Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Pinhão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Pinhão. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 24 de abril de 2019

RUY BELO PORTUGALÊS


Ruy Belo porque é que já não escreves para A Bola?
Agora A bola está mais pobre sem os poetas do futebol
que fazem versos com a mesma saúde de quem faz desporto.

Só nos resta o Carlos Pinhão mas é um gozão
leva tudo a brincar só quer a bola para ele e quando
chega a vez de passar finta-nos transforma a bola
num bolo ou num bicho e nunca
numa laranja  para os jogadores descascarem
uns nos outros.

Ruy Belo não viste a malta ganhar à Áustria
nem o Benfica dar uma tareia no Sporting
(cinco a zero vê bem cinco a zero)
e a GNR dar muito mais no Alentejo.
Ai há quanto tempo a gente não via uma coisa e outra!

Olha abro este livro Português Suave
com o primeiro verso do teu Portugal sacro-profano
lugar onde
a tua poesia ficou por ler e a gente espera
que o Ruy Belo era uma vez
seja dado morto ou vivo
ao povo português.

Ruy Belo não eras mau rapaz
e eles não te mereciam.

Apetece dizer como diria
 a Raquel Maria

Bando de cagalhões!

Joaquim Pessoa em Português Suave.

Legenda: recorte de um dos artigos que Ruy Belo publicou em A Bola, este na edição de 6 de Maio de 1971.

RELACIONADOS


Por 50 Cêntimos, num desses vãos de escada que ainda se podem encontrar nos velhos bairros de Lisboa, vendendo de tudo um pouco, comprei este livro do Carlos Pinhão.

Comprei-o, principalmente, pelo que um avô sportinguista, corria o dia 16 de Maio de 1991, num bonito gesto de ternura, escreveu para o seu neto benfiquista:

«Para o João com um grande “viva ao Benfica campeão”».

Não sabemos se o João leu o livro, pela capa, pelo miolo, podemos concluir que não tem o mínimo sinal de ter sido lido, mas sabemos que o «despachou» e ter-lhe-ão dado uma ridicularia.

Serviu para quê, esse pouco dinheiro?

Nem para uma caixa de «chiclets» terá dado.

E aquele gesto de ternura do avô que tanto me agradara, passou a tristeza, reflexo da insensibilidade do João face ao gosto do avô lhe ter comprado o livro do Carlos Pinhão e que acabou num vão de escada de compra e venda de livros em 2ª mão.

Se o lesse teria reparado no que o Carlos Pinhão, a dado passo escreveu:

«Jogar é bom, faz bem, mas não é tudo, os jovens devem criar outros hábitos que contribuam para um desenvolvimento harmoniosos do corpo e do espírito… Por exemplo, ler…»

Mas os jovens não lêem.

Lembrar aquela história do petiz a quem o Raul Solnado perguntou se gostava de ler e que lhe respondeu: «Evito!»

José Tolentino Mendonça:

«Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei — e que lhes disse — foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo.” Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. Falta uma iniciação que seja digna desse nome. E, a esse propósito, lembrei-lhes o que dizia Rubem Alves: que era pela cozinha que deveríamos sempre entrar numa sala de aulas, pois ensinar é a arte de despertar a fome em alguém.»

Carlos Pinhão era uma pessoa amável, um competente jornalista desportivo  de A Bola e autor de histórias infanto-juvenis.

Devo ao jornal A Bola ter-me dado a conhecer o poeta Ruy Belo.

Motivo para a seguir fazer uma revisão de matéria dada.

OLHAR AS CAPAS



Abril Futebol Clube

Carlos Pinhão
Capa e ilustrações: Sofia Cavalheiro
Colecção Arco-Íris nº 7
Editorial Veja, Lisboa, 1991

Posso jogar futebol sozinho?... Acho que não, tenho de jogar a bola contra a parede para que a parede me devolva a bola, tenho de inventar um parceiro: a parede… Sim, não há dúvida que o futebol é mesmo um jogo colectivo, um jogo de equipa e aí está outro grande ensinamento que ele nos transmite: temos de jogar uns com os outros, devemos pôr a nossa habilidade ao serviço de um conjunto e não utilizá-la apenas para o nosso recreio pessoal. O futebol o egoísmo, o individualismo. Devemos jogar para a equipa e não para a galeria, como e costuma dizer. Devemos passar a bola ao companheiro que está em melhores condições de prosseguir a jogada com êxito, em vez de querermos fazer tudo sozinho para brilharmos. Na altura própria, devemos largar a bola, para que seja jogada por tidos a bola-que-de-todos-é.

terça-feira, 17 de abril de 2018

RELACIONADOS



A sequência dosbeijos cortados pelo padre-censor, levou-me para este cartoon, publicado no Cinéfilo nº 33 de 25 de Maio de 1974, da autoria de Rui, retratando a Comissão de Censura da ditadura, durante e depois da projecção dum filme, em que gozavam à tripa forra para depois nos roubaram a beleza dos filmes.


A crónica de Carlos Pinhão, retirada do Público s/s, a tal crónica de que não consegui encontrar as pontas do novelo.



Crónica de Jorge Listopad, publicada no Diário de Lisboa de 23 de Abril de 1990.


Texto de Manuel Cintra Ferreira publicado no Público de 13 de Dezembro de 1991 referente à projecção do filme no Canal 1 da RTP.

terça-feira, 6 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Fantasia Lisboeta

Carlos Pinhão
Prefácio: Mário Castrim
Capa e Ilustrações: Duarte Saraiva
Edição de «NA» - Orion, Lisboa s/d

Beato

Deve ser chato nascer
na Rua General Não-Sei-Quê
ou numa Grande Avenida
dessas de Nome Comprido.
Por mim estou tranquilo

nasci na Rua do Grilo.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

BICAMPEÃO EUROPEU


No dia 2 de Março de 1962, no Estádio Olímpico de Amesterdão, o Benfica, vencendo o Real Madrid por 5 bolas a três, conquistava a segunda Taça do Campeões Europeus.

Esta é a 1ª página de O Benfica de 5 de Maio de 1962.

Constituição da equipa do Benfica:

Costa Pereira; Mário João e Ãngelo; Cavém e Cruz; José Augusto, Eusébio, Águas (cap.) Coluna e Simões.

Constituição da equipa do Real Madrid:

Araquistain; Casado e Miera; Felo, Santamaria e Pachin; Tejada, Del Sol, Di Stefano, Puskas e Gento (cap.).

O árbitro foi o holandês Léo Horn.

Golos: 
                                              
1ª parte

Aos 17 minutos golo Puskas.
Aos 23 minutos novo golo de Puskas
Aos 25 minutos Águas reduziu para 2-1.
Aos 34 minutos golo do empate por Cavém.

2ª parte

Aos 5 minutos Coluna empata de novo o jogo.
Aos 18 minutos golo de Eusébio na marcação de um penalty.
Aos 23 minutos golo de Eusébio na marcação de um livre directo.

Em A Bola, publicada no dia 3 de Maio, Silva Resende colocava em título: …E o Benfica deu-se ao luxo de atribuir avanço ao Real, enquanto Carlos Pinhão escrevia:

Amesterdão, esta Amesterdão se é das túlipas e dos nanais, tem agora senhoriais direitos a ser também a Amesterdão do futebol português.
A boa estrela que os «olímpicos» semearam em 1928, esteve trinta e quatro anos a germinar, e surgiu ridente e esplendorosa, agora que portugueses voltaram a Amesterdão.

O Benfica, para uma recepção apoteótica, só chegaria ao aeroporto da Portela no dia seguinte pelas 19,30 horas.

sábado, 20 de julho de 2013

O SENHOR ÁGUAS


Há mais de trinta anos que não assisto a um jogo de futebol. Não conheço os estádios novos, vejo, às vezes, um bocadinho na televisão. Mas entre os dez e os vinte anos não falhava um jogo do Benfica. E não falhei enquanto Águas jogou. Claro que não era apenas Águas: era Costa Pereira, Germano, Ângelo, Simões, Eusébio, Cavém, o grande Mário Esteves Coluna que Otto Glória considerava o melhor jogador português, outros mais artistas que jogadores, como José Augusto, por exemplo, a todos estou grato pela beleza e a alegria que me deram, porém nunca admirei tanto um atleta como admirei José Águas. Para quê, portanto, ir ao futebol se ele já não se encontra no estádio? Era a elegância, a inteligência, a integridade, o talento, e ao pensar em escrever o meu desejo era ser o Águas da literatura. Vi Pelé, Didi, Nilton Santos, Puskas, Di Stefano, Santamaria, tantos outros génios, no tempo em que o futebol não era ainda uma indústria nem os jogadores funcionários competentes, comandados por esse horror a que chamam técnicos: era pura criação, uma actividade eufórica, uma magia cinzelada, uma nascente de prazer, uma inspiração, um entusiasmo. Águas foi tudo isso e, muito novo, ganhou o respeito dos colegas, dos adversários, dos jornalistas da época, que os havia de grande qualidade, Carlos Pinhão, Carlos Miranda, Aurélio Márcio, Homero Serpa, tantos outros. Não jogava futebol: criava futebol, respirava futebol, inventava futebol, e teria sido um privilégio para mim conhecê-lo. Não para falar com ele, para o ouvir. A sua beleza física invulgar distinguia-o de todos os outros, a forma de se mover em campo era única, a autoridade sobre os companheiros natural e humilde. Os miúdos que iam comigo à bola chamavam-lhe senhor Águas, sem sonharem que era desse modo que Simões e Eusébio o tratavam, como tratavam Coluna. Senhor Águas, senhor Coluna. Reconhecíamo-lo, do alto do terceiro anel, no estádio de então, onde, de tão longe, os jogadores minúsculos, pelo modo de correr, se deslocar no campo, passar, rematar, reconhecíamo-lo pelos seus golpes de cabeça, inimitáveis, pelo sentido da ocupação do espaço, pela simplificada geometria do seu futebol. Não tinha a garra de Ângelo ou Cavém, a força de Coluna, o gigantesco talento de Eusébio, o poder do drible de Simões, a velocidade de José Augusto: era uma espécie de rei sereno e eficaz, um aristocrata perfeito. Até a andar os olhos ficavam presos nele, na harmonia dos gestos, no modo de ajeitar bola, e eu, criança de dez anos ou adolescente de quinze, pensava tenho de trabalhar mais esta página, ainda não chego aos calcanhares de José Águas. Escrever como ele jogava, com a mesma subtileza e a mesma eficácia. Escrever como a equipa do Benfica, umas vezes à Ângelo, outras à Germano, outras à Coluna, e finalizar à Águas. Nunca deve ter ouvido falar em mim nem podia adivinhar que um garoto qualquer o tomava não apenas como mestre de futebol mas como mestre de escrita. Só, mais tarde, certos saxofonistas de jazz, Bird, Coltrane, Webster, Coleman, Hodges, alguns mais, tiveram, sobre o meu trabalho, influência semelhante. Mas Águas foi o meu primeiro e indisputado professor: escreve como ele joga, meu estúpido, aprende a escrever como ele jogava. Como morava em Benfica via-o, às vezes, no autocarro do clube e ficava, pasmado de admiração, a fitá-lo. Isto lembra-me o meu irmão Nuno chegando a casa de dedo no ar

- Toquei no Eusébio, toquei no Eusébio

como provavelmente, eu o faria, porque na infância e na adolescência o futebol era, para além de uma aprendizagem do mundo, um prazer infinito. A cor dos equipamentos
(o meu amigo Artur Semedo:

- Não sou um homem às riscas, sou homem de uma cor só)

a entrada em campo, o hino, tudo isto me exaltava e fazia feliz. E as vitórias, comemoradas em Benfica com bebedeiras eufóricas. Uma das minhas glórias secretas, confesso-o agora, consiste em ter visto a fotografia do meu pai no balneário do hóquei em patins do Benfica, de ele ter estado no Campeonato da Europa de 1936, em Estugarda, com vinte ou vinte e um anos, e de brincarmos com uma caixa de lata cheia de medalhas, a que o meu pai não dava importância alguma e eu considerava inestimáveis. Há pouco, a minha mãe

- O que faço eu a isto?

exibindo-me uma espécie de troféu ou de placas num estojo, que alguns anos antes de morrer a Federação de Patinagem lhe entregou, juntamente com outras antigas glórias, e que me recordo de o meu pai, que não saía, ir receber com satisfação secreta. Mas, claro, eu era só filho do Lobo Antunes, não era filho do Águas, e ainda sei medir as distâncias. Portanto, o que vou eu fazer a um campo de futebol se ele já não joga? Seguir os funcionários competentes de um negócio? Assistir ao bailado dos técnicos? Ver a fantasia substituída pela sofreguidão, a ambição pela avidez, o amor ao clube pela violência idiota? Claro que continuo a querer que o Benfica ganhe. Claro que sou, como em tudo o resto, parcial, sectário, por vezes sem bom senso algum. Mas há séculos que não sofro com as derrotas e, sobretudo, não choro lágrimas sinceras com elas: estou-me nas tintas. Contudo voltaria a trotar, radiante, para assistir à entrada em campo de Costa Pereira, Mário João, Germano, Ângelo, Cavém, Cruz, José Augusto, Eusébio, Águas, Coluna e Simões, a agradecer-lhes o facto de me terem, durante anos e anos, colorido a existência. E talvez no fim do jogo, postado junto ao autocarro, quando os jogadores saíssem do balneário, o senhor Águas me apertasse a mão.

Prefácio de António Lobo Antunes a José Águas, o Meu Pai Herói de Helena Águas

Legenda: fotografia tirada do livro José Águas, o Meu pai Herói.

sábado, 19 de maio de 2012

O FUTEBOL CONTRA A DITADURA


Joga-se amanhã, no Jamor, a final da Taça de Portugal, entre a Académica e o Sporting

Há 43 anos, no dia 22 de Junho de 1969, realizou-se a final entre o Benfica 
e a Académica.

Uma final muito especial, uma final transcendente.

Os estudantes tinham iniciado, há largas semanas, luto académico em defesa de direitos, transformado, ao mesmo tempo, numa luta contra a ditadura, a guerra colonial.
Coimbra, nos primeiros dias de Junho desse ano, chegou a ser uma cidade sitiada pela PIDE, a Polícia e a GNR.

Quis a classe dos jogadores estudantis que a Académica conseguisse chegar à final da Taça, onde iriam defrontar o Benfica de Eusébio & Cª.

A chegada a Lisboa de camionetas e comboios, provenientes de Coimbra, encheu as primeiras páginas dos jornais e marcavam a vontade férrea de enfrentar o regime de Caetano.

À custa do futebol, a luta estudantil tomava uma outra dimensão e não podia deixar indiferente o resto do país.

Sou rapaz de um só clube.

Mas também o sou de uma só luta, sempre orientada pelos princípios de esquerda.

Assisti a esse jogo na bancada norte do estádio, da qual, nesta imagem, se vê um pormenor.

Por uma vez desejei que o Benfica perdesse uma taça.

A conquista da Taça pela Académica traria, necessariamente, um maior impacto, um impacto inimaginável, à luta dos estudantes, e por que não dizer: à luta do povo.

Naquela tarde quente de Junho, o regime abalava, face ao maior comício político de antes do 25 de Abril, tal como um dia escreveu o jornalista Carlos Pinhão.

Aquela era a taça que os estudantes e o povo não podiam perder.

E não perderam.

Os únicos derrotados situavam-se na tralha que defendia a ditadura de Tomás e Caetano.

De resto, o Regime não mais iria recuperar, e, de podre, cairia ao fim de mais ou menos cinco anos.

Celso Cruzeiro, advogado e antigo dirigente estudantil, publicou em 1989 um importante livro, onde se relata e comenta todos os acontecimentos daquele ano de brasa.

Detenho-me no capítulo onde a final da Taça é referida:

Durante o jogo, que não foi transmitido e ao qual Tomás não compareceu, milhares de comunicados voaram saídos de pontos estratégicos do estádio. Dezenas de dísticos, cartazes e faixas passearam, intervaladamente, nas bancadas. Palavras de ordem foram gritadas em coro e o Hino cantado solenemente, a plenos pulmões. Todos quantos se deslocaram ao Estádio Nacional nessa tarde heroica de 22 de Junho de 1969 ficaram a conhecer as razões pelas quais em Coimbra os estudantes denodadamente, numa luta tenaz e persistente, contra o obscurantismo fascista. E rapidamente compreenderam que não era de futebol o desafio maior que tinham na sua frente.

A vitória na Taça de Portugal era no entanto para nós muito importante, face ao contexto em que a luta decorria. É que, para além do mais, a concretizar-se, permitiria a invasão do cortejo e o cortejo de regresso a Coimbra, manifestações essas onde, aliada à alegria desportiva – que indubitavelmente se sentiria – se poderia largar consideravelmente o impacto de massas do movimento e o seu campo de adesão. Essa secreta intenção recebeu os favores dos deuses até cerca de um quarto de hora antes do fim do jogo, altura em que Manuel António colocou a Académica a vencer por 1-0. Mas logo de seguida Eusébio, com grande falta de perspicácia política, arrancou uma jogada sensacional e ofereceu o empate. Havia depois, já no prolongamento, de marcar outro golo e acabar de vez com a questão.

Não houve porém grande alegria por parte do povo de Lisboa na vitória do Benfica. Muitos deles teriam preferido sem dúvida a vitória da Académica. Porque, por um lado, Taças tinha já o Benfica muitas e por outro lado bem sabiam quão importante se tornava a vitória da Académica para o prosseguimento da luta na cidade do Mondego, com a qual todos os anti-fascistas portugueses se irmanavam.


(1)   Coimbra, 1969 , Celso Cruzeiro, Edições Afrontamento, Porto 1989.

segunda-feira, 7 de março de 2011

VÍTOR DAMAS, SIMPLESMEMTE!


À boleia de Peter Handke, num bonito romance, que também deu um interessante filme realizado por Wim Wenders, quando penso em guarda-redes ocorre-me sempre a angústia no momento da marcação do penalty. 

Não tem nome de livro ou filme, mas também há a angústia do jogador que tem de marcar o penalty. Lembro-me, há um bom par de anos, de Bebeto,  craque  brasileiro, a falhar, no último minuto, na última jornada, um penalty que, caso tivesse entrado, teria dado ao Deportivo da Coruña o título de campeão  de Espanha.

Portugal sempre teve excelentes guarda-redes. Por ordem preferencial:

Victor Damas
Manuel Galrinho Bento
Costa Pereira, o dos frangos à Costa Pereira
José Henriques, o célebre Zé Gato, “uma provocação vestida de roxo”, como um dia, numa crónica na “Flama”, lhe chamou o poeta Herberto Helder.

Num guarda-redes gosto que ele seja elegante, espectacular, que seja louco.

Os mais antigos “keepers”, tal como se dizia quando eu era puto, que lembro de ter viso jogar:

João Azevedo do Sporting, mas já não com a camisola do Sporting, mas com a do Oriental, o célebre COL do Campo Engº Carlos Salema, na Azinhaga dos Alfinetes.

Barrigana do F. C. do Porto

Martelo do Lusitano de Évora

Cesário do S. C. de Braga

Ernesto do Atlético

José Pereira do Belenenses, o pássaro azu
l
Carlos Gomes do Sporting, que teve de fugir do país por causa de uma série de trapalhadas, que envolviam mulheres e dinheiros, e que acabou a carreira a defender as balizas da equipa de futebol da Polícia de Marrocos.

Mas hoje venho por Vítor Damas

Quando naquele Setembro de 2003, Vítor Damas, com 55 anos, nos deixou, falando com os meus botões, disse que, muito dificilmente, voltaria a ver um guarda-redes como ele e o tempo tem-me dado razão. Também poderá ser que eu queira que os meus olhos não vejam outro guarda-redes como Vítor Damas. Sou assim, e já estou velho para mudar…

Quando soube da sua morte, Eusébio disse de Damas que ele “era um senhor”, e mais ninguém o poderia ser com tanta propriedade, sentimento de coração destroçado, muito poucos o poderiam dizer, pois foi com ele que Vítor Damas protagonizou os mais belos duelos da história do futebol português e ambos, coisas de génios, fazem parte dos ventos lendários dessa história.

Há lugares comuns que se tornam banais, mas não vejo como dizer, eu que gosto de futebol, que 
Damas e Eusébio, entre outras coisas várias, são parte integrante da minha história.

Majestoso, elegante, ágil, espectacular fantástico e, sempre, aquele boné à Vítor Damas.

Como um dia disse o jornalista Carlos Pinhão, Vítor Damas, era o “Eusébio do Sporting”.

Legenda: Caricatura de Francisco Zambujal.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A BOLA

         

Em 29 de Janeiro de 1945, Cândido de Oliveira fundou o jornal A Bola.

Já lhe chamaram, Bíblia, também o Avante da Travessa da Queimada.

O jornalismo de sarjeta que por aí se faz, também atacou o jornal. 

Desaparecidos os jornalistas, notáveis cronistas, diga-se, que lhe deram glamour, hoje não passa de um produto amorfo, sem qualquer ponta de brilho, que aposta no sensacionalismo para vender papel.

 A Bola tem a minha idade e poderei dizer que foi no jornal do Cândido, como o meu avô lhe chamava, que soletrei as primeiras letras e, sem exagero, gosto de dizer que aprendi a ler com A Bola.

Quando o jornal fez 43 anos, convidou algumas personalidades para se pronunciarem sobre a efeméride. O cineasta João César Monteiro foi uma dessas personalidades:

 «Se não estou em erro, sou ledor de “A Bola” há mais de trinta anos. Do tempo em que era quase afrontoso ser visto com “ela” debaixo do braço e nem sempre se ousava confessar o pecadilho que era gostar de a ler. Para restituir a boa consciência a esse perverso apetite, criou-se um álibi curioso. “A Bola” passou a ser, antes do mais, um modelo de virtudes prosódicas, uma escola de bem escrever jornalístico. Com alguma razão, diga-se, se fecharmos piedosamente os olhos a certas piroseiras metafóricas que, de onde em onde, ensombram com a má literatura o bom jornalismo.
Para ser franco e sem cair no pretensiosismo de ter mais em que pensar, nunca pensei muito n’”A Bola”. Passo os olhos por ela, deixo-a deliberadamente na mesa do café, encontro-lhe utilidades culinárias para embrulhar tachos com arroz ou para absorver o óleo dos carapaus fritos. Numa ou noutra aflição, já me tem valido, com todos os inconvenientes de estampagem de aí decorrente. Nada de grave: conheço letrados bem piores.»


A Bola
 que hoje corre por aí, com o mesmo nome, não tem nada a ver com o jornal do Cândido.


Foi, até certa altura, um jornal bem feito, interessante mas não ao ponto de, com uma grande dose de exagero e injustiça, Carlos Pinhão ter afirmado, em pleno salazarismo/marcelismo, que «o jornalismo desportivo era o melhor jornalismo português». Carlos Pinhão esquecia-se (?) que A Bola não ia à “Comissão de Censura”. Os outros, seus camaradas de profissão tinham de escrever nas entrelinhas para tentarem fazer um jornalismo minimamente honesto.

À velha A Bola devo o facto de Ruy Belo ser um poeta do meu panteão.

O meu conhecimento com Ruy Belo não começou nem pelos livros, nem pelos poemas, mas por uns artigos sobre futebol que, nos idos de 1972, publicou em A Bola. 

Gostei tanto desses artigos que me interessei logo na procura de coisas acerca de Ruy Belo. 

Acabei a comprar-lhe os livros. O primeiro foi Homem de Palavra(s), uma capa azul, um belo livro. 

Lembrar Herberto Helder: «mais do que dizer que gostei dos livros de Ruy Belo, gostaria de escrever que os acho fundamentais».

sábado, 20 de fevereiro de 2010

HÁ 35 ANOS


No passado dia 9 de Fevereiro completaram-se 35 anos sobre a I Conferência da Reforma Agrária que permitiu as ocupações de terras no Ribatejo e Alentejo e que marca, formalmente, o arranque em força da Reforma Agrária.

Não é pacífica a discussão sobre a Reforma Agrária.

São profundas as cicatrizes que o processo deixou mas, com serenidade, a História há-de debruçar-se sobre esses anos, gloriosos para os trabalhadores alentejanos, trágicos para os latifundiários.

Porque a visão da Reforma Agrária depende, sempre, do lado de onde estamos a olhar
Sabe-se que até ao 25 de Abril os camponeses viviam miseravelmente. Jornadas de trabalho do nascer até ao pôr-do-sol, sem qualquer espécie de direitos.

Os latifundiários nem toda a terra queriam trabalhada.

A História também há-de falar de um certo voltar atrás que a chamada “Lei Barreto” proporcionou.

Quando percorremos algumas ruas de Lisboa, algumas terras do país, deparamos, ainda com paredes onde se pode ler: “Barreto Rua”Com essa lei os trabalhadores foram obrigados a abandonar as terras que ocuparam e a entregá-las aos proprietários.

Terras que voltaram a abandonar ou a venderem aos espanhóis.

Por esses tempos conturbados, o jornalista Carlos Pinhão, aproveitando um mero jogo de futebol, lembrava que eram outros os campeonatos que não podíamos perder, e publicava um poema no jornal “A Bola”.

Vale a pena recordar esse poema:

“Ao que parece
O Benfica vai perder o Campeonato.

Ao que se diz
Fica de luto metade do País.

Mas será mesmo um contratempo
Do outro Mundo?
Do outro tempo?
Dá pão?
Dá pão como a Reforma Agrária?
Será tão grande o mal?
Tão de tremer?

Olhe que não!
A Reforma Agrária é que é
O Campeonato Nacional
Que não se pode perder!”