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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

HIGHWAY 61 REVISITED


Mr. Zimmerman desde muito cedo nos habituou às suas traquinices.

A mais recente das quais aconteceu no ano passado, quando se silenciou durante vários dias à espera que a Academia Sueca lhe pedisse desculpa por o ter incomodado com a atribuição de um Prémio Nobel.

Esta de que agora vos falo terá sido outra, embora muito mais antiga…
Goste-se ou não dele – eu aprecio a Obra, em geral, mas não o Homem - a memória de Mr. Zimmerman tem muita força e um amante de música jamais poderá atravessar a Highway 61 sem se lembrar do seu sexto álbum, “Highway 61 Revisited”, de 1965.

Mas porquê ter evocado a Highway 61 numa altura em que, tendo acabado de espetar vários  pregos no caixão da Folk  mais tradicional,  a sua música se  afastava já claramente noutras direções…?

Alguns dizem que é uma homenagem ao “Blues”, mas de verdadeiro “Blues” não consigo ver nada de significativo neste disco, a não ser o título de duas músicas (“Tomstone Blues” e “Just Like Tom Thumb’s Blues”), que com o “Blues” de que vos falo pouco ou nada têm a ver….

Vou à estante à procura de uma pequena pista que me ilumine, e também não vejo nada. Encontro coisas como “Folk eletrificado”, “puro Rock ‘n’ Roll” e até o insuspeito Jacques Vassal, no seu livro “Folksong”, diz que o disco é “Pop Moderno” de uma ponta à outra…!

No que respeita à estrada em si, o disco tem, de facto, uma música que se chama “Highway 61 Revisited”, cuja letra é daquelas que exigem curso universitário e pós-graduação, para finalmente podermos chegar à conclusão que tanto pode significar uma coisa, como o seu inverso…  Mas que muita coisa por lá se passa na “Highway 61”, lá isso é verdade… Até a encenação de uma III Guerra Mundial, com bancadas para a assistência e tudo… Deve ser a isso que “The Illustrated Encyclopedia of Rock” chama “a sustained level of extraordinarily lyricism”…
Talvez que tudo não passe de uma “private joke”, como que a dizer que se os velhos “blues” puderam ser “eletrificados” e sobreviveram ainda com mais força, porque razão não o poderia ser também a Folk Music…

Não sei...


Talvez que Mr. Zimmerman se tenha dado ao trabalho de se explicar numas das poucas entrevistas que vez o favor de conceder, mas em boa verdade não sei…

Não sou nem quero passar por ser um grande “especialista” de Mr. Zimmerman.
Mas que, segundo ele próprio conta,  a atração que sentia pela Highway 61 sempre foi muito antiga, isso sei muito bem…

No primeiro volume das suas “Memórias” (estamos há 14 anos à espera do segundo, outra traquinice, certamente…!) Mr. Zimmermam conta que a Highway 61 lhe estava no sangue e era o seu verdadeiro lugar no Universo. Uma estrada que passava na cidade onde tinha nascido, perto do lugar onde vivia e da qual se servia para ir a todo o lado, quanto mais não seja em sonhos de aventuras “on the road”, na companhia de Sal Paradise e Dean Moriarty.

Mas, bem lá no fundo, o que ele ansiava era por liberdade e Robert Sheldon, biógrafo de Mr. Zimmerman e uma das maiores sumidades da Folk americana acerta na mouche quando afirma:

“If you have been born in a place like Duluth and if you were raised in a very, very parochial town like Hibbing, Minnesota, you had to start making your escape plans. Very early Highway 61 became to him, I think, a symbol of freedom, a symbol of mouvement, a symbol of Independence, and a chance to get away from a life he didn’t want in that town”
(in Documentário da série “Tales of Rock ‘n’ Rol” sobre “Highway 61 Revisited”)

Talvez então que as coisas sejam bem mais simples e que tudo não passe de uma mera fantasia da minha parte, ansioso por encontrar conexões em tudo e mais alguma coisa. Talvez que Robert, o “motard” com ar de “rock” e uma “t-shirt” da Triumph na capa do disco, estivesse só com nostalgia da estrada quando lhe deu esse nome…


O que é curioso é que os anseios de libertação através da estrada do jovem Robert nos finais dos anos 50, tal como os de tantos outros tantos adolescentes na América, sobretudo após a publicação do livro do Jack Kerouac, são exatamente os mesmos que sentiram muitos dos velhos “bluesmen” e “jazzmen” do Sul profundo, 40 anos antes, embora por motivos diferentes, como vos contarei um destes dias.

Mas já que, a propósito da Highway 61, falei tanto de liberdade e evoquei Jack Kerouac e os sonhos da  “beat  generation” e, posteriormente, do movimento “Hippie”  que o seguiram, talvez venha a talhe de foice recordar que foi também   muito perto dessa estrada que, simbolicamente, tudo se acabou….
“Easy Rider” é, como se sabe, um marco da “Contracultura” americana dos anos 60/70 e um dos filmes que deu maior impulso ao surgimento de um novo tipo de cinema na América, aquilo a que Peter Hiskind chamou a “Nova Hollywood”.
 E é em Krotz Springs, no Louisiana, a muito poucas milhas da “Highway 61”, que acaba  “Easy Ryder”, naquela pavorosa cena final em que os dois “motards” interpretados por Peter Fonda e Dennis Hopper são mortos a tiro de caçadeira por um duo de inofensivos agricultores locais, “just to watch them die”, como na canção do  Johny Cash. E depois a câmara sobe até ao céu deixando ver os corpos deitados e a mota em chamas e aparece um rio que poderia ser o Mississippi, mas não é, enquanto Roger McGuin arranca lentamente com a “Ballad” que acompanha o genérico final:
“The river flows, it flows to the sea
Wherever that river goes, that’s where I want to be”

Uns dias antes, pouco antes de ter sido ele próprio morto à paulada pela calada da noite, o jovem advogado interpretado por Jack Niicholson, que bebia whiskey pelo gargalo em memória de D.H. Lawrence, já lhes tinha explicado, em conversa, porque razão eles iriam morrer:
“- Sabem, este costumava ser um país formidável. Não compreendo o que se passa…
- Acobardaram-se todos, é o que é. Nem num hotel de 2º…. num motel de 2ª conseguimos entrar. Acham que os vamos degolar ou coisa assim…Têm medo.
- Não têm medo de vocês, têm medo do que vocês representam.
- Só representamos quem precisa de cortar o cabelo…
- Não. O que vocês representam é a liberdade.
- E que mal tem a liberdade…? Ela é o mais importante.
- Ela é o mais importante, sim senhor, mas falar dela e vivê-la são duas coisas diferentes. Quer dizer, custa muito ser-se livre quando se é comprado e vendido no mercado. Mas nunca lhes digam que não são livres senão vão matar e mutilar só para provar que são. Vão falar convosco e falar convosco e falar convosco sobre liberdade individual. Mas quando veem um individuo livre, sentem medo…
- Mas isso não os põe a fugir assustados…
- Não. Torna-os perigosos…”  

Se nenhum outro mérito tivesse, “Easy Rider” ficará sempre, para mim, como o filme premonitório do fim de um Sonho, o final de uma Utopia...Quase a acabar o filme já Peter Fonda tinha desabafado, com ar dolorido: “estragámos tudo…”.
O filme foi lançado em Julho de 1969. Em Agosto desse ano, Woodstock ficou célebre mas já não correu muito bem. Altamont, em Dezembro, foi um desastre… No ano anterior tinham sido assassinados Martin Luther King Jr e Robert Kennedy. A América tão depressa não voltaria a ser a mesma…


Quanto à Highway 61, ela é, juntamente com a Route 66, uma das estradas mais míticas de todos os Estados Unidos da América.

Acompanha de perto o rio Mississippi e, no seu trajeto atual (já foi maior no passado…), rasga o país de Norte a Sul ao longo de perto de 2.300 Km, ligando as cidades de Wyoming, no Minnesota e New Orleans, na Louisiana, passando perto, ou não muito longe, de cidades tão importantes como Detroit, Chicago, St. Louis, Nashville e Memphis.

Fiz apenas cerca de 600 km nesta estrada entre Memphis e Batton Rouge, já às portas de New Orleans.

Mas, em boa verdade, não foi a “Old Highway 61” que eu fiz, mas sim a nova “Interstate 61…

Como quase sempre sucedeu nos Estados Unidos a partir da segunda metade do século passado, os tempos modernos trouxeram consigo um crescente tráfego rodoviário e a velha estrada foi destruída e substituída por uma nova, com várias faixas de rodagem.

Na região do Mississippi onde passei a velha 61 está abandonada, destruída e nalguns locais positivamente esventrada, como vi em várias fotografias, sendo muito pouco transitável.

Na Route 66 ainda tinha tido o prazer de me sentir na pele de um Tom Joad, rodando na velha estrada durante algumas centenas de quilómetros.
Mas aqui tal não seria possível…

Decidi, por isso, não ir ver os destroços e deixar a estrada à minha imaginação.
E avancei para o Sul em direção ao mar, como faz o rio na canção do Roger McGuin.

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira 

sábado, 13 de outubro de 2018

RELACIONADOS


A crónica do Luís Miguel Mira é motivo mais que suficiente para trazer aqui meia dúzia de versões, entre as centenas e centenas que por aí andam, da canção «The House of the Rising Sun»
Escolhi a versão dos The Animals. Johnny Hallyday, Bob Dylan, Nina Simone, Woody Goothrie e, em conversa, o Luís Mira adiantou que deveria colocar a do Clarence Ashley, que não sendo a primeira versão, é uma das primeiras de que existe memória em gravação.
A do Johnny Hallyday terá sido a primeira versão que terei ouvido.
Remonta aos tempos em que ouvia telefonia – o que eu gosto desta palavra!...- quase de manhã à noite, uma rádio fortemente inundada daquilo a que o João Paulo Guerra um dia classificou como o «nacional-cançonetismo», e o resto eram canções francesas, italianas e espanholas.
Se de uma qualquer canção, há uma versão de Nina Simone, não hesito e é a razão maior para o alinhamento e porque, ainda o Mira, terá sido a primeira versão que os  The Animals ouviram.









sexta-feira, 4 de maio de 2018

ETECETERA


O cerco aperta-se em redor do personagem Manuel Pinho:

«A confirmar-se é uma situação incompreensível e lamentável», diz Carlos César.

O líder parlamentar do PS, Carlos César, afirmou que o Partido Socialista «sente-se envergonhado» em relação ao ex-ministro Manuel Pinho, caso sejam confirmadas as suspeitas de que é alvo.

Questionado sobre o caso José Sócrates, Carlos César admite que a vergonha «até é maior», dado tratar-se de um ex-primeiro ministro.

BOB DYLAN

Bob Dylan vai lançar em Maio uma marca de uísques, a "Heaven's Door", num negócio para o qual conseguiu angariar mais de 28 milhões de euros de investidores.
«Este é um grande uísque», afirmou Dylan 
O nome da marca remete para a música Knockin' on heaven's door.


CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS

«A polémica que envolve a actual composição do conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos esconde uma realidade: os cargos na gestão do banco público serviram para distribuir lugares de acordo com prioridades que nada têm a ver com os interesses da CGD. Recuámos a 1989, à época da privatização da banca, da criação da União Económica e Monetária e das maiorias absolutas do PSD, com Cavaco Silva como primeiro-ministro. Analisámos os dez mandatos que cobrem o período entre 1989 e 2015 e os números são claros: a passagem de ex-governantes, militantes, dirigentes e gente próxima do PSD, do PS e, a partir de 2004, do CDS tem sido regra na gestão da Caixa.
Mas uma análise caso a caso mostra outra realidade: a promiscuidade alastra-se ao regulador – o Banco de Portugal – e à banca privada. O que têm em comum Vieira Monteiro, Mira Amaral, Carlos Santos Ferreira, Tomás Correia e Jorge Tomé? Todos eles foram presidir a bancos privados depois de saíram da Caixa. Na verdade, os três primeiros ainda estão à frente do Santander Totta, do BIC, e do BCP, respectivamente.
Os conselhos de administração da Caixa Geral de Depósitos foram, ao longo dos últimos anos, território ocupado por gente próxima do poder político e económico, que muitas vezes se confundem. Na verdade, a actual composição dos órgãos sociais da Caixa não mostram qualquer ruptura com este passado, pelo contrário. Paulo Mota Pinto, ex-deputado e dirigente do PSD, preside à Assembleia Geral. Rui Vilar, o primeiro presidente do período que abordamos, é vice-presidente do conselho de administração. O presidente, António Domingues, e metade da comissão executiva vieram directamente do BPI para o banco público»

Lido em Abril, O Outro Lado das Notícias


A FECHAR


Frades... frades... Eu não gosto de frades. Como nós os vimos ainda os dêste século, como nós os entendemos hoje, não gosto dêles, não os quero para nada, moral e socialmente falando.
No ponto de vista artístico, porém, o frade faz muita falta.
Nas cidades, aquelas figuras graves e sérias com os seus hábitos talares, quási todos pitorescos e alguns elegantes, atravessando as multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha raça europeia — cortavam a monotonia do ridículo e davam fisionomia à população.
Nos campos o efeito era ainda muito maior: êles caracterizavam a paisagem, poetizavam a situação mais prosaica de monte ou de vale; e tão necessárias, tão obrigadas figuras eram em muitos dêsses quadros, que sem elas o painel não é já o mesmo.


Almeida Garrett em Viagens na Minha Terra

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO

Se queres alguém em quem confiar, confia em ti.

Bob Dylan

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

QUANDO CHEGAR A PRIMAVERA...


... estaremos lá!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

COMO UM PARAÍSO QUE EU TINHA DE ABANDONAR


A cena da música folk fora como um paraíso que eu tinha de abandonar, como Adão teve de abandonar o jardim. Era simplesmente demasiado perfeito. Dentro de uns anos desabaria uma tempestade de merda. As coisas começariam a aquecer. Sutiãs, cartões de recrutamento, bandeiras americanas, até pontes – todos sonhavam em pegar-lhes fogo. A alma nacional ia mudar e em muitos aspectos seria semelhante à Noite dos Mortos Vivos. A estrada que tínhamos pela frente seria traiçoeira e não sabia onde é que aquilo ia parara, mas meti por ela. Um mundo estranho acabaria por se revelar, um mundo tempestuoso com contornos desenhados pelos relâmpagos. Muitos não chegaram a perceber o que se estava a passar. Estava tudo em aberto. Uma coisa é certa, não só era governado por Deus como também não era pelo diabo.

Bob Dylan, parágrafo final de Crónicas

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

COMO SE TIVESSE VINDO DE OUTRO PLANETA



A «rainha dos cantores folk» teria que ter sido a Joan Baez. Joan nasceu no mesmo ano que eu, e os nossos futuros iriam estar ligados, mas naquela altura pensar nisso teria sido disparatado. Ela tinha lançado um disco na editora Vanguard, chamado Joan Baez, e eu tinha-a visto na TV. Aparecera num programa de música folk transmitido para todo o país pela CBS em Nova Iorque. Havia outros intérpretes no programa, incluindo Cisco Houston. Josh White, Lightnin’Hoptkins. Joan cantou sozinha umas baladas e depois sentou-se lado a aldo com o Lightnin’ e cantou umas canções com ele. Não conseguia deixar de olhar para ela, não queria sequer pestanejar. Ela tinha um ar perverso – cabelo preto brilhante, comprido até às graciosas ancas, pestanas longas, parcialmente viradas para cima, não era propriamente uma daquelas bonecas tipo Raggedy Ann. Só vê-la deixava-me louco. Como se isto não bastasse, havia ainda a sua voz, uma voz que afastava os maus espíritos. Era como se tivesse vindo de outro planeta.
Ela vendia muitos discos e era fácil perceber porquê. As cantoras de música folk eram intérpretes como Peggy Seeger, Jean Ritchie e Barbara Dane, que não faziam uma boa transição para o público moderno. Joan não era nada como elas. Não havia ninguém como ela. Tudo isto se passou uns anos antes de Judy Collins e Joni Mitchell entrarem em cena. Eu gostava das cantoras mais velhas – Aunt Molly Jackson e Jeanne Robinson – mas elas não tinham a qualidade penetrante da Joan. Andava a ouvir frequentemente uma cantoras de blues, como Memphis Minnie e Ma Rainey, e Joan era de certa forma, mais parecida com elas. Não havia nada de juvenil nelas, assim como Joan também não tinha nada de juvenil. Ao mesmo tempo escocesa e mexicana, parecia um ícone religioso, alguém por quem nos sacrificaríamos, e cantava com uma voz directa a Deus… era também instrumentista excepcional.

Bob Dylan em Crónicas


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

PANKAKE TINHA RAZÃO


Não se pode ter apenas uma breves lições de dança e pensar que se é o Fred Astaire.

Bob Dylan em Crónicas

domingo, 5 de novembro de 2017

SEI QUE POSSO CONTAR CONTIGO


Por cauda das composições do Guthrie, a minha visão do mundo estava a tornar-se profundamente apurada. Disse a mim mesmo que iria ser o maio discípulo. Parecia valer a pena. Eu até parecia parente dele. Mesmo à distância, nunca tendo visto o homem, podia com nitidez discernir a cara dele. Não é diferente do meu pai quando era jovem. Sabia pouco do Woody. Nem sequer tinha a certeza de que ainda estivesse vivo. O livro faz com que ele pareça uma personagem de um passado longínquo. Whittaker, contudo, pôs-me a pare dele. Disse que ele andava doente lá para o este e fiquei a pensar nisso. Nas semanas que se seguiram, voltei algumas vezes a casa d Lyn para ouvir aqueles discos. Um por um, comecei a cantá-los todos, sentia-me ligado a diversos níveis àquelas canções. Eram cósmicas. Uma coisa é verta, Woody Guthrie nunca me tinha visto ou ouvido falar de mim, mas parecia estar a dizer-me «Hei-de ir-me embora, mas deixo esta tarefa nas tuas mãos. Sei que posso contar contigo».

Bob Dylan em Crónicas

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Vive-se com aquilo que a vida nos dá.

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

domingo, 29 de outubro de 2017

UMA BOMBA DE UM MILHÃO DE MEGATONELADAS


A única canção que me tinha mantido agarrado à Leeds Music, a que convenceu John Hammond a levar-me até lá não era nem por sombras uma canção extraordinária. Era um tributo em letra e melodia ao homem que marcou o ponto de partida da minha identidade e destino – o grande Woody Guthrie. Escrevi a canção com ele na cabeça e usei a melodia de uma das suas antigas canções, não tendo a mínima ideia de que seria a primeira de provavelmente mil canções que eu escreveria. A minha vida nunca mais foi a mesma desde que em Minneapolis, há uns anos, ouvi Woody num gira-discos. Quando o ouvi pela primeira vez foi como se caísse uma bomba de um milhão de megatoneladas.

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: Woody Guthrie. Na guitarra pode ler-se: «Esta máquina mata fascistas.»

domingo, 22 de outubro de 2017

QUE TODAS ESTAS COISAS SEJAM SIMPLES


As canções foram escritas em glória do homem e não da sua derrota, mas todas estas canções juntas nem sequer se aproximam da minha visão total da vida. Às vezes acontece que as coisas de que gostámos mais e que mais significado tiveram para nós, são as coisas que não nos disseram nada da primeira vez que as vimos e ouvimos. Algumas destas canções estão incluídas nesta categoria. Suponho que todas estas coisas sejam simples, bastante até.

Bob Dylan em Crónicas

domingo, 15 de outubro de 2017

A VERDADE NÃO EXISTE


Às vezes, nas canções, dizem-se coisas mesmo que apenas haja uma possibilidade muito remota de serem verdadeiras. Por vezes, dizem-se coisas que não têm nada a ver com a verdade do que queremos dizer, e às vezes dizem-se coisas que toda a gente sabe que são verdadeiras. Contudo, pensa-se que a única verdade no universo é de que nele a verdade não existe. O que quer que se diga, diz-se de um modo repetitivo e mecânico. Não há tempo para reflectir. Coseu-se, passou-se a ferro, embalou-se e está pronto para despachar, foi o que se fez.

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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

AS CRÍTICAS NÃO VENDEM DISCOS


Embora o disco não voltasse a pôr-me no mapa do mundo da rádio, ironicamente eu tinha dois discos nas tabelas e até um nos dez mais, o The Tevelling Hillburys e o Dylan & the Dead. O disco que Dan e eu tínhamos acabado viria a receber boas críticas, mas as críticas não vendem discos. Qualquer um que lance um disco tem pelo menos uma boa crítica, mas a seguir segue-se sempre uma nova colheita de discos e uma nova série de críticas. Às vezes fazem-se discos que nem dados alguém lhes pega. O negócio da música é estranho. Tanto o amaldiçoamos quanto o amamos.

Bob Dylan em Crónicas

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

NÃO ERA DO PIORIO


Ouvia-se um rádio que estava do outro lado da parede e o som chegava com estática. Os Beatles estavam a cantar «Do You Want Know a Secret». Era fácil aceitá-los, tão sólidos. Lembro-me quando eles apareceram. Ofereciam intimidade e companheirismo como nenhum outro grupo. As canções deles acabariam por criar um império. Parecia que tinha sido há muito tempo. «Do You Want Know a Secret». Uma balada de amor dos anos 50 perfeitamente desenxabida a mais ninguém a não ser eles podia cantá-la. Seja como for não era do piorio. Os Beatles estavam em grande.

Bob Dylan em Crónicas


terça-feira, 19 de setembro de 2017

PODE ESTAR DEBAIXO DOS NOSSOS PÉS


O quarto tinha uma cama de dossel confortável e uma mesa antiga – o resto, mobiliário de estilo rústico e uma cozinha pequena equipada. Mas não comemos lá. Deitei-me, ouvi os grilos e os animais pela janela, na escuridão fantasmagórica. Gostei da noite, as coisas crescem à noites. À noite a minha fica ao meu dispor. Todas as minhas ideias preconcebidas das coisas desaparecem. Às vezes anda-se à procura do paraíso nos sítios errados. Às vezes pode estar debaixo dos nossos pés. Ou na nossa cama.

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domingo, 10 de setembro de 2017

O RÁDIO ESTAVA SEMPRE NA COZINHA


Na casa que ficava em Audubon Place, o rádio estava sempre na cozinha e continuamente sintonizado na WWOZ, a grande estação de Nova Orleães que passa basicamente blues e rural gospel do Sul. O meu DJ favorito era sem dúvida a Brwon Sugar, uma disco jockey. Estava no turno da noite, passava os discos de Wyonic Harris, Roy Brwon, Ivory Joe, Little Walter, Lighttnin’ Hptkins, Chuck Willis, os que eram bons. Fazia-me muita compnhia quando já todos estavam a dormir. Brown Sugar, quem que ela fosse, tinha uma voz grossa, lenta, sonhadora, melosa – potente como um búfalo – divagava pela noite dentro, atendia as chamadas telefónicas, dava conselhos amorosos e punha discos a girar. Pus-me a pensar que idade teria. Se saberia que a sua voz me apaixonara, me enchera de paz interior e serenidade e acabara com a minha frustração. Era relaxante ouvir a sua voz. Ficava vidrado no rádio. Conseguia captar todas as palavras ditas por ela. Gostava de poder ter estado de corpo inteiro onde quer que ela estivesse.
A WWOZ era o tipo de estação que eu costumava ouvir à noite até tarde, e recordou-me os dissabores da minha juventude mergulhando-me nela. Nessas alturas, quando algo corria mal a rádio podia confortar-nos e deixar-nos bem. Havia também uma estação de rádio country, que bem mais cedo, antes do dia nascer, passava todas as canções dos anos 50, muito material western swing – ritmos clip clop, canções como «Jingle, Jangle, Jingle», «Under the Double Eafle», «There’s a New Moon over My Shoulder», a «Deck of Cards», de Tex Ritter, que eu já não ouvia há pelo menos trinta anos e as músicas de Red Foley.

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: Brown Sugar e Dwayne Breashears na WWOZ.



sábado, 2 de setembro de 2017

TUDO EM NOVA ORLEÃES É BOA IDEIA


Nova Orleães, ao contrário de outros sítios que perdem a magia quando a eles voltamos, ainda atem. A noite pode engolir-nos mas mesmo assim nada nos toca. Em todas as esquinas, há uma promessa de algo destemido e ideal e as coisas mal começaram. Há algo obscenamente alegre atrás de cada porta, ou então, alguém de cabeça perdida a chorar. Um ritmo preguiçoso domina o ar sonhador e a atmosfera vibra com os duelos de antigamente, com os romances de vidas passadas e com camaradas que procuram auxílio noutros camaradas. Não se vêem mas sabe-se que estão lá. Há sempre alguém a afundar-se. Toda a gente parece de outra qualquer família sulista muito antiga. Ou isso ou são estrangeiros. Eu gosto disto tal como é.
Há muitos sítios de que gosto, mas gosto mais de Nova Orleães. Há um milhar de perspectivas possíveis a toda a hora. Podemos dar de caras a qualquer instante com uma cerimónia em honra de uma rainha vagamente conhecida. Sangue azul, pessoas da nobreza completamente bêbedas escorregam pelas paredes abaixo e arrastam-se pela sarjeta. Mesmo esta gente parece possuir conhecimentos profundos que vamos querer ouvir. Nada aqui parece deslocado. A cidade é um poema muito longo. Jardins cheios de amores-perfeitos, petúnias cor-de-rosa, opiáceos. Santuários ornamentados a flores, murtas brancas, buganvílias e loendros púrpura estimulam os nossos sentidos, fazem-nos sentir frescos e tranquilos por dentro.

Tudo em Nova Orleães é boa ideia.

Bob Dylan em Crónicas

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Um homem é um sucesso se pula da cama de manhã e vai dormir à noite, e, nesse meio tempo, faz o que gosta.

Bob Dylan

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

ELE PODE RUGIR ATÉ A TERRA TREMER


Uma noite, o Bono, vocalista dos U2, tinha vindo jantar com uns amigos. Passar aquele tempo com o Bono foi como jantar num comboio – parece que estamos em movimento, a caminho de algum sítio. Bono tem a alma de um poeta antigo e há que ser cuidadoso quando se está perto dele. Ele pode rugir até a terra tremer. É também um filósofo envergonhado. Trouxe umas Guiness com ele. Estávamos a falar de coisas de que se fala quando se passa o Inverno com alguém – falámos sobre Jack Kerouac. O Bono conhece o material de Kerouac bastante bem. Kerouac, o homem que celebrizou cidades americanas como Truckee, Fargo, Botte e Madora, cidades que a maioria dos americanos nunca tinha ouvido falar. Era até estranho que Bono conhecesse melhor o Kerouac do que a maioria dos americanos. Bono diz coisas que mexem com qualquer um. É como aquele tipo dos velhos filmes, aquele que dá uma sova a um bufo com as próprias mãos e lhe arranca uma confissão. Se Bono tivesse vindo para a América na primeira metade do século tereia sido polícia. Ele parece saber muito sobre a América e o que não sabe tem curiosidade em saber

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: Bono