Corria o ano de
1950, Bilhete Postal de Afonso Duarte a agradecer a Carlos de Oliveira ter-lhe
enviado os seus livros Terra da Harmonia e Descida aos Infernos.
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terça-feira, 20 de agosto de 2019
terça-feira, 30 de abril de 2019
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Capa do programa do filme Uma Abelha na Chuva,
um trabalho cuidado: oito páginas ilustradas, um artigo de António Pedro
Vasconcelos a contar das dificuldades do novo cinema português, uma selecção de
declarações de Fernando Lopes sobre as filmagens, a montagem do filme., um
artigo de Eduardo Prado Coelho fazendo a ligação entre o livro e o filme, uma
breve biografia de Carlos de Oliveira e o poema Cinema extraído de Sobre oLado Esquerdo.
«A abelha abriu as asas, atirou-se ao voo e foi apanhada pela chuva.
Sofreu de tudo. Os fios do aguaceiro a enredá-la; golpes de vento a amocharem-lhe
o voo; sacolejões, vergastadas, impulsos. Deu com as asas em terra. A chuva
espezinhou-a, arrastou-se no saibro, debateu-se ainda. Mas a voragem acabou por
levá-la com as folhas mortas.»
João César Monteiro
não tinha qualquer dúvida quando afirmou: «devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de
cinema.»
Contra capa do programa de Uma Abelha na Chuva com a reprodução do poema Cinema de Carlos de Oliveira:
CINEMA
I
O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.
II
A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.
III
Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua arquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.
I
O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.
II
A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.
III
Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua arquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.
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sábado, 26 de janeiro de 2019
TALVEZ PARA A SEARA, TALVEZ PARA O LISBOA...
28 de Agosto de 1970
O José Cardoso Pires telefonou-me. Quer um artigo meu para o Diário de Lisboa.
- O suplemento literário é muito mau e quero transformá-lo…
Estou de férias, pá. Vamos a ver se consigo arranjar coragem para isso.
Entretanto ele ia dizendo: O Carlos critica, critica, mas nunca me
manda um artigo…
1 de Setembro de 1970
Morreu Mauriac. Dos seus romances sempre extraí esta visão: o
cristianismo não era um produto da bondade dos homens, mas da sua maldade
ingénita. Se os homens fossem bons não precisavam de Cristo.
2 de Setembro de 1970
Passei o dia a
escrever um artigo, talvez para a Seara Nova, talvez para o Diário de Lisboa…
Cada vez escrevo com
maior dificuldade.
Ainda bem.
José Gomes Ferreira em Dias
Comuns Volume IX
sábado, 27 de outubro de 2018
VEJA-ME ESSE PROBLEMA NO SEU MORAIS
Encontrei ontem o Carlos que reescreveu Os Pequenos Burgueses em dois meses e meio.
- Ficou um livro realmente diferente… E tão diferente que penso em
mudar-lhe o título. Qualquer coisa deste género: Os Pequenos Burgueses e
Outras Personagens.
Aqui levantou-se-lhe o eterno problema. Personagem é masculino ou
feminino? Como toda a gente sabe os puristas afirmam que é feminino. «O
personagem» é um horrendo galicismo.
- Mas a mim soa-me muito mal «outras personagens»!
Você é capaz de me ver esse problema no seu Morais?
À noite telefonei-lhe e li-lhe duas abonações clássicas constantes do
maorai (uma de Manuel Bernardes e outra de Francisco Manuel e Melo) que
justificam o emprego de personagem no masculino.
O Carlos respirou feliz ao telefone,
Legenda: pormenor da
página do Dicionário de Morais para a entrada «personagem», problema que Carlos
de Oliveira pediu a José Gomes Ferreira para lhe resolver.
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
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Belíssima capa de
Vitor Palla para o segundo romance publicado por Carlos de Oliveira e que nunca
mereceu da parte do autor uma outra versão, tal como fez com as restantes
obras.
Carlos de Oliveira,
perante os seus livros, tinha uma permanente insatisfação.
«Escrever, reescrever, etc., uma espécie de teia que enreda o próprio
escritor e a que é difícil escapar», disse numa entrevista a Maria Teresa
Horta, A Capital 26 de Março de 1969.
Logo que o livro
chegou às livrarias, a PIDE tratou de o apreender
Carlos de Oliveira
renegou este seu livro e chegou a considerar que o livro não deveria fazer
parte da sua obra.
Sou um admirador
incondicional da obra de Carlos de Oliveira, da sua personalidade, predicados
que dele fizeram um nome admirável no panorama da nossa literatura.
Considero Alcateia um bom romance, reli-o agora, e
escapam-me os porquês das razões porque Carlos de Oliveira o deixou de
considerar como livro seu.
A obra de Carlos de
Oliveira ocupa na estante um pouco mais de um palmo de espaço, mas é todo um mundo que ali está. A sua
presença é silenciosa mas ao mesmo tempo gritante.
Serenidade sempre foi
uma palavra que resultou da leitura
que sempre fiz da poesia e da prosa de Carlos de Oliveira.
Como disse Mário
Castrim:
«É muito difícil falar de Carlos de Oliveira porque, se falamos dele,
toda a banalidade é pecado.»
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Vitor Palla
quinta-feira, 23 de agosto de 2018
QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO
Em Amsterdão, Outubro
de 1970, António José Saraiva escreve a Óscar Lopes e a dado ponto anda às
bicadas ao neo-realismo português:
Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler)
é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar
neo-realista, o que me parece impróprio) não há um ínico grande escritor
neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha
inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém
comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou
mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira
nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons
poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o
Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira
vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura
envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto,
porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.
E não há só uma invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições
já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário
Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do redol e outros.
(…)
Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas
nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa
burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam
muito abaixo do Paço d’Arcos.
Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo.
Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra
dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade
a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por
esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do
Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte.
Legenda: Ferreira de Castro
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
OS NEO-REALISTAS DE LISBOA NÃO ME GRAMAM
Carta de Óscar
Lopes para António José Saraiva, enviada do Porto em 2 de Setembro de 1969:
Ninguém em Portugal criticou mais desassombradamente
os neo-realistas do que eu. O próprio E.L. parece valorizar muito mais o Carlos
de Oliveira, o Cochofel, o Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de
consagrar um ensaio à poesia de Namorado, com quem aliás me dou bem. Os
neo-realistas de Lisboa, em geral, não me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos
cozinharam um artigo bota-abaixo que o Alexandre Pinheiro Torres assinou. E
nunca fui grande admirados do Ferreira de Castro, como creio que tu.
Legenda: Ferreira
de Castro
quinta-feira, 26 de julho de 2018
OLHAR AS CAPAS
Terceira Idade
Mário Dionísio
Obras de Mário
Dionísio nº 10
Publicações
Europa-América, Lisboa s/d
(1 de Julho de 81:
morte do Carlos de Oliveira)
É hoje o primeiro dia
em que há mundo sem ti
em que há mundo sem ti
Esforço-me por entender o sem sentido disto
Mas não se pensa o que se chora
Espanto-me sim de esta cidade para mim vazia
ser para os outros como sempre a vi
Espanto-me sim de esta cidade para mim vazia
ser para os outros como sempre a vi
Que pode haver agora?
Que enganosa miragem?
Tu não foste fazer uma viagem
Tua ausência não é um intervalo
Que enganosa miragem?
Tu não foste fazer uma viagem
Tua ausência não é um intervalo
Vai-se indo pouco a pouco o porque existo
E nunca mais também sem ti
saberei sequer reinventá-lo
E nunca mais também sem ti
saberei sequer reinventá-lo
quinta-feira, 28 de junho de 2018
LEVEI TEMPO A ENTENDER QUE SIM
Tudo se complicava muito porque nós (mas quais de nós?, quantos de
nós?) sentíamos, como um espinho na carne, o dever de lutar pela felicidade
dos outros. Não o fazer era uma espécie de pecado. Não sabíamos viver com esse
peso, essa hipótese sequer, na consciência. Mas lutar seria obedecer de olhos
fechados a uma orientação que (e assim me parecia mais e mais) não levaria a
lado algum, à transformação dos homens certamente não? E o papel do intelectual
(como o de qualquer outro militante) poderia limitar-se a subir e descer
escadas com o único objectivo de subir e descer escadas? Não seria sua estrita
obrigação (não só dele, mas sobretudo dele) esclarecer, esclarecer, esclarecer
os que só o não são, à partida, por defeituosa, criminosa organização da
sociedade? Uns, como eu, pensavam (o Cochofel, o Carlos de Oliveira, o Lopes
Graça, não só estes) que a militância do artista deveria ser sobretudo
(sobretudo, não só) no campo cultural. E que ela de modo nenhum deveria
impedir o artista de dedicar-se ao conhecimento profundo da linguagem
específica da arte e seus problemas. Que não havia arte revolucionária sem
começar por ser arte. Que a desejada acção da arte junto do público, além de
arte ser, exigia um mínimo de preparação da parte deste, a incluir nas tarefas
políticas dos intelectuais. Que — princípio e fim de tudo — considerar a
chamada «forma» e o chamado «conteúdo» elementos (metafisicamente) separáveis
revelava, não um conceito marxista, mas um «mecanicismo pré-dialéctico», como
já lhe chamara, sem que qualquer de nós o pudesse então saber, o insuspeito
Mikail Bakhtine. Outros (muito mais poderosos na organização, deliberando o que
pensar, desde o vértice da pirâmide a toda a base) defendiam, e com que
intransigência!, precisamente o contrário.
Coisas graves me pareciam que a crítica de baixo para cima (a
inversa nunca esteve em causa), embora muito apregoada, nunca fosse possível
exercê-la, que a repetição de palavras de ordem até ao atordoamento, mesmo no
interior, substituísse uma cultura cientificamente indagadora, que qualquer
discordância de fundo obtivesse invariavelmente como resposta: «terás razão,
mas não é este o momento de». Quando a cultura não é nunca para amanhã, é
sempre para já. O futuro o diria, o presente o está dizendo.
Por que não se esquecem certas coisas? Ao passar a simples
«simpatizante» (era tudo afinal o que então queria e, a custo, consegui), um
«amigo» — entre aspas a partir desse preciso instante — disse-me de olhinhos
fixos e brilhantes: «Nunca mais farás nada». Mau agoiro para quem queria fazer
tanto.
Uma ameaça? Levei tempo a entender que sim.
Mário Dionísio em Autobiografia
Legenda: Mário
Dionísio. Fotografia tirada do
catálogo Passageiro Clandestino
quinta-feira, 26 de abril de 2018
segunda-feira, 26 de março de 2018
AGORA SÃO SÓ PEDAGOGIAS?NÃO TEM ESCRITO NADA?
Ensinar como simples ganha-pão é repugnante.
E era o que então fazia. Num colegiozinho de má morte, ao Bairro Alto, onde o
não ter o curso concluído nem possuir qualquer diploma para o ofício permitia
ao director pagar-me o que bem lhe parecia. Um director de truz, bigodeira de
pontas reviradas, bata branca, que também dava a sua aula, sim senhor, mas se
ocupava muito mais com vender aos cachopos cadernos, lápis, rebuçados... Artigo
1.° (pensava eu, imaginando leis fundamentais que deveria haver): é
expressamente proibida qualquer forma de negócio em matéria de ensino. Mas só
mais tarde sentiria a grande revelação: ensinar de verdade (forma excelsa de
comunicação), reaprender sempre a ensinar, ensinar a ensinar. Como um
profissional. Indispensável. Mas também como uma dádiva feliz e inteira,
exactamente igual à que exige o acto de criar seja o que for. Depois disso,
raras vezes ensinei com sacrifício. Não direi «nunca». Mentiria. O normal era,
contudo, fazê-lo com verdadeira entrega interior e algum êxito, parece. Desde
a escola do ensino técnico onde verdadeiramente assentei praça (ainda aí só
quase ganha--pão, mas já só quase), ao trabalhoso e abençoado estágio,
interrompido durante dezoito anos (malhas que o Império tecia...), aos longos
anos no particular — não tinha outra saída —, ao ensino secundário oficial,
em vários dos seus escalões, à metodologia, à Comissão de Estudo da Reforma
Educativa, a que presidi, logo após o 25 de Abril (era ainda ensinar, era
ainda paixão), enfim, à Faculdade, onde a história acabou quando tinha de
acabar.
Nunca consegui convencer deste prazer e sobretudo da sua
utilidade os escritores meus amigos. Eles viam na maneira absorvente como ao
ensino me entregava a mais indesculpável das infidelidades. Que assim não
podia ser. Que eu não nascera «para aquilo». Nascera «para mais», pensavam
eles. E enchia-me de tristeza que não pudessem perceber. O Ferreira de Castro,
por exemplo, quando, no Verão, estando ele em Sintra e eu em Galamares, nos
encontrávamos com bastante frequência: «Cuidado! Não deixe passar a idade. O
tempo voa...» Mas os «piores» eram o Carlos de Oliveira, o José Gomes Ferreira,
o Cochofel. Porque com estes estava eu todos os dias, tinha-os ali à perna. O
Carlos —olha quem! — nem pensar em desarmar. «Então agora são só pedagogias?»
Irónico, implacável. E logo sério, com a amizade do costume: «Mas não tem
escrito nada? Mesmo nada?» Como se o mundo fosse acabar por isso. Já publicara
aliás grande número dos meus livros. E mentia para mudar de assunto. Mas não
mentia muito. Na verdade, escrever era o meu vício. Andava às voltas, havia
perto de três anos, com o Não há Morte nem Princípio, cujo original ele, a seu
tempo, leria com o empenho que só os amigos sabem o que é. Com o mesmo com que
eu lia os dele, cheios ainda de emendas, papelinhos colados, a insatisfação em
carne viva.
Mário Dionísio em Autobiografia
Legenda: retrato de Carlos
de Oliveira da autoria de Mário Dionísio
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
QUANDO A HARMONIA CHEGA
Escrevo na madrugada as últimas palavras deste livro:
e tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se reconstrói e continua.
Acordam pouco a pouco os construtores terrenos, gente
que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável, crianças
que passam ao ar livre gargalhando. Como um rio lento e irrevogável, a
humanidade está na rua.
E a harmonia, que se desprende dos seus olhos densos
ao encontro da luz, parece de repente uma ave de fogo.
Carlos de
Oliveira em Trabalho Poético, 1º Volume
domingo, 5 de novembro de 2017
POSTAIS SEM SELO
O sal é o mar servido à mesa, nas suas praias
domésticas, de linho.
Carlos de
Oliveira em Sobre o Lado Esquerdo
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sábado, 7 de outubro de 2017
UM DITADOR TELEVISIVO
29 de Setembro de 1969
O último discurso de Marcello 8com dois ll) desceu aos
abismos mais baixos dos sequazes salazarentos (palavra criada por Aquilino), ou
aos marcelentos (palavra criada pelo Carlos de Oliveira).
Como é que um homem inteligente (quem não e inteligente?)
pode descer a voragens tão analfabetas? Ouvi dizer a um professor de Direito
que os actuais meios de informação e de contacto com o público podem substituir
o Parlamento – magoa.
Na verdade hoje os governantes penetram sem cerimónia em
todas as casas para convencer ou dar ordens aos cidadãos – espectadores passivos.
Mas o contrário?
Como é que os cidadãos respondem ou entram pela casa
dentro dos governantes?
O Maecello é o tipo acabado do Ditador televisivo. Não
precisa de partido basta-lhe ser imagem – para governar espectros.
Legenda: pormenor
da capa do livro O Lugar do Televisor de Mário Castrim
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Mário Castrim
domingo, 24 de setembro de 2017
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A propósito deste Olhar as Capas, recuperamos um texto publicado neste Cais do olhar em 15 de
Outubro de 2011:
Quando Manuel da
Fonseca, publica Seara de Vento encerra
aí o seu grande percurso na prosa.
Segue-se um
interregno de 10 anos, interrompido pela publicação do livro de contos Um Anjo no Trapézio.
Numa entrevista a
Maria Teresa Horta publicada em A
Capital de 20 de Junho de 1968 disse Manuel da Fonseca:
“Pouco depois de “Cerromaior”, escrevi um romance.
Duzentas e tal páginas. Um sujeito que o leu, gostou. Eu não. Nem o publiquei.
Agora, que já tinha “esquecido” o tal romance inédito, mas não as pessoas, nem
os acontecimentos, dei-me à escrita, e as duzentas e tantas páginas ficaram
reduzidas a quarente e nove. O título do conto é o mesmo do romance “Um Anjo no
Trapézio”.
O livro foi muito
mal recebido pela crítica.
Alice Vassalo
Pereira escreveu no “Jornal do
Fundão” de 28 de Julho de 1968:
Manuel da Fonseca publica pouco. Sabemos isso. Temos
dele meia dúzia de livros, e um longo silêncio de cerca de dez anos entre a
publicação do último – “Seara de Vento” – e a de “Um Anjo no Trapézio” que
surge agora nas nossas mãos. Um longo silêncio apenas povoado, de vez em quando
de reedições e trabalhos dispersos por jornais. “Um Anjo no Trapézio” é a
palavra de quebrar o silêncio.
Mas (infelizmente) para certos casos o silêncio
continua a ser de oiro. E por vezes (agora) a palavra nem de pedra é…
José Gomes
Ferreira, nos seus “Dias
Comuns”, 5º volume, no dia 14 de Junho de 1968 escreve esta
entrada:
O Manuel da Fonseca publicou um livro novo: “O Anjo no
Trapézio.
Ainda não o li, mas gelou toda a gente.
O João José Cochofel:
- É muito mau… Com as palavras derretidas.
O Augusto Abelaira, a medo, com a delicadeza natural
de não dizer mal dos ausentes:
- “O Fogo e as Cinzas” é um livro formidável.
O Carlos de Oliveira sacode a cabeça apavorado com
esta verificação:
É terrível! Pode perder-se o talento!
Desgosto de família.
Damos os pêsames uns aos outros. Sinceros.
sábado, 16 de setembro de 2017
ESTALOU-LHE A CASTANHA NA BOCA
23 de Setembro de
1969
Na lista que a
União Nacional apresentou no Porto, a Aparece o nome da Agustina Bessa Luís –
que nunca me enganou, aliás.
Grande escritora,
sem dúvida, embora aproveite tudo o que é fácil para ser uma grande escritora.
(Fácil para mim é o lixo da angústia, a diminuição sistemática do homem através
de palavras ambíguas, etc.)
Fascista sempre ela
foi. Por cálculo conformista, misturado quase paradoxalmente com exibicionismo
e retórica. Serve-se das palavras co mo de máscaras.
*
Outo nome: o filho
de Leonardo Coimbra…
Custa-me a
compreender que esse homem, filho do Leonardo, aprove o actual regime da PIDE,
a violência para defender os interesses dos Grandes Capitalistas, etc.
As estranhas coisas
a que tenho assistido!
Até à traição das
árvores às raízes!
24 de Setembro de 1969
Afinal a Agustina
Bessa Luís não pode concorrer porque não está recenseada.
O Carlos que
encontrei no Monte Carlo:
- Ainda bem! A tipa
queria vir passar todos os anos, seis meses a Lisboa e, ainda por cima, receber
dinheiro…
Estalou-lhe a
castanha na boca.
José Gomes Ferreira em Livro das
Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.
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domingo, 23 de julho de 2017
SARAMAGUEANDO
Se no dia em que
sair daqui sair não tiver ainda (já) outro emptrego, começo o ano da estaca
zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por
mim mesmo.
Miguéis por baixo deste parágrafo escreveu a seguinte
nota:
Bravo! eu Saramago.
Não espantam estas palavras de José Saramago.
Uma integridade, outras coisas mais, agarrada, toda uma vida, à teima dos
ossos.
«Que nos importa
morrer se não morrermos de rastros?»
Versos de Cantiga de Ódio de Carlos de Oliveira.
«Posso morrer de
fome mas não peço esmola.»
«Só sei que “para vivir de rodillas vale más
morir de pie.»
Palavras de Mário Henrique Leiria em Depoimentos Escritos.
Foi a coragem, outras coisas mais que, em 1975, face ao
despedimento do Diário de Notícias, à
recusa dos seus pares e camaradas de Partido em que integrasse a equipa de O Diário, que o levou a viver de
traduções, de colaborações várias, de arrancar para o Alentejo e do chão
levantar um livro que o levaria, anos passados, ao Prémio Nobel da Literatura.
Apenas se conhece a versão de José Saramago sobre a sua
substituição, por Natália Correia, à frente da direcção literária da editora
Estúdios Cor.
Natália Correia, o que lhe sobrava em talento poético,
escasseava-lhe em outros predicados que definem as pessoas.
Uma lindíssima mulher, segundo opinião corrente e variada,
mas de uma vaidade cega que a conduzia a becos sem saída.
Luiz Pacheco numa das suas muitas entrevistas-descasca-pessegueiro,
chama-lhe
«degenerasda», e conta a história de que,
numa das suas estadias na prisão do Limoeiro, Natália Correia teve lá em casa a
mulher de Pacheco mais um filho pequeno, mas tentou assediar a rapariga,
Pacheco avança uns pormenores escabrosos
e remata que, quando saiu da prisão, «esclareceu
o assunto com a Natália».
Natália Correia não teve qualquer pejo em substituir José
Saramago.
O contrário, certamente, não aconteceria.
Não são conhecidas as razões por que o fez mas, provavelmente,
não andarão longe de motivos fúteis a roçar lampejos de inveja, porque de
dinheiro não precisava Natália para viver dado que, ainda segundo Pacheco, «só «arranjava amantes velhos com massa.»
Legenda: contracapa da Correspondência entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.
sábado, 22 de julho de 2017
POSTAIS SEM SELO
Cantar é empurrar o
tempo ao encontro das cidades futuras fique embora mais breve a nossa vida.
Carlos de Oliveira em TrabalhoPoético 1º Volume
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Postais Sem Selo
OLHAR AS CAPAS
Relâmpago
Nº 11
Número dedicado a Carlos de Oliveira
Colaborações:
José Ricardo Nunes, Manuel Gusmão, Pedro Eiras, Rosa
Maria Martelo, Armando Silva carvalho, Augusto Abelaira, Eduarda Dionísio,
Eduardo Prado Coelho, Fernando Lopes, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, José
Manuel Mendes, Margarida Gil, Nuno Júdice, Urbano Tavares Rodrigues
Capa: Nuno Marques Mendes
Assírio Alvim, Lisboa, Outubro de 2002
De súbito, o Carlos
de Oliveira pediu-me:
- Você por acaso
tem aí um lápis?
Aquele “por acaso”
impressionou-me, era indicativo de que, para ele, só por acidente um escritor
usaria lápis (então eu ainda não publicara nenhum livro). E fui perguntando:
- Você esqueceu-se?
Para meu espanto,
revelou-me que nunca, por nunca ser, trazia um lápis (ou caneta) na algibeira.
O seu lápis era a memória, construía as poesias “na cabeça”. Alinhava e
desalinhava as palavras na memória durante o dia, durante as horas do dia, e
quando chegava a casa, era somente escrevê-las. Somente? Escrevê-las,
reescrevê-las, quem conhece o Carlos sabe como é.
Então, com o lápis,
para depois a Ângela as passar à máquina. Quantas vezes?
(Do texto de Augusto Abelaira)
sexta-feira, 21 de julho de 2017
OLHAR AS CAPAS
Carlos de Oliveira: A Parte Submersa do Iceberg
Exposição
Curadoria; Osvaldo
Silvestre
Edição Museu do
Neo-Realismo e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
Vila Franca de Xira,
Março de 2017
Carlos de Oliveira escreveu pouco; no entanto, tudo o que escreveu está
impregnado de uma intensidade admirável, deixando-nos uma obra relativamente
curta mas profundamente coesa, composta por vários objectos literários que,
todos eles, contêm em si imensos mundos por explorar.
Do catálogo
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