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quarta-feira, 3 de julho de 2019

OLHARES

Para quem vive, ou viveu, em França, sabe perfeitamente do que falo. Todas as manhãs havia um prazer indispensável. Comprar o jornal Libération e ir lê-lo ao café. Um café em Paris é um espaço acolhedor, com espelhos e madeiras e terraços envidraçados que se abrem para a chegada da Primavera, o sol avançando portas adentro.

Eduardo Prado Coelho

quinta-feira, 11 de abril de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Berlim.

Um respirar de arte, cultura antiguidade, sentir, sabe-se lá porquê, que estamos mesmo na Europa.

As Portas de Brandeburgo, o passar pelo Checkpoint Charlie, a procura do que foi o tal muro, a Aida para um alemão, mapa na mão, “por favor, muro de Berlim?” e só mais tarde, muito tarde mesmo,  encontraremos um pedaço de muro.


Billy Wilder’s Café-Bar, Sony Center, Potsdammer Strasse 21075 Berlin.

Ir a Roma e não ver o Papa?

Ir a Berlim e não entrar no «Wilder’s Bar»?

Coisas que se dizem.

Ver o Papa nunca iria, mas em Berlim, por Junho de 2005, uma manhã radiosa, entrámos porta dentro para uma cerveja, com dois dedos de espuma, ao balcão, e ficar a olhar as paredes. 

Sem apetecer sair dali.

A tentativa, vã tentativa, de encontrar o hotel, no outro lado de Berlim, que aparece no «Um, Dois, Três», maravilhoso, empolgante filme de Billy Wilder.

O Luís Miguel Mira bem tentou, deu voltas e voltas para localizar o hotel, e quando o Miguel não consegue, não vale a pena mais alguém fazer qualquer esforço.

O tal hotel que foi «Potemkine», também «Bismark» e, em tempo de Heil Hitler, se chamava «Goering».


O resto é lembrar a fabulosa sequência nesse tal hotel, cena antológica das muitas de Billy Wilder, em que Ingeborg se mostra esplendorosa e escultural, com aquele justinho vestido às bolinhas vermelhas, o filme é a preto e branco, mas terão de ser vermelhas as bolinhas, numa dança maluca, em cima da mesa cheia de champanhe, vodka e caviar, rodeada por um turba de bêbados, tão maluca a dança, o frenesim infernal, que o retrato de Krustchev baloiça e cai, revelando que escondia o retrato de Estaline.

sábado, 16 de março de 2019

PROVEITOSOS CENÁCULOS


Carta, datada de 31 de Dezembro de 1955, de Jorge de Sena para António Ramos Rosa:

Bem sei que não ando a salvar a Pátria ou a renovar a Literatura pelos cafés da Capital, que sempre nos absorvem, no afã de ver-se muita gente; mas também me parece que lhe dei sempre um pouco mais de confiança do que a que costuma ser colhida e recebida nesses proveitosos cenáculos. Se lhe digo isto, meu caro, é porque V. já sabe que eu digo mesmo tudo, quando acho que as pessoas ainda merecem ouvir.
Que tem feito? Que projecta? E aqui me tem a a gradecer-lhe as Boas-Festas e a desejar-lhe para o Ano Novo quanto razoavelmente deseje.

Em Correspondência

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS

José Rodrigues Migueis: Lisboa em Manhattan


Coordenação de Onésimo Teotónio Almeida

Capa: José Antunes
Editorial Estampa, Lisboa, Setembro de 2001

Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.

De uma entrevista com Camila Miguéis, mulher de José Rodrigues Miguéis.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


A Pastelaria Suiça já não existe.

De portas abertas desde 1922 foi vendida a um fundo de Investimento em que o tenista espanhol Rafael Nadal é participante.

Nunca foi uma loja histórica da cidade.

Concorreu para o ser, mas acabaram por desistir.

A Suiça era a sua esplanada, voltada para o Rossio, com turistas a beber cervejas ou galões.

O dono estava cansado e depois das últimas obras que fizeram, há uns anos, perdeu qualidades:

Ricardo Martins Pereira:


A 31 de Agosto do passado ano, dia em que fechou portas, o presidente Marcelo foi lá jantar:

«Durante décadas, almocei e jantei aqui, desde miúdo, com a minha família. Quando passava de ano vinha aqui almoçar ou jantar. Quando vinha a um espetáculo vinha aqui cear. Ficávamos nestas mesas. Ou aqui ou ali», afirmou Marcelo, às reportagens televisivas.

«Nesta mesa morreu o meu pai, neste mesmo lugar onde eu estou a comer, há 16 anos, portanto ficámos muito ligados e vim aqui despedir-me».

O Carlos Alberto, amigo de infância que já não vejo há largos e largos anos, num daqueles Primeiros de Maio que a ditadura proibia, a fugir à Polícia de Choque e aos seus carros de tinta azul, refugiou-se dentro da Suiça.

Tinha um carinho especial pela Suiça e, volta e meia convidava os amigos para um café e para contar, pela enésima vez, as peripécias daquele findar de tarde de  primeiro de Maio.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

OLHARES


O Café Império, faz parte do edifício onde em tempos existiu o Cinema com o mesmo nome, há uns anos, esteve para desaparecer.

A seita religiosa que comprou o Cinema tentou encerrar o café, de que são proprietários porque compraram todo o edifício, mas movimentações dos trabalhadores e clientes, com o forte apoio da Câmara Municipal, impediram o crime-de-lesa-pátria.

As memórias que se iriam perder.

Em Lisboa, já não há cafés como o Império.

Os bifes continuam a ser um símbolo de qualidade, a cheirar a velhos tempos.

Sabores com história.

Nos tempos que correm, em dias de futelobadas, tem casa cheia a ferver de paixão e emoções.

É sempre bom ir lá ao Café Império, porque nunca se sabe quanto tempo vai durar mais.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

MAS QUEM É ESTE?


Grande frequentador de cafés (quando os havia, e neles muito escrevi, há épocas, gostos, preferên­cias que mudam), nunca frequentei, contudo, os centros oficiosos de convívio de artistas e escrito­res, incluindo jornalistas. Como a célebre «Brasi­leira» do Chiado, paraíso de muitos, onde também os pides iam tomar a sua bica nos intervalos dos interrogatórios ali mesmo a dois passos, na Antó­nio Maria Cardoso. Chegava a haver, parece, quem entrasse, risonho e distraído, estendesse a mão pe­las mesas à volta, «boa tarde!, boa tarde!» e nem via que era o Seixas. Muito menos frequentei, já homem feito, meios de boémia artística ou faz de conta que sim. E mau. Isto cria uma espécie de cortina de gelo à nossa volta, um quase mas quem é este?, de onde vem?, com resultados pouco dese­jáveis nas notícias, nos artigos, cá estamos nós, nas vendas.

Mário Dionísio em Autobiografia

sexta-feira, 6 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS



Cadernos do Meio Dia
Nº 2

Coordenação de António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira
 Ferreira, Hernâni de Lencastre
Edição dos Coordenadores, Faro, Julho de 1958


Nesse Tempo

Nesse tempo
eu faltava às aulas.

A música do jazz
vibrava no Café.

À noite,
o velho « High-Life»
era o tempo magnífico
onde Chaplin,
como o Deus da Sistina,
erguia o braço
condenando e perdoando…
(Desengonçado
o piano
acompanhava com notas de Beethoven
«O Peregrino», «A Quimera»…)

E numa tarde
em Paris
ajoelhei, em plena rua,
diante dum quadro de Pascin…

Nesse tempo
eu faltava às aulas.

Saúl Dias

sábado, 14 de outubro de 2017

RELACIONADOS


Guardámos nos últimos Olhar as Capas, a trilogia dos Cafés de Álvaro Guerra.

Algo que o escritor subtitulou como um «folhetim do mundo vivido em Vila Velha.»

Vila Velha é Vila Franca de Xira onde nasceu a 19 de Outubro de 1936, terra de toureiros, campinos, pescadores, lavradores, gentes da lezíria, da borda d’água, um rio que, mais para a frente, há-de ser um mar.

 A vida de uma terra de província às portas de Lisboa, mas tão longe da cidade – o pequeno comércio local com a farmácia, a mercearia, a casa de panos e linhas, a Barbearia Gorjão, a Pensão Flor, o notário, o café que era para ser Central, virou República, voltou a Central e passou a ser 25 de Abril. Também a estação de comboio, a Igreja Matriz, a Filarmónica, o clube de futebol, a praça de toiros, um jornal, Correio de Vila Velha, cujo director era cego, o Cine-Teatro, mais tarde um Cine-Clube e um Clube Cultural, dito Século XX.

Se Manuel da Fonseca dizia que o Largo era o centro do mundo, daqui se dirá que o Café era o centro da vila.

O primeiro volume chama-se Café República e narra acontecimentos nacionais e do mundo de 1914 a 1945.

-Senhor Manuel Maria, quero felicitá-lo pela escolha feliz do nome do seu estabelecimento – elogiava Aníbal Castro.
- É muita gentileza da sua parte, senhor Castro. Mas a bem dizer, a ideia não foi minha
«Eu tinha pensado chamar-lhe Café Central, mas quando encomendei a tabuleta ao Praga de Mãe, ele veio com aquelas falinhas mansas, que a República tinha sido implantada há duas semanas, que era um nome bonito e poderoso, e tal e coisa. E, olhe, deixei-me convencer.»

O segundo volume chama-se Café Central e guarda os acontecimentos de 1945 a 1974.

A chegada do «Manholas de Santa Comba Dão ao campo-político-pátrio, levou à mudança do Café República para Café Central que era o nome que o galego Manuel Maria sempre preferiu.

«No meio da Vila que crescia, o Central, que já se chamara República, ficava na mesma. A bica de saco aguentava bem a ofensiva do café expresso.»

Mas no findar do volume já se dá conta que um alguém telefonara ao António Maria para a discussão de um «assunto importante e de seu interesse.»

«E o António Maria imaginava o Café Central com o balcão transformado em guichets, a cozinha em cofre-forte, as cadeiras em belos maples de couro e a máquina do café a vomitar notas e moedas. Entre a insónia e o pesadelo, António sentia o coração bater a ritmo desencontrado, dividido entre os nevoeiros da Finisterra, sempre vislumbrados a correr, na pressa das férias, e aquelas paredes que vira pela primeira vez havia 58 anos entre as quais trabalhava desde os seus 14 anos, Que diabo! Um homem apegava-se às coisas todos os dias…»

A conversa realizou-se e o António Maria, filho de Manuel Maria, não deixou de perguntar:

- O senhor desculpe… Mas há um coisa que me intriga… Porque é que os bancos não gostam dos cafés?

O terceiro volume chama-se Café 25 de Abril e alcança os acontecimentos que se seguiram a esse dia mas o autor não coloca qualquer espaço de tempo e apenas deixa estas: (as ruínas).

«... o café foi baptizado pela terceira vez e a velha tabuleta substituída por outra de fundo verde, cravos vermelhos em grinalda a envolver as letras amarelas que formavam o novo nome – Café 25 de Abril...»

O Tríptico dos Cafés de Álvaro Guerra colhe um relato da História desde 1914 a 1975, agarrado ao quotidiano viver da Vila, de como a História pode ser contada à mesa de um café.e se outros motivos não existissem já isso era suficiente para  atenta leitura.

Álvaro Guerra dando curso à sua experiência de jornalista, em tempos de ditadura, quando a censura não o esquartejava, botava Ponto Crítico na 3º página do República dirigido por Raul Rego, em três volumes bem esgalhados, deixa os acontecimentos que marcaram os tempos, de aqui e lá fora, muitos deles desconhecidos por alguns e outros já esquecidos.

«E em cada dia desse mundo de notícias. Vila Velha adormecia em paz, na santa ignorância.»

quarta-feira, 26 de julho de 2017

COM O SAL BRUXO NAS SOMBRAS


27 de Agosto de 1969

O café do Sr, Cunha fechou – disse-me o Mário Dionísio a quem visitei em Cascais.
Outro!
Café por onde passa o nosso grupo, já se sabe, fecha.
Trazemos o sal bruxo nas sombras.
Nos últimos tempos, que me recorde, lancámos a maldição aos seguintes recintos onde nos reuníamos: Café Chiado, Martinho, Bocage, A Cubana, e, por fim, «a do Sr. Cunha».
Pergunta lancinante do Mário:
- E agora?

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.


Legenda: Brasileira do Chiado, desenho de Bernardo Marques. Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Carlos Botelho, Ofélia Marques, o criado João franco, Sarah Afonso, José Gomes Ferreira, Bernardo Marques e José Bacelar.
«... meus filhos não nada a fazer... Isto é um país de merda!

sexta-feira, 19 de maio de 2017

CANTO DE BAR


Canta, cantor esquecido, tuas valsas de angústia!

Aqui o canto de bar
onde vêm parar os que serão suicidas,
gente de todas as nações falando todas as línguas,
emigrados de todos os países.
Aqui o canto de bar
onde ancorou o jogador arruinado
e as mulheres que perderam o número dos amantes
e os moços que sonharam vidas que não puderam ter.
Onde os cantores esquecidos cantam valsas lentas e antigas
que trazem a recordação de lares despedaçados.
Onde vieram parar os maltrapilhos perdidos para sempre
e onde as valsas cantadas por vozes arrastadas,
que lembram multidões de coisas,
já não trazem a mínima saudade.
Aqui onde se sabe indiferentemente
que o homem saído há pouco
estendeu a corda e se enforcou na escada.
Aqui onde se joga tudo sem interesse
porque já não há nada para jogar.
É o canto soturno
onde não entra sol nem lua.
Janelas fechadas, só fumo e luz vermelha.
Homens de todas as raças de olhos desiludidos,
mulheres de todas as raças de cabelos desgrenhados.
Aqui o canto de bar
onde veio parar o lixo de todas as nações.
(Todos que estavam a mais nas cidades e nos lares…)

Canta, cantor esquecido, tuas valsas de angústia!

Mário Dionísio em Novo Cancioneiro

Legenda: pintura de Douglas Gray

sexta-feira, 28 de abril de 2017

OLHARES


No meu tempo de miúdo isto era um arranha-céus: o arranha-céus do Areeiro e não tem mais de nove andares.

Existe um outro na Praça de Londres.

Também com os seus nove andares, mas com uma pequena diferença: albergava um dos mais conhecidos cafés da zona chique das Avenidas Novas, o Café Londres, traço do arquitecto Cassiano Branco, a sua ampla sala e o salão de jogos com mesas de bilhar.


Hoje, é um balcão do Novo Banco e começou por ser balcão do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, que nas noites de sexta-feira se transformava em posto de recepção da Santa Casa da Misericórdia para apostas fora de horas do Totobola e Toloto.

Do outro lado, na Avenida de Roma, havia a Pastelaria Capri e o Café Roma, onde hoje existe uma loja McDonalds e já na Praça de Londres, onde começa a Avenida Guerra Junqueiro, a Pastelaria Mexicana.


Anos mais tarde juntou-se-lhe o edifício que, no tempo da ditadura, albergou o Ministério das Corporações, inaugurado em Outubro de 1966 e que, após o 25 de Abril, passou a ser o Ministério do Trabalho.

A Lisboa das Avenidas Novas.

Era esta a Lisboa que Salazar queria mostrar.

Sim, porque havia outras Lisboas que Salazar queria que não fossem vistas.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

OS CAFÉS


Locais de encontro, de convívio, de critica, de conspiração até, os Cafés de Lisboa contribuíram grandemente para a sobrevivência de uma cultura à margem da cultura oficial.
Nos Cafés, apesar da vigilância fascista sempre presente, falava-se discutia-se, por vezes sem quase prudência. Desde a anedota política, passando pelas teses sobre arte e literatura, até ao plano acabado de revolução, tudo os Cafés possibilitaram.
Palavras ausentes da Imprensa e da Rádio, palavras rigorosamente proibidas pela policia faziam parte do vocabulário quotidiano das conversas dos Cafés.
Numa época em que o acesso ao livro normal era dificil e perigosa a leitura da obra revolucionária, os Cafés, através dos seus frequentadores, proporcionaram que titulos não fossem esquecidos e temas novos conhecidos e discutidos. Na maior parte dos casos conheciam-se os livros, menos pela leitura directa do que pela informação prestada por uma amigo, às vezes por um conhecido de ocasião.
Os Cafés foram, de certo modo, centros naturais e espontâneos de uma resistência mental activa.
Talvez se pudesse falar mesmo de uma cultura oral, urbana, nascida e desenvolvida nos Cafés.
Os revolucionários de Café, os políticos de Café, os intelectuais de Café, foram expressões utilizadas sobretudo com o objectivo de minimizar uma forma de vida, incipiente, é certo, mas persistente e livre.
Afinal, num meio asfixiante, numa cidade policiada em todos os sentidos, foram desses revolucionários, políticos e intelectuais de Café que saíram verdadeiros revolucionários, políticos e intelectuais.
A palavra, o pensamento estavam nos Cafés.

António José Forte

Legenda: fotograma de Pickpocket de Robert Bresson

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

TERTÚLIAS NO MARTINHO DA ARCADA


No dia 7 de Janeiro de 1782 abria as portas na Praça do Comércio a Casa da Neve, primeira designação do café que ao longo do tempo passou por vários nomes - e cuja história está irremediavelmente ligada ao nome de Fernando Pessoa. Depois da Casa da Neve chamar-se-ia, a partir de 1784, a Casa de Café Italiana. Anos mais tarde, em 1795, passa a Café do Comércio e em 1824 o nome oficial muda para Café da Arcada do Terreiro do Paço e, seis anos mais tarde, passa a chamar-se Café Martinho, designação que mantém até hoje. Martinho era apelido do dono nessa altura, que o quis distinguir (da Arcada) do outro café que abrira com o nome de Café Martinho do Camões.

Conta a lenda que foi no Martinho da Arcada que Fernando Pessoa terá tomado um último café, na companhia de Almada Negreiros, o amigo poeta e pintor, três dias antes de falecer.

A mesa ainda lá está.

Após o Nobel, a gerência, atribuiu uma mesa a José Saramago.

No Livro de Visitas do Café, Saramago escreveu:

Que palavras poderei escrever na minha mesa? Provavelmente não há outra melhor que a mais banal de todas. Obrigado.

Leio no Diário de Notícias que Luiz Machado vai retomar as tertúlias que, a partir de 1991, volta e meia, tem organizado no Martinho da Arcada, onde já levou personagens como Álvaro Cunhal, Mário Soares, Amália, Siza Vieira, Eusébio ou Júlio Pomar.

Para Luís Machado, escritor e jornalista, o Martinho da Arcada começou por ser o sítio onde ele bebia um cafezinho quase diário com a namorada que vivia na margem sul do Tejo e ali chegava de barco nos anos 70.

As tertúlias recomeçam no dia 20 deste mês com Eunice Muñoz e terminam a 4 de abril com o Presidente da República.

O preço, com jantar incluído, é de 20 euros.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

ILUMINAÇÕES DE NATAL


A árvore de Natal do Café Império.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

OLHARES


Há 70 anos, no nº 30 da Avenida Guerra Junqueiro, a Mexicana abriu portas.

Um dos símbolos das Avenidas Novas, zona-menina-bonita dos olhos do salazarismo.

Uma lindíssima casa, concebida e decorada com gosto, o charme dos anos 50/60, mas que nos últimos tempos tem sofrido diversas alterações que não a beneficiaram, bem pelo contrário.
  
Não houvesse a circunstãncia de estar considerada com imóvel de utilidade pública, e o crime seria bem mais desastroso.

A Praça de Londres, a Avenida de Roma, chegaram a constituir uma respeitável concentração de cafés e pastelarias.

Desse conjunto resta a Mexicana e, já perto da Avenida dos Estados Unidos, o Vá-Vá e a Luanda.

Tudo o resto, pelos motivos mais diversos, fechou portas.

É assim que se envelhece…

Não havia ida ao Cinema Star ou ao Cinema Londres sem uma paragem, antes ou depois, na esplanada da Mexicana.

A efeméride é motivo para ir buscar um velhinho texto do Jorge Listopad:

Não sei porquê, mas habitualmente em Dezembro, a alguns dias ou semanas antes da ditadura directa do Natal, regresso, se possível, num dia solarengo, à Mexicana. Matar saudades? Saudades de quê? O repouso anual do guerreiro, nesse café arquitectonicamente, na sua época bem pensado (este ano um tanto restaurado e limpo), hoje o ninho da terceira idade com o passado modernista das Avenidas Novas. Portanto, acomodo-me, tomo a bica e “croissant perfeito, para depois continuar nesta balbúrdia entre Marks &Spencer e os livros da Barata. Muito a observar: a cidade.

sábado, 24 de dezembro de 2016

SÃO 10 DA NOITE. ESTOU A ESCREVER NO MONTE CARLO


São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o mundo.

João César Monteiro em Duas Semanas Noutra Cidade

Legenda: Café Monte Carlo. Fotografia tirada do blogue Restos de Colecção

sábado, 26 de novembro de 2016

CAFÉ


Quando,
à hora do Jazz,
a minha cabeça rola
pelo tecto pintado do café.
a parede em frente é uma visão de escola
onde um menino de bibe e gola
sonha com aquilo que não é.

E até os criados
têm ares purificados
como ascetas dum branco ritual.
E os mármores das mesas,
Com desenhos obscenos,
surdinam várias rezas…

E as garrafas dos álcoois e absintos,
em garbos áticos,
oferedam viáticos…

E há toalhas brancas e há velas acesas!

E ela vem sempre
(só a cabeça dela,
que o corpo
perdeu-o, porventura,
nalgum escuro quarto de aluguer).
Ela vem sempre,
Como naquele dia,
serena e amavia,
única e excepcional.

O pianista
comeu os dentes do piano
e canta, de pernas para o ar,
uma canção azul.
O violinista adormeceu de pé numa cadeira
e o violino dá som sem ninguém lhe tocar.

E ela vem sempre
como naquela hora
estranha, delicada
e debruada a encanto.
Pura como a água, suave como um manto.

O dia é Dia Santo…



Nota dos autores da Antologia:

SAUL DIAS (pseudónimo de Júlio Maria dos reis pereira, Vila do Conde, 1902-1983).
Engenheiro civil, artista plástico magnífico, Júlio é autor duma obra poética que injustificadamente ficou um pouco na sombra da do desmesurado José Régio, seu irmão. Saul Dias é um poeta contido, que capta com a humildade dos grandes observadores momentos essenciais, por vezes terríveis, por vezes jubilosos, da vivência humana. Contenção e tensão ilustradas pelos títulos dos seus livros.

Os antologiadores chamam a este poema de Saul Dias: um muito lógico café jazz surrealizado em 1934.

Legenda: Músicas e Mulheres no Espaço, pintura de Saul Dias

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

NOCTURNOS


Café de cais,
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.

Reinaldo Ferreira em Poemas

Legenda: pintura de Anton Pieck