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sexta-feira, 15 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS


Obras Completas
1º Volume

Bernardo Santareno
Organização, Posfácio de Notas: Luís Francisco Rebello
Capa: Delgado Godinho
Editorial Caminho. Lisboa, Dezembro de 1984

CAPITÃO (com autoridade; digno e simples; comovido. Começa a cerimónia do funeral): Tenho muita pena do António Nazareno. Era um bom rapaz e um bom pescador.  Tenho muita pena… Resta-nos a consolação de termos feito tudo para o salvar. Tudo. Gostaria mais de o sepultar em terra mas 4stamos longe e a lei não permite a arribada. Por isso o corpo do Nazareno será dado ao mar. Eu bem sei que numa cova funda, coberta com boa terra firme, um homem descansa mais em paz, que a mulher ou os filhos ou os pais o terão lá, anos e anos, quieto… Depois, na terra duma campa nascem flores e ervas de cheiro: giestas e malmequeres, rosmaninho e alecrim… Gostava, só Deus sabe como eu gostava!, de sepultar o António Nazareno em terra. Mas não posso. Era um grande prejuízo. Sei bem que todos vocês têm pena… Mas lembrem-se de que aqui, num destes portos da Terra Nova, ele não teria nem giestas, nem rosmaninho… nada disso! Seriam outras flores que a gente não conhece, que ele Nazareno, nunca viu em vida! Até a terra, até a terra que o cobriria, seria diferente da nossa: com outra cor, com outro cheiro. Isto é assim: e por assim ser, não devemos ter pena de deitar ao mar o corpo do Nazareno. Aqui nestes bancos da Terra Nova, ele fica menos só. Fica, fica mais acompanhado nestes mares. Se todas as vezes e em todos os sítios que este oceano matou um pescador português, houvesse, como é de uso na nossa terra, uma alminha iluminada… ai, então estes mares estariam cheiinhos de luzes, cheios a perder de vista! Vocês sabem que é verdade isto que eu lhes digo: alguns têm cá o pai, ou um irmão, ou um filho… É ou não assim, João das Almas. Estou a mentir, Zé Sol? O nosso companheiro António Nazareno ficará portanto neste mar. Que descanse em paz.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


Nos Mares do Fim do Mundo

Bernardo Santareno
Edições Ática, Lisboa, Junho de1999


Enquanto o “David  Melgueiro” se afasta, mais e mais de Lisboa, eu surpreendo-me com as mãos  abertas ao vento, para nele colher um certo olhar negro e patético, ou um riso estridente e nervoso que queria ser lágrima, ou aquele dorido inclinar de cabeça silencioso e resignado, ou aquele beijo enviado por alguém que me pede uma estrela como testemunho da aventura, ou a serenidade hirta e requintada de quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa, nem saudade) por mim... Com as minhas longas mãos abertas ao vento...