Mostrar mensagens com a etiqueta British-Bar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta British-Bar. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de março de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Dulcíssima cidade.

Branca?

Tanner diz que sim.

Branco é o silêncio, a solidão, o encantamento, a violência, o feitiço a nostalgia, a amargura, o deslumbramento.

Tudo branco?

Tanner diz que sim.

Lisboa ao voo do pássaro como diria o Mário-Henrique Leiria.

Um rio que se atreve a ser mar.

Cheiros. Gentes. Mãos que encontram outras mãos, mãos que ajudam, desajudam.

Paulo Nogueira, ao tempo da estreia do filme, escreveu que a felicidade só está disponível para quem sabe parar. Tanner pergunta todo o tempo se as cidades gostam dos homens.

Paul é um marinheiro que trabalha na casa das máquinas de um navio que aporta a Lisboa.

De um poema de Eugénio de Andrade:

Os navios existem
e existe o teu rosto encostado
ao rosto dos navios

Paul desembarca e embrenha-se na cidade. Entra num bar e depara na parede com um relógio cujos ponteiros rodam ao contrário. Nada, de facto, é tão permanente em relação a um barco, como a próxima rota da sua viagem.

António Reis deixou versos em que dizia que há sempre um rapaz triste com lágrimas nos olhos frente a um barco.

Paul resolve deixar partir o barco e ficar na cidade. 

Talvez o primeiro dia do resto da sua vida.

A Cidade Branca sofre um pouco da tristeza que é a nossa, ressalta a ternura que ansiamos e procuramos indefinidamente.

Volto à superfície, Stop; Rosa partiu não sei para onde, Stop; o único país de que gosto verdadeiramente é o mar, Stop; amo-vos, Stop; beijo-te ternamente, Stop; o corpo duma mulher é demasiado grande, Stop; a recordação e o esquecimento têm a mesma origem, Stop; as mulheres são demasiado belas, stop; os comboios não partem à tabela, Stop; não sei mais do que dantes, Stop.,  escreve Paul antes de deixar Lisboa, a cidade branca.

Realização e Argumento: Alain Tanner
Interpretação:
Bruno Ganz (Paul)
Teresa Madruga (Rosa)
Estreia em Portugal: Quarteto, 21 de Abril de 1983

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Não desperdices o tempo que os deuses te deram.

Nuno Bragança em Directa

Legenda: relógio no «British-Bar»

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O TEMPO A VOLTAR PARA TRÁS


Entretanto, um viking meu amigo, que, como qualquer viking que se preze, é muito grande e dinamarquês, usa suspensórios largos e farta cabeleira da idade branca, ofereceu-me um relógio que trabalha com o tempo a voltar para trás e das duas uma: ou se aprende a ler o tempo assim, o que é fácil ou se usa o tal espelho, outro, para descodificar as horas, os minutos e até os segundos que o relógio de Arhus dá.
Bent, eu naturalmente chamo-lhe Big Bent, ofereceu outro relógio igualzinho ao glorioso British-Bar, ali, ao Cais do Sodré.

José Duarte em Cinco Minutos de Jazz

terça-feira, 5 de abril de 2016

UM BAR É SEMPRE UMA FESTA


Estou agora sentado numa mesa de mármore (negro) do British-Bar. É evidente: bebo. Saí do jornal tarde, alinhavando prosa (lírica) sobre computadores (?) e não me apetecia estar sozinho na redacção do Cinéfilo. Um bar sempre é uma festa. A cumplicidade de mesa para mesa, os balcões, as vozes, tudo isso me ajuda.

Eduardo Guerra Carneiro no Cinéfilo nº 27, 6 de Abril de 1974

sábado, 3 de outubro de 2015

OLHARES


Pedro Cabrita Reis, à porta do British-Bar, a acender um Cohiba.

Legenda: fotografia do Notícias Sábado, 29 de Abril de 2006.

sábado, 2 de maio de 2015

O FINAL DA GUERRA EM LISBOA, 1945


Não houve qualquer meio de impedir os portugueses de, nos primeiros dias de Maio de 1945, virem para as ruas, euforicamente, festejar a vitória dos aliados face à besta nazi.

Tão pouco isso interessava aos propósitos de hipocrisia neutral de Salazar.

Por isso as tolerou.

Sempre esteve com Deus e com o Diabo.

Tinha eu pouco mais de um mês de vida, mas por esses dias por estas ruas, lá andaram o meu avô e o meu pai.

O meu avô contava que, nas ruas, apareceram bandeiras portuguesas, britânicas, norte-americanas, francesas e… bandeiras do Benfica, habilidade, contava ele, utilizada para representarem a bandeira da União Soviética.

Numa entrevista, de que não tenho indicação de nome e data do jornal, José-Augusto França confirma a versão do meu avô:

Mais tarde, soube que por cá os meus amigos tinham andado em grandes festas e que se fizeram manifestações a festejar a vitória dos aliados, apareceram uns paus sem bandeira e até bandeiras do Benfica. Eram, evidentemente, a homenagem aos aliados soviéticos, cujo nome não podia ser mencionado

José Gomes Ferreira, em Intervenção Sonâmbula, também refere o episódio:

No entanto, o povo berrava nas ruas a sua alegria com lágrimas e bandeiras (muitos empunhavam apenas paus nus com imaginárias bandeiras vermelhas da pátria dos sovietes), ainda com alguns ingénuos a quererem convencer-se de que a mágica queda do salazarismo aconteceria no dia seguinte.

Quem não dançou, quem não cantou, quem não soltou vivas e morras nessa noite? Mas entre aqueles milhares e milhares de pessoas, recordo-me sobretudo – é curioso como certas imagens sobrenadam na memória em detrimento de outras – recordo-me do Fernando Lopes Graça então 30 anos mais novo, a mancar, com os pés doridos de tanto marchar pelas pedras de Lisboa


No prédio onde está o British-Bar, em Março de 1945 içaram-se as bandeiras portuguesa, britânica e norte-americana.


Legenda: fotografia da Fundacionmapfre

domingo, 16 de novembro de 2014

UM LUGAR DE AFECTO


José Cardoso Pires foi um entusiasta e feliz praticante dos bares de Lisboa.

Lembro-me dele, no cair das tardes, no British-Bar ou no Bar Americano, ambos no Cais do Sodré.

No seu Lisboa, Livro de Bordo refere-se a estes bares e estende o olhar até ao Procópio e ao Pavilhão Chinês:

“Fazer horas”, dizemos nós quando não temos outra coisa para fazer. Pausa de espera ou vazio imprevisto, para isso há lugares de recurso, que o digam os frequentadores dos bares, por exemplo, mas aí o tempo morto acaba muitas vezes em tempo vivo e pode até deixar de ser de espera. Na verdade, só o bebedor desprevenido acredita em enganar as horas, quando as horas é que nos enganam muitas vezes, contando a passo certo e batido um tempo para lá dos números.

Razões muito suas, José Cardoso Pires não refere o Snob.

O Snob faz agora cinquenta anos de existência.

Um pequeno anúncio, publicado no Diário Popular, entre frigoríficos e a Simone de Oliveira a actuar no Lado a Lado, boite de Tony de Matos, dava a conhecer que no dia 16 de Novembro de 1964, abria ao público na Rua do Século nº 178 o bar Snob.

Dias antes, a 13, ocorrera a inauguração privada,

Por ocasião dos 30 anos do Snob,  José Quitério escreveu um texto evocativo.

Chamou-lhe Lugar de Afecto:

sábado, 5 de abril de 2014

EM LISBOA DEBAIXO DE CHUVA


Havia a apresentação do site sobre o 25 de Abril da Agência Lusa.

 Terminadoo evento saí, mais o Luís Pinheiro de Almeida, que tinha que ir buscar à Letra Livre, na Calçada do Combro, uns livros que prometera ao Jack Kerouac.
Começou a pingar, nada do outro mundo.

Sorte das sortes – há bruxas! – encontrei na Letra Livre o Vitor Silva Tavares a quem, em Dezembro de 2012, por ocasião do lançamento do Para já Para já,  prometera mostrar-lhe a minha colecção encadernada da &Etc., ficou encontro marcado, e aproveitar para, finalmente, olhar o subterrâneo maravilhoso que já deu um lindíssimo livro.

Quando saímos da Letra Livre continuava a chover, mas um pouco mais forte.

Subir o que restava da Calçada do Combro, entrar pela Orion dentro para um fininho e pastel de bacalhau.

Findo o repasto, chovia torrencialmente.

O Luís tinha um encontro marcado na Associação 25 de Abril e avançámos para o Largo do Camões onde aproveitaria para comprar uma umbrella - mais uma, disse -, odeio umbrellas e de corpinho bem feito, encharcado, ataquei a descida da Rua do Alecrim e a pensar que nada que a barra mansa do British-Bar não conseguisse resolver.

Lá chegado, o espanto ficou um grande ah! na minha cara.

Fechado para obras.

Olhei para dentro, apenas operários, nenhum dos trabalhadores do bar.

Informei-me.

Disse quem por lá se encontrava a trabalhar, que apenas estão a fazer limpezas, juntar alguns melhoramentos, ajeitar as casas de banho, lavar a cara, nada de especial, sublinharam.

Mas diz-se tanta coisa hoje em dia, e nada se cumpre, pelo que o melhor é esperar para ver.

O relógio que anda ao contrário, que aparece em A Cidade Branca do Alain Tanner disseram que vai continuar, não falaram na fotografia do José Cardoso Pires, mas espero que não se atrevam atirá-la.

Pode ser que tudo corra bem…

Certo, é que da vez anterior, por ocasião das grandes obras, mão danificaram o estilo.

Apenas aumentaram ligeiramente os preços.

Nada a que não estejamos habituados.

Porque não se pode destruir um bar que consegue parar o tempo, que tem um relógio que anda ao contrário.

No British-Bar a única música ambiente é o tilintar do gelo nos copos, e todos os seus trabalhadores (antes e depois do dia mágico) têm o recato e a discrição dos verdadeiros barmen: o que ouvem é como se não tivessem ouvido.

O Cais do Sodré apresentava um pandemónio de trânsito, gente a correr, buzinadelas.

Quarenta e cinco minutos à espera do autocarro, lembranças ainda da barra mansa do BB e o trautear de uma velha canção, vinda não sei a que propósito, talvez que por Abril já entrámos e que diz quem somos, o que fazemos aqui, quem nos abandonou, do que nos esquecemos…

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

Deu numerosos concertos em Portugal ao longo dos últimos 25 anos. Há algo de que goste particularmente de fazer por cá além de dar concertos?

Respondeu:

Gosto de andar em Lisboa. É uma cidade boa para fazer exercício – sou um homem velho, preciso de praticar. Sou fã dos azulejos, adoro o Museu nacional do Azulejo e tenho alguns livros sobre o assunto. Já conheço alguns donos de restaurantes e vou sempre ao British Bar no cais do Sodré porque não é um sítio britânico de todo. O velhote que engraxava os sapatos à porta já morreu, infelizmente. Fiquei satisfeito porque, da última vez que lá estive, um dos veteranos do sítio chegou-se à minha mesa e perguntou: “Você já vem cá há muito tempo, não vem?” Soube muito bem


Lloyd Cole, entrevista ao Expresso.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

UMA ÚNICA PARTICULARIDADE


 Foi então que algo o fez voltar e olhar de novo o mostrador enegrecido do relógio da estação. Examinou-o com cuidado e percebeu que havia qualquer coisa que não estava bem. Lembrava-se muito bem que ao chegar à estação o relógio indicava meia hora depois do meio-dia. Agora, os ponteiros marcavam meio-dia menos dez.
- Max! - soou a voz do pai, chamando-o da furgoneta. . Vamos embora!
- Já vou – murmurou Max para si mesmo, sem deixar de olhar para o mostrador.
O relógio não estava estragado, funcionava bem, com uma única particularidade: andava ao contrário.

Carlos Ruiz Zafón em O Príncipe da Neblina, Planeta Manuscrito, Lisboa Setembro 2011

Legenda: relógio que se encontra no British-Bar, também anda ao contrário e aparece no filme de Alain Tanner,  A Cidade Branca, 1983.

sábado, 15 de junho de 2013

OLHAR AS CAPAS


British Bar

João Isidro
Capa: Catarina Amaro da Costa
Edição da Câmara Municipal de Lisboa, Março de 2001

A tradição da casa ultrapassou discriminações bem mais patuscas do que as que torciam o nariz à entrada de mulheres. Igualmente datadas foram as que ditaram a manutenção dos vidros foscos para o exterior, ou a divisória lata de madeira, um biombo opaco que desapareceu com as obras mais recentes. Na origem dos vidros foscos esteve a distribuição dos frequentadores quotidianos dos três bares da zona, Todos se conheciam, concorriam entre si, mas não raramente davam uma ajuda ao escritório do lado. Todos eram vizinhos, todos sabiam do seu negócio e do negócio do vizinho. Ainda hoje, os profissionais que restam dos negócios portuários se encontram no British-Bar às mais variadas horas, desde as sete e meia da manhã até ao fim da tarde.
O espírito de boa vizinhança sempre imperou, se bem que, em tempos que já lá vão, se impusesse a distinção entre os estatutos de cada frequentador dos botequins da área. Os patrões reuniam-se no Bar Americano, patrões e chefes confraternizavam no English e todos podiam conviver no British.
O canto do balcão, à esquerda de quem entra, servia de ponto de correio entre os que faziam do British-Bar o respectivo escritório. Ali se deixavam correspondências para que parceiros do negócio levantassem documentação ou mensagens de serviço. Mesmo durante a II Guerra Mundial, quando se espiavam as cargas dos navios que faziam escala ou carregavam no neutral porto de Lisboa, era na mesa desse cantinho que se encontravam para animados jogos de damas dois responsáveis navais das potências beligerantes, o inglês e o alemão. Reza a lenda do British-Bar que nunca se terão zangado. A clientela habitual torcia pelos aliados e no edifício do British-Bar içaram-se as bandeiras britânica e norte-americana quando a Alemanha se rendeu, em Maio de 1945. A fotografia deste evento é exibida com destaque atrás do balcão, e já faz parte da iconografia da casa.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O FINAL DA GUERRA


O dia 8 de Maio de 1945 é a data oficial da derrota da Alemanha Nazi na Segunda Guerra Mundial.

Os aliados tinham acordado que o dia 9 de Maio de 1945 seria o da celebração da vitória. Contudo, os jornalistas ocidentais lançaram a notícia da rendição mais cedo do que o previsto.

A União Soviética manteve as celebrações para a data combinada e, ainda hoje, é nesse dia que a vitória é celebrada.

Em Lisboa milhares de pessoas vieram para a rua vitoriar o fim da guerra.

O meu avô muitas vezes me falou desse dia heróico, da alegria, do entusiasmo dos anti-salazaristas que vieram para a rua com bandeiras inglesas, americanas, e bandeiras do Benfica que, por vermelhas que são, representavam a União Soviética, também presente em paus sem qualquer bandeira.

Nunca tive a confirmação da história das bandeiras do Benfica, de que o meu avô falava, estarem presentes nas manifestações.

Quando pedia uma confirmação ao meu pai, apenas recebia um sorriso.

Passei a ligar o eventual acontecimento aos entusiasmos do meu avô que, normalmente, se apresentava às pessoas como republicano histórico, benfiquista e anti-clerical.

Das bandeiras do Benfica não encontrei escritos, mas das bandeiras sem pau, acabei por encontrar.

Fazem parte da primeira história de O Mundo e os Outros do José Gomes Ferreira:

Hoje, no oitavo dia do mês de Maio de mil novecentos e quarenta e cinco, acabou na Europa a segunda guerra mundial. «Até que enfim!» - zumbiu a meu lado a voz melíflua dum cavalheiro de olhos acendidos de entusiasmo, de conjuntivite e lugar-comum.
«Até que enfim!», concordei eu, confuso de alegria, saltando do eléctrico para me embeber numa multidão ruidosa com bandeirinhas nas mãos, nas tranças das garotas, nos gritos dos cortejos – Vitória! Vitória – e nos paus de vassoura sem bandeiras.

No dia 8 de Março de 1945 eu tinha 50 dias.

A 6 de Agosto aconteceria Hiroshima.

Legenda: Quem se encostar à barra mansa do British-Bar e olhar a estante das garrafas, verá esta fotografia.

No dia 8 de Maio de 1945, as portas do BB ostentavam as bandeiras norte-americana, portuguesa e britânica. A outra não está.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

MÁRIO-GIN-TONIC


Já há muito que deixei de encontrar na rua o Mário-Henrique Leiria.

Sei que, neste Portugal que tanto se orgulha de ser ceeeuropeu, morreu de fome, sim de fome, a 9 de Janeiro de 1980.

Mas não se trata disso agora, antes da falta que ele me continua a fazer.

Pensei que rodeado dos seus livros não seria atingido pela sua morte.

Nada mais estúpido e imprudente.

Porque os livros, sim os livros estão ali, mas o que eu sinto é a falta da indefinível e enorme ternura deste velho, amante, como ninguém, de gin-tonic.

Os seus risos sarcásticos, as suas gargalhadas sempre prontas a ferroar a canalhada camaleona pela qual tinha um enorme desprezo.

Eh pá!, nóas antes tínhamos um inimigo pela frente. E sabáimos e eestávamos todos realmente unidos, eu queria lá saber que cor de camisa é que tu vestias, ou que cor de cuecas é que aquele usava, éramos todos antifascistas, e pumba. Agora pá, o Álvaro Guerra deixou de me falar, porque eu não pertenço ao clube dele…

Que dirias tu, destes políticos de pacotilha, da enorme manada de corruptos que nos assiste, destes doutores e engenheiros da mula ruça, uma gentalha que nos inferniza os dias, sem qualquer fim à vista?

Volta e meia lá vou ao British-Bar beber três gins: um por ti, outro por mim e one for the road, assim um pouco como em O Imenso Adeus do Chandler, traduzido por ti, como mais ninguém o poderia traduzir.

Um velho cheio de caracter, um enfant terrible que deixou um pungente sabor de saudade instransponível.

Frequentava, e desenvolvia, o fascínio da amizade, do companheirismo, um humor finíssimo, também uma maldade biliosa para quem lhe pisava os calos.

Mas um tipo de uma ternura desconcertante.

Já gostava de gin-tonic, quando, na redacção do República, o conheci.

Mas posso afirmar que tudo passou a ter um outro sabor, um outro encantamento, uma outra paixão.

Vá lá a gente saber porquê!...

terça-feira, 29 de novembro de 2011

FREQUENTADO POR ARTISTAS


Desceu na praça e pensou em tomar qualquer coisa no British Bar do Cais do Sodré. Sabia que era um lugar frequentado por artistas e contava encontrar lá algum. Entrou e sentou-se numa mesa do canto. Na mesa vizinha, realmente, estava o romancista Aquilino Ribeiro a almoçar com Bernardo Marques, o desenhador de vanguarda, que tinha ilustrado as melhores revistas do Modernismo português. Pereira deu-lhes os bons dias e os artistas responderam com um aceno de cabeça.

Antonio Tabucchi em Afirma Pereira, Quetzal Editores, Lisboa 1995

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

POSTAIS EM SELO

Espirais de fumo, um frasco de tinta
tombado e a mancha cega que aos poucos
levará a memória disto, este encontro
de amigos, este bar.
Voltarei a ter encostada  à minha
a carne áspera da solidão, voltarei
a esse sim-não-sim-não-sim: perdido
para segundas escolhas,
reflexos abolidos entre estranhas
gravidades, entretido com rudes

Diogo Vaz Pinto no Público

sábado, 5 de junho de 2010

CAIS DO SODRÉ 79



O "Bar Americano" era diferente do “British” e do “English”.

Uma sala pequena, um balcão de madeira, também paredes de madeira. Um bar de silêncios.

Como todos os bares do Cais do Sodré a clientela era constituída por trabalhadores de agências de navegação e similares.

Uma conclusão simples: dos três bares o “British” era o bar popular, o bar de toda a gente.

E para que o retrato fique um pouco mais composto, voltamos ao “Livro de Bordo” do José Cardoso Pires, ele que um dia disse que um “barman” é um comandante do prazer:

Não há dúvida, os bares são realmente navegações pessoalíssimas. Do outro lado da rua tenho “O Americano” que, como figura de proa, não ostenta um relógio de intrigar mas um possante urogalo embalsamado num altar de parde. Em tempos foi um balcão de suevos, daneses e britânicos, funcionários, todos eles, das agências de navegação do Cais do Sodré, e aqui, hoje que o dia está de feição, torno a tropeçar noutro poeta: Pessoa. O Pessoa, sempre o Pessoa, o Pessoa, nosso fadário. Também ele, nos gloriosos anos trinta, frquentava “O Americano” às horas litúrgicas dos “morning drinkers”. Navegações é o que eu digo. Nos bares do Cais do Sodré ninguém está livre de apanhar com uma porta à deriva pela proa.
Hoje “O Americano” perdeu lastro, balança à tona dum passado de bebedores em inglês, reflectidos no “gin-tonic” ou no “sling”. Está quase em seco, como se vê, sem esses navegantes de balcão; e a emoldurar a sua solitude exibe calendários de “shi-chandlers” com navios de grande curso a fumegarem nas paredes.

José Cardoso Pires sentado a uma mesa do "Bar Americano". Desconheço a data da fotografia, que foi retirada de um número da revista "Ler" editada pelo "Círculo de Leitores."

sexta-feira, 4 de junho de 2010

CAIS DO SODRÉ 77

Para completar as “Memórias” de ontem, ficam aqui três fotografias.
A da“Livraria Anglo-Americana”, hoje está lá a “Caneças”, boutique do pão, uma fotografia do “British Bar” e outra do “English-Bar”.
Foram tiradas no mesmo dia cinzento, provavelmente no ano de 1977, mas nunca depois deste ano
Quando José Cardoso Pires desenha para a “Expo 98” o seu “Lisboa Livro de Bordo”, já o “English-Bar” não existia. Transformara-se na cervejaria que ainda hoje lá está. Daí que, no que ao Cais do Sodré diz respeito, Cardoso Pires apenas referir o “British-Bar” e o “Bar Americano” que ainda por lá se encontra mas não é nada do que era e que de bar só ficou o nome. Situa-se em frente à “Caneças”.


Esta fotografia do “British-Bar” é de antes da remodelação que se verificou em
Ponto de encontro, a qualquer hora do dia e da noite, de trabalhadores de agentes de navegação e agentes transitários, “ship-chandlers”, um pouco de tudo que à navegação, naquele tempo, dizia respeito.

O antigo dono levou o papagaio (ou arara?), bem como o relógio com os ponteiros a andarem em sentido contrário, relógio que aparece no filme “Cidade Branca" do Alain Tanner,
O problema do relógio o Silva resolveu: mandou vir um outro de Copenhague. Papagaio (ou arara?) nunca mais houve.

José Cardoso Pires no seu "Livro de Bordo":

“No British Bar os anos passam, as gerações mudam, vêm literatos, vêm contrabandistas, vêm estivadores à mistura com meninas de civilização, mas o espírito e a cor local mantêm-se inconfundíveis. Tem um sabor a cais sem água à vista, este lugar.”


O “English-Bar” era uma sala espaçosa com maples de couro, como nos velhos clubes ingleses, um ambiente mais calmo, mais respeitável que o do “British”. 

Para simplificar, dizer que era ali que parava o frequentado pelo patronato das agências de navegação.

Também tinha balcão e no bengaleiro estava pendurada uma bolsa com tacos de golfe.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

MEMÓRIAS

Pelo menos uma vez por semana, ao cair da tarde, saia da Agência e ia até à “Livaria Anglo-Americana” ali ao Cais do Sodré, no mesmo lado da fronteira do "British-Bar" e do "English-Bar". 

No local da livraria, foi a Pastelaria Caneças,  está hoje, com o mesmo nome, uma boutique de pão.

Alguém já contou a história por aqui.

Quando se gosta de livros, se encontra um empregado de livraria que sabe o que é um livro, que ainda por cima é escritor, a felicidade é a palavra que se encontra para definir o enquadramento.

Antes de Abril o Eduardo guardava-me, de imediato, os livros que ele cheirava que iriam ficar fora do mercado.

Por um findar de tarde, era Verão, fui até à Anglo-Americana para saber dos últimos livros saídos. O Eduardo estava à conversa com o Altino Tojal, sim esse o dos Putos. 

Corridos os taipais fomos até ao British-Bar. 

Palavra puxa palavra, copo puxa copo, já eram mais que horas de jantar. 

Sabia que por casa o jantar seria uma salada de feijão frade, com muita cebola, pickles e atum Tenório. 

Era só juntar mais umas latas e corremos a apanhar o 35.

O vinho era Arruda, tinto, a janela aberta bebia o calor na noite cálida, assim como lembrando o Eça, a Aida conversava com o Eduardo, ambos, desde muito jovens, empregados de balcão o Eduardo de livros, a Aida de corte e costura.

Entretanto, chegara o Garrudo, já não sei bem para o quê, e a conversa ainda mais se eternizou. Escolher e falar de coisas simples, aquelas coisas insignificantes que nos emocionam até aos limites da ternura.

Noite adiantada, o outro dia era dia de trabalho. O Garrudo ofereceu-se para boleias. 

O Altino Tojal quis ficar no Cais do Sodré e fomos levar o Eduardo a Manique, uma aldeia ali para os lados de Alcabibeche, onde há carreiras de camionetas, raparigas, que acabaram por dar um livro
.
Pela manhã, na Agência, recebo telefonema do Eduardo para passar pela livraria.

Da conversa da véspera do Eduardo com a Aida, tinha nascido um poema. Escrito num bocado de cartão, a marcador vermelho, o Eduardo pediu-me que o entregasse à Aida.

Durante muitos anos assim ficou na parede da casa.

O tempo fez desaparecer as palavras, escritas a marcador vermelho, do Eduardo Olímpio. Mas a o poema está aqui:

AMIGA

Quem sorri assim fecha a janela
Que o Sol não é preciso
Na mesa há uma toalha de ternura
E no copo no talher o teu sorriso.

Pela casa dois pardais tentam voar
Voam penas/alegrias no corredor:
- Voem pardalitos, voem, voem
Que as paredes desta casa são de amor.

E um dia hei-de ir mercar ao teu balcão
(Nem seja somente em fantasia)
Um casaco de sol em jaquetão,
Já-que-tão me tocaste de harmonia.


Eduardo Olímpio

(16.09.81)

A fotografia que, em cima, ilustra estas memórias, tirou-a o Luís Pinheiro de Almeida, num daqueles dias rigorosos de Fevereiro deste ano. Mr. Ié-Ié garantiu que, para tirar a fotografia ao paquete Aida ancorado na Rocha de Conde d’ Óbidos, correu sérios riscos de vida. 


Mas prometeu que, quando o paquete voltar a Lisboa, fará uma fotografia mais aprimorada.

Coloco, também, a capa de um dos livros do Eduardo Olímpio, precisamente A Menina da Carreira de Manique.


Um livro ternurento de que o Mário Castrim disse ser uma armadilha de encantamento de que poucos livros conhecem o segredo”, e o Júlio Conrado: “ao que o Eduardo Olímpio chama mini-crónicas chamo eu pérolas da literatura portuguesa. E assumo a inteira responsabilidade daquilo que escrevo., ou o Jorge Listopad: Lê-se, e o português canta. Através das coisas, das falas, do tempo. Sem falso lirismo, sem literatice. É possível que passasse por entre os “grandes” despercebido? Que não tivesse encontrado os leitores que merecia e merece?.

(1) “A Menina da Carreira de Manique”, Eduardo Olímpio, capa H.Mourato, “Edições Maria da Fonte”, Lisboa 1978

sábado, 6 de março de 2010

FEIRA DA LADRA

Anos e anos a dar entrada e saída a navios soviéticos, tornaram-me um, quase,“expert” em vodka.

Até chegar à vodka russa, apenas conhecia as vodkas polacas e suecas. A partir daí soube, então, que a vodka russa é a melhor vodka do mundo, e de todas elas, a menos aromatizada.

As vodkas russas de exportação são conhecidas: a “Maskovskaya" e a "Stolichnaya".

A garrafa que se vê na fotografia é a chamada vodka dos marinheiros, foi uma oferta do capitão do “Valya Kurakina” e um dos últimos exemplares do império, sim porque a Perestroika também chegou às vodkas e a partir daí, numa qualquer Sacavém russa, se começou a martelar vodka...

Sabem da sensação de dar entrada a um navio, às 6 da manhã ,e o capitão pôr uma garrafa de vodka, estupidamente gelada ,em cima da mesa?

Não devem saber.

Um cálice de vodka bebe-se de uma só vez, e aberta uma garrafa ela tem que ser bebida na sua totalidade. Depois havia sempre a escada de portaló... e não vos conto como era quando as águas do rio estavam agitadas. The story of my life...

Certa vez, lembro-me de um guarda-fiscal, ao terceiro cálice, a perguntar se era verdade que a vodka era recomendada contra o cancro.

Traduzida a pergunta, o capitão respondeu que a vodka é boa para tudo, mesmo tudo, até contra o cancro.

A vodka dá bebedeiras imprevisíveis, gloriosas, e uma bebedeira de vodka é sempre diferente da anterior.

Serviu até para Ieltsin, perdido de bêbado a todas as horas, ter entregue o país à máfia.

Ainda lá estão e espalharam-se por todo o mundo.

Ninguém sabe ao certo como surgiu o chamado “Vodka Orange”.

Uns dizem que foi para dar cor à vodka, outros que foi para lhe dar sabor. Talvez as duas coisas.

O Silva, barman do “British”-Bar”, se lê-se o "Cais do Olhar", ofendia-se porque não se considerava "barman", o que ele gostava mesmo era de tirar imperiais, dizia que foi por causa das mulheres que nasceu o "vodka laranja". 

Que seja!

O vodka laranja não tem qualquer tipo de segredos.

Num copo de boca larga, colocar pedras de gelo, deitar vodka por cima e juntar o sumo de laranja. Sim, sumo de laranja ,nunca Trinaranjus ou Fanta ou qualquer outra mistela parecida.
Dance suavemenete o copo nos dedos, ouça o gelo a bater nas paredes do copo.

Mas não esqueçam nunca que a vodka é para se beber pura e gelada.

"Nasdarovia!"