Em casa do meu pai havia um 78 rpm de Luiz Gonzaga a
cantar «Asa Branca.»
Aliás, havia uma série de discos de música brasileira e
lembro-me da Dircinha Baptista a cantar «O
Sanfoneiro só tocava isso.»
Músicas que faziam o sucesso dos bailes de carnaval lá de
casa.
Um dia, já lá vão para cima de 20 anos, encontrei naquela
discoteca que havia no Apolo 70, um duplo LP com canções brasileiras e nele
aparecia o Caetano Veloso a cantar Asa Branca.
O meu pai adorou a interpretação e, mais tarde,
coloquei-a numa das cassettes que lhe fui gravando.
O meu pai gostava
das canções do Simon and Garfunkel.
Quando íamos ao
cinema, tínhamos preferência pelo Apolo 70, pela projecção, o som, a comodidade
da sala e dava para petiscar no «snack», e sempre com um salto à livraria e à
discoteca.
Numa dessas
idas, tinha acabado de sair um «Best do Art Garfunkel» e o meu pai não
hesitou: comprou-o de imediato.
Acabou por se
apaixonar por «Bright Eyes» que não conhecia.
Logicamente «Bright
Eyes» teria de entrar numa das cassettes que lhe fui gravando.
Por «Bright
Eyes», há uma passagem deliciosa no «Alta Fidelidade» de Nick Hornby:
- Não és mesmo capaz de ver a diferença entre «Bright
Eyes» e «Got To Get You Off My Mind»?
- Claro que sou. Uma é acerca de coelhos e a outra tem
uma banda de metais a tocá-la.
- Qual banda de metais. É uma secção de instrumentos de sopro. Porra!
- Seja lá o que for. Eu percebo porque preferes o
Solomon ao Art. Eu compreendo, a sério. E se me pedissem para dizer qualquer era
o melhor dos dois escolhia o Solomon sem hesitar. É genuíno, e negro, e
lendário, e essas coisas todas. Mas gosto de «Brighr Eyes». Acho que tem uma
melodia bonita, e além disso, estou.me nas tintas. Há tantas outras coisas para
nos preocuparmos. Bem sei que pareço a tua mãe a falar, mas isto são apenas
discos de música pop, e quem é que se importa realmente que um seja melhor do que
o outro, tirando tu e o Barry e o Dick? Para mim, é como discutir a diferença
entre o McDonalds e o Burger King. Tenho a certeza que há-de haver uma
diferença, mas quem é que vai ralar-se a descobrir qual é?
A canção do Solomon Burke não entrou em nenhuma cassette para o meu pai, fugia um tanto ou quanto aos seus padrões de gosto musical.
A canção de hoje
é Yolanda, da autoria de Pablo Milanês.
Curiosamente,
não foi na versão de Pablo Milanês que conheci Yolanda, mas na versão de
Robert Wyatt.
Como não podia
deixar de ser, através daqueles vinis que, durante tempos, o Miguel fez
estacionar na Mestre António Martins.
Numa daquelas
historietas sobre Caríssimas Canções que o Sérgio Godinho andou a
publicar no Expresso, que depois deram livro, espectáculos ao vivo, CD/DVD,
umas das canções de que o Sérgio Godinho falava era Sea Song do Robert
Wyatt.
Para relembrar o
personagem, vale a pena trazer o recorte da crónica do Sérgio:
No 1º
aniversário da destruição das torres gémeas de Nova Iorque, perguntaram-lhe o
que ele pensava da tragédia.
Não hesitou:
Essa data
tornou-se famosa, como todos sabem, por ser o dia em que os americanos puseram
no poder o general Pinochet, nos anos 70, e também o dia em que Salvador
Allende foi assassinado pelo exército fascista a soldo dos Estados Unidos.
Aqui, têm ago
mais sobre o cantor.
Já não há disto!
Tempo de irmos à
canção.
Esto no puede ser no mas que una cancion
Quisiera fuera una declaracion de amor
Romantica sin reparar en formas tales
Que ponga freno a lo que siento ahora a raudales
Te amo
Te amo
Eternamente te amo
Si me faltaras no voy a morirme
Si he de morir quiero que sea contigo
Mi soledad se siente acompañada
Por eso a veces se que necesito
Tu mano
Tu mano
Eternamente tu mano
Cuando te vi sabia que era cierto
Este temor de hallarme descubierto
Tu me desnudas con siete razones
Me abres el pecho siempre que me colmas
De amores
De amores
Eternamente de amores
Si alguna vez me siento derrotado
Renuncio a ver el sol cada mañana
Rezando el credo que me has enseñado
Miro tu cara y digo en la ventana
Yolanda
Yolanda
Eternamente Yolanda
Yolanda
Eternamente Yolanda
Eternamente Yolanda
Os créditos desta lindíssima canção são concedidos a Pete Seeger.
A luta contra a Guerra do Vietname, levada a cabo pelos
americanos, também por outros os povos do mundo – estamos todos em guerra contra os
Estados Unidos da América do Norte! - fez desta canção como de We Shall Overcome, tantas mais,
hinos de mote obrigatório em manifestações e concertos., contrariando os que
diziam que cantar não era suficiente. Provavelmente, mas o silêncio é que
nunca.
A música a corporizar o protesto, a ajudar à luta.
Nunca se pensou que a música podia não só parar uma
guerra como começar a mudar o mundo.
Cantar nunca foi suficiente, mas ajuda mais do que todos os silêncios.
Ronald Reagan sobre o Vietnam: não foi uma má experiência, o
que foi mau foi termos perdido a guerra.
Números do horror de uma guerra em nome da liberdade versão United
States: 3 milhões de vietnamitas morreram, 2 milhões eram civis, 60 mil
americanos perderam a vida, uma guerra que terá custado 220 mil milhões de
dólares em que os dos Unidos gastaram 675 mil dólares para exterminarem um só
guerrilheiro vietcong e continuam, por explodir milhares de toneladas de minas,
bombas e obuses lançadas pelos americanos continuam por explodir.
Lyndon Johson, sentado na sala Oval da Casa Branca completamente
perplexo por um bando de pigmeus armados de canivetes tivessem conseguido derrotar
os Estados Unidos.
A versão escolhida para a cassette do meu pai foi a de Peter
Paul and Mary, LP da colecção de vinis do Luís Miguel Mira.
Anos mais tarde conheci, numa das muitas antologias que vão
sendo gravadas com as canções de Marlene Dietrich, a estupenda versão que a Diva fez desta canção.
No tempo dessa descoberta, o meu pai já cá não estava para a
conhecer, mas teria adorado, ele que tinha um especialíssimo béguin por Marlene
Dietrich, pelo seu inenarrável fascínio.
Melhor dito: o fascínio pelas pernas de Marlene Dietrich.
Estas e outras pernas com que sempre sonhou, pernas que ele
não tinha qualquer dúvida do que Marlene conseguia fazer com elas.
Legenda. f otografia de Huynh Cong Ut da agência
Associated Press que recebeu o Prêmio Pulitzer de 1973, correu mundo e que retrata crianças – Crianças? Sim também os mortos
são crianças - fugindo do
rebentamento de bombas napalm sobre a aldeia.onde viviam.
O meu pai, essencialmente, tinha gosto pela música clássica,
daí que a esmagadora maioria da sua discoteca tivessem esse toque.
Gostava de outras músicas, tinha algumas dessas músicas, mas
eram uma mera excepção.
Gostava de algumas canções que, tanto eu como o Luís Miguel Mira, volta e meia, lhe dávamos a ouvir.
Um dia pediu-me se lhe gravava umas cassettes com essas
músicas.
Assim aconteceu.
O tempo adulterou todo esse material gravado, hoje completamente
inaudível, aontecendo também que algumas dessas cassettes perderam-se.
Há dias lembrei-me que seria gratificante voltar a buscar
essas canções e colocá-las por aqui.
Será uma escolha aleatória, baseada nos apontamentos que
deixei na contra capa das cassettes, também na hoje curta memória das canções que
gravei para o meu pai.
Começarei por aquela canção que acabou por dar origem ao pedido:
El Condor Pasa ,que pertence ao folclore peruano e para a qual Paul Simon escreveu um poema.
Prefiro ser um pardal do que um caracol, prefiro ser um martelo do que
um prego, se eu apenas pudesse certamente o faria.