Amiúde é mais difícil desfazermo-nos de um livro do
que obtê-lo. Ligam-se a nós num pacto de necessidade e de esquecimento, como se
fossem testemunhas de um momento das nossas vidas ao qual não regressaremos.
Mas enquanto aí permanecerem, presumidos tê-los juntado. Vi que muita gente
coloca a data, o dia, o mês e o ano da leitura; traçam um discreto calendário.
Outros escrevem o seu nome na primeira página, antes de os emprestarem, anotam
numa agenda o destinatário e acrescentam-lhe a data. Vi volumes carimbados como
os das bibliotecas públicas ou com um delicado cartão do proprietário no seu
interior. Ninguém quer extraviar um livro. Preferimos perder um anel, um relógio,
o chapéu-de-chuva, do que o livro cujas páginas não mais leremos mas que
conservam, na sonoridade do seu título, uma antiga e talvez perdida emoção.
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terça-feira, 2 de abril de 2019
sexta-feira, 29 de junho de 2018
POSTAIS SEM SELO
Sempre que a minha
avó me via a ler na cama, costumava dizer-me: «Larga isso, que os livros são
perigosos.» Durante muitos anos acreditei na sua ignorância, mas o tempo
demonstrou a sensatez da minha avó alemã.
Carlos María
Domínguez em A Casa de Papel
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
OLHAR AS CAPAS
A Casa de Papel
Carlos María
Domínguez
Tradução: Henrique
Tavares e Castro
Capa: José Manuel Reis
Edições Asa, Lisboa,
Maio de 2010
Na Primavera de
1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas
de Emily Dickson e, ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi
atropelada por um automóvel.
Os livros mudam o
destino das pessoas. Uns leram o Tigre da Malásia e converteram-se em
professores de literatura em remotas universidades. Siddhartha levou ao
Hinduísmo dezenas de milhares de jovens, Hemingway converteu-os em
desportistas. Dumas transformou a vida de milhares de mulheres e não poucas
foram salvas do suicídio por manuais de cozinha. Bluma foi vítima deles.
Mas não a única. O
velho professor de línguas antigas Leonard Word ficou hemiplégico ao levar na
cabeça com cinco volumes da Enciclopédia Britânica, que se desprenderam de na
estante da sua biblioteca; o meu amigo Richard partiu uma perna ao tentar
chegar ao Absalão, Absalão! De William Faulkner, mal colocado numa estante, o
que o levou a cair da escada. Outro amigo de Buenos Aires adoeceu de
tuberculose nos sótãos de um arquivo público e conheci um cão chileno que
morreu de indigestão com os Irmãos Karamazov, depois de devorara as suas
páginas numa tarde de fúria.
Sempre que a minha avó
me via a ler na cama, costumava dizer-me: «Larga isso, que os livros são
perigosos.» Durante muitos anos acreditei na sua ignorância, mas o tempo
demonstrou a sensatez da minha avó alemã.
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