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sábado, 30 de setembro de 2017

COMO UMA LONGA E RUIDOSA ORAÇÃO



No dia 29 de Dezembro do ano passado, Born to Run de Bruce Springsteen entrou no Olhar as Capas.
No terceiro dia do novo ano, começámos a transcrever passagens do livro. 
Chegamos agora ao fim.
Cesare Pavese, com o seu Ofício de Viver, será a próxima proposta de leitura.

Lutei toda a minha vida, estudei, toquei música, trabalhei, porque queria ouvir e conhecer toda a história, a minha história, a nossa história, e compreendê-la o mais possível. Queria compreendê-la de maneira a libertar-me das suas influências mais negativas, das suas forças malévolas, para celebrar e honrar a sua beleza, o seu poder, e ser capaz de contar devidamente aos meus amigos, à minha família e a todos vocês. Não sei se o fiz, e o diabo está sempre à espreita, mas sei que foi esta a minha promessa inicial para mim, para vocês. Tentei concretizá-la como uma questão de honra. Apresentei-a como a minha longa e ruidosa oração, o meu truque de magia. Com a esperança de que abalasse a vossa alma e depois se transmitisse, o seu espírito absolvido, para ser lida, ouvida, cantada e alterada por vocês e pelo vosso sangue, para que vos pudesse fortalecer e ajudar a atribuir um sentido à vossa história. Contem-na.

Bruce Springsteen em Born to Run

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

SOU UMA SOMA DE TODAS AS PARTES


Acerca da minha voz para começar. Não tenho lá grande voz. Tenho a força, a capacidade de alcance e a resistência de um típico cantor de bar, mas não tenho uma grande beleza a nível de timbre, ou sequer categoria. Cinco actuações por noite? Sem problema. Três horas e meia de actuação? É possível. Necessidade de aquecimento? Quase nenhuma. A minha voz cumpre as devidas funções. Mas é o instrumento de um trabalhador a prazo, e por i só, nunca me levaria a voar alto. Preciso de recorrer a todas as minhas capacidades para conseguir comunicar em profundidade. Para conseguir vender o que vocês compram, tenho de escrever, tenho de editar, tocar, dar um grande espectáculo e, sim, cantar o melhor que me é possível. Sou uma soma de todas as partes. Cedo aprendi que isto não é motivo de preocupação. Todos os artistas têm os seus pontos fracos. Parte do sucesso deve-se a saber o que fazer com o que se tem e com o que NÃO se tem. Como disse o Clint Eastwood; «Um homem tem de saber os seus limites.» Depois há os que os esquecer e seguir em frente.

Bruce Springsteen em Born to Run

terça-feira, 12 de setembro de 2017

ESTADO DA NAÇÃO NO TEMPO DE BUSH


Lembro-me de trabalhar numa grande parte do Magic no meu escritório em Ramson, mas, agora, tendia a escrever em qualquer sítio e em qualquer momento. Já não esperava, como no passado, as digressões da composição. Muitas vezes escrevei no meu camarim antes do concerto; ou depois – no meu quarto de hotel. Tornou-se um método de meditação no início de uma noite agitada.
Em silêncio, perdido nos meus pensamentos, viajei até sítios onde nunca estivera, vi através dos olhos de quem nunca conhecera e revivi os sonhos de refugiados e forasteiros. Esses sonhos eram, de algum modo, também os meus. Sentia os seus receios, as suas esperanças, os seus desejos, e, quando estes eram bons, descolava do meu buraco no hotel e dava por mim de volta a uma estrada metafísisca em busca da vida e do rock ‘n’roll. O Magic foi a minha crítica ao estado da nação em tempo de guerra no Iraque e aos anos da presidência de Bush.
Contudo, no Magic apontei em todas as direcções, para que as partes política e pessoal se misturassem. Pode ouvir-se todo o álbum sem nunca se pensar na política actual, ou, em alternativa, pode-se senti-la por entre a costura interna da música, na sua batida mortiça.

Bruce Springsteen em Born to Run

    
 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Se pusermos o coração na música, esta nunca envelhece.

Bruce Springsteen em Born to Run

O QUE TEM DE ERRADO ESTE CENÁRIO?


Eu já tinha participado em várias cerimónias do novo Museu e Rock and Roll Hall of Fame, em Cleveland. No seu segundo anos de existência, comparecera para homenagear o Roy Orbison e tive depois a honra de homenagear o Bob Dylan. Tratava-se de duas das minhas mais notórias influências. Ser escolhido para os homenagear no Hall of Fame significou muito para mim. Depois das cerimónias, durante o concerto de todas as estrelas, que, à época, incluía todos os músicos presentes, fiquei em palco com o Mick Jagger e o George Harrison, todos nós juntos num único microfone e cantei «I saw her standing there». E pensei: «O que tem de errado este cenário?» Como é que um miúdo de New Jersey acaba, nessa noite, entre dois homens, cujo trabalho influenciara de tal forma a sua alma, que ele tivera de seguir a estrada que eles haviam aberto diante dele, de segui-la com todas as suas forças?

Bruce Springsteen em Born to Run


sábado, 26 de agosto de 2017

SOMOS PRÓXIMOS UNS DOS OUTROS


Honramos os nossos pais quando conservamos na memória o de melhor tinham e faziam e deixamos o resto para trás. Quando combatemos e controlamos os demónios que os deitaram abaixo e que, agora, habitam em nós. É tudo o que podemos fazer se tivermos sorte. Tenho uma mulher que amo, uma bela filha e dois bonitos filhos. Somos próximos uns dos outros. Não sofremos de alienação e da confusão por que passei na minha família. No entanto, as sementes dos problemas do meu pai estão plantadas bem fundo no nosso interior… e, assim, resta-nos manter a vigilância.

Bruce Springsteen em Born to Run

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

SOMOS UMA NAÇÃO DE IMIGRANTES


The Ghost of Tom Joad abordava os efeitos da crescente divisão económica das décadas de 80 e 90, dos tempos difíceis e das consequências sentidas por muitas das pessoas cujo trabalho e sacrifício criaram a América, e cujo esforço é essencial para o nosso dia a dia. Somos uma nação de imigrantes, e ninguém sabe quem são aqueles que passam hoje as nossas fronteiras, pessoas cuja história pode acrescentar uma página importante à história americana. Agora, nos anos iniciais deste século, tal como no virara do último, estamos de novo em guerra com os nossos «novos americanos», Tal como no anterior, as pessoas chegarão, passarão por dificuldades e preconceitos, combaterão as forças mais reacionárias e os corações mais empedernidos do seu lar adotivo e provarão ser resistentes e vencedoras.
Eu sabia que The Ghost of Tom Joad não atrairia o grosso do meu público. No entanto, estava certo de que as canções que dele constavam vinham conformar novamente o melhor que sou capaz de fazer. O álbum trazia algo de novo, mas fazia também uma referência às coisas que eu tentara defender e que ainda desejava ter como meus cavalos de batalha enquanto compositor.


Bruce Springsteen em Born to Run

terça-feira, 8 de agosto de 2017

OS EMPREGOS DESAPARECERAM


«Youngstown» e «The New Timer», foram duas canções inspiradas por um livro chamado Uma Viagem a Nenhures, dos meus amigos Dale Maharidge e Michael Williamson. Ambas as canções narravam os efeitos pós- industrialização nos Estados Unidos e do fardo dos empregos perdidos, do trabalho subcontratado e do desaparecimento da nossa base de produção que recaía sobre os cidadãos cujo trabalho árduo construíra a América. Eu assistira a esta realidade em primeira mão quando a Tecelagem de Tapetes Karagheusian, sediada em Freehold, fechou a fábrica e rumou a sul de forma a obter trabalho mais barato e não sindicalizado, ao invés de resolver uma contenda laboral com os seus trabalhadores: Os empregos desapareceram. O meu pai trabalhara lá quando eu era miúdo, e a minha vida musical e os Castiles tinham nascido a menos de 45 metros das suas chaminés fumarentas e teares barulhentos. (A fábrica fechou em 1964, após 60 anos de laboração.)

Bruce Springsteen em Born to Run


sábado, 5 de agosto de 2017

E EU COMEÇAVA A RECEAR O VENTO


Benmont Tench, um dos músicos da banda do Tom Petty, pediu-me incessantemente, quase implorava que fossem incluídas outras canções nos espectáculos. A «Chimes of Freedom» - achas que podemos tentar? Ou por exemplo a «My Back Pages»? Ou «Spanish Harlem Incident»? E eu dava sempre uma desculpa esfarrapada. Na verdade não sei bem quem estava a desculpar-se porque tinha fechado a porta a mim mesmo. O problema era que, depois de ter confiado tanto tempo no instinto e na intuição, estes tinham-se transformado em abutres e estavam a deixar-me seco. Até a espontaneidade se tinha tornado numa cabra cega. Os meus montes de feno não estavam consistentemente e eu começava a recear o vento.

Bob Dylan em Crónicas




sábado, 22 de julho de 2017

NÃO SOMOS NÓS QUE DECIDIMOS


Nunca controlamos completamente a curvatura da nossa carreira. Os acontecimentos históricos e culturais criam uma oportunidade, determinada canção vem-nos parar às mãos e abre-se uma janela para o impacto, a comunicação, o sucesso, a expansão da nossa visão musical. Pode fechar-se de imediato para nunca se reabrir. Não somos nós que decidimos quando chegou o nosso tempo. Podemos ter trabalhado arduamente, honestamente, visando – de forma consciente ou inconsciente – uma certa posição, mas nunca sabemos mesmo se o nosso «grande» momento vai chegar. E de repente… ele aí está.

Bruce Springsteen em Born to Run

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O MAIOR ÁLBUM DA MINHA CARREIRA


Às vezes os discos ditam as suas próprias personalidades e nós temos simplesmente de os deixar ser o que são. Era o caso de Born in the USA. Quando finalmente parei com as minhas hesitações, peguei no melhor daquilo que tinha e avancei para o que seria o maior álbum da minha carreira. Born in the USA mudou a minha vida, deu-me um público alargado, forçou-me a pensar ainda mais sobre a forma como eu apresentava a minha música e pôs-me por um breve instante no centro do mundo da pop.

Bruce Springsteen em Born to Run

terça-feira, 4 de julho de 2017

ENQUANTO O RESTO DO MUNDO DORMIA


Eram os «porquê» e «para quê» fundamentais que me levavam a pegar na guitarra. Sim as raparigas. Sim, o sucesso. Mas as respostas, ou melhor, aquelas pistas, era isso que continuava a acordar-me a meio da noite, para rolar para o lado contrário e desaparecer na caixa de som da minha cifra de seis cordas (que ficava sempre ao lado da minha cama) enquanto o resto do mundo dormia. Sinto-me contente por ter sido principescamente pago pelo meu esforço, mas a verdade é que o teria feito mesmo sem receber nada. Porque tinha de o fazer. Era a única maneira de eu encontrar um alívio momentâneo e o propósito de que andava à procura. Portanto, para mim, não haveria qualquer atalho. É pedir muito a um pedaço de madeira com seis cordas de aço e um par de microfones baratuchos acoplados., mas essa era a «espada» da minha libertação.

Bruce Springsteen em Born to Run

segunda-feira, 26 de junho de 2017

AQUILO É A MINHA VIDA



Os meus discos são sempre o som de alguém que tenta perceber o sítio onde deve pousar a sua mente e o seu coração. Eu imagino uma vida, depois visto-a, e vejo como é que me fica. Visto a pele de outra pessoa, a caminhar pelas ruas escuras e soalheiras que sou compelido a percorrer, mas posso não acabar a querer viver mesmo isso. É um pé na luz, um pé nas trevas, em direcção ao dia seguinte. A canção «The River» foi um marco na minha escrita. A influência da música country demonstrou ser presciente quando numa noite, no meu quarto de hotel, comecei a cantar o tema «My Bucket’s Got a Hole in It», de Hank Williams, e o Well, I went upon the mountain, I looked down in the sea (Bem, subi ao cimo da montanha, olhei para o mar em baixo) acabou por me levar de alguma forma até I’m going down in the sea… (Estou a descer até ao rio). Peguei no carro, regressei à minha casa de New Jersey e sentei-me à pequena mesa de carvalho do meu quarto, a observar o céu da alvorada a transformar-se de negro para azul e imaginei a minha história. Era apenas um tipo num bar a falar com um estranho sentado no banco ao lado. Baseei a canção na crise da indústria da construção civil na Jersey de finais dos anos 70, na recessão e nos tempos muito duros que atingiram a minha irmã Virginia e a família dela. Vi o meu cunhado a perder o seu trabalho bem remunerado e, sem nenhum queixume, a ter de trabalhar arduamente para sobreviver. Quando a minha irmã ouviu a canção pela primeira vez, foi aos bastidores, abraçou-me e disse: «Aquilo é a minha vida.» Essa continua a ser melhor crítica que eu já tive. A minha bela irmã, forte e de pescoço erguido, funcionária do K-Mart, mulher e mãe de três filhos, a segurara-se com força e a viver de que eu fugira o mais depressa que pude.

Bruce Springsteen em Born to Run

sábado, 17 de junho de 2017

ATÉ APAZIGUARMOS A NOSSA ALMA...


Fora da estrada, a vida era uma confusão. Sem aquela dose noturna de adrenalina ministrada pelo espetáculo, eu ficava um bocado perdido, deixando que me viesse bater à porta o que quer que fosse que me andava a corroer. Fora do estúdio e da estrada, eu… não existia. Acabei por ter de enfrentar o facto de que não estou bem a descansar, portanto, não posso descansar para poder estar bem. Os concertos mantinham-me focado e sereno, mas não podiam resolver os meus problemas. Não tinha família, não tinha casa, não tinha uma vida real. Não é nenhuma novidade; muitos artistas vão dizer-vos a mesma coisa. É uma maleita bastante comum, assim uma espécie de perfil típico da minha profissão. Nós somos viajantes, gente que corre estrada fora, e não gente que fica quieta. Mas cada homem e cada mulher acabam por correr ou ficar à sua própria maneira. Eu percebi finalmente que uma das razões de os meus discos levarem tanto a fazer era que eu não tinha mais nada para fazer; não havia mais nada em que me sentisse confortável a afazer. Por isso, porque não fazer como cantava o Sam Cooke, e levar «a noite inteira… a noite inteira… a noite inteira»? As minhas gravações eram como um regresso à caminhada de três quarteirões até à escola, que todas as manhãs eu tentava prolongar até à eternidade. Get in the groove and let the good times roll, we gonna stay here ‘til we soothe our soul. (Entra no ritmo e deixa correr as coisas boas, vamos ficar por aqui até apaziguarmos a nossa alma.)
Até apaziguarmos a nossa alma… isso era capaz de levar algum tempo.

Bruce Springsteen em Born to Run

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ESTA NOITE VOU ESTAR NAQUELA COLINA

Decidi que os primórdios do meu objetivo, da minha razão de ser, da minha paixão, estavam nas ruas da minha terra natal. A par com o catolicismo, descobri a outra peça do «génesis» da minha experiência familiar daquele tempo, que se tornou o início da minha canção: casa, raízes, consanguinidade, comunidade, responsabilidade, manter a dureza, manter a fúria de viver, mantermo-nos vivos. Estas são as coisas que, com a dição açucarada dos carros, miúdas e fortuna, orientaram a minha odisseia musical. Eu até podia viajar para muito longe, afastar-me anos-luz e gostar muito disso, mas acabava por nunca deixar verdadeiramente a minha casa. A minha música começou a ter mais implicações políticas; tentei encontrar uma forma de colocar o meu trabalho ao serviço de causas. Li e estudei para me tornar num escritor melhor e mais eficaz., Eu abrigava dentro de mim uma crença e ambição extravagantes acerca do efeito provocado pelas canções pop. Queria que a minha música se sustentasse na minha vida, na vida da minha família e no sangue, suor e lágrimas das vidas das pessoas que eu tinha conhecido.
Em termos emocionais, a maior parte das minhas letras são autobiográficas. Aprendi que temos de puxar para cima as coisas que nos dizem qualquer coisa de maneira a que elas signifiquem alguma coisa para o público. É aí que reside a prova. É assim que as pessoas ficam a saber que não estamos no gozo. Com a frase final do disco, Tonight I’ll be on that hill(Esta noite vou estar naquela colina), os meus personagens mantém-se inseguros quanto ao seu destino, mas estão empenhados e entrincheirados. No final de Darkness, eu encontrara a minha voz adulta.

Bruce Springsteen em Born To Run

terça-feira, 30 de maio de 2017

DEPOIS DIALOGUEM


Mais tarde na vida, disse aos meus filhos que a compaixão é uma virtude fantástica, mas que não a devemos desperdiçar com aqueles que não a merecem. Se alguém vos agarrar pelo pescoço, deem-lhe um pontapé nos tomates, e depois sim, dialoguem.

Bruce Springsteen em Born to Run

sexta-feira, 19 de maio de 2017

MOSTRAR EM VEZ DE DIZER


Tinamos um concerto marcado no Hammersmith Odeon, um recinto no coração de Londres. Quando encostamos ao passeio junto à porta, o cartaz luminoso Diz: «FINALMENTE!! LONFRES ESTÀ PRONTA PARA BRUCE SPRINGSTEEN». Parece-me que o tom não é lá o melhor para nos apresentar. Talvez seja… demasiado pretensioso? Ao entrar, sou inundado por um mar de pósteres colados em tosos os espaços possíveis e folhetos em cada cadeira a proclamar-me como o PRÓXIMO ESTRONDOSO SUCESSO! Era como o beijo da morte! Geralmente é melhor deixar que seja o público a decidir sobre essas coisas. Estou com medo e chateado, mesmo muito chateado. Sinto vergonha por mim e sinto-me ofendido pelos meus fãs.. Não é assim que as coisas funcionam. Eu sei como funcionam. Já o fiz antes. Bico calado e tocar. O meu negócio é o negócio do espetáculo, ou seja de mostrar em vez de dizer. Não se diz nada às pessoas; mostra-se às pessoas e deixamos que elas decidam. Foi assim que cheguei aqui: MOSTRNDO às pessoas. Se tentarmos dizer às pessoas aquilo que elas devem pensar, vamos terminar a vida como um fascistazinho a pregar na Madison Avenue. Ei, senhor estrela do rock desapareça da minha cabeça e faça o favor de andar nos meus sapatos e de entrar no meu coração. É assim que se faz o nosso trabalho. É assim que nos apresentamos.

Bruce Springsteen em Born to Run.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

GENEROSIDADE E AMOR


Na nossa demanda, o Jon tornou-se um fator de equilíbrio. Iríamos viajar juntos por territórios um bocado selvagens. Ele tornou-se meu amigo e aconselhou-me quando parecia que eu estava a cambalear demasiado perto do meu abismo favorito. Antes do Jon, não conhecia ninguém que tivesse passado sequer três minutos no consultório de um terapeuta. Cresci em redor de muitas pessoas bastante doentes, mas que mantinham isso oculto, suscetíveis a depressões graves e comportamentos imprevisíveis e perturbadores. Eu sabia que isso era uma peça bastante importante da minha própria sanidade mental. Em New Jersey, no meio em que eu vivia, a profissão de psiquiatra bem podia nem existir. Quando me senti no fundo do poço, o Jon encaminhou-me para quem me pudesse ajudar a recentrar-me e a alterar o curso da minha vida. Tenho uma enorme dívida ao meu amigo, por causa desta bondade, generosidade e amor. E ele também fez um trabalho muito bom no papel de agente. Continuamos por cá, após tantos anos. Sempre que eu e o Jon discutimos o caminho a seguir, ele orientou-se por duas coisas: o meu bem-estar e a ninha felicidade (e só depois vinham os proveitos financeiros da digressão!) essas duas primeira premissas eram as respostas que eu tanto procurava, nas já distantes névoas de Freehold. São respostas que vêm nas formas simples e extraordinariamente complicadas da amizade e da parentalidade. São as únicas respostas.

Bruce Springsteen em Born to Run

Legenda: Jon Landau e Bruce Springsteen

sexta-feira, 28 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


O culto da morte é bastante acarinhado no mundo do rock, com direito a narrações na literatura e na música, mas na prática não resulta em grande coisa para o cantor e a sua canção, exceto uma boa vida que fica por viver, pessoas amadas e filhos que ficam para trás, e uma cova funda no cemitério. O findar no auge da glória não passa de uma grande treta.

Bruce Springsteen em Born to Run

PREFIRO QUE OS MEUS DEUSES FIQUEM VELHOS


É verdade que cinco minutos de alguns tipos valem 50 anos de outros tipos e que a sua explosão numa nova e brilhante estrela atira as vendas de discos para a estratosfera, fazendo com que vivam depressa e morram cedo, deixando como legado um cadáver bonito. Mas eu acho que precisamos de exaltar o próprio ato de viver. Pessoalmente, prefiro que os meus deuses fiquem velhos, grisalhos e cá. Prefiro ter o Bob Dylan, o festim de piratas saqueadores dos Stones, a pujança espero-ficar-muito-velho-antes-de-morrer dos atuais Who, um Brando gordo mas hipnótico até à data da morte. do que a alternativa de não os ter cá. Gostaria de ter visto o Michael Jackson a dar o seu último espetáculo, um Elvis de 70 anos a reinventar e saborear os seus talentos, as fronteiras a que o Jimi Hendrix teria levado a guitarra elétrica e gostaria de ter visto o Keith Moon, a Janis Joplin, o Kurt Kobain e todos os outros cujos talentos se perderam devido a mortes precoces, mortes que roubaram tanto à minha adorada música, a desfrutarem da bênção dos seus dons e da admiração do público. Envelhecer é aterrador mas também fascinante e os grandes talentos transmutam-se de formas estranhas e muitas vezes iluminadas. Além disso, só podemos desejar longa vida, felicidade e paz a todos aqueles que nos deram tanta alegria, sabedoria e inspiração. Há poucas pessoas assim.
A juventude e a morte sempre foram uma combinação inebriante para os criadores de mitos que pululam pelo mundo dos vivos. E a falta de amor-próprio, perigosa e inclusive violenta, foi desde sempre um dos ingredientes essenciais nas fogueiras da transformação. Quando o «novo eu» renasce das cinzas, o autocontrolo e a imprudência estão ligados de forma imutável. Eis o que torna a vida interessante. Muitas vezes, a alta tensão entre estas duas forças faz com que seja fascinante e divertido ver um artista, mas também coloca uma cruz branca à beira da autoestrada, Muitos dos que percorreram este caminho acabam por morrer ou ficar com uma exaustão grave. O culto da morte é bastante acarinhado no mundo do rock, com direito a narrações na literatura e na música, mas na prática não resulta em grande coisa para o cantor e a sua canção, exceto uma boa vida que fica por viver, pessoas amadas e filhos que ficam para trás, e uma cova funda no cemitério. O findar no auge da glória não passa de uma grande treta.

Bruce Springsteen em Born to Run