Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos de Oliveira Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos de Oliveira Poemas. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de junho de 2019

SALMO


A vida
é o sangue
do mistério,
o bago de uva
macerado

nos lagares do mundo,
e aqui se diz
para proveito dos que vivem
que a dor
é vã
e a alma
breve.

Carlos Oliveira de Cantata em Poesias

terça-feira, 23 de abril de 2019

EPITÁFIO


Mais vivo porque sofreste
a morte não veio, foi-se:
A eternidade constrói-se
na beleza com que viveste.

Carlos de Oliveira de Terra da Harmonia em Poesias

Legenda: Soeiro Pereira Gomes

sábado, 13 de abril de 2019

CANTIGA DO ÓDIO


O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros? 

Carlos de Oliveira de Mãe Pobre em Poesias

sábado, 9 de fevereiro de 2019

LEGENDA PARA UM LIVRO FUTURO


Aço na forja dos dicionários,
as palavras são feitas de aspereza:
O primeiro vestígio da beleza
é a cólera dos versos necessários.

Carlos de Oliveira em Poesias

sábado, 30 de junho de 2018

DIZ-SE QUE OS ANJOS VOAM


Diz-se que os anjos voam
doutro modo; leves;
que não levam peso
quando partem:
a nossa miséria já filtrada,
a sua misericórdia imponderável;
flutuam; pairam; vogam:
verbos de pouca densidade;
cânones vigiaram
o crescimento das asas
nas pinturas heréticas;
concílios redigiram normas
a impor asas mais breves:
para que voem; ut volent;
basta a sua essência aérea;
e assim, nenhum anjo sofreu
as leis reais do nosso peso; nem pôde,
por isso, conhecer-nos.

Carlos de Oliveira em Entre Duas Memórias

quarta-feira, 11 de abril de 2018

CASA


A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto,
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria
nos alicerces como numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.

Carlos de Oliveira em Sobre o Lado Esquerdo

Legenda: pintura de Tony D’Amico

sábado, 28 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Trabalho Poético
2º Volume

Carlos de Oliveira
Capa: Sebastião Rodrigues
Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa s/d

O Acender das luzes

Quem ordena estes sonhos
coordena, conduz
os tractores cuidadosos
do ocaso; êmbolos
com frio; quando lavram
o seu frágil fio de fogo
nas árvores, na memória.

E mais lentas ainda
as turbinas: turbilhão
que perturba vagarosamente
a ordem interior das coisas
que se deixam sonhar. Com
a polpa dos dedos
colhe-se a demora
para ver melhor. Nenhuma
colagem subliminar;
nem linhas de lume,
chispas, flechas.

Adormece talvez
quem ordena; se as lâmpadas
vagueiam e explodem
entre ramagens excessivas;
estes sonhos.

sábado, 10 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Micropaisagem

Carlos de Oliveira
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção de Poesia nº 1
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1968

assim
se cumpre
o eclipse
gradual
sobre o centímetro
quadrado que
os líquenes
cobrem
na memória,
assim
a luz e a neve
se ocultam
pouco a pouco, assim
se esquece

quinta-feira, 9 de março de 2017

FRUTO


Por um desvio semântico qualquer, que os filólogos ainda não estudaram, passámos a chamar manhã à infância das aves. De facto envelhecem quando a tarde cai e é por isso que ao anoitecer as árvores nos surgem tão carregadas de tempo.

Carlos de Oliveira em Sobre o Lado Esquerdo

terça-feira, 5 de abril de 2016

ABRIL


Outra vez Abril
Já lá vão 42 anos.
Parece que foi ontem.
E tanta coisa aconteceu.
Por este mês, vou mostrar algumas capas dos discos que, aqui pela casa, eram tocadas antes da sonhada madrugada.
25 de Abril sempre!

Lado 1

Dedicatória – Livre

Lado 2

Eles – Pedro o Soldado

Livre

Poema: Carlos de Oliveira
Música: Manuel Freire


Não há machado que corte
a raíz ao pensamento:
não há morte para o vento
não há morte.

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida,
sem razão

Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento,
porque é livre como o vento,
porque é livre.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Aprendiz de Feiticeiro

Carlos de Oliveira
Publicações Dom Quixote
Capa: Lima de Freitas
Fotografias: Augusto Cabrita
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 1971

Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguer e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
Mudando-me a mim?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

VERSOS PARA UMA CANÇÃO DE FERNANDO LOPES GRAÇA


Os anjos cantam? Não cantam.
Canto eu que me apetece:
Quando a voz dum homem canta
A voz do céu emudece.

Cantam as fontes? Talvez,
porque o meu canto as impele:
Quando a voz de um homem canta
a terra canta com ele.

Carlos de Oliveira em Poesias

sábado, 30 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Poesias

Carlos de Oliveira
Colecção Poetas de Hoje nº 3
Portugália Editora, Lisboa, Abril de 1962

Vilancete Castelhano de Gil Vicente Passado ao Portguês

Por mais que nos doa a vida
nunca se perca a esperança;
a falta de confiança
só da morte é conhecida.
Se a lágrimas for cumprida
a sorte, sentindo-a bem,
vereis que todo o mal vem
achar remédio na vida.
E pois que outro preço tem
depois do mal a bonança,
nunca se perca a esperança
enquanto a morte não vem.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

BOLOR


Augusto Abelaira foi buscar a um poema de Carlos de Oliveira o título do seu romance Bolor e utiliza o poema como epígrafe.

O poema, um lindíssimo poema, chama-se Bolor, faz parte de Cantata (1960) e está reunido em Poesias e também no  1º Volume de Trabalho Poético:

Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto,
os rostos a apagar-se
no frémito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor

Legenda: fotografia de Dorothea Lange

sexta-feira, 17 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Entre Duas Memórias

Carlos de Oliveira
Capa: Fernando Felgueiras
Cadernos de Poesia nº 21
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1971

Noite de Verão

I
De súbito, a lua japonesa
desenha na janela
as três colinas dum hai-kai;
e vê-se então
que a sua luz, o círculo
cortado ao meio
no horizonte de cimento,
basta para tornar o ar oxidado
quase cor de rosa;
assim se aprende,
ao anoitecer, como o verão
escreve cidades mais legíveis;
embora breves; sobre
alicerces que flutuam
em torno do leitor nocturno,
e talvez a imagem
do meio círculo que falta
à lua, no horizonte.

II
Tágides trazendo,
do alto mar à água doce,
a escama, o fósforo, da espuma;
e o sal saturado de vento
a explodir no rio,
nas suas rugas;
com a luz eléctrica baixando
às páginas fac-similadas
do pelicano para a esquerda:
círculo completo
que as centrais, as redes,
mantêm tenso e branco
como a lua; já reconstituída;
a desprender-se do horizonte;
tágides, por fim sobre cavalos
claros; nuas; inventando
um som diferente
aos decassílabos.

III
O electrocardiograma lido
como um horóscopo;
o sândalo; as colunas de ouro;
sem esquecer o lírio mosto
a abrir-se, a exalação
do cedro; ou antes:
o amor relido noutros corpos;
no gráfico tão simples,
onde a vertigem surge
com a lentidão quadriculada
dos erros, dos desvios: mais nitidamente
que um bólido fotografado
em Indianápolis; enfim,
no cântico dos cânticos,
há um corpo a corromper-se;
estático; só de se expor ao ar,
a agulha mede-lhe o declínio
a cada pulsação.
(excerto)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

SONETO


Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que não me cale:
Até que muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se confia a sua dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.


Carlos de Oliveira de Mãe Pobre em Trabalho Poético Vol. I,  Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa s/d

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

AS CASAS



A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto,
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.

Carlos de Oliveira em Sobre o Lado Esquerdo

quarta-feira, 29 de junho de 2011

POSTO DE GASOLINA


Poiso a mão vagarosa no capot dos carros como se afagasse a crina dum cavalo. Vêm mortos de sede. Julgo que se perderam no deserto e o seu destino é apenas terem pressa. Neste emprego, ouço o ruído da engrenagem, o suave movimento do mundo a acelerar-se pouco a pouco. Quem sou eu, no entanto, que balança tenho para pesar sem erro a minha vida e os sonhos de quem passa?”

Carlos de Oliveira em “Sobre o Lado Esquerdo”, Iniciativas Editoriais”, Janeiro 1968

terça-feira, 26 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


Contar os grãos de areia destas dunas é o meu ofício actual. Nunca julguei que fossem tão parecidos, na pequenez imponderável, na cintilação de sal e oiro que me desgasta os olhos. O inventor de jogos meu amigo veio encontrar-me quase cego. Entre a névoa radiosa da praia mal o conheci. Falou com a exactidão de sempre:
- O que lhe falta é um microscópio. Arranje-o depressa, transforme os grãos imperceptíveis em grandes massas orográficas, em astros, e instale-se num deles. Analise os vales, as montanhas, aproveite a energia desse fulgor de vidro esmigalhado para enviar à Terra dados científicos seguros. Escolha depois uma sombra confortável e espere que os astronautas o acordem.

Carlos de Oliveira em “Sobre o Lado Esquerdo”

domingo, 24 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável. No segundo caso, o homem que não dorme pensa: “o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração.

Carlos de Oliveira em “Sobre o Lado Esquerdo”

Legenda: Desenho de Pablo Picasso.