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terça-feira, 20 de agosto de 2019

OLHARES


Corria o ano de 1950, Bilhete Postal de Afonso Duarte a agradecer a Carlos de Oliveira ter-lhe enviado os seus livros Terra da Harmonia e Descida aos Infernos.

terça-feira, 30 de abril de 2019

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Capa do programa do filme Uma Abelha na Chuva, um trabalho cuidado: oito páginas ilustradas, um artigo de António Pedro Vasconcelos a contar das dificuldades do novo cinema português, uma selecção de declarações de Fernando Lopes sobre as filmagens, a montagem do filme., um artigo de Eduardo Prado Coelho fazendo a ligação entre o livro e o filme, uma breve biografia de Carlos de Oliveira e o poema Cinema extraído de Sobre oLado Esquerdo.

«A abelha abriu as asas, atirou-se ao voo e foi apanhada pela chuva. Sofreu de tudo. Os fios do aguaceiro a enredá-la; golpes de vento a amocharem-lhe o voo; sacolejões, vergastadas, impulsos. Deu com as asas em terra. A chuva espezinhou-a, arrastou-se no saibro, debateu-se ainda. Mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.»

João César Monteiro não tinha qualquer dúvida quando afirmou: «devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»


Contra capa  do programa de Uma Abelha na Chuva com a reprodução do poema Cinema de Carlos de Oliveira:


CINEMA

I

O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.

II

A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.

III

Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua arquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.

sábado, 26 de janeiro de 2019

TALVEZ PARA A SEARA, TALVEZ PARA O LISBOA...



28 de Agosto de 1970

O José Cardoso Pires telefonou-me. Quer um artigo meu para o Diário de Lisboa.
- O suplemento literário é muito mau e quero transformá-lo…
Estou de férias, pá. Vamos a ver se consigo arranjar coragem para isso.
Entretanto ele ia dizendo: O Carlos critica, critica, mas nunca me manda um artigo…

1 de Setembro de 1970

Morreu Mauriac. Dos seus romances sempre extraí esta visão: o cristianismo não era um produto da bondade dos homens, mas da sua maldade ingénita. Se os homens fossem bons não precisavam de Cristo.

2 de Setembro de 1970

Passei o dia a escrever um artigo, talvez para a Seara Nova, talvez para o Diário de Lisboa…
Cada vez escrevo com maior dificuldade.
Ainda bem.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

sábado, 27 de outubro de 2018

VEJA-ME ESSE PROBLEMA NO SEU MORAIS


Encontrei ontem o Carlos que reescreveu Os Pequenos Burgueses em dois meses e meio.
- Ficou um livro realmente diferente… E tão diferente que penso em mudar-lhe o título. Qualquer coisa deste género: Os Pequenos Burgueses e Outras Personagens.
Aqui levantou-se-lhe o eterno problema. Personagem é masculino ou feminino? Como toda a gente sabe os puristas afirmam que é feminino. «O personagem» é um horrendo galicismo.
- Mas a mim soa-me muito mal «outras personagens»!
Você é capaz de me ver esse problema no seu Morais?
À noite telefonei-lhe e li-lhe duas abonações clássicas constantes do maorai (uma de Manuel Bernardes e outra de Francisco Manuel e Melo) que justificam o emprego de personagem no masculino.
O Carlos respirou feliz ao telefone,

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

Legenda: pormenor da página do Dicionário de Morais para a entrada «personagem», problema que Carlos de Oliveira pediu a José Gomes Ferreira para lhe resolver.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

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Belíssima capa de Vitor Palla para o segundo romance publicado por Carlos de Oliveira e que nunca mereceu da parte do autor uma outra versão, tal como fez com as restantes obras.


Carlos de Oliveira, perante os seus livros, tinha uma permanente insatisfação.

«Escrever, reescrever, etc., uma espécie de teia que enreda o próprio escritor e a que é difícil escapar», disse numa entrevista a Maria Teresa Horta, A Capital 26 de Março de 1969.

Logo que o livro chegou às livrarias, a PIDE tratou de o apreender

Carlos de Oliveira renegou este seu livro e chegou a considerar que o livro não deveria fazer parte da sua obra.

Sou um admirador incondicional da obra de Carlos de Oliveira, da sua personalidade, predicados que dele fizeram um nome admirável no panorama da nossa literatura.

Considero Alcateia um bom romance, reli-o agora, e escapam-me os porquês das razões porque Carlos de Oliveira o deixou de considerar como livro seu.

A obra de Carlos de Oliveira ocupa na estante um pouco mais de um palmo de espaço, mas é todo um mundo que ali está. A sua presença é silenciosa mas ao mesmo tempo gritante.

Serenidade sempre foi uma palavra que resultou da leitura  que sempre fiz da poesia e da prosa de Carlos de Oliveira.

Como disse Mário Castrim:

«É muito difícil falar de Carlos de Oliveira porque, se falamos dele, toda a banalidade é pecado.» 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO


Em Amsterdão, Outubro de 1970, António José Saraiva escreve a Óscar Lopes e a dado ponto anda às bicadas ao neo-realismo português:

Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um ínico grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.
E não há só uma invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do redol e outros.
(…)
Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.
Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte.


Legenda: Ferreira de Castro

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

OS NEO-REALISTAS DE LISBOA NÃO ME GRAMAM


Carta de Óscar Lopes para António José Saraiva, enviada do Porto em 2 de Setembro de 1969:

Ninguém em Portugal criticou mais desassombradamente os neo-realistas do que eu. O próprio E.L. parece valorizar muito mais o Carlos de Oliveira, o Cochofel, o Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de consagrar um ensaio à poesia de Namorado, com quem aliás me dou bem. Os neo-realistas de Lisboa, em geral, não me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos cozinharam um artigo bota-abaixo que o Alexandre Pinheiro Torres assinou. E nunca fui grande admirados do Ferreira de Castro, como creio que tu.
                                 

Legenda: Ferreira de Castro

quinta-feira, 26 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS



Terceira Idade

Mário Dionísio
Obras de Mário Dionísio nº 10
Publicações Europa-América, Lisboa s/d

(1 de Julho de 81: morte do Carlos de Oliveira)

É hoje o primeiro dia
em que há mundo sem ti

Esforço-me por entender o sem sentido disto

Mas não se pensa o que se chora
Espanto-me sim de esta cidade para mim vazia
ser para os outros como sempre a vi

Que pode haver agora?
Que enganosa miragem?
Tu não foste fazer uma viagem
Tua ausência não é um intervalo

Vai-se indo pouco a pouco o porque existo
E nunca mais também sem ti
saberei sequer reinventá-lo

quinta-feira, 28 de junho de 2018

LEVEI TEMPO A ENTENDER QUE SIM


Tudo se complicava muito porque nós (mas quais de nós?, quantos de nós?) sentíamos, como um espinho na carne, o dever de lutar pela felici­dade dos outros. Não o fazer era uma espécie de pecado. Não sabíamos viver com esse peso, essa hi­pótese sequer, na consciência. Mas lutar seria obe­decer de olhos fechados a uma orientação que (e assim me parecia mais e mais) não levaria a lado algum, à transformação dos homens certamente não? E o papel do intelectual (como o de qualquer outro militante) poderia limitar-se a subir e descer escadas com o único objectivo de subir e descer es­cadas? Não seria sua estrita obrigação (não só dele, mas sobretudo dele) esclarecer, esclarecer, esclare­cer os que só o não são, à partida, por defeituosa, criminosa organização da sociedade? Uns, como eu, pensavam (o Cochofel, o Carlos de Oliveira, o Lopes Graça, não só estes) que a militância do ar­tista deveria ser sobretudo (sobretudo, não só) no campo cultural. E que ela de modo nenhum deve­ria impedir o artista de dedicar-se ao conhecimento profundo da linguagem específica da arte e seus problemas. Que não havia arte revolucionária sem começar por ser arte. Que a desejada acção da arte junto do público, além de arte ser, exigia um míni­mo de preparação da parte deste, a incluir nas tare­fas políticas dos intelectuais. Que — princípio e fim de tudo — considerar a chamada «forma» e o chamado «conteúdo» elementos (metafisicamente) separáveis revelava, não um conceito marxista, mas um «mecanicismo pré-dialéctico», como já lhe chamara, sem que qualquer de nós o pudesse então saber, o insuspeito Mikail Bakhtine. Outros (muito mais poderosos na organização, deliberando o que pensar, desde o vértice da pirâmide a toda a base) defendiam, e com que intransigência!, precisamen­te o contrário.
 Coisas graves me pareciam que a crítica de bai­xo para cima (a inversa nunca esteve em causa), embora muito apregoada, nunca fosse possível exercê-la, que a repetição de palavras de ordem até ao atordoamento, mesmo no interior, substituísse uma cultura cientificamente indagadora, que qual­quer discordância de fundo obtivesse invariavel­mente como resposta: «terás razão, mas não é este o momento de». Quando a cultura não é nunca para amanhã, é sempre para já. O futuro o diria, o presente o está dizendo.
 Por que não se esquecem certas coisas? Ao pas­sar a simples «simpatizante» (era tudo afinal o que então queria e, a custo, consegui), um «amigo» — entre aspas a partir desse preciso instante — disse-me de olhinhos fixos e brilhantes: «Nunca mais farás nada». Mau agoiro para quem queria fa­zer tanto.
 Uma ameaça? Levei tempo a entender que sim.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio. Fotografia tirada do catálogo Passageiro Clandestino

quinta-feira, 26 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Um desejo irreprimível de cheirar os campos molhados.

Carlos de Oliveira em Uma Abelha na Chuva

segunda-feira, 26 de março de 2018

AGORA SÃO SÓ PEDAGOGIAS?NÃO TEM ESCRITO NADA?


Ensinar como simples ganha-pão é repugnante. E era o que então fazia. Num colegiozinho de má morte, ao Bairro Alto, onde o não ter o curso concluído nem possuir qualquer diploma para o ofício permitia ao director pagar-me o que bem lhe parecia. Um director de truz, bigodeira de pontas reviradas, bata branca, que também dava a sua au­la, sim senhor, mas se ocupava muito mais com vender aos cachopos cadernos, lápis, rebuçados... Artigo 1.° (pensava eu, imaginando leis fundamen­tais que deveria haver): é expressamente proibida qualquer forma de negócio em matéria de ensino. Mas só mais tarde sentiria a grande revelação: en­sinar de verdade (forma excelsa de comunicação), reaprender sempre a ensinar, ensinar a ensinar. Como um profissional. Indispensável. Mas também como uma dádiva feliz e inteira, exactamente igual à que exige o acto de criar seja o que for. Depois disso, raras vezes ensinei com sacrifício. Não direi «nunca». Mentiria. O normal era, contudo, fazê-lo com verdadeira entrega interior e algum êxito, pa­rece. Desde a escola do ensino técnico onde verda­deiramente assentei praça (ainda aí só quase ganha--pão, mas já só quase), ao trabalhoso e abençoado estágio, interrompido durante dezoito anos (malhas que o Império tecia...), aos longos anos no parti­cular — não tinha outra saída —, ao ensino secun­dário oficial, em vários dos seus escalões, à meto­dologia, à Comissão de Estudo da Reforma Educa­tiva, a que presidi, logo após o 25 de Abril (era ainda ensinar, era ainda paixão), enfim, à Faculda­de, onde a história acabou quando tinha de acabar.
Nunca consegui convencer deste prazer e sobretudo da sua utilidade os escritores meus amigos. Eles viam na maneira absorvente como ao ensino me entregava a mais indesculpável das infidelida­des. Que assim não podia ser. Que eu não nascera «para aquilo». Nascera «para mais», pensavam eles. E enchia-me de tristeza que não pudessem perceber. O Ferreira de Castro, por exemplo, quan­do, no Verão, estando ele em Sintra e eu em Galamares, nos encontrávamos com bastante frequên­cia: «Cuidado! Não deixe passar a idade. O tempo voa...» Mas os «piores» eram o Carlos de Oliveira, o José Gomes Ferreira, o Cochofel. Porque com estes estava eu todos os dias, tinha-os ali à perna. O Carlos —olha quem! — nem pensar em desar­mar. «Então agora são só pedagogias?» Irónico, implacável. E logo sério, com a amizade do costu­me: «Mas não tem escrito nada? Mesmo nada?» Como se o mundo fosse acabar por isso. Já publi­cara aliás grande número dos meus livros. E men­tia para mudar de assunto. Mas não mentia muito. Na verdade, escrever era o meu vício. Andava às voltas, havia perto de três anos, com o Não há Morte nem Princípio, cujo original ele, a seu tem­po, leria com o empenho que só os amigos sabem o que é. Com o mesmo com que eu lia os dele, cheios ainda de emendas, papelinhos colados, a in­satisfação em carne viva.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: retrato de Carlos de Oliveira da autoria de Mário Dionísio

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

QUANDO A HARMONIA CHEGA



Escrevo na madrugada as últimas palavras deste livro: e tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se reconstrói e continua.
Acordam pouco a pouco os construtores terrenos, gente que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável, crianças que passam ao ar livre gargalhando. Como um rio lento e irrevogável, a humanidade está na rua.
E a harmonia, que se desprende dos seus olhos densos ao encontro da luz, parece de repente uma ave de fogo.

Carlos de Oliveira em Trabalho Poético,  1º Volume

domingo, 5 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


O sal é o mar servido à mesa, nas suas praias domésticas, de linho.

Carlos de Oliveira em Sobre o Lado Esquerdo

sábado, 7 de outubro de 2017

UM DITADOR TELEVISIVO


29 de Setembro de 1969

O último discurso de Marcello 8com dois ll) desceu aos abismos mais baixos dos sequazes salazarentos (palavra criada por Aquilino), ou aos marcelentos (palavra criada pelo Carlos de Oliveira).
Como é que um homem inteligente (quem não e inteligente?) pode descer a voragens tão analfabetas? Ouvi dizer a um professor de Direito que os actuais meios de informação e de contacto com o público podem substituir o Parlamento – magoa.
Na verdade hoje os governantes penetram sem cerimónia em todas as casas para convencer ou dar ordens aos cidadãos – espectadores passivos.
Mas o contrário?
Como é que os cidadãos respondem ou entram pela casa dentro dos governantes?
O Maecello é o tipo acabado do Ditador televisivo. Não precisa de partido basta-lhe ser imagem – para governar espectros.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

Legenda: pormenor da capa do livro O Lugar do Televisor de Mário Castrim

domingo, 24 de setembro de 2017

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A propósito deste Olhar as Capas, recuperamos um texto publicado neste Cais do olhar em 15 de Outubro de 2011:

Quando Manuel da Fonseca, publica Seara de Vento  encerra aí o seu grande percurso na prosa.

Segue-se um interregno de 10 anos, interrompido pela publicação do livro de contos Um Anjo no Trapézio.

Numa entrevista a Maria Teresa Horta publicada em A Capital de 20 de Junho de 1968 disse Manuel da Fonseca:

“Pouco depois de “Cerromaior”, escrevi um romance. Duzentas e tal páginas. Um sujeito que o leu, gostou. Eu não. Nem o publiquei. Agora, que já tinha “esquecido” o tal romance inédito, mas não as pessoas, nem os acontecimentos, dei-me à escrita, e as duzentas e tantas páginas ficaram reduzidas a quarente e nove. O título do conto é o mesmo do romance “Um Anjo no Trapézio”.

O livro foi muito mal recebido pela crítica.

Alice Vassalo Pereira escreveu no “Jornal do Fundão” de 28 de Julho de 1968:

Manuel da Fonseca publica pouco. Sabemos isso. Temos dele meia dúzia de livros, e um longo silêncio de cerca de dez anos entre a publicação do último – “Seara de Vento” – e a de “Um Anjo no Trapézio” que surge agora nas nossas mãos. Um longo silêncio apenas povoado, de vez em quando de reedições e trabalhos dispersos por jornais. “Um Anjo no Trapézio” é a palavra de quebrar o silêncio.
Mas (infelizmente) para certos casos o silêncio continua a ser de oiro. E por vezes (agora) a palavra nem de pedra é…

José Gomes Ferreira, nos seus “Dias Comuns”, 5º volume, no dia 14 de Junho de 1968 escreve esta entrada:

O Manuel da Fonseca publicou um livro novo: “O Anjo no Trapézio.
Ainda não o li, mas gelou toda a gente.
O João José Cochofel:
- É muito mau… Com as palavras derretidas.
O Augusto Abelaira, a medo, com a delicadeza natural de não dizer mal dos ausentes:
- “O Fogo e as Cinzas” é um livro formidável.
O Carlos de Oliveira sacode a cabeça apavorado com esta verificação:
É terrível! Pode perder-se o talento!
Desgosto de família.

Damos os pêsames uns aos outros. Sinceros.

sábado, 16 de setembro de 2017

ESTALOU-LHE A CASTANHA NA BOCA



 23 de Setembro de 1969

Na lista que a União Nacional apresentou no Porto, a Aparece o nome da Agustina Bessa Luís – que nunca me enganou, aliás.
Grande escritora, sem dúvida, embora aproveite tudo o que é fácil para ser uma grande escritora. (Fácil para mim é o lixo da angústia, a diminuição sistemática do homem através de palavras ambíguas, etc.)
Fascista sempre ela foi. Por cálculo conformista, misturado quase paradoxalmente com exibicionismo e retórica. Serve-se das palavras co mo de máscaras.

                                                                     *
Outo nome: o filho de Leonardo Coimbra…
Custa-me a compreender que esse homem, filho do Leonardo, aprove o actual regime da PIDE, a violência para defender os interesses dos Grandes Capitalistas, etc.
As estranhas coisas a que tenho assistido!
Até à traição das árvores às raízes!

24 de Setembro de 1969

Afinal a Agustina Bessa Luís não pode concorrer porque não está recenseada.
O Carlos que encontrei no Monte Carlo:
- Ainda bem! A tipa queria vir passar todos os anos, seis meses a Lisboa e, ainda por cima, receber dinheiro…
Estalou-lhe a castanha na boca.


José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

domingo, 23 de julho de 2017

SARAMAGUEANDO




Se no dia em que sair daqui sair não tiver ainda (já) outro emptrego, começo o ano da estaca zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por mim mesmo.

Miguéis por baixo deste parágrafo escreveu a seguinte nota:

Bravo! eu Saramago.

Não espantam estas palavras de José Saramago.

Uma integridade, outras coisas mais, agarrada, toda uma vida, à teima dos ossos.

«Que nos importa morrer se não morrermos de rastros?»

Versos de Cantiga de Ódio de Carlos de Oliveira.

«Posso morrer de fome mas não peço esmola.»

 «Só sei que “para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Palavras de Mário Henrique Leiria em Depoimentos Escritos.

Foi a coragem, outras coisas mais que, em 1975, face ao despedimento do Diário de Notícias, à recusa dos seus pares e camaradas de Partido em que integrasse a equipa de O Diário, que o levou a viver de traduções, de colaborações várias, de arrancar para o Alentejo e do chão levantar um livro que o levaria, anos passados, ao Prémio Nobel da Literatura.

Apenas se conhece a versão de José Saramago sobre a sua substituição, por Natália Correia, à frente da direcção literária da editora Estúdios Cor.

Natália Correia, o que lhe sobrava em talento poético, escasseava-lhe em outros predicados que definem as pessoas.

Uma lindíssima mulher, segundo opinião corrente e variada, mas de uma vaidade cega que a conduzia a becos sem saída.

Luiz Pacheco numa das suas muitas entrevistas-descasca-pessegueiro, chama-lhe
 «degenerasda», e conta a história de que, numa das suas estadias na prisão do Limoeiro, Natália Correia teve lá em casa a mulher de Pacheco mais um filho pequeno, mas tentou assediar a rapariga, Pacheco  avança uns pormenores escabrosos e remata que, quando saiu da prisão, «esclareceu o assunto com a Natália».

Natália Correia não teve qualquer pejo em substituir José Saramago.

O contrário, certamente, não aconteceria.

Não são conhecidas as razões por que o fez mas, provavelmente, não andarão longe de motivos fúteis a roçar lampejos de inveja, porque de dinheiro não precisava Natália para viver dado que, ainda segundo Pacheco, «só «arranjava amantes velhos com massa.»


Legenda: contracapa da Correspondência entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.

sábado, 22 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


Cantar é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras fique embora mais breve a nossa vida.

Carlos de Oliveira em TrabalhoPoético 1º Volume

OLHAR AS CAPAS


Relâmpago

Nº 11
Número dedicado a Carlos de Oliveira
Colaborações:
José Ricardo Nunes, Manuel Gusmão, Pedro Eiras, Rosa Maria Martelo, Armando Silva carvalho, Augusto Abelaira, Eduarda Dionísio, Eduardo Prado Coelho, Fernando Lopes, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, José Manuel Mendes, Margarida Gil, Nuno Júdice, Urbano Tavares Rodrigues
Capa: Nuno Marques Mendes
Assírio Alvim, Lisboa, Outubro de 2002

De súbito, o Carlos de Oliveira pediu-me:
- Você por acaso tem aí um lápis?
Aquele “por acaso” impressionou-me, era indicativo de que, para ele, só por acidente um escritor usaria lápis (então eu ainda não publicara nenhum livro). E fui perguntando:
- Você esqueceu-se?
Para meu espanto, revelou-me que nunca, por nunca ser, trazia um lápis (ou caneta) na algibeira. O seu lápis era a memória, construía as poesias “na cabeça”. Alinhava e desalinhava as palavras na memória durante o dia, durante as horas do dia, e quando chegava a casa, era somente escrevê-las. Somente? Escrevê-las, reescrevê-las, quem conhece o Carlos sabe como é.
Então, com o lápis, para depois a Ângela as passar à máquina. Quantas vezes?

(Do texto de Augusto Abelaira)

sexta-feira, 21 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Carlos de Oliveira: A Parte Submersa do Iceberg
Exposição

Curadoria; Osvaldo Silvestre
Edição Museu do Neo-Realismo e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
Vila Franca de Xira, Março de 2017

Carlos de Oliveira escreveu pouco; no entanto, tudo o que escreveu está impregnado de uma intensidade admirável, deixando-nos uma obra relativamente curta mas profundamente coesa, composta por vários objectos literários que, todos eles, contêm em si imensos mundos por explorar.

Do catálogo