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domingo, 4 de março de 2018

AUTO-RETRATO


Quantas horas não choras a pensar
em ti — quando ando, desando,
neste viver sem mim.
Quantos anos sem tino. De mim
este cantar desencantado — assim.
Embora os dias me afastem já de ti
procuro saber do teu espaço,
nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal
de outro tempo em que ainda rias,
espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado.
Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras,
já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes,
nem queres, do teu ao meu, essa coisa
chamada amor.

Eduardo Guerra Carneiro em Conta-Corrente

Legenda: desenho de Carlos Ferreiro em Conta-Corrente

terça-feira, 12 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


& Etc. – Prolegómenos a uma Editora
Catálogo da Exposição

Coordenação editorial, capa e concepção gráfica: Paulo da Costa Domingos
Autores de textos e imagens:
Alberto Pimenta, Almeida Faria, Carlos Ferreiro, Inês Dias, João E. Cutileiro, Jorge Silva Melo, Maria Inês Cordeiro, Paulo da Costa Domingos, Ricardo Álvaro, Telma Rodrigues, Vitor Silva Tavares
Livraria Letra Livre, Biblioteca Nacional, Lisboa. Fevereiro de 2017

Vitor Silva Tavares foi um Homem raro. Genuíno, naturalmente vertical, lúcido, felino, livre-livre como um pardal-de-telhado que transporta a Liberdade no voo, Senhor de uma «grande razão» e de uma sabedoria e dimensão existencial para além das medidas curtas desta mesquinha alfaiataria humana, certo até à medula da sua altitude e profundidade. Vitor Silva Tavares despediu-se deste mundo e já não mora aqui. O editor-poeta da nossa Legião dos Únicos, dos «últimos dos últimos», viaja na sua Automotora a caminho do Fundão, da «chafarica», Pasárgada, & et. Obrigado por esta boleia generosa e atá à próxima estação.

(Do texto de Ricardo Álavro)

sábado, 9 de setembro de 2017

RELACIONADOS


Da 2ª página de 2 Textos à Pressão.

OLHAR AS CAPAS


2 Textos à Pressão

Vitor Silva Tavares
Poster-Hors-Texte: Carlos Ferreiro
Contraponto Editora, Lisboa s/d

Ferreiro é lisboeta, de 42. A sua crónica (retrato do artista quando jovem cão, por causa da moral) engloba o pé-descalço, quartos interiores subalugados por negros embarcadiços das carreiras da América ( ou o sonho desde logo a viajar, insólito, exótico), as ruas do Vale Escuro, de Xabregas, do Poço do Bispo (as ruas e o Tejo próximo e o gosto de peixe frito e as escanzelada malta do berlinde – fecundo universo da infância que bem guardado nunca mais se esquece), a primária na Calçada das Lajes, o primeiro emprego (marçano de fanqueiro, aos 14) e a fulcral experiência determinante: dois anos no Cais da Fundição como aprendiz de serralheiro.
Estão a ver: o sabido menino pobre do Bairro Lopes ou da Vila Paulo, passados já os dias breves da infância (da liberdade) descuidada, a ganhar 12$80 por dia entre operários de Alfama (submetido às partidas de aprendiz: alicates a crestar as mãos, martelos para desempenar borracha, etc.) e a encher os olhos de fuligens, dejectos industriais, chapas metálicas, tuboladuras, cantoneiras, rebites, maçaricos – a agressão. Qualquer bote no rio, gaivotas, pedaços de céu entre esquinas de ferro são a fuga possível. Não contando com as fitas do Cine-Oriente e os desenhecos à sucapa, com a esquerda.
Agora sim: mais por determinação («Fazei mais o que souberdes») que por acidente, entra a António Arroio na crónica, começa a aventura (o risco, a sorte) da vocação própria, entendida (ainda e sempre) como trabalho, isto é, sem os voluntários, complexados martírios dos diletantes. Porque Ferreiro não sabe nada da Arte, não se ilustrou em cafés e compêndios, não aspira ao catálogo em couché, antes ao pão e à alegria de estar certo. Temo-lo, na sequência, junto de amigos, em ateliers gráficos, no Parque Mayer ajudando a cenografia, trabalhando em publicidade, despedindo-se de ordenados certos para seguir servir gloriosos malucos das máquinas de cinema (Fernando Lopes, o da «Abelha». João César Monteiro, o dos «Sapatos de Defunto, etc.), fazendo biscates, ao sabor do que vier, no justo.
Quando pica A Mosca, os bonecos de Ferreiro estão na rua a dez tostões (hoje a quinze), circulam nos eléctricos e autocarros, vão ao encontro da imaginação das pessoas, vivem e morrem quase instantaneamente, podemos encontra-los a embrulhar azeitonas, pevides ou castanhas. À margem dos templos, fora das promoções mundanas, cumprem sua função – em directo.
Eis um caso raro de coerência entre um artista (leia-se: um operário) e o destino social do seu trabalho.

domingo, 25 de outubro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Como Não Quer a Coisa

Eduardo Guerra Carneiro
Prefácio: Vitor Silva Tavares
Capa e «hors-texte» de Carlos Ferreiro
Edições &etc. Lisboa, Agosto de 1978

PREFÁCIO A UMA HOMENAGEM A CESÁRIO VERDE

As clarabóias deste lado da cidade acendem-se mais cedo.
sinal que alguém projecta o fogo sobre o bairro
incendiando casas, talvez certas pessoas, as ruas
mais estreitas junto ao Tejo. Em manhãs como esta o sol
entra na mesa e pára junto às teclas. Parece um sorriso;
diria mesmo uma ternura. Poucos são os Palácios, mas imenso
é o espaço. E as águas, no rio e junto às teclas, acendem-se
com o fogo de outras clarabóias.

Depois são as luzes, as indústrias, o último petroleiro.
Descansam moradores em casas altas
enquanto se ergue a cidade nocturna de bares e liamba
e cresce um ou outro clandestino. É tempo de sair
por entre a névoa; rondar as esquinas; sorrir à puta;
apertar o copo; sentir o suor da cidade, corpo a tremer
de frio e febre neste tempo de amoníaco e éter
com ambulâncias lentas a caminho da morgue.

Antes ainda das luzes, quando, à maneira de Cesário,
o fumo se eleva no espaço, o recorte das fachadas
é mais nítido, o vermelho de Lisboa é mais intenso,
podemos imaginar escadas cansadas da madeira,
fogões acesos nas cozinhas,
crianças já com sono,
etc, etc...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Dama de Copas

Eduardo Guerra Carneiro
Em «hors-texte» um desenho original de Carlos Ferreiro
Edições &etc. Lisboa, Setembro de 1981

Era um lugar de encontros clandestinos onde se trocavam pequenos jornais e palavras a meia-voz; onde se inventava a esperança desses dias. Mas, ao longe, afinal tão perto!, barcos partiam para a morte em terras d’África. Era a guerra.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Lixo

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Carlos Ferreiro
& etc, Lisboa, Outubro 1993

Há nomes de luxo onde o lixo
arde — bouças chamejantes.
Medo é a palavra exacta nas travessas
quando bandos circulam protegidos
pela finança alta e licenciada.
Se ele diz que há cavalos e cães
e fala dos doutores, esquecem
que no fundo era o mercado.
O país ergue-se em peões e os baldios
em chamas. Volta ao restolhar do milho
e camponeses dizem da lavoura,
da fome e da calúnia. Basta
olhar os murais onde esse luxo
se transformou no lixo capital.

A canalha junta-se nos pátios
no lusco-fusco de alguns entardeceres.
Galinhas debicam, entre caliça e cimento,
nos torrões onde pode estar semente ou grão.
O bolor cresce, com a humidade, em caixotões
encostados, a esmo, pelos cantos. A canalha
canta nos lugares — nódoas de vinho
e sangue misturados. O ódio ressuma
das frinchas dos tabiques. Na lama
desses pátios surgem flores carnívoras,
alimentadas a grogue e lavadura.
Crioula é a voz, a desmaiar no violão
e o azul ultramarino invade a cantina.
A hora do lobo ainda junta essa canalha.

Não penses que a canalha é lixo.
Nunca o foi. Na secura das terras,
fouce a fouce, ergue as colheitas
dos teus alimentos. Não julgues a canalha
o bode expiatório destes dramas. Lumpen
é quase luz noutra reforma dita
dura. Ouve as sirenes da polícia
e as ambulâncias solenes da morte.
Entre os espelhos quebrados dessas lojas
estão os focos do incêndio dos costumes.
Alarma-te: metrópoles em pânico
estão a arder. Não penses que o lixo
é só ao lado. Eis que ele se aproxima,
raia a raia.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Contra a Corrente

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Carlos Ferreiro
Edições &etc, Lisboa, Setembro 1988

Aqui de novo estou, cantiga, neste
lugar de eleição onde retomo a escrita.
É um vagar premeditado, no regresso ao corpo,
em demorado gosto de bebida dupla. Reparo: a carga
das palavras, canga difícil para quem
deste modo quer fazer o mosto. A poesia
já regressa, por entre cortinados e veludos
e o quarto, a sala, os corredores, o vão
da escada, ressoam com os seus passos,
afinal tão leves - a neve no soalho,
difícil no silêncio. Dizia do regresso; assim
desfaço os nós do medo: floresta e engano,
areal distante. Sorris e tudo é novo.
Sim: acabo sempre por falar de ti.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

OLHAR AS CAPAS


A Noiva das Astúrias

Eduardo Guerra Carneiro
Capa e desenhos: Carlos Ferreiro
Editora & etc, Lisboa Agosto 2001

No seu afã de procurar o longe
não via o perto e, assim, já tropeçava
nas metáforas simples do quotidiano.
Feito monge divagava pelas brumas
e buscava auroras, nem sequer boreais,
quando, ali, à mão de semear, estava
tudo, mesmo tudo o que sonhava. Barcas
vogavam noutros sentidos e os aeroportos
abriam-se em correntes novas - vagas
alterosas de diferentes migrações. Pensou,
então, cheirando tempo & espaço, na mente
borbulhante - no vulcão. Metamorfose, sim,
metamorfose era a palavra necessária.
Mais que o som: deixar casulo e ser borboleta.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

OLHAR AS CAPAS


Uma Semana Noutra Cidade

João César Monteiro
Capa de Carlos Ferreiro
Edições “&Etc”
Lisboa, Novembro de 1999

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o mundo