “Sinfonia Incompleta” de Schubert?

Certamente não discutiríamos a escolha, o empolgamento da “Ode à Alegria”, o sol para iluminar os caminhos do homem, um abraço aos homens onde quer que eles se encontrem.

Richard Wagner teria concordado, pois considerava a “9ª Sinfonia” como o limiar absoluto do que é possível conceber em música.

Mas o meu pai tinha uma especial predilecção pela “7ª Sinfonia”: prazeres secretos que cada um deve guardar dentro de si e, por isso, não revelados.

Jorge de Sem, no seu livro “Fidelidade” tem um poema, “Como de Vós”, que dedicou “à memória do papa Pio XII que quis, ouvir, moribundo, o “Alegretto” da Sétima Sinfonia de Beethoven:

“Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,

importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.

Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.

Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo”

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


O meu pai gostava de música clássica e de Beethoven em particular

Tinha todas as suas sinfonias mas, em vinil, apenas restam a a 3ª  e a 5ª sinfonias.

Esta é a capa da “Eroica” pela Orquestra Filarmónica de Berlim dirigida por Herbert Von Karajan.

Na biografia de Beethoven, escrita por Jean e Brigitte Massin, pode ler-se o depoimento de Ries sobre a 3ª Sinfonia, a “Eróica”.

“Nesta sinfonia Beethoven tinha escolhido por assunto Bonaparte,, quando este ainda era primeiro-cônsul. Até então Beethoven considerava-o um caso extraordinário e equiparav-ao aos maiores cônsules romanos.
Eu próprio, bem como outros amigos íntimos de Beethoven, vimos na sua mesa de trabalho a partitura manuscrita da sinfonia; ao alto, na folha do título, estava escrito o nome “Buonaparte, e no extremo inferior: “Luigi van Beethoven, sem mais qualquer palavra. Certamente esta lacuna devia ser preenchida; mas como? Ignoro-o por completo.
Quem primeiro deu a Beethoven a notícia de que Bonaparte  se fizera proclamar imperador fui eu. A sua reacção foi enfurecer-se e exclamar: “Afinal, não passa de um homem vulgar! Agora vai espezinhar todos os direitos humanos e obedecer apenas à sua ambição; há-de querer elevar-se acima de tudo e de todos; tornar-se-á um tirano!” Avançou para a mesa, arrancou a folha do título, rasgou-a de alto a baixo e atirou-a para o chão. A primeira página foi reescrita e a sinfonia recebeu então, pela primeira vez o seu  título: "Sinfonia  Eróica".

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


A 9ª Sinfonia de Beethoven era a jóia da coroa.

Tal como, a abrir“Os Clássicos do Meu Pai”, escrevi:

“Ouvir música clássica, a televisão ainda não tinha entrado porta dentro, era um ritual da casa. Volta e meia ouvia-se o no corredor: “Vamos embora que vou pôr a 9ª Sinfionia”.Não era um convite, era quase uma ordem, e eu e o meu avô avançávamos para o escritório e ali ficávamos, em profundo silêncio, a ouvir Beethoven.É uma imagem gratificante que guardo: os três sentados, rodeados de livros, a ouvir música clássica."

Como não poderia deixar de ser a gravação é da “Deutsche Grammophon”,


Solistas:
Clara Ebers, Soprano
Gertrude Pitzinger, Alto
Walther Ludwig, Tenor
Ferdinand Frantz, Barítono

Coro e Orquestra da Bayerischen Rundfunks
A orquestra é dirigida por Eugen Jochum
O coro é dirigido por Josef Kugler