Mostrar mensagens com a etiqueta Cachimbos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cachimbos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 24 de maio de 2019

DA MEMÓRIA DE UM LARGO E DOS FUMOS QUE DEIXOU DE FREQUENTAR...


Na meia dúzia de blogues em que, com mais assiduidade, vai viajando, há um que frequenta desde tempos bem recuados: o Largo da Memória de Luís Eme, jornalista, escritor e guardador das margens do Tejo.

Começou pelo agrado das fotografias e acabou a gostar do que lá por se escrevia.

Quando fumava cachimbo, cigarrilhas e charutos, gostou de ter lido no Largo esta pérola. 

Não por picuinhice, mas por um certo rigor, lamenta ter perdido a data em que foi escrita:

«Nunca tinha ouvido um elogio tão forte e sentido, a um não fumador activo, pelos frequentadores do seu escritório.

Embora ele nunca fumasse, nunca proibiu ninguém de fumar no seu espaço de trabalho e local de abrigo e de escrita, nem mesmo depois das proibições oficiais e da "publicidade assassina" nos maços de cigarro.


Depois de escutar os amigos, quase sem jeito, desculpou-se que sempre gostou do cheiro do tabaco.


Mas do que ele gosta muito, muito mais do que do cheiro do tabaco, é da liberdade.»

Esse inebriante cheiro da liberdade.

Os fumos, os gins...

Rigorosas instruções médicas, não lhe permitem fumar o cachimbo, as cigarrilhas, os charutos. 

Tem dias, não muitos, em que não consegue resistir…

O Gainsbourg tem uma canção em que diz que Deus é um fumador de Havanos e o Eça de Queiroz em AIlustre Casa de Ramires tem esta tirada:

«Mas reparando que escolhera um charuto, distraidamente o trincara:
- Oh! Perdão, minha senhora… ia fumar sem saber se V. Exª…
Ela saudou descendo as longas pestanas:
- O cavalheiro pode fumar; o Sanches não fuma, mas eu até aprecio o cheiro»

O cheiro do charuto incomodava a mulher de Groucho Marx.
Um dia disse-lhe:
- Ou eu os charutos!...
- Então ficamos bons amigos!

Legenda: Edward G. Robinson no filme Key Largo, um delicioso filme negro de John Huston

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

SE EU AINDA FUMASSE...


Terei de dizer uma vez mais, hei-de dizê-lo sempre, que nenhum partido de Esquerda percebeu (ou terá querido perceber), para além dos discur­sos, dos comícios, das entrevistas à Imprensa, não me interessa isso agora, que uma nação secular­mente mergulhada na mais completa ignorância das suas próprias carências (que não são só pão e casa, e mesmo para ter o pão, para ter a casa), exi­gia, antes de tudo, sabem o quê?, ensino. Ensino, no sentido mais vasto e profundo da palavra. Tão vasto e tão profundo que a tarefa imensa de pôr milhões a saber ler e escrever (mas que é ler?, mas que é escrever?) mais não seria que um ponto de partida. Em todas as idades. Em todos os recantos desta terra de milagres, crenças e crendices, de faz como vires fazer. Ensino para que se aprenda a ver com os próprios olhos, a intervir com as próprias mãos, a entender também que nunca é por acaso que se volta a falar, com redobrada insistência, nas suas glórias passadas — no largo Oceano ou nos palcos de revista —, como manda a receita dos bons tempos. Que os funâmbulos estão aí. À espe­ra. As ordens. Não é outra a sua profissão.
 Se eu ainda fumasse. Carregava um cachimbo como os sabia carregar depois de tantos anos de experiência, com pressões diferentes consoante a fundura a que o tabaco vai ficando. Um desses de fornilho alto, boca estreita, boquilha bem compri­da, o fumo chega assim mais frio, mais leve, des­perta o pensamento, dá-lhe asas. Estou olhando à minha volta e em mim mesmo. Que é isto, rapa­zinho? Desconforto? Apreensão?
 Caminhamos para onde? Para a destruição total, aqui e no Planeta inteiro? Ou, computadorizadamente, para um mundo inteiramente novo (novas linguagens, novos sentimentos) que não posso, e isso me desespera, prever sequer como será?
 Desprezível, entretanto, me parece o sorriso fe­liz dos que, no meio da tempestade e das matas em chamas, fingem não dar por elas. Há os que igno­ram (a fome, a poluição, a droga, a sida, o trabalho de menores à vista de toda a gente, a subversão da democracia democraticamente feita por dentro em nome dela, a agressividade, a ameaça nuclear), há os que simulam ignorar. Em qualquer dos casos: desprezível. Nisto insisto. É preciso insistir. Um antiquíssimo espelho põe-se-me na frente: É preci­so? Essa é boa! É preciso? Ou serás mesmo incu­rável?
 E, no entanto, tímidas esperanças se aproximam (sou incurável, sim, não deixarei de sê-lo!): certos aspectos do poder local, um alegre formigar de ac­tividades culturais de jovens que se alarga, de den­tro, por esse país fora e que era impossível antes, não esquecer: e que era impossível antes.
Tem de existir um grande desencontro entre o que escrevo e o que escrevem muitos dos meus contemporâneos. Gosto pouco, em geral, do que eles escrevem. Eles não devem gostar nada do que escrevo. Estamos quites, assim. Boa viagem. Sem ressentimentos.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: fotografia tirada de Autobiografia

domingo, 4 de março de 2018

NÃO ME CONTES ONDE ESTÁ O MEU CACHIMBO...



Ainda pelo Brasil, a 30 de Abril de 1963, Mário-Henrique escreve à «distante Maruska, doce como o olhar das gazelas do Volga»:

Fazes o favor de não me escreveres mais como escreveste na tua última carta, sim? Já viste um cão vadio e magro que rosna e morde constantemente, quando lhe fazem uma festa na cabeça? Fica com uns olhos muito humildes e encosta-se à perna de quem, finalmente, lhe deu um pouco de ternura. Pois é Isabel, foi como eu fiquei quando recebi a tua carta… só me faltou dar ao rabo. E olha, Isabelinha querida, ternura e amizade são coisas dolorosas demais quando se está totalmente só. por favor, não tenhas mais palavras de ternura para mim, não digas outra vez que eu sou o amigo que te resta, não me contes onde está o meu cachimbo e o teu isqueiro (e foi tão doce saber que alguma coisa resta de mim numa casa onde há amor e felicidade!...) Desculpa isto, mas estou quase estoirado e não quero ter que ficar com os olhos com uma nuvem de água ao sentir o teu carinho distante. É uma vergonha, Beliska, é uma vergonha chorar de saudade. Não pode ser… Isabel, é tão difícil continuar assim, vivo e vazio, com tudo perdido, cada vez mais perdido! Tenho que acreditar furiosamente no Partido, no meu Partido, para poder continuar. Um comunista não se mata, não pode matar-se, senão é um traidor. Mas passar os dias agarrado a uma ideia, só a uma ideia, para poder continuar vivo, é difícil, muito difícil. Há sempre o recurso do whisky e do brandy, que isso o Partido não proíbe. Quase todos os dias (isto é, todas as noites) apanho a minha sólida bebedeira, assim, às vezes até consigo dormir.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

Legenda: imagem de René Magritte

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Começou a encher o cachimbo com aquele vagar metódico que era já parte do prazer duma cachimbada.

Nuno Bragança em Do Fim do Mundo

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

OLHARES


Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo.

David Mourão-Ferreira 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

IRISH OAK


Tanto quanto me lembro comecei a fumar cachimbo pelos meus quinze anos.

Por curiosidade, por uma qualquer maneira de querer ser diferente, diferente dos que fumavam cigarros. Hoje fumo cachimbo por prazer. Fumar cachimbo é uma maneira de estar, filosófica, assim como acariciar gatos. Cada vez que pego num cachimbo para o fumar sinto sempre a tal diferença.

As minhas primeiras marcas de tabaco foram os incontornáveis “Mayflower”, o “Clan” o “Gama”. Mais tarde fixei-me no “Revelation”, um agradável “Smoking Mixture” da Philip Morris e que nos pacotes em lugar do estúpido “Fumar Mata” tinha “it’s mild and mellow”. Nos finais dos anos 70 deixaram de o fabricar e mais tarde descobri o “Captain Black”.

Conheci-o através do agente da "Aminter" em Ponta Delgada. Na primeira vez que apareceu no escritório deixou um inebriante perfume, que mais tarde o Paulo Rodrigues definiu como sabor a caramelo. Na altura não se vendia em Lisboa, mas o Nascimento lembrou-se que tinha um cunhado a trabalhar da Base aérea das Lajes e passei a receber latas de meio quilo de “Captain Black” a um preço “five Stars”. Entretanto passou a vender-se em Lisboa.

Um dia ao ler um livro do Jorge Listopad dei com uma marca de tabaco de cachimbo que ele achava muito bom, mas , lamentava-se, que só se vendia nos "free shops "dos aeroportos.

Como o MIguel viaja muito, pedi-lhe que me tentasse arranjar uma embalagem.

Nunca o encontrou, nem em Paris, nem nas "free shops dos" diversos aeroportos por onde passava.

Mas um dia surpreendeu-me com um saquinho com três latas de “Irish Oak”.

Tinha-o descoberto numa pequena loja de tabacos em Bruxelas, junto à estação de caminhos de ferro.
Pode ser que ele, um dia, se disponibilze, para nos contar, aqui, os pormenores.

Há um bom par de anos, em conversa com o Miguel Alves, lamentava-se das suas cada vez maiores dificuldades em comprar “Captian Black” em Lisboa. Disse-lhe que, depois do encerramento das tabacarias no Rossio, passei a comprá-lo no Shopping Vasco da Gama. Aproveitei para lhe contar a história com o “Irish Oak” e falar do Jorge Lostopad.

A história chama-se “Pernoitar” e encontra-se no livro “Em Chinatown com a Rosa"
É esta a história:

“Emergiu da noite, não, eram dois, sim, emergiram da noite, mas como se ela não existisse, até àquele momento eu estava sentado sozinho na esplanada com as cadeiras empilhadas e arrumadas, a noite e ninguém, estava sentado numa cadeira branca de abrir e fechar, a única que não fora presa pela corrente, fumava cachimbo, “Irish Oak”, o tabaco que outrora Graham Greene me mandara com um cachimbo “Peterson”, uma oferta por tê-lo acompanhado, eu ou a Clara ou nós os dois, pela cidade ainda alvoroçada, por tê-lo apresentado às novas personalidades, ter-lhe aberto as portas das instituições e dos clubes revolucionários, habituei-me ao “Irish Oak” nem sempre fácil de arranjar, nem mesmo no “free shop” dos aeroportos, estou sentado e penso tabaco, tabaco, o fumar divino, paz e sossego, stop, Virgem Maria, arco do céu, se eu quisesse ouviria o mar, as gaivotas estão a dormir, eis senão quando emergiu da noite à noite, mas afinal eram dois, ele sentou-se no muro e disse boa noite, o que em Portugal não significa que se vá dormir já, mas algo como noite acordada e que seja boa, que a vida continue na escuridão.
Interromperam o meu fluxo silencioso de palavras e o navegar em ideias aproximadamente formadas pelas palavras, tal como agora interrompi a frase anterior que não tinha fim. Cumprimentei-o, pois, com essa mesma boa noite à portuguesa, procurei e no bolso encontro o isqueiro e esperei, esperei enquanto aguardava. Sentou-se no muro. Ela ficou ao pé, afastou-se. O cachimbo era excelente, embora seja evidente que um cachimbo aceso pela segunda vez deixa de ser tão cheiroso e saboroso. “Irish Oak”. Na tampa da caixinha redonda de lata um carvalho verde, um quadro que no escuro tem de ser imaginado. Ao longe as luzes baças de um barco de pescadores. A oscilarem no ar incerto. Como numa narrativa.
- Rouba-se muito por aqui, aventurou ele.
- Onde, aqui?
- Em Portugal.
Era uma frase muito sintética. Inusitadamente sintética. Eu não estava acostumado a isso.
- Fui seu aluno, senhor professor, disse depois.
No dia anterior eu tinha estado com os pescadores. Tinha percebido que toda a pesca é um conflito. Com o mar, com as redes, com a organização do próprio trabalho, com o sistema da entreajuda.
- Professor de quê? Perguntei baixinho, devagar, sem quase ter perguntado. Algures, alguém pôs uma motocicleta em marcha.
- Foi há muito tempo.
Ninguém me dirá nada de novo, afirmou Zaratustra. Não quero ouvir nada de novo, eu. Mas quem é o eu?. Quem é Zaratustra? Cada dia nos aproxima mais. Mas aproxima de quem? De quê?
Não tinham onde dormir. Dormiram no meu quartinho. Coisas que se curam, que não se curam. Eu tinha tempo. O tempo ainda me pertencia.”